{"id":1148,"date":"2025-10-21T01:29:10","date_gmt":"2025-10-20T17:29:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1148"},"modified":"2025-10-21T01:29:10","modified_gmt":"2025-10-20T17:29:10","slug":"a-sabedoria-em-socrates-e-confucio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/a-sabedoria-em-socrates-e-confucio\/","title":{"rendered":"A sabedoria em S\u00f3crates e Conf\u00facio"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">S<span class=\"s1\">\u00f3crates<\/span> n\u00e3o deixou nada escrito. O Mestre Kong (<span class=\"s2\">\u5b54\u5b50<\/span>), Conf\u00facio, pouco ou nada. O que sabemos de S\u00f3crates chegou-nos sobretudo via Plat\u00e3o, seu disc\u00edpulo directo. Tamb\u00e9m de Conf\u00facio muito do que conhecemos foi registado pelos seus disc\u00edpulos nos <i>Analectos <\/i>(<span class=\"s2\">\u300a\u8ad6\u8a9e\u300b<\/span><i>L\u00fanyu<\/i>)<i>.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p3\">Conf\u00facio viveu um pouco antes de S\u00f3crates, entre 551 e 479 a.C, nos s\u00e9culos VI e V, ao passo que S\u00f3crates ter\u00e1 vivido entre c. 469 e 399, nos s\u00e9culos V e IV.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ambos, por\u00e9m, amaram a sabedoria e foram ostracizados no seu tempo. Ambos elegeram o dom\u00ednio antropol\u00f3gico e a filosofia \u00e9tica como campos privilegiados de reflex\u00e3o. Souberam transformaram os percursos de vida em modelos existenciais para os disc\u00edpulos de todos os tempos e foram grandes pedagogos. Movia-os o amor \u00e0 cidade-Estado, no caso de S\u00f3crates, ao seu Estado, no de Conf\u00facio.<\/p>\n<p class=\"p3\">S\u00f3crates foi condenado \u00e0 morte por exercer o livre pensamento e questionar os usos e costumes da cidade e Conf\u00facio, ent\u00e3o Primeiro-Ministro, seria afastado do governo do Estado de Lu, por almejar formar uma categoria de governantes capazes, ou seja, eticamente quase perfeitos, em nome dos prazeres da vida, representados por um grupo de bailarinas enviadas pelo governante de Qi ao de Lu.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em a <i>Apologia de S\u00f3crates<\/i> acusaram o fil\u00f3sofo de corromper a juventude e n\u00e3o idolatrar os deuses da cidade; a Conf\u00facio disseram que faltava perspic\u00e1cia, pragmatismo e sobrava seriedade. Este \u00faltimo serviu v\u00e1rios senhores feudais em cargos menores at\u00e9 que em 501 a.C chegou \u00e0 categoria de Primeiro-Ministro de Lu, uma oportunidade de oiro para colocar em pr\u00e1tica o seu modelo de cavalheiros virtuosos (<span class=\"s2\">\u541b\u5b50<\/span><i>junzi<\/i>) para o governo de Estado. Perdida a oportunidade, dedicou-se ao ensino desde 497 at\u00e9 \u00e0 sua morte. Chegou a reunir 72 disc\u00edpulos, aos quais ensinava a refletir sobre as grandes virtudes morais, em especial a Benevol\u00eancia (<span class=\"s2\">\u4ec1<\/span> <i>R\u00e9n<\/i>), a que ditava o compasso da harmonia social: tratar bem os outros para que todos pudessem viver organizadamente de olhos postos no bem comum.<\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o era um moscardo, \u00e0 maneira de S\u00f3crates, por isso foi poupado \u00e0 morte. Mas n\u00e3o deixou de incomodar o que p\u00f4de num tempo pouco dado ao cultivo da conten\u00e7\u00e3o e da sobriedade.