{"id":1110,"date":"2025-10-21T00:03:17","date_gmt":"2025-10-20T16:03:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1110"},"modified":"2025-10-21T00:03:17","modified_gmt":"2025-10-20T16:03:17","slug":"vegetarianismo-budista-com-caracteristicas-chinesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/vegetarianismo-budista-com-caracteristicas-chinesas\/","title":{"rendered":"Vegetarianismo Budista com caracter\u00edsticas chinesas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"p3\">Relativamente ao t\u00f3pico do vegetarianismo na religi\u00e3o Budista, pode ser surpreendente para muitos dos que procuram aprofundar o seu conhecimento no Budismo, de que o vegetarianismo n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma das suas caracter\u00edsticas centrais.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Atualmente, \u00e9 seguido pelas comunidades mon\u00e1sticas que t\u00eam a sua origem no Budismo chin\u00eas, com exce\u00e7\u00e3o das do Jap\u00e3o. N\u00e3o seria assim de estranhar que a posi\u00e7\u00e3o dominante do vegetarianismo no Budismo chin\u00eas entre a comunidade mon\u00e1stica e, em menor escala, a laica, esteja relacionado tanto com ideias budistas sobre \u00e9tica e soteriologia, como por conceitos locais sobre regras de absten\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o nativas da cultura e religi\u00f5es chinesas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Contudo, o fen\u00f3meno de vegetarianismo no Budismo, ainda que se tenha tornado realmente dominante no contexto chin\u00eas, n\u00e3o deixou de ser desenvolvido antes de este entrar em contacto com a cultura chinesa. Tendo essa mesma cultura sido encorajada a adotar o vegetarianismo via o Budismo, qualquer estudo que procure entender as origens da predomin\u00e2ncia do vegetarianismo nas tradi\u00e7\u00f5es budistas derivadas da China, tem de, obrigatoriamente, olhar com aten\u00e7\u00e3o para as escolas de pensamento Budistas que estavam em circula\u00e7\u00e3o na \u00cdndia e na \u00c1sia Central na altura em que estas foram transmitidas na China. \u00c9 igualmente importante ter em conta a particularidade da tradi\u00e7\u00e3o chinesa e procurar elementos que possam ter encorajado uma dieta vegetariana para os devotos na nova religi\u00e3o. Apesar do vegetarianismo, hoje, ser aceite como a contribui\u00e7\u00e3o mais importante feita pelo Budismo para a culin\u00e1ria chinesa, esta situa\u00e7\u00e3o foi tudo menos inevit\u00e1vel, pois contrasta com a maioria do mundo Budista que n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o chinesa. \u00c9 ainda um elemento que n\u00e3o tem qualquer apoio doutrinal nos c\u00f3digos mon\u00e1sticos Vinaya, ao ponto de o caso chin\u00eas poder ser descrito como uma anomalia. Adicionalmente, o pr\u00f3pria Buda autorizou os seus disc\u00edpulos a consumir carne que fosse oferecida como doa\u00e7\u00e3o, desde que esta n\u00e3o tivesse origem num animal que tenha sido abatido propositadamente para o monge em quest\u00e3o (Kieschnick 2005:186-187).