{"id":1104,"date":"2025-10-20T23:59:29","date_gmt":"2025-10-20T15:59:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1104"},"modified":"2025-10-20T23:59:30","modified_gmt":"2025-10-20T15:59:30","slug":"a-chiru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/20\/a-chiru\/","title":{"rendered":"A Chiru"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N\u00e3o cessam<\/span><span class=\"s2\"> de nos espantar os mist\u00e9rios e maravilhas da montanha Qingqiu. Encrustada no seu seio rochoso, existe uma t\u00edmida nascente de onde brota o rio Yingshui. Ao deslizar encosta sul abaixo e por a ele se unirem, em coloridos amplexos, numerosos riachos e ribeiras, o que era um mero fio transmuta-se aos poucos num nobre curso de \u00e1gua, chegando a atingir propor\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis, antes de desaguar no lago Jiyi. Pelo caminho, ocasionalmente, o Yingshui ro\u00e7a as suas \u00e1guas em rochas do mais puro jade, abundante naquele lado da montanha. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Facto curioso: ainda antes do rio desaguar no lago Jiyi, algu\u00e9m construiu uma barreira de toros agu\u00e7ados, em madeira preciosa, \u00e0 volta de uma dessas forma\u00e7\u00f5es de jade, eri\u00e7ada no meio das \u00e1guas, isolando-a do mundo. A proximidade \u00e0 preciosa pedra parece s\u00f3 poder ser alcan\u00e7ada por via subaqu\u00e1tica, se na pali\u00e7ada existir uma porta ou outra qualquer passagem.<\/p>\n<p class=\"p2\">A origem e a identidade dos construtores desta pali\u00e7ada tamb\u00e9m se desfizeram no bolor do tempo. Alguns referem tribos n\u00f3madas, adoradores de pedras e do fogo, senhores da ca\u00e7a e dos metais. Outros preferem a cren\u00e7a em civiliza\u00e7\u00f5es extraterrestres, capazes de deixar a sua marca como sinal da inten\u00e7\u00e3o de regressar. Mas a teoria talvez mais fantasiosa atribui a um animal, vulgar habitante do rio Yingshui, a edifica\u00e7\u00e3o daquele inusitado c\u00edrculo amadeirado, que impossibilita o acesso ao mais belo penedo de jade que por ali desponta.<\/p>\n<p class=\"p2\">De facto, quer ao longo do rio, quer em n\u00fameros bem mais abundantes no pr\u00f3prio lago, habita uma esp\u00e9cie de salamandra vermelha, a que d\u00e3o o nome de <i>chiru<\/i>. Este animal respira debaixo de \u00e1gua, embora, surpreendentemente, seja capaz de se deslocar com desenvoltura, por curtos per\u00edodos de tempo, em terra firme, e mesmo adoptar uma postura vertical.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Outro dos aspectos mais impressionantes deste bicho, que dificilmente ousar\u00edamos classificar como um peixe, \u00e9 a sua face, pois nela se comp\u00f5e uma real express\u00e3o humana. Por isso, h\u00e1 quem diga que n\u00e3o devemos sustentar o olhar de uma salamandra vermelha, porque o facto de um animal nos enfrentar com uma express\u00e3o que reconhecemos como humana induz-nos uma emo\u00e7\u00e3o disruptiva e provoca-nos uma singular disposi\u00e7\u00e3o interna.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Por mais que a teoria seja atraente na sua inverosimilhan\u00e7a, ningu\u00e9m pode garantir terem sido as salamandras vermelhas as reais construtoras da pali\u00e7ada. E que s\u00e3o elas, ainda hoje, a dispor do seu usufruto exclusivo. Ou sequer se no seu instinto se inscreve esta capacidade de constru\u00e7\u00e3o. Contudo, a teoria viu-se refor\u00e7ada pela contribui\u00e7\u00e3o de um estudante da Bo\u00e9mia que, visitando a China, n\u00e3o apenas a defendeu ardentemente, como elaborou gr\u00e1ficos e projec\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas diversas para provar a capacidade criativa dos membros posteriores das <i>chiru<\/i> para a execu\u00e7\u00e3o daquela obra.<\/p>\n<p class=\"p2\">Contudo, nada de realmente cient\u00edfico chegou a ser conclu\u00eddo porque h\u00e1 sempre um elo que nos escapa quando pretendemos considerar racionalmente as salamandras, como se elas se constitu\u00edssem num objecto indiz\u00edvel, situado al\u00e9m da linguagem, imposs\u00edvel de traduzir em <i>logos<\/i>. Elas s\u00e3o t\u00edmidas, discretas e t\u00eam, definitivamente, um olhar inteligente. H\u00e1 mesmo que afirme: mais inteligente que alguns seres humanos. Mas n\u00e3o se pode garantir que por detr\u00e1s desse olhar se esconde um cora\u00e7\u00e3o capaz de ordenar logicamente os pensamentos ou distinguir o poss\u00edvel do imposs\u00edvel, sem deixar de sonhar com o segundo.<\/p>\n<p class=\"p2\">Entretanto, apesar de certos curandeiros entenderem que a sua carne cura a sarna, as <i>chiru<\/i> l\u00e1 v\u00e3o sobrevivendo e chapinhando nas \u00e1guas mornas do lago Jiyi. N\u00e3o \u00e9 raro, nas margens do Yingshui pelo crep\u00fasculo, ouvir-se um som parecido com o que produz o pato-mandarim. S\u00e3o as salamandras vermelhas que, em surdina, conversam entre si, antes de desaparecerem nas \u00e1guas escuras, talvez para abrirem a porta submersa da pali\u00e7ada e passarem a noite protegidas, enroladas umas nas outras, sobre a pele interdita do penedo de jade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><b><i>a partir do <\/i><\/b><b>Shan Hai Jing<\/b><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] N\u00e3o cessam de nos espantar os mist\u00e9rios e maravilhas da montanha Qingqiu. Encrustada no seu seio rochoso, existe uma t\u00edmida nascente de onde brota o rio Yingshui. 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