{"id":1141,"date":"2025-10-21T01:23:24","date_gmt":"2025-10-20T17:23:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1141"},"modified":"2025-10-21T01:23:24","modified_gmt":"2025-10-20T17:23:24","slug":"zhongdaologia-como-se-deve-a-filosofia-chinesa-relacionar-com-a-filosofia-africana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/zhongdaologia-como-se-deve-a-filosofia-chinesa-relacionar-com-a-filosofia-africana\/","title":{"rendered":"ZHONGDAOLOGIA Como se deve a filosofia chinesa relacionar com a filosofia africana?"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">T<span class=\"s2\">al como<\/span> a tend\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 irrevers\u00edvel, a globaliza\u00e7\u00e3o da cultura e da ideologia \u00e9 tamb\u00e9m uma tend\u00eancia inevit\u00e1vel. No entanto, no processo de globaliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre tens\u00f5es e conflitos entre regionalismo e universalismo. Se a chamada globaliza\u00e7\u00e3o na era colonial significa sobretudo a difus\u00e3o e a expans\u00e3o da ideologia origin\u00e1ria do Ocidente para v\u00e1rias partes do mundo, na era p\u00f3s-colonial, com o despertar da consci\u00eancia de sujeito de v\u00e1rias nacionalidades em todo o mundo, a globaliza\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m significar a redescoberta e a transmiss\u00e3o inversa de ideologias e sistemas de valores n\u00e3o ocidentais. A filosofia, como n\u00facleo da cultura e da ideologia, tem-se desenvolvido sempre no v\u00f3rtice da converg\u00eancia da universalidade e das carater\u00edsticas nacionais na era da globaliza\u00e7\u00e3o. Durante anos, a filosofia foi quase um dom\u00ednio acad\u00e9mico especial para os homens brancos ocidentais, mas esta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 agora a mudar. No mundo atual, embora ainda haja algumas pessoas que insistem que a chamada \u201cfilosofia\u201d deve ser apenas sobre Plat\u00e3o ou ser notas de rodap\u00e9 de Plat\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 agora invulgar ensinar filosofia chinesa, filosofia indiana, filosofia africana, filosofia \u00e1rabe, etc., em alguns departamentos de filosofia de universidades ocidentais.<\/p>\n<p class=\"p5\">Por um lado, durante muito tempo, o conceito de que a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental, com origem em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, \u00e9 a \u00fanica filosofia, ainda est\u00e1 profundamente enraizado, e muitos estudos filos\u00f3ficos regionais tendem a reduzir-se inconscientemente \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do sistema concetual filos\u00f3fico ocidental para explorar e descartar arbitrariamente os materiais ideol\u00f3gicos gerados em diferentes regi\u00f5es. Por outro lado, qualificar a \u201cfilosofia\u201d com termos como \u201cchinesa\u201d, \u201cindiana\u201d, \u201cafricana\u201d e \u201cocidental\u201d tamb\u00e9m corre o risco de reduzir a filosofia, que \u00e9 suposto ser a sabedoria universal da humanidade, a uma ideologia local. Neste caso, \u00e9 de especial import\u00e2ncia colocar as tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de diferentes regi\u00f5es no contexto transcultural da comunica\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo, de modo a promover o progresso, o desenvolvimento e a melhoria da filosofia comum da humanidade.<\/p>\n<p class=\"p5\">Embora a China n\u00e3o tenha sofrido uma coloniza\u00e7\u00e3o total por parte dos ocidentais, como aconteceu em muitas partes do mundo, foi, no entanto, ocidentalizada em grande medida em termos de cultura e ideologia acad\u00e9micas. De facto, na China, a \u201cfilosofia\u201d enquanto disciplina \u00e9 estabelecida sob a influ\u00eancia do sistema acad\u00e9mico ocidental. Isto n\u00e3o significa que n\u00e3o houvesse filosofia na China antiga ou que a \u201cfilosofia\u201d na China se centrasse apenas na filosofia ocidental, mas sim que o estudo da filosofia na China, incluindo o estudo da filosofia tradicional chinesa, \u00e9 frequentemente efectuado segundo as categorias, a l\u00f3gica, os conceitos e os estere\u00f3tipos da filosofia ocidental. No entanto, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, muitos acad\u00e9micos come\u00e7aram a reflectir sobre esta situa\u00e7\u00e3o, questionando o monop\u00f3lio da filosofia ocidental e defendendo que a filosofia nunca foi e n\u00e3o deve ser id\u00eantica \u00e0 filosofia ocidental. Existem muitas tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas diferentes e n\u00e3o apenas uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Na China, muitos fil\u00f3sofos e investigadores filos\u00f3ficos t\u00eam regressado aos materiais originais da China antiga para redescobrir e explorar melhor as carater\u00edsticas e os valores originais da filosofia chinesa e tentar reconstruir a subjetividade da filosofia chinesa contempor\u00e2nea com as suas categorias e conceitos originais. A proposta da filosofia da \u201czhongdaologia\u201d ou da \u201cVia do Zhong \u201d \u00e9 uma dessas tentativas.<\/p>\n<p class=\"p5\">A Zhongdaologia \u00e9 uma tentativa de redescobrir e reconstruir o esp\u00edrito central da filosofia confucionista tradicional. Caracteriza-se por ultrapassar e superar a oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria e as lacunas entre o C\u00e9u e o Homem, o sujeito e o objeto, o eu e os outros. D\u00e1 \u00eanfase \u00e0 converg\u00eancia, compatibilidade, complementaridade e equil\u00edbrio de ideias diferentes, significados e valores opostos. Representa as carater\u00edsticas orientais da via interm\u00e9dia (zhong dao) do pensamento, que, por um lado, contrasta fortemente com o pensamento ontol\u00f3gico ocidental tradicional e, por outro, se assemelha ao pensamento complementar dos sistemas de pensamento africanos.<sup>1<\/sup> Neste ensaio, tra\u00e7o a semelhan\u00e7a entre o quadro chin\u00eas e o quadro africano utilizando<i> Zhong <\/i>e <i>Ezumezu<\/i>. Estas duas tradi\u00e7\u00f5es demonstram que vari\u00e1veis opostas podem complementar-se e retificar-se mutuamente.<\/p>\n<p class=\"p5\">A filosofia da zhongdaologia tem as suas ra\u00edzes profundas na longa hist\u00f3ria da cultura e da filosofia chinesas, h\u00e1 mais de dois mil anos, e \u00e9 tamb\u00e9m intimamente relevante para o caminho \u00fanico de desenvolvimento da China contempor\u00e2nea. Ao mesmo tempo, enquanto encarna\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito da raz\u00e3o pr\u00e1tica do confucionismo, a zhongdaologia pode tamb\u00e9m manter um di\u00e1logo e uma comunica\u00e7\u00e3o l\u00f3gicos e racionais com outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, especialmente com a tradi\u00e7\u00e3o africana. Na primeira, segunda e terceira sec\u00e7\u00f5es deste ensaio, discutirei o desenvolvimento etimol\u00f3gico, sem\u00e2ntico e hist\u00f3rico do conceito de zhongdaologia e as suas ra\u00edzes na filosofia confucionista.<\/p>\n<p class=\"p5\">Na China actual, foram feitos progressos e realiza\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis no di\u00e1logo, na compara\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o criativa entre as tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas chinesas e ocidentais. Em termos comparativos, por\u00e9m, o di\u00e1logo, a compara\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o entre a filosofia chinesa e outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, como a filosofia africana, s\u00e3o muito fracos. De acordo com a vis\u00e3o de abertura, compatibilidade, justi\u00e7a e equil\u00edbrio defendida pela filosofia zhongdaol\u00f3gica, a filosofia chinesa tamb\u00e9m deve envolver-se activamente com outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, especialmente a filosofia africana. Estes di\u00e1logos e interc\u00e2mbios est\u00e3o destinados a produzir resultados positivos inesperados para ambas as partes e a proporcionar novos espa\u00e7os e oportunidades para uma compreens\u00e3o aprofundada da sabedoria da filosofia humana e para o desenvolvimento da filosofia comum da humanidade. De facto, atrav\u00e9s de di\u00e1logos e conversas preliminares, j\u00e1 encontr\u00e1mos muitos discursos comuns entre a filosofia chinesa da zhongdaologia e as filosofias africanas de <i>Ezumezu<\/i> e Ubuntu. Na \u00faltima sec\u00e7\u00e3o deste ensaio, mostrarei o significado da zhongdaologia num contexto intercultural e utilizarei o conceito como um quadro para mostrar como a filosofia chinesa deve envolver-se com a filosofia africana, fazendo algumas compara\u00e7\u00f5es entre a zhongdaologia e algumas ideias da filosofia africana, como <i>Ezumezu<\/i> e Ubuntu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p6\"><b>A quest\u00e3o da legitimidade <\/b><b>da filosofia chinesa e a introdu\u00e7\u00e3o <\/b><b>do conceito de \u201cZhongdaologia\u201d<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Na China, a filosofia, ou na sua designa\u00e7\u00e3o chinesa \u201c<i>zhe xue<\/i> <span class=\"s3\">\u54f2\u5b66<\/span>\u201d, \u00e9 uma conceito importado do sistema acad\u00e9mico ocidental nos tempos modernos. Do mesmo modo, a maior parte dos conceitos chineses modernos dos sub-ramos da filosofia, como \u201cmetaf\u00edsica\u201d, \u201contologia\u201d e \u201cepistemologia\u201d, tamb\u00e9m foram importados da filosofia ocidental. Embora os equivalentes chineses modernos destas palavras sejam todos feitos de algum vocabul\u00e1rio chin\u00eas antigo, que tem as suas pr\u00f3prias ra\u00edzes hist\u00f3ricas e culturais ricas e profundas em textos chineses antigos. Os nomes dos novos conceitos, que representam as categorias ocidentais da disciplina e das subdisciplinas da filosofia, nunca foram conhecidos pelos grandes fil\u00f3sofos chineses antigos, como Lao Zi, Conf\u00facio, Mo Zi, M\u00eancio, Zhuang Zi, Xun Zi e Han Feizi, que viveram mais ou menos na mesma altura que os pais da filosofia ocidental, como S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p class=\"p5\">\u00c9 claro que, se entendermos a filosofia no seu significado original e geral, ou seja, \u00abamor \u00e0 sabedoria\u00bb, n\u00e3o podemos negar que os antigos pensadores chineses eram amantes e perseguidores da sabedoria, e que a sua erudi\u00e7\u00e3o abrangia e penetrava nos problemas filos\u00f3ficos fundamentais, tal como os seus hom\u00f3logos gregos antigos. Por conseguinte, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil retirar aqui e ali das obras dos antigos pensadores chineses algumas proposi\u00e7\u00f5es e teses que s\u00e3o mais ou menos relevantes para esses t\u00f3picos e quest\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental e que comp\u00f5em uma hist\u00f3ria graciosa da filosofia chinesa, tal como fizeram muitos acad\u00e9micos modernos<sup>2<\/sup>. No entanto, uma vez que, nos tempos modernos, o dom\u00ednio acad\u00e9mico, especialmente o dom\u00ednio acad\u00e9mico internacional, tem sido dominado pelos sistemas acad\u00e9micos e discursivos ocidentais, os pensamentos originais chineses foram divididos em fragmentos e remontados de acordo com as categorias ocidentais de filosofia, a fim de adaptar essas estruturas ao quadro filos\u00f3fico ocidental dominante. Como resultado, os antigos pensamentos filos\u00f3ficos chineses, originais, ricos e vivos, foram reduzidos e representados como uma r\u00e9plica inferior da filosofia ocidental. Este tipo de remontagem e adapta\u00e7\u00e3o distorceu ou obscureceu grande parte da sua originalidade e singularidade.<\/p>\n<p class=\"p5\">Para muitos acad\u00e9micos chineses contempor\u00e2neos, este tipo de narrativa da hist\u00f3ria da filosofia chinesa moldada por categorias e padr\u00f5es filos\u00f3ficos ocidentais est\u00e1 longe de ser satisfat\u00f3rio. Por um lado, alguns acad\u00e9micos tradicionais que se dedicaram profundamente \u00e0 leitura dos textos originais chineses antigos descobriram que a filosofia original chinesa ou o esp\u00edrito tradicional chin\u00eas, tal como o entendiam, perderam a sua consist\u00eancia e integridade neste tipo de narrativa e tornaram-se algo alheios ao seu eu original. Por outro lado, os estudiosos que est\u00e3o habituados \u00e0s terminologias, discursos, disputas e discursos filos\u00f3ficos ocidentais tamb\u00e9m desprezam esta narrativa da hist\u00f3ria da filosofia chinesa, quer porque a narrativa parece mais uma imita\u00e7\u00e3o do discurso ocidental, quer porque n\u00e3o h\u00e1 nada de pertinente em repetir exatamente os temas e quest\u00f5es apresentados na hist\u00f3ria da filosofia ocidental.