{"id":1154,"date":"2025-10-21T01:34:54","date_gmt":"2025-10-20T17:34:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1154"},"modified":"2025-10-21T01:35:38","modified_gmt":"2025-10-20T17:35:38","slug":"o-que-e-o-amor-mo-zi-e-epicuro-respondem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/o-que-e-o-amor-mo-zi-e-epicuro-respondem\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o amor? Mo Zi e Epicuro respondem"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>1 &#8211; <\/b><b><i>O Amante em Mozi<\/i><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><b>O Amor Universal (<\/b><span class=\"s1\">\u517c\u7231<\/span><b> <\/b><b><i>Ji\u0101n&#8217;\u00e0i<\/i><\/b><b>)<br \/>\n<\/b>P<span class=\"s2\">ouco<\/span> se sabe sobre Mozi (<span class=\"s1\">\u58a8\u5b50<\/span>) 470-391 a.C, o fundador da escola Mo\u00edsta. \u00c0 semelhan\u00e7a de Conf\u00facio e dos outros fil\u00f3sofos do tempo, viajou muito entre os v\u00e1rios reinos da China, mergulhados \u00e0 \u00e9poca em lutas e \u00f3dios intestinos. Talvez por ter vivido durante o per\u00edodo dos Estados Combatentes (<span class=\"s1\">\u6218\u56fd<\/span><i>Zh\u00e0ngu\u00f3<\/i>), fez da prega\u00e7\u00e3o do amor universal a sua principal teoria.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">\u00c0 obra, como era tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 atribu\u00eddo o nome do autor, <i>Mozi<\/i><\/span><span class=\"s4\">\u300a\u58a8\u5b50\u300b<\/span><span class=\"s3\">. Esta consta de 71 cap\u00edtulos, 18 dos quais muito danificados. Os cap\u00edtulos 8 a 37 s\u00e3o recuperados pela tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, bem como os 40 a 45, denominados <i>Cap\u00edtulos Dial\u00e9cticos<\/i> nos quais s\u00e3o abordados os seguintes temas: l\u00f3gica, epistemologia, \u00e9tica, geometria e \u00f3tica. Das tradu\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da sinologia, destacam-se a para an\u00e1lise a primeira e a \u00faltima. A primeira, uma vers\u00e3o condensada aqui citada, foi realizada por Burton Watson em 1963, intitulando-se <i>Mo Tzu, Basic Writings<\/i>; a mais recente \u00e9 respeitante \u00e0 obra completa por Ian Johnston de 2010, cujo t\u00edtulo \u00e9 <i>Mozi: a Complete Translation<\/i>, editada na Chinese University Press de Hong Kong.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Relativamente \u00e0 biografia do fil\u00f3sofo, sabemos que viajava de estado em estado, procurando convencer os senhores feudais de que, sobretudo por raz\u00f5es utilit\u00e1rias, o amor era bem melhor do que o \u00f3dio. A sua filosofia recorda-nos a longa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, que faz do amor fraterno o pilar da f\u00e9.<\/p>\n<p class=\"p7\">O amor que Mozi defende \u00e9 para ser implementado neste mundo e com objectivos claramente pol\u00edticos. Da\u00ed que a sua teoria tenha uma vertente utilit\u00e1ria inultrapass\u00e1vel. O sucesso de uma teoria depende para o fil\u00f3sofo de tr\u00eas factores: o primeiro o de poder ser inclu\u00edda numa tradi\u00e7\u00e3o que remonta aos Reis S\u00e1bios da antiguidade; o segundo, da comprova\u00e7\u00e3o dos sentidos e o terceiro da aplicabilidade em termos mundanos. A teoria do amor universal veio fazer