Os trezentos Poemas podem ser resumidos numa frase: ‘Pensar direito‘1.
Confúcio, in Analectos
A escrita chinesa conheceu um longo e moroso desenvolvimento, que terá atravessado quatro milénios, desde os primeiros caracteres de características zoomórficas, remetidos pela arqueologia contemporânea ao V milénio a.E.C., até à organização estatal e “definitiva”, que se processou nos quatrocentos anos que antecederam e precederam o início da era cristã.
Na China, tal como em outras civilizações, existiu desde tempos imemoriais uma tradição oral, que se transmitiu de geração em geração, composta de mitos, histórias, poemas e canções. O Livro das Odes surge como uma primeira recolha e selecção de canções. Mas para compreendermos o contexto em que se edita este livro temos de recuar até ao ano 551 a. C., no qual nasceu o sábio Kong Fuzi, mais tarde latinizado pelos ocidentais para Confúcio.
Reinava então a dinastia Zhou (1111-221 a.E.C.), com a qual a sociedade chinesa conheceu profundas modificações, a nível social e cultural. De facto, é neste período que se formam conceitos de governação e de concepção do mundo e do lugar do Homem, cujo alcance está longe de se ter esgotado nos nossos dias. E para isso muito terá contribuído o desempenho de Confúcio.
Quando derrotaram os Shang (1751-1112 a.E.C.) e se viram no controlo de vastas áreas territoriais e uma enorme população, os fundadores da dinastia Zhou compreenderam que havia a necessidade de estabelecer uma nova ordem e maneira de pensar que acompanhasse as mudanças operadas ao nível do aparelho de Estado e que se desejavam imprimir à própria sociedade. Assim justificavam o seu mandato.
Weng Si Zhan descreve deste modo o novo pensamento dos Zhou: “O destino do Homem não depende da existência de uma alma antes e depois da morte ou do capricho de uma força espiritual, mas da excelência das suas palavras e dos seus actos”.
Significativamente, o conceito-chave para compreender o controlo da existência humana passa a ser a virtude (de), isto é, a partir de agora cada sujeito não vive à sombra de um destino traçado e conjurado por seres espirituais, mas à luz das suas decisões se enveredar pela via da virtude. E, é claro, depreende-se nesta doutrina do “Mandato do Céu“ um conteúdo político flagrante: “Então, os Zhou sentenciaram que os Shang, apesar de terem recebido mandato para governar, tinham falhado porque não cumpriram os seus deveres. O seu mandato passou para os fundadores de Zhou por causa da sua virtude. O futuro da Casa de Zhou dependia da virtude dos seus governantes vindouros”.
O pensamento chinês afastava-se assim de um determinismo feiticista para entrar decisivamente no domínio do Homem e da sua capacidade de decidir a existência, resguardado das intenções dos espíritos. É precisamente esse o sentido que se vai encontrar na diferente atitude face aos ritos. Weng descreve a diferença citando precisamente uma passagem do Livro dos Ritos (Li Jing): “Os Shang honravam os espíritos, serviam-nos e colocavam-nos acima das cerimónias… Os Zhou honram as cerimónias e valorizam a atribuição de favores. Servem os espíritos e respeitam-nos, mas mantendo-os a uma certa distância”.
O pensamento dos primeiros Zhou prepara assim o terreno às doutrinas confucionistas que só viriam a surgir meio milénio mais tarde. Segundo conta Sima Qian, foi o próprio Confúcio quem fez uma selecção de trezentas e cinco canções, de entre mais de três mil, de acordo com um critério de “virtude moral”. E, ainda segundo o historiador, “durante a época de Confúcio a Casa de Zhou tinha decaído, os antigos ritos e músicas foram esquecidos, e muitas canções e documentos tinham desaparecido”. Terá o Sábio sentido a necessidade de recolher antigas tradições, documentos, poemas e ritos, antes de serem apagadas pelo desleixo habitual com que em épocas conturbadas os homens tratam a memória.
No entanto, as recolhas de Confúcio não deixaram de varrer o que foi por ele considerado menos interessante ou pouco conforme à suas ideias. A fiarmo-nos em Sima Qian, as canções seriam mais três mil e Confúcio rejeitou “as que eram repetitivas e reteve as que tinham valor moral”. Tal como fez com o Livro das Odes, Confúcio organizou outras compilações que ficaram conhecidas como obras canónicas, a saber, O Livro das Mutações (Yi Jing), a Memória dos Ritos (Li Ji), o Livro dos Documentos (Shu Jing). Estes livros, juntamente com os Anais da Primavera e Outono (Chun Qiu), constituem um pentateuco onde se encontra reunida a base da cultura clássica chinesa.
