Há livros que dão nas vistas por muitas razões, boas e más. É gratificante falar deste livro – Palavras cansadas da Gramática porque todas as razões que encontrei são boas razões para falar dele. Nesta breve apresentação referirei apenas 3 das que me levam a considerá-lo um livro único.
1. Um livro de vozes e presenças
Este livro convoca vários autores, além do autor dos poemas, que nele se tornam presenças, testemunhos de outros discursos além da poesia, portanto, cúmplices dela. Tem início com um prefácio de Fernando Pinto do Amaral, poeta, ensaísta, professor e intelectual português, conclui-se com um ensaio académico de Egídia Souto, uma entrevista de Yao Feng a Raquel Abi-Sâmara, tradutora, ensaísta e professora da Universidade de Macau e um posfácio, espécie de testemunho, de Carlos Morais José, jornalista, ensaísta e poeta. No meio, entre as páginas 13 e 133, os novos poemas de Yao Feng em língua portuguesa que no meio convocam mais outra voz, a de Fernanda Dias, poeta e tradutora bem conhecida, e as fotos interpelando o leitor e o poema. Nos testemunhos da capa, ainda a presença de Nuno Júdice.
A descrição minuciosa do livro, enquanto arquitectura e resultado de uma construção, não é aqui tique de discurso académico viciado em detalhe, é apresentação do que me parece ser o poema na sua dimensão maior, a vocação da presença, a reunião do diverso, a convergência da voz, o apelo ao múltiplo. Este livro não é tanto reconhecimento como cumplicidade, testemunho da maneira diversa do fazer, em literatura. A poesia é a ‘paisagem do ser’ (expressão de Egídia Souto) de que espontaneamente brota o dizer de Yao Feng, “um vento que sopra do leste (…) surpreendentemente próximo de uma construção estética da vida” como prefere dizer Carlos M. José. Na voz exacta, rigorosamente plástica e surpreendentemente paradoxal de Yao Feng, cito :
À terra dou o que pertence à terra
Abrindo um buraco no jardim (121);
O livro de poemas é, portanto, apresentado como o evento que a poesia é, de raiz, pois nela cruzam-se, evocam-se, celebram-se as vozes cerimoniais nos rituais maiores de que a literatura vive: poeta, hermeneuta, crítico, celebrante.
O livro de Yao Feng encena um Banquete (no sentido antigo da cerimónia iniciática), revive e amplia o convívio, ritualiza a palavra, celebra o encontro. A poesia é isso mesmo, encontro. A festa do encontro.
2. Um livro em português – uma gramática pessoal
Este livro é em português embora o poeta seja chinês porque ‘a poesia não tem fronteiras’ (Fernando Pinto do Amaral), e também porque há ‘cumplicidade na tribo de poetas’ (diz Yao Feng, nos agradecimentos)- acrescento eu: porque a poesia é neste caso ainda uma atitude, uma forma de fazer ver, de apontar, de invocar outra voz. Uma forma de ser e estar também (‘cansados da gramática’ é desde logo reflexão e reflexo do ensino da língua pelo poeta e tradutor / professor, a diferença entre ser e estar, por exemplo, tão diferentes e tão coesos, em português), uma forma de dizer semelhante a fazer.
A gramática desta poesia em português é pessoal e dupla:
1) vive da concentração verbal e do tom elegíaco, conduzindo ao dito inesperado que subitamente abre um alçapão à frente dos nossos pés e convida à vertigem, ao arrepio. Na produção desse efeito o verso é exacto, cortante e iluminan- te, porque se despe de todo o adorno e desnuda totalmente a ideia central, uma ferida exposta.
já não choro por ninguém,
por nada choro quando me lavo
interiormente (54)
outro exemplo:
ora, deixa de me amar assim
deixa de meter o mar na jaula (49)
2) noutros casos a gramática é narrativa, tecida em torno de ícones transculturais que como propiciatórias tempestades aterram em culturas-outras: Marilyn na China em 1974, Van Gogh no museu de Amsterdam face ao poeta chinês, ou o apolíneo David em Flo- rença, Pushkin e a amante, os Champs Elysées e Tiananmen, tessituras de fábulas antigas com lobos e ovelhas. Nestes poemas, o efeito colhe-se do final inesperado, ‘sintacticamente’ destoante e deslocado.
Nunca gostei de café starbucks
mas neste momento,
a escolha do Museu do Palácio Imperial
é a minha escolha. (…)
Neste Palácio, na Porta Meridiana
onde um infinito número de cabeças foram
[ceifadas
quero saborear o meu café tranquilamente
num trago noto que esqueci o açúcar.
3) O acto de Ver é em Yao Feng muito próximo do dizer, a sua poesia é exacta e plástica, transmite sensações nítidas, pequenos choques e estremecimentos, uma poesia de efeito literalmente erótico no apelo aos sentidos e às reacções do corpo; por isso a fotografia é uma aliada da palavra.
Há neste universo uma clara apolo- gia da transdiscursividade que em imagens enuncia os teoremas da sua poética verbal. Numa foto, alguém em frente de nós fotografa um grupo de costas, sentado num banco de jardim, prédios de Macau cosmopolita, esfumados, ao fundo(104). Ao lado o poema divaga:
Volta a luz à lâmpada
e de súbito está de novo escuro
quem prende lá fora a falena-da-noite
e a ensina a aceitar a obscuridade? (105)
Essa pode ser a imagem/ a narrativa – do leitor diante do livro, deste livro. Tentando ler, sente-se captado pela câ- mara escura do livro, pelo seu atento olho aberto, sonâmbulo, logo depois revelado e exposto. Este é um livro que nos lê à medida que nos aproximamos dele e o lemos. Por isso é nosso.
3. Um belo livro
Do ponto de vista gráfico é um livro raro e único. A capa chama as mãos, a sombra que na parte superior se insinua tem um vago recorte da sombra de dedos, a cor imita uma tela rugosa, fresca de tinta; a forma é inesperadamente quadrada, parece buscar o bolso, o saco, a mochila. Não se acolhe à estante.
A mancha gráfica sobre papel de cor antiga desdobra-se entre o verso e a fotografia; nas fotos, frequentemente, alguém é surpreendido a olhar, duplicando o nosso gesto de ler, o nosso olhar, talvez ‘em busca da luz’, como titula um poema. Num livro de poemas a beleza do livro é igualmente um gesto de poesia, chamemos-lhe uma última rima.
PALAVRAS CANSADAS DA GRAMÁTICA – POESIA E FOTOGRAFIA, de Yao Feng
