{"id":1061,"date":"2025-10-20T23:08:12","date_gmt":"2025-10-20T15:08:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1061"},"modified":"2025-10-20T23:08:12","modified_gmt":"2025-10-20T15:08:12","slug":"o-amor-na-via-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/o-amor-na-via-da-poesia\/","title":{"rendered":"O amor na Via da Poesia"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">N<span class=\"s1\">o m\u00eas<\/span> da Primavera falemos de amor, e quem melhor para o fazer do que os poetas? N\u00e3o quaisquer poetas, mas sim os da idade de ouro da poesia chinesa, aqueles que viveram na dinastia Tang <span class=\"s2\">\u5510<\/span> (618-907), grande em tudo, mas sobretudo no encontro de culturas e na poesia. Pela sua capital, Chang\u00b4an (<span class=\"s2\">\u957f\u5b89<\/span>) passeava-se todo o tipo de gente, nacionais e estrangeiros, incluindo estudantes. Eram tantos os que acorriam \u00e0 capital chinesa que o<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>governo Tang criou gabinetes especiais para acolher os residentes internacionais. Esta dinastia foi a \u00fanica t\u00e3o aberta e liberal, a viabilizar a chegada ao poder de uma imperadora, Wu Zetian (<span class=\"s2\">\u6b66\u5219\u5929<\/span>, 624-705), e conheceu grandes imperadores como Xuanzong (<span class=\"s2\">\u7384\u5b97\u7687\u5e1d <\/span>685 762).<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 a dinastia de Li Bai (<span class=\"s2\">\u674e\u767d <\/span>701-762), Wang Wei (<span class=\"s2\">\u738b\u7ef4 <\/span>701-761), Du Fu (<span class=\"s2\">\u675c\u752b <\/span>712-770), Bai Juyi (<span class=\"s2\">\u767d\u5c45\u6613 <\/span>772-846) e tantos outros ilustr\u00edssimos poetas que entoaram as alegrias e penas do amor como este merecia ser cantado.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Nesta idade de ouro liter\u00e1ria, h\u00e1, como em tantas outras manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, um<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>estilo antigo <i>gutishi <\/i>ou <i>gufeng <\/i>(<\/span><span class=\"s4\">\u53e4\u4f53\u8bd7 <\/span><span class=\"s3\"><i>gutishi<\/i> ou <\/span><span class=\"s4\">\u53e4\u98ce <\/span><span class=\"s3\"><i>gufung<\/i>) e um estilo moderno <i>jintishi <\/i>ou <i>gel\u00fcshi<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u8fd1\u4f53\u8bd7<\/span><span class=\"s3\"> ou <\/span><span class=\"s4\">\u683c\u5f8b\u8bd7<\/span><span class=\"s3\">), sendo o mais moderno caracter\u00edstico da dinastia Tang, onde abundam quadras de 5 ou 7 caracteres, denominadas <i>jueju <\/i>(<\/span><span class=\"s4\">\u7edd\u53e5 <\/span><span class=\"s3\"><i>Ju\u00e9j\u00f9<\/i>), sendo as quadras de cinco caracteres as <i>wujue <\/i>(<\/span><span class=\"s4\">\u4e94\u7edd<\/span><span class=\"s3\">) e as de sete caracteres as <i>qijue<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u4e03\u7edd<\/span><span class=\"s3\">), h\u00e1 ainda uma outra forma po\u00e9tica popular constitu\u00edda por poemas de 8 versos, os <i>l\u00fcshi<\/i>( <\/span><span class=\"s4\">\u5f8b\u8bd7<\/span><span class=\"s3\">),<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>tamb\u00e9m eles de 5 caracteres, os <i>wul\u00fc<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u4e94\u5f8b<\/span><span class=\"s3\">) ou de 7 caracteres os <i>qil\u00fc<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u4e03\u5f8b <\/span><span class=\"s3\">), seguindo esquemas rimados rigorosos, em que normalmente as s\u00edlabas finais rimam.