<\/p>\n<p class=\"p5\">Consequentemente, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, temos assistido a algumas disputas acad\u00e9micas sobre a quest\u00e3o da legitimidade da filosofia chinesa entre os estudiosos chineses contempor\u00e2neos de filosofia, bem como entre alguns sin\u00f3logos ocidentais. Alguns acad\u00e9micos suspeitam que, na China antiga, pode n\u00e3o haver nada que possa ser considerado exactamente como \u201cmetaf\u00edsica\u201d, \u201contologia\u201d, etc., no seu sentido filos\u00f3fico ocidental original. Ou, mais francamente, poder\u00e1 n\u00e3o haver nada a que se possa chamar filosofia na China antiga, uma vez que, de acordo com os padr\u00f5es e crit\u00e9rios da filosofia ocidental, a metaf\u00edsica ou a ontologia, etc., s\u00e3o t\u00e3o fundamentais e t\u00e3o essenciais para a disciplina da filosofia que, sem elas, a filosofia deixar\u00e1 de existir.<\/p>\n<p class=\"p5\">Para responder \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es acima referidas e defender a legitimidade da filosofia chinesa enquanto disciplina, os estudiosos da filosofia chinesa insistem que a filosofia chinesa antiga se interrogava sobre quest\u00f5es ontol\u00f3gicas semelhantes \u00e0s da filosofia ocidental, s\u00f3 que por vezes com um conjunto de conceitos e termos diferentes; ou talvez a filosofia chinesa antiga tenha o seu pr\u00f3prio tipo diferente de ontologia.<sup>3<\/sup> Alguns fil\u00f3sofos neo-confucionistas modernos fizeram grandes esfor\u00e7os para elucidar ou reconstruir uma ontologia ou metaf\u00edsica confucionista. Por exemplo, inspirado na metaf\u00edsica kantiana e budista, Mou Zongsan, um dos mais importantes representantes do novo confucionismo moderno, sugeriu a sua \u201cmetaf\u00edsica moral\u201d, que \u00e9 composta por uma \u201contologia de dois n\u00edveis\u201d (MOU 1975, 37-45). Influenciado tanto pela ontologia tradicional ocidental como pela moderna hermen\u00eautica ocidental, Chung-Ying Cheng, fundador da Sociedade Internacional de Filosofia Chinesa e um dos mais entusiastas defensores da filosofia chinesa no c\u00edrculo acad\u00e9mico internacional, produziu a sua teoria da \u201conto-hermen\u00eautica\u201d e sugeriu um conceito de \u201c<i>benti<\/i> (<i>noumenon<\/i>)\u201d generativo (CHENG 2000, 2004). Li Zehou, outro famoso fil\u00f3sofo e esteticista chin\u00eas contempor\u00e2neo, estabeleceu a sua \u201contologia hist\u00f3rica\u201d ou \u201contologia antropo-hist\u00f3rica\u201d com base na sua compreens\u00e3o das carater\u00edsticas da filosofia chinesa, com refer\u00eancia \u00e0s teorias kantiana e marxista (LI 2001, 2008). Chen Lai e Yang Guorong, dois outros fil\u00f3sofos chineses contempor\u00e2neos famosos na China continental, tamb\u00e9m propuseram a sua \u201cOntologia da Benevol\u00eancia\u201d (CHEN 2014) e a sua \u201cMetaf\u00edsica Concreta\u201d (YANG 2011), respectivamente. Todos estes esfor\u00e7os est\u00e3o a tentar revelar ou reconstruir uma ontologia chinesa que \u00e9 diferente da ontologia na filosofia ocidental. No entanto, na minha opini\u00e3o, estes esfor\u00e7os, por mais eloquentes e elaborados que sejam, apenas refor\u00e7aram a impress\u00e3o de que a filosofia chinesa \u00e9 apenas um an\u00e1logo inferior da sua vers\u00e3o ocidental. N\u00e3o s\u00e3o capazes de demonstrar plenamente as carater\u00edsticas \u00fanicas, as preocupa\u00e7\u00f5es particulares, como a l\u00f3gica e a metodologia de fundo, e outros valores especiais da filosofia chinesa antiga.<\/p>\n<p class=\"p5\">A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 a seguinte: ser\u00e1 poss\u00edvel \u00e0 filosofia chinesa libertar-se da influ\u00eancia metodol\u00f3gica da filosofia ocidental e exprimir-se com os seus pr\u00f3prios termos e categorias? A minha resposta a esta pergunta \u00e9: Sim! N\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel como tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio. Pode constituir uma oportunidade para a filosofia chinesa demonstrar diretamente a sua forma de vida original e viva e a sua forma \u00fanica de pensamento filos\u00f3fico e alterar o seu estatuto de objeto de longa data, que sempre foi analisado, discutido e avaliado de acordo com os padr\u00f5es e crit\u00e9rios ocidentais da filosofia. Este ajustamento estrutural ir\u00e1 restaurar a subjetividade da filosofia chinesa original, permitindo-lhe exprimir-se com as suas pr\u00f3prias terminologias e categorias. Desta forma, a filosofia chinesa dar\u00e1 alguns contributos para a filosofia em geral, revelando que, para al\u00e9m das categorias, conceitos, l\u00f3gicas, terminologias e m\u00e9todos filos\u00f3ficos ocidentais, existem outras abordagens ao pensamento filos\u00f3fico que podem enriquecer a filosofia enquanto atividade intelectual humana geral.<\/p>\n<p class=\"p5\">Para esta reflex\u00e3o, introduzi o conceito de \u201czhongdaologia\u201d. \u00c9 uma palavra que cunhei a partir da combina\u00e7\u00e3o das palavras chinesas \u201c<i>zhong, dao<\/i>\u201d (a Via do <i>Zhong<\/i> ) e a palavra grega \u201c<i>logos<\/i>\u201d. A palavra chinesa equivalente para ela deveria ser \u201c<i>zhong dao lun<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u9053\u8bba<\/span>\u201d. Utilizo esta palavra para representar a l\u00f3gica e a metodologia b\u00e1sicas, bem como o esp\u00edrito central e a ess\u00eancia do pensamento filos\u00f3fico confuciano, e acredito tamb\u00e9m que \u00e9 o esp\u00edrito central da filosofia chinesa em geral. Por outras palavras, na filosofia chinesa, defendo que a quest\u00e3o mais importante, ou o dom\u00ednio ou categoria principal, n\u00e3o \u00e9 a ontologia, a epistemologia, etc., mas sim a zhongdaologia. Introduzi esta palavra pela primeira vez num painel do 23.\u00ba Congresso Mundial de Filosofia em Atenas, Gr\u00e9cia, em 2013. Posteriormente, discuti-o em v\u00e1rios noutras confer\u00eancias internacionais ou utilizei-o em alguns dos meus artigos em ingl\u00eas. Parece que pode ser bem compreendido por acad\u00e9micos de outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, como a tradi\u00e7\u00e3o africana, que tem ideias semelhantes, como mostrarei mais adiante.<\/p>\n<p class=\"p5\">As minhas ideias e opini\u00f5es b\u00e1sicas s\u00e3o as seguintes: Devido \u00e0s diferen\u00e7as lingu\u00edsticas, a ontologia, no seu sentido ocidental original, n\u00e3o foi conceptualizada na China antiga. Tal como a origem etimol\u00f3gica da palavra ontologia indica, \u00e9 o estudo filos\u00f3fico da natureza do ser, que se baseia no verbo predicado \u201cser\u201d nas l\u00ednguas ocidentais (grego <span class=\"s4\">\u03b5\u1f30\u03bc\u03af<\/span>, <i>ont<\/i>, alem\u00e3o <i>ist<\/i>, <i>sein<\/i>). A raiz \u201conto-\u201d da palavra ontologia teve origem no verbo predicado \u201cser\u201d em grego antigo. O significado sem\u00e2ntico de ser refere-se \u00e0 exist\u00eancia geral das coisas e indica que as coisas existentes t\u00eam uma ess\u00eancia e uma l\u00f3gica permanentes e transcendentes. Assim, a ontologia investiga a raz\u00e3o ou a l\u00f3gica fundamental e \u00faltima que determina todas as coisas existentes no mundo. Aborda quest\u00f5es filos\u00f3ficas fundamentais como \u201c<i>O que \u00e9 <\/i>ou <i>o que existe<\/i>?\u201d \u201c<i>Que tipo de coisa existe em primeiro lugar?<\/i>\u201d, etc. (BUNNIN &amp; YU 2001, 108). No entanto, pode ser inacredit\u00e1vel para alguns falantes de l\u00ednguas ocidentais que, nos prim\u00f3rdios da l\u00edngua chinesa antiga, n\u00e3o existia um verbo predicado semelhante a \u201cser\u201d. O equivalente chin\u00eas moderno de \u201cser\u201d, ou seja, \u201cshi <span class=\"s3\">\u662f<\/span>\u201d, come\u00e7ou a ser utilizado como verbo predicado n\u00e3o antes da dinastia Han (25-220 a.E.C.). Por conseguinte, \u00e9 compreens\u00edvel que o conceito ontol\u00f3gico ocidental de ser n\u00e3o fosse o foco do pensamento filos\u00f3fico dos antigos fil\u00f3sofos chineses. Embora os fil\u00f3sofos chineses antigos tenham discutido algumas quest\u00f5es ontol\u00f3gicas que podem ser semelhantes \u00e0s discutidas na filosofia ocidental tradicional, a \u201contologia\u201d em geral n\u00e3o era uma preocupa\u00e7\u00e3o importante da filosofia chinesa cl\u00e1ssica<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p class=\"p5\">Por conseguinte, para a filosofia chinesa, debater-se com a quest\u00e3o da \u201contologia\u201d \u00e9 o mesmo que \u201cco\u00e7ar os calcanhares com as botas de fora\u201d. Ao mesmo tempo, a aus\u00eancia de um conceito claro de \u201contologia\u201d n\u00e3o \u00e9 necessariamente um defeito da filosofia chinesa antiga. Pelo contr\u00e1rio, pode ser uma das carater\u00edsticas \u00fanicas da filosofia chinesa, que poderia proporcionar uma abordagem diferente a muitos dos problemas filos\u00f3ficos fundamentais e desconcertantes. Na minha opini\u00e3o, pelo menos nos prim\u00f3rdios da filosofia confucionista, a quest\u00e3o filos\u00f3fica essencial, em vez da investiga\u00e7\u00e3o sobre o \u201cser\u201d ou a \u201cexist\u00eancia\u201d, era a quest\u00e3o do \u201c<i>Zhong<\/i>\u201d ou \u201c<i>Zhong Dao<\/i>\u201d. O estudo da Via do <i>zhong<\/i> pode ser chamado de \u201cZhongdaologia\u201d. A carater\u00edstica mais proeminente e \u00fanica da filosofia chinesa, principalmente a representada pela filosofia confucionista primitiva, pode ser descrita como Zhongdaologia em vez de ontologia.<\/p>\n<p class=\"p5\">A zhongdaologia \u00e9 o estudo filos\u00f3fico do caminho de \u201cZhong\u201d, que, num certo sentido, pode ser entendido como a abordagem principal a uma \u201crectid\u00e3o\u201d contextual e equilibrada em qualquer situa\u00e7\u00e3o. Baseia-se em todos os significados sem\u00e2nticos primordialmente relacionados incorporados no car\u00e1cter chin\u00eas \u201c<i>zhong<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d<\/span>\u201d, que \u00e9 uma palavra muito utilizada na l\u00edngua chinesa e um conceito filos\u00f3fico importante na filosofia confucionista primitiva. Tanto os cl\u00e1ssicos confucionistas antigos recebidos como os manuscritos de bambu antigos recentemente descobertos dizem-nos que a ades\u00e3o ao princ\u00edpio de <i>zhong<\/i> era uma admoesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica crucial que tinha sido herdada e transmitida entre os primeiros l\u00edderes pol\u00edticos chineses antigos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Depois disso, o <i>zhong<\/i> evoluiu para uma ideia ou conceito fundamental na filosofia confucionista. Uma s\u00e9rie de conceitos importantes nos antigos pensamentos filos\u00f3ficos confucionistas s\u00e3o compostos com o car\u00e1cter <i>zhong<\/i>, tais como <i>zhong yong<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u5eb8<\/span> (geralmente traduzido como \u201cdoutrina do meio\u201d), <i>zhong he<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u548c<\/span> (zhong e harmonioso), <i>zhong zheng<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d<\/span> <span class=\"s3\">\u6b63<\/span> (ser justo e correto), <i>shi zhong<\/i> <span class=\"s3\">\u65f6\u4e2d<\/span> (oportunamente correto ou oportunamente apropriado), <i>zhong jie<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u8282<\/span> (adequar-se ao grau devido), <i>zhi zhong<\/i> <span class=\"s3\">\u6267\u4e2d<\/span> (agarrar-se ao princ\u00edpio de Zhong), <i>cheng yu zhong<\/i> <span class=\"s3\">\u8bda\u4e8e\u4e2d<\/span> (ser honesto de cora\u00e7\u00e3o), <i>yong zhong <\/i><span class=\"s3\">\u7528\u4e2d<\/span>(aplicar o princ\u00edpio de Zhong), <i>zhong dao<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u9053<\/span> (a Via de <i>Zhong<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p5\">A Zhongdaologia pode ser considerada a ess\u00eancia ou o esp\u00edrito da filosofia confucionista. Os antecedentes hist\u00f3ricos e culturais seculares da Zhongdaologia enriquecem-na com um profundo significado filos\u00f3fico e fazem dela uma l\u00f3gica fundamental de pensamento no confucionismo. A Zhongdaologia fornece n\u00e3o s\u00f3 uma forma confuciana de abordar algumas quest\u00f5es filos\u00f3ficas, mas tamb\u00e9m uma metodologia ou premissa filos\u00f3fica para estabelecer normas \u00e9ticas, padr\u00f5es morais, justi\u00e7a social e princ\u00edpios pol\u00edticos. A filosofia zhongdaol\u00f3gica indica uma associa\u00e7\u00e3o entre os seres humanos e o seu mundo, uma coincid\u00eancia entre subjetividade e objetividade, uma harmonia entre os mundos interno e externo, uma perspetiva intersubjectiva entre o eu e o outro, e um equil\u00edbrio entre diferentes ideias e diverg\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"p5\">A Zhongdaologia preconiza a inclus\u00e3o e a harmonia, lidando com conflitos e contradi\u00e7\u00f5es. O modo de pensar zhongdaol\u00f3gico \u00e9 uma l\u00f3gica b\u00e1sica do confucionismo. Atravessa a teoria tradicional confuciana da \u00e9tica e da pol\u00edtica. De certa forma, pode ser chamado de meta-\u00e9tica e meta-pol\u00edtica confuciana. Enquanto metodologia filos\u00f3fica geral ou modo de pensar, a zhongdaologia tem tamb\u00e9m uma influ\u00eancia ampla e profunda em muitos aspectos da cultura chinesa e do modo de vida chin\u00eas. Muitos fen\u00f3menos \u00fanicos ou aparentemente complicados da cultura chinesa podem ser razoavelmente explicados<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>com a estrutura da zhongdaologia. Al\u00e9m disso, a sua profunda influ\u00eancia modelou um tipo de car\u00e1cter nacional que tem existido desde os tempos antigos at\u00e9 \u00e0 era moderna. O seu profundo significado filos\u00f3fico pode constituir um recurso importante para o mundo geral da filosofia. A zhongdaologia, portanto, \u00e9 relevante e vital no actual contexto filos\u00f3fico global.