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">A sua filosofia, de pendor existencial, pode ser definida como um longo caminho cujo termo \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o plena da humanidade. O Caminho e a \u00e9tica s\u00e3o para ele indissoci\u00e1veis, por isso ao falar de si nos <i>Analectos <\/i>afirma<i> Na<\/i> <i>Benevol\u00eancia<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u8ad6\u8a9e\u3002\u91cc\u4ec1<\/span> <span class=\"s4\">\u7b2c\u56db<\/span><span class=\"s3\">):<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u5b50\u66f0<span class=\"s5\">: \u201c<\/span>\u671d\u805e\u9053\uff0c\u5915\u6b7b\u53ef\u77e3<span class=\"s5\">\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s6\">\u201c<i>Quem de manh\u00e3 conhecer o caminho, pode morrer nessa mesma noite.<\/i>\u201d<br \/>\n<\/span>(<i>Analectos,<\/i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>IV.8)<\/p>\n<p class=\"p2\">Para ele, tal como para S\u00f3crates, a vida s\u00f3 valia a pena ser vivida por uma boa causa \u00e9tica. Existir nestes fil\u00f3sofos implicava viver bem, de olhos postos na virtude. Eles tinham uma miss\u00e3o na vida, ajudarem-se a si pr\u00f3prios e aos outros a encaminharem-se para a virtude. A virtude em si para S\u00f3crates, a Benevol\u00eancia, para Conf\u00facio.<\/p>\n<p class=\"p3\">A Benevol\u00eancia do Mestre Kong (<span class=\"s2\">\u5b54\u5b50<\/span>), que alguns sin\u00f3logos traduzem por Humanidade (sendo uma outra tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para <span class=\"s2\">\u4ec1<\/span>), implica a realiza\u00e7\u00e3o existencial da mesma, num percurso solid\u00e1rio. Quem se coloca \u00e0 margem n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado uma pessoa \u00e9tica de pleno direito. As regras sociopol\u00edticas s\u00e3o para se cumprirem e apenas enquadrados por elas mereceremos o ep\u00edteto de seres corretos e modelares.<\/p>\n<p class=\"p3\">Note-se o que Conf\u00facio revela nos <i>Analectos<\/i>, no cap\u00edtulo <i>Fazer Pol\u00edtica<\/i> (II.4)<i> <\/i>o seu percurso existencial, objetivamente um Bom caminho, um modelo a ser seguido:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: left;\"><span class=\"s5\">4.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Conf\u00facio disse:<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s7\">\u5b50\u66f0<\/span><span class=\"s8\">: <\/span><span class=\"s7\">\u300c\u543e\u5341\u6709\u4e94\u800c\u5fd7\u65bc\u5b78\uff0c\u4e09\u5341\u800c\u7acb\uff0c\u56db\u5341\u800c\u4e0d\u60d1\uff0c\u4e94\u5341\u800c\u77e5\u5929\u547d\uff0c\u516d\u5341\u800c\u8033\u9806\uff0c\u4e03\u5341\u800c\u5f9e\u5fc3\u6240\u6b32\uff0c\u4e0d\u482f\u77e9\u3002<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>Aos quinze dedicava-me com persist\u00eancia \u00e0 aprendizagem; aos trinta estava firmemente estabelecido; aos quarenta dominava os assuntos, sem me deixar confundir; aos cinquenta sabia qual era o destino que o C\u00e9u me tinha concedido; aos sessenta distinguia os discursos verdadeiros e falsos; aos setenta sigo os desejos do meu cora\u00e7\u00e3o sem violar qualquer regra.<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\">A verdadeira benevol\u00eancia \u00e9 alcan\u00e7ada, de acordo com exemplo existencial, quando agimos Bem, ou seja, sem quebrar qualquer regra social da comunidade em que nos inserimos.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Do mesmo modo, S\u00f3crates se recusou a fugir da pris\u00e3o e bebeu a cicuta. Acatou, portanto, a senten\u00e7a que o tribunal lhe tinha reservado. Defendeu-se com p\u00f4de, argumentou at\u00e9 ao limite, mas a comunidade \u00e0 qual se dedicava sentenciou e ele aceitou o ju\u00edzo final. O que mostra que a virtude para ambos os fil\u00f3sofos n\u00e3o era um ideal a desenvolver na solid\u00e3o, mas sim uma pr\u00e1tica dialogada, fomentada e reconhecida pelos outros, integrada na comunidade a que pertenciam.