{"id":1010,"date":"2025-10-20T00:47:56","date_gmt":"2025-10-19T16:47:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1010"},"modified":"2025-10-20T00:47:56","modified_gmt":"2025-10-19T16:47:56","slug":"diario-de-um-louco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/diario-de-um-louco\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um Louco"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>Lu Xun<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">Di\u00e1rio de um Louco<i> \u00e9 a primeira fic\u00e7\u00e3o escrita em chin\u00eas moderno por Lu Xun ap\u00f3s o seu longo sil\u00eancio liter\u00e1rio, que naturalmente incorporou a sua raiva e ansiedade, bem como a sua esperan\u00e7a. Este conto complexo \u00e9 tamb\u00e9m um exemplo da sua profunda compreens\u00e3o da hist\u00f3ria e da sociedade chinesas, pelo que pode ser lido como o seu manifesto anti-feudal e marca o in\u00edcio do seu percurso como o maior escritor moderno da China.<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: center;\">Tradu\u00e7\u00e3o e notas <b>Sara F. Costa<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Relato agora a hist\u00f3ria de dois irm\u00e3os, cujos nomes prefiro n\u00e3o mencionar. Foram, outrora, meus colegas de escola mas o tempo transformou-os em meros ecos na minha mem\u00f3ria. Recentemente, soube que um deles estava gravemente doente. Um dia destes, de visita \u00e0 terra, fiz um pequeno desvio para o visitar. No entanto, em vez do enfermo, encontrei apenas o seu irm\u00e3o, que, com um sorriso de al\u00edvio, partilhou a boa nova da recupera\u00e7\u00e3o do doente. \u201cAgrade\u00e7o-te muito por te teres dado ao trabalho de nos vires visitar; o meu irm\u00e3o est\u00e1 recuperado e \u00e9 agora supranumer\u00e1rio, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o governativa\u201d. Entre risadas, com um gesto r\u00e1pido, sacou de um caderno que logo segurou na minha dire\u00e7\u00e3o. Tratava-se de um di\u00e1rio que o irm\u00e3o mais novo escrevera durante o per\u00edodo em que esteve doente. \u201cLeia-o\u201d, disse-me, \u201co meu irm\u00e3o certamente n\u00e3o se importaria de o partilhar com um velho amigo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Nas p\u00e1ginas daqueles di\u00e1rios, desenrolava-se a narrativa de uma batalha interna contra sombras invis\u00edveis, uma \u2018mania da persegui\u00e7\u00e3o\u2019 que entrela\u00e7ava realidade e del\u00edrio. As palavras, embora ca\u00f3ticas e repletas de absurdo, tra\u00e7avam um retrato v\u00edvido de uma mente atormentada. Os textos n\u00e3o tinham datas mas era evidente pela varia\u00e7\u00e3o na tinta e na caligrafia que tinham sido escritos em momentos diferentes. Naquela confus\u00e3o de palavras, havia trechos coerentes, que agora transcrevo para an\u00e1lise. Os nomes dos envolvidos, todos alde\u00f5es de uma vida singela, foram cuidadosamente omitidos. Quanto ao t\u00edtulo, que coroa estas mem\u00f3rias, foi escolhido pelo pr\u00f3prio autor e assim o deixei, intacto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>DI\u00c1RIO DE UM LOUCO<\/b><b><\/b><\/h3>\n<h3 class=\"p1\"><b>I<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 tanto tempo que n\u00e3o via a lua! Ontem \u00e0 noite, ao banhar-me no luar, senti um bem-estar incompar\u00e1vel! J\u00e1 n\u00e3o fazia isto h\u00e1 trinta anos! Senti o meu esp\u00edrito rejuvenescer! Compreendi, naquele momento, que tinha desperdi\u00e7ado trinta anos da minha vida. No entanto, senti tamb\u00e9m que algo n\u00e3o estava a bater certo. O c\u00e3o dos Zhao estava a olhar para mim de uma maneira estranha.<\/p>\n<p class=\"p3\">Sim, acho que tenho motivos para me preocupar.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3 class=\"p1\"><b>II<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Hoje n\u00e3o h\u00e1 luar e isso n\u00e3o \u00e9 bom sinal. Sa\u00ed cedo de manh\u00e3, com cautela. O olhar do Sr. Zhao pareceu-me estranho: parecia ter medo de mim, parecia querer magoar-me. \u00c0 medida que passava, reparei em, pelo menos, mais sete ou oito pessoas a sussurrarem e a olharem para mim de uma forma invulgar. Toda a gente que encontrei ao longo do caminho agia da mesma maneira. Havia um homem que me sorria com particular mal\u00edcia. Senti-me intimidado, mas n\u00e3o deixei que essa gente levasse a melhor, pelo que continuei o meu caminho. Mais \u00e0 frente, um grupo de crian\u00e7as agia como se quisesse esconder algo, cochichavam entre si. Tamb\u00e9m elas, as crian\u00e7as, me olhavam com o mesmo tipo de \u00f3dio que vira nos olhos do Sr. Zhao! N\u00e3o fazia ideia de que as crian\u00e7as pudessem ter comportamentos