<\/p>\n<p class=\"p5\">Para compreender melhor o significado filos\u00f3fico e a import\u00e2ncia da teoria da zhongdaologia, \u00e9 necess\u00e1rio tra\u00e7ar o percurso da origem e evolu\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i> como um importante conceito filos\u00f3fico nos primeiros textos e doutrinas confucionistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p6\"><span class=\"s5\"><b>O significado sem\u00e2ntico do caracter \u201czhong\u201d e a heran\u00e7a da \u201cVia de Zhong\u201d <\/b><\/span><span class=\"s5\"><b>no c\u00e2none pol\u00edtico confucionista primitivo<\/b><b><\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"p5\">Tal como nas teorias ontol\u00f3gicas ocidentais, em que conceitos como ser e exist\u00eancia tiveram origem em palavras frequentemente utilizadas na linguagem natural, <i>zhong<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d<\/span>, enquanto importante conceito filos\u00f3fico confucionista, tamb\u00e9m teve origem numa palavra muito utilizada. Tanto no chin\u00eas antigo como no chin\u00eas moderno, o car\u00e1cter <i>zhong<\/i> est\u00e1 entre as palavras chinesas mais frequentemente utilizadas. Trata-se de uma palavra poliss\u00e9mica com v\u00e1rias partes do discurso. Como conceito filos\u00f3fico sofisticado do confucionismo, passou por uma longa hist\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\">O car\u00e1cter<i> zhong <\/i><span class=\"s3\">\u4e2d<\/span> pode ser identificado no lote mais antigo de textos chineses antigos. De acordo com os estudos efectuados por alguns especialistas em escrita chinesa antiga, o car\u00e1cter <i>zhong<\/i> apareceu nos primeiros textos chineses existentes, nomeadamente nas inscri\u00e7\u00f5es nos ossos dos or\u00e1culos ou nas carapa\u00e7as de tartaruga da dinastia Shang (c.1600-1046 a.C.), totalizando 419 vezes em formas de escrita ligeiramente diferentes. Apareceu tamb\u00e9m nas inscri\u00e7\u00f5es existentes nas pe\u00e7as de bronze das dinastias Shang e Zhou Ocidental (c. 1046-771 a.C.) cerca de 304 vezes (DAI 1995, 2919-2938). De acordo com os contextos em que este car\u00e1cter aparece, podemos constatar que, mesmo nestes textos antigos mais antigos, o car\u00e1cter <i>zhong<\/i> j\u00e1 se demonstrou como uma palavra poliss\u00e9mica. Por vezes indica uma bandeira, por vezes significa centro (contraste com esquerda e direita), por vezes significa meio-dia, e tamb\u00e9m aparece em nomes de pessoas ou lugares. No entanto, em alguns outros contextos destas primeiras inscri\u00e7\u00f5es, os significados exactos deste caracter n\u00e3o s\u00e3o muito claros, mesmo para os especialistas de hoje (YU &amp; YAO 1999, 2932-43). Uma vez que a maior parte dos primeiros caracteres chineses monof\u00f3rmicos s\u00e3o originalmente pictogramas, \u00e9 bastante prov\u00e1vel que o car\u00e1cter <i>zhong<\/i> se referisse originalmente a um objeto concreto e tang\u00edvel. Mas os investigadores t\u00eam diferentes observa\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es sobre o objecto original que pode ser representado por este caracter. Alguns acreditam que teve origem num pictograma de uma bandeira, que era usada para marcar o centro de um local para reunir os membros da tribo (TANG 1981, 49-54). Outros acreditam que pode ter tido origem na imagem de um antigo instrumento meteorol\u00f3gico utilizado pelos povos antigos para testar a velocidade do vento (YU &amp; YAO 1999, 2932-2943), etc.<\/p>\n<p class=\"p5\">Embora seja muito dif\u00edcil descobrir o significado original mais antigo deste caracter, \u00e9 comparativamente mais f\u00e1cil discutir a sem\u00e2ntica subsequente de <i>zhong<\/i> como uma palavra chinesa frequentemente utilizada na l\u00edngua natural. No discurso quotidiano, quer em chin\u00eas antigo quer em chin\u00eas moderno, <i>zhong<\/i> \u00e9 uma palavra poliss\u00e9mica que tem m\u00faltiplos significados, dependendo dos contextos em que aparece. De acordo com os principais dicion\u00e1rios de chin\u00eas antigo, verificamos que existe uma sem\u00e2ntica b\u00e1sica do car\u00e1cter <i>zhong<\/i>:<\/p>\n<p class=\"p5\">1. <i>Zhong<\/i> significa dentro (contraste com fora), interior (contraste com externo). Esta \u00e9 a \u00fanica defini\u00e7\u00e3o deste caracter que aparece no <i>Shuowen Jiezi<\/i> (<span class=\"s3\">\u8bf4\u6587\u89e3\u5b57<\/span>)<sup>5<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><\/sup>o mais antigo dicion\u00e1rio chin\u00eas, que foi conclu\u00eddo na dinastia Han Oriental (25-220). A partir deste significado, foi alargado para indicar os sentimentos internos das pessoas, o cora\u00e7\u00e3o-mente n\u00e3o expresso ou o ser mais \u00edntimo.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">2. <i>Zhong<\/i> pode ser usado como um verbo, o que significa atingir exactamente um objetivo pretendido, ou ter conseguido fazer algo, ou ter feito algo exatamente bem. Por exemplo, uma flecha que atinge exactamente o centro do alvo \u00e9 chamada <i>zhong di<\/i> <\/span><span class=\"s6\">\u4e2d\u7684<\/span><span class=\"s5\">. Este significado foi alargado aos usos adjectivais de <i>zhong<\/i>, descrevendo a correc\u00e7\u00e3o, a adequa\u00e7\u00e3o e a justi\u00e7a das coisas. Como resultado, <i>zhong<\/i> tem um significado sem\u00e2ntico de utilidade, adequa\u00e7\u00e3o, aplicabilidade, etc. Actualmente, na l\u00edngua oral de algumas regi\u00f5es do norte da China, <i>zhong<\/i> \u00e9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o de confirma\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o, muito semelhante ao significado de \u201cbom\u201d, \u201cOK\u201d e \u201ctudo bem\u201d, etc.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">3. <i>Zhong<\/i> significa m\u00e9dio e mediano, referindo-se a um grau moderado ou adequado que contrasta com os dois extremos. Indica um valor m\u00e9dio ou mediano. A partir deste significado, foi alargado para indicar um equil\u00edbrio entre opostos e um estado de equil\u00edbrio entre factores diferentes ou contradit\u00f3rios. Uma vez que manter-se no meio n\u00e3o se inclina para nenhum dos lados,<i> zhong <\/i>\u00e9 ainda alargado para significar neutralidade, imparcialidade e isen\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, uma vez que<i> zhong <\/i>necessita de manter um equil\u00edbrio entre diferentes factores, por vezes opostos, tamb\u00e9m significa equidade e justi\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">4.<i> Zhong <\/i>tamb\u00e9m significa centralidade e autoridade. Como mencion\u00e1mos anteriormente, a origem pictogr\u00e1fica deste car\u00e1cter pode indicar um estandarte ou bandeira de um cl\u00e3 ou de uma tribo, utilizado para marcar o local central onde os membros do cl\u00e3 ou da tribo se devem reunir. Como centro, <i>zhong<\/i> \u00e9 comparado com fronteira, borda ou margem. Por conseguinte, tem tamb\u00e9m o significado alargado de centro de poder ou autoridade. \u00c9 precisamente por isso que, na antiga hermen\u00eautica chinesa, o car\u00e1cter <i>zhong<\/i> e o o car\u00e1cter <i>ji<\/i> <span class=\"s3\">\u6781<\/span>, que significa \u201ctopo\u201d, \u201cp\u00f3lo\u201d, \u201cmais alto\u201d, \u201csupremo\u201d, etc., podem por vezes explicar-se e interpretar-se mutuamente<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p class=\"p5\">No entanto, esta palavra comummente utilizada, <i>zhong<\/i>, foi dotada de um rico significado filos\u00f3fico e evoluiu gradualmente para um conceito filos\u00f3fico abstracto e importante na filosofia confucionista primitiva. O estudo e a aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de <i>Zhong<\/i> ou <i>Zhong dao<\/i> (Via do Meio) foram repetidamente enfatizados nos primeiros cl\u00e1ssicos confucionistas e tem sido continuamente discutido e defendido por estudiosos confucionistas posteriores.<\/p>\n<p class=\"p5\">Num cap\u00edtulo do <i>Shang Shu<\/i>, um dos cinco cl\u00e1ssicos confucionistas mais importantes, \u00e9-nos contada a hist\u00f3ria do lend\u00e1rio her\u00f3i Da Yu, que conduziu o povo com \u00eaxito na luta contra uma enorme inunda\u00e7\u00e3o e acabou por herdar o trono do seu antecessor Shun, fundando assim a dinastia Xia (c. 2070-c.1600 a.C.). Al\u00e9m disso, podemos encontrar os registos de algumas conversa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas importantes entre Shun, Da Yu e o chefe do poder judicial, Gao Yao. Nessas conversa\u00e7\u00f5es, Shun refere-se ao princ\u00edpio de <i>zhong<\/i> pelo menos duas vezes. Em primeiro lugar, Shun elogia o excelente trabalho de Gao Yao, dizendo que: \u201cUsar o castigo com a expectativa de que pode vir a n\u00e3o haver castigo nenhum, e deixar as pessoas de acordo com a Via do Meio (<i>zhong<\/i>), esse \u00e9 o vosso m\u00e9rito. Continuem a esfor\u00e7ar-se!\u201d (KONG &amp; KONG 2000, 58-59). Em segundo lugar, Shun, que tencionava abdicar como imperador e entregar o seu poder a Yu, deu a Yu a seguinte admoesta\u00e7\u00e3o: \u201cA nomea\u00e7\u00e3o determinada do C\u00e9u recai sobre a tua pessoa; deves acabar por subir ao trono do grande soberano. A mente do homem \u00e9 arriscada; a sua afinidade com o Dao \u00e9 fraca. S\u00ea discriminador, s\u00ea indiviso, para que possas sinceramente manter firme o princ\u00edpio de <i>zhong<\/i>!\u201d (KONG &amp; KONG 2000, 61-62). Esta admoesta\u00e7\u00e3o de Shun tem sido muito valorizada na tradi\u00e7\u00e3o do confucionismo. Foi considerada pelo neo-confucionismo das dinastias Song e Ming como o \u201censinamento secreto de passagem de pessoa a pessoa\u201d do confucionismo. Os registos semelhantes da import\u00e2ncia da \u201cVia do Meio\u201d no lend\u00e1rio confucionismo primitivo tamb\u00e9m aparecem nos <i>Analectos<\/i> de Conf\u00facio (HE &amp; XING 2000, 350), no livro de M\u00eancio (ZHAO &amp; SUN 2000, 326), bem como nas <i>Mem\u00f3rias Hist\u00f3ricas<\/i> de Sima Qian (SIMA 1959, 13-14), a mais antiga hist\u00f3ria geral da China antiga.<\/p>\n<p class=\"p5\">Al\u00e9m disso, um escrito em bambu recentemente descoberta do Per\u00edodo dos Reinos Combatentes (475 a.E.C.-221 a.E.C.), que faz parte da chamada \u201cColec\u00e7\u00e3o de Manuscritos em Bambu da Universidade de Tsinghua\u201d e se intitula <i>Baoxun<\/i> (<span class=\"s3\">\u4fdd\u8bad<\/span>), tamb\u00e9m regista uma admoesta\u00e7\u00e3o no leito de morte do Rei Wen (1152 a.E.C.-1056 a.E.C.), o fundador da Dinastia Zhou, ao seu filho e herdeiro, o rei Wu (1087 a. E.C.-1043 a.E.C.), o ent\u00e3o pr\u00edncipe Fa. Na sua admoesta\u00e7\u00e3o, o Rei Wen menciona <i>zhong<\/i> quatro vezes, contando a hist\u00f3ria de como o imperador Shun tinha procurado o <i>zhong<\/i> com admira\u00e7\u00e3o e acabou por o obter, bem como a hist\u00f3ria de um dos antepassados do povo Shang, Wei <span class=\"s3\">\u5fae<\/span>, que empregou o <i>zhong<\/i> como forma de lidar com a rela\u00e7\u00e3o entre o povo Shang e uma antiga tribo chamada Youyi <span class=\"s3\">\u6709\u6613<\/span> na \u00e1rea do Rio Amarelo, na qual Youyi admitiu a sua culpa sem ser prejudicado pelo castigo, e como todas as pessoas nas \u00e1reas do Rio Amarelo na \u00e9poca estavam a seguir o <i>zhong<\/i><sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p class=\"p5\">As provas acima referidas indicam que, durante o per\u00edodo Primavera-Outono e dos Estados Combatentes, ou o per\u00edodo do \u201cavan\u00e7o filos\u00f3fico\u201d chin\u00eas, \u00e9 bastante \u00f3bvio o esfor\u00e7o para construir uma narrativa da tradi\u00e7\u00e3o de transmitir e herdar a \u201cVia do Meio\u201d entre os antigos reis s\u00e1bios. De acordo com todos estes documentos, o <i>zhong<\/i> j\u00e1 se havia tornado na experi\u00eancia e na heran\u00e7a hist\u00f3rica mais importante que os antigos reis s\u00e1bios e outros pol\u00edticos tentaram perseguir e insistir, bem como um princ\u00edpio pol\u00edtico que quiseram depois transmitir aos seus sucessores. O discurso filos\u00f3fico confuciano posterior da tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa do <i>ZhongDao<\/i> baseia-se nesta narrativa hist\u00f3rico-lend\u00e1ria.