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Nas estrofes de oito versos, \u00e9 habitual as 2\u00aa, 4\u00aa, 6\u00aa e 8\u00aa linha rimarem, ao passo que nas quadras s\u00e3o os 2\u00bas e 4\u00bas versos, incluindo por vezes o primeiro verso, sem que tal seja um requisito obrigat\u00f3rio. A rima pode ainda incluir jogos tonais, com altern\u00e2ncia entre o 1\u00ba e o 2\u00ba tons, por um lado, e o 3\u00ba e o 4\u00ba por outro. Nos <i>l<\/i>\u00fc<i>shi<\/i> \u00e9 frequente que os 3\u00bas e 4\u00bas versos entrem em rela\u00e7\u00e3o complementar ou antit\u00e9tica com os 5\u00bas e os 6\u00bas. Com a utiliza\u00e7\u00e3o destes recursos estil\u00edsticos, no fundo o que se pretende, como nos explicam Wang Guozhang e Wang Anlu (1995, 143): \u201c\u00e9 tornar os poemas musicais, encantadores, fluentes e f\u00e1ceis de ler em voz alta\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Recorda-nos Zerbo Freire na sua tradu\u00e7\u00e3o das <i>Quadras Chinesas<\/i> (2022) que a poesia Tang conheceu v\u00e1rios per\u00edodos, um inicial (618-713) sob a influ\u00eancia da Dinastia do Sul (420-589) repleto de sensibilidade e leveza, seguido de um per\u00edodo ascendente (713-766), no qual o desenvolvimento econ\u00f3mico e cultural da dinastia se repercute em v\u00e1rios estilos po\u00e9ticos e tem\u00e1ticas, encontrando no mesmo per\u00edodo, poetas \u201crom\u00e2nticos\u201d como Li Bai e realistas<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>como Du Fu, ou de esp\u00edrito ecol\u00f3gico como Wang Wei. H\u00e1 ainda um per\u00edodo m\u00e9dio (766-836) onde desabrocham v\u00e1rios estilos individuais e um per\u00edodo de decl\u00ednio (836-907), no qual a poesia acompanha a instabilidade dos tempos, provocada pelas guerras e crises pol\u00edticas, que Bai Juyi, por exemplo, p\u00f4de experimentar.<\/p>\n<p class=\"p3\">Certo \u00e9 que em todos estes per\u00edodos foi cantado o amor, correspondido, perdido, achado, distanciado, desaparecido, renovado, abandonado, fatal. Enfim, qualquer express\u00e3o amorosa p\u00f4de encontrar eco no sentimento fixado na escrita dos poetas, que t\u00e3o bem souberam apresentar as tonalidades do cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p class=\"p3\">Comecemos por um poema de Wang Wei, poeta do per\u00edodo ascendente, nascido numa fam\u00edlia de mandarins, mas que teve alguns reveses na sua carreira oficial pelo que optou por terminar os seus dias em retiro, enquanto meditava sobre o sofrimento e transitoriedade do mundo, apoiando-se nas escrituras budistas e dedicando-se na sua eremitagem \u00e0 pintura. Como era um bom pintor, conseguiu conjugar com grande mestria poesia e pintura, angariando fama na tradi\u00e7\u00e3o chinesa de pintar poeticamente e realizar uma poesia pict\u00f3rica. (Foreign Language Press, 2008: 109)<\/p>\n<p class=\"p3\">Em muitos casos, pode-se pensar no amor terreno como uma<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>flor, dura pouca, desponta, \u00e9 belo e murcha, ou pior, desparece deixando os amantes infelizes, muito embora seja uma maravilha enquanto dure,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>mas Wang Wei nesta quadra de cinco caracteres recorda o quanto faz sofrer, j\u00e1 que nos traz uma mulher que chorou sob uma \u00e1rvore at\u00e9 morrer, ap\u00f3s ter perdido o marido em combate,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>tendo das suas l\u00e1grimas em contacto com a terra despontado a ervilha do ros\u00e1rio, <i>abrus precatorius<\/i>, que \u00e9 vermelha e redonda:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u76f8\u601d<br \/>\n\u7ea2\u8c46\u751f\u5357\u56fd\uff0c<br \/>\n\u6625\u6765\u53d1\u51e0\u679d\uff1f<br \/>\n\u613f\u541b\u591a\u91c7\u64b7<br \/>\n\u6b64\u7269\u6700\u76f8\u601d<\/p>\n<p class=\"p2\">Apresento a minha tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\"><strong>SAUDOSO PADECER<\/strong><br \/>\n<i>Nas terras do Sul cresce a ervilha do ros\u00e1rio,<br \/>\n<\/i><i>Quantos ramos despontaram na primavera?