frente \u00e0 da benevol\u00eancia confucionista, mas nunca a chegou a destronar, embora tenha sido muito importante at\u00e9 finais do s\u00e9culo III a.C. Se a teoria mo\u00edsta n\u00e3o se sobrep\u00f4s \u00e0 confucionista, foi porque, a meu ver, os chineses, com o seu proverbial apego ao concreto e ao particular, viam mal como poderia funcionar uma proposta t\u00e3o universal e abstrata. A benevol\u00eancia era bem mais funcional, porque podia ser lida em termos de respeito e aplicada de uma forma hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">O amor universal apresenta-se como uma alternativa \u00e0 piedade filial, virtude primeira da filosofia chinesa das linhas confucionista e neoconfucionista. Ali\u00e1s M\u00e2ncio dirige-lhe um ataque claro, precisamente em nome da piedade filial. Segundo a l\u00f3gica interrogativa deste fil\u00f3sofo confucionista, que resume bem o pensamento da escola, como podemos amar todos por igual quando em primeiro lugar est\u00e1 o respeito devotado aos pais e da\u00ed alargado aos professores e chefes da grande na\u00e7\u00e3o chinesa? E quem assim n\u00e3o procede n\u00e3o se distingue dos outros animais da natureza. Diz M\u00e2ncio em Duque de Teng, Parte II. 9:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\">&#8220;A doutrina de Yang Zhu \u00e9 centrada no eu e nega a lealdade para com os governantes. A doutrina de Mo Zhai advoga o amor universal, afastando a piedade filial. Quando negamos a lealdade e afastamos a piedade filial, n\u00e3o somos diferentes dos p\u00e1ssaros e dos outros animais. (&#8230;) A doutrina confucionista s\u00f3 pode florescer quando as de Yang Zhu e Mo Zhai forem silenciadas, porque teorias absurdas podem facilmente enganar a gente comum e bloquear a estrada da benevol\u00eancia e da justi\u00e7a. Bloquear a estrada da benevol\u00eancia \u00e9 o mesmo que conduzir animais selvagens a devorarem os homens. E estes de facto devorar-se-\u00e3o uns aos outros!&#8221;<\/p>\n<p class=\"p10\"><span class=\"s5\">(<\/span>\u6768\u6731\u3001\u58a8\u7fdf<span class=\"s5\"><sup>1<\/sup><\/span>\u4e4b\u8a00\u76c8\u5929\u4e0b\u3002\u5929\u4e0b\u4e4b\u8a00\u4e0d\u5f52\u6768\uff0c\u5219\u5f52\u58a8\u3002\u6768\u6c0f\u4e3a\u6211\uff0c\u662f\u65e0\u541b\u4e5f\uff1b\u58a8\u5b50\u517c\u7231\u662f\u65e0\u7236\u4e5f\u3002\u65e0\u7236\u65e0\u541b\uff0c\u662f\u79bd\u517d\u4e5f (&#8230;)\u6768\u58a8\u4e4b\u9053\u4e0d\u606f\uff0c\u5b54\u5b50\u4e4b\u9053\u4e0d\u8457\uff0c\u662f\u90aa\u8bf4\u8bec\u6c11\uff0c\u5145\u585e\u4ec1\u4e49\u4e5f\u3002\u4ec1\u4e49\u5145\u585e\uff0c\u5219\u7387\u517d\u98df\u4eba\uff0c\u4eba\u5c06\u76f8\u98df\u3002)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\">O Amor universal de Mozi (<span class=\"s1\">\u517c\u7231<\/span><i> ji\u0101n \u00e0i<\/i>) significa literalmente amor simult\u00e2neo ou por tudo o que existe. Al\u00e9m disso, Mozi prop\u00f5e como pilares coadjuvantes desta teoria: a frugalidade; o respeito pela religi\u00e3o tradicional, com \u00eanfase para o culto de esp\u00edritos e fantasmas; e o afastamento do culto das artes e de todas as express\u00f5es art\u00edsticas para que as coletividades n\u00e3o fossem t\u00e3o sugadas, dado que os senhores feudais despendiam muito em banquetes e festas art\u00edsticas \u00e0 custa do povo. Tamb\u00e9m propunha grande modera\u00e7\u00e3o nos rituais, a come\u00e7ar pelos f\u00fanebres, o que s\u00f3 poderia ser malvisto.