{"id":1046,"date":"2025-10-20T22:44:41","date_gmt":"2025-10-20T14:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1046"},"modified":"2025-10-20T22:44:41","modified_gmt":"2025-10-20T14:44:41","slug":"conceitos-do-pensamento-chines-%e5%a4%a9-tian-ceu-%e5%9c%b0-di-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/conceitos-do-pensamento-chines-%e5%a4%a9-tian-ceu-%e5%9c%b0-di-terra\/","title":{"rendered":"Conceitos do Pensamento chin\u00eas &#8211; \u5929 (tian) c\u00e9u \u5730 (d\u00ec) terra"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">E<\/span><span class=\"s5\">nquanto<\/span><span class=\"s4\"> que no Ocidente o conceito de Natureza denota todo o universo exterior ao ser humano, que s\u00f3 tenuemente a ela se encontra ligado, no pensamento confucionista antigo o mesmo campo sem\u00e2ntico \u00e9 recoberto pelos conceitos de C\u00e9u (<\/span><span class=\"s6\">\u5929<\/span><span class=\"s4\"><i>tian<\/i>) e Terra (<\/span><span class=\"s6\">\u5730<\/span><span class=\"s4\"> <i>d\u00ec<\/i>), o que resulta numa polariza\u00e7\u00e3o daquilo que, substancialmente, para o ocidental \u00e9 uno. O primeiro \u00e9 redondo e tudo cobre; a segunda \u00e9 quadrada e est\u00e1 suspensa sobre a \u00e1gua, cercada pelos Quatro Mares. O C\u00e9u impregna todos os processos existentes (todos os seres) porque ignora o particular, n\u00e3o se det\u00e9m em quaisquer actualiza\u00e7\u00f5es ou parcialidades. Tal garante a plenitude do seu constante funcionamento (Julien, Fran\u00e7ois, 2007, 545). A Terra \u00e9 receptiva e conforme, ela tudo sustem e alimenta. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s7\">No <i>Livro das Muta\u00e7\u00f5es<\/i>, o hexagrama <i>Qian<\/i> (C\u00e9u) \u00e9 composto por seis linhas plenas, e o hexagrama <i>Kun<\/i> (Terra) \u00e9 desenhado com seis linhas quebradas, ou seja, puro <i>yang<\/i> e puro <i>yin<\/i>, o princ\u00edpio criador e a pot\u00eancia receptora. Note-se que esta concep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica da Natureza se complexifica noutros conceitos, como via (<i>dao<\/i>), sopro (<i>qi<\/i>) ou padr\u00e3o (<i>li)<\/i>, que formar\u00e3o um sistema de pensamento coerente e que se tem desenvolvido ao longo dos s\u00e9culos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Apesar destas altera\u00e7\u00f5es na diacronia e independentemente do papel que cada pensador ou escola lhe destinou, C\u00e9u denota para todos o mesmo significado de princ\u00edpio (no sentido de origem e causa) criativo e organizador, que impregna todos os seres. Para os confucionistas, o C\u00e9u n\u00e3o \u00e9 um ser sobrenatural, nem uma consci\u00eancia todo-poderosa ou interventora no particular, mas o conjunto de princ\u00edpios que funda a Natureza e enforma todos os processos.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Tal como n\u00e3o representa algo de sobrenatural, o C\u00e9u tamb\u00e9m n\u00e3o foi criado por uma pot\u00eancia divina ou uma consci\u00eancia\/vontade exterior a este mundo. Se, na mitologia chinesa da dinastia Shang, o C\u00e9u \u00e9 referido como habitado e como tendo um soberano (<i>tiandi<\/i>), nunca se trata de um Criador do universo, no sentido do Deus do Livro, mas de um monarca que gere os seus dom\u00ednios celestes como o imperador governa na Terra. Contudo, a partir da dinastia Zhou, o pr\u00f3prio termo di vai gradualmente desaparecendo e sendo substitu\u00eddo unicamente por <i>tian<\/i>. \u201cA transcend\u00eancia \u00e9 cada vez menos a de um mundo situado para l\u00e1 do humano, onde habitariam esp\u00edritos manipulando os elementos naturais; ela s\u00f3 subsiste como transcend\u00eancia da norma em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe est\u00e1 submetido, ao princ\u00edpio original em rela\u00e7\u00e3o aos dez mil seres\u201d. (Vandermesch, L\u00e9on<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>citado em Cheng, Anne, 1997, 56)<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Os autores confucionistas n\u00e3o escrevem nem falam sobre a cria\u00e7\u00e3o do C\u00e9u e da Terra, nem de qualquer preced\u00eancia entre ambos. Eles j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o e sempre l\u00e1 estiveram; n\u00e3o se refere um princ\u00edpio, como n\u00e3o se prediz um fim. Trata-se de duas inst\u00e2ncias de sinal contr\u00e1rio mas complementares, interligadas, de dois p\u00f3los que n\u00e3o existem um sem um outro, que continuamente se relacionam e interagem, como representa o s\u00edmbolo do Yin\/Yang que coloca em cena uma funcionalidade e, desdobrada no <i>Livro das Muta\u00e7\u00f5es<\/i>, desmonta a quest\u00e3o da preced\u00eancia. Ao contr\u00e1rio de uma cosmogonia religiosa, que exige o dogma de um acontecimento desencadeador da Cria\u00e7\u00e3o e outras rupturas, como a expuls\u00e3o do Para\u00edso ou a vinda de Cristo, estamos perante um mundo entendido em termos de funcionamento e de processo. Nessa funcionalidade, o C\u00e9u representa \u201ca perseveran\u00e7a de ir em frente (<i>jian<\/i>, incarnado pelo hexagrama <i>Qian<\/i>)\u201d e a Terra \u201ca disponibilidade para se conformar\u201d (<i>shun<\/i>, incarnado pelo hexagrama <i>Kun<\/i>)\u201d (Julien, 2007, 585) Mas tanto a iniciativa como a receptividade t\u00eam necessidade da exist\u00eancia uma da outra. A rigidez do <i>yang<\/i> precisa da maleabilidade do <i>yin<\/i> para se exercer.