t\u00e3o hostis! Perguntei-lhes qual era o problema, mas puseram-se logo a andar. A certa altura, dei por mim a pensar: mas ser\u00e1 tudo na minha cabe\u00e7a? O que \u00e9 que o Sr. Zhao e os outros t\u00eam contra mim? \u00c9 verdade que h\u00e1 vinte anos, quando era mi\u00fado, pisei o velho livto de contas do Sr. Gu Jiu e ele ficou furioso! Contudo, o Sr. Zhao n\u00e3o conhecia o Sr. Gu Jiu. S\u00f3 se algu\u00e9m lhe contou alguma coisa. Teriam combinado todos olhar-me com desd\u00e9m naquele dia? Mas as crian\u00e7as, como poderiam saber desse epis\u00f3dio se ainda nem eram nascidas quando isso aconteceu? Como poderiam olhar para mim daquela forma? Que irritante! Os pais devem ter-lhes dito alguma coisa!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>III<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o consigo dormir. Preciso de analisar o que aconteceu. Aqueles indiv\u00edduos, v\u00edtimas de infort\u00fanios diversos \u2014 uns castigados pelo magistrado, outros humilhados com bofetadas pelos nobres da terra, alguns despojados de suas esposas pelos oficiais de justi\u00e7a, ou com pais conduzidos ao suic\u00eddio pela press\u00e3o impiedosa dos credores \u2014 nunca exibiram um ar t\u00e3o aterrado e ao mesmo tempo t\u00e3o feroz como o que demonstraram ontem.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">De regresso a casa presenciara um espet\u00e1culo deveras extraordin\u00e1rio: uma mulher, em plena via p\u00fablica, a repreender veementemente o seu filho com palmadas. \u2018Pequeno diabo!\u2019, exclamava ela com \u00edmpeto, \u2018Estou t\u00e3o furiosa que me apetecia morder-te!\u2019 Apesar de estar a falar com o filho, olhava fixamente para mim. N\u00e3o consegui esconder a minha inquieta\u00e7\u00e3o. Foi ent\u00e3o que toda a gente \u00e0 minha volta, de semblantes p\u00e1lidos e dentes invulgarmente salientes, irromperam \u00e0 gargalhada. O Velho Chen, percebendo o meu desconforto, apressou-se a levar-me para casa. Qual n\u00e3o foi o meu espanto quando reparo que toda a gente, na minha pr\u00f3pria casa, finge n\u00e3o me conhecer? Tinham partilhavam o mesmo olhar tanto os de dentro, como os de fora. Assim que entrei, trancaram-me logo no quarto como se estivessem a enjaular uma galinha ou um pato. O que raio est\u00e1 a acontecer?<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 dias, um arrendat\u00e1rio da Aldeia do Lobo veio c\u00e1 a casa queixar-se sobre o fracasso das colheitas este ano e pedir para que o meu irm\u00e3o lhe baixasse a renda. Nisto, contou ao meu irm\u00e3o mais velho que uma figura infame da sua aldeia tinha sido espancada at\u00e9 \u00e0 morte; dizia ele que algumas pessoas haviam retirado o cora\u00e7\u00e3o e o f\u00edgado do homem, o haviam fritado em \u00f3leo e comido. Explicou que assim cozinhado, todos teriam mais facilidade em mastigar a carne humana. Quando os interrompi, tanto o arrendat\u00e1rio como o meu irm\u00e3o pararam e olharam-me fixamente. Que ing\u00e9nuo sou! S\u00f3 hoje percebi que o olhar deles era exatamente igual ao das pessoas l\u00e1 fora.<\/p>\n<p class=\"p3\">S\u00f3 de pensar nisso estreme\u00e7o da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p class=\"p3\">Se eles comem seres humanos, podem perfeitamente comer-me a seguir.<\/p>\n<p class=\"p3\">Agora, tudo fazia sentido. Tanto aquela mulher a gritar \u201capetece-me morder-te\u201d, como aquelas gargalhadas venenosas daqueles fulanos que tinham dentes como adagas. Obviamente que utilizavam esses dentes horr\u00edveis para comer pessoas.<\/p>\n<p class=\"p3\">Eu n\u00e3o sou m\u00e1 pessoa, mas desde que calquei acidentalmente os registos contabil\u00edsticos do Sr. Gu, a minha vida nunca mais foi a mesma. Essa gente mant\u00e9m segredos e, quando se irrita, dispara blasf\u00e9mias contra a primeira pessoa que virem pela frente.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Ponho-me a pensar nas aulas de reda\u00e7\u00e3o que tive no liceu, o meu professor dizia sempre: <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u201c\u00c9 sempre poss\u00edvel meter abaixo um homem bom. J\u00e1 um homem mau tem sempre quem o desculpe e justifique, fazendo toda a gente acreditar que ele n\u00e3o \u00e9 mau, ele \u00e9 s\u00f3 \u2018diferente\u2019\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Seria poss\u00edvel decifrar os pensamentos ocultos daquelas pessoas m\u00e1s que chegavam ao ponto de comer carne humana?