{"id":1064,"date":"2025-10-20T23:13:03","date_gmt":"2025-10-20T15:13:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1064"},"modified":"2025-10-20T23:13:03","modified_gmt":"2025-10-20T15:13:03","slug":"em-torno-do-classico-dos-cantares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/em-torno-do-classico-dos-cantares\/","title":{"rendered":"Em torno do Cl\u00e1ssico dos Cantares"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">A<span class=\"s1\">ntes de mais<\/span>, a raz\u00e3o de ser do t\u00edtulo. Por que raz\u00e3o traduzir <span class=\"s2\">\u300a\u8a69\u7d93\u300b<\/span>por <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares<\/i> e n\u00e3o seguir o exemplo de excelentes sin\u00f3logos tais como Arthur Waley ou o Padre Joaquim Guerra? Pretendi ser fiel \u00e0 frase proverbial chinesa que nos relata a exist\u00eancia de cinco cl\u00e1ssicos e quatro livros fundantes da hist\u00f3ria do pensamento chin\u00eas na express\u00e3o: \u201c<span class=\"s2\">\u4e94\u7d93\u56db\u66f8<\/span>\u201d\/\u201dOs Cinco Cl\u00e1ssicos e os Quatro Livros\u201d encontrando -se o <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares <\/i>entre os cinco maiores e no topo em termos de antiguidade<sup>1<\/sup>. H\u00e1 ainda quem chame aos cantares \u201codes\u201d, como \u00e9 o caso de Bernard Karlgren ou James Legge, mas creio que cantares \u00e9 menos restritivo do que odes, j\u00e1 que estas \u00faltimas implicam c\u00e2nticos elevados e temas sublimes, pelo menos na sua raiz grega, o que nem sempre sucede com estas can\u00e7\u00f5es, algumas dedicadas aos simples prazeres da vida, como encontros namoradeiros, passeios pelo campo e festejos, ou at\u00e9 epis\u00f3dios de ca\u00e7a e de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">S\u00e3o 305 os poemas que chegaram at\u00e9 n\u00f3s sobre os tempos da dinastia Zhou (<\/span><span class=\"s4\">\u5468<\/span><span class=\"s3\">, 1046-. 275 a.C), em vers\u00e3o bilingue por James Legge, ou apenas traduzidos por Arthur Waley, (ou pelo Padre Joaquim Guerra), mas basicamente organizados por Conf\u00facio (551- 479. A.C) e sua escola a partir do s\u00e9culo VI a. C, como \u00e9 referido pelo professor Stephen Owen no pref\u00e1cio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de Arthur Waley, ou at\u00e9 tempos mais remotos. Os poemas reflectem o ritmo da vida dos tempos da sedent\u00e1ria e agr\u00edcola dinastia Zhou. Cantam namoros e casamentos, guerras e batalhas, actividades agr\u00edcolas e b\u00ean\u00e7\u00e3os, festejos, sacrif\u00edcios e culto aos antepassados, m\u00fasicas e dan\u00e7ares, hinos religiosos, lendas din\u00e1sticas; relatam actividades de engenharia e de ca\u00e7a ou, ainda, descrevem amizades, princ\u00edpios morais e lamenta\u00e7\u00f5es. Diz-nos Owen que \u201cos poemas mais antigos, os hinos religiosos da fam\u00edlia real dos Chou devem datar de 1000 a.C\u201d (Waley, 1987: xi)<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Antes dos livros filos\u00f3ficos, como o <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es<\/i>, surgiram as can\u00e7\u00f5es e sua organiza\u00e7\u00e3o por Conf\u00facio e escola confucionista. A cuidadosa compila\u00e7\u00e3o dos cantares chineses e a influ\u00eancia que tiveram sobre a sociedade conduziu \u00e0 defesa de que a poesia \u00e9 a espinha dorsal do povo chin\u00eas, a sua mais funda voca\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, ou dito de outro modo, a verdadeira religi\u00e3o, que n\u00e3o desenvolveu uma tradi\u00e7\u00e3o \u00e9pica \u00e0 nascen\u00e7a, \u00e0 