{"id":1058,"date":"2025-10-20T22:57:17","date_gmt":"2025-10-20T14:57:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1058"},"modified":"2025-10-20T22:57:17","modified_gmt":"2025-10-20T14:57:17","slug":"o-vazio-amoroso-em-francois-cheng","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/o-vazio-amoroso-em-francois-cheng\/","title":{"rendered":"O vazio amoroso em Fran\u00e7ois Cheng"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>I<br \/>\n<\/b><b>O vazio amoroso<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">F<span class=\"s2\">ran\u00e7ois Cheng<\/span> (1929 &#8211; ) \u00e9 um grande escritor, fil\u00f3sofo, cal\u00edgrafo, enfim sin\u00f3logo, descendente de chineses, radicado em Fran\u00e7a. Tem alguns estudos profundos dedicados \u00e0 pintura chinesa, nos quais se destaca o seu pensamento filos\u00f3fico, como em: <i>L\u2019 Espace du R\u00eave: mille ans de Peinture Chinoise<\/i> (1980); <i>L\u00b4\u00c9criture Po\u00e9tique Chinoise: Suivi d\u2019 une Antologie des Po\u00e8mes des Tang<\/i> (1982) e, sobretudo, <i>Vide et Plein: Le Langage Pictoral Chinois<\/i> (1991), com reflex\u00f5es muito interessantes sobre o vazio do ponto de vista filos\u00f3fico.<\/p>\n<p class=\"p5\">Possui ainda uma obra liter\u00e1ria da qual se destacam dois romances premiados, ambos traduzidos para portugu\u00eas pela editora Biz\u00e2ncio, o primeiro <i>Le Dit de Tianyi<\/i> (1998), que lhe valeu o pr\u00e9mio Femina; o segundo, que aqui se analisar\u00e1 <i>L\u2019 <\/i>\u00c9ternit\u00e9<i> n\u2019 est pas de Trop <\/i>(2002) , a prop\u00f3sito do vazio amoroso pelo qual se conduzir\u00e1 o leitor at\u00e9 ao vazio filos\u00f3fico. A obra, traduzida para portugu\u00eas por Francisco Agarez, sob o t\u00edtulo de<i> A Eternidade n\u00e3o \u00e9 de mais, <\/i>valeu-lhe o Grande Pr\u00e9mio da Francofonia da Academia Francesa.<\/p>\n<p class=\"p5\">Atrav\u00e9s dela somos conduzidos a finais da dinastia Ming, tal como sucedeu a Fran\u00e7ois Cheng quando convidado para um col\u00f3quio em Royaumont numa antiga abadia restaurada, deu com um legado de um erudito chin\u00eas \u00e0 biblioteca conventual, no qual descobriu uma novela not\u00e1vel intitulada <i>Hist\u00f3ria do Homem da Montanha<\/i>. Perdeu-se na narrativa, que relatava a paix\u00e3o amorosa persistente para al\u00e9m do tempo, sendo recompensada trinta anos mais tarde, pela persist\u00eancia do par amoroso. Mas o mais extraordin\u00e1rio est\u00e1 para vir. Cheng, embora muito tocado pelo livro, seria atra\u00eddo pelo mundo dos afazeres profissionais, at\u00e9 que volvidos vinte anos foi de novo convidado a participar num encontro intelectual em Royaumont. Saltou-lhe \u00e0 mem\u00f3ria com acutil\u00e2ncia a hist\u00f3ria que n\u00e3o tinha sido capaz de esquecer. Por\u00e9m, quando chegou \u00e0 biblioteca a obra havia desaparecido. Logo se comprometeu a refazer a narrativa que tanto o impressionara. Chegaria, por fim, a coincid\u00eancia mais admir\u00e1vel de todas, outra vez distra\u00eddo por raz\u00f5es mundanas, s\u00f3 conseguiria realizar o seu intento, dez anos depois, ou seja, somando aos vinte que tinham passado, trinta anos corridos. Tudo indicava que a realiza\u00e7\u00e3o do feito seria t\u00e3o fora de s\u00e9rie como a coincid\u00eancia a que o autor chamou \u201cmilagrosa\u201d (Cheng, 2002, 8).