{"id":1023,"date":"2025-10-20T01:04:36","date_gmt":"2025-10-19T17:04:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1023"},"modified":"2025-10-20T01:05:03","modified_gmt":"2025-10-19T17:05:03","slug":"a-claridade-e-a-virtude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/a-claridade-e-a-virtude\/","title":{"rendered":"A Claridade e a Virtude"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>notas sobre <\/b><b>a espada <\/b><b>e o seu <\/b><b>simbolismo<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Yu, o Grande, conhecia a arte da forja. Sabia distinguir os metais machos dos metais f\u00eameas. <\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\"><i>As lebres de Wu, de cujo fel se fez um par de espadas, eram um casal, logo cada uma das espadas t\u00eam um sexo diferente. A t\u00eampera nasce da uni\u00e3o da \u00e1gua e do fogo. Por vezes, neste momento, as espadas transformam-se em drag\u00f5es. As espadas Yin ficam nas ribeiras onde s\u00e3o temperadas. Da\u00ed que as espadas tenham a tend\u00eancia de se atirar \u00e0 \u00e1gua para reencontrar o seu par perdido. O curso de \u00e1gua mais famoso \u00e9 precisamente a Ribeira das Espadas, onde existe a Garganta do Drag\u00e3o, justamente porque a\u00ed, no momento de ser temperada, uma espada se transformou em drag\u00e3o e levantou v\u00f4o.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">Zuo Qiming, <i>Zuo Zhuan<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\">Poucos objectos inspiraram aos homens tanto fasc\u00ednio como a espada. De tal modo que esta aparece como s\u00edmbolo ligado \u00e0s representa\u00e7\u00f5es mais determinantes do poder. S\u00edmbolo de for\u00e7a, de guerra, mas tamb\u00e9m de lei e de paz, capaz de proteger a vida e de dar a morte, a espada percorre as civiliza\u00e7\u00f5es \u2013 e atrav\u00e9s delas o imagin\u00e1rio da humanidade \u2013 quase desde os seus prim\u00f3rdios at\u00e9 aos nossos dias. O facto de ainda hoje, quando perdeu j\u00e1 a sua fun\u00e7\u00e3o mais imediata (a do combate), continuar a despertar interesse e mesmo paix\u00e3o um pouco por toda a parte \u00e9 a prova irrefut\u00e1vel de que esse fasc\u00ednio antigo perdura. Quando se esgotou o car\u00e1cter mais imediato da sua funcionalidade surgiram ent\u00e3o mais claros outros aspectos dessa afectividade, dessa complexa rela\u00e7\u00e3o entre o homem e um objecto por si concebido, que estimulam agora uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es sobre quest\u00f5es est\u00e9ticas, simb\u00f3licas, hist\u00f3ricas, etnol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas, tecnol\u00f3gicas, enfim toda a gama dos saberes humanos, exactamente \u00e0 medida da sua import\u00e2ncia civilizacional.<\/p>\n<p class=\"p5\">Esta \u00e9 atestada por numerosos testemunhos do \u00e2mbito do mito, da literatura, dos discursos tecnol\u00f3gico e pol\u00edtico. O discurso sobre a espada ultrapassa largamente o dos seus mais \u00f3bvios e pr\u00f3ximos utilizadores (ferreiros, armeiros, guerreiros), para ocupar o tempo e as mentes de habitantes de diferentes campos da actividade humana.<\/p>\n<p class=\"p5\">Se podemos considerar que existem objectos cuja exist\u00eancia n\u00e3o nos aflige nem assombra, cujo espa\u00e7o e desempenho se encontram relativamente \u00e0 merc\u00ea do nosso dom\u00ednio, j\u00e1 a espada, enquanto objecto t\u00e9cnico, foge a esse desejo de controlo, n\u00e3o apenas do ponto de vista quotidiano (porque pode dar a morte e assegurar a defesa da vida) mas tamb\u00e9m na medida em que se erige como s\u00edmbolo carregado de caracter\u00edsticas muito particulares.<\/p>\n<p class=\"p5\">Na aus\u00eancia da sua utiliza\u00e7\u00e3o b\u00e9lica no mundo de hoje, a espada n\u00e3o desaparece exactamente porque sempre desempenhou um papel diferente de um mero instrumento de combate, talvez devido \u00e0 caracter\u00edstica singular que inspirou a sua sacraliza\u00e7\u00e3o: a espada pode ser aperfei\u00e7oada mas, no seu g\u00e9nero, n\u00e3o pode ser ultrapassada. De facto, poderemos admitir que as ligas met\u00e1licas sofreram um desenvolvimento ao longo dos s\u00e9culos e que as forjas e os armeiros s\u00e3o hoje capazes de produzir l\u00e2minas de melhor qualidade (o que talvez nem seja verdade). \u00c9 tamb\u00e9m certo que a forma da espada foi sendo modificada, talvez mais devido ao tipo de ex\u00e9rcito que devia servir, do que realmente no sentido efectivo do seu melhoramento. Mas o curso da Hist\u00f3ria n\u00e3o proporcionou, nem parece que v\u00e1 proporcionar no futuro uma arma met\u00e1lica de corte ou perfura\u00e7\u00e3o, t\u00e3o ajustada \u00e0 medida do homem enquanto seu prolongamento f\u00edsico e psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Sendo uma forma pressentida como inultrapass\u00e1vel, a espada surge como um objecto cuja sacralidade confunde e seduz o seu pr\u00f3prio criador, como se o armeiro fosse o parturiente, o que assiste \u00e0 hierofania de um parto divino.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Estas concep\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas t\u00eam uma origem antiga em todas as civiliza\u00e7\u00f5es e marcam rupturas com o passado, sobretudo devido ao advento da tecnologia dos metais, cujos mist\u00e9rios eram explicados de modo vago ou emergiam disfar\u00e7ados sobre o manto de linguagens inici\u00e1ticas e esot\u00e9ricas.