maneira grega, mas antes uma viv\u00eancia constante em comunh\u00e3o com os antepassados, bem como a certeza de que os governantes Zhou tinham sido imbu\u00eddos de um mandato celestial (<span class=\"s2\">\u5929\u547d<\/span><span class=\"s5\"><i>Ti\u0101n M\u00ecng<\/i><\/span>). Tal significava para toda a tradi\u00e7\u00e3o posterior transformadora do Confucionismo em ideologia do imp\u00e9rio chin\u00eas, que quem n\u00e3o governasse para o bem do povo, perderia a sua capacidade de orientar os destinos das gentes e da sua terra.<\/p>\n<p class=\"p3\">Nota ainda Owen que falta tradi\u00e7\u00e3o violenta e tr\u00e1gica ao <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares<\/i>. Os her\u00f3is dos Zhou s\u00e3o enaltecidos pelo seu valor e capacidade de governan\u00e7a para a Paz, como se ver\u00e1 adiante nos exerc\u00edcios de tradu\u00e7\u00e3o, o que bem se compreende se pensarmos que estamos perante uma dinastia agr\u00e1ria, enaltecendo a abund\u00e2ncia agr\u00edcola e e repeti\u00e7\u00e3o dos ciclos naturais, sucedendo-se numa ordem mon\u00f3tona e sossegada \u00e0 qual a guerra seria fatal.<\/p>\n<p class=\"p3\">O <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares <\/i>influenciou toda a tradi\u00e7\u00e3o chinesa, tendo sido frequentemente citado na corte para decidir e argumentar em termos pol\u00edticos e filos\u00f3ficos. Os versos s\u00e3o ainda incorporados noutros cl\u00e1ssicos, como no das <i>Muta\u00e7\u00f5es<\/i>, para rematar racioc\u00ednios ou fundamentar aug\u00farios e posi\u00e7\u00f5es. Desde a dinastia Han (206. A.C- 220) foi tornado parte do curr\u00edculo que vir\u00e1 mais tarde a consolidar-se nos exames imperais definitivamente formatados na dinastia Tang (618-906).<\/p>\n<p class=\"p3\">O <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares<\/i> inspirar\u00e1 dinastias, governantes e letrados, enfim todos os homens de bem, por isso entre as can\u00e7\u00f5es se descobrir\u00e3o umas particularmente votadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter e da moralidade, as chamadas \u201cpe\u00e7as morais\u201d na classifica\u00e7\u00e3o de Arthur Waley. Nas \u201cLamenta\u00e7\u00f5es\u201d denuncia-se em forma de queixa figurada a m\u00e1 governa\u00e7\u00e3o de todos aqueles que n\u00e3o seguem os princ\u00edpios morais, s\u00e3o por isso uma esp\u00e9cie de negativo das pe\u00e7as dedicadas \u00e0 moralidade, porque v\u00e3o cantando aquilo que aqueles que mandam n\u00e3o deveriam fazer, por conduzirem a desordens e injusti\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em muitos dos cantares s\u00e3o os grandes senhores e os reis, especialmente os reis exemplares da desta dinastia, o Rei Wen (<span class=\"s2\">\u6587\u738b<\/span>, 1152-1056 a. C) ou o Rei Wu (<span class=\"s2\">\u6b66\u738b<\/span>, 1076-1043 a. C), entre outros, os mais enaltecidos, por deterem o Mandato Celestial (<span class=\"s2\">\u5929\u547d<\/span><span class=\"s5\"><i>Ti\u0101n M\u00ecng<\/i><\/span>) que lhes permite governar em estreita concord\u00e2ncia com o C\u00e9u, tendo por isso derrubado uma dinastia, a Shang ou Yin (<span class=\"s2\">\u5546\u3001\u6bb7\u671d<\/span>c1600-1046 a.C), estabelecido e alargado a sua pr\u00f3pria na sequ\u00eancia do Duque Tan Fu (<span class=\"s2\">\u4eb6\u7236<\/span><span class=\"s5\"><i>D\u01cen F\u01d4<\/i><\/span>), conhecido por Zhou Tai Wang (<span class=\"s2\">\u5468\u592a\u738b<\/span><span class=\"s5\"><i>Zh\u014du T\u00e0i w\u00e1ng<\/i><\/span>).