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Note-se o que S\u00f3crates respondeu ao seu amigo Cr\u00edton, que no di\u00e1logo hom\u00f3nimo, tamb\u00e9m epigrafado <i>Sobre o Dever,<\/i> o procura convencer a escapar da pris\u00e3o e duma condena\u00e7\u00e3o injusta, rumo a Tess\u00e1lia:<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>\u201cO mais importante n\u00e3o \u00e9 viver, <\/i><i>mas viver bem\u201d<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\">(Plat\u00e3o,1999, 73)<\/p>\n<p class=\"p2\">Adiante justificar\u00e1 por que raz\u00f5es prefere aceitar o ju\u00edzo do tribunal:<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>N\u00e3o se deve responder \u00e0 injusti\u00e7a com injusti\u00e7a, nem fazer mal a nenhum homem seja o que for que ele nos tenha feito.<\/i><br \/>\n(Plat\u00e3o,1999,76).<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s9\">Ap\u00f3s o que desenvolve o racioc\u00ednio, afirmando que n\u00e3o est\u00e3o apenas em jogo as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas, que s\u00e3o important\u00edssimas, mas um bem maior: as leis da cidade de Atenas. Por isso, pergunta a Cr\u00edton:<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s3\"><i>Acreditas que um Estado possa continuar a subsistir e n\u00e3o ser abatido quando os julgamentos dados deixarem de ter qualquer for\u00e7a e os particulares os anulam ou aniquilam?<\/i><\/span><br \/>\n(Plat\u00e3o, 1999,77)<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s6\">Cr\u00edton espanta-se com a fidelidade de S\u00f3crates a Atenas e suas leis cumpridas e executadas por gente corrupta, falaciosa e m\u00e1. No entanto, a fidelidade revelada por S\u00f3crates \u00e9 a um bem maior, \u00e0s leis e \u00e0 sua terra, por esta \u00faltima combateu sem vacilar. Se aceitasse escapar, passaria \u00e0 categoria de corruptor de leis, confirmando que a condena\u00e7\u00e3o tinha sido correta. Diz-nos S\u00f3crates colocando-se na posi\u00e7\u00e3o dos acusadores:<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>Afinal que sabedoria \u00e9 a tua que n\u00e3o sabes que a p\u00e1tria \u00e9 mais preciosa, mais respeit\u00e1vel e mais sagrada que uma m\u00e3e, que um pai e que todos os antepassados, e que ela ocupa um alt\u00edssimo lugar entre os deuses <\/i><i>e os homens sensatos. <\/i><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\">(Plat\u00e3o,1999,78)<\/p>\n<p class=\"p2\">Tamb\u00e9m Conf\u00facio partilha id\u00eantico amor \u00e0 p\u00e1tria e quer educar a humanidade, \u00e0 \u00e9poca reduzida aos homens, no caminho do Bem, ensinando-os a seguir a via correta, que n\u00e3o \u00e9 das leis, mas a dos ritos, definidos <i>como mandamentos n\u00e3o escritos.<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\">A aten\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra escrita que orienta as comunidades desde cedo se revelou o maior dos mandamentos no Ocidente. Tamb\u00e9m no Oriente chin\u00eas houve fil\u00f3sofos legalistas, como Han Feizi (<span class=\"s2\">\u97d3\u975e\u5b50<\/span>), mas na tradi\u00e7\u00e3o ocuparam a posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00f5es que confirmam a regra.