Aliás, não é pacífica a própria atribuição da edição do Livro das Odes a Confúcio. James Legge, que o verteu para inglês no século XIX, recusa-se a atribuir ao sábio a paternidade da obra. Baseia-se o missionário inglês no facto dessa referência só se encontrar num escrito elaborado quatro séculos depois da morte de Confúcio, precisamente no citado livro de Sima Qian. O padre Guerra refuta a opinião de Legge, no prefácio à sua tradução para português.
Existe um número confortável de autores que remete a compilação um pouco mais para trás no tempo, para os primeiros séculos de vida da dinastia Zhou. No entanto, o esforço de Confúcio para a sua divulgação foi de tal modo notável que acabou por lhe ser atribuída a edição.
E a História acabaria por provar como não fora em vão o trabalho de Confúcio. O Livro das Odes conseguiu resistir à Grande Queima de Livros que o imperador Qin Huangdi, o homem que conseguiu unificar a China, promoveu durante o seu reinado em 213 a. E.C.. Uma vez mais é Sima Qian quem relata uma interessante conversa no fim da qual o imperador sancionou a destruição de praticamente todos os livros existentes. A cena passa-se durante um recepção oferecida por Qin Huangdi a setenta letrados, no palácio de Xiang Yang. Um deles, de nome Zhou, tomou a palavra e louvou o imperador pelas suas conquistas, terminando com um elogio ao seu poder e virtude. O seu discurso agradou ao imperador mas logo outro se levanta e contrapõe vários argumentos, defendendo a atribuição de feudos a membros mais jovens da casa real ou a ministros meritórios. Na sequência da refutação desta tese, o primeiro-ministro Li Si avançou com a proposta de se queimarem os livros antigos. Sigamos o seu raciocínio:
“Agora estes letrados só aprendem do conhecimento antigo, desprezando o novo, e utilizam o seu saber para se oporem ao nosso comando e confundirem os cabeças-negras (assim era referido o povo durante a dinastia Qin). (…) Antigamente, quando o mundo, mergulhado no caos e na desordem, não podia ser unificado, os diferentes estados ergueram-se e usaram argumentos do passado para condenar o presente, usando uma retórica vazia para tapar e confundir as verdadeiras questões e empregando o seu conhecimento para se oporem ao que tinha sido Majestade conquistou todo o mundo, distinguiu entre o branco e o preto e estabeleceu padrões unificados. No entanto, estes letrados opinativos juntam-se para difamar as leis e julgam cada novo decreto de acordo com a sua própria escola de pensamento, opondo-se-lhe secretamente no seu coração enquanto o discutem abertamente as ruas. Gabam o soberano para conseguir fama, avançam com estranhos argumentos para ganharem distinções e incitam a multidão ao espalharem rumores. Se isto não for proibido, sofrerá o prestígio do soberano e facções surgirão entre os seus súbitos. Melhor é acabar de vez com isto!
“Humildemente proponho que todos os registos históricos, à excepção dos de Qin, sejam queimados. Se alguém que não for um letrado da corte se atrever a guardar canções antigas, registos históricos ou escritos das cem escolas, estes devem ser confiscados e queimados pelo governador da província ou pelo comandante do exército. Os que durante uma conversa se atreverem a citar uma canção ou registos antigos devem ser publicamente executados; os que usarem precedentes antigos para se oporem à nova ordem verão as sua famílias serem destruídas e do mesmo modo deverão ser tratados os oficiais que tenham conhecimento destes casos e não os denunciem.
“Se passados trinta dias da proclamação desta ordem os proprietários destes livros ainda não os tiverem destruído, as suas faces deverão ser tatuadas e condenados a trabalhos forçados na Grande Muralha. Os únicos livros que não precisam de ser destruídos são os que se referem à Medicina, Divinação e Agricultura”.
O imperador concordou com Li Si e as suas propostas foram aprovadas. O resultado foi uma das maiores destruições de livros que a História já conheceu, entre os quais o Livro das Odes. Contudo, o esforço desenvolvido por Confúcio deu os seus frutos porque as canções, bem como outros livros confucionistas, sobreviveram. Ao que se diz, terão sido escondidos no Templo de Confúcio, em Qufu, no interior da chamada parede de Lu. Mais tarde, com o fim da dinastia Qin, terão sido recuperados e constituiram a parte fundamental dos exames imperiais para o cargo de mandarim.