<\/p>\n<p class=\"p3\">Estes reis exemplares tiveram o C\u00e9u do seu lado, porque eram eticamente irrepreens\u00edveis, permitindo-lhe a sua conduta afastar os decadentes governantes Shang que, na fase final do seu governo, n\u00e3o se importavam com a popula\u00e7\u00e3o, sendo cru\u00e9is e entregando-se a prazeres desenfreados, onde se distinguiam, como somos informados em algumas das can\u00e7\u00f5es, por ostentarem uma conduta violenta, acompanhada por um excessivo consumo de vinho. J\u00e1 os fundadores da dinastia Zhou faziam guerra quando era absolutamente necess\u00e1rio e em vista do estabelecimento da paz e da harmonia, de modo a que a povo se sentisse feliz, guiando-se por virtudes \u00e9tico-morais, como a bondade e a justi\u00e7a, mas acima de tudo a bondade, tal como nos \u00e9 dito nas pe\u00e7as morais e em conson\u00e2ncia com a rever\u00eancia e respeito aos antepassados, que por isso protegiam a dinastia e seus v\u00e1rios cl\u00e3s.<\/p>\n<p class=\"p3\">Posto este quadro paradis\u00edaco, influenciado e enquadrado pela filosofia confucionista, fica-se com curiosidade de saber o que pensava a popula\u00e7\u00e3o sobre t\u00e3o excelsos governantes. Percebe-se ent\u00e3o que houve um tempo em que a dinastia Zhou se pautava pelos melhores princ\u00edpios morais, sendo esse reportado aos seus fundadores, mas que mais recentemente, pr\u00f3ximo de um qualquer presente impreciso, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a mudar e os reis e senhores actuais j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o modelares como seria aconselh\u00e1vel para manter a protec\u00e7\u00e3o celestial sobre a descend\u00eancia humana.<\/p>\n<p class=\"p3\">Para analisar o que o comum dos mortais da \u00e9poca j\u00e1 de crise sentia, recorre-se \u00e0s <i>Lamenta\u00e7\u00f5es<\/i>. Numa delas, a 288 na numera\u00e7\u00e3o de Arthur Waley, Segunda Parte do Livro VII da <i>D\u00e9cada do P\u00e1ssaro da Amoreira <\/i>(<span class=\"s2\">\u6851\u6248\u4e4b\u4ec0\u4e8c\u4e4b\u4e03<\/span>), 0de X, segundo a classifica\u00e7\u00e3o proposta por James Legge, numa interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, o governante \u00e9 figurado nas duas primeiras estrofes como uma \u00e1rvore possante, um chor\u00e3o, do qual se \u00e9 aconselhado a manter as devidas dist\u00e2ncias, apesar da \u00e1rvore ser luxuriante e muito convidativa, a pr\u00f3pria vida de quem vai procurar abrigo corre risco, j\u00e1 que ele tamb\u00e9m \u00e9 na terceira estrofe como um p\u00e1ssaro que voa muito alto, mas nada conhece sobre o cora\u00e7\u00e3o das pessoas, pelo que qualquer admoesta\u00e7\u00e3o ou conselho pode conduzir \u00e0 morte de quem o profere. Fique-se com a terceira estrofe de que abaixo apresento tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u83c0\u67f3<br \/>\n\u6709\u9ce5\u9ad8\u98db<br \/>\n\u4ea6\u50b3\u4e8e\u5929<br \/>\n\u5f7c\u4eba\u4e4b\u5fc3<br \/>\n\u4e8e\u4f55\u5176\u81fb<br \/>\n\u66f7\u4e88\u9756\u4e4b<br \/>\n\u5c45\u4ee5\u51f6\u77dc<br \/>\n(Legge, 1994: 408)<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p8\"><b>Chor\u00e3o<br \/>\n<\/b><b><\/b><i>O p\u00e1ssaro que se ergue<br \/>\n<\/i><i>Rumo ao C\u00e9u<br \/>\n<\/i><i>Como alcan\u00e7a<br \/>\n<\/i><i>O cora\u00e7\u00e3o da gente?<br \/>\n<\/i><i>Se interferir,<br \/>\n<\/i><i>Ser\u00e1 para ferir.