<\/p>\n<p class=\"p5\">Aquela grande paix\u00e3o regressa \u00e0 vida agora pela m\u00e3o do escritor, que a consagrar\u00e1 em Fran\u00e7a e no mundo atrav\u00e9s do mais importante galard\u00e3o liter\u00e1rio franc\u00eas. Garantida fica a imortalidade do par amoroso chin\u00eas, Dao-Sheng, \u201co Santo do Dao\u201d, o m\u00e9dico adivinho, e Lan-Ying, a \u201cFina Orqu\u00eddea\u201d, que atados pelo fio vermelho invis\u00edvel do destino com que o Velhinho da Lua (<span class=\"s3\">\u6708\u8001<\/span>) p\u00f5e e disp\u00f5e casamentos e rela\u00e7\u00f5es, voltam a encontrar-se contra todas as expetativas. <span class=\"s4\"><sup>1<\/sup><\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Tal \u00e9 poss\u00edvel, como nos explica o escritor, porque \u201ca verdadeira paix\u00e3o amorosa n\u00e3o tem apenas a ver com o cora\u00e7\u00e3o e os sentidos. Revela eminentemente do esp\u00edrito\u201d (Cheng, 2002, 12). Ora o esp\u00edrito (<\/span><span class=\"s6\">\u795e<\/span><span class=\"s5\"><i>sh\u00e9n<\/i>) ultrapassa e supera as vicissitudes humanas, que haviam afastado o inicialmente violinista, Dao Sheng, da filha da fam\u00edlia Lu, a Menina Lan-Ying, por interven\u00e7\u00e3o do Segundo Senhor Zhao, o marido da futura Senhora Ying, um homem devasso, brutal, incompetente, descrito como \u201cum perfeito in\u00fatil, tirano a passar das marcas\u201d (Cheng, 2002, 32). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s7\">Tudo se complica e parece afastar o par predestinado. Dao Sheng faz frente ao futuro marido de Lan-Ying, sendo degredado e sujeito a trabalhos for\u00e7ados, que lhe danificam o pulso e o perdem para o violino. Mas como homem de recursos que era, foge do cativeiro, sendo recolhido num mosteiro taoista, onde revela pouco voca\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica, contudo grande apet\u00eancia para o estudo da medicina, pelo que, depois de mais de uma dezena de anos de estudo de plantas medicinais e receitas, se transforma num habilidoso curandeiro e adivinho. J\u00e1 a senhora Ying, depois de casada, \u00e9, para sua sorte, \u201ccompletamente abandonada; por isso leva uma vida muito mais tranquila\u201d (Cheng, 2002, 33), dedicando-se a causas humanit\u00e1rias budistas, o que lhe valeu a amizade e o respeito do bonzo local, o Grande Monge, que a salvaria quando esta foi raptada por bandidos. Ora eles viriam a pedir um resgate avultado ao Segundo Senhor Zhao, que hesitou em pagar a soma solicitada por uma mulher que deixara de o atrair, por estar sempre triste e melanc\u00f3lica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O Grande Monge budista ter\u00e1 um papel fulcral na intriga, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00f3 salvou a Senhora Ying do cativeiro armado pelos ladr\u00f5es, como recolheu o monge taoista, curandeiro e adivinho, quando percebeu a sua grande compet\u00eancia m\u00e9dica. Ser\u00e1 tamb\u00e9m por interm\u00e9dio do Grande Monge que se intui estar a aguardar a Senhora Ying algo de muito bom, porque, segundo nos diz,\u201cquem sobrevive a uma calamidade ir\u00e1 conhecer a felicidade mais tarde\u201d (Cheng, 35).