<\/p>\n<p class=\"p7\">E, no entanto, o modo como Mozi constr\u00f3i a sua argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser mais filos\u00f3fico, da\u00ed que muitos autores se viessem a queixar que ele tinha uma linguagem fria e pouco art\u00edstica. Mas o pensador explicou-se muito bem, n\u00e3o largando as categorias com as quais se propunha argumentar.<\/p>\n<p class=\"p7\">Porqu\u00ea o amor como ideia motriz da organiza\u00e7\u00e3o social? Porque:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\">&#8220;Aquele que ama ser\u00e1 amado pelos outros, aquele que odeia ser\u00e1 odiado pelos outros. Por isso, eu n\u00e3o compreendo como \u00e9 que as pessoas podem ouvir a doutrina da universalidade e, ainda por cima, critic\u00e1-la&#8221; (Watson,1963, 47).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s3\">O amor faz girar o mundo na dire\u00e7\u00e3o correcta, favorecendo as rela\u00e7\u00f5es entre as gentes e a paz, evitando o \u00f3dio e a destrui\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o amor pode ser universal. O \u00f3dio \u00e9 sempre parcial, quer dizer, particular, um \u00f3dio universal seria a nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, dada a sua capacidade destrutiva. Se o fundamento do amor \u00e9 a universalidade, esta deve substituir-se no mundo \u00e0 parcialidade, categoria nunca seguida pelos Reis da Antiguidade, nomeadamente pelos reis Wen (<\/span><span class=\"s4\">\u6587<\/span><span class=\"s3\">) e Wu <\/span><span class=\"s4\">\uff08\u6b66\uff09<\/span><span class=\"s3\">. \u201cAs pessoas condenam a universalidade em palavras, mas adotam-na na pr\u00e1tica, e os grandes Reis da Antiguidade Wen e Wu, administraram os seus reinos segundo o princ\u00edpio da imparcialidade (Watson, 1963, 43).<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Em termos de an\u00e1lise filos\u00f3fica, o amor \u00e9 uma for\u00e7a que se rege pelo princ\u00edpio da universalidade e tem como categoria directriz a imparcialidade. J\u00e1 a benevol\u00eancia sendo virtude importante, pode ser subsumida no amor. Tem, por isso, caracter\u00edsticas mais restritas e parciais, n\u00e3o implicando o empenhamento profundo nem a doa\u00e7\u00e3o total. A benevol\u00eancia (<span class=\"s1\">\u4ec1<\/span><i>r\u00e9n<\/i> ) \u00e9 um respeito contido; o amor universal \u00e9 uma d\u00e1diva integral de si, o que o torna uma ideia que obriga o seu praticante ao altru\u00edsmo absoluto (<span class=\"s1\">\u540c\u4ec1<\/span> <i>t\u00f3ngr\u00e9n<\/i>). Segundo Mozi, esta \u00e9 a postura exigida aos fil\u00f3sofos e, sobretudo, aos governantes para que o mundo deixe de se guerrear e se torne mais pac\u00edfico e harmonioso.