<\/p>\n<p class=\"p3\">Nervoso, pus-me a investigar tudo o que conseguia. Os cadernos do liceu, ao meu lado, pediam-me que os lesse. Sem poder sair do quarto, aquela era a \u00fanica forma de me preparar para o que ali vinha. Eu j\u00e1 tinha ouvido falar em canibalismo, mas pouco ou nada sabia sobre o assunto. Li aqueles cadernos de in\u00edcio ao fim. Deveria haver uma parte qualquer que falasse sobre este fen\u00f3meno. O problema era que n\u00e3o conseguia compreender a minha pr\u00f3pria escrita, como se algu\u00e9m tivesse rescrito os meus cadernos de liceu com a sua pr\u00f3pria letra. Ao longo das p\u00e1ginas, entre gatafunhos, encontrava frequentemente a express\u00e3o \u201cVirtude Confuciana\u201d. Passei a noite a ler e a reler o que conseguia at\u00e9 que, a certa altura, tudo se tornou evidente. Havia uma mensagem nas entrelinhas daquelas p\u00e1ginas. Essa mensagem era constitu\u00edda por apenas duas palavras: \u201ccomer pessoas\u201d. Era \u00f3bvio que aquela gente comia pessoas e eu estava na ementa.<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>IV<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Na manh\u00e3 seguinte, mantive-me muito quieto enquanto o Velho Chen me trazia o pequeno-almo\u00e7o &#8211; um prato de verduras com peixe. Os olhos do peixe eram muito esbulhados e aquela boca aberta com dentes temerosos lembrava aqueles que por a\u00ed andavam a comer pessoas. Levei um peda\u00e7o de comida \u00e0 boca, comi um pouco. Mas no momento em que sinto aquela carne de peixe escorregadia dentro da boca, j\u00e1 n\u00e3o sei se era de carne de peixe ou carne de pessoa. Vomitei tudo, o pequeno-almo\u00e7o, as tripas, o estomago e tudo o que mais havia dentro de mim. Disse ao Velho Chen: \u201cDiz ao meu irm\u00e3o mais velho que n\u00e3o me estou a sentir bem, quero dar um passeio pelo jardim!\u201d O Velho Chen n\u00e3o quis responder e foi-se embora. Pus-me a estudar, a pensar como \u00e9 que me iriam manipular, sabendo que n\u00e3o me deixariam descansado. Preparava-me para o pior, iria enfrent\u00e1-los! O meu irm\u00e3o entrou na sala na companhia de um homem de cabelo grisalho. Tamb\u00e9m os seus olhos tinham um brilho assassino. Com medo que eu desse por ela, baixou a cabe\u00e7a e olhou para o ch\u00e3o, em jeito de disfarce.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cPareces estar t\u00e3o bem hoje!\u201d &#8211; disse o meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cSim.\u201d &#8211; respondi.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cTrouxe o Sr. Ho para te examinar, ver o que se passa contigo.\u201d &#8211; explicou.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cEst\u00e1 bem.\u201d &#8211; respondi.<\/p>\n<p class=\"p3\">Sabia perfeitamente que aquele homem era um carrasco disfar\u00e7ado! Sentir o meu pulso era apenas um pretexto para avaliar o qu\u00e3o gordo eu estava, para perceber se a minha carne era boa. Ainda assim, n\u00e3o tive medo. N\u00e3o, n\u00e3o como seres humanos, mas sou corajoso, mais corajoso que eles. Estendi-lhe os meus punhos para ver o que ele faria. O velho sentou-se, fechou os olhos, andou \u00e0s apalpadelas durante algum tempo, permaneceu im\u00f3vel por um momento; depois abriu os olhos matreiros e disse: \u201cN\u00e3o te deixes levar pela imagina\u00e7\u00e3o. Repousa por uns dias e logo ficar\u00e1s melhor.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o penses nisso? Repousa? Est\u00e3o mas \u00e9 \u00e0 espera de que eu engorde. Como \u00e9 que era suposto eu \u2018melhorar\u2019? Esta gente n\u00e3o tinha coragem de ser frontal, rid\u00edculos! Ri-me, e naquele riso havia coragem e justi\u00e7a. O velho e o meu irm\u00e3o perderam a cor. Perceberam do que eu era capaz e sentiram-se intimidados. Aproveitaram a desculpa para n\u00e3o me fazer nada, para me fazer esperar um pouco mais. Quanto mais coragem eu mostrava, mais vontade eles tinham de me comer.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>O velho saiu porta fora e ouvi-o murmurar, dirigindo-se ao meu irm\u00e3o: \u201c\u00c9 melhor com\u00ea-lo j\u00e1\u201d. O meu irm\u00e3o acenou com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p3\">Tamb\u00e9m ele estava envolvido nisto tudo! Eu era, afinal, o irm\u00e3o de um canibal que oferecia o corpo do seu pr\u00f3prio irm\u00e3o para ser devorado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>V<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Tenho estado a pensar que, mesmo que aquele homem n\u00e3o fosse um carrasco disfar\u00e7ado, mesmo que ele fosse um m\u00e9dico, ele era na mesma um canibal.