{"id":1101,"date":"2025-10-20T23:57:53","date_gmt":"2025-10-20T15:57:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1101"},"modified":"2025-10-20T23:57:53","modified_gmt":"2025-10-20T15:57:53","slug":"o-tempo-da-tartaruga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/o-tempo-da-tartaruga\/","title":{"rendered":"O tempo da tartaruga"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O <\/span><span class=\"s2\">Patriarca<\/span><span class=\"s1\"> Estrela Proeminente (Ku\u00edx\u012bng Y\u00e9 <\/span><span class=\"s3\">\u9b41\u661f\u723a<\/span><span class=\"s1\">\/<\/span><span class=\"s3\">\u7237<\/span><span class=\"s1\">) \u00e9 muito venerado, particularmente nos meios acad\u00e9micos. Ele \u00e9 uma das Cinco Divindades Estelares da Cultura, de facto a Primeira, estando intimamente relacionado com a Suprema Divindade da Cultura Florescente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Na China tradicional, incluindo Taiwan, sempre se lhe prestou culto, especialmente os estudantes que atingiam o primeiro lugar na lista dos classificados nos exames imperiais. \u00c9 conhecido como Intelectual Proeminente (<span class=\"s4\">\u5927\u9b41\u592b\u5b50<\/span><i>D\u00e0 Ku\u00edx\u012bng F\u016bz\u01d0<\/i>) e Intelectual Proeminente da Cultura (<span class=\"s4\">\u6587\u9b41\u592b\u5b50<\/span><i>W\u00e9nku\u00ed F\u016bz\u01d0<\/i>). Os taoistas chamam-lhe o Senhor Imortal Proeminente \u201c (<span class=\"s4\">\u5927\u9b41\u4ed9\u5e1d<\/span><i>D\u00e0 ku\u00ed X\u012bng Xi\u0101nd\u00ec<\/i>) e o Supremo Senhor das Vestes do Destino (<span class=\"s4\">\u7de3<\/span>\/<span class=\"s4\">\u7f18\u8863\u5e1d\u541b <\/span><i>Yu\u00e1n<\/i> <i>Y\u012b D\u00ecj\u016bn<\/i>). Para o vulgo \u00e9 apenas o Patriarca Estrela Proeminente (<span class=\"s4\">\u9b41\u661f\u7237 <\/span><i>Ku\u00edx\u012bng Y\u00e9<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">O nome desta divindade estelar, por homofonia imperfeita, recorda o da tartaruga (<\/span><span class=\"s6\">\u9f9c<\/span><span class=\"s5\">\/<\/span><span class=\"s6\">\u9f9f <\/span><span class=\"s5\"><i>gu\u012b<\/i>), por isso os que atingiam a primeira classifica\u00e7\u00e3o nos exames tinham que pisar uma tartaruga. O primeiro lugar era denominado <i>o proeminente cabe\u00e7a de lista<\/i>, em homenagem a Kuixing, j\u00e1 que <i>ku\u00ed <\/i><\/span><span class=\"s6\">\uff08\u9b41\uff09<\/span><span class=\"s5\"> significa <i>primeiro<\/i>, mas tamb\u00e9m <i>proeminente<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">Esta divindade estelar da 28\u00aa constela\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira da Ursa Maior. \u00c9 facilmente reconhec\u00edvel pelo seu aspecto indom\u00e1vel. Em termos de figura, \u00e9 a ant\u00edtese da sofisticada Divindade da Cultura Florescente. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O indom\u00e1vel primeiro lugar traz o cabelo em desalinho, tem o rosto sardento e suspeita-se que \u00e9 coxo da perna esquerda. O p\u00e9 direito surge sobre a cabe\u00e7a de uma tartaruga do mar que, a mando do Imperador celestial, salvou a sua alma de ser devorada pelos peixes do oceano.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">Na m\u00e3o direita, apresenta ainda um pincel e na esquerda a tinta. Suicidou-se depois de ter chumbado nos exames imperiais, por causa do seu tipo literalmente anti-social. Os examinadores, impressionados com tamanha fealdade, apressaram-se a reprov\u00e1-lo, mas de facto ele era o melhor aluno que alguma vez se apresentou a exame. Por isso se ressentiu, pondo termo \u00e0 vida. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Quis o destino que o Imperador celestial o salvasse com o apoio de uma tartatuga com corpo de drag\u00e3o e depois o promovesse a divindade protectora de todos aqueles que intelectualmente se distinguiam na terra.<\/p>\n<p class=\"p3\">Encurtando raz\u00f5es e argumentos, o que seria do saber, humano mas tamb\u00e9m divino, sem o apoio das for\u00e7as naturais ou, dito de outro modo, o que teria sido da alma da futura Divindade Proeminente sem a tartaruga do mar?