<\/p>\n<p class=\"p5\">Quanto a Dao Sheng, \u201cpor mais medita\u00e7\u00f5es e exerc\u00edcios de vacuidade que se impusesse, n\u00e3o conseguia livrar-se da ideia fixa que trazia consigo\u201d. (Cheng, 2002, 26) \u2013 Lan-Ying, sobretudo aquele sorriso dela que tanto o cativara e o acompanhara ao longo dos anos mais penosos de degredo. Ele era um homem especial, um santo conhecedor da via do <i>Dao <\/i>(<span class=\"s3\">\u9053<\/span>), apesar de n\u00e3o ter atingido o desprendimento ou ilumina\u00e7\u00e3o total (Cheng, 2002, 20):<\/p>\n<p class=\"p7\">Al\u00e9m de tratar dos doentes, a sua profiss\u00e3o principal ainda \u00e9 a adivinha\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 esta que prop\u00f5e o preceito: \u00abfazer o que o homem puder, deixar que o C\u00e9u fa\u00e7a o resto?\u00bb Com efeito, uma vez que estejam reunidas as condi\u00e7\u00f5es e as oportunidades, e que o homem tenha feito aquilo que est\u00e1 ao seu alcance, o que n\u00e3o deve acontecer, n\u00e3o acontece, e o que deve acontecer, acontecer\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p4\">Dao Sheng, que nunca tinha perdido Lan-Ying da ideia, vai \u00e0 procura da amada, encontra-a, j\u00e1 ela est\u00e1 muito doente, ainda assim consegue salv\u00e1-la. Afinal, era um excelente m\u00e9dico, apesar de n\u00e3o ter os pergaminhos necess\u00e1rios, por isso a si mesmo se apelida de curandeiro. \u00c9 simples, bom, honesto e trabalhador e est\u00e1 convencido de que a sua arte e ci\u00eancia ficam a dever o melhor de si mesmas ao pensamento (Cheng, 2002, 52):<\/p>\n<p class=\"p7\">A adivinha\u00e7\u00e3o e a medicina n\u00e3o se fazem s\u00f3 com receitas, que elas nada s\u00e3o sem o pensamento que lhes serve de fundamento (\u2026) Diz-se que est\u00e1 tudo ligado, que n\u00e3o se podem separar os sinais humanos dos que v\u00eam da Terra e do C\u00e9u. Dentro deste todo org\u00e2nico, o tra\u00e7o de uni\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nenhuma corrente, nem nenhuma corda, mas sim o sopro que \u00e9 ao mesmo tempo unidade e garante da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\">A hist\u00f3ria avan\u00e7a e ele consegue salvar a amada do estado doentio em que se encontra. No entanto, as conven\u00e7\u00f5es da \u00e9poca mant\u00eam o par \u00e0 dist\u00e2ncia, apenas lhes permitindo depois da cura da Senhora Ying, trocas de olhares, sorrisos furtuitos e sil\u00eancios pejados de sentido. Entretanto, aproxima-se a morte do Segundo Senhor Zhao, que tinha ficado paral\u00edtico, na sequ\u00eancia de m\u00faltiplas cacetadas nas costas, aquando do assalto dos bandidos, que pululavam nos tempos tumultuosos dos finais da dinastia Ming, nos quais grassava a pobreza e as casas senhoriais se tornavam muito apetitosas. A ina\u00e7\u00e3o e o \u00f3pio conduzem o Segundo Senhor \u00e0 tuberculose, ditando-lhe um final de vida mal vivida e esquecida entre os fumos. \u00c9 chamado Dao Sheng, de reconhecido m\u00e9rito, para que o tente salvar <i>in extremis<\/i>. S\u00f3 que, por um lado, ele j\u00e1 est\u00e1 \u00e0s portas da morte, por outro, Dao Sheng acaba por se revelar, atraindo novamente a desgra\u00e7a sobre a Senhora Ying e ele pr\u00f3prio. O marido, cuja paralisia e a beleza rejuvenescida da mulher, lhe voltam a despertar um estranho desejo, descobre finalmente a raz\u00e3o de ser da graciosidade recuperada da Senhora Ying e nos momentos finais de vida chama-a para a enforcar