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3 class=\"p6\"><b>A Evolu\u00e7\u00e3o da Zhongdaologia <\/b><b>na Filosofia Confucionista Antiga<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">O homem que fez a maior contribui\u00e7\u00e3o para a filosofia de <i>zhong<\/i> \u00e9 o pr\u00f3prio Conf\u00facio. Como o fundador do confucionismo, ou a \u201cescola de <i>ru<\/i>\u201d, Conf\u00facio adotou o conceito de <i>zhong<\/i> e desenvolveu-o numa doutrina sofisticada chamada <i>Zhong Yong<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u5eb8<\/span>, que \u00e9 tradicionalmente traduzida como \u201cdoutrina do meio\u201d, e na verdade significa a aplica\u00e7\u00e3o constante, geral e universal da \u201cVia do Meio\u201d. A filosofia de <i>zhong<\/i> de Conf\u00facio \u00e9 demonstrada em muitos de seus ensinamentos, tais como seus di\u00e1logos com disc\u00edpulos e seus comportamentos pessoais, registados nos <i>Analectos<\/i> e em algumas das suas cita\u00e7\u00f5es citadas no livro <i>Zhong Yong<\/i><sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p class=\"p5\">Segundo Conf\u00facio, aplicar <i>zhong<\/i> \u00e9 uma virtude hiper-moral, uma sabedoria avan\u00e7ada e uma metodologia filos\u00f3fica. Conf\u00facio pensa que possuir ou n\u00e3o possuir a virtude de <i>zhong yong<\/i> \u00e9 uma das diferen\u00e7as entre um homem superior (<i>junzi<\/i>) e um homem menor (<i>xiaoren<\/i>). Ele diz: \u201cA aplica\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i> como virtude moral \u00e9, de facto, suprema. H\u00e1 muito tempo que \u00e9 rara entre as pessoas comuns\u201d (LAU 1983, 54-55). \u00c9 rara entre as pessoas, uma vez que os s\u00e1bios e os talentosos a ultrapassam e os imbecis e os incompetentes n\u00e3o a alcan\u00e7am. Critica o facto de algumas pessoas que escolhem o caminho de <i>zhong<\/i> n\u00e3o conseguirem \u201caguentar nem sequer um m\u00eas\u201d (LEGGE 1992, 388). Assim, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para as pessoas aderirem ao padr\u00e3o de <i>zhong<\/i>, ou manterem a virtude de <i>zhong<\/i> durante muito tempo. Isso ocorre porque aplicar <i>zhong<\/i> \u00e9 diferente de empregar uma f\u00f3rmula, regra ou regulamento fixo. \u00c9 comparado, por Conf\u00facio, a alguma habilidade de \u00abprovar o sabor\u00bb. Segundo Conf\u00facio, todos os homens comem e bebem, mas s\u00f3 alguns podem ser cozinheiros experientes, ter uma capacidade de degusta\u00e7\u00e3o subtil e conseguir distinguir sabores (LEGGE 1992, 387).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Esta analogia faz lembrar um famoso di\u00e1logo entre dois ministros Zhou ocidentais sobre o conceito de \u201c<i>he<\/i> <\/span><span class=\"s6\">\u548c<\/span><span class=\"s5\">\u201d (literalmente significa reconciliar, harmonia) registado no livro de Guo Yu<sup>9 <\/sup>no qual um ministro utiliza tamb\u00e9m a analogia do tempero \u201ccinco sabores\u201d para explicar o conceito de \u201c<i>he<\/i> <\/span><span class=\"s6\">\u548c<\/span><span class=\"s5\"> \u201c (XU 1981, 470-472). Na terminologia filos\u00f3fica confucionista, <i>zhong<\/i> e <i>he<\/i> est\u00e3o intimamente relacionados, \u00e0s vezes chamados de <i>zhong he<\/i> (<\/span><span class=\"s6\">\u4e2d\u548c<\/span><span class=\"s5\">). De certa forma, <i>zhong<\/i> pode ser entendido como o resultado de <i>he<\/i> (reconciliar), ou analogicamente, <i>zhong<\/i> pode ser comparado ao melhor sabor de um prato que misturou adequadamente os \u201ccinco sabores\u201d e a sua harmonia. Isto depende n\u00e3o s\u00f3 do gosto pessoal e do discernimento do cozinheiro, mas tamb\u00e9m da sua compreens\u00e3o das diferentes naturezas e fun\u00e7\u00f5es dos \u201ccinco sabores\u201d, bem como das carater\u00edsticas de pratos espec\u00edficos, etc. Portanto, a aplica\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i> \u00e9 uma sabedoria dial\u00e9tica e din\u00e2mica, que necessita de uma considera\u00e7\u00e3o global de diferentes factores, a partir dos quais se pode fazer a melhor escolha poss\u00edvel. Isso \u00e9 evidente no elogio de Conf\u00facio ao lend\u00e1rio imperador Shun. Conf\u00facio disse: \u201cShun era de facto muito s\u00e1bio! Shun gostava de questionar os outros e estudar at\u00e9 mesmo os discursos aparentemente superficiais. Ele escondia o que havia de mau neles e mostrava o que havia de bom; ele apoderava-se dos dois extremos e aplicava o que \u00e9 <i>zhong<\/i> no seu governo das pessoas\u201d (LEGGE 1992, 388).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Na vis\u00e3o de Conf\u00facio, Shun \u00e9 obviamente um modelo para a aplica\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i>. Se entendemos correctamente, a aplica\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i> por Shun baseia-se numa considera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de diferentes factores em diferentes coordenadas. Pelo menos h\u00e1 duas coordenadas: uma \u00e9 entre as \u201cduas extremidades\u201d ou \u201cdois extremos\u201d, e a outra \u00e9 entre o \u00edntimo de Shun e a condi\u00e7\u00e3o objectiva, incluindo o seu povo. Os comentadores costumam prestar aten\u00e7\u00e3o apenas a uma das duas coordenadas, ou seja, o <i>zhong<\/i> na coordenada dos dois extremos ou das duas extremidades. No entanto, a outra coordenada n\u00e3o deve ser negligenciada, ou seja, a coordenada entre o ju\u00edzo \u00edntimo de Shun e as opini\u00f5es dos \u201coutros\u201d. Ele recolhe amplamente as ideias e opini\u00f5es dos outros, mas tamb\u00e9m usa o seu pr\u00f3prio julgamento para decidir o que \u00e9 \u201cmau\u201d, que deve ser \u201cescondido\u201d, e o que \u00e9 \u201cbom\u201d, que deve ser \u201cexibido\u201d. Assim, o <i>zhong<\/i> n\u00e3o \u00e9 apenas o resultado do equil\u00edbrio entre estes dois extremos, mas tamb\u00e9m uma \u201ccoincid\u00eancia\u201d entre o seu pr\u00f3prio \u00edntimo e o \u00edntimo dos outros. Shun n\u00e3o \u00e9 nem um subjectivista presun\u00e7oso nem um imitador de cabe\u00e7a mole. Ele sabe que deve haver uma coisa certa a fazer, mas essa coisa s\u00f3 pode ser encontrada atrav\u00e9s de uma perspetiva equilibrada e dial\u00e9tica entre ele e os outros, e entre os dois extremos. Esse \u00e9 o <i>zhong<\/i>. Ao mesmo tempo, <i>zhong<\/i> nem sempre significa uma divis\u00e3o meio a meio entre extremos ou fins opostos. Deve ser o grau mais adequado e apropriado para uma determinada situa\u00e7\u00e3o. A aplica\u00e7\u00e3o do <i>zhong<\/i> tamb\u00e9m significa o dom\u00ednio do grau apropriado.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Conf\u00facio herdou e levou adiante a ideia e o princ\u00edpio de <i>zhong<\/i> e aplicou-o em muitos aspectos do seu pensamento, incluindo a educa\u00e7\u00e3o, o cultivo de si, o comportamento pessoal na sociedade, a teoria pol\u00edtica e at\u00e9 a est\u00e9tica da arte, etc. Por exemplo, no que respeita \u00e0 personalidade ideal de um homem superior, ele considera importante um grau adequado de <i>zhong<\/i>. O grau de <i>zhong<\/i> aqui significa nem \u201cir al\u00e9m\u201d nem \u201cficar aqu\u00e9m\u201d. Consequentemente, ao ensinar seus alunos, Conf\u00facio tentaria gui\u00e1-los para esse estado apropriado de <i>zhong<\/i>, dando-lhes instru\u00e7\u00f5es diferentes de acordo com suas diferentes aptid\u00f5es. Portanto, ao responder \u00e0 mesma pergunta feita por diferentes alunos, Conf\u00facio pode n\u00e3o dar uma resposta fixa. Em vez disso, ele sempre compunha a resposta certa para tratar de uma quest\u00e3o particular num contexto espec\u00edfico. Esse \u00e9 um dos princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o confuciana, e \u00e9 tamb\u00e9m uma aplica\u00e7\u00e3o de <i>zhong<\/i>, porque <i>zhong<\/i> tamb\u00e9m significa mirar num alvo espec\u00edfico e acertar o alvo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Al\u00e9m disso, o esp\u00edrito da zhongdaologia est\u00e1 tamb\u00e9m incorporado em dois conceitos centrais da \u00e9tica confucionista, nomeadamente \u201c<i>ren<\/i>\u201d e \u201c<i>li<\/i>\u201d. <i>Ren<\/i> (benevol\u00eancia) significa amor e compaix\u00e3o entre \u201ceu\u201d e \u201coutros\u201d, que tamb\u00e9m pode ser chamado de <i>zhong shu<\/i> <span class=\"s3\">\u5fe0\u6055<\/span>, e a fun\u00e7\u00e3o de <i>li<\/i> (ritos e rituais) \u00e9 apenas manter o <i>zhong<\/i> na ordem social e no comportamento das pessoas. O modo de pensar zhongdaol\u00f3gico tamb\u00e9m \u00e9 vividamente demonstrado na teoria est\u00e9tica de Conf\u00facio, especialmente na sua teoria da poesia. De acordo com Conf\u00facio, a fun\u00e7\u00e3o dos poemas \u00e9 expressar a aspira\u00e7\u00e3o ou desejo interno de algu\u00e9m. No entanto, a express\u00e3o deve ser tratada de forma apropriada e moderada de acordo com uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, evitando o excesso. \u00c9 por isso que Conf\u00facio apreciava algumas baladas no <i>Livro das Odes<\/i> por serem \u201calegres, mas sem libertinagem, e tristes, mas sem magoarem\u201d (LAU 1983, 24-25). Ele tamb\u00e9m pensa que a poesia tem a fun\u00e7\u00e3o de expressar queixas e ressentimentos, mas n\u00e3o deve ir ao extremo e tornar-se zangada. Em geral, Conf\u00facio acha que \u00e9 necess\u00e1rio expressar os sentimentos internos de um autor, como alegria, tristeza e \u00f3dio, num poema, mas o sentimento expresso deve ser moderado e contido num grau apropriado, ou seja, <i>zhong<\/i>. Poemas com tal grau apropriado de sentimento e express\u00e3o ser\u00e3o considerados como tendo a \u201cbeleza de <i>zhong<\/i> e harmonia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">Depois de Conf\u00facio, os seus disc\u00edpulos e seguidores posteriores desenvolveram ainda mais a filosofia da zhongdaologia com conota\u00e7\u00f5es enriquecidas. No livro <i>Zhong Yong<\/i> (<span class=\"s3\">\u4e2d\u5eb8<\/span>), que se acredita ter sido escrito pelo neto de Conf\u00facio, Zi Si, uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o de quaternidade entre o C\u00e9u, a natureza humana, o Dao e a educa\u00e7\u00e3o das doutrinas confucionistas (LEGGE 1992, 383) \u00e9 discutida logo no in\u00edcio. Isto indica que existe uma liga\u00e7\u00e3o entre o Dao de Conf\u00facio e o C\u00e9u atrav\u00e9s da liga\u00e7\u00e3o da natureza humana. \u00c9 por isso que alguns acad\u00e9micos, como Tu Wei-ming, acreditam que existe uma dimens\u00e3o religiosa no <i>Zhong Yong<\/i> (TU 2008, 117-156). Mas a origem religiosa ou transcendental do Dao n\u00e3o \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o vinda diretamente do \u201cC\u00e9u\u201d, ou anunciada por alguns santos ou profetas misteriosos enviados pelo \u201cC\u00e9u\u201d a este mundo secular, mas sim, \u00e9 demonstrada na natureza ou na humanidade dos seres humanos comuns. \u00c9 por isso que o <i>Zhong Yong<\/i> enfatiza que o Dao n\u00e3o pode ser separado (de um ser humano) nem por um instante. Se pudesse ser separado, n\u00e3o seria o Dao. Isso significa que a origem do Dao \u00e9 o C\u00e9u, mas ele tamb\u00e9m reside no ser mais \u00edntimo (<i>zhong<\/i>) de cada indiv\u00edduo, apresentado como o estado interno n\u00e3o expresso de prazer, raiva, tristeza e alegria em cada cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p class=\"p5\">De acordo com o <i>Zhong Yong<\/i>, a quest\u00e3o fundamental da filosofia zhongdaol\u00f3gica \u00e9 \u201c<i>zhizhong he<\/i> <span class=\"s3\">\u81f4\u4e2d\u548c<\/span>\u201d (alcan\u00e7ar o <i>zhong<\/i> e realizar a harmonia), o que significa uma converg\u00eancia de subjectividade e objectividade, uma harmonia tanto do mundo interno como do mundo externo, porque o caracter<i> zhong <\/i><span class=\"s3\">\u4e2d<\/span> aqui se refere, ou liga tanto o <i>zhong<\/i> interno (o ser mais \u00edntimo n\u00e3o expresso) como o <i>zhong<\/i> externo (a adequa\u00e7\u00e3o ou aplicabilidade na pr\u00e1tica e na realidade). Quando o <i>zhong<\/i> interno \u00e9 expresso de forma adequada, e \u00e9 expresso tudo exatamente ao ponto, sem \u201cexagerar\u201d nem \u201cn\u00e3o fazer o suficiente\u201d (ou seja, <i>zhong jie<\/i> <span class=\"s3\">\u4e2d\u8282<\/span>, o que significa atingir o alvo certo ou atingir o grau devido), ent\u00e3o a \u201charmonia\u201d ser\u00e1 realizada e a via de<i> zhong <\/i>ser\u00e1 conclu\u00eddo (LEGGE 1992, 384-385). O <i>zhong<\/i> interno ou n\u00e3o expresso indica uma unidade entre o C\u00e9u e a natureza humana, enquanto o <i>zhong<\/i> expresso externamente sugere uma combina\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o e racionalidade. Tu Wei-ming explica que a via confucionista de<i> zhong <\/i>\u00e9 \u00abprofessar a unidade do homem e do C\u00e9u\u00bb e, de acordo com o <i>Zhong Yong<\/i>, \u201cnum sentido estrito, a rela\u00e7\u00e3o entre o C\u00e9u e o homem n\u00e3o \u00e9 a de criador e criatura, mas uma rela\u00e7\u00e3o de fidelidade m\u00fatua\u201d (TU 1989, 10).