<\/p>\n<p class=\"p5\">Seja na mitologia chinesa ou no conto breve japon\u00eas, que servem de ep\u00edgrafe a esta introdu\u00e7\u00e3o, a espada aparece como s\u00edmbolo ambivalente, macho\/f\u00eamea, Yin\/Yang, terr\u00edvel\/propiciadora, exterminadora\/fertilizante, afinal t\u00e3o \u00e0 imagem do seu pr\u00f3prio criador, mas dotada de um poder superior. Os discursos sobre a metalurgia e o fabrico das espadas, quer sejam literais ou aleg\u00f3ricos, s\u00e3o preciosas pistas para a compreens\u00e3o de alguns dos percursos mais fascinantes da aventura da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>1. O SIMBOLISMO DOS METAIS<br \/>\n<\/b><b><\/b><b>1.1. Metais celestes, metais tel\u00faricos<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">A descoberta da fundi\u00e7\u00e3o dos metais marca uma nova era para a Humanidade. Normalmente, pensa-se, de modo algo preconceituoso que as descobertas t\u00e9cnicas antecedem a sua explica\u00e7\u00e3o ou justifica\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, quando na realidade por vezes acontece o contr\u00e1rio. Na verdade, muito antes de se terem dedicado \u00e0s t\u00e9cnicas da forja, j\u00e1 os homens conheciam e utilizavam os metais. Os nossos antepassados mais primitivos recolhiam peda\u00e7os de metal que encontravam na natureza e trabalhavam-nos como se de pedra se tratasse. Mas essa mat\u00e9ria tinha uma origem bem espec\u00edfica e plena de significados simb\u00f3licos. Os metais vinham do C\u00e9u. Literalmente, os homens observavam com espanto e temor a queda dos meteoritos, chegando posteriormente \u00e0 conclus\u00e3o de que os min\u00e9rios que extra\u00edam destas pedras ca\u00eddas do C\u00e9u eram, portanto, de origem divina. A sacralidade dos meteoritos encontra hoje a sua express\u00e3o mais conhecida na Kaaba isl\u00e2mica.<\/p>\n<p class=\"p5\">Mas mais do que o simbolismo da pedra em si, conta o cont\u00e1gio m\u00e1gico dos metais nela contida. Confundidos com o raio, os meteoritos vinham das alturas rasgando a noite e incendiando na sua queda o pr\u00f3prio c\u00e9u e depois as florestas. Era um mensageiro do fogo celeste, pr\u00f3prio para ser aproveitado pelos artes\u00e3os como fonte de mat\u00e9ria-prima e pelos magos como fonte de press\u00e1gios. Algo que muito se confundia e que era necess\u00e1rio precaver pois que tratava de mat\u00e9rias perigosas. Com efeito, estes metais recolhidos \u00e0 superf\u00edcie vinham do c\u00e9u e eram, portanto, participantes de uma sacralidade celeste e masculina. Repare-se que a queda do raio, como da chuva, representa a consuma\u00e7\u00e3o da hierogamia entre o C\u00e9u e a Terra. Uma rela\u00e7\u00e3o violenta e cruel, geradora de metais, e que os homens se veriam mais tarde na conting\u00eancia de imitar. Por vezes, os meteoritos ca\u00edam com tanta viol\u00eancia que feriam o ventre da Terra, penetrando-a e ficando bem longe do alcance dos homens.<\/p>\n<p class=\"p5\">\u00c9 precisamente a descoberta da fus\u00e3o dos metais e do trabalho das minas que deu origem, segundo Eliade, a uma importante desloca\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. N\u00e3o nos interessa tanto aqui seguir uma cronologia das descobertas t\u00e9cnicas mas somente anotar algumas repercuss\u00f5es simb\u00f3licas estas trouxeram \u00e0s culturas. A concep\u00e7\u00e3o de uma origem celeste dos metais \u00e9 j\u00e1 suficiente para se compreender como este fen\u00f3meno impressionava a imagina\u00e7\u00e3o humana. Mas agora trata-se de ir ao seio sagrado da Terra e dele retirar os min\u00e9rios que nele adquiriram j\u00e1 outras qualidades, nessa gesta\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica milenar, de idade incompreens\u00edvel para o Homem. Ora esta ac\u00e7\u00e3o implica a passagem para uma outra simbologia, agora tamb\u00e9m de contornos tel\u00faricos e femininos, portanto ambivalente, o que vai obrigar \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de outros elementos no universo do mito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>1.2. A imola\u00e7\u00e3o de Mo Xie<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">A tradi\u00e7\u00e3o chinesa conta que Gan Jiang e a sua esposa Mo Xie eram ferreiros. Tendo recebido ordem para forjar duas espadas, Gan Jiang dedicou-se dia e noite ao trabalho mas, ap\u00f3s tr\u00eas meses de esfor\u00e7os, n\u00e3o conseguia realizar a fus\u00e3o dos metais. Interrogado pela mulher sobre as raz\u00f5es do seu insucesso, o marido respondia-lhe evasivamente at\u00e9 que, face \u00e0 sua insist\u00eancia, acabou por lhe confessar que, em situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica, o seu mestre se servira de uma rapariga para efectuar o casamento. Mal ouviu estas palavras, Mo Xie atirou-se para dentro da fornalha, possibilitando a uni\u00e3o das ligas. Em seguida, o marido fabricou duas espadas: a espada f\u00eamea, que se chamaria Mo Xie, e a espada macho que levaria o seu pr\u00f3prio nome. Noutra vers\u00e3o, Gan Jiang conta que o seu mestre e sua mulher teriam ambos sido consumidos como \u00fanico modo de ligar os metais. Mas \u00e9 preciso ter em conta que em chin\u00eas <i>casar\/casamento<\/i> (<i>ping<\/i>) tem igualmente o sentido geral de embaixada e outro mais espec\u00edfico de entrevista realizada, podendo portanto tratar-se de um sacrif\u00edcio cuja v\u00edtima tem por miss\u00e3o operar como casamenteiro entre os metais em presen\u00e7a. Contudo, a imola\u00e7\u00e3o de Mo Xie pode tamb\u00e9m ter o sentido de casamento\/oferenda ao deus da Forja para que este se dignasse proporcionar a liga\u00e7\u00e3o dos metais. Como vimos mais acima, o casamento do C\u00e9u e da Terra atrav\u00e9s do raio (origem dos metais) \u00e9 um acto violento, a sua repeti\u00e7\u00e3o no ambiente sagrado da forja implicar\u00e1 por isso mesmo a viol\u00eancia de um sacrif\u00edcio humano.