<\/p>\n<p class=\"p3\">Na verdade, a tartaruga \u00e9 um s\u00edmbolo multifacetado como todos os verdadeiros s\u00edmbolos. Segundo a filosofia taoista, o seu nome aproxima-a, mais uma vez por homofonia imperfeita, da esfera fantasmag\u00f3rica, dos <i>gu\u01d0<\/i> (<span class=\"s4\">\u9b3c<\/span>), mas quando as quest\u00f5es de nomenclatura s\u00e3o devidamente contornadas pelas pr\u00e1ticas rituais taoistas, a sua faceta de carapa\u00e7a bloqueadora do sopro vital (<span class=\"s4\">\u6c23<\/span><i>q\u00ec<\/i>) \u00e9 removida para dar lugar \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o do sopro, permitindo lentamente alcan\u00e7ar a longevidade, e at\u00e9 a imortalidade, que tamb\u00e9m simboliza.<\/p>\n<p class=\"p3\">A grande longevidade da tartaruga e a possibilidade de alcan\u00e7ar a imortalidade est\u00e1 inscrita no seu pr\u00f3prio corpo. Este re\u00fane fisicamente o c\u00e9u redondo na carapa\u00e7a e a terra quadrada nas patas, garantindo a sua perpetua\u00e7\u00e3o, pela s\u00e1bia conjuga\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as tel\u00faricas e celestiais. Ou seja, por transportar as duas for\u00e7as primordiais da filosofia chinesa, o <i>Yin<\/i> (<span class=\"s4\">\u9670<\/span>\/<span class=\"s4\">\u9634<\/span> <i>Y\u012bn<\/i>) feminino, na terra das patas, e o Yang (<span class=\"s4\">\u967d<\/span>\/<span class=\"s4\">\u9633<\/span> <i>Y\u00e1ng<\/i>) masculino na concha celestial. Al\u00e9m disso, move-se com calma, o que lhe permite preservar a energia que cont\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"p3\">As for\u00e7as complementares inscritas no corpo da tartaruga desenvolvem-se num tempo lento, aquele que poder\u00e1 aspirar ao primeiro lugar, pois garante a realiza\u00e7\u00e3o de uma obra perfeita e duradoira.<\/p>\n<p class=\"p3\">No entanto, o mundo contempor\u00e2neo introduziu um grave desequil\u00edbrio na complementaridade das for\u00e7as, precisamente por causa da rapidez com que se tem vivido.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ora de nada adianta falar em revolu\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e em paradigmas de desenvolvimento verdes e hol\u00edsticos para substituir os do velho modelo mecanicista, se n\u00e3o se entrar em linha de conta com o factor tempo, e especificamente com o calmo, o \u00fanico capaz de sustentar o novo paradigma e a emergente consci\u00eancia ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">O que nos conduziu onde estamos, com megacidades e crescimento desmedido, foi a total liberta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a <i>Yang <\/i>criativa em detrimento das pausas e dos descansos exigidos pela for\u00e7a <i>Yin<\/i> e seus ritmos tel\u00faricos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Quanto mais produzirmos, pior ficamos, mesmo que essa produ\u00e7\u00e3o se apresente na sua faceta redentora e limpa.<\/p>\n<p class=\"p3\">Precisamos de parar um pouco para contrabalan\u00e7ar o que j\u00e1 fizemos. O desequil\u00edbrio est\u00e1 consumado e as torres de babel erguem-se desenvoltas, rumo a um c\u00e9u que literalmente tocam (<span class=\"s4\">\u6469\u5929\u6a13<\/span>\/<span class=\"s4\">\u697c<\/span><i>M\u00f3ti\u0101nl\u00f3u<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 tarde para mezinhas e a harmonia natural s\u00f3 ser\u00e1 reposta se recuperarmos o ritmo de vida da tartaruga, para que o c\u00e9u e a terra possam voltar a dialogar em p\u00e9 de igualdade.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em termos pr\u00e1ticos, \u00e9 preciso menos constru\u00e7\u00e3o de carros, pr\u00e9dios, cidades e de tudo o resto; deixar o sil\u00eancio reinar durante grande parte da nossa exist\u00eancia quotidiana, sem pressa de chegar ou partir, evitando os hor\u00e1rios de sol a sol para fomentar o progresso. Enfim, seria bom voltar \u00e0 terra, sem afastar a aventura de Marte. Porque at\u00e9 os astronautas poder\u00e3o embarcar num ritmo mais tranquilo, e de olhos postos nos nossos companheiros naturais, os animais, concentrando-se nos de grande longevidade como a tartaruga.