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\">Vegetarianismo no Budismo antigo<\/h3>\n<p class=\"p5\">Na fase formativa mais antiga da religi\u00e3o Budista, um dos conceitos centrais para analisar a \u00e9tica Budista, relativa ao tratamento de animais e vegetarianismo, \u00e9 <span class=\"s2\"><i>ahi\u1e43s\u0101<\/i><\/span><i>, <\/i>ou n\u00e3o viol\u00eancia. Apesar de a ideia da n\u00e3o viol\u00eancia ser respeitada e louvada na pr\u00e1tica e doutrina budista, aquilo que seria a sua conclus\u00e3o l\u00f3gica, a absten\u00e7\u00e3o do consumo de carne, raramente \u00e9 mencionada ou debatida na literatura budista e est\u00e1 longe de ser uma pr\u00e1tica geral na maior parte do mundo budista, ao contr\u00e1rio da China. O vegetarianismo n\u00e3o deixou de ser, no entanto, parcialmente aprovado e debatido nos prim\u00f3rdios do Budismo, como se pode observar em refer\u00eancias \u00e0 absten\u00e7\u00e3o de carne em certas situa\u00e7\u00f5es no c\u00f3digo Vinaya. Curiosamente, seria uma das pr\u00e1ticas estabelecidas pelo rival\/antagonista do Buda hist\u00f3rico, Devadatta (Ruegg, 1980: 234).<\/p>\n<p class=\"p5\">Liga\u00e7\u00f5es entre a pr\u00e1tica de n\u00e3o viol\u00eancia e vegetarianismo, ou pelo menos a absten\u00e7\u00e3o do abate de animais, surgem tamb\u00e9m nos \u00e9ditos do imperador Asoka. Em particular, o primeiro dos seus \u00e9ditos de pedra indica uma ordem firme de proibir o abate de seres vivos para fazer sacrif\u00edcios. Indica tamb\u00e9m o fim do abate di\u00e1rio de um n\u00famero incr\u00edvel, provavelmente exagerado, como era comum em fontes Budistas e indianas, de 100.000 animais para as cozinhas do pal\u00e1cio real. A preocupa\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica de <span class=\"s2\"><i>ahi\u1e43s\u0101<\/i><\/span> por parte do imperador n\u00e3o se limitava ao abate e ao vegetarianismo, pois o segundo dos seus \u00e9ditos em pedra informa sobre o estabelecimento de servi\u00e7os socias na forma de ajuda m\u00e9dica, tanto para pessoas como para animais (Basham, 1982: 134-135). J\u00e1 um \u00e9dito mais tardio, em Kandahar (Afeganist\u00e3o), mostra que os pescadores e ca\u00e7adores do rei deixaram de praticar as suas profiss\u00f5es (Basham, 1982: 137). Para Asoka, a pr\u00e1tica da n\u00e3o viol\u00eancia envolvia, por norma, a necessidade de proibir pr\u00e1ticas e atividades econ\u00f3micas diretamente relacionadas com o consumo de carne e, principalmente, com o abate de animais, em que a elimina\u00e7\u00e3o do seu consumo existe como uma consequ\u00eancia e n\u00e3o necessariamente como um fim. Apesar de a n\u00e3o viol\u00eancia ser aclamada como essencial no pensamento Budista, o vegetarianismo em si est\u00e1 quase ausente, o que pode ser em parte explicado pelo facto de que no\u00e7\u00f5es \u00e9ticas n\u00e3o t\u00eam lugar em c\u00f3digos Vinaya, focados em formalizar regras e regulamentos ess\u00eancias para o funcionamento ordeiro de comunidades mon\u00e1sticas. Peixe e carne chegam at\u00e9 a ser mencionados como alimentos superiores que podem ser consumidos por monges doentes. Al\u00e9m disso, o facto de os monges estarem dependentes de esmolas e oferendas de alimentos por parte de laicos devotos, n\u00e3o lhes permite recusar carne que seja oferecida nesse processo, desde que a mesma n\u00e3o tenha resultado no abate de um animal especificamente para o monge em quest\u00e3o (Ruegg, 1980: 234). Na qualidade de pedintes e indiv\u00edduos que devem ser honrados como fonte de m\u00e9rito, os monges estavam assim obrigados a aceitar oferendas que pudessem incluir carne, ou estariam a interferir com o karma do doador e a impedir que este gerasse m\u00e9ritos religiosos atrav\u00e9s da sua oferenda, se o n\u00e3o fizessem (Ruegg, 1980: 239).