<br \/>\n<\/i><i>Colhe at\u00e9 mais n\u00e3o poder,<br \/>\n<\/i><i>Eis o meu saudoso padecer.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Ainda que n\u00e3o perten\u00e7a \u00e0 dinastia Tang, n\u00e3o resisto a apresentar, como complementar a esta quadra, um dos mais belos poemas de amor chineses. Este pertence a Su Dongpo (<span class=\"s2\">\u82cf\u4e1c\u5761<\/span>), heter\u00f3nimo que significa \u201cA Encosta do Leste\u201d, tendo como nome pr\u00f3prio Su Shi (<span class=\"s2\">\u82cf\u8f7c <\/span>1037-1101). Foi um poeta da dinastia Song (<span class=\"s2\">\u5b8b\u671d<\/span> 960-1279).<\/p>\n<p class=\"p3\">Este mandarim teve uma carreira oficial muito problem\u00e1tica, porque, como nos recorda Gra\u00e7a de Abreu em <i>Su Dongpo<\/i>, <i>Poemas <\/i>(2023: 20) foi honesto e tolo, esquecendo-se de aplicar a si pr\u00f3prio a m\u00e1xima confucionista de dizer a verdade, mas n\u00e3o toda. Tal imprud\u00eancia valeu-lhe o ep\u00edteto de \u201cmandarim n\u00f3mada\u201d, j\u00e1 que passou grande parte da vida a viajar, impelido pelos ventos que sopravam contrafei\u00e7\u00e3o da corte.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Eis ao poema de 8 versos e sete caracteres, <i>qil\u00fc <\/i>(<\/span><span class=\"s6\">\u4e03\u5f8b<\/span><span class=\"s5\">)<i> <\/i>em mem\u00f3ria da sua terceira mulher, <\/span><span class=\"s6\">\u738b\u671d\u4e91<\/span><span class=\"s5\">(1062-1096) deixando o poeta <i>c\u00e1 na terra sempre triste:<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: center;\">\u300a\u60bc\u671d\u4e91\u300b<br \/>\n\u82d7\u800c\u4e0d\u79c0\u5c82\u5176\u5929\uff0c\u4e0d\u4f7f\u7ae5\u4e4c\u4e0e\u6211\u7384\u3002<br \/>\n\u9a7b\u666f\u6068\u65e0\u5343\u5c81\u836f\uff0c\u8d60\u884c\u60df\u6709\u5c0f\u4e58\u7985\u3002<br \/>\n\u4f24\u5fc3\u4e00\u5ff5\u507f\u524d\u503a\uff0c\u5f39\u6307\u4e09\u751f\u65ad\u540e\u7f18\u3002<br \/>\n\u5f52\u5367\u7af9\u6839\u65e0\u8fdc\u8fd1\uff0c\u591c\u706f\u52e4\u793c\u5854\u4e2d\u4ed9\u3002<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>EM MEM\u00d3RIA DE ZHAOYUN<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Se o broto n\u00e3o for excelente como poder\u00e1 ser digno<span class=\"Apple-converted-space\"><br \/>\n<\/span><\/i>[<i>do C\u00e9u?<br \/>\n<\/i><i><\/i><span class=\"s3\"><i>\u00c9 para mim um mist\u00e9rio tanta<\/i> <i>virginal pureza.<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>Ofere\u00e7o-me a pequena via do meditar,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>Por n\u00e3o encontrar na paisagem rem\u00e9dio para o<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span>[<i>meu mal.<br \/>\n<\/i><span class=\"s3\"><i>Pago um karma passado com tristeza,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>Em futuro de terceira vida interrompida,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>Regresso ao repouso da pr\u00f3xima e distante raiz do<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <\/span>[<i>bambu,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>No templo \u00e0 noite, presto culto diligente \u00e0 bela imortal.<\/i><i><\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Bai Juyi, que j\u00e1 viveu nos tempos conturbados da dinastia Tang, foi um mandarim, erudito e eremita, dedicado aos estudos do budismo e do taoismo, que sabia amar a vida.