com o cinto do roup\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\">Aparentemente bem-sucedido, todos d\u00e3o a Senhora Ying como morta, quando a sua fiel empregada, Xiao Fang, manda chamar o m\u00e9dico, que literalmente a ressuscita num ato conjugado de ci\u00eancia e f\u00e9. Ele que tinha escutado a um dos padres jesu\u00edtas, vindo do \u201cOceano do Oeste\u201d, ao qual salvara do paludismo, uma cita\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho, \u201cama e faz o que quiseres\u201d (Cheng, 2002, 195), lan\u00e7a-se rumo \u00e0 segunda salva\u00e7\u00e3o de Lan-Ying, num cruzamento da inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3 com as excelentes t\u00e9cnicas medicinais taoistas, que implicam, quer a massagem baseada no magnetismo da m\u00e3o, quer o recurso ao sopro vital, numa eficaz respira\u00e7\u00e3o boca a boca.<\/p>\n<p class=\"p5\">Estas cren\u00e7as e t\u00e9cnicas conjugadas com uma postura \u00e9tica irrepreens\u00edvel, levam-no a questionar-se e a prosseguir exausto com a tarefa de salvamento \u201cCom essa humildade, essa sinceridade conseguir\u00e1 alcan\u00e7ar o <i>shen<\/i>? Lan\u00e7ar um fio t\u00e9nue no espa\u00e7o imenso para apanhar um ganso selvagem perdido?\u201d (Cheng, 2002, 184).<\/p>\n<p class=\"p5\">Salva a mulher e da\u00ed para a frente ficar\u00e3o fisicamente separados, mas espiritualmente mais unidos do que nunca, ele no mosteiro da montanha, ela, depois da morte do marido, liberta-se da fam\u00edlia Zhao e vai para o convento das freiras do Vale de Guan-yin<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(<span class=\"s3\">\u89c2\u97f3<\/span><span class=\"s8\">Gu\u0101ny\u012bn<\/span>). Ambos com a plena consci\u00eancia de que a separa\u00e7\u00e3o era moment\u00e2nea, mas a jura, eterna \u201cmais perene do que o C\u00e9u e a Terra\u201d (<span class=\"s3\">\u5929\u957f\u5730\u4e45<\/span><span class=\"s9\"><i>Ti\u0101nch\u00e1ng-d\u00ecji\u01d4<\/i><\/span>) ou \u201cpara al\u00e9m dos rochedos apodrecidos e oceanos ressequidos\u201d (<span class=\"s3\">\u5927\u6d77\u5e72\u6db8\u3001\u5ca9\u77f3\u8150\u70c2 <\/span><span class=\"s9\"><i>D\u00e0h\u01cei g\u0101nh\u00e9<\/i><\/span><span class=\"s10\"><i>, <\/i><\/span><span class=\"s9\"><i>y\u00e1nsh\u00ed f\u01d4l\u00e0n<\/i><\/span>) (Cheng, 2002, 122), mesmo que n\u00e3o seja j\u00e1 nesta vida, porque Dao Sheng d\u00e1 sinais de velhice, o seu sopro vital est\u00e1 fraco, respira com dificuldade e \u201csente-se ferido de vazio\u201d (Cheng, 2002, 214).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">O final fica em aberto. Ser\u00e1 que voltam a reencontrar-se? Sen\u00e3o nesta exist\u00eancia por certo para a pr\u00f3xima, porque se o vazio aproxima, tamb\u00e9m fere e mata, o sopro vital \u00e9 limitado e para se eternizar ter\u00e1 de regressar \u00e0 origem, ao sopro primordial, a esse que tudo pode, por entre os temas essenciais da vida humana, o nascimento, a velhice, a doen\u00e7a e a morte, faz acontecer o melhor \u201cuma pitada de aspira\u00e7\u00e3o aqui, uma on\u00e7a de amor acol\u00e1\u201d (Cheng, 2002, 52).