<\/p>\n<p class=\"p5\">Segundo Marcel Granet, o Mocho, animal perigoso, ligado ao Yang e ao quinto dia do quinto m\u00eas (quando o Yang adquire toda a sua pot\u00eancia \u2013 diz-se que as crian\u00e7as de sexo masculino nascidas neste dia matar\u00e3o os pais quando alcan\u00e7arem a altura da porta), era o emblema animal de um cl\u00e3 real de ferreiros, mestres do Raio e das Esta\u00e7\u00f5es. Enquanto ministros seriam rivais do C\u00e9u e deviam ser controlados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>1.3. Reis e ferreiros<\/b><b><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Os 81 irm\u00e3os tinha corpo de animal e vozes humanas, as cabe\u00e7as de cobre e as frontes de ferro. Comiam areia. Foram os inventores das armas, dos sabres, das lan\u00e7as e das grandes bestas. Aterrorizavam e faziam estremecer o mundo. Cometiam massacres. Faltava-lhes Virtude.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>in<\/i> Gui Cang<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p5\">O trabalho dos metais, da mina e das forjas, foi sempre entendido como especial e perigoso. O min\u00e9rio n\u00e3o somente teria vindo do C\u00e9u como teria gestado no ventre da Terra, participando assim de uma dupla sacralidade. Da\u00ed que os ferreiros, os homens destinados a esta tarefa perigosa, tenham sido encarados por todas as civiliza\u00e7\u00f5es como seres especiais e dotados de um saber tamb\u00e9m ele especial.<\/p>\n<p class=\"p5\">Em termos concretos, o ferreiro era certamente algu\u00e9m que, juntamente com o oleiro e o feiticeiro (com o qual \u00e0s vezes se confunde), tinha o dom\u00ednio do fogo. Ora o fogo \u00e9 o que permite, entre outras coisas, a pr\u00f3pria transmuta\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. Normalmente, a descoberta ou introdu\u00e7\u00e3o das novas t\u00e9cnicas s\u00e3o atribu\u00eddas a um rei fundador, como \u00e9 o caso quase total dos reinos africanos, em que os reis s\u00e3o igualmente ferreiros.<\/p>\n<p class=\"p5\">O ferreiro, enquanto n\u00f3mada que procura regi\u00f5es onde existam min\u00e9rios, n\u00e3o tem um lugar claro no seio da sua pr\u00f3pria cultura, na medida em que toca em mat\u00e9rias perigosas que nem todos sabem dominar e que provocam um temor sagrado. Ele \u00e9, de certo modo, um marginal temido e respeitado, sendo o seu cargo heredit\u00e1rio, constituindo uma linhagem de poderes importantes e espec\u00edficos. A mitologia africana \u00e9 prof\u00edcua em hist\u00f3rias de ferreiros que se tornam reis em tribos que n\u00e3o a sua, como uma esp\u00e9cie de recompensa ou reconhecimento pela introdu\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio de uma t\u00e9cnica nova e maravilhosa.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Mas tamb\u00e9m a hist\u00f3ria das origens da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa nos relata epis\u00f3dios semelhantes. Yu, o Grande, primeiro imperador da dinastia Xia, foi o grande Ordenador do Mundo. Para al\u00e9m de controlar o curso furioso da \u00e1guas, era conhecido por perfurador de montanhas e por ser um rei-ferreiro, que dominava os segredos da forja e da uni\u00e3o dos metais. A ele se atribuiu a fus\u00e3o dos Nove Caldeir\u00f5es dos Xia, feitos com metais que vinham das Nove Prov\u00edncias, trazidos pelos Nove Pastores. Estes caldeir\u00f5es eram leves e f\u00e1ceis de transportar e tinham o cond\u00e3o de fazer ferver os l\u00edquidos sem necessidade de fogo. Eram justos, pois neles se aplicavam os supl\u00edcios. Yu, o Grande, o primeiro dos monarcas a estabelecer uma dinastia, surge portanto n\u00e3o s\u00f3 como detentor dos conhecimentos inici\u00e1ticos que permitiam o trabalho dos metais mas, sobretudo, como seu virtuoso e justo utilizador.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Porque, ainda na mitologia chinesa, para conhecermos a origem da fundi\u00e7\u00e3o dos metais e do fabrico das armas, teremos de recuar mais, at\u00e9 aos tempos imemoriais do primeiro dos Cinco Augustos, Huangdi, conhecido pelo Imperador Amarelo. \u00c9 que as armas e a forja s\u00e3o atribu\u00eddos a Chiyou, um ser mal\u00e9fico que morreu em batalha contra o grande rei, num combate m\u00edtico cuja reprodu\u00e7\u00e3o ritual tem atravessado a hist\u00f3ria da China. Chiyou, cuja natureza aparece por vezes repartida em 72 (9&#215;8) ou 81 (9&#215;9) irm\u00e3os, tem um aspecto tem\u00edvel: cabe\u00e7a de cobre com a testa em ferro e semelhan\u00e7as bovinas. A tremenda batalha em que defrontou Huangdi surge recheada de contornos mitol\u00f3gicos, em que cada um arregimentou para o seu lado diferentes seres divinos: a sua legi\u00e3o de dem\u00f3nios espalha uma misteriosa neblina, no seio da qual Huangdi para se orientar inventa a b\u00fassola; depois o monarca derrota o seu inimigo gra\u00e7as a uma trompa m\u00e1gica que imitava o grito do Drag\u00e3o. Chiyou ter\u00e1 mesmo sido morto pelo Drag\u00e3o Yin, o drag\u00e3o da Chuva que, juntamente com Niu-pa, a deusa da Seca, secundava Huangdi. Duzentos anos antes da nossa era, esta figura terr\u00edvel foi recuperada pelo primeiro imperador dos Han que lhe dedicou um sacrif\u00edcio. A multiplica\u00e7\u00e3o de Chiyou transforma-o numa esp\u00e9cie de confraria, o que de algum modo se relaciona com o papel fundamental que as confrarias de ferreiros desempenhavam na China Antiga e cujos conhecimentos m\u00e1gicos foram transmitidos pela tradi\u00e7\u00e3o taoista.