<\/p>\n<p class=\"p5\">Outras formas de literatura can\u00f3nica antiga, para l\u00e1 da Vinaya, tamb\u00e9m t\u00eam pouco a dizer sobre o assunto. A Abhidharma coloca \u00eanfase na qualidade da inten\u00e7\u00e3o de um ato e n\u00e3o no ato em si, como comer carne, e as escrituras de categoria sutra tamb\u00e9m n\u00e3o mencionam o vegetarianismo ou a sua rela\u00e7\u00e3o com o conceito de <span class=\"s2\"><i>ahi\u1e43s\u0101<\/i><\/span>, sendo referido apenas que o Buda hist\u00f3rico n\u00e3o consumia carne crua. Quando o vegetarianismo \u00e9 mencionado, o Buda n\u00e3o rejeita o conceito, mas autoriza a pr\u00e1tica como opcional para os monges (Ruegg, 1980: 235).<\/p>\n<p class=\"p5\">Seria s\u00f3 com a introdu\u00e7\u00e3o mais tardia de novos conceitos e ideias pela escola <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span>, que surge uma atitude muito diferente na comunidade mon\u00e1stica relativamente ao vegetarianismo. Isto deve-se ao facto de estes interpretarem o t\u00f3pico atrav\u00e9s de sutras <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na <\/i><\/span>que lidam especificamente com o assunto. Em particular, as sutras que ensinam a teoria da Natureza Buda, ou <span class=\"s2\"><i>Tath\u0101gatagarbha<\/i><\/span>, condenam claramente o consumo de carne (Ruegg, 1980: 236). Portanto, n\u00e3o ter\u00e1 sido por acaso que o Budismo chin\u00eas, onde as escolas <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span> se tornaram predominantes, tenha adotado a pr\u00e1tica do vegetarianismo, na generalidade. Praticamente, todos os budistas chineses de hoje seguem esta escola, introduzida a partir da \u00cdndia e que, gradualmente, evoluiu na China (Tseng, 2018: 145).<\/p>\n<p class=\"p5\">Dentro da literatura <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span> relativa \u00e0 doutrina da Natureza Buda, a <span class=\"s2\"><i>La\u1e45k\u0101vat\u0101ra S\u016btra<\/i><\/span> tem um cap\u00edtulo inteiro dedicado ao conceito de comer carne que menciona v\u00e1rios textos, como a vers\u00e3o <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span> da <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101parinirv\u0101\u1e47a<\/i><\/span><i> <\/i><span class=\"s2\"><i>S\u016btra<\/i><\/span> (onde a ideia de que um monge pode comer carne quando doente \u00e9 criticada), os quais pro\u00edbem o consumo de carne. Os textos mencionados, com exce\u00e7\u00e3o de um, est\u00e3o ligados ao conceito de Natureza Buda, o qual indica que todos os seres vivos t\u00eam a capacidade de atingir a ilumina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sendo assim permitido destruir o potencial para tal com o consumo de carne. \u00c9 tamb\u00e9m mencionado, noutros textos, que dentro do ciclo infinito de reencarna\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe nenhum ser vivo que n\u00e3o tenha sido m\u00e3e, irm\u00e3 ou outro para todos os restantes seres; toda a carne \u00e9 um e deve-se evitar o consumo daqueles que foram, em determinando momento, nossos parentes. O consumo de carne \u00e9 assim rejeitado tanto por raz\u00f5es filos\u00f3ficas como por raz\u00f5es metaf\u00edsicas. Assim, no Budismo, o vegetarianismo ficou estabelecido como resultado de uma liga\u00e7\u00e3o a ensinamentos e escolas espec\u00edficas, as quais rejeitam o conceito mais antigo de consumo de carne doada a mon\u00e1sticos e se referem a conceitos Budistas, como benevol\u00eancia e compaix\u00e3o, para justificar dietas vegetarianas. A ado\u00e7\u00e3o de novos c\u00f3digos <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span> complementares \u00e0 literatura Vinaya, como os preceitos do Bodhisattva, levou ao fim do consumo de carne por parte de mon\u00e1sticos e tamb\u00e9m por adoradores laicos, como foi, eventualmente, o caso do Budismo chin\u00eas (Ruegg, 1980: 236-237). Budistas