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>II<br \/>\n<\/b><b>O Vazio Filos\u00f3fico<\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">O sopro vital concede-nos o melhor a que podemos aspirar, a inspira\u00e7\u00e3o e o amor, pelo modo como se relaciona com o vazio, mas aten\u00e7\u00e3o porque existem sopros deficientes, perniciosos e malignos (Cheng, 2002, 52), uns e outros podem favorecer a uni\u00e3o ou a separa\u00e7\u00e3o, a cura ou a doen\u00e7a, a vida ou a morte, tudo e nada, na medida em que s\u00e3o constitu\u00eddos pelo vazio, a pot\u00eancia que se pode atualizar no que o esp\u00edrito ou a pessoa desejar.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s7\">Em <i>Vide et Plein <\/i>(1991), Fran\u00e7ois Cheng alerta para o facto de o Vazio ser essencial no pensamento chin\u00eas, ao mesmo n\u00edvel dos princ\u00edpios Yin e Yang, que s\u00e3o perspectivados como sopros vitais, sendo o pr\u00f3prio vazio n\u00e3o o nada que se op\u00f5e ao tudo, mas \u201cum elemento eminentemente din\u00e2mico e operante\u201d ( Cheng, 1991, 45). Ou seja, em termos pr\u00e1ticos, \u00e9 ele quem vai permitir a conjuga\u00e7\u00e3o e a harmoniza\u00e7\u00e3o de dois elementos t\u00e3o distintos como o Yin e o Yang. O vazio \u00e9 ent\u00e3o definido como um \u201cprinc\u00edpio base\u201d no pensamento chin\u00eas (Cheng, 1991, 46) essencial na filosofia, expressando-se atrav\u00e9s do sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m na pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de vazio enquanto complementar do cheio, pot\u00eancia de infinitas possibilidades, que ainda n\u00e3o podem ser ditas, por exemplo no taoismo ou no budismo; filosofias extremamente sens\u00edveis e dependentes do vazio. Na pintura, este expressa-se pelo espa\u00e7o n\u00e3o pintado, na poesia pela supress\u00e3o de certos voc\u00e1bulos, na vida pela conjuga\u00e7\u00e3o de elementos viabilizada por ele, um mediador que harmoniza a r\u00edgida oposi\u00e7\u00e3o, como a montanha e a \u00e1gua (Cheng, 1991, 47) numa paisagem. O vazio, enquanto pot\u00eancia, permite toda e qualquer transforma\u00e7\u00e3o, sendo esta no\u00e7\u00e3o o pilar da filosofia chinesa. A transforma\u00e7\u00e3o proporciona, indica e favorece a vida, a aus\u00eancia da mesma manifesta a morte. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s7\">De acordo com a perspectiva de Fran\u00e7ois Cheng sobre a ontologia taoista, que me parece leg\u00edtima, esta apresenta-nos uma vers\u00e3o cosmog\u00f3nica em que o <i>Dao (<\/i><\/span><span class=\"s11\">\u9053<\/span><span class=\"s7\"><i>)<\/i> \u00e9 primeiro, mas surge em estreita conex\u00e3o com o <i>Nada, <\/i>este ser\u00e1 o vazio essencial a n\u00edvel numenal, o sopro primordial, enquanto <i>W<\/i>\u00fa<i> (<\/i><\/span><span class=\"s11\">\u65e0<\/span><span class=\"s7\"><i>), <\/i>ou n\u00e3o-ter ou n\u00e3o haver, vai proporcionar o ter\/haver <\/span><span class=\"s12\"><i>Y\u01d2u<\/i><\/span><span class=\"s7\"><i> (<\/i><\/span><span class=\"s11\">\u6709<\/span><span class=\"s7\"><i>), <\/i>entrando a partir daqui um terceiro termo mediador, o vazio fenomenal, o <\/span><span class=\"s12\"><i>X\u016b<\/i><\/span><span class=\"s7\"> (<\/span><span class=\"s11\">\u865a<\/span><span class=\"s7\">), o sopro existencial, elemento de uni\u00e3o entre todos os seres, que corresponder\u00e1 nos budistas ao <\/span><span class=\"s12\"><i>K\u014dng<\/i><\/span><span class=\"s7\"><i> (<\/i><\/span><span class=\"s11\">\u7a7a<\/span><span class=\"s7\"><i>). <\/i>\u00c9 do mesmo vazio que se trata, que tem como par complementar o pleno\/cheio e atua a n\u00edvel fenomenal, quer dizer da realidade material que nos rodeia <i>Sh<\/i>\u00ec (<\/span><span class=\"s11\">\u4e8b<\/span><span class=\"s7\">). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Toda a nossa exist\u00eancia se desenrola entre o vazio e o cheio, quanto mais vazios formos, mais plenos de possibilidades nos tornamos. Quanto mais cheios, tanto menos din\u00e2micos e mais coisificados. Cabe-nos decidir se queremos ser (activos e din\u00e2micos) ou ter (coisas, ocupar espa\u00e7os). As filosofias taoista e budista privilegiam o vazio, o sil\u00eancio, o recolhimento, a humildade e o apagamento. J\u00e1 a filosofia confucionista poder\u00e1 privilegiar a constru\u00e7\u00e3o de obras, livros, bibliotecas, escolas, etc.<\/p>\n<p class=\"p5\">O caminho certo, est\u00e1 como de costume, no meio termo, na via do meio, nem pessoas muitas cheias, nem muito vazias, nem pa\u00edses muito cheios, nem muitos vazios, de modo a favorecer a harmonia que permita viver bem. Sem espa\u00e7o corp\u00f3reo n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de liga\u00e7\u00e3o, nem amor, nem beleza, onde o sopro amoroso possa desenvolver-se a atuar, sem estruturas materiais n\u00e3o h\u00e1 obras de arte: livros, pinturas, rolos caligr\u00e1ficos, est\u00e1tuas, museus, pal\u00e1cios, templos, belas paisagens em que se possa contemplar o sol e a lua, repletas de possibilidades ou de vazio.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">A representa\u00e7\u00e3o do vazio, na filosofia daoista, \u00e9 o vale, a n\u00edvel fenomenal; por\u00e9m, a n\u00edvel numenal \u00e9 o esp\u00edrito do vale, da\u00ed a import\u00e2ncia do esp\u00edrito (<\/span><span class=\"s6\">\u795e<\/span><span class=\"s5\">sh\u00e9n), que nos religa \u00e0 esfera sagrada, \u00e0 zona do mist\u00e9rio como indica o cap\u00edtulo VI do <i>Daodejing<\/i> (<\/span><span class=\"s6\">\u300a\u9053\u5fb7\u7ecf\u300b<\/span><span class=\"s5\">)no qual o <i>Dao <\/i>(<\/span><span class=\"s6\">\u9053<\/span><span class=\"s5\">) \u00e9 descrito como \u201co Esp\u00edrito do Vale\u201d (<\/span><span class=\"s6\">\u8c37\u795e <\/span><span class=\"s13\"><i>G\u01d4 sh\u00e9n<\/i><\/span><span class=\"s5\">) e a \u201cF\u00eamea Misteriosa\u201d (<\/span><span class=\"s6\">\u7384\u725d <\/span><span class=\"s5\"><i>Xu\u00e1n p\u00ecn<\/i>): <\/span><\/p>\n<p class=\"p9\" style=\"text-align: center;\">\u8c37\u795e\u4e0d\u6b7b<br \/>\n\u662f\u8c13\u7384\u725d<br \/>\n\u7384\u725d\u4e4b\u95e8<br \/>\n\u662f\u8c13\u5929\u5730\u6839<br \/>\n\u7ef5\u7ef5\u82e5\u5b58<br \/>\n\u7528\u4e4b\u4e0d\u52e4<br \/>\n(Gra\u00e7a de Abreu, 2013,38)<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: left;\">(O Esp\u00edrito do Vale n\u00e3o morre\/diz-se a F\u00eamea Misteriosa\/As portas da F\u00eamea Misteriosa dizem-se a raiz do C\u00e9u e da Terra\/Continuamente existente\/ Usa-se mas n\u00e3o se esgota<span class=\"s4\"><sup>2<\/sup><\/span>.)