Compreende-se o zelo de Li Si e a sua sanha contra o antigo saber e o Livro das Odes muito especialmente. Vejamos, por exemplo, o que diz um prefácio escrito no século V a. E.C. por um discípulo de Confúcio conhecido pelo nome de Zi Xia: “Nada se compara ao Livro das Odes no erigir de padrões que distinguem o mal do bem, o Céu da Terra, e no apelo que faz a espíritos e deuses”.
Contudo, o Livro das Odes não se esgota nos conselhos morais que proporciona. O próprio Confúcio o apresentava como um exemplo de retórica, na medida em que o poeta deve também saber exprimir os seus pensamentos de forma elegante e convincente.
De um ponto de vista formal, o Livro das Odes é escrito em versos de quatro sílabas, a mais arcaica forma de versificação chinesa, na qual a rima se verifica na última sílaba de cada verso. Em termos literários esta recolha de poemas foi sempre considerada como exemplarmente perfeita, sendo numerosos os comentadores que, ao longo dos séculos, lhe têm acrescentado prefácios e tecido considerações explicativas. Alguns destes prefácios, muitas vezes de carácter puramente pedagógico e explicativo, encontram-se traduzidos em inglês. O padre Joaquim Guerra também traduziu dois destes prefácios, que considerou mais significativos.
Um dos aspectos que convém sublinhar é que a China, ao contrário de outras civilizações da Antiguidade, não inicia a sua literatura com uma epopeia, como acontece com a Grécia de Homero ou a Mesopotâmia com os feitos de Gilgamesh. Por outro lado, também não abundam textos que se refiram a heróis, divindades e ao fantástico. Este primeiro livro, a primeira obra de cunho realmente literário – já que o Livro das Mutações (Yi Jing) surge como um livro de adivinhação – é uma antologia de poemas, que não relatam grandes façanhas de antepassados, nem nos contam nenhum mito de criação, como os textos de Hesíodo. Pelo contrário, são expressões de sentimentos populares ou servem como elementos de cerimónias ritualizadas.
Estes poemas não pretendem revelar uma verdade ou divinizar um herói fundador. Fundamentalmente, contêm indicações referentes ao ordenamento social, de um ponto de vista moral e político. Já neste passado arcaico, o privilégio é dado a um ponto de vista colectivo, com o objectivo de explicar como devem ser reguladas as relações entre os homens. Não encontramos aqui traços psicologistas, dramas individuais ou uma moral que não seja extraída da vida em comum. O que nos transmitem diz respeito à ordem das coisas e das gentes, sem remeter para um plano divino ou exterior à própria sociedade, como acontece por exemplo na epopeia homérica.
Cada ode procura dar um bom ou um mau exemplo, de acordo com os costumes e a moral do tempo em que foi composta. Deste modo, não deixam de conter elementos críticos, na medida em que os seus propósitos certamente não correspondiam exactamente ao comportamento constatável dos detentores do poder. As odes, graças ao seu carácter poético, não se limitam a criticar o passado: surgem plenas de eficácia na avaliação do presente. Não se trata, contudo, de uma crítica directa a este ou aquele; pelo contrário, ela revela-se insidiosa, num detalhe ou num remate, sob o elogio ou a lamúria, podendo assim estender essa crítica a pessoas ou situações de todos os lugares e todos os tempos.
Enquanto colectânea de canções, o Livro das Odes surge-nos como um testamento precioso de uma das mais antigas literaturas do mundo e repositório primeiro de uma maneira de encarar o mundo, que ainda hoje estende a sua influência a muitos milhões de pessoas, apesar de todas as vicissitudes que teve de enfrentar ao longo da História.
Num ilhéu a meio do rio
um par de rolas chilreia,
e por tão bela donzela
jovem mancebo anseia.
Nas águas que vão e vêm
agriões vão despontando,
e por tão bela donzela
o jovem vai suspirando.
É tão forte o seu desejo,
que o sono não o visita,
sempre, sempre, a pensar nela
dum lado ao outro se agita.
Agriões por toda a parte
crescem fáceis de apanhar,
a pura e gentil donzela
quer harmonia no lar.
Agriões por toda a mesa,
tenros saem da panela,
tambores e sinos te acolhem
ó pura e gentil donzela!
___
- 1 – Referência de Confúcio ao livro que, segundo a tradição, ele próprio editou, o Livro das Odes, e que contém, na realidade, 305 poemas. É aqui citado, como súmula do próprio livro, um verso de uma dessas odes que fala poderosos cavalos de guerra criados para puxar carruagens e avançar a direito sem se desviarem do caminho desejado — tal como o pensamento e o comportamento devem avançar sem se desviarem dos seus fins virtuosos.