<\/p>\n<p class=\"p5\">Alguns dos atributos que L\u00e1ucio reconhece na Via (<span class=\"s8\">\u9053<\/span> <i>dao<\/i>) surgem no confucionismo como qualidades do C\u00e9u. Ele \u00e9 silencioso e inodoro. \u201cSer\u00e1 que o C\u00e9u fala? As quatro esta\u00e7\u00f5es seguem o seu curso e todas as coisas s\u00e3o criadas. Mas ser\u00e1 que o C\u00e9u fala? O C\u00e9u n\u00e3o fala.\u201d (M\u00eancio) A actividade celeste, resguardada por este tr\u00e1gico sil\u00eancio e por uma infinita magnitude, \u00e9 incompreens\u00edvel para o ser humano. Por isso, o C\u00e9u \u00e9 descrito como sendo \u201cinconceb\u00edvel\u201d, \u201cextenso e substancial\u201d, \u201cimpregnante\u201d, \u201cprofundo e infinito\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">Tanto o confucionista Xunzi, como o daoista Zhuangzi utlizam, mais radicalmente, a palavra <i>tian<\/i> para designar o que \u00e9 <i>natural<\/i> por oposi\u00e7\u00e3o ao <i>artificial<\/i>, ao que \u00e9 feito pelo homem. Por exemplo, diz Mestre Zhuang, as quatro patas de um cavalo s\u00e3o <i>tian<\/i>, enquanto a r\u00e9dea \u00e9 artif\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">O C\u00e9u \u00e9 o agente e a causa dos efeitos que s\u00e3o pass\u00edveis de ser objecto da experi\u00eancia humana. Esta experi\u00eancia \u00e9 fruto das sensa\u00e7\u00f5es recolhidas na vida quotidiana, \u00e0s quais s\u00e3o aplicadas as regras de observa\u00e7\u00e3o e valora\u00e7\u00e3o. Consequentemente, porque apenas pode ser percebido atrav\u00e9s deste modo de observa\u00e7\u00e3o e julgamento, o C\u00e9u n\u00e3o \u00e9 <i>ante rem<\/i> mas <i>in rebus<\/i>, ou seja, trata-se de um universal que existe nas coisas particulares (como queria Arist\u00f3teles) e n\u00e3o um universal aprior\u00edstico, com uma exist\u00eancia independente dos seres particulares (como pregava Plat\u00e3o). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Contudo, esquecendo a perspectiva ontol\u00f3gica, de um ponto de vista \u00e9tico, se consideramos existir uma homologia entre o C\u00e9u e a natureza humana, como fazem os confucionistas, poder\u00edamos conceber um conjunto aprior\u00edstico de valores, comuns a toda a humanidade. Veremos que poder\u00e1 n\u00e3o ser t\u00e3o linear assim. E n\u00e3o \u00e9 assim porque esses valores n\u00e3o s\u00e3o em si mesmo fixos, tendo de ser aquilatados no devir.<\/p>\n<p class=\"p5\">Para os confucionistas, existe uma rela\u00e7\u00e3o de homologia entre o C\u00e9u e a natureza humana. Entre os seres, o Homem \u00e9 o \u00fanico que surge dotado de intelig\u00eancia, de consci\u00eancia e, sobretudo, da capacidade de distinguir o bem do mal ou o adequado do desadequado. Mas essa rela\u00e7\u00e3o expressa-se em termos de funcionamento: o C\u00e9u e a Terra produzem incessantemente seres; o Homem produz incessantemente moral, influenciando os costumes e as condutas.<\/p>\n<p class=\"p5\">A palavra C\u00e9u \u00e9 usada juntamente com outras para obter conceitos derivados ou mesmo outros significados. \u00c9 o caso, por exemplo, de <i>tianjia<\/i> (\u00e0 letra \u201csob o C\u00e9u\u201d, mas com o sentido englobante de \u201ctudo sob o C\u00e9u\u201d), vulgarizado durante a dinastia Qin, que aparece hoje no pensamento pol\u00edtico contempor\u00e2neo chin\u00eas como adequado a exprimir o mundo global.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Enquanto que no Ocidente o conceito de Natureza denota todo o universo exterior ao ser humano, que s\u00f3 tenuemente a ela se encontra ligado, no pensamento confucionista antigo o mesmo campo sem\u00e2ntico \u00e9 recoberto pelos conceitos de C\u00e9u (\u5929tian) e Terra (\u5730 d\u00ec), o que resulta numa polariza\u00e7\u00e3o daquilo que, substancialmente, para o ocidental&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1047,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1046","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/8-Tai-Xaingzhou.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1046"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1046\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1048,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1046\/revisions\/1048"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}