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>No Comp\u00eandio de Mat\u00e9rias M\u00e9dicas escrito por Li Shizhen pode ler-se com toda a clareza que a carne humana pode ser consumida. Esse homem, como m\u00e9dico, sabia-o perfeitamente. Tudo come\u00e7ava a fazer sentido. Recordei-me que o meu irm\u00e3o mais velho me disse muitas vezes que havia quem trocasse os filhos por alimentos e, ocasionalmente, era capaz de referir-se a pessoas de quem n\u00e3o gostava desejando que morressem e que a seguir fossem \u201cdevoradas\u201d. Eu era demasiado novo e ficava assustado com este praguejar do meu irm\u00e3o. Quando aquele arrendat\u00e1rio nos veio falar do homem a quem tinham comido o cora\u00e7\u00e3o e o f\u00edgado, ele n\u00e3o se surpreendeu minimamente. O meu irm\u00e3o \u00e9 cruel! Se era capaz de trocar crian\u00e7as por comida, j\u00e1 agora podia tamb\u00e9m trocar qualquer pessoa por comida. Eu costumava dar-lhe ouvidos, mas compreendo agora que o meu irm\u00e3o falava com os l\u00e1bios sujos de sangue.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>VI<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Est\u00e1 escuro. N\u00e3o sei se \u00e9 dia ou de noite. O c\u00e3o do Sr. Zhao voltou a ladrar.<\/p>\n<p class=\"p3\">A ferocidade de um le\u00e3o, a timidez de um coelho, a esperteza de uma raposa\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>VII<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Eu sei o que pretendem. N\u00e3o est\u00e3o dispostos a matar diretamente, nem ousariam, com medo das consequ\u00eancias. Em vez disso, uniram-se e puseram armadilhas por todo o lado, for\u00e7ando-me ao suic\u00eddio. O comportamento das pessoas na rua h\u00e1 alguns dias e a atitude do meu irm\u00e3o mais velho tornam isso bastante evidente. O que eles queriam era que um homem sacasse do pr\u00f3prio cinto e se enforcasse numa viga; assim, podiam satisfazer os seus desejos e ningu\u00e9m os podia incriminar. \u00c9 isso que lhes d\u00e1 prazer! E mesmo que um homem morra de medo ou de ansiedade e isso o deixe mais magro, ainda assim acenam em aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">Eles s\u00f3 comem carne morta! Recordo-me de ter lido sobre uma criatura horrenda, com um olhar sinistro, conhecida como \u201chiena\u201d, que frequentemente consumia carne morta.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Era uma besta capaz de triturar at\u00e9 os maiores ossos, reduzindo-os a fragmentos antes de engoli-los. D\u00e1 arrepios s\u00f3 de pensar. As hienas s\u00e3o parentes dos lobos, que pertencem \u00e0 fam\u00edlia canina. Recentemente, o c\u00e3o da fam\u00edlia Zhao lan\u00e7ou-me olhares suspeitos, indicando claramente que tamb\u00e9m faz parte deste enredo m\u00f3rbido, como um c\u00famplice. O olhar que aquele velho quis esconder foi muito \u00f3bvio. O meu maior desgosto \u00e9 saber que o meu irm\u00e3o est\u00e1 envolvido nisto. Ele tamb\u00e9m \u00e9 um ser humano!<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>N\u00e3o ter\u00e1 ele alguma miseric\u00f3rdia? Ser\u00e1 que est\u00e1 t\u00e3o habituado \u00e0quilo que j\u00e1 nem se questiona? Ou cometer\u00e1 este crime tendo consci\u00eancia de tudo? Se quero travar os canibais, come\u00e7arei pelo que me est\u00e1 mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>VIII<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Na realidade, acho que eles j\u00e1 fazem isto h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Subitamente, havia um rapaz no meu quarto. N\u00e3o tinha dado por ele. Parecia ter pouco mais de vinte anos. N\u00e3o conseguia ver-lhe bem as fei\u00e7\u00f5es, mas lembro-me que sorria de orelha a orelha. Sorria um sorriso que n\u00e3o era aut\u00eantico. Perguntei-lhe: \u201cAchas correto comer pessoas?\u201d, respondeu sem tirar da cara aquele sorriso est\u00fapido: \u201cQuando n\u00e3o h\u00e1 fome, porque haveria algu\u00e9m de comer outro homem?\u201d Percebi prontamente que ele fazia parte do grupo. \u201cO que te leva a perguntar tal coisa? Gostas mesmo de brincar. Est\u00e1 um excelente dia hoje!\u201d, mas eu insisti \u201cE achas isso bem?\u201d Incomodado, respondeu \u201cN\u00e3o\u2026\u201d \u201cN\u00e3o? Ent\u00e3o porque \u00e9 que o fazes na mesma?\u201d; \u201cDo que \u00e9 que est\u00e1s a falar?\u201d; \u201cDo que \u00e9 que estou a falar? Sei muito bem do que \u00e9 que estou a falar. H\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o muito simples para o caso do homem comido na Aldeia do Lobo, essa explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 escrita por todo o lado a letras grossas vermelhas!\u201d A express\u00e3o do rapaz alterou-se. \u201cTalvez assim seja\u2026\u201d respondeu, olhando para mim fixamente \u201cSempre foi assim\u2026\u201d. \u201cE est\u00e1 certo?\u201d \u201cRecuso-me a falar disto contigo. Ali\u00e1s, n\u00e3o devias falar sobre isso com ningu\u00e9m.