<\/p>\n<p class=\"p5\">No meu entender, o <i>zhong<\/i> interno n\u00e3o expresso \u00e9 uma tal \u201cunidade\u201d ou uma rela\u00e7\u00e3o de \u201cfidelidade m\u00fatua\u201d entre os humanos e o C\u00e9u. Como Chung-Ying Cheng salienta: \u201cNo centro da tradi\u00e7\u00e3o chinesa, o confucionismo v\u00ea a exist\u00eancia humana como uma unidade de corpo e mente e v\u00ea ainda a mente humana como uma unidade de raz\u00e3o e sentimento\u201d (CHENG 2000, 34). O conceito de <i>zhong<\/i> na zhongdaologia \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cunidade\u201d que liga ou combina o interno e o externo, o C\u00e9u e o Homem, a mente e a mat\u00e9ria, o subjetivo e o objetivo, a raz\u00e3o e o sentimento, etc. A Via de<i> Zhong <\/i>percorre o processo desde a raiz inicial (o <i>zhong<\/i> interno) at\u00e9 ao fim final (o <i>zhong<\/i> externo), realizando assim a harmonia e assegurando a ordem normal do mundo sob o C\u00e9u e a prosperidade de todas as coisas na terra. Todo o texto do <i>Zhong Yong<\/i> \u00e9 apenas uma elabora\u00e7\u00e3o repetida desta forma de<i> zhong <\/i>que atravessa o mundo interno e externo, liga o C\u00e9u e o mundo humano, interage entre sujeitos e objectos e comunica entre si e os outros. \u00c9 \u00f3bvio que existem sempre algumas tens\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es ou mesmo conflitos entre os lados opostos. No entanto, a fun\u00e7\u00e3o e o objetivo da zhongdaologia \u00e9 libertar a tens\u00e3o, moderar a contradi\u00e7\u00e3o e evitar os conflitos.<\/p>\n<p class=\"p5\">Durante o Per\u00edodo dos Reinos Combatentes, dois dos principais representantes do confucionismo, nomeadamente M\u00eancio e Xun Zi, tamb\u00e9m contribu\u00edram grandemente para a teoria da zhongdaologia. M\u00eancio diz que o homem superior confuciano deve \u201cpermanecer firmemente na via de \u2018<i>zhong<\/i>\u2019 e deixar aqueles que s\u00e3o capazes de o seguir\u201d (LAU 2003, 306-307). M\u00eancio tamb\u00e9m pensa que a educa\u00e7\u00e3o moral consiste em deixar \u201caqueles que s\u00e3o moralmente<i> zhong <\/i>cuidarem daqueles que n\u00e3o s\u00e3o <i>zhong<\/i>; e aqueles que t\u00eam talento cuidarem daqueles que n\u00e3o t\u00eam talento\u201d (LAU 2003, 174-175). Mencius contribuiu com duas ideias cr\u00edticas para a teoria da Zhongdaologia, uma delas \u00e9 chamada de \u201c<i>zhong<\/i> oportuno (<i>shi zhong <\/i><span class=\"s3\">\u65f6\u4e2d<\/span>)\u201d (LAU 2003, 216-219), a outra \u00e9 chamada de \u201cconst\u00e2ncia e flexibilidade (<i>jing quan<\/i> <span class=\"s3\">\u7ecf\u6743<\/span>)\u201d (LAU 2003, 162-165). \u201c<i>Zhong<\/i> oportuno\u201d significa que o<i> zhong <\/i>acontece apenas em determinadas circunst\u00e2ncias no tempo, n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio ou postura fixa, imut\u00e1vel e intemporal. Por outras palavras, uma vez que as circunst\u00e2ncias e condi\u00e7\u00f5es mudam sempre no tempo, o<i> zhong <\/i>tamb\u00e9m deve mudar com o tempo. \u201cConst\u00e2ncia e flexibilidade\u201d refere-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre os princ\u00edpios morais constantes ou categ\u00f3ricos e a sua aplica\u00e7\u00e3o flex\u00edvel e ponderada na realidade. Significa que, embora existam certos princ\u00edpios constantes, categ\u00f3ricos ou mesmo absolutos, ao aplicar esses princ\u00edpios na resolu\u00e7\u00e3o de problemas pr\u00e1ticos, \u00e9 necess\u00e1rio tratar as situa\u00e7\u00f5es concretas da realidade numa base casu\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"p5\">Depois de M\u00eancio, Xun Zi, outro mestre do confucionismo pr\u00e9-Qin, tamb\u00e9m enfatiza a import\u00e2ncia da via de <i>zhong<\/i>. Diz ele: \u201cA Via dos Antigos Reis consistia em exaltar o princ\u00edpio da humanidade e em seguir o<i> zhong <\/i>na sua conduta. O que se entende por \u2018<i>zhong<\/i>\u2019? Eu digo que \u00e9 correctamente identificado com princ\u00edpios rituais e morais\u201d (KNOBLOCK 1990, 74). O esp\u00edrito e o princ\u00edpio de \u201c<i>zhong<\/i>\u201d foram aplicados em todas as teorias morais e pol\u00edticas de Xun Zi, na sua vis\u00e3o da lei e das pr\u00e1ticas rituais, bem como na sua teoria da literatura e das artes.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s7\">Nas gera\u00e7\u00f5es posteriores, o <i>Zhong Yong<\/i> tornou-se um dos mais importantes cl\u00e1ssicos confucionistas e uma leitura obrigat\u00f3ria para quase todos os antigos acad\u00e9micos chineses. A discuss\u00e3o ou explora\u00e7\u00e3o do significado de<i> zhong <\/i>tem sido um dos temas mais importantes no imenso n\u00famero de livros da tradi\u00e7\u00e3o do confucionismo, mesmo nas obras do chamado novo confucionismo moderno. De facto, para al\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o do confucionismo, em algumas outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas da China, como o tao\u00edsmo, o legalismo e at\u00e9 o budismo chin\u00eas, podemos tamb\u00e9m encontrar alguns impactos da filosofia da zhongdaologia. E as suas influ\u00eancias permeiam muitos dom\u00ednios da cultura e da ideologia chinesas, bem como a personalidade e o modo de vida de muitos chineses. Por conseguinte, podemos dizer que existe uma tradi\u00e7\u00e3o de longa data, que aqui descrevemos como zhongdaologia, na hist\u00f3ria da filosofia e da cultura chinesas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p6\"><b>Como deve a filosofia chinesa interagir com a filosofia africana: O significado intercultural da zhongdaologia<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Tal como a quest\u00e3o da legitimidade da filosofia chinesa na China contempor\u00e2nea, a quest\u00e3o da auto-defini\u00e7\u00e3o ou identifica\u00e7\u00e3o da filosofia africana tamb\u00e9m existe no campo dos estudos contempor\u00e2neos desta filosofia. A filosofia africana foi durante muito tempo ignorada e negada pelos ocidentais, especialmente pelos colonialistas europeus. Georg Hegel n\u00e3o s\u00f3 menosprezou a antiga filosofia chinesa, como tamb\u00e9m descreveu a cultura africana com desprezo. Para Hegel, \u00c1frica n\u00e3o tinha qualquer filosofia. De facto, Hegel acreditava que a filosofia do pensamento puro e da liberdade s\u00f3 existia na Europa, o \u00fanico continente hist\u00f3rico. Este preconceito persiste mesmo na era p\u00f3s-colonial, com alguns africanos educados no Ocidente a juntarem-se \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da filosofia africana. Peter O. Bodunrin, por exemplo, num artigo publicado na revista <i>Philosophy<\/i>, em 1981, afirmava descaradamente que n\u00e3o existia uma \u201cfilosofia africana\u201d (BODUNRIN 1981). \u00c9 claro que este ponto de vista foi refutado com sucesso por muitas pessoas. Na sua ess\u00eancia, a filosofia \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do pensamento racional humano e a capacidade de julgamento l\u00f3gico. Todos os seres humanos t\u00eam a capacidade de pensar racionalmente e de fazer ju\u00edzos l\u00f3gicos, mas as pessoas que vivem em tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e culturais diferentes t\u00eam abordagens e formas diferentes de exprimir esta grande capacidade humana. A vis\u00e3o auto-selante e exclusiva da filosofia ocidental, que adopta apenas os seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios, padr\u00f5es, l\u00f3gica e concep\u00e7\u00f5es baseados na sua pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o cultural e epist\u00e9mica para negar ou menosprezar outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, deve ser abandonada. Isto porque n\u00e3o contribui para o desenvolvimento da sabedoria comum humana ou da filosofia mundial. As tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de diferentes nacionalidades e regi\u00f5es devem ser respeitadas e valorizadas, e as suas conota\u00e7\u00f5es e carater\u00edsticas devem ser cuidadosamente estudadas, exploradas e apresentadas para enriquecer e desenvolver a filosofia comum da humanidade atrav\u00e9s de um di\u00e1logo e interc\u00e2mbio igualit\u00e1rio entre diferentes tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Podemos constatar que cada vez mais estudiosos t\u00eam investigado a hist\u00f3ria e a situa\u00e7\u00e3o actual da filosofia africana, explorando a \u201cafricanidade\u201d da filosofia africana e muitos outros problemas e temas da filosofia africana (ETIEYIBO, 2018).<\/p>\n<p class=\"p5\">Do que precede, tanto a filosofia chinesa como a africana enfrentam a influ\u00eancia irresist\u00edvel da filosofia ocidental, que est\u00e1 empenhada em marginalizar as duas tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Construir uma ponte de interac\u00e7\u00e3o ou de interc\u00e2mbio intercultural entre as tradi\u00e7\u00f5es chinesas e africanas parece ser um curso de ac\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio nesta fase. Mas o principal desafio da filosofia intercultural sempre foi a metodologia. Estamos a falar de duas tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas inspiradas por duas culturas diferentes, que m\u00e9todo de pensamento se adequaria melhor a um interc\u00e2mbio intercultural entre as duas? Por outras palavras, como \u00e9 que as duas tradi\u00e7\u00f5es se devem envolver? Neste caso, gostaria de propor o m\u00e9todo do \u201cequil\u00edbrio cr\u00edtico\u201d, o m\u00e9todo de<i> zhong <\/i>ou o m\u00e9todo de pensamento zhongdaol\u00f3gico. \u00c9 cr\u00edtico porque real\u00e7a a import\u00e2ncia da considera\u00e7\u00e3o rigorosa e da justifica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica na avalia\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o das ideias de cada tradi\u00e7\u00e3o, e \u00e9 uma abordagem equilibrada porque reconhece que as ideias das duas tradi\u00e7\u00f5es podem ser mutuamente complementares. Cada tradi\u00e7\u00e3o tem algo importante para oferecer \u00e0 outra, e a harmonia das melhores ideias de ambas poderia criar um conjunto m\u00fatuo de valores e ideologias.<\/p>\n<p class=\"p5\">O esp\u00edrito de abertura, toler\u00e2ncia, equil\u00edbrio e justi\u00e7a defendido pela filosofia confucionista da zhongdaologia tamb\u00e9m aponta para a import\u00e2ncia do di\u00e1logo e da conversa\u00e7\u00e3o entre a filosofia chinesa e outras tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. Historicamente, a filosofia chinesa enriqueceu muito a sua conota\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do di\u00e1logo e do interc\u00e2mbio com a filosofia budista. Desde os tempos modernos, a filosofia chinesa tamb\u00e9m se envolveu com a filosofia ocidental atrav\u00e9s de um di\u00e1logo e de um interc\u00e2mbio alargados e aprofundados. Mas o di\u00e1logo e o interc\u00e2mbio entre a filosofia chinesa e a filosofia africana \u00e9 ainda um novo campo \u00e0 espera de ser ricamente explorado. Os estudos preliminares existentes mostram que o di\u00e1logo e o interc\u00e2mbio entre a filosofia chinesa e a filosofia africana podem produzir resultados inesperadamente ricos. Por exemplo, alguns estudiosos comparam o conceito de <i>Ubuntu<\/i> em \u00c1frica com o pensamento \u201c<i>ren<\/i> (benevol\u00eancia)\u201d e \u201ca Via dos Reis\u201d do confucionismo chin\u00eas e descobrem que tanto a filosofia tradicional chinesa como a filosofia africana enfatizam a solidariedade de grupo e a comunidade na vida social humana, em vez de colocar a liberdade individual na posi\u00e7\u00e3o mais elevada (BELL &amp; METZ 2012). Isto indica que a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica dominante do individualismo e do liberalismo desde os tempos modernos no Ocidente pode ser mais uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica local do que um valor universal com significado universal ou, pelo menos, n\u00e3o pode representar plenamente o valor universal de toda a humanidade. Um maior n\u00famero de di\u00e1logos e interc\u00e2mbios entre tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas no Sul pode fornecer mais provas de que alguns conceitos e teorias filos\u00f3ficas ocidentais, que t\u00eam sido geralmente considerados como princ\u00edpios do universalismo desde os tempos modernos, s\u00e3o na realidade realiza\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas da cultura ocidental num determinado per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Numa tentativa de me envolver e comunicar com a filosofia africana, gostaria de discutir a correla\u00e7\u00e3o entre a ideia de zhongdaologia no confucionismo chin\u00eas e os conceitos como <i>Ezumezu<\/i> e <i>Ubuntu<\/i> na filosofia africana. Como j\u00e1 referi, a filosofia confucionista chinesa, desde o seu in\u00edcio, n\u00e3o se concentra na quest\u00e3o da ontologia ou do \u201cser\u201d, antes enfatiza a procura do \u201c<i>zhong<\/i>\u201d, que n\u00e3o \u00e9 nem uma entidade substancial nem uma ideia ou forma permanentemente fixa. Em certo sentido,<i> zhong <\/i>pode ser entendido como um terceiro valor, que \u00e9 a media\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o dos \u201cdois extremos\u201d contradit\u00f3rios ou opostos. N\u00e3o \u00e9 um valor absoluto e fixo, o \u201cser\u201d de algo; \u00e9 contextual, hist\u00f3rico e din\u00e2mico, juntamente com a situa\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o em mudan\u00e7a. No