<\/p>\n<p class=\"p5\">A hist\u00f3ria de Chiyou d\u00e1-nos a ver uma civiliza\u00e7\u00e3o que se apercebe dos perigos inerentes ao uso incontrolado da forja e das armas, nomeadamente para os detentores do poder, sinalizando ao mesmo tempo a sua origem maligna. Este ser mitol\u00f3gico m\u00faltiplo aparece como uma esp\u00e9cie de patrono dos rebeldes que amea\u00e7avam, em hordas marginais, o poder centralizado dos imperadores. Na hist\u00f3ria da China, as confrarias t\u00eam in\u00fameras vezes desempenhado um papel de oposi\u00e7\u00e3o ao poder estabelecido e ro\u00eddo por dentro o vigor e a virtude das dinastias.<\/p>\n<p class=\"p5\">A mitologia chinesa mais primeva, de origem real, teme o poder das forjas e das armas, em detrimento da Virtude (<i>De<\/i>). A hist\u00f3ria de Huangdi e Chiyou demonstra que a Virtude vence a for\u00e7a ainda semibestial das armas e dos metais, mas mais \u00e0 frente mostraremos como, depois de submetida \u00e0 medida humana, com a dinastia Zhou, mesmo na mitologia chinesa, a espada conquistar\u00e1 o seu espa\u00e7o no pante\u00e3o dos s\u00edmbolos de poder.<\/p>\n<p class=\"p5\">Assim, para j\u00e1 podemos concluir que o dom\u00ednio da forja e dos metais \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o perigosa, demi\u00fargica, pela ac\u00e7\u00e3o da qual a mat\u00e9ria se transforma e muitas vezes adquire a forma mortal de uma arma, capaz de dar vida ou morte, consoante a sua pr\u00f3pria alma e alma do homem que a empunha.<\/p>\n<p class=\"p5\">&#8220;O sabre \u00e9 a alma do guerreiro&#8221;, diz o Bushido japon\u00eas. Mas, num sentido mais geral, a espada ultrapassa a dimens\u00e3o do car\u00e1cter solit\u00e1rio do guerreiro para se erigir em s\u00edmbolo colectivo do exerc\u00edcio da viol\u00eancia, ou seja, da pr\u00f3pria ess\u00eancia da forma Estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>2. A ASCEN\u00c7\u00c3O DA ESPADA<br \/>\n<\/b><b>2.1. Armas, animais e guerreiros <\/b><b><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Que importa viver muito tempo?<br \/>\n<\/i><i>Que guerreiro querer\u00e1 ser poupado?<br \/>\n<\/i>Friedrich Nietzsche,<br \/>\n<i>Da Guerra e dos Guerreiros<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Seremos tigres ou rinocerontes<br \/>\n<\/i><i>Para assim percorrermos estes desertos?<br \/>\n<\/i><i>Pobres de n\u00f3s, os guerreiros,<br \/>\n<\/i><i>Dia e noite sem repouso<br \/>\n<\/i>in <i>Shi Jing, Livro das Odes<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Talvez o primeiro gesto tecnol\u00f3gico do <i>homo faber<\/i> tenha sido a constru\u00e7\u00e3o de uma arma. Sendo uma esp\u00e9cie pouco dotada fisicamente e sem presas<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>consider\u00e1veis que lhe pudessem servir de ataque ou defesa, os nossos ancestrais precisaram desde muito cedo de utilizar as suas centelhas de intelig\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o no fabrico de instrumentos b\u00e9licos. E que modelo mais pr\u00f3ximo escolher que o pr\u00f3prio mundo animal? A verdade \u00e9 que as bestas apresentavam uma parafern\u00e1lia de armas naturais concedidas pela pr\u00f3pria Natureza: cornos, dentes, bicos, barbatanas, espinhos, capazes de perfurar, rasgar e cortar com efic\u00e1cia, assegurando a continuidade da esp\u00e9cie na luta pelos alimentos e pela sobreviv\u00eancia. Se o homem utilizou, em primeiro lugar, os pr\u00f3prios despojos dos animais que matava ou encontrava mortos, n\u00e3o dever\u00e1 ter passado muito tempo para que come\u00e7asse a reproduzir em pedra e madeira as presas dos seus inimigos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Esta aproxima\u00e7\u00e3o ao mundo animal n\u00e3o deixou de ter numerosas e profundas repercuss\u00f5es simb\u00f3licas, traduzidas, por exemplo, no totemismo de confrarias de guerreiros que se identificavam a um animal espec\u00edfico. S\u00e3o famosos os <i>berserkir<\/i>, homens-ursos que aterrorizavam as florestas do norte da Europa, bem como a sociedade secreta dos homens-leopardo que se dizia controlar grandes regi\u00f5es de \u00c1frica.