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s6\">&#8220;Se pensarmos que n\u00e3o estamos correctos, o que fazer para mudar a situa\u00e7\u00e3o? Mozi disse: devemos usar o amor e a prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua, realizar o m\u00e9todo de benef\u00edcios m\u00fatuos para mudar as coisas\u2026Devemos olhar para o pa\u00eds dos outros do mesmo modo que olhamos para o nosso, devemos encarar a casa dos outros como se fosse a nossa, devemos tomar a vida dos outros como se fosse a nossa. Se os senhores feudais se amarem mutuamente, n\u00e3o haver\u00e1 guerra; se os senhores se amarem mutuamente, n\u00e3o se conquistar\u00e3o; se as pessoas se amarem, n\u00e3o far\u00e3o mal umas \u00e0s outras; se os senhores e ministros se amarem, poder\u00e3o ser benevolentes e fi\u00e9is; se os filhos e os pais se amarem, poder\u00e3o seguir a miseric\u00f3rdia e o respeito piedoso; se os irm\u00e3os mais velhos e mais novos se amarem, poder\u00e3o ter uma conviv\u00eancia harmoniosa. Se todos se amarem, os poderosos n\u00e3o poder\u00e3o oprimir os mais fracos.&#8221;<\/span><\/p>\n<p class=\"p9\">De facto n\u00e3o estamos longe da filosofia crist\u00e3 t\u00e3o bem resumida no aforismo de Santo Agostinho: <i>Ama e faz o que quiseres, <\/i>em <i>Homilias \u00e0 Primeira Ep\u00edstola a S\u00e3o Jo\u00e3o<\/i>. Recordemos a passagem completa:<\/p>\n<p class=\"p9\">&#8220;Ama e faz o que quiseres. Se calares, calar\u00e1s com amor. Se gritares, gritar\u00e1s com amor. Se corrigires, corrigir\u00e1s com amor; se perdoares, perdoar\u00e1s com amor. Se tiveres amor enraizado em ti, nenhuma coisa sen\u00e3o o amor ser\u00e3o os teus frutos.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\">Esta filosofia \u00e9 viabilizada pelo desenvolvimento dos Evangelhos do <i>Novo Testamento<\/i> assentes na ideia de amor fraterno, como por exemplo podemos ler na <i>Primeira Carta ao Cor\u00edntios<\/i>, 13: 1-2 em <i>Acima de tudo o Amor:<\/i><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\">Ainda que eu falasse l\u00ednguas,<br \/>\nas dos homens e dos anjos,<br \/>\nse n\u00e3o tivesse amor,<br \/>\nseria como sino ruidoso<br \/>\nou como c\u00edmbalo estridente.<\/p>\n<p class=\"p9\">Ainda que tivesse o dom<br \/>\nda profecia,<br \/>\no conhecimento de todos<br \/>\nos mist\u00e9rios e de toda a ci\u00eancia;<br \/>\nainda que tivesse toda a f\u00e9,<br \/>\na ponto de transportar montanhas,<br \/>\nse n\u00e3o tivesse amor,<br \/>\nnada seria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>2.<\/b><b><i> <\/i><\/b><b>A<\/b><b><i> Philia <\/i><\/b><b>de Epicuro<\/b><\/h3>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">Epicuro nasceu em Samos no come\u00e7o de 341 a.C e veio a falecer em 270 a.C em Atenas. O seu pai N\u00e9ocles era mestre-escola e a m\u00e3e Quer\u00e9strate era curandeira, usando a magia para curar doen\u00e7as e outros males nas casas dos pobres que costumava visitar acompanhada do seu filho Epicuro. Este aos catorze anos foi estudar para Teo, na antiga costa J\u00f3nia com Naus\u00edfanes, disc\u00edpulo de Dem\u00f3crito. Saiu depois rumo a Atenas para cumprir o servi\u00e7o militar de 323 para 322. Findo este, juntou-se \u00e0 fam\u00edlia em C\u00f3lofon, cidade da costa j\u00f3nica perto da ilha de Samos. At\u00e9 que em 306 rumou a Atenas, onde decidiu instalar-se com um grupo de disc\u00edpulos, entre os quais constavam Hemarco de Mitilene, que viria a herdar por testamento o Jardim, a escola filos\u00f3fica de Epicuro. Esta era um horto \u00e0s portas de Atenas em Dipilon. A\u00ed permaneceu na companhia de seus disc\u00edpulos e amigos e, tamb\u00e9m, de algumas mulheres e escravos, o que lhe valeu uma boa dose de maledic\u00eancia, refor\u00e7ada pela inscri\u00e7\u00e3o que se lia \u00e0 entrada do Jardim: \u201cVisitante ter\u00e1s aqui uma agrad\u00e1vel estadia, pois aqui o bem supremo \u00e9 o prazer.