<\/p>\n<p class=\"p3\">As palavras de S\u00f3crates no final de <i>Cr\u00edton<\/i>, personificando as leis, s\u00e3o reveladoras do papel fundamental que ocupavam na estrutura\u00e7\u00e3o mental do fil\u00f3sofo, uma vez que a <i>Apologia de S\u00f3crates<\/i> e<i> Cr\u00edton<\/i> s\u00e3o<span class=\"s2\"> considerad<\/span>as obras biogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>Se partires hoje para o outro mundo, partir\u00e1s condenado injustamente, n\u00e3o por n\u00f3s, as leis, mas pelos homens. Se, ao inv\u00e9s, te evadires depois de haveres t\u00e3o vilmente respondido \u00e0 injusti\u00e7a com a injusti\u00e7a, ao mal com o mal, depois de teres violado os acordos e os contratos que te ligavam a n\u00f3s, ent\u00e3o ficaremos iradas contigo durante o resto <\/i><i>da tua vida .<br \/>\n<\/i>(Plat\u00e3o,1999,82)<\/p>\n<p class=\"p2\">Num aforismo, conhecido por todos os chineses, Conf\u00facio revela, ainda nos <i>Analectos, <\/i>a import\u00e2ncia dos outros em:<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u5df2\u6240\u4e0d\u6b32\uff0c<br \/>\n\u52ff\u65bd\u4e8e\u4eba<br \/>\n\u300a\u8bba\u8bed<span class=\"s5\"><i>. <\/i><\/span>\u989c\u6e0a<span class=\"s5\"><i>&#8211; <\/i><\/span>\u5341\u4e8c<span class=\"s5\"><i>.<\/i><\/span>\u4e8c\u300b<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\">\u201c<i>N\u00e3o fa\u00e7as aos outros, <\/i><i>o que n\u00e3o desejas para ti\u201d<\/i><br \/>\n(XII.2)<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Devemos respeitar a humanidade em n\u00f3s e nos outros. O cuidado com o outro deve ser contextualizado. Um dos disc\u00edpulos pergunta ao mestre o que \u00e9 a benevol\u00eancia, ao que este responde que se deve trabalhar conscienciosamente como se recebesse um convidado e n\u00e3o se devem impor trabalhos excessivos aos outros, porque n\u00e3o devemos fazer-lhes o que n\u00e3o queremos para n\u00f3s, a fim de preservar a harmonia onde quer que se v\u00e1. Se avan\u00e7armos um pouco mais, e enquadrarmos o dito na \u00e9poca, Conf\u00facio est\u00e1 a chamar a aten\u00e7\u00e3o da nobreza feudal para o modo como lida com os seus vassalos e servos. Os governantes devem respeitar quem os serve, porque os mandados apenas na categoria social diferem dos mandantes, n\u00e3o em termos ontol\u00f3gicos. Por isso, todos devemos ser tratados com respeito e amor benevolente ( <\/span><span class=\"s4\">\u4ec1\u7231<\/span><span class=\"s3\"> <i>R\u00e9n\u2019\u00e0i<\/i>). <i> <\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Se no Ocidente desde cedo se valorizam as leis, portanto o conhecimento geral, e o saber anal\u00edtico, n\u00e3o se pode esquecer o importante papel da raz\u00e3o intuitiva e mesmo das liga\u00e7\u00f5es sobrenaturais do saber, t\u00e3o bem-apresentadas no <i>daimon <\/i>socr\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"p3\">A S\u00f3crates guiava uma divindade interior, caso se prefira um esp\u00edrito divino. Mas n\u00e3o era apenas do interior que a voz lhe falava. Ele n\u00e3o hesitava em seguir os mandamentos do Or\u00e1culo de Delfos, situado no santu\u00e1rio de Apolo no sop\u00e9 do Monte Parnaso, na regi\u00e3o de F\u00f3cida.