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Uma vez mais nos surgem pois as sociedades de guerreiros, seres perigosos em tempo de paz, que \u00e9 necess\u00e1rio controlar. De facto, a figura do guerreiro percorre com fatalismo a hist\u00f3ria e o imagin\u00e1rio das civiliza\u00e7\u00f5es. \u00datil e reverenciado em tempo de guerra, este personagem e as suas armas constitui uma amea\u00e7a para o poder divino-legal em tempo de paz. Ele \u00e9 um ser solit\u00e1rio (o melhor exemplo \u00e9 o cavaleiro andante, figura que percorre sozinho grandes espa\u00e7os tanto a Ocidente como no Oriente), inc\u00f3modo, mas indispens\u00e1vel. A sua natureza, endurecida pelo tempero das batalhas e o confronto regular com a morte, \u00e9 imprevis\u00edvel e dificilmente control\u00e1vel, tal como a sua sexualidade. O regresso dos guerreiros, por exemplo, era normalmente comemorado com festas que inclu\u00edam uma certa licenciosidade, com o objectivo de acalmar, atrav\u00e9s do sexo, os homens excitados pela matan\u00e7a e pelo sangue.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Rapidamente, reis e imperadores compreenderam que havia necessidade de captar as confrarias de guerreiros e mant\u00ea-las sob a sua bandeira, como condi\u00e7\u00e3o de estabilidade e garante de obedi\u00eancia. Dependendo dos locais e das vicissitudes da Hist\u00f3ria, assim tamb\u00e9m assistimos a diferentes graus de rela\u00e7\u00e3o, de proximidade e afastamento entre a soberania e os guerreiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>2.2. Armas contundentes, <\/b><b>armas cortantes<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Outro modo que o simbolismo tem de estabelecer diferen\u00e7as entre armas passa pelas caracter\u00edsticas do seu funcionamento. Assim, teremos armas contundentes e armas cortantes. No primeiro caso teremos as clavas, as ma\u00e7as, etc., que esmagam, desfazem, maceram; no segundo as espadas, os machados, os punhais que cortam, dividem, perfuram. Distin\u00e7\u00e3o aparentemente significativa a n\u00edvel simb\u00f3lico, as primeiras teriam um conte\u00fado e ac\u00e7\u00e3o fundamentalmente impuro e brutais, mais perto da animalidade; enquanto as segundas, mais perto da humanidade, conteriam na sua ac\u00e7\u00e3o algo de salv\u00edvico e purificador. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Este tema aparece sobremaneira ligado ao simbolismo da espada, na medida em que a sua ac\u00e7\u00e3o ter\u00e1 um car\u00e1cter regenerador, como no conhecido caso da Excalibur, da lenda celta do Rei Artur, a espada que cura e d\u00e1 vida. Trata-se, afinal, de cortar o tempo para inaugurar um novo momento, um acto de regenera\u00e7\u00e3o. Para dar conta destas opera\u00e7\u00f5es torna-se necess\u00e1rio cortar com o passado, negro e decadente, e inaugurar uma nova era. \u00c9 o que Alexandre, o Grande, executa ao cortar com o seu gl\u00e1dio, o inextrinc\u00e1vel n\u00f3 de Gordium, tornando-se senhor da \u00c1sia.<\/p>\n<p class=\"p5\">De espada na m\u00e3o, o soberano corta para depois religar. O seu instrumento \u00e9 portanto fundador de um novo tempo de uma nova mem\u00f3ria. A espada distingue-se perfeitamente dos instrumentos contundentes que n\u00e3o figuram nas simbologias reais e s\u00e3o utilizados pelos puros guerreiros, seres apenas semi-divinos, como o H\u00e9rcules da mitologia grega, que utiliza a ma\u00e7a. S\u00f3 amarrados a um estrito c\u00f3digo de comportamento, como no caso da cavalaria medieval europeia ou do Bushido japon\u00eas, os guerreiros t\u00eam, por assim dizer, licen\u00e7a de posse e porte de espada.<\/p>\n<p class=\"p5\">O uso da espada nos ex\u00e9rcitos era extremamente limitado. Os soldados usavam arcos, bestas, lan\u00e7as, mas s\u00f3 aos oficiais superiores era concedido o uso da espada, normalmente instru\u00eddos na arte do combate individual. Na China, por exemplo, depois que a infantaria mongol conquistou o imp\u00e9rio, o uso da espada rareou de facto, at\u00e9 porque o sistema militar o tornava j\u00e1 obsoleto. Isto torna-se bem claro quando percorremos o tratado de tecnologia do s\u00e9culo XVII <i>Tian Gong Kai Wu<\/i>, de Song Yingxing. Neste livro, no cap\u00edtulo do fabrico de armas, s\u00e3o referidos o arco e as flechas, a besta, armas de fogo&#8230; mas sil\u00eancio absoluto sobre a espada. Porque haveria um manual de ensinar a fabricar um instrumento, afinal, ainda de caracter\u00edsticas t\u00e3o perigosas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>2.3. Da Espada e do Livro<\/b><b><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><i>Tivemos em Wen e Wu dois grande e s\u00e1bios reis. Trataram conscienciosamente dos assuntos de Estado e promoveram com zelo a conduta moral. A sua dilig\u00eancia e virtude tornaram-se famosas quer no C\u00e9u quer na Terra. O C\u00e9u, portanto, confiou ao rei Wen o seu mandato.<br \/>\n<\/i><i><\/i><i>in Shu Jing, Livro de Hist\u00f3ria<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p5\">Numa extraordin\u00e1ria floresta, \u00e0 sa\u00edda da cidade de Qufu, prov\u00edncia de Shandong, est\u00e1 situado o t\u00famulo de Conf\u00facio. Todo o bosque \u00e9 um enorme cemit\u00e9rio, cuja idade remonta pelo menos h\u00e1 2500 anos. Os disc\u00edpulos que a\u00ed se deslocavam em romariam eram supostos trazer uma \u00e1rvore para plantar da sua terra natal. Este facto proporciona hoje ao visitante a contempla\u00e7\u00e3o de uma flora bem diversa, no meio da qual se espalham os t\u00famulos. Antes de chegarmos ao local onde repousa o Venerando Mestre, depois de percorrer uma \u00e1lea empedrada, deparamos com duas enormes est\u00e1tuas de pedra, esp\u00e9cie de guardas daquele espa\u00e7o sagrado. Um segura de encontro ao peito um livro, o outro segura uma espada.