entanto, n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1rio, porque se baseia mutuamente nos \u201cdois extremos\u201d opostos e noutros elementos subjectivos e objectivos. Esta \u00e9 a l\u00f3gica da zhongdaologia. O confucionismo considera que encontrar e manter um tal<i> zhong <\/i>ou equil\u00edbrio \u00e9 a principal tarefa da filosofia, uma vez que fornecer\u00e1 uma raz\u00e3o pr\u00e1tica b\u00e1sica para os comportamentos humanos e as actividades sociais. Esta l\u00f3gica do pensamento zhongdaol\u00f3gico \u00e9 diferente da do modo de pensar ontol\u00f3gico ocidental tradicional, que se caracteriza pela investiga\u00e7\u00e3o incessante do ser ou da verdade absolutos e das regras ou princ\u00edpios fixos. Desde o tempo dos gregos antigos, esta abordagem ocidental da filosofia tem-se dedicado a encontrar a clareza te\u00f3rica absoluta e abstracta e n\u00e3o se acomoda a um meio-termo entre duas aparentes contradi\u00e7\u00f5es. Assim, as leis da identidade, da contradi\u00e7\u00e3o e do terceiro exclu\u00eddo s\u00e3o as leis b\u00e1sicas que regem a abordagem filos\u00f3fica ocidental desde o tempo de Arist\u00f3teles. O modo de pensar ontol\u00f3gico tende a negar ou a negligenciar a multiformidade e a mutabilidade sensacionais do mundo vivo, o que pode facilmente conduzir \u00e0 \u201chegemonia racional\u201d e \u00e0 \u201cdomina\u00e7\u00e3o conceptual\u201d. Como resultado, a filosofia tornou-se cada vez mais afastada da experi\u00eancia humana e alienada do mundo vivo dos seres humanos. Tamb\u00e9m levou as pessoas a serem esmagadoramente possu\u00eddas pela sua f\u00e9 na \u201cverdade\u201d auto-suposta, o que pode facilmente levar ao absolutismo e ao dogmatismo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Como j\u00e1 foi explicado, as quest\u00f5es ontol\u00f3gicas, como \u201co que est\u00e1 ali\u201d ou \u201co que \u00e9 que existe\u201d, n\u00e3o eram o foco ou a principal preocupa\u00e7\u00e3o do pensamento e das teorias filos\u00f3ficas dos antigos chineses. Pelo contr\u00e1rio, os chineses antigos estavam mais interessados na quest\u00e3o de saber como as coisas no mundo funcionam e como as diferentes coisas est\u00e3o relacionadas umas com as outras. Por conseguinte, a sua aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se centrava no ser absoluto, na verdade absoluta ou na fal\u00e1cia, no bem e no mal, etc., mas antes no entre-coisas ou na rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre coisas diferentes. Os elementos diferentes ou mesmo contradit\u00f3rios e conflituosos s\u00e3o considerados Yin e Yang; s\u00e3o contradit\u00f3rios mas tamb\u00e9m mutuamente dependem um do outro e transformam-se. S\u00f3 quando o Yin e o Yang interagem entre si \u00e9 que o Dao se torna realidade. Num certo sentido, o<i> zhong <\/i>\u00e9 um caso espec\u00edfico de um Dao din\u00e2mico entre coisas diferentes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">\u00c9 interessante notar que, na filosofia africana, existe uma vertente desenvolvida por Jonathan O. Chimakonam, denominada \u201c<i>Ezumezu<\/i>\u201d. Trata-se de uma l\u00f3gica e de uma filosofia. A sua doutrina filos\u00f3fica \u00e9 designada por Fil<span class=\"s8\">osofia Conversacional. Nela, podemos encontrar uma l\u00f3gica semelhante \u00e0 zhongdaologia confucionista. O conceito de <i>ezumezu<\/i> deriva de uma l\u00edngua<\/span> Igbo africana que significa \u201co colectivo, o agregado ou a totalidade de tudo o que \u00e9 mais vi\u00e1vel, mais potente e mais poderoso\u201d (CHIMAKONAM 2019, 94). De acordo com Chimakonam, <i>Ezumezu<\/i> representa uma l\u00f3gica complementar de tr\u00eas valores, com tr\u00eas leis suplementares de pensamento, nomeadamente <i>Njikoka<\/i>, <i>Nmekoka<\/i> e <i>Onona-etiti<\/i>. Tal como na zhongdaologia, \u00e9 diferente da l\u00f3gica ocidental, porque as leis do pensamento na l\u00f3gica ocidental (identidade, contradi\u00e7\u00e3o e terceiro exclu\u00eddo) s\u00e3o insuficientes para cobrir os mapeamentos epist\u00e9micos na abordagem africana da filosofia. Como ele diz:<\/p>\n<p class=\"p7\">&#8220;No modelo <i>Ezumezu<\/i>&#8230; os dois valores padr\u00e3o s\u00e3o tratados como subcontr\u00e1rios e n\u00e3o como Contradit\u00f3rios&#8230; Isto deve-se ao facto do <i>ezumezu<\/i> ser um valor distinto em si mesmo, onde os dois valores padr\u00e3o convergem e se complementam. A sua interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201csabe-se que pode ser simultaneamente verdadeiro e falso\u201d. \u00c9 estritamente verdadeiro ou falso quando o <i>ezumezu<\/i> \u00e9 desintegrado mais uma vez num sistema de dois valores. \u00c9 f\u00e1cil questionar o estatuto realista de <i>ezumezu<\/i> que pode ser tanto verdadeiro como falso. As avalia\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas no pensamento africano Igbo s\u00e3o lidas contextualmente de forma semelhante \u00e0 sem\u00e2ntica de situa\u00e7\u00e3o, em que as afirma\u00e7\u00f5es de sistemas formais s\u00e3o interpretadas como verdadeiras ou falsas relativamente a situa\u00e7\u00f5es. Na sem\u00e2ntica contextual, aquilo que \u00e9 verdadeiro, \u00e9 verdadeiro apenas num contexto, podendo ser falso noutro. Esta \u00e9 uma leitura mais realista do que epist\u00e9mica do modelo de pensamento de tr\u00eas valores.&#8221; (CHIMAKONAM 2014, 3-4)<\/p>\n<p class=\"p5\">Aqui podemos constatar que a l\u00f3gica africana <i>Ezumezu<\/i> ou abordagem Ezumezuol\u00f3gica partilha algumas ideias em comum com o modo de pensar zhongdaol\u00f3gico confucionista chin\u00eas. Por vezes, o<i> zhong <\/i>na zhongdaologia tamb\u00e9m representa um valor interm\u00e9dio adequado entre os \u2018dois extremos\u2019 contradit\u00f3rios. O valor<i> zhong <\/i>n\u00e3o \u00e9 fixo ou absoluto, \u00e9 din\u00e2mico e contextual, mas o confucionismo considera o<i> zhong <\/i>como o Dao constante e perp\u00e9tuo no universo. Tal como em <i>Ezumezu<\/i>, o modo de pensar zhongdaol\u00f3gico tenta normalmente colmatar a lacuna entre as coisas opostas e conflituosas, criando um<i> zhong <\/i>mediador entre as coisas envolvidas. Tem como pano de fundo a filosofia Yin-Yang, o que significa que considera coisas diferentes ou mesmo, por vezes, fortemente contrastantes como mutuamente relacionadas e interdependentes. Assim, \u00e9 sempre poss\u00edvel constituir uma media\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria ou um equil\u00edbrio entre elas. A zhongdaologia n\u00e3o exclui arbitrariamente nem tenta substituir valores diferentes, mas tamb\u00e9m n\u00e3o adopta uma atitude de \u201cou um ou outro\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos lados opostos das coisas no mundo. Existem diferen\u00e7as no mundo, mas as diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apenas confrontos entre a verdade e a mentira, ou o bem e o mal; elas s\u00e3o apenas mutuamente interdependentes e complementares. Esta forma de pensar contrasta com a forma de pensar ocidental tradicional, que persiste na lei da diferen\u00e7a absoluta e da identidade absoluta, em que as coisas s\u00e3o mutuamente exclusivas. Penso que as formas da zhongdaologia e da ezumezulogia reflectem mais exactamente a natureza das coisas no mundo real. De facto, qualquer concep\u00e7\u00e3o absoluta, \u00faltima e universal do \u201cser\u201d ou da \u201cverdade\u201d, que seja efectivamente concebida por um ser humano, expressa numa linguagem humana e na hist\u00f3ria humana, \u00e9 contextual e dependente das particularidades de uma dada cultura. Desta forma, Simon Blackburn explica que a hist\u00f3ria da metaf\u00edsica ocidental \u00e9 uma hist\u00f3ria de depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a outras preocupa\u00e7\u00f5es fundamentais e que, apesar das suas pretens\u00f5es de autoridade e objectividade \u00faltimas, a metaf\u00edsica pode ser mais bem entendida como tra\u00e7ando os pressupostos e as implica\u00e7\u00f5es das nossas preocupa\u00e7\u00f5es mais fundamentais num determinado contexto hist\u00f3rico (BLACKBURN 1996, 64-89). Por outras palavras, apesar de ser declarada como absoluta, \u00faltima e universal, o \u201cser\u201d na metaf\u00edsica ocidental \u00e9, na verdade, uma ocorr\u00eancia num contexto hist\u00f3rico particular. A sua absolutez, ultimidade e universalidade s\u00f3 s\u00e3o presumidas pelos fil\u00f3sofos que trabalham nesse contexto hist\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"p5\">A ontologia ocidental tradicional pretende tra\u00e7ar a fonte original do \u201cser\u201d a partir de fins extremamente \u00faltimos, o que provoca o conflito dualista entre v\u00e1rios pares de \u201cdois fins\u201d opostos. Mas, de facto, existe sempre a possibilidade de um terceiro valor, interm\u00e9dio ou integrador, formado na associa\u00e7\u00e3o entre esses \u201cdois fins\u201d contradit\u00f3rios e conflituosos. A lei aristot\u00e9lica do terceiro exclu\u00eddo afirma que ou uma coisa \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9. Por outras palavras, se uma coisa \u00e9 igual a si pr\u00f3pria, n\u00e3o pode ser desigual ou diferente de si pr\u00f3pria. Esta lei implica uma diferen\u00e7a absoluta e uma identidade absoluta em que as coisas se excluem mutuamente. No entanto, tanto a zhongdaologia chinesa como a ezumezulogia africana defendem uma esp\u00e9cie de \u201cterceiro inclu\u00eddo\u201d, o que significa confirmar a exist\u00eancia de um valor entre \u201cdois extremos\u201d opostos e coisas que se encontram no meio.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">A Zhongdaologia tamb\u00e9m oferece uma abordagem diferente \u00e0 epistemologia. Tal como na ontologia, a discuss\u00e3o filos\u00f3fica ocidental da epistemologia centrava-se normalmente na quest\u00e3o de saber como \u00e9 que um sujeito chega a saber que uma determinada proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira? Ou como \u00e9 que algu\u00e9m pode justificar o que acredita ser a verdade absoluta? O confucionismo nunca nega a objectividade do conhecimento, mas apresenta a objectividade como uma esp\u00e9cie de Zhong, que acontece num determinado contexto hist\u00f3rico e num determinado tempo, e n\u00e3o como uma \u201cverdade\u201d \u00faltima, absoluta e permanente que s\u00f3 pode ser conhecida por Deus. Conf\u00facio tem um ditado famoso: \u201cDizer que se sabe quando se sabe, e dizer que n\u00e3o se sabe quando n\u00e3o se sabe, isso \u00e9 conhecimento\u201d (ANALectos 2:17). Obviamente, ele pensa que o conhecimento deve ser objectivo, n\u00e3o se pode fingir que se sabe quando na realidade n\u00e3o se sabe. Mas a objectividade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de absolutismo e de ultimidade. Tudo \u00e9 din\u00e2mico e est\u00e1 em mudan\u00e7a, tal como o conhecimento das pessoas sobre o assunto. Por isso, o confucionismo sugere o conceito de \u201c<i>shi zhong<\/i>\u201d, que significa \u201coportunamente correcto\u201d ou \u201coportunamente apropriado\u201d para rectificar o conceito de \u201c<i>zhong<\/i> constante\u201d. Isto significa que \u201c<i>zhong<\/i>\u201d, como o Dao est\u00e1 sempre num processo din\u00e2mico e de auto-aperfei\u00e7oamento, o que o torna hist\u00f3rico e contextual. Da mesma forma, a filosofia africana da ezumezulogia tamb\u00e9m sugere uma sem\u00e2ntica contextual, ou seja, \u201co que \u00e9 verdadeiro, \u00e9 verdadeiro apenas num contexto, pode ser falso noutro\u201d (CHIMAKONAM 2014, 4). \u201cA verdade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o complexa de m\u00faltiplas experi\u00eancias cristalizadas como uma perspectiva temporal espec\u00edfica e mut\u00e1vel sobre um aspeto particular da realidade\u201d (RAMOSE 2018,186). Este ponto de vista epistemol\u00f3gico dial\u00e9tico \u00e9 \u00fatil para corrigir a impress\u00e3o errada de absolutismo e dogmatismo que a epistemologia no Ocidente cria.