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Ele, como refere Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu em <i>Poemas de Bai Juyi, <\/i>foi<i> <\/i> o poeta mais no cora\u00e7\u00e3o<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>do povo chin\u00eas\u201d (1991: 13). Apresenta uma das mais belas can\u00e7\u00f5es de amor da dinastia Tang, triste j\u00e1 que relata os amores fatais do imperador Xuanzong pela concubina, Yang Guifei (<span class=\"s2\">\u694a\u8cb4\u5983<\/span>, 719-756). Esta intitulada <span class=\"s2\">\u300a\u957f\u6068\u6b4c\u300b<\/span>foi traduzida para portugu\u00eas por Gra\u00e7a de Abreu sob o t\u00edtulo de \u201cCanto do Remorso Perp\u00e9tuo\u201d (1991: 78-84).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">O amor foi fatal a ambos, porque o imperador negligenciou os assuntos do imp\u00e9rio em benef\u00edcio da companhia da concubina.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Coincidindo o romance com o in\u00edcio das turbul\u00eancias na dinastia Tang, mais especificamente, com a revolta do general An Lushan (<\/span><span class=\"s8\">\u5b89\u7984\u5c71<\/span><span class=\"s7\">), entre 755-763. Esta mergulhou o pa\u00eds numa guerra civil e o imperador viu-se obrigado a abandonar a capital, levando com ele Yang Guifei. Por\u00e9m, as tropas amotinaram-se, pedindo a morte da amada do soberano, \u00e0 qual atribu\u00edam todos os males da China. Na sequ\u00eancia da morte da beldade, o imperador abdicou em favor do filho, passando o que restavam dos seus dias entre del\u00edrios e esperan\u00e7a de reencontrar a amada no reino dos imortais.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 mil e uma formas de amar, positivas e alegres, negativas e dolorosas, imaginadas, reais, mas todas sinalizam a presen\u00e7a do amor. Os versos destes grandes poetas sucedem-se, muitos deles dedicados ao amor triste, saudoso, abandonado, descurado e ressentido.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">Leia-se esta<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>quadra de cinco versos que nos traz o amor n\u00e3o correspondido e o ressentimento que provoca, t\u00e3o bem captado na sensibilidade po\u00e9tica, quando algu\u00e9m gosta de uma outra pessoa, sem o\/a<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>exclu\u00eddos possam entender a raz\u00e3o de tal op\u00e7\u00e3o, que nada tem de racional, j\u00e1 que se trata de sentimentos, genu\u00ednos na sua espontaneidade. Acompanhemos o eu po\u00e9tico proporcionado por Li Bai:<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u6028\u60c5<br \/>\n\u7f8e\u4eba\u5377\u73e0\u5e18<br \/>\n\u6df1\u5750\u98a6\u86fe\u7709\u3002<br \/>\n\u4f46\u89c1\u6cea\u75d5\u663e\uff0c<br \/>\n\u4e0d\u77e5\u5fc3\u6068\u8c01\u3002<\/p>\n<p class=\"p2\">Proponho a seguinte tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><strong>RESSENTIMENTO<br \/>\n<\/strong><i>Beldade pregueada, entre cortinas,<br \/>\n<\/i><i>Alheada, de sobrancelhas franzidas,<br \/>\n<\/i><i>Embora note os vest\u00edgios de suas l\u00e1grimas,<br \/>\n<\/i><i>Desconhe\u00e7o quem lhe provoca as feridas. <\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">Ao queixoso n\u00e3o lhe basta amar, gostaria de ser amado, possivelmente para concretizar uma rela\u00e7\u00e3o amorosa, desejada, que satisfizesse o seu cora\u00e7\u00e3o, pelo que ao reconhecer a agita\u00e7\u00e3o da dama, lastima-se por n\u00e3o ser ele o alvo das aten\u00e7\u00f5es da amada.