<\/p>\n<p class=\"p5\">Estes dois s\u00edmbolos parecem constituir os dois fundamentos do poder na China. Curiosamente, ao contr\u00e1rio de outras mitologias, onde o car\u00e1cter militar, guerreiro, m\u00e1gico, precede o estabelecimento da ordem e \u00e9 fundador; na China o livro precede a espada e esta surge j\u00e1 domesticada pela ac\u00e7\u00e3o virtuosa que precedeu a sua apari\u00e7\u00e3o. Indispens\u00e1vel ao exerc\u00edcio do poder, a espada encontra-se, contudo, de certo modo, submetido ao ditame do livro.<\/p>\n<p class=\"p5\">\u00c9 o que se torna evidente quando olhamos para a hist\u00f3ria fundacional da dinastia Zhou (1122-256 A.C.). O seu primeiro soberano ficou conhecido por rei Wen, que era um g\u00e9nio civilizador, pleno de virtude e compaix\u00e3o, que n\u00e3o se vingava dos seus inimigos e que chegou mesmo a prescindir de parte dos seus dom\u00ednios em troca do fim da tortura da trave. Nas suas terras reinava a harmonia \u2013 os camponeses cediam uns aos outros nas discuss\u00f5es sobre os limites dos campos e todos cediam aos mais velhos. Perante este reino de virtudes os Chefes entenderam que Wen tinha o mandato do C\u00e9u e rapidamente foi deposta a dinastia Yin, encabe\u00e7ada por um d\u00e9spota, para que se iniciar a dinastia dos Zhou. Reconhecido, Wen n\u00e3o entabulou nenhuma guerra contra o rei Zhouwang, o \u00faltimo dos Yin. Foi ao seu filho, o rei Wu, a quem coube a materializa\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria. Lan\u00e7ou-se na guerra contra Yin porque o tirano &#8220;oprimia as Cem Fam\u00edlias&#8221;. Vencedor incontestado, Wu consolida o poder da dinastia.<\/p>\n<p class=\"p5\">Temos ent\u00e3o os dois aspectos da monarquia, mas a virtude ordenadora precede o aspecto marcial e, de certo modo, controla-o. O mandato celeste pertence a Wen e s\u00f3 depois a Wu. Ali\u00e1s, os pr\u00f3prios nomes Wen e Wu transformaram-se em conceitos que descrevem os soberanos posteriores como possuindo em maior quantidade uma ou outra qualidade. <i>Wen<\/i> significa, numa tradu\u00e7\u00e3o alargada, cultura, ordenamento, virtude, enquanto que <i>Wu<\/i> se refere ao car\u00e1cter marcial do exerc\u00edcio do poder. Se, por um lado, compreendemos que o Livro precede a Espada; por outro torna-se claro tamb\u00e9m que sem a ac\u00e7\u00e3o cortante se torna imposs\u00edvel estabelecer um reino virtuoso. A espada ascende a s\u00edmbolo real, de guardi\u00e3o da justi\u00e7a e garante mesmo da aplica\u00e7\u00e3o do Livro, presente no t\u00famulo do criador do pensamento que viria a ser considerado doutrina de Estado ao longo da extensa hist\u00f3ria da China.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p10\"><b>3. A espada que corta <\/b><b>jade e neblina<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">A dualidade sexual da espada nas concep\u00e7\u00f5es chinesas, simplesmente, significa tamb\u00e9m que esta possui uma natureza totalizante. Da\u00ed que exista o perigo de se transformar em drag\u00e3o, um animal que tamb\u00e9m re\u00fane em si v\u00e1rias naturezas e por isso representa tamb\u00e9m a totalidade. Essa sua caracter\u00edstica encontra-se tamb\u00e9m relacionada com o facto de a espada ser instrumento de vida e de morte, capaz de cortar, mas tamb\u00e9m de religar e de manter intactas essas mesmas liga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p5\">Neste sentido existe tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre a espada e a alquimia, n\u00e3o apenas pela rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre os alquimistas e os ferreiros \u2013 at\u00e9 porque a forja \u00e9 o primeiro espa\u00e7o alqu\u00edmico, mas sobretudo porque, como j\u00e1 vislumbr\u00e1mos, a espada \u00e9 mestra do Tempo. Faz parte das suas qualidades cortar com o Tempo passado e preservar o novo Tempo, empurrando assim a Hist\u00f3ria para a sua finaliza\u00e7\u00e3o, tal como o alquimista procura o controlo da historicidade, nomeadamente atrav\u00e9s da demanda da imortalidade.<\/p>\n<p class=\"p5\">Falam os chineses de uma famosa espada que &#8220;corta o jade e a neblina&#8221;. Eis os dois p\u00f3los de um instrumento capaz de destruir o material mais duro mas tamb\u00e9m de afastar o res\u00edduo mais mole, conhecido por confundir os guerreiros. S\u00f3 uma mente clara e um esp\u00edrito virtuoso compreender\u00e3o o manejo da espada e dos seus s\u00edmbolos. Os outros, que n\u00e3o queiram seguir a Virtude (<i>De<\/i>), dever\u00e3o quedar-se pela sua contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>A espada s\u00ednica<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\">Na China, os dois tipos b\u00e1sicos de espadas eram direitos: a <i>jian<\/i>, de l\u00e2mina dupla, e a <i>dao<\/i>, de uma s\u00f3 l\u00e2mina. Enquanto a <i>jian<\/i> manteve a sua forma b\u00e1sica, a <i>dao<\/i> evolui para muitas formas diferentes, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia da guerra e do com\u00e9rcio. A <i>zhibeidao<\/i>, uma espada direita de uma s\u00f3 l\u00e2mina, foi exportada para o Jap\u00e3o durante a dinastia Tang (600-900), onde evolui para a forma curva do <i>tachi<\/i> e depois para a <i>katana<\/i>. A sua copa, em forma de disco, desenvolveu-se no Jap\u00e3o e foi mais tarde adaptada para ser utilizada nas espadas chinesas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os encontros com as tribos n\u00f3madas da \u00c1sia Central levaram ao desenvolvimento da <i>peidao<\/i>, um verdadeiro sabre de l\u00e2mina curva. As espadas destas tribos n\u00f3madas influenciaram mais tarde o desenvolvimento de l\u00e2minas curvas por toda a \u00c1sia, Europa de Leste e M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p class=\"p1\">O com\u00e9rcio ao longo da Rota da Seda espalhou as t\u00e9cnicas de fabrico de espadas nos dois sentidos. Motivos decorativos chineses surgem em espadas indianas e isl\u00e2micas, enquanto as l\u00e2minas facetadas de inspira\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica apareciam nas espadas <i>dao<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9 pac\u00edfico que o desenvolvimento das espada na China constitui um dos mais not\u00e1veis cap\u00edtulos da hist\u00f3ria da espada. Os avan\u00e7os chineses no bronze s\u00e3o bem conhecidos, mas ainda mais not\u00e1vel \u00e9 o aperfei\u00e7oamento chin\u00eas, cerca do ano 300 a.E.C., de t\u00e9cnicas de processamento do a\u00e7o que hoje no Ocidente conhecemos por Processo de Redu\u00e7\u00e3o de Carbono Siemans e Processo Bessemer, normalmente atribu\u00eddos aos s\u00e9culos XIX e XX europeus.<\/p>\n<p class=\"p1\">Anos-luz \u00e0 frente dos seus vizinhos, os Chineses desenvolveram estilos independentes e aplicaram criatividade e imagina\u00e7\u00e3o ao design das espadas. A <i>Jian<\/i>, espada direita de l\u00e2mina dupla, \u00e9 um destes mais antigos designs. Sobreviveu at\u00e9 aos nossos dias e \u00e9 normalmente encontrada nas m\u00e3os dos praticantes de artes marciais e <i>tai chi<\/i>. Uma grande variedade de sabres foi igualmente desenvolvida na China, desde o poderoso <i>niuweidao<\/i> (Sabre Rabo de Boi), de l\u00e2mina larga, ao mais refinado e suavemente curvo <i>liuyedao<\/i> (Sabre Folha de Salgueiro), bem como muitos outros tipos. Estas espadas exibem uma \u201cpattern-welding\u201d sofisticada, o uso de cal para um diferenciado tratamento de aquecimento, e tamb\u00e9m folha m\u00faltipla, semelhante, ou talvez mesmo ultrapassando, o fabrico e a performance das espadas japonesas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Se bem que as espadas chinesas sejam as mais graciosas e tecnologicamente avan\u00e7adas da hist\u00f3ria da humanidade, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que sofreram bastante em termos da continuidade do seu desenvolvimento. Em muitas \u00e9pocas da hist\u00f3ria da China, a tecnologia do fabrico de espadas atingiu pontos incrivelmente elevados. Infelizmente, porque os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o eram normalmente considerados segredos militares, os conhecimentos da arte n\u00e3o eram passados a outros e morriam no espa\u00e7o de uma gera\u00e7\u00e3o. Os fabricantes de espadas que se seguiam tinham de descodificar poemas ou can\u00e7\u00f5es cr\u00edpticas \u2014 se \u00e9 que alguns existiam \u2014 para redescobrir as antigas t\u00e9cnicas, por vezes s\u00f3 o conseguindo alguns s\u00e9culos mais tarde.<\/p>\n<p class=\"p1\">O uso da cal para obter diferentes n\u00edveis de dureza no gume e no corpo das espadas foi originalmente desenvolvido pelos chineses. Os Japoneses, cujas l\u00e2minas eram direitas nos primeiros tempos, adoptaram mais tarde esta tecnologia. (Estas l\u00e2minas eram conhecidas por <i>chokuto<\/i> ou \u201cespada direita\u201d). A cal era aplicada ao corpo e \u00e0 parte detr\u00e1s da espada enquanto o gume permanecia exposto. No fim do tratamento t\u00e9rmico do a\u00e7o, no momento de temperar a l\u00e2mina, a cal permitia um arrefecimento diferenciado da pr\u00f3pria l\u00e2mina. O gume exposto formava uma forma dura e cristalina de a\u00e7o conhecida por martensite enquanto que o corpo arrefecia mais devagar e formava a pearlite, mais mole. Logo, na mesma l\u00e2mina era poss\u00edvel casar duas qualidades opostas. O a\u00e7o duro do gume garantia a capacidade de corte e a resist\u00eancia do revestimento enquanto o corpo mais mole oferecia maior toler\u00e2ncia ao choque e absor\u00e7\u00e3o do impacto. Forjada direita, a l\u00e2mina japonesa adquiria a sua curva quando temperada, porque o a\u00e7o martensite do gume \u00e9 molecularmente mais largo que a pearlite e logo a curva era o resultado natural do tratamento t\u00e9rmico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Notas\u00a0<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p3\">1. No mundo de hoje a espada surge como objecto est\u00e9tico, ligado fundamentalmente \u00e0 colec\u00e7\u00e3o. No entanto, n\u00e3o perdeu nem um pouco o car\u00e1cter de objecto de prest\u00edgio e de deposit\u00e1rio de saber huamno quer do ponto de vista tecnol\u00f3gico, quer hist\u00f3rico, quer cultural.<\/li>\n<li class=\"p3\">2. De notar que mesmo em ex\u00e9rcitos relativamente modernos, como por exemplo o napole\u00f3nico, o uso da espada era reservado aos oficiais, apesar das armas de fogo desempenharem o principal papel nos combates. A espada \u00e9 assim um signo de distin\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o social. \u00c9 sabido que na Europa e noutras longitudes a aprendizagem da esgrima era reservada aos filhos das fam\u00edlias nobres.