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">A zhongdaologia n\u00e3o \u00e9 apenas uma regra ou princ\u00edpio abstracto, \u00e9 uma raz\u00e3o pr\u00e1tica que os chineses aplicam amplamente em v\u00e1rios aspectos do pensamento humano e da vida social. Por exemplo, no dom\u00ednio da \u00e9tica e da filosofia moral, a zhongdaologia confucionista considera que os c\u00f3digos de conduta s\u00f3 podem ser constru\u00eddos e justificados na rela\u00e7\u00e3o humana m\u00fatua. Um dos objectivos da Via do<i> zhong <\/i>\u00e9 descobrir e estabelecer padr\u00f5es morais e princ\u00edpios \u00e9ticos baseados numa perspectiva \u201ceu-outro\u201d. A moralidade n\u00e3o \u00e9 algo que se inicia apenas a partir do cora\u00e7\u00e3o ou da \u201cnatureza\u201d de um indiv\u00edduo isolado; ela tamb\u00e9m emerge das rela\u00e7\u00f5es humanas m\u00fatuas e da pr\u00e1tica social humana. As categorias, normas e princ\u00edpios morais devem ser estabelecidos a partir de uma perspectiva relacionada com o eu-outro. A moralidade n\u00e3o \u00e9 uma propriedade que pertence apenas a um indiv\u00edduo isolado. Ela s\u00f3 pode ser experimentada e demonstrada na rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos. <span class=\"s8\">M\u00eancio<\/span> acredita que existem \u201cquatro rebentos\u201d de bondade humana em cada homem: o sentido de simpatia e comisera\u00e7\u00e3o, o sentido de vergonha e repugn\u00e2ncia, o sentido de mod\u00e9stia e ced\u00eancia, o sentido do que est\u00e1 certo e do que est\u00e1 errado (LAU 2003, 72-73). Todos os quatro sentidos dizem respeito a uma rela\u00e7\u00e3o entre o eu e o outro. \u00c9 inimagin\u00e1vel que qualquer um destes sentidos possa ser preservado num ser humano biol\u00f3gico que nunca teve qualquer liga\u00e7\u00e3o com outras pessoas e com a sociedade humana. Consequentemente, a teoria de <span class=\"s8\">M\u00eancio<\/span> sobre a origem da moralidade n\u00e3o pode ser entendida simplesmente como a afirma\u00e7\u00e3o de que a moralidade \u00e9 uma propriedade natural de todos os seres humanos. A verdadeira moralidade n\u00e3o se baseia apenas no ser sincero mais \u00edntimo do \u201ceu\u201d, mas deve tamb\u00e9m ser testemunhado e provado na pr\u00e1tica moral com outras pessoas na sociedade.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Por conseguinte, a teoria confucionista da \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de unilateralismo moral. Significa que a verdadeira moralidade n\u00e3o se baseia apenas no meu<i> zhong <\/i>sincero (ser mais \u00edntimo), mas tamb\u00e9m deve ser testemunhada e provada em pr\u00e1ticas morais com outras pessoas na sociedade. Um princ\u00edpio moral s\u00f3 \u00e9 moral quando n\u00e3o \u00e9 apenas sinceramente aceit\u00e1vel para o<i> zhong <\/i>do meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m aceit\u00e1vel para os cora\u00e7\u00f5es dos outros. Os padr\u00f5es e normas morais devem ser mutuamente aceit\u00e1veis e mutuamente aplic\u00e1veis entre o eu e o outro. Do mesmo modo, as ideias filos\u00f3ficas africanas, como o <i>ezumezu<\/i> e o <i>ubuntu<\/i>, t\u00eam a mesma vis\u00e3o da moralidade. Estas ideias filos\u00f3ficas est\u00e3o enraizadas na sociedade africana mais comunit\u00e1ria, onde o indiv\u00edduo n\u00e3o existe isoladamente, mas num grupo. Por exemplo, na sociedade Igbo-Africana, as pessoas t\u00eam uma vis\u00e3o integrada e complementar das rela\u00e7\u00f5es individuais e grupais. Por um lado, o indiv\u00edduo encontra a sua identidade e melhora-se no grupo a que pertence; por outro lado, o indiv\u00edduo tamb\u00e9m precisa de se perder no grupo para gerar poder de grupo (CHIMAKONAM 2014, 10). Como resultado, a moralidade n\u00e3o deve basear-se apenas nos interesses dos indiv\u00edduos e conformar-se apenas \u00e0 l\u00f3gica da liberdade individual e da liberdade. Ideias semelhantes est\u00e3o tamb\u00e9m incorporadas no conceito africano de <i>Ubuntu<\/i>. Como explica Ramose:<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">&#8220;Humanidade \u00e9 o significado central de <i>ubuntu<\/i>. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o de levar uma vida \u00e9tica atrav\u00e9s de actos morais que se afirmam como um ser humano atrav\u00e9s do reconhecimento afirmativo de outros seres humanos como iguais ontol\u00f3gicos de si mesmo&#8230; Viver eticamente \u00e9 estar constantemente empenhado em aprender a ser humano, partilhando a bondade e as necessidades da vida com os outros na busca do bem-estar m\u00fatuo. &#8220;(2018, 187)<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s8\">Esta vis\u00e3o da moralidade a partir do Sul ajuda a evitar o unilateralismo moral e a deduzir o efeito negativo do individualismo moderno ocidental isolacionista. Pode tamb\u00e9m ajudar os indiv\u00edduos a cultivar uma personalidade moral mais soci\u00e1vel, a reduzir os conflitos entre indiv\u00edduos ou pessoas e a criar uma comunidade e uma sociedade mais harmoniosas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">A filosofia da zhongdaologia tem como base algumas hist\u00f3rias pol\u00edticas ou mitos pol\u00edticos dos antigos Reis S\u00e1bios da antiguidade chinesa. Assim, o significado pol\u00edtico-social da zhongdalogia \u00e9 \u00f3bvio.<i> Zhong <\/i>\u00e9 definido em termos de justi\u00e7a, corre\u00e7\u00e3o, rectid\u00e3o, equidade, imparcialidade, equidade, equil\u00edbrio, etc. A zhongdaologia indica que o fundamento da autoridade pol\u00edtica \u00e9 a equidade e a justi\u00e7a. A equidade e a justi\u00e7a zhongdaol\u00f3gicas baseiam-se na epistemologia inclusiva e abrangente dos diversos povos e comunidades envolvidos. Tem tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o da imparcialidade quando se lida com lados opostos em disputas e conflitos. A inclus\u00e3o de grupos, ideias e componentes diferentes e at\u00e9 opostos na sociedade e a manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio entre os diferentes interesses e sectores sociais s\u00e3o alguns dos objectivos fundamentais da zhongdaologia. A zhongdaologia defende uma atitude inclusiva e tolerante em rela\u00e7\u00e3o a componentes diferentes e at\u00e9 opostos na sociedade e tenta criar um equil\u00edbrio entre os interesses de diferentes grupos sociais. Como j\u00e1 referi, o car\u00e1cter<i> zhong <\/i>significa correcto e apropriado, mas tamb\u00e9m significa modera\u00e7\u00e3o e o ponto entre extremos opostos. A implica\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 que a chamada \u201ccorrec\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cadequa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o resultado de comunica\u00e7\u00e3o e compromisso m\u00fatuos, uma fus\u00e3o de pontos de vista e co-constru\u00e7\u00e3o entre diferentes factores ou membros num terreno ou comunidade comum. \u00c9 normalmente o valor moderado ou m\u00e9dio de todas as diferentes ideias ou opini\u00f5es dispon\u00edveis das pessoas num determinado momento e dentro de um determinado territ\u00f3rio. Se numa determinada sociedade, todos os membros da sociedade tivessem sido inclu\u00eddos no desenvolvimento e pudessem beneficiar do desenvolvimento, ent\u00e3o a equidade e a justi\u00e7a dessa sociedade teriam sido realizadas. Assim, a forma de \u201c<i>Zhong<\/i>\u201d \u00e9 tamb\u00e9m uma forma pol\u00edtica de coordena\u00e7\u00e3o entre opositores, resolver as contradi\u00e7\u00f5es e procurar o equil\u00edbrio e a harmonia numa sociedade.<\/p>\n<p class=\"p5\">Por outras palavras, o centro leg\u00edtimo do poder pol\u00edtico deve basear-se na Via do<i> Zhong <\/i>e representar o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas numa sociedade. Do mesmo modo, a filosofia africana tamb\u00e9m fornece alguma sabedoria e raz\u00e3o na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas pol\u00edticos, sociais e econ\u00f3micos que o mundo contempor\u00e2neo enfrenta. Como Chimakonam salientou, a justi\u00e7a social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica n\u00e3o se realizaria sem justi\u00e7a epist\u00e9mica, o que significa uma acomoda\u00e7\u00e3o inclusiva de diferentes vis\u00f5es epist\u00e9micas culturais e o reconhecimento dos seus c\u00e2nones epist\u00e9micos com base nos princ\u00edpios do pensamento complementar <i>Ezumezu<\/i> (CHIMAKONAM 2019, 85). Tanto as ideias da zhongdaologia como da ezumezuologia sugerem que a ideologia, a l\u00f3gica e os valores ocidentais, h\u00e1 muito dominantes, n\u00e3o s\u00e3o necessariamente universais no sentido de representarem as ideias de todas as culturas, podendo ser apenas uma particularidade cultural predominante desenvolvida num determinado contexto e per\u00edodo hist\u00f3rico. Mais concretamente, nenhuma regra ou sistema pol\u00edtico-social \u00e9 absoluto e suficiente para todas as sociedades e na\u00e7\u00f5es e para todo o sempre. O verdadeiro universalismo deve ser constru\u00eddo com base numa compreens\u00e3o plena, completa e inclusiva de todas as particularidades culturais. Este \u00e9, de certa forma, o objectivo da intera\u00e7\u00e3o intercultural e o<i> zhong <\/i>ou a abordagem zhondaol\u00f3gica do equil\u00edbrio cr\u00edtico \u00e9 uma verdadeira forma de negociar um compromisso intercultural como o que \u00e9 proposto neste trabalho entre as tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas chinesas e africanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p6\"><b>Conclus\u00e3o<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">O mundo actual est\u00e1 a passar por grandes mudan\u00e7as, sem precedentes nos \u00faltimos s\u00e9culos, em que os seres humanos viveram sobretudo a ascens\u00e3o e a expans\u00e3o do mundo ocidental, acompanhadas pelo dom\u00ednio dos sistemas sociais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos baseados na ideologia ocidental. A ideologia ocidental tem a sua base filos\u00f3fica, que tem as suas ra\u00edzes na Gr\u00e9cia antiga. Baseada na especula\u00e7\u00e3o racional abstracta e na metaf\u00edsica, esta tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica caracteriza-se por uma oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria entre forma e material, esp\u00edrito e mat\u00e9ria, nominalismo e realismo, racionalismo e empirismo, sujeito e objecto, eu e o outro, etc. A especialidade dos modos de pensar filos\u00f3ficos ocidentais \u00e9 a clareza da l\u00f3gica e da especula\u00e7\u00e3o, o conceito fixo de categoria e a obstina\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio e da verdade. Em grande medida, estas especialidades conduziram ao progresso da ci\u00eancia e da tecnologia modernas e promoveram o estabelecimento de sistemas sociais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos modernos baseados nos direitos individuais e nas rela\u00e7\u00f5es contratuais.<\/p>\n<p class=\"p5\">No entanto, tudo tem o seu outro lado. De acordo com a antiga filosofia chinesa Yin-Yang, qualquer tend\u00eancia positiva desenvolvida ao extremo transformar-se-\u00e1 no seu oposto negativo. Ou, de acordo com o pensamento zhongdaol\u00f3gico, fazer demais, que ultrapassa o grau devido, \u00e9 t\u00e3o mau como n\u00e3o fazer o suficiente. Algumas das novas tend\u00eancias do mundo actual, como a antiglobaliza\u00e7\u00e3o, o populismo e o proteccionismo comercial, podem, de certa forma, ser consideradas como o reflexo inevit\u00e1vel da emerg\u00eancia de v\u00e1rias contradi\u00e7\u00f5es e conflitos internos e de um desenvolvimento insustent\u00e1vel ap\u00f3s o desenvolvimento extremo da democracia liberal liderada pelo Ocidente e da economia de mercado capitalista. Na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental, a desconex\u00e3o entre teoria e realidade, o fanatismo pela racionalidade e universalidade absolutas, a \u00eanfase excessiva na exist\u00eancia individual e nos direitos individuais e outros defeitos s\u00e3o cada vez mais expostos no desenvolvimento realista da hist\u00f3ria. Confiar apenas na sabedoria filos\u00f3fica derivada de uma \u00fanica tradi\u00e7\u00e3o parece j\u00e1 n\u00e3o ser suficiente para guiar a humanidade na dire\u00e7\u00e3o do progresso. Com o desenvolvimento da economia social e da cultura no terceiro mundo, as epistemologias do Sul, que originalmente pertencem ao \u201coutro\u201d para o discurso filos\u00f3fico e a ideologia dominados pelo Ocidente, apresentar\u00e3o mais conscientemente a sua subjetividade e o seu discurso de poder.<\/p>\n<p class=\"p5\">A partir da an\u00e1lise acima, podemos ver que as ideias filos\u00f3ficas de duas epistemologias do Sul, como a \u201czhongdaologia\u201d e a \u201cezumezulogia\u201d, que durante muito tempo foram negligenciadas, s\u00e3o incorporadas numa forma de pensar mais dial\u00e9tica e inclusiva. Esta enfatiza a liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e a harmonia entre o homem e a natureza, o eu e o pensamento filos\u00f3fico ocidental pode ser um complemento necess\u00e1rio, uma correc\u00e7\u00e3o e at\u00e9 um desafio ao modo de pensar e \u00e0 ideologia filos\u00f3fica ocidental, fornecendo assim importantes recursos ideol\u00f3gicos para o enriquecimento do pensamento filos\u00f3fico comum da humanidade e para a constru\u00e7\u00e3o de um verdadeiro universalismo. Tudo isto pode constituir um complemento necess\u00e1rio, uma correc\u00e7\u00e3o e mesmo um desafio ao modo de pensar e \u00e0 ideologia filos\u00f3fica ocidental, fornecendo assim importantes recursos ideol\u00f3gicos para enriquecer o pensamento filos\u00f3fico comum da humanidade e a constru\u00e7\u00e3o de um verdadeiro universalismo, se tal for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Notas <\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p8\">1. Ver Chimakonam (2019); Asouzu (2004, 2007); Oluwole (2014).<\/li>\n<li class=\"p8\">2. O primeiro desses esfor\u00e7os foi feito por Hu Shih (1891-1962), um dos mais famosos acad\u00e9micos da China moderna, cujo <i>Esbo\u00e7o da Hist\u00f3ria da Filosofia Chinesa<\/i> (a primeira edi\u00e7\u00e3o publicada em 1919) \u00e9 o primeiro trabalho acad\u00e9mico que tentou reorganizar e reinterpretar os recursos intelectuais tradicionais chineses de acordo com as ideias e categorias filos\u00f3ficas ocidentais.