\u201d Quando olhei novamente, o rapaz j\u00e1 se tinha ido embora. O suor que me encharcava o corpo n\u00e3o me toldava a lucidez. Ele era bem mais jovem do que o meu irm\u00e3o mais velho, mas, mesmo assim, estava envolvido. Deve ter sido ensinado pelos pais. Receio que j\u00e1 o tenha at\u00e9 ensinado ao filho; \u00e9 por isso que as crian\u00e7as me olham com tanto \u00f3dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>IX<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Todos se querem comer uns aos outos enquanto se espiam mutuamente, para n\u00e3o serem eles a comida.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Se pud\u00e9ssemos acabar com estas ideias, que bom seria! Trabalhar, andar, comer, dormir, tudo sem preocupa\u00e7\u00f5es! Bastava ultrapassar um \u00fanico obst\u00e1culo. Mas sei que formaram um grupo: pais e filhos, irm\u00e3os, c\u00f4njuges, amigos, mestres e disc\u00edpulos, inimigos, at\u00e9 desconhecidos, convencem-se reciprocamente, acorrentam-se uns aos outros e impedem que algu\u00e9m se decida a atravessar esse obst\u00e1culo insignificante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>X<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Hoje de manh\u00e3, bem cedo, fui procurar o meu irm\u00e3o; ele estava a olhar para o c\u00e9u \u00e0 porta da sala. Coloquei-me \u00e0s suas costas, mesmo no meio da porta, e disse-lhe num tom extraordinariamente calmo e am\u00e1vel: \u201cIrm\u00e3o tenho uma coisa para te dizer.\u201d \u201cDiz!\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Ele virou a cabe\u00e7a muito depressa e consentiu com um gesto. Eu disse-lhe: \u201cDisponho apenas de algumas palavras, contudo, n\u00e3o as posso dizer, s\u00e3o-me proibidas de pronunciar. Irm\u00e3o, remontando aos alvores da humanidade e \u00e0s tribos primitiva podemos observar que a pr\u00e1tica de canibalismo era comum e banal. Com o passar do tempo, fomos evoluindo intelectualmente. Muitos desses povos abandonaram tal h\u00e1bito, viraram-se para outros lados, reconheceram-se humanistas. Outros, contudo, persistiram nessa pr\u00e1tica degradante. Uma pr\u00e1tica praticada por vermes, peixes, aves, primatas. Essa pr\u00e1tica, infelizmente, ainda continuou a existir entre humanos durante muito tempo. Como v\u00eas, existem aqueles que rejeitam a bondade, mantendo-se como vermes at\u00e9 aos dias de hoje. A vergonha de um canibal \u00e9 incomensuravelmente maior do que a do homem que rejeita tal pr\u00e1tica. Suspeito que seja infinitamente mais desprez\u00edvel do que o mais envergonhado dos macacos perante um verme.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Yi Ya<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>cozinhou o seu pr\u00f3prio filho, dando-o a comer a Jie e Zhou; esta \u00e9 uma hist\u00f3ria cl\u00e1ssica, por todos conhecida. Todos sabemos que, desde que Pangu separou o c\u00e9u e a terra, os homens se comem uns outros; at\u00e9 ao tempo do filho de Yi Ya foi assim, e depois tamb\u00e9m at\u00e9 ao tempo de Si\u2019 Si-Lin e desde Si\u2019 Si-Lin at\u00e9 ao homem na aldeia dos Lobos. H\u00e1 hoje homens que continuam a comer os seus semelhantes. Lembras-te daqueles criminosos que foram decapitados no ano passado, lembras-te daquele homem tuberculoso que se apressou a beber o sangue ainda quente dos executados?. Eu sei, irm\u00e3o, eles querem comer-me e, claro, tu sozinho n\u00e3o podes fazer nada; no entanto, que necessidade tens de te juntares ao grupo deles? Os devoradores de homens s\u00e3o capazes de tudo; comem-me a mim, comem-te a ti e, dentro do grupo, comem-se uns aos outros. E pod\u00edamos mudar isto! Bastava um \u00fanico movimento, uma mudan\u00e7a que duraria apenas um instante, para que a paz reinasse novamente entre os homens! Mesmo que tenha sempre sido assim, podemos hoje romper com essa pr\u00e1tica e tornarmo-nos homens melhores, temos de gritar, irm\u00e3o, tenho a certeza de que \u00e9s capaz de fazer o que est\u00e1 certo. Tu sabes ao que me refiro, tu ouviste o nosso inquilino quando c\u00e1 veio pedir para baixar a renda.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Inicialmente, o meu irm\u00e3o limitou-se a um sorriso frio, por\u00e9m, gradualmente, os seus olhos assumiram uma express\u00e3o selvagem; e, ao tomar consci\u00eancia das coisas, ele empalideceu.