<\/li>\n<li class=\"p3\">3. Existem fabulosas hist\u00f3rias que referem a exist\u00eancia no passado de espadas extraordin\u00e1rias, cujas virtudes em muito ultrapassam as contempor\u00e2neas. Lendas \u00e0 parte, a verdade \u00e9 que a partir do s\u00e9culo IX, nomeadamente no Jap\u00e3o, pouco se acrescentou \u00e0 arte de forjar e temperar espadas. Na China, a espada que cortava o jade \u00e9 lend\u00e1ria, tal como a Excalibur celta cujo gume cortava indiferentemente metal e a pedra.<\/li>\n<li class=\"p3\">4. A espada \u00e9 um prolongamento do bra\u00e7o, o seu manejo um exerc\u00edcio da mente, a pistola \u00e9 um prolongamento do desejo, mata \u00e0 dist\u00e2ncia<\/li>\n<li class=\"p3\">5. Conceito de Mircea Eliade que significa &#8220;algo de sagrado se mostra&#8221;. Mircea Eliade, <i>O Sagrado e o Profano<\/i>, Edi\u00e7\u00f5es Livros do Brasil, Lisboa.<\/li>\n<li class=\"p3\">6. \u00c9 o caso da inven\u00e7\u00e3o do carro de transporte cuja primeira utiliza\u00e7\u00e3o era meramente ritual, servindo para transportar uma representa\u00e7\u00e3o do disco solar, o que n\u00e3o deixa de ser um argumento para a teoria segundo a qual a inven\u00e7\u00e3o da roda ter\u00e1 nascido, antes demais, da representa\u00e7\u00e3o do Sol. Cf. Eliade, Mircea; <i>Ferreiros e Alquimistas<\/i>; Rel\u00f3gio d&#8217;\u00c1gua, pag.21.<\/li>\n<li class=\"p3\">7. Mircea Eliade, <i>op.cit.<\/i>; p\u00e1g. 19. Esquim\u00f3s, Aztecas, Maias e Incas, que desconheciam a fundi\u00e7\u00e3o, utilizavam o ferro celeste, a que davam mais valor do que ao ouro. Quando interrogados por Cortez de onde vinham as suas facas, os Aztecas apontaram para cima e responderam que vinham do C\u00e9u. Igualmente refer\u00eancias ao uso dos metais de origem celeste s\u00e3o verificadas na Sum\u00e9ria e na China.<\/li>\n<li class=\"p3\">8. Casamento entre seres divinos. Cf. Mircea Eliade, <i>O Sagrado e o Profano<\/i>, op.cit..<\/li>\n<li class=\"p3\">9. Num filme americano dos anos 50, \u201cTreasures of Sierra Madre\u201d, de John Houston, um velho mineiro insite em apagar os tra\u00e7os de uma mina j\u00e1 explorada, argumentado que tem de \u201csarar a montanha, reparar a ferida que lhe infligira\u201d. Este caso demonstra que este tipo de concep\u00e7\u00e3o da mina enquanto ferida na Terra e da necessidade de a curar persistiu at\u00e9 muito recentemente.<\/li>\n<li class=\"p3\">10. Granet, Marcel; <i>Danses et L\u00e9gendes de la Chine Ancienne<\/i>; PUF, 1926.<\/li>\n<li class=\"p3\">11. S\u00e3o, por exemplo, os casos descritos por Marcel Griaule entre os Dogon do Mali ou por Siegfried Nadel entre os Nupe da Nig\u00e9ria.<\/li>\n<li class=\"p3\">12. O primeiro imperador dos Han, Gao Zu, era de origens humildes. Ao que parece, seria dotado de um enorme carisma e sinalizado por v\u00e1rias marcas divinas, entre as quais 72 pontos negros na sua coxa esquerda. Este n\u00famero refere-se \u00e0 confraria e ao seu poder b\u00e9lico. Gao Zu viria a recuperar o culto e as dansas de Chiyou.<\/li>\n<li class=\"p3\">13. Granet, Marcel; <i>Danses et L\u00e9gendes de la Chine <\/i>Ancienne; PUF, 1926.<\/li>\n<li class=\"p3\">14. Existia na cidade de Gordium, na \u00c1sia Menor, um n\u00f3 de tal modo complicado que ningu\u00e9m o conseguia desatar. Rezava a lenda que quem conseguisse tal fa\u00e7anha se tornaria senhor de toda a \u00c1sia. Alexandre, perante a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o hesitou e de um golpe cortou o n\u00f3.<\/li>\n<li class=\"p3\">15. Quando os primeiros mong\u00f3is desembarcaram no Jap\u00e3o, a sua infantaria venceu facilmente os samurais japoneses cujo des\u00edgnio guerreiro era o prest\u00edgio de encontrar um inimigo digno para entabular um combate individual. S\u00f3 que quando os mong\u00f3is enviaram uma armada de duzentos mil homens para a invas\u00e3o total, um tuf\u00e3o inesperado afundou e dispersou os navios, fazendo abortar os planos de conquista.<\/li>\n<li class=\"p3\">16. \u201cNo Jap\u00e3o algumas facas e espadas s\u00e3o feitas de um a\u00e7o fino que \u00e9 processado cerca de cem vezes de tal modo que se a espada for erguida ao sol os seus reflexos s\u00e3o suficientes para iluminar um quarto interior. (&#8230;) Os B\u00e1rbaros (Japoneses) clamam que este a\u00e7o \u00e9 capaz de cortar jade. Eu pr\u00f3prio, no entanto, nunca assisti a esta proeza\u201d. Este par\u00e1grafo est\u00e1 inclu\u00eddo na sec\u00e7\u00e3o referente aos metais e n\u00e3o \u00e0s armas.<\/li>\n<li class=\"p3\">17. Cf. Georges Dum\u00e9zil, <i>Le heritage indo-europ\u00e9en \u00e0 Rome<\/i>; Gallimard, 1946. O autor descreve as caracter\u00edsticas brutais, terr\u00edveis, dos fundadores de reinos como R\u00f3mulo, alimentado por uma loba (animal de Marte, deus da Guerra) e culpado de um crime abomin\u00e1vel como o fratic\u00eddio, mas imbu\u00eddo de suficiente sanha m\u00e1gico-guerreira para fundar a cidade de Roma. O segundo rei de Roma, Numa, estabiliza a cidade atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-jur\u00eddicas.<\/li>\n<li class=\"p3\">18. Cf. Szuma Chien, <i>Records of the Historian<\/i>. The Commercial Press, HK.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] notas sobre a espada e o seu simbolismo &nbsp; Yu, o Grande, conhecia a arte da forja. Sabia distinguir os metais machos dos metais f\u00eameas. As lebres de Wu, de cujo fel se fez um par de espadas, eram um casal, logo cada uma das espadas t\u00eam um sexo diferente. 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