<\/li>\n<li class=\"p8\">3. Para um levantamento geral da discuss\u00e3o sobre esta quest\u00e3o, ver Jia Yuming (2011).<\/li>\n<li class=\"p8\">4. Na verdade, alguns acad\u00e9micos salientaram mais francamente que n\u00e3o existia qualquer \u201contologia\u201d na China antiga. No <i>Esbo\u00e7o da Filosofia Chinesa<\/i>, de Zhang Dainian, n\u00e3o h\u00e1 uma sec\u00e7\u00e3o sobre \u201contologia\u201d.<\/li>\n<li class=\"p8\"><span class=\"s7\">5. Algumas vers\u00f5es do <i>Shuo Wen Jie Zi<\/i> explicam <i>zhong<\/i> como <i>he<\/i><\/span><span class=\"s10\">\u548c<\/span><span class=\"s7\"> (harmonia), alguns investigadores acreditam que isto pode ser uma altera\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o original feita por algum acad\u00e9mico presun\u00e7oso em gera\u00e7\u00f5es posteriores. Ver Duan (1981, 22).<\/span><\/li>\n<li class=\"p8\"><span class=\"s5\">6. Por exemplo, nas anota\u00e7\u00f5es da palavra <i>huang ji<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u7687\u6781<\/span><span class=\"s5\"> no cap\u00edtulo Hong Fan <\/span><span class=\"s11\">\u6d2a\u8303<\/span><span class=\"s5\"> do <i>Shang Shu<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u5c1a\u4e66<\/span><span class=\"s5\">, o suposto comentador da Dinastia Han, Kong Anguo, explica que: \u201c&#8217;<i>huang<\/i>&#8216;, significa &#8216;grande&#8217;; &#8216;<i>ji<\/i>&#8216;, significa &#8216;<i>zhong<\/i>&#8216;.\u201d (\u201c<\/span><span class=\"s11\">\u6781\uff0c\u4e2d\u4e5f\u3002<\/span><span class=\"s5\">\u201d). O comentador da Dinastia Tang, Kong Yingda, diz: \u201c\u2018<i>Ji<\/i>\u2019 explicado como \u2018<i>zhong<\/i>\u2019, esta \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o geral.\u201d (\u201c<\/span><span class=\"s11\">\u6781\u4e4b\u4e3a\u4e2d\uff0c\u5e38\u8bad \u4e5f\u3002<\/span><span class=\"s5\">\u201d). Ver Kong Anguo e Kong Yingda (2000, 355); James Legge (1992, vol 3, parte 2, 328).<\/span><\/li>\n<li class=\"p8\"><span class=\"s5\">7 A transcri\u00e7\u00e3o do texto de Baoxun foi publicada pela primeira vez na revista Cultural Relics <\/span><span class=\"s11\">\u6587\u7269<\/span><span class=\"s5\"> (Centro de Investiga\u00e7\u00e3o e Conserva\u00e7\u00e3o de Textos Escavados, Universidade de Tsinghua, 2009). Posteriormente, foram efectuadas muitas investiga\u00e7\u00f5es. Para uma tradu\u00e7\u00e3o completa em ingl\u00eas deste texto, ver Chan (2012).<\/span><\/li>\n<li class=\"p8\">8. O livro <i>Zhong Yong<\/i>, um dos \u201cQuatro Livros\u201d (os outros tr\u00eas s\u00e3o <i>Analectos, M\u00eancio e Estudo Maior<\/i>) entre os mais importantes c\u00e2nones confucionistas, era originalmente um cap\u00edtulo do <i>Li Ji<\/i>, uma antologia de discuss\u00f5es sobre rituais. Tradicionalmente, acredita-se que o autor do <i>Zhong Yong<\/i> seja Zi Si, neto de Conf\u00facio.<\/li>\n<li class=\"p8\">9. <i>Guo Yu<\/i> <span class=\"s12\">\u56fd\u8bed<\/span> \u00e9 uma colec\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias dos reinos desde a dinastia Zhou Ocidental at\u00e9 ao per\u00edodo Primavera-Outono. Inclui muitos di\u00e1logos pol\u00edticos e discursos de governantes e pol\u00edticos proeminentes da \u00e9poca.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">1. ASOUZU, Innocent. I.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Method and Principles of Complementary Reflection in and beyond African Philosophy<\/i> , 2004. University of Calabar Press: Calabar. Paperback.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">2.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Ibuanyidanda: New Complementary Ontology, Beyond World Immanentism, Ethnocentric Reduction and Imposition<\/i> , 2007. Transaction: London. Paperback.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">3. BELL, Daniel A., &amp; METZ Thaddeus. \u201c<i>Confucianism and Ubuntu: Reflections on a Dialogue Between Chinese and African Traditions<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Journal of Chinese Philosophy , pp78-95, 2011. Vol 38.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">4. BLACKBURN, Simon.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Metaphysics, in the <i>Blackwell Companion to Philosophy<\/i>, Nicholas Bunnin and Eric P. Tsui-James Eds. , 1996. Blackwell: Oxford.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">5. BODUNRIN, Peter. O.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Question of African Philosophy<\/i> , pp161-179, 1981. Vol 56. No 216.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">6. BUNNIN, Nicholas and YU Jiyuan.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Dictionary of Western Philosophy: English-Chinese<\/i> , 2001. People\u2019s Publishing House: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">7. CHAN, Shirley.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Zhong and Ideal Rulership in the Baoxun Instructions for Preservation Text of the Tsinghua Collection of Bamboo Slip Manuscripts, Dao<\/i> , N.P, 2012. Vol 11. No 2. Paperback.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">8. CHEN, Lai. <i>Ren Xue Ben Ti Lun<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u4ec1\u5b66\u672c\u4f53\u8bba<\/span><span class=\"s5\"> , 2014. SDX Joint Publishing Company: Beijing. Paperback.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">9. CHENG, Chung-Ying. \u201c<i>Confucian Onto-hermeneutics: Morality and Ontology<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Journal of Chinese Philosophy , pp33-68, 2000. Vol 27. No 1. Paperback.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">10. CHENG, Chung-Ying. \u201c<i>Three Views on Onto-Hermeneutics<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Journal of Anhui Normal University, Hum. &amp; Soc. Sci , pp397-403, 2004. Vol 32. No 4.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">11. CHIMAKONAM, O. Jonathan. \u201c<i>Ezumezu: A Variant of Three-Valued Logic, Insight and Controversies<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Paper presented at the annual conference of the Philosophical Society of Southern Africa (PSSA), Department of Philosophy , N.P, January 2014. The Free State University Bloemfontein: South Africa.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">12.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Ezumezu: A System of Logic for African Philosophy and Studies<\/i> , 2019. Springer: Switzerland.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">13. DAI, Jiaxiang.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Dictionary of the Bronze Ware Inscriptions<\/i>, Dia JIAXIANG &amp; Jin Wen ZI Eds. , pp2919-38, 1995. Xuelin Press: Shanghai<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\"> 14. DUAN, Yucai.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Shuo Wen Jie Zi Zhu<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u8bf4\u6587\u89e3\u5b57\u6ce8<\/span><span class=\"s5\"> , 1981. Chengdu Ancient Book Press: Chengdu.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">15. ETIEYIBO, Edwin.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Method, Substance, and the Future of African Philosophy<\/i>, Edwin ETIEYIBO Ed. , 2018. Palgrave: Macmillan.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">16. HE, Yan., &amp; XING Bing.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Lun Yu Zhu Shu<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u8bba\u8bed\u6ce8\u758f<\/span><span class=\"s5\"> , 2000. Peking University Press: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">17. JIA, Yuming. \u201c<i>The Issue of Ontology of Chinese Philosophy in the 20th Century<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Journal of Shenyang Normal University (Social Science Edition , pp6-8, 2011. Vol 35. No 1.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\">18. KNOBLOCK, John.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Xunzi: A Translation and Study of the Complete Works<\/i> , 1990. Stanford University Press: Stanford.<\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">19. KONG, Anguo., &amp; KONG Yingda.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Shang Shu Zheng <\/i>Yi <\/span><span class=\"s11\">\u5c1a\u4e66\u6b63\u4e49<\/span><span class=\"s5\"> , 2000. Peking University Press: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">20. LAU, D.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Mencius<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u5b5f\u5b50<\/span><span class=\"s5\"> , 2003. The Chinese University Press: Hong Kong:<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">21. <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Analects of Confucius<\/i> , 1983. The Chinese University Press: Hong Kong.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">22. LEGGE, James.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Chinese Classics: With A Translation, Critical and Exegetical Notes, Prolegomena, and Copious Indexes<\/i> , 1992. SMC Publishing Inc: Taipei.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">23. LI, Zehou.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Anthropo-Historical Ontology<\/i> , 2008. Tianjin People\u2019s Press: Tianjin.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">24..<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>A Theory of Historical Ontology<\/i> , 2001. SDX Joint Publishing Company: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">25. MOU, Zongsan.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Phenomenon and Noumena<\/i> , 1975. Student Book Company: Taipei<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">26. OLUWOLE, Sophie. B.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Socrates and Orunmila: Two Patron Saints of Classical Philosophy<\/i> , 2014. Ark Publishers: Lagos.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">27. RAMOSE, Mogobe B. \u201c<i>Ubuntu and Ren: To Be a Human Being is to Love Ethically<\/i>,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Paper presented at XXIV World Congress of Philosophy , pp183-192, August 2018. Peking University: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\"> 28. TANG, Lan.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Yin Xu Wen Zi Ji<\/i> (<i>The Written Records in Yin Dynasty Ruins<\/i>) , 1981. Zhonghua Book Company: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">29. TU, Wei-ming.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>The Insight of Zhong Yong<\/i> , 2008. People\u2019s Press: Beijing<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">30.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Centrality and Commonality: An Essay on Confucian Religiousness<\/i> , 1989. State University of New York Press: Albany.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">31. XU, Yuangao.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Guo Yu Ji Jie<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u56fd\u8bed\u96c6\u89e3<\/span><span class=\"s5\"> , 2002. Zhonghua Book Company: Beijing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">32. YANG, Guorong. \u201c<i>Ju Ti de Xing Shang Xue<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u5177\u4f53\u7684\u5f62\u4e0a\u5b66<\/span><span class=\"s5\">.,\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Philosophical Analysis , pp166-171, 2011. Vol 2. No 4.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">33. YU, Xingwu., &amp; YAO Xiaosui.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>J<i>ia Gu Wen Zi Gu Lin (Interpretation of the Inscriptions on the Oracle Bones and Tortoise Shells<\/i>) , 1999. Zhonghua Book Company: Bejing.<\/span><\/li>\n<li class=\"p10\"><span class=\"s5\">34. ZHAO Qi., &amp; SUN Si.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Men Zi Zhu Shu<\/i> <\/span><span class=\"s11\">\u5b5f\u5b50\u6ce8\u758f<\/span><span class=\"s5\"> , 2000. Peking University Press: Beijing.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Introdu\u00e7\u00e3o Tal como a tend\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 irrevers\u00edvel, a globaliza\u00e7\u00e3o da cultura e da ideologia \u00e9 tamb\u00e9m uma tend\u00eancia inevit\u00e1vel. No entanto, no processo de globaliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre tens\u00f5es e conflitos entre regionalismo e universalismo. Se a chamada globaliza\u00e7\u00e3o na era colonial significa sobretudo a difus\u00e3o e a expans\u00e3o da ideologia origin\u00e1ria&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":1143,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/40-1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1141"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1144,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1141\/revisions\/1144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}