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Diante da porta da frente, aglomerava-se uma multid\u00e3o. Entre eles estava Chao, o rico, e seu c\u00e3o. Estendiam os pesco\u00e7os, ansiosos por vislumbrar o espet\u00e1culo. Alguns rostos estavam encobertos, tornando-se irreconhec\u00edveis; outros, familiares, exibiam-se vamp\u00edricos, com sorrisos tortos. Eu sabia que eles eram o grupo canibal. Contudo, estava ciente da sua heterogeneidade: uns acreditavam na necessidade de consumir carne humana por tradi\u00e7\u00e3o, enquanto outros, conscientes da imoralidade, desejavam persistir neste ato, temendo simultaneamente ser delatados. Assim, quando me ouviram, reagiram com f\u00faria, embora houvesse apenas um sorriso gelado nos seus l\u00e1bios crispados.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Foi a\u00ed que o meu irm\u00e3o ficou furioso e gritou: \u201cFora, todos voc\u00eas! Porque \u00e9 que querem ver um louco?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Nesse momento, compreendi plenamente os seus motivos. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o iam parar com a barb\u00e1rie, como j\u00e1 tinham tudo preparado para me acusarem de loucura. A morte de um louco n\u00e3o tem a m\u00ednima import\u00e2ncia. Assim, quando me comerem amanh\u00e3, para al\u00e9m de n\u00e3o ter acontecido nada aqui, at\u00e9 haver\u00e1 pessoas que lhes ficar\u00e3o gratas. Quando o arrendat\u00e1rio disse que tinham comido um homem infame, ele estava a dizer que haviam comido um homem que sabia demasiado.<\/p>\n<p class=\"p3\">O Velho Chen tentou parar-me, mas a mim ningu\u00e9m me cala! Disse-lhes, por entre gritos:<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>\u201cTransformem o \u00edntimo do vosso ser! Lembrem-se, os canibais n\u00e3o cabem neste mundo. Se persistirem, ser\u00e3o engolidos. Podem ser muitos, mas n\u00e3o ser\u00e3o suficientes para derrotar o verdadeiro humano. \u00c9 ele quem vos vai aniquilar, tal como um ca\u00e7ador aniquila um lobo ou como se calca um verme!\u201d. O Velho Chen conseguiu, finalmente, dispersar a multid\u00e3o. N\u00e3o havia rasto do meu irm\u00e3o mais velho.<\/p>\n<p class=\"p3\">A moradia estava escura e l\u00fagubre. As vigas e os citrinos oscilavam acima de mim, amontoavam-se sobre mim, esmagavam-me com o seu peso. N\u00e3o conseguia mexer-me, quase desejava a morte. Mas eu encontrei as for\u00e7as em mim, sabia que o aquele peso n\u00e3o era real e resisti com tudo o que tinha. Mas estou a divagar.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cMudem imediatamente, \u00e9 o que vos digo! N\u00e3o haver\u00e1 espa\u00e7o para o canibalismo no futuro!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>XI<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">O sol deixou de despontar no horizonte. A porta permanece selada. Alimento-me duas vezes ao dia. Penso no meu irm\u00e3o enquanto como. Recordo-o, reconhecendo-o como o \u00fanico culpado pela morte da minha irm\u00e3 mais nova. Ela tinha apenas cinco anos. Ainda me lembro da sua figura encantadora e delicada. A minha m\u00e3e, inconsol\u00e1vel, chorava sem cessar, e foi ele quem a persuadiu a cessar as l\u00e1grimas; talvez porque fosse ele quem a devorara, e o lamento materno lhe causasse vergonha. Isto se tivesse, pelo menos, a capacidade de sentir vergonha. Tamb\u00e9m n\u00e3o posso afirmar com toda a certeza que a minha m\u00e3e nunca chegara a saber que a minha irm\u00e3 tinha sido comida pelo meu irm\u00e3o. NA realidade, suspeito que ela tivesse conhecimento disso. As suas l\u00e1grimas frequentes, embora n\u00e3o explicitamente reveladoras, traduziam uma aceita\u00e7\u00e3o resignada daquela realidade. Recordo-me quando tinha cerca de quatro ou cinco anos, de estar sentado \u00e0 porta da sala e do meu irm\u00e3o me dizer que somente um filho capaz de cortar um peda\u00e7o da sua pr\u00f3pria carne, cozinh\u00e1-lo e oferec\u00ea-lo aos pais enfermos, poderia ser considerado um homem de bem; e a m\u00e3e, naquela ocasi\u00e3o, n\u00e3o o contrariou. Se \u00e9 poss\u00edvel comer um peda\u00e7o de carne humana, ent\u00e3o, por extens\u00e3o, tudo \u00e9 comest\u00edvel! Contudo, agora que recordo, aquele modo de chorar era deveras desolador. \u00c9 verdadeiramente bizarro!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>XII<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o consigo pensar mais no assunto. At\u00e9 agora nunca me tinha apercebido de que vivi durante anos e anos num lugar onde, h\u00e1 quatro mil\u00e9nios, se comiam homens; quando a minha irm\u00e3 mais nova morreu, o meu irm\u00e3o passou a tratar das tarefas dom\u00e9sticas; tendo em conta este contexto, talvez n\u00e3o fosse particularmente inadequada a presun\u00e7\u00e3o de que ele nos tivesse dado a minha irm\u00e3 mais nova a comer, sem que o soubessemos, misturada com a restante comida.