{"id":1049,"date":"2025-10-20T22:49:20","date_gmt":"2025-10-20T14:49:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1049"},"modified":"2025-10-20T22:49:20","modified_gmt":"2025-10-20T14:49:20","slug":"confucio-nao-faz-parte-de-um-mito-e-uma-figura-historica-concreta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/confucio-nao-faz-parte-de-um-mito-e-uma-figura-historica-concreta\/","title":{"rendered":"&#8220;Conf\u00facio n\u00e3o faz parte de um mito: \u00e9 uma figura hist\u00f3rica concreta&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus, ex-embaixador na China, <\/b><b>destaca actualidade do confucionismo<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\">C<span class=\"s1\">onf\u00facio<\/span> criou, h\u00e1 cerca de dois mil anos e quinhentos anos, por volta do s\u00e9culo V a.E.C.,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>uma corrente de pensamento ainda hoje presente na sociedade, cultura e sistema pol\u00edtico chin\u00eas. O debate em torno da modernidade desta forma de pensar a postura do homem e o seu lugar na sociedade decorreu em Lisboa, no \u00e2mbito das Confer\u00eancias da Primavera promovidas pelo Centro Cient\u00edfico e Cultural de Macau (CCCM). Coube ao investigador e antigo embaixador de Portugal em Pequim, Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus, apresentar &#8220;A actualidade do pensamento de Conf\u00facio&#8221;, tendo este come\u00e7ado por destacar que o confucionismo est\u00e1 hoje muito presente no discurso pol\u00edtico chin\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\">Existe, assim, &#8220;actualidade no pensamento [confuciano] independentemente de o mesmo ter, obviamente, existido num contexto hist\u00f3rico totalmente diverso&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8220;Diria que \u00e9 neste quadro da actualidade do confucionismo que vemos, por exemplo, Xi Jinping, depois da sua tomada de posse, ir \u00e0 terra natal de Conf\u00facio prestar-lhe homenagem, al\u00e9m de ter estado presente nas comemora\u00e7\u00f5es oficiais do seu anivers\u00e1rio. Temos ainda as diversas cita\u00e7\u00f5es de Xi Jinping em muitas interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Posso dizer que em todos os discursos que tenho lido de Xi Jinping as cita\u00e7\u00f5es de Conf\u00facio s\u00e3o permanentes&#8221;, destacou o antigo diplomata.<\/p>\n<p class=\"p3\">Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus lembrou mesmo o discurso de Xi proferido a 23 de Outubro de 2014, sobre a ideia de acelerar a constru\u00e7\u00e3o do Estado de Direito socialista, em que o Presidente refere &#8220;as ideias de Conf\u00facio sobre os homens e relativas ao que deve ser uma boa governa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">A 18 de Janeiro de 2017, na sede da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Xi Jinping citou tamb\u00e9m a frase de Conf\u00facio, presente nos seus &#8220;Analectos&#8221;, que remete para a seguinte ideia: &#8220;Trata e julga os outros como gostavas que te fizessem a ti, n\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o queres que te fa\u00e7am a ti&#8221;. Trata-se da refer\u00eancia a uma sociedade harmoniosa, &#8220;a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade compartilhada no futuro&#8221;, exemplificou Duarte de Jesus.<\/p>\n<p class=\"p3\">Apesar do lado actual do confucionismo, a verdade \u00e9 que esta corrente de pensamento &#8220;sempre constituiu um dos pilares do pensamento e da cultura chinesa&#8221;, representando um lado &#8220;racionalista e pragm\u00e1tico&#8221; no que diz respeito \u00e0s vis\u00f5es do que deve ser um Estado, um Governo, um cidad\u00e3o e o relacionamento entre culturas e etnias.<\/p>\n<p class=\"p3\">O antigo embaixador destacou que &#8220;Conf\u00facio n\u00e3o faz parte de um mito: \u00e9 uma figura hist\u00f3rica concreta&#8221;, tendo trabalhado na Administra\u00e7\u00e3o chinesa e ensinado aos outros o seu pensamento, recorrendo tamb\u00e9m a disc\u00edpulos, \u00e0 semelhan\u00e7a de outras figuras hist\u00f3ricas como Jesus ou S\u00f3crates.<\/p>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 v\u00e1rios princ\u00edpios em torno do confucionismo, e um deles \u00e9 a &#8220;ideia de que a sociedade mundial \u00e9 uma fam\u00edlia&#8221;, ou de que &#8220;o civil \u00e9 mais importante do que o religioso&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8220;Diria que a principal virtude que Conf\u00facio defendeu foi a humanidade, a ideia de humanismo&#8221;, destacou Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus, que n\u00e3o esqueceu o conceito de <i>Li<\/i>, &#8220;que poder\u00edamos definir como regulamento, protocolo&#8221;, e que &#8220;est\u00e1 na base da ideia de um Estado de Direito, constitucional&#8221;, onde se d\u00e1 a primazia \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o no funcionamento e organiza\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p3\">Est\u00e1 depois muito presente, no confucionismo, a ideia de &#8220;reciprocidade&#8221;, tratando-se