<\/p>\n<p class=\"p4\">Por \u00faltimo, e para melhor entendermos o sopro amoroso que uniu Dao Sheng e Lan-Ying, aqui fica a primeira parte do cap\u00edtulo 42 do <i>Livro da Via e da Virtude<\/i>, que nos revela a cosmogonia daoista e, ao mesmo tempo, a possibilidade de liga\u00e7\u00f5es amorosas:<\/p>\n<p class=\"p9\" style=\"text-align: center;\">\u9053\u751f\u4e00<br \/>\n\u4e00\u751f\u4e8c<br \/>\n\u4e8c\u751f\u4e09<br \/>\n\u4e09\u751f\u4e07\u7269<br \/>\n\u4e07\u7269\u8d1f\u9634\u800c\u62b1\u9633<br \/>\n\u51b2\u6c14\u4ee5\u4e3a\u548c<br \/>\n(Gra\u00e7a de Abreu, 2013, 110)<\/p>\n<p class=\"p4\">(O <i>Dao<\/i> gerou o um\/ O Um gerou o Dois, o Dois gerou o Tr\u00eas\/ o Tr\u00eas gerou os Dez Mil Seres\/ Os Dez Mil Seres carregam o Yin e abra\u00e7am o Yang\/ a harmonia nasce do vigoroso sopro mediador)<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s7\">Voltando ao in\u00edcio, quando o casal amoroso se encontrou, o que os uniu foi sopro vazio mediador. Como descreveria o narrador naquela noite do 15\u00badia do 8\u00ba m\u00eas em que a lua brilhava em todo o esplendor nos c\u00e9us, e o par, com o apoio da fiel empregada, consegue iludir a apertada vigil\u00e2ncia da fam\u00edlia Zhao, sentando-se os dois lado a lado, de m\u00e3os unidas a contemplar a lua: \u201cE ficam as quatro m\u00e3os sobrepostas, por elas passando a respira\u00e7\u00e3o harmoniosa dos dois\u201d (Cheng, 2002, 132). <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p11\">Cheng, Fran\u00e7ois. (1980). <i>L\u00b4Espace du R\u00eave: mille ans de Peinture Chinoise<\/i>. Paris: Ph\u00e9bus.<\/li>\n<li class=\"p11\">_____________. (1982) ); <i>L\u00b4\u00c9criture Po\u00e9tique Chinoise: Suivi d\u2019 une Antologie des Po\u00e8mes des Tang<\/i>. Paris: \u00c9ditions du Seuil.<\/li>\n<li class=\"p11\">_____________. 1991). <i>Vide et Plein: Le Langage Pictoral Chinois<\/i>. Paris: \u00c9ditions du Seuil.<\/li>\n<li class=\"p11\">______________. (1998). <i>Le Dit de Tianyi. <\/i>Paris: Albin Michel.<\/li>\n<li class=\"p11\">_____________. (2002).<i> L\u2019 <\/i>\u00c9ternit\u00e9<i> n\u2019 est pas de Trop<\/i>. Paris: Albin Michel.<\/li>\n<li class=\"p11\">Gra\u00e7a de Abreu, Ant\u00f3nio. (Org. e Trad.) (2013). <span class=\"s15\">\u300a\u9053\u5fb7\u7ecf\u300b<\/span><i>Tao Te Ching. Livro da Via e da Virtude. <\/i>Ed. Bilingue. Lisboa: Vega.<\/li>\n<li class=\"p11\">Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. <i>Mitos e Lendas da Terra do Drag\u00e3o<\/i>. Lisboa: Caminho.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] I O vazio amoroso Fran\u00e7ois Cheng (1929 &#8211; ) \u00e9 um grande escritor, fil\u00f3sofo, cal\u00edgrafo, enfim sin\u00f3logo, descendente de chineses, radicado em Fran\u00e7a. Tem alguns estudos profundos dedicados \u00e0 pintura chinesa, nos quais se destaca o seu pensamento filos\u00f3fico, como em: L\u2019 Espace du R\u00eave: mille ans de Peinture Chinoise (1980); L\u00b4\u00c9criture Po\u00e9tique Chinoise:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1059,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1058","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/26-pmfr111entretienfrancois-chengserge-picard.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1058"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1058\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1060,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1058\/revisions\/1060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1059"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}