<\/p>\n<p class=\"p3\">Talvez eu tenha comido, sem saber, um pouco da carne da minha irm\u00e3 mais nova, e talvez<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>seja agora a minha vez? Agora que tomei consci\u00eancia da realidade, como irei algum dia voltar a ver um ser humano \u00e0 frente? N\u00e3o, n\u00e3o consigo pensar mais nisso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>XIII <\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Talvez ainda haja crian\u00e7as que n\u00e3o tenham comido carne humana.<\/p>\n<p class=\"p3\">Salvem as crian\u00e7as!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<ol>\n<li class=\"p1\">Pref\u00e1cio: Tamb\u00e9m designado por \u201cex\u00f3rdio\u201d ou \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d, sendo igualmente referido como \u201cpr\u00f3logo\u201d, \u201cpre\u00e2mbulo\u201d ou \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d, constitui um texto inserido antes do corpo principal de uma obra escrita ou de uma sec\u00e7\u00e3o de \u201cintrodu\u00e7\u00e3o\u201d. No presente artigo, desempenha a fun\u00e7\u00e3o de rodu\u00e7\u00e3o\u201d, com o prop\u00f3sito de fornecer uma breve explica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado subsequente.<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">Um \u201csupranumer\u00e1rio\u201d na China da Dinastia Qing era um indiv\u00edduo que obtinha um t\u00edtulo oficial atrav\u00e9s de exames imperiais ou de contribui\u00e7\u00f5es financeiras, mas que ainda n\u00e3o tinha sido nomeado ou designado para um cargo oficial espec\u00edfico. Estes supranumer\u00e1rios aguardavam pela atribui\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es pelo Minist\u00e9rio dos Funcion\u00e1rios e, enquanto isso, n\u00e3o tinham responsabilidades oficiais. Eles eram uma categoria intermedi\u00e1ria de funcion\u00e1rios que ainda n\u00e3o tinham assumido efetivamente as suas posi\u00e7\u00f5es governamentais.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>A express\u00e3o \u201cO velho livro de contas do Sr. Gujiu\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora que se utiliza aqui para aludir \u00e0 longa hist\u00f3ria de domina\u00e7\u00e3o feudal na China. Neste contexto, \u201c<span class=\"s1\">\u53e4\u4e45\u5148\u751f\u7684\u9648\u5e74\u6d41\u6c34\u7c3f\u5b50<\/span>\u201d simboliza a ideia de que a opress\u00e3o feudal na China perdurou por um extenso per\u00edodo temporal.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">O <i>Comp\u00eandio de Mat\u00e9rias M\u00e9dicas <\/i>\u201c<span class=\"s1\">\u672c\u8349\u7eb2\u76ee<\/span>\u201d (<span class=\"s2\"><i>B\u011bnc\u01ceo G\u0101ngm\u00f9<\/i><\/span>) \u00e9 uma obra farmacol\u00f3gica escrita pelo m\u00e9dico chin\u00eas da Dinastia Ming, Li Shizhen (1518-1593). Este livro consiste em cinquenta e dois volumes e \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o abrangente de conhecimento sobre plantas medicinais e medicamentos. A passagem mencionada neste contexto sugere discutir o ponto em que o livro de Li Shizhen incluiu informa\u00e7\u00f5es sobre o tratamento da tuberculose com carne humana, referindo-se \u00e0s notas do m\u00e9dico da Dinastia Tang, Chen Cangqi, encontradas em \u201c<span class=\"s1\">\u672c\u8349\u62fe\u9057<\/span>\u201d (<span class=\"s2\"><i>B\u011bnc\u01ceo Sh\u00edy\u00ed<\/i><\/span>). Li Shizhen expressou desacordo com essa pr\u00e1tica, afirmando que a men\u00e7\u00e3o de carne humana no livro do m\u00e9dico Chen era um erro ou uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">\u201cTrocar os filhos para comer\u201d, em mandarim \u201c<span class=\"s1\">\u6613\u5b50\u800c\u98df<\/span>\u201d, significa literalmente \u201ca pr\u00e1tica de recorrer ao canibalismo, trocando ou sacrificando os pr\u00f3prios filhos por motivos de extrema necessidade\u201d. Trata-se de uma express\u00e3o encontrada em \u201cCr\u00f3nicas de Zuo\u201d (<span class=\"s1\">\u5de6\u4f20<\/span>), que descreve a degrada\u00e7\u00e3o de uma cidade do estado de Song uma vez cercada por um ex\u00e9rcito do estado de Chu durante o ano XV do reinado do Duque Xuan (<span class=\"s1\">\u5ba3\u516c\u5341\u4e94\u5e74<\/span>). O general Hua Yuan, usou a express\u00e3o para descrever o sofrimento do povo de Song. A partir da\u00ed, a express\u00e3o tem sido usada para descrever uma situa\u00e7\u00e3o de desespero, em que as pessoas est\u00e3o at\u00e9 dispostas a fazer o impens\u00e1vel como trocar ou at\u00e9 mesmo sacrificar os pr\u00f3prios filhos para obter comida.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">No original chin\u00eas, \u201c<i>Hai Ethna<\/i>\u201d \u00e9 uma translitera\u00e7\u00e3o da palavra inglesa \u201chyena,\u201d que se refere a um tipo de \u201chiena\u201d em portugu\u00eas. Um animal mam\u00edfero carn\u00edvoro, tamb\u00e9m conhecido como \u201clobo-da-terra\u201d.