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Mas n\u00e3o nos enganemos como sucedeu aos contempor\u00e2neos de Epicuro que o catalogaram de hedonista sem mais. O prazer que o fil\u00f3sofo referia era cultivado em comunidade na busca da <i>philia<\/i>, amor fraterno entre os membros. A vida na escola era frugal, de vez em quando bebiam uma ta\u00e7a de vinho, mas normalmente contentavam-se com \u00e1gua.<\/p>\n<p class=\"p7\">O jardim era uma comunidade diferente da Academia e do Liceu, ou melhor, dos centros de investiga\u00e7\u00e3o plat\u00f3nico e aristot\u00e9lico. \u00c0 semelhan\u00e7a da comunidade criada por Mozi, tinha objetivos pr\u00e1ticos claramente definidos. Importava acima de tudo cultivar a filosofia, porque o prazer a que se referia, mais do que f\u00edsico, era espiritual e tinha em vista a felicidade da alma quando se empenha em filosofar.<\/p>\n<p class=\"p7\">Escreveu uma grande variedade de obras, hoje perdidas. Entre o material da sua autoria, encontram-se cartas, 40 m\u00e1ximas e 81 senten\u00e7as vaticanas. O homem que tanto enaltecia o prazer e fugia da dor morreu na maior das afli\u00e7\u00f5es, como podemos ler na <i>Carta a Idomeneu: <\/i><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\">&#8220;N\u00e3o podem ser maiores as dores que me acompanham, provocadas pela reten\u00e7\u00e3o da urina e pela disenteria, mas a tudo isto op\u00f5e-se a alegria da minha alma, ao recordar as nossas conversas passadas. &#8220;(Epicuro, 2009, 61)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s3\">Enquanto viveu, livre do c\u00e1lculo renal, procurou tirar o maior partido da vida, dividindo os prazeres, \u00e0 maneira plat\u00f3nica do Filebo, em<i> cin\u00e9ticos<\/i>, prazeres em movimento, relativos \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas ou afins e um outro tipo, prazeres em repouso ou <i>catastem\u00e1ticos<\/i>, isentos de dor ou perturba\u00e7\u00e3o, entre os quais se incluem os espirituais, como o de filosofar. Na <i>Carta a Meneceu. Sobre a Vida Humana<\/i>, podemos ler logo no in\u00edcio:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s7\">Que ningu\u00e9m, por ser jovem, tarde em filosofar nem, por ser velho, se canse da filosofia. Porque nunca se \u00e9 nem demasiado jovem nem demasiado velho para alcan\u00e7ar a sa\u00fade da alma. O que diz que a hora de filosofar ainda n\u00e3o chegou, ou que j\u00e1 passou, \u00e9 semelhante ao que diz que a hora de ser feliz ainda n\u00e3o chegou, ou que esta hora j\u00e1 findou. (Epicuro, 2009, 111)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\">A filosofia tem fun\u00e7\u00f5es claramente terap\u00eauticas e persegue fins t\u00e3o utilit\u00e1rios como cuidar da alma dos que necessitam, evitando as dores morais.