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">A par do governante, h\u00e1 ainda os outros que vivem abaixo ou na sua sombra, sendo igualmente tem\u00edveis, metamorfoseados alegoricamente em varejeiras, no poema 287 na classifica\u00e7\u00e3o de Arthur Waley e do referido livro VII, Ode V, na cataloga\u00e7\u00e3o de James Legge. Aqui s\u00e3o as moscas azuis, como se denominam em chin\u00eas, que voltejam em torno do soberano, criando um cen\u00e1rio de intrigas muito desfavor\u00e1vel a quem, subentende-se, se mant\u00e9m justo, correto, firme e de comportamento moral irrepreens\u00edvel, seja oficial ou popula\u00e7\u00e3o, todos sofrem com a conduta impr\u00f3pria destas moscas que espalham calamidades. Leia-se a segunda estrofe desta <i>Lamenta\u00e7\u00e3o<\/i>:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u9752\u8747<br \/>\n\u71df\u71df\u9752\u8805<br \/>\n\u6b62\u4e8e\u68d8<br \/>\n\u8b92\u4eba\u7f54\u6975<br \/>\n\u4ea4\u4e82\u56db\u570b<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p8\"><b>Varejeiras<br \/>\n<\/b><b><\/b><i>Bzzz varejeiras<br \/>\n<\/i><i>Lan\u00e7am suas ferroadas,<br \/>\n<\/i><i>Sem limites os caluniadores,<br \/>\n<\/i><i>Espalham a confus\u00e3o por toda a na\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">H\u00e1 ainda quem consiga escapar \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis, como os coelhos previdentes e cautelosos, e quem seja sempre ca\u00e7ado como um fais\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m, segundo os cantores, uns ratos gigantes, talvez umas ratazanas, que segundo os queixosos a\u00e7ambarcam tudo para eles, deixando a popula\u00e7\u00e3o sen\u00e3o a morrer de fome, pelo menos a apertar muito o cinto, o que \u00e9 absolutamente o contr\u00e1rio do que faziam os reis modelares fundadores da dinastia Zhou, que criaram condi\u00e7\u00f5es de prosperidade para todos, evitando a sobrecarga de contribui\u00e7\u00f5es e impostos, ou a imposi\u00e7\u00e3o de trabalhos t\u00e3o esfor\u00e7ados que mais pareciam for\u00e7ados. Vejamos ent\u00e3o a <i>Lamenta\u00e7\u00e3o<\/i> \u00e0 qual Arthur Waley atribui o n\u00famero 276 e que James Legge classifica como a Ode VII da primeira parte do Livro IX, <i>As Odes de Wei<\/i>, relativas ao antigo reino de Wei subjugado pelos Zhou quando do derrube da dinastia Shang, cujos senhores parasitavam aqueles que para eles trabalhavam e se sentiam, por isso, escravizados. Leia-se a primeira estrofe, que bem resume as restantes:<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u78a9\u9f20<br \/>\n\u78a9\u9f20<br \/>\n\u78a9\u9f20\u7121\u98df<br \/>\n\u6211\u9ecd\u4e09\u6b72<br \/>\n\u8cab\u5973\u83ab\u6211<br \/>\n\u80af\u9867\u901d\u5c07\u53bb\u5973<br \/>\n\u9069\u5f7c\u6a02\u571f<br \/>\n\u6a02\u571f\u6a02\u571f<br \/>\n\u7230\u5f97\u6211\u6240<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p8\"><b>Ratazanas<br \/>\n<\/b><i>Ratazanas, ratazanas,<br \/>\n<\/i><i>Parem de comer o nosso milhete<br \/>\n<\/i><i>Forem tr\u00eas anos de escravid\u00e3o<br \/>\n<\/i><i>Da mim e da fam\u00edlia<br \/>\n<\/i><i>Sem qualquer considera\u00e7\u00e3o,<br \/>\n<\/i><i>Vamos deixar-te e seguir,<br \/>\n<\/i><i>Rumo a Terra de Alegria<br \/>\n<\/i><i>Terra de Alegria, Terra de Alegria,<br \/>\n<\/i><i>Da que farei o nosso lar. <\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">E depois desta queixa exemplar que conduziu tantos a migrarem em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, conclui-se com uma can\u00e7\u00e3o, j\u00e1 fora do quadro das <i>Lamenta\u00e7\u00f5es<\/i>, num novo contexto, agora b\u00e9lico, mas que surge como uma queixa, apresentada ao ministro da defesa de ent\u00e3o, o Ministro da Guerra, para que pondere a possibilidade se se avan\u00e7ar para a paz, preservando o melhor esp\u00edrito da dinastia Zhou. Nesta, nos seus tempos \u00e1ureos, s\u00f3 se