da escola <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101y\u0101na<\/i><\/span>, n\u00e3o derivam assim a sua proibi\u00e7\u00e3o do consumo de carne do conceito universal de n\u00e3o viol\u00eancia, mas de conceitos como benevol\u00eancia, compaix\u00e3o e, em particular, do conceito de Natureza Buda (Ruegg, 1980: 238). A <span class=\"s2\"><i>Mah\u0101parinirv\u0101\u1e47a<\/i><\/span><i> <\/i><span class=\"s2\"><i>S\u016btra<\/i><\/span>, em particular, tornou-se num dos textos principais para a tradi\u00e7\u00e3o vegetariana chinesa. O texto indica uma serie de implica\u00e7\u00f5es negativas para quem consome carne. Entre elas, o consumo de carne causa a diminui\u00e7\u00e3o da capacidade para sentir compaix\u00e3o e da efic\u00e1cia de magias e encantamentos, dificulta a concentra\u00e7\u00e3o em pr\u00e1ticas meditativas e \u00e9 um h\u00e1bito imundo que causa mau cheiro e traz m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o (Kieschnick, 2005: 190).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\">Desenvolvimentos na China<\/h3>\n<p class=\"p5\">A introdu\u00e7\u00e3o do vegetarianismo no Budismo da China e da \u00c1sia Oriental pode ser rastreado por um per\u00edodo de cerca de 100 anos, entre os s\u00e9culos 5 e 6 na nossa \u00e9poca, quando uma conflu\u00eancia de fatores culminou com o imperador Wu, da dinastia Liang, a decretar o vegetarianismo obrigat\u00f3rio para os monges budistas. Estes fatores incluem a tradu\u00e7\u00e3o de textos indianos que promoviam as dietas vegetarianas e a pr\u00e1tica chinesa de renunciar ao consumo de carne em situa\u00e7\u00e3o de luto, como express\u00e3o de filialidade (Greene, 2016: 1). Debates entusi\u00e1sticos sobre o t\u00f3pico est\u00e3o atestados neste per\u00edodo, em particular em rela\u00e7\u00e3o ao Budismo, e foi durante esta altura que a <i>sutra da rede Brahma<\/i> (<span class=\"s2\"><i>Brahmaj\u0101la S\u016btra<\/i><\/span>) foi composta. Este texto ganhou muita import\u00e2ncia na tradi\u00e7\u00e3o chinesa e tinha a particularidade de apresentar os votos do Bodhisattva, regras complementares aos c\u00f3digos Vinaya, com uma proibi\u00e7\u00e3o clara e especifica do consumo de carne, ao contr\u00e1rio de vers\u00f5es indianas dos preceitos (Greene, 2016: 5). Existem tamb\u00e9m textos budistas chineses, produzidos por volta do s\u00e9culo tr\u00eas, que indicam que j\u00e1 neste per\u00edodo o vegetarianismo era um componente aceite e at\u00e9 comum na China, como o <i>Tratado da elimina\u00e7\u00e3o<\/i> da d\u00favida do mestre Mou. Os debates do s\u00e9culo cinco podem ter surgido em sequ\u00eancia de tradu\u00e7\u00f5es da Vinaya, que permitem o consumo de carne (Greene, 2016: 23). Muitas das biografias de monges e monjas pr\u00e9-s\u00e9culo cinco, indicam que eram vegetarianos, por exemplo (Greene, 2016: 7). Conv\u00e9m, no entanto, ter em conta que em muitas das compila\u00e7\u00f5es de biografias de monges proeminentes que surgem a partir do s\u00e9culo 6, \u00e9 referido, em particular, que estes s\u00e3o vegetarianos. Fica subentendido de que n\u00e3o comer carne est\u00e1 associado, especificamente, com monges particularmente devotos e merit\u00f3rios. Biografias de s\u00e9culos posteriores deixam de fazer refer\u00eancia \u00e0 dieta dos monges, indicando que o vegetarianismo passou a ser a norma e o m\u00ednimo que se espera de qualquer monge (Kieschnick, 2005: 194). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <i>sutra da rede de Brahma<\/i>, texto que insiste que os disc\u00edpulos de Buda n\u00e3o podem consumir carne para n\u00e3o eliminar a capacidade para a compaix\u00e3o, a sua proveni\u00eancia \u00e9 considerada suspeita. Apesar de ser apresentada como sendo de origem indiana, parece ter sido composta na China, mostrando assim a import\u00e2ncia em justificar o vegetarianismo no Budismo chin\u00eas, em oposi\u00e7\u00e3o a formas mais antigas de Budismo (Kieschnick, 2005: 191).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Quando o Budismo foi originalmente introduzido na China, encontrou uma cultura com uma rela\u00e7\u00e3o complexa e desenvolvida relativamente ao consumo de carne. Por um lado, o consumo de carne \u00e9 um elemento importante da adora\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica de divindades e antepassados, desde que \u00e9 poss\u00edvel averiguar. Por outro lado, a China tem uma hist\u00f3ria longa e significativa de absten\u00e7\u00e3o do consumo de carne por motivos religiosos, antes do Budismo se estabelecer. Pr\u00e1ticas Confucionistas, Taoistas e da religi\u00e3o popular chinesa tiveram, pois, um papel na forma\u00e7\u00e3o do vegetarianismo na sociedade chinesa, ainda que o do Budismo tenha sido mais significativo. Nomeadamente, conceitos de absten\u00e7\u00e3o, como forma de purifica\u00e7\u00e3o do Confucionismo, e cren\u00e7as taoistas no poder de dietas n\u00e3o convencionais influenciaram a atitude chinesa perante o vegetarianismo, em conjunto com pr\u00e1ticas budistas morais (Broy, 2019:37). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Numa sociedade em que carne era escassa e, por isso, considerada um luxo, o seu consumo ganhou uma qualidade social com que o vegetarianismo teria de lidar, a fim de se conseguir estabelecer. A elite chinesa era referida, por vezes, como aqueles que comem carne, e era considerado um ato importante de filialidade oferecer carne e \u00e1lcool aos pais, ambos, ingredientes com um papel importante nos sacrif\u00edcios do culto dos antepassados e de determinadas divindades. Apesar disto, j\u00e1 durante a dinastia Han (202 AC- 220 DC), antes da chegada do Budismo \u00e0 China, existia uma tradi\u00e7\u00e3o estabelecida de absten\u00e7\u00e3o do consumo de carne e \u00e1lcool como forma de purifica\u00e7\u00e3o, limitado a ocasi\u00f5es especiais, como per\u00edodos de luto. Ao mesmo tempo, na China feudal, jejuar era visto como um pr\u00e9-requisito para comunicar com os deuses, ato que serve para avivar qualidades morais. A dieta vegetariana permitia tamb\u00e9m a aquisi\u00e7\u00e3o de poderes n\u00e3o naturais e era essencial para processos de purifica\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica. Havia tamb\u00e9m uma justifica\u00e7\u00e3o moral da parte do Confucionismo, que insistia numa atitude modesta relativamente ao consumo de carne. Em particular, Mengzi, disc\u00edpulo de Conf\u00facio, declara que o homem virtuoso \u00e9 incapaz de tolerar a morte de um ser vivo (Broy, 2019: 38-39). S\u00edmbolos de estatuto e de privil\u00e9gio, \u00e9, por outro lado, um sinal de decad\u00eancia e de gula para os seus cr\u00edticos, cr\u00edtica tamb\u00e9m presente em textos budistas indianos (Kieschnick, 2005: 193). J\u00e1 os taoistas, aproximam-se mais das pr\u00e1ticas vegetarianas Budistas. \u00c0 semelhan\u00e7a do conceito de n\u00e3o viol\u00eancia, instruem os seus seguidores a n\u00e3o causar dano ou sofrimento a outros seres vivos e a evitarem o consumo de carne, pois todas as formas de vida s\u00e3o consideradas sapientes. Dependendo da escola, muitos sacerdotes Taoistas vivem em mosteiros onde seguem dietas vegetarianas. Os Taoistas tamb\u00e9m acreditam que a sua dieta \u00e9 central para a sua sa\u00fade mental, f\u00edsica e espiritual, e que jejuar permite atingir a imortalidade (Tseng, 2018: 152).