<\/p>\n<p class=\"p7\">No jardim cultivava-se, al\u00e9m do horto cujos legumes prestaram aux\u00edlio aos atenienses aquando do cerco por Dem\u00e9trio Poliorcetes, filho de um dos antigos generais de Alexandre Magno que procurou conquistar Atenas e conquistou a Maced\u00f3nia, cultivava-se, dizia, um outro tipo de civismo afastado da educa\u00e7\u00e3o convencional. Logo em lugar de privilegiar a ret\u00f3rica, a po\u00e9tica e o ensino das ci\u00eancias matem\u00e1ticas, eram cultivados: os estudos voltados para a moral, cujo objetivo era o alcance da ataraxia ou da felicidade; a teoria do conhecimento ou <i>can\u00f3nica<\/i> para evitar o erro e a f\u00edsica com o objetivo de transmitir uma mundivid\u00eancia, donde seriam exclu\u00eddos todo o medo e a perturba\u00e7\u00e3o, nomeadamente os relativos \u00e0 morte e \u00e0s conce\u00e7\u00f5es religiosas err\u00f3neas, causadoras de muita supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p7\">Esta filosofia de fins terap\u00eauticos assentava em dois pilares: o dos prazeres espirituais e a <i>philia<\/i>. Ainda na Carta a Meneceu lemos:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s3\">&#8220;Por isso quando dizemos que o prazer \u00e9 o fim n\u00e3o nos referimos aos prazeres dos dissolutos nem aos prazeres da sensualidade, como creem alguns por ignor\u00e2ncia, por desacordo ou por interpreta\u00e7\u00e3o errada (da nossa doutrina), mas sim ao facto de n\u00e3o sentirmos dor alguma no corpo nem qualquer perturba\u00e7\u00e3o na alma. Pois n\u00e3o s\u00e3o as bebidas nem os prazeres cont\u00ednuos nem o gozo com rapazes e mulheres, nem o peixe e todos os outros manjares duma mesa sumptuosa que geram uma vida feliz, mas o racioc\u00ednio s\u00f3brio que procura conhecer os motivos de cada escolha e de cada rejei\u00e7\u00e3o, expulsando desta forma (todas aquelas) opini\u00f5es que s\u00e3o fonte de grande desassossego para a alma.&#8221; (Epicuro, 2009, 114)<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\">Nesta filosofia de cariz pr\u00e1tico a virtude mais enaltecida, para efeitos de conduta, \u00e9 a prud\u00eancia, sendo descrita como o <i>bem mais importante, mais precioso do que a pr\u00f3pria filosofia<\/i> (Ibidem). Porque s\u00f3 ela pode, parafraseando o fil\u00f3sofo, conduzir a uma forma nobre e justa de viver. Esta permitir\u00e1 o \u201cbom ju\u00edzo\u201d, a raiz etimol\u00f3gica de \u201cprud\u00eancia\u201d e de toda a filosofia pr\u00e1tica conducente a uma vida feliz, dominada pelo prazer espiritual<i> catastem\u00e1tico<\/i>, o que deixa a alma tranquila e em repouso.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">O prazer filos\u00f3fico \u00e9 assim indissoci\u00e1vel dum modo de vida prudente, nobre e justo como se enfatiza na <i>quinta m\u00e1xima capital. <\/i>Na <i>d\u00e9cima s\u00e9tima m\u00e1xima<\/i> diz-nos: \u201cO justo vive imperturb\u00e1vel, o injusto, ao contr\u00e1rio, cheio da maior perturba\u00e7\u00e3o\u201d (Epicuro,2009, m\u00e1xima 17\u00aa). <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Para que uma boa vida tenha lugar, \u00e9 valorizada a tranquilidade e uma vida longe da multid\u00e3o, numa comunidade filos\u00f3fica, como a do Jardim ou ainda como aquela proposta por Mozi. Os mentores destas filosofias pr\u00e1ticas vivem rodeados dos seus disc\u00edpulos, cultivando os prazeres mentais fornecidos pela sabedoria, desenvolvida entre os amantes fraternos de Mozi ou os amigos de Epicuro. Na <i>vig\u00e9sima s\u00e9tima m\u00e1xima<\/i> defende: \u201cDos bens preparados pela sabedoria com vista a garantir a felicidade ao longo da vida, o maior \u00e9 a posse da amizade.