pelejava por for\u00e7a maior, j\u00e1 que os valores defendidos eram os da Paz contra a viol\u00eancia e da harmonia face a convuls\u00f5es pol\u00edticas e sociais. O poema com que se termina o exerc\u00edcio de tradu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 apresentado na \u00edntegra, sendo o 127 da ordem de Arthur Waley, que corresponde \u00e0 Ode I da segunda parte do Livro IV, <i>D\u00e9cada de Qi Fu<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u7948<\/span> <span class=\"s4\">\u7236\u4e4b\u4ec0\u4e8c\u4e4b\u56db<\/span><span class=\"s3\">), intitulado \u201c<\/span><span class=\"s4\">\u7948\u7236<\/span><span class=\"s3\">\u201d, constando de um rogo ou queixa da guarda real pelo servi\u00e7o que lhes foi imposto pelo Ministro da Guerra do Rei Zhou Xuan (<\/span><span class=\"s4\">\u5468\u5ba3\u738b<\/span><span class=\"s3\">) , quando no s\u00e9culo VIII a.C j\u00e1 a crise se instalara e o ex\u00e9rcito come\u00e7ava a sofrer grandes derrotas, por exemplo a de 788 a.C, imposta pelas tribos do Norte, chamando ent\u00e3o o monarca a sua guarda para combate, o que estava fora do \u00e2mbito das caracter\u00edsticas e atribui\u00e7\u00f5es desta:<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u7948\u7236<br \/>\n\u7948\u7236<br \/>\n\u4e88\u738b\u4e4b\u722a\u7259<br \/>\n\u80e1\u8f49\u4e88\u4e8e\u6064<br \/>\n\u9761\u6240\u6b62\u5c45<br \/>\n\u7948\u7236<br \/>\n\u4e88\u738b\u4e4b\u722a\u58eb<br \/>\n\u80e1\u8f49\u4e88\u4e8e\u6064<br \/>\n\u9761\u6240\u5e95\u6b62<br \/>\n\u7948\u7236<br \/>\n\u4eb6\u4e0d\u806a<br \/>\n\u80e1\u8f49\u4e88\u4e8e\u6064<br \/>\n\u6709\u6bcd\u4e4b\u6237\u9954<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p8\"><b>Ministro da Guerra<br \/>\n<\/b><i>Ministro da Guerra,<br \/>\n<\/i><i>Sois as garras e as presas do rei,<br \/>\n<\/i><i>Andamos \u00e0 deriva sem lei,<br \/>\n<\/i><i>Nem lugar para morar.<br \/>\n<\/i><i>Ministro da Guerra,<br \/>\n<\/i><i>Sois as garras militares do rei,<br \/>\n<\/i><i>Andamos \u00e0 deriva sem lei,<br \/>\n<\/i><i>Nem poiso ou termo onde parar.<br \/>\n<\/i><i>Ministro da Guerra,<br \/>\n<\/i><i>Que falta de discernimento,<br \/>\n<\/i><i>Andamos \u00e0 deriva sem lei,<br \/>\n<\/i><i>Enquanto m\u00e3es e falecidos<br \/>\n<\/i><i>aguardam mantimento.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">Ontem, e com <i>Cl\u00e1ssico do Cantares<\/i> recu\u00e1mos milhares de anos, bem como hoje, pense-se no aqui e agora, nas queixas dos soldados que em cen\u00e1rios b\u00e9licos se mant\u00eam, pelo que mesmo quando se travam batalhas em nome de nobres ideais ou para defesa de bens de raiz, como sejam as gentes e o nosso pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 bom prolongar indefinidamente as situa\u00e7\u00f5es de conflito, j\u00e1 que acarretam muita dor e sofrimento para aqueles que fazem ou sofrem as pelejas, sendo este, entre tantos outros, um dos s\u00e1bios ensinamentos a retirar daquele a que alguns sin\u00f3logos denominaram o <i>Livro das Odes<\/i>, talvez pela nobreza de muitas das mensagens encontradas em certos poemas. Os reis enaltecidos e mais cantados na obra foram aqueles que conseguiram conduzir as suas popula\u00e7\u00f5es at\u00e9 paisagens pac\u00edficas, onde podiam viver e prosperar na sua terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p2\"><b>___<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p11\">Guerra, Joaquim, S.J. (Trad.) 1990. <i>O Livro dos Cantares<\/i>. Toronto, Hong Kong: Instituto Cultural de Macau, Aidan Publicities &amp; Printing.<\/li>\n<li class=\"p11\">Legge, James (Org. e trad.). 