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">O Budismo entrou, assim, numa sociedade j\u00e1 com ideias pr\u00f3prias sobre o consumo de carne, que teriam certamente um efeito na forma como o Budismo introduziu pr\u00e1ticas vegetarianas na sociedade chinesa. Potencialmente, facilitou ainda a ado\u00e7\u00e3o do vegetarianismo como regra e n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o nas comunidades mon\u00e1sticas, ao ponto da ideia do monge mal\u00e9fico que come carne e bebe \u00e1lcool se ter formado na imagina\u00e7\u00e3o popular. Mais importante que os monges, para a ado\u00e7\u00e3o do vegetarianismo em larga escala, seria o papel de seguidores laicos e das suas atividades persistentes, que estabeleceram o n\u00e3o consumo de carne como um elemento identit\u00e1rio do Budismo chin\u00eas. Estes ativistas, simultaneamente, davam \u00eanfase \u00e0 crueldade do abate de animais, assim como relacionavam o seu vegetarianismo com valores Confucionistas. Entre os v\u00e1rios seguidores laicos que promoveram o vegetarianismo encontram-se v\u00e1rios imperadores, sendo que o mais relevante ter\u00e1 sido o imperador Wu, da dinastia Liang do Sul (464-549 DC). Budista laico extremamente devoto, foi instrumental em estabelecer o vegetarianismo como padr\u00e3o do Budismo chin\u00eas. Introduziu tamb\u00e9m as primeiras proibi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias de ca\u00e7a, captura e abate de animais (Broy, 2019: 42-43). Procurando usar compaix\u00e3o e f\u00e9 da religi\u00e3o budista para guiar o seu imp\u00e9rio, seguiu com rigidez os preceitos de n\u00e3o matar, op\u00f4s-se a penas capitais e baniu o sacrif\u00edcio de animais. Eventualmente, decretou que todos os mon\u00e1sticos tinham de ser vegetarianos e n\u00e3o beber \u00e1lcool, pr\u00e1tica que tamb\u00e9m imp\u00f4s a si mesmo, ficando conhecido como o imperador Bodhisattva (Tseng, 2018: 148). A influ\u00eancia da autoridade imperial serviu assim como a for\u00e7a mais consistente para a propaga\u00e7\u00e3o do vegetarianismo entre o povo chin\u00eas (Tseng, 2018: 145), come\u00e7ando com o imperador Ming, (28-75 DC) da dinastia Han, que, gradualmente, integrou o vegetarianismo junto com a proibi\u00e7\u00e3o de abate nos rituais de jejum oficiais, dando espa\u00e7o para inserir o conceito no subconsciente popular (Tseng, 2018: 147). Para l\u00e1 de imperadores devotos, outros laicos budistas tiveram um papel ativo na promo\u00e7\u00e3o do vegetarianismo, com maior \u00eanfase no bem-estar do animal do que nas recompensas metafisicas que o Budismo indiano atribui a quem pratica vegetarianismo. Um dos laicos mais famosos foi o oficial Zhou Yong, que menciona as preocupa\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de resultados k\u00e1rmicos, ao mesmo tempo de mostra maior preocupa\u00e7\u00e3o com o sofrimento dos animais consumidos. A tend\u00eancia para dar \u00eanfase ao sofrimento animal tornou-se, assim, t\u00edpico da propaga\u00e7\u00e3o do vegetarianismo por parte de laicos e monges chineses (Kieschnick, 2005: 196-197). O papel de oficias laicos, como Zhou, \u00e9 particularmente significativo para demonstrar a devo\u00e7\u00e3o perante o conceito e a moralidade do vegetarianismo no Budismo chin\u00eas, pois, em determinados contextos, era uma pr\u00e1tica dif\u00edcil de manter. Certas posi\u00e7\u00f5es especiais necessitavam consumir carne em determinados banquetes e cerim\u00f3nias, como era o caso de oficias de alto n\u00edvel para quem o vegetarianismo era visto como exc\u00eantrico e inapropriado. Os vegetarianos e os seus associados desenvolveram t\u00e9cnicas para lidar com inconveni\u00eancias, como banquetes cerimoniais. Alguns vegetarianos passaram a consumir vegetais que foram cozinhados com carne e anfitri\u00f5es mais atenciosos preparavam pratos especiais (Kieschnick, 2005: 204).