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Persegue frequentemente predadores maiores, como le\u00f5es e tigres, para se alimentar dos restos mortais das presas deixados por estes.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">Yi Ya (<span class=\"s1\">\u6613\u7259<\/span><span class=\"s2\">)<\/span> \u00e9 uma figura hist\u00f3rica da China antiga, natural do estado de Qi, durante o per\u00edodo conhecido como Primavera e Outono. Era conhecido pela sua per\u00edcia na culin\u00e1ria e no tempero de alimentos. Posteriormente, ficou amplamente conhecido gra\u00e7as a uma narrativa controversa que o envolvia. Segundo a lenda, ele teria cozinhado o seu pr\u00f3prio filho e oferecido a carne cozida como alimento a um governante chamado Jie. Esta hist\u00f3ria \u00e9 frequentemente considerada como um exemplo de discurso \u201cdelirante\u201d e uma narrativa \u201cdesordenada e confusa\u201d encontrada em textos antigos chineses, e a sua veracidade \u00e9 amplamente questionada. Desta forma, Yi Ya \u00e9 mais lembrado na hist\u00f3ria chinesa pelas suas habilidades culin\u00e1rias e pela associa\u00e7\u00e3o com essa hist\u00f3ria peculiar, que \u00e9 vista com ceticismo.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">\u00c9 importante ressaltar que Jie e Zhou foram monarcas que governaram durante as dinastias Xia e Shang na China antiga, respectivamente, e n\u00e3o viveram simultaneamente com Ezhiya. A men\u00e7\u00e3o de \u201cEzhiya cozinhando o seu pr\u00f3prio filho e oferecendo-o a Jie e Zhou para consumo\u201d \u00e9 considerada um exemplo de discurso \u201cdelirante\u201d e de uma narrativa \u201cdesorganizada e confusa\u201d.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">Revolucion\u00e1rio que no final da dinastia Qing assassinou o governador de Anhui. Foi condenado a morrer cortado em pedac\u0327os e o seu corac\u0327a\u0303o e fi\u0301gado foram comidos pelo homem que o matou. Esta \u00e9 uma refer\u00eancia obscura \u00e0 figura praticamente esquecida de de Xu Xilin (1873-1907), tamb\u00e9m conhecido pelo nome de cortesia \u201cBosun\u201d. Um importante membro do grupo revolucion\u00e1rio \u201cGuangfu Hui\u201d (<span class=\"s1\">\u5149\u590d\u4f1a<\/span>), durante o final da Dinastia Qing. Em 1907, Xu Xilin e Qiu Jin planearam uma revolta que ocorresse simultaneamente nas prov\u00edncias Zhejiang e Anhui. No dia 6 de julho desse ano, Xu Xilin tirou proveito da sua posi\u00e7\u00e3o como supervisor da Escola de Patrulheiros e Inspetores de Anhui, como forma de encobrir o plano. Durante uma cerim\u00f3nia de gradua\u00e7\u00e3o da escola, ele assassinou o governador de Anhui, Enming. Em seguida, liderou os estudantes na tomada de um arsenal militar. O grupo viria a ser derrotado e Xu Xilin apanhado. Ele foi brutalmente assassinado, tendo o cora\u00e7\u00e3o e o f\u00edgado sido arrancados do seu corpo por guardas de Enming e posteriormente cozidos e comidos. Este evento tr\u00e1gico foi um dos muitos ocorridos durante o per\u00edodo tumultuado da Revolu\u00e7\u00e3o Xinhai e \u00e9 recordado como um exemplo da luta pela mudan\u00e7a pol\u00edtica na China no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">Esta e\u0301 uma velha superstic\u0327a\u0303o da aldeia: diz-se que o sangue humano e\u0301 capaz de curar a tuberculose; por esta raza\u0303o, costumava-se comprar pa\u0303o embebido em sangue aos carrascos quando executavam um condenado.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">Esta passagem refere-se \u00e0 pr\u00e1tica de \u201ccortar a pr\u00f3pria carne para tratar os pais\u201d, ou seja, \u00e0 a\u00e7\u00e3o de cortar um peda\u00e7o da pr\u00f3pria carne, coz\u00ea-la com rem\u00e9dio e administr\u00e1-lo aos pais doentes como forma de tratamento. Esta era uma pr\u00e1tica considerada de extrema devo\u00e7\u00e3o filial na sociedade feudal chinesa.<br \/>\nNo \u201cLivro das Dinastias Song\u201d (<span class=\"s1\">\u5b8b\u53f2\u00b7\u9009\u4e3e\u5fd7\u4e00<\/span>), \u00e9 referido: \u201cH\u00e1 os corajosos, os escolhidos pelo imperador como exemplos de piedade filial, esses que cortaram a carne das suas pr\u00f3prias coxas, e depois h\u00e1 os outros, os cobardes que se deixam cair na sepultura.\u201d<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Lu Xun Di\u00e1rio de um Louco \u00e9 a primeira fic\u00e7\u00e3o escrita em chin\u00eas moderno por Lu Xun ap\u00f3s o seu longo sil\u00eancio liter\u00e1rio, que naturalmente incorporou a sua raiva e ansiedade, bem como a sua esperan\u00e7a. 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