1994. <i>The Chinese Classics.<\/i> 5 vols. <i>The She King<\/i>. Vol. 4. Taipei: SMC Publishing Inc.<\/li>\n<li class=\"p11\">Waley, Arthur (Trad.) 1987.<i>The Book of Songs. The Ancient Chinese Classic of Poetry<\/i>. Novo pref\u00e1cio por Stephen Owen. New York: Grove Weidenfeld.<\/li>\n<\/ul>\n<p><b>Nota<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p11\">1 Os cl\u00e1ssicos ou livros can\u00f3nicos s\u00e3o fundamentais na tradi\u00e7\u00e3o confucionista. A etimologia deste sinograma mostra-nos como os livros eram feitos, o instrumento de que dependiam e o modo como eram cozidos com linhas. H\u00e1 quatro livros fundamentais e cinco (ou seis cl\u00e1ssicos) na tradi\u00e7\u00e3o confucionista. Os quatro livros s\u00e3o: os <i>Analectos<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u8ad6\u8a9e\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>L\u00fan Y\u01d4<\/i><\/span>), o <i>Livro de M\u00e2ncio<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u5b5f\u5b50\u300b<\/span><span class=\"s9\">M\u00e8ngz\u01d0<\/span>), <i>O Grande<\/i> <i>Estudo<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u5927\u5b78\u300b<\/span><i>D\u00e0 Xu\u00e9<\/i>) e a <i>Doutrina do Meio<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u4e2d\u5eb8\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Zh\u014dng Y\u014dng<\/i><\/span>).<\/li>\n<li class=\"p11\">Os cinco cl\u00e1ssicos s\u00e3o: <i>Cl\u00e1ssico dos Cantares<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u8a69\u7d93\u300b<\/span>), <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es <\/i>(<span class=\"s8\">\u300a\u6613\u7d93\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Y\u00ec J\u012bng<\/i><\/span>); <i>Hist\u00f3ria <\/i>(<span class=\"s8\">\u300a\u53f2\u8a18\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Sh\u01d0 J\u00ec<\/i>\u201d<\/span>), <i>Ritos<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u79ae\u8a18\u300b<\/span>), <i>Anais da Primavera e do Outono<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u6625\u79cb\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Ch\u016bn Qi\u016b<\/i><\/span>) e talvez um sexto, a M\u00fasica (<span class=\"s8\">\u300a\u6a02\u7d93\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Yu\u00e8 J\u012bng<\/i><\/span>), desaparecido. Posteriormente a tradi\u00e7\u00e3o neoconfucionista acrescentar\u00e1 \u00e0 bibliografia fundamental da escola o <i>Cl\u00e1ssico<\/i> <i>da Filialidade<\/i> (<span class=\"s8\">\u300a\u5b5d\u7d93\u300b<\/span><span class=\"s9\"><i>Xi\u00e0o J\u012bng<\/i><\/span>).<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Antes de mais, a raz\u00e3o de ser do t\u00edtulo. Por que raz\u00e3o traduzir \u300a\u8a69\u7d93\u300bpor Cl\u00e1ssico dos Cantares e n\u00e3o seguir o exemplo de excelentes sin\u00f3logos tais como Arthur Waley ou o Padre Joaquim Guerra? Pretendi ser fiel \u00e0 frase proverbial chinesa que nos relata a exist\u00eancia de cinco cl\u00e1ssicos e quatro livros fundantes da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1065,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1064","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/36-A-primeira-pagina-do-Classico-dos-Cantares-caligrafada-pelo-imperador-Qianlong.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1064"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1064\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1066,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1064\/revisions\/1066"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}