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">Daqui n\u00e3o se segue que Li Bai possua um eu po\u00e9tico ressentido, pelo contr\u00e1rio, era um esp\u00edrito livre, cavaleiro errante, que pouco aqueceu o lugar na corte como redator da Academia de Hanlin, por n\u00e3o suportar os jogos de poder, inclinado a uma profunda comunh\u00e3o com a natureza, \u00e0 maneira taoista, o seu nome pr\u00f3prio Bai (<\/span><span class=\"s8\">\u767d<\/span><span class=\"s7\">), \u201cbranco\u201d mereceu-lhe o ep\u00edteto de Taibai (<\/span><span class=\"s8\">\u592a\u767d<\/span><span class=\"s7\">), que significa \u201cmuito branco\u201d ou iluminado, relacionando-o com a Estrela da<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Manh\u00e3, o nome que os chineses encontraram para V\u00e9nus, que ele honrou \u00e0 sua maneira, casando quatro vezes e vivendo com escassos bens materiais mas repleto de aventuras e riqueza espiritual.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">A Primavera \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do despertar de toda a natureza e, por isso, tamb\u00e9m dos sentimentos amorosos que um outro poeta Tang Liu Fangping (<span class=\"s2\">\uff1f<\/span>-782<span class=\"s2\">\u5218\u65b9\u5e73<\/span>) descreve com subtileza associando-os com suavidade e discri\u00e7\u00e3o \u00e0 brisa e ao luar primaveris:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u300a\u6708\u591c\u300b<br \/>\n\u66f4\u6df1\u6708\u8272\u534a\u4eba\u5bb6\uff0c<br \/>\n\u5317\u6597\u9610\u5e72\u5357\u6597\u659c\uff0c<br \/>\n\u4eca\u591c\u504f\u77e5\u6625\u6c14\u6696\uff0c<br \/>\n\u866b\u58f0\u65b0\u900f\u7eff\u7a97\u7eb1\u3002<\/p>\n<p class=\"p2\">Sugiro a seguinte tradu\u00e7\u00e3o para esta quadra:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><strong>NOITE DE LUAR<br \/>\n<\/strong><span class=\"s7\"><i>Noite alta, o luar, quase sem vivalma,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s7\"><i>As estrelas da Ursa Maior na sua trajet\u00f3ria bela,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s7\"><i>Noite inclinada \u00e0 suave brisa de Primavera,<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>Escutando os insectos cantando de novo junto \u00e0 janela.<\/i><i><\/i><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">O poeta Liu Fangping relata a vontade de amar que surge na primavera, nas noites de luar onde insetos e brisa dedilham as cordas sens\u00edveis do eu po\u00e9tico, que encontra na natureza o seu parceiro amoroso, e n\u00e3o precisa de mais para sentir o calor das sensa\u00e7\u00f5es a despontar t\u00e3o juvenis como a quadra natural.<\/p>\n<p class=\"p3\">Todos os poetas chineses aqui trazidos t\u00eam um tra\u00e7o comum, a subtileza sens\u00edvel no canto amoroso, figurando-o com o aux\u00edlio de elementos naturais, seja a lua, as flores, os p\u00e1ssaros, particularmente os patos mandarim, que simbolizam a rela\u00e7\u00e3o amorosa, ou as aves que entram em comunh\u00e3o de alma com o eu po\u00e9tico,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>como os papa-figos, mensageiros de um amor distante, ou ainda outros seres mitol\u00f3gicos, as f\u00e9nix.<\/p>\n<p class=\"p3\">As declara\u00e7\u00f5es, as saudades, alegrias e amarguras nunca s\u00e3o apresentadas de uma forma direta, mas atrav\u00e9s dos elementos da natureza que melhor se conjugam com o sentir po\u00e9tico.