<\/p>\n<p class=\"p3\">O peregrino Cer\u00e9fonte, amigo de S\u00f3crates, ter\u00e1 dirigido, segundo nos relata S\u00f3crates na <i>Apologia<\/i>, \u00e0 p\u00edtia ou pitonisa, a sacerdotisa do santu\u00e1rio, a quest\u00e3o de se havia algu\u00e9m mais s\u00e1bio do que S\u00f3crates. \u201cRespondeu-lhe a P\u00edtia que n\u00e3o existia mais ningu\u00e9m\u201d<b><i> <\/i><\/b><i>(<\/i>Plat\u00e3o,1999, 37<i>)<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\">Esta resposta condicionou a vida filos\u00f3fica de S\u00f3crates, ainda parafraseando o fil\u00f3sofo, que desde ent\u00e3o procurou inteirar-se da justeza do or\u00e1culo, interrogando muitos dos homens s\u00e1bios da cidade, orientado pelo princ\u00edpio conhecido pela tradi\u00e7\u00e3o como Douta Ignor\u00e2ncia, e resumido no aforismo: \u201cS\u00f3 sei que nada sei\u201d<span class=\"s10\"><b>.<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Aqui torna-se necess\u00e1rio um par\u00eantesis. S\u00f3crates acreditava que o verdadeiro conhecimento era alcan\u00e7\u00e1vel, como bem especifica Arist\u00f3teles na Metaf\u00edsica, Livro XIII (M), 1078b:<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\"><i>Duas s\u00e3o as descobertas que com raz\u00e3o podem ser atribu\u00eddas a S\u00f3crates: os racioc\u00ednios indutivos e a defini\u00e7\u00e3o universal: estas descobertas constituem a base da ci\u00eancia<\/i>\u201d.<br \/>\n(Apud, Maschio, 2015: 29)<\/p>\n<p class=\"p2\">No entanto, as bases cient\u00edficas lan\u00e7adas por S\u00f3crates, que tanto contribu\u00edram para o saber ocidental, n\u00e3o podem ser dissociadas do seu percurso existencial. Foi a palmilhar a cidade, em di\u00e1logo com os seus concidad\u00e3os, que ele as lan\u00e7ou.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Conf\u00facio e os seus disc\u00edpulos tamb\u00e9m valorizam o saber, enquanto conhecimento e ambos os fil\u00f3sofos distinguem acima de tudo o saber intuitivo. Acima do saber discursivo, aquele que conduz o di\u00e1logo socr\u00e1tico ou os cl\u00e1ssicos chineses, a intui\u00e7\u00e3o verdadeira, a que \u00e9 concedida e desenvolvida em contacto com as pot\u00eancias celestiais, em S\u00f3crates, pelo C\u00e9u impessoal, em Conf\u00facio. Este \u00faltimo garantia que nada podia dizer sobre o saber divino e os seres celestiais:<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u5b50\u4e0d\u8a9e\u602a<span class=\"s5\">,<\/span>\u529b<span class=\"s5\">,<\/span>\u4e82<span class=\"s5\">,<\/span>\u795e<br \/>\n<span class=\"s5\">(<\/span>\u8bba\u8bed<i> <\/i>\u00b7\u8ff0\u800c\u7bc7\u7b2c\u4e03\uff0c\u4e8c\u5341\u4e00<span class=\"s5\">)<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\">\u201c<i>Conf\u00facio nunca falava de monstros, for\u00e7as, desordem ou seres espirituais<\/i>\u201d<i><br \/>\n<\/i>(VII. 21)<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">mas possu\u00eda uma confian\u00e7a ilimitada quer na sabedoria humana discursiva, quer na intuitiva. Por um lado, defendia, por exemplo, em <i>Fazer Pol\u00edtica<\/i> (II.12), que os cavalheiros n\u00e3o eram utens\u00edlios, mas belas pe\u00e7as de jade em bruto que deviam ser trabalhadas, por um vasto conhecimento.Por outro, lado defendia o pensamento intuitivo como o grau supremo de sabedoria. Assim l\u00ea-se no <i>Coment\u00e1rio<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u8bba\u8bed<\/span><span class=\"s3\">\u2022<\/span><span class=\"s4\">\u8ff0\u800c\u7bc7\u7b2c\u4e03\uff0c\u4e09\u5341<\/span><span class=\"s3\">):<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\">\u5b50\u66f0<span class=\"s5\">:<\/span>\u300d\u4ec1\u9060\u4e4e\u54c9<span class=\"s5\">?