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O Budismo seria ainda influenciado pelos conceitos pr\u00e9-Budistas de que poderes especiais podiam ser adquiridos com dietas vegetarianas, existindo textos budistas medievais que prometem prote\u00e7\u00e3o divina para aqueles que n\u00e3o consumissem carne. A cren\u00e7a em prote\u00e7\u00e3o divina e de efic\u00e1cia medicinal deste tipo de dietas, daria origem a festivais de grande escala, como o banquete vegetariano dos nove imperadores (Broy, 2019: 44). Pelo s\u00e9culo 13, a procura por dietas vegetarianas por parte da comunidade budista chinesa deu origem a restaurantes vegetarianos, espalhados por v\u00e1rias grandes cidades, e inspirou a cria\u00e7\u00e3o de uma culin\u00e1ria distinta, em que o \u00e1lcool, o alho e a cebola tamb\u00e9m eram proibidos, de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o indiana (Kieschnick, 2005: 186).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\">Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p class=\"p5\">Textos budista da tradi\u00e7\u00e3o <span class=\"s2\">Mah\u0101y\u0101na<\/span> desenvolveram uma perspetiva mais centrada em \u00e9tica, relativamente ao consumo de carne, relacionando o vegetarianismo com a compaix\u00e3o e a interconex\u00e3o de todos os seres vivos. Mesmo assim, n\u00e3o existe muita no\u00e7\u00e3o do sofrimento e da dor dos animais, em si, nestas descri\u00e7\u00f5es (Broy, 2019: 40). Ultimamente, budistas chineses foram atra\u00eddos para a pr\u00e1tica do vegetarianismo para fortificar o desenvolvimento da sua compaix\u00e3o para com o mundo; essa compaix\u00e3o era apresentada como o caminho correto para atingir a ilumina\u00e7\u00e3o, constante em v\u00e1rias sutras <span class=\"s2\">Mah\u0101y\u0101na<\/span>, que eram praticadas na China (Tseng, 2018: 153). Fontes budistas, no entanto, sempre expressaram alguma forma de desconforto com o consumo de carne devido \u00e0 sua liga\u00e7\u00e3o com o ato de matar seres vivos e o karma negativo gerado no processo. Grupos mon\u00e1sticos indianos eram cr\u00edticos de pr\u00e1ticas como o sacrif\u00edcio de animais, ainda que n\u00e3o seguissem dietas vegetarianas como obrigat\u00f3rias (Greene, 2016: 2-3), mas certamente adotaram a pr\u00e1tica at\u00e9 certo n\u00edvel, como indicado nos textos <span class=\"s2\">Mah\u0101y\u0101na<\/span>, traduzidos na China, onde o consumo de carne era claramente proibido.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">A partir do s\u00e9culo t3, o vegetarianismo surge como parte do modo de vida de mon\u00e1sticos budistas na China. No s\u00e9culo 5, entram na China novos textos budistas que promovem o vegetarianismo, mas tamb\u00e9m s\u00e3o traduzidos c\u00f3digos Vinaya que permitem o consumo de carne em certas circunst\u00e2ncias. Um debate \u00e9 ent\u00e3o gerado sobre este t\u00f3pico, que culmina no \u00e9dito do imperador Wu, definindo a dieta vegetariana como uma obriga\u00e7\u00e3o de, pelo menos, a comunidade mon\u00e1stica (Greene, 2016: 31-32).