<\/p>\n<p class=\"p3\">Hoje, e com o ritmo de desenvolvimento que levamos, at\u00e9 os chineses j\u00e1 suspiram pelo equil\u00edbrio que sentem perdido, na forma de ecossocialismo. Muito se tem falado da harmonia social, mas ainda se ouvem poucas vozes, nomeadamente em certas regi\u00f5es asi\u00e1ticas, a levantarem-se pela harmonia natural.<\/p>\n<p class=\"p3\">O que foi perdido tem de ser recuperado em nome do primeiro lugar e em sinal de venera\u00e7\u00e3o ao Patriarca Estrela Proeminente, que nunca montou o tigre da riqueza, mas antes a tartaruga da longevidade.<\/p>\n<p class=\"p3\">A concluir h\u00e1 que recordar o apontamento biogr\u00e1fico de Zhuangzi (<span class=\"s4\">\u5e84\u5b50<\/span>Zhu\u0101ngzi), quando lhe perguntaram se desejava aceitar um cargo oficial, nomeadamente o de primeiro-ministro, ao que ele respondeu preferir arrastar a cauda na lama, recorrendo \u00e0 par\u00e1bola da tartaruga do cap\u00edtulo dezassete da obra<span class=\"s4\">\u300a\u5e84\u5b50\u300b<\/span>. Recordemos o contexto da par\u00e1bola, o fil\u00f3sofo pescava no rio Pu (<span class=\"s4\">\u6fee<\/span>P\u00fa), quando o governante do reino de Chu (<span class=\"s4\">\u695a\u56fd<\/span>Ch\u01d4) lhe envia dois vice-chanceleres para o nomearem<i> <\/i>Primeiro-Ministro.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\">Disseram-me que no reino h\u00e1 uma tartaruga sagrada, canonizada h\u00e1 tr\u00eas mil anos. Esta \u00e9 venerada pelo rei, estando embrulhada em seda, num precioso relic\u00e1rio, sobre um templo no altar. Preferia que a tartaruga estivesse morta e mantida em grande estilo ou estar viva e ser capaz de arrastar a sua cauda na lama?<\/p>\n<p class=\"p5\">Os ministros responderam: \u00abEstar viva e ser capaz de arrastar a cauda na lama.\u00bb<\/p>\n<p class=\"p5\">Zhuangzi disse: \u00abEnt\u00e3o, por favor, v\u00e3o-se embora, porque tamb\u00e9m prefiro arrastar a minha cauda na lama.\u00bb<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s8\">\u201c<\/span>\u543e\u95fb\u695a\u6709\u795e\u9f9f\uff0c\u6b7b\u5df2\u4e09\u5343\u5c81\u77e3\u3002\u738b\u5dfe\u7b25\u800c\u85cf\u4e4b\u5e99\u5802\u4e4b\u4e0a\u3002\u6b64\u9f9f\u8005\uff0c\u5b81\u5176\u6b7b\u4e3a\u7559\u9aa8\u800c\u8d35\u4e4e\uff1f\u5b81\u5176\u751f\u800c\u66f3\u5c3e\u4e8e\u6d82\u4e2d\u4e4e\uff1f<span class=\"s8\">\u201d <\/span>\u4e8c\u5927\u592b\u66f0<span class=\"s8\">: \u201c<\/span>\u5b81\u751f\u800c\u66f3\u5c3e\u6d82\u4e2d\u3002<span class=\"s8\">\u201d <\/span>\u5e84\u5b50\u66f0<span class=\"s8\">: \u201c <\/span>\u5f80\u77e3\uff01\u543e\u5c06\u66f3\u5c3e\u4e8e\u6d82\u4e2d\u3002<span class=\"s8\">\u201d <\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">(Zhuangzi, 1999:280)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p10\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p12\">Alves, Ana Cristina. 2011. Kuixing, Patriarca Estrela Proeminente. In <i>Hist\u00f3rias das Religi\u00f5es Chinesas<\/i>. (trabalho de investiga\u00e7\u00e3o, texto policopiado).<\/li>\n<li class=\"p12\">Ong Hean-Tatt. 1997. <i> Chinese Animal Symbolisms. <\/i>Malaysia: Pelanduk Publications.<\/li>\n<li class=\"p12\">__________1995. <i>Chinese Black Magic. An Expose.<\/i>Kuala Lumpur: Eastern Dragon Press.<\/li>\n<li class=\"p12\"><i>Zhuangzi (<\/i><span class=\"s10\">\u300a\u5e84\u5b50\u300b<\/span><i>). <\/i>1999. Vol. I e II Trad para Ingl\u00eas de Wang Rongpei e para Chin\u00eas moderno de Qin Xuqing e Sun Yongchang. Hunan, Beijing: Hunan People\u2019s Publishing House, Foreign Language Press.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] O Patriarca Estrela Proeminente (Ku\u00edx\u012bng Y\u00e9 \u9b41\u661f\u723a\/\u7237) \u00e9 muito venerado, particularmente nos meios acad\u00e9micos. 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