<\/span>\u6211\u6b32\u4ec1\uff0c\u65af\u4ec1\u81f3\u77e3\u3002<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: center;\">\u201c<i>Estar\u00e1 a Benevol\u00eancia t\u00e3o distante de n\u00f3s? Basta pensar que a queremos alcan\u00e7ar para que isso de facto suceda<\/i>\u201d<br \/>\n(VII<span class=\"s2\">, <\/span>30)<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: center;\">Mas para que a benevol\u00eancia se desenvolva no seio da comunidade com toda a propriedade \u00e9 necess\u00e1ria ainda uma pr\u00e1tica social vis\u00edvel que se traduz n\u00e3o \u00e0 maneira socr\u00e1tica no cumprimento das leis, mas ao jeito confucionista na observ\u00e2ncia dos ritos<span class=\"s10\"><b>, <\/b><\/span>como explica ao seu estudante Yan Yuan (XII.1), e especifica um pouco adiante: \u201cn\u00e3o olhes, n\u00e3o oi\u00e7as, n\u00e3o pronuncies e n\u00e3o atues contra os ritos.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s9\">Entre Conf\u00facio e S\u00f3crates s\u00e3o muitas as afinidades intelectuais, dist\u00e2ncias tamb\u00e9m as h\u00e1, nomeadamente nos m\u00e9todos filos\u00f3ficos que empregam. E se \u00e9 verdade que ambos privilegiam o di\u00e1logo, como a via pedag\u00f3gica, o modo como este se processa \u00e9 diferente. Numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo socr\u00e1tico ser\u00e1 mais cient\u00edfico, assim o consideramos de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o ocidental, o confucionista mais liter\u00e1rio. As premissas de que partem, e as teses que os ocupam s\u00e3o similares. A preocupa\u00e7\u00e3o central: A virtude. Tamb\u00e9m ambos se empenharam existencialmente at\u00e9 ao limite no seu saber filos\u00f3fico que quiseram partilhar com os concidad\u00e3os.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Eis o que fica para a hist\u00f3ria do nosso mundo filos\u00f3fico: dois grandes pedagogos dedicados ao caminho \u00e9tico. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p11\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p13\">Alves, Ana Cristina. (2005). <i>A Sabedoria Chinesa<\/i><span class=\"s12\"><b>. <\/b><\/span>Cruz Quebrada: Casa das Letras\/Editorial Not\u00edcias.<\/li>\n<li class=\"p13\"><i>Kongzi (<\/i><span class=\"s13\">\u5b54\u5b50<\/span><i>). <\/i>(<i>1994<\/i>)<i>.<\/i><span class=\"s13\">\u300a<\/span> <span class=\"s13\">\u8bba\u8bed\u300b\uff0c<\/span><i>Analects of Confucius, <\/i>trad para chin\u00eas simplificado de Cai Xiqin (<span class=\"s13\">\u8521\u5e0c\u52e4<\/span> &#8211;<span class=\"s13\">\u4e2d\u6587\u8bd1\u6ce8<\/span>) ; Lai Bo (<span class=\"s13\">\u8d56\u6ce2<\/span>) e Xia Zhu He, trad. para ingl\u00eas (<span class=\"s13\">\u590f\u7389\u548c<\/span>&#8211;<span class=\"s13\">\u82f1\u6587\u7ffb\u8bd1<\/span>)<span class=\"s13\">\uff0c\u5317\u4eac\uff0c\u534e\u8bed\u6559\u5b66\u51fa\u7248\u793e<\/span><\/li>\n<li class=\"p13\">Maschio, E. A. (<i>2015<\/i>).<i> Plat\u00e3o. A verdade est\u00e1 noutro lugar<\/i><span class=\"s12\"><b>. <\/b><\/span>Atl\u00e2ntico Press.<\/li>\n<li class=\"p13\">Plat\u00e3o. (s.d.) Di\u00e1logos III. Apologia de S\u00f3crates. Cr\u00edton. F\u00e9don<span class=\"s12\"><b><i>. <\/i><\/b><\/span>Mem Martins: Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, 1999.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] S\u00f3crates n\u00e3o deixou nada escrito. O Mestre Kong (\u5b54\u5b50), Conf\u00facio, pouco ou nada. O que sabemos de S\u00f3crates chegou-nos sobretudo via Plat\u00e3o, seu disc\u00edpulo directo. Tamb\u00e9m de Conf\u00facio muito do que conhecemos foi registado pelos seus disc\u00edpulos nos Analectos (\u300a\u8ad6\u8a9e\u300bL\u00fanyu). 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