de &#8220;um elemento fundamental em todas as teorias modernas de rela\u00e7\u00f5es internacionais&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">Considerando que o pensamento de Conf\u00facio tem um lado de &#8220;flexibilidade&#8221;, \u00e9 a import\u00e2ncia que \u00e9 dada aos mais velhos, &#8220;ao mesmo tempo que se d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o ao moderno&#8221;. &#8220;Penso que Conf\u00facio, exprime, de resto, a ideia de se conhecer o presente para se saber o que ser\u00e1 o futuro, e entender o passado para se conhecer o presente&#8221;, disse ainda o antigo diplomata que recordou uma conversa que teve com uma senhora chinesa aquando da sua viv\u00eancia em Pequim. Nesse di\u00e1logo, a senhora recordou a ideia confuciana de que &#8220;pelo menos quatro gera\u00e7\u00f5es de uma fam\u00edlia devem sentar-se \u00e0 mesma mesa, para que os mais novos aprendam com os mais velhos e os mais velhos aprendam com os mais novos&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ao contr\u00e1rio do que podem dar a entender as manifesta\u00e7\u00f5es populares relativamente a Conf\u00facio, com a constru\u00e7\u00e3o de templos em toda a China, a verdade \u00e9 que Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus n\u00e3o considera o confucionismo como sendo uma religi\u00e3o, mas sim uma filosofia ou corrente de pensamento. Este destacou, na sua apresenta\u00e7\u00e3o, o &#8220;racionalismo [de Conf\u00facio] face \u00e0 religiosidade do seu pensamento&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8220;Conf\u00facio n\u00e3o se pode definir como ateu, mas como agn\u00f3stico, pois manteve uma postura mais agn\u00f3stica face \u00e0s divindades. H\u00e1, evidentemente, formas populares [de representa\u00e7\u00e3o], mas que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o confucionismo. A mesma coisa acontece com o tao\u00edsmo, que com frequ\u00eancia se considera uma religi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. \u00c9 uma filosofia com laivos de misticismo e metaf\u00edsica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\">O respons\u00e1vel defendeu, neste sentido, que o &#8220;confucionismo \u00e9, essencialmente, um pensamento racionalista e, na liga\u00e7\u00e3o com os antepassados, n\u00e3o se pode considerar que tenha mat\u00e9ria religiosa&#8221;. &#8220;Considero que Conf\u00facio foi um pensador laicista e fundamentalmente agn\u00f3stico. Os seus disc\u00edpulos foram, depois, quase ate\u00edstas&#8221;, frisou.<\/p>\n<p class=\"p3\">Se o pensamento de Conf\u00facio \u00e9 hoje actual e est\u00e1 bastante presente no discurso pol\u00edtico, a verdade \u00e9 que nem sempre foi assim, tendo sido praticamente banido do pa\u00eds entre finais do s\u00e9culo XIX e in\u00edcios do s\u00e9culo XX, no chamado per\u00edodo da &#8220;Nova Cultura&#8221;, e mesmo no per\u00edodo do mao\u00edsmo e da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, j\u00e1 nos anos 60 e 70. Contudo, &#8220;Conf\u00facio ganhou um novo f\u00f4lego na \u00e9poca actual, e particularmente com Xi Jinping.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\">Conf\u00facio &#8220;n\u00e3o esteve ligado a nenhuma religi\u00e3o&#8221; e foi &#8220;fundamentalmente um pol\u00edtico, cuja principal ambi\u00e7\u00e3o foi a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre homens e Estados, sendo esse o objectivo do confucionismo&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">Outro dos pontos do pensamento confucionista \u00e9 a ideia de que o homem deve subir na vida e na carreira atrav\u00e9s do m\u00e9rito e do estudo e n\u00e3o por pertencer a boas fam\u00edlias ou por conhecimentos pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8220;Conf\u00facio sempre foi um militante contra a nobreza de sangue, sendo a favor da nobreza [de car\u00e1cter] com liga\u00e7\u00e3o \u00e0 instru\u00e7\u00e3o&#8221;, tendo distinguido entre o &#8220;homem de pouco&#8221; e o &#8220;homem nobre&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\">&#8220;No decurso da hist\u00f3ria da cultura da sociedade chinesa, assistimos \u00e0 import\u00e2ncia do estudo nas categorias obtidas nas academias confucionistas e da determina\u00e7\u00e3o das categorias sociais na Administra\u00e7\u00e3o imperial. Sabemos que era mediante os graus obtidos nas academias que os chineses obtinham maiores ou menores graus no mandarinato. Pode, assim, afirmar-se, que o confucionismo sempre apontou para uma sociedade epist\u00e9mica, em que as categorias sociais n\u00e3o se definem pela riqueza ou nobreza de sangue, mas pela instru\u00e7\u00e3o&#8221;, concluiu.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Jos\u00e9 Manuel Duarte de Jesus, ex-embaixador na China, destaca actualidade do confucionismo &nbsp; Conf\u00facio criou, h\u00e1 cerca de dois mil anos e quinhentos anos, por volta do s\u00e9culo V a.E.C.,\u00a0 uma corrente de pensamento ainda hoje presente na sociedade, cultura e sistema pol\u00edtico chin\u00eas. 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