<\/p>\n<p class=\"p3\">Hoje, tempo de grande exposi\u00e7\u00e3o de sentimentos, holofotes e espect\u00e1culo, poder\u00e1 ser um b\u00e1lsamo e um consolo para o mundo termos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o este reservat\u00f3rio po\u00e9tico cl\u00e1ssico chin\u00eas, onde se pode comungar de pequenos gestos criativos que recordam e acompanham, com imenso g\u00e1udio, a paisagem primaveril do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">Termino a partilha do amor de antigos poetas chineses com o homem de estado, poeta e letrado Tang, Zhang Jiuling (<span class=\"s2\">\u5f20\u4e5d\u5cad <\/span>678-740), que expressa a saudade amorosa atrav\u00e9s de uma amada distante pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>comunicando os seus sentimentos em comunh\u00e3o com a lua:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u300a\u671b\u6708\u6000\u8fdc\u300b<br \/>\n\u6d77\u4e0a\u751f\u660e\u6708\uff0c\u5929\u6daf\u5171\u6b64\u65f6\u3002<br \/>\n\u60c5\u4eba\u6028\u9065\u591c\uff0c\u7adf\u5915\u8d77\u76f8\u601d\u3002<br \/>\n\u706d\u70db\u601c\u5149\u6ee1\uff0c\u62ab\u8863\u89c9\u9732\u6ecb\u3002<br \/>\n\u4e0d\u582a\u76c8\u624b\u8d60\uff0c\u8fd8\u5bdd\u68a6\u4f73\u671f\u3002<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><strong>PENSANDO NO AMADO AO LUAR<br \/>\n<\/strong><i>A lua brilhante sobre o mar,<br \/>\n<\/i><i>Distantes, mas a partilhar o mesmo olhar.<br \/>\n<\/i><i>Sofrem os amantes com a separa\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<\/i><i>Toda a noite o mesmo penar no cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/i><i>Ao apagar a vela, surge a lua cheia apiedada,<br \/>\n<\/i><i>Envolta em roupa, sinto-a orvalhada,<br \/>\n<\/i><i>Sem conseguir ofertar uma m\u00e3o cheia de lua,<br \/>\n<\/i><i>Regresso ao quarto, sonhando contigo de alma pura. <\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p2\">___<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p13\">Freire, Zerbo. 2022.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Quadras Chinesas<\/i>. Macau: Livros do Meio.<\/li>\n<li class=\"p13\">Foreign Language Press. 2008. <i>Quick Access to Chinese History. <\/i>Beijing: Foreign Language Press.<\/li>\n<li class=\"p13\">Gra\u00e7a de Abreu, Ant\u00f3nio (Org. Trad.). 1991.<i> Poemas de Bai Juyi<\/i>. Macau: Instituto Cultural de Macau.<\/li>\n<li class=\"p13\">______________1993. <i>Poemas de Wang Wei<\/i>. Macau: Instituto Cultural.<\/li>\n<li class=\"p13\">______________2023. <i>Su Dongpo, Poemas<\/i>. Lisboa: Gr\u00e3o-Falar.<\/li>\n<li class=\"p13\">Su Shi (<span class=\"s9\">\u82cf\u8f7c<\/span>). 2024.<span class=\"s9\">\u300a\u60bc\u671d\u4e91\u300b<\/span>(Em Mem\u00f3ria de Zhaoyun). <i>Baike.Baidu.com<\/i><\/li>\n<li class=\"p13\">Wang Guozhang, Wang Anlu. 1995. <span class=\"s9\">\u300a\u5510\u8bd7<\/span>60<span class=\"s9\">\u9996\u4eca\u8bed\u6d45\u8bd1\u300b<\/span>. Sixty Annoted Tang Poems. Beijing: Sinolingua.<\/li>\n<li class=\"p13\">Zhang Bingxing (Trad.). 2002. <span class=\"s9\">\u82f1\u8bd1\u4e2d\u56fd\u53e4\u5178\u8bd7\u8bcd\u540d\u7bc7\u767d\u9996<\/span><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>100 Best<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Chinese Classical Poems<\/i>.<span class=\"s9\">\u5317\u4eac\uff1a\u4e2d\u534e\u4e66\u5c40<\/span>.<\/li>\n<li class=\"p13\">Zhang Jiuling. 2024.<span class=\"s9\">\u300a\u671b\u6708\u6000\u8fdc\u300b<\/span>(Pensando no Amado ao Luar) <i>Baike.Baidu.com<\/i><\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] No m\u00eas da Primavera falemos de amor, e quem melhor para o fazer do que os poetas? N\u00e3o quaisquer poetas, mas sim os da idade de ouro da poesia chinesa, aqueles que viveram na dinastia Tang \u5510 (618-907), grande em tudo, mas sobretudo no encontro de culturas e na poesia. 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