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O vegetarianismo ficou, portanto, estabelecido como um elemento permanente entre mon\u00e1sticos budistas e alguns laicos, j\u00e1 no per\u00edodo medieval, e foi, consequentemente, criticado por elementos da elite, a partir da dinastia Tang. A partir daqui o vegetarianismo acabaria por ser praticado com maior empenho por cultos populares sincretistas, alguns dos quais chegaram at\u00e9 aos dias de hoje (Broy, 2019: 46-47). Este vegetarianismo puro n\u00e3o mon\u00e1stico, acabaria por ser estigmatizado a partir do s\u00e9culo 12 DC e identificado como \u201cculto demon\u00edaco vegetariano\u201d, uma denomina\u00e7\u00e3o aplicada, originalmente, apenas para a religi\u00e3o manique\u00edsta (Broy, 2019: 48).<\/p>\n<p class=\"p5\">Ideias confucionistas e taoistas seriam adotados por comunidades vegetarianas, em conjunto com elementos budistas. Enquanto praticantes pr\u00e9-budistas preferiam absten\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do consumo de carne, foi s\u00f3 atrav\u00e9s do Budismo que o conceito de vegetarianismo permanente foi introduzido na cultura e culin\u00e1ria chinesa (Broy, 2019: 57). Os fatores que levaram a esta ado\u00e7\u00e3o pelo Budismo chin\u00eas foram variados, mas, entre eles, destaca-se o facto de o vegetarianismo ter servido como forma de estabelecer uma identidade religiosa distinta dentro da sociedade chinesa (Greene, 2016: 35).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p7\">Basham, A. L. (1982). Asoka and Buddhism\u2013A Reexamination. <i>Journal of the International Association of Buddhist Studies<\/i>, 131-143;<\/li>\n<li class=\"p7\">Broy, N. (2019). Moral Integration or Social Segregation? Vegetarianism and Vegetarian Religious Communities in Chinese Religious Life. <i>Concepts and Methods for the Study of Chinese Religions III: Key Concepts in Practice<\/i>, 37-64;<\/li>\n<li class=\"p7\">Greene, E. M. (2016). A Reassessment of the Early History of Chinese Buddhist Vegetarianism. <i>Asia Major<\/i>, 1-43;<\/li>\n<li class=\"p7\">Kieschnick, J. (2005). Buddhist vegetarianism in China. <i>Of tripod and palate: Food, politics, and religion in traditional China<\/i>, 186-212. New York: Palgrave Macmillan US;<\/li>\n<li class=\"p7\">Ruegg, D. S. (1980). Ahimsa and Vegetarianism in the History of Buddhism. <i>Buddhist studies\/for W. Rahula<\/i>, 234-241. London and Bedford: Gordon Fraser Gallery;<\/li>\n<li class=\"p7\">Tseng, A. A. (2018). Five influential factors for Chinese Buddhist\u2019s vegetarianism. <i>Worldviews: Global Religions, Culture, and Ecology<\/i>, <i>22<\/i>(2), 143-162.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Introdu\u00e7\u00e3o Relativamente ao t\u00f3pico do vegetarianismo na religi\u00e3o Budista, pode ser surpreendente para muitos dos que procuram aprofundar o seu conhecimento no Budismo, de que o vegetarianismo n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma das suas caracter\u00edsticas centrais. Atualmente, \u00e9 seguido pelas comunidades mon\u00e1sticas que t\u00eam a sua origem no Budismo chin\u00eas, com exce\u00e7\u00e3o das do Jap\u00e3o.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":1111,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-1110","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/134-sustenance_NGM_1214_010_3x4.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1110"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1112,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1110\/revisions\/1112"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}