\u201d (Epicuro, 2009, m\u00e1xima 27\u00aa)<\/p>\n<p class=\"p7\">A amizade ou <i>philia<\/i> ser\u00e1 ent\u00e3o o sentimento que permite viver bem e com justi\u00e7a na comunidade e por entre as gentes. A amizade, embora possa servir fins utilit\u00e1rios, est\u00e1 acima de qualquer utilidade. Ela n\u00e3o \u00e9 um meio, mas um fim em si mesma, como defende na <i>vig\u00e9sima terceira senten\u00e7a vaticana<\/i>: \u201cToda a amizade deve ser escolhida por si mesma, ainda que tenha a sua origem na utilidade.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">A amizade \u00e9 assim o sentimento por excel\u00eancia da filosofia epicurista, por isso \u00e9 bem mais do que um sentimento instrumentaliz\u00e1vel, ainda que tamb\u00e9m o possa ser.<sup>2<\/sup> Enquanto fim \u00e9 a garantia dum mundo justo e bom, como afirma na <i>trig<\/i>\u00e9sima quarta senten\u00e7a<i> vaticana<\/i>: \u201c(Para n\u00f3s) n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio o aux\u00edlio dos amigos quanto a certeza desse aux\u00edlio. (Epicuro, 2009, senten\u00e7a vaticana 34\u00aa)\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">Por \u00faltimo sem amizade, esse sentimento supremo no relacionamento humano, n\u00e3o h\u00e1 felicidade. Lemos na <i>quinquag\u00e9sima segunda senten\u00e7a vaticana<\/i>: \u201cA amizade dan\u00e7a \u00e0 volta da Terra inteira convocando-nos para que despertemos para a felicidade. \u201cPor isso um esp\u00edrito nobre se entrega \u00e0 amizade, um bem mortal, e \u00e0 filosofia, um bem imortal\u201d (Epicuro 2009, senten\u00e7a vaticana 78\u00aa).<\/p>\n<p class=\"p7\">O que t\u00eam de comum o amor fraterno do Cristianismo, o amor universal do Mo\u00edsmo (<span class=\"s1\">\u517c\u7231<\/span>) e a <i>philia <\/i>do Epicurismo? A meu ver, todas estas linhas de pensamento colocam o sentimento de amizade como sustent\u00e1culo filos\u00f3fico das suas teorias.<\/p>\n<p class=\"p7\">Considerando os tr\u00eas grandes tipos de amor: er\u00f3tico, de amizade ou <i>philia,<\/i> e comtemplativo, o amor crist\u00e3o enquadra-se no segundo tipo. Ele \u00e9, acima de tudo, um amor fraterno, um amor entre irm\u00e3os, todos filhos do mesmo pai, incluindo o filho primeiro, Jesus Cristo. Tamb\u00e9m o amor universal de Mozi nada tem de er\u00f3tico ou de contemplativo. Ele \u00e9 amor pr\u00e1tico, activo, empenhado em alargar a comunidade filos\u00f3fica ao mundo, de modo a torn\u00e1-lo pac\u00edfico, imparcial, amigo e frugal, tal como a <i>philia <\/i>epicurista, a \u00fanica que recebe o nome de amizade <i>stricto sensu<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s7\">Apesar da diferen\u00e7a de nomenclaturas, o sentimento \u00e9 o mesmo. Define-se essencialmente por pertencer \u00e0 actividade mental do cora\u00e7\u00e3o (<\/span><span class=\"s8\">\u5fc3<\/span><span class=\"s7\"> <i>x\u012bn<\/i>). Radica no \u201ccora\u00e7\u00e3o-mente\u201d e proporciona um estado mental espec\u00edfico de liga\u00e7\u00e3o ao outro. \u00c9 uma forma de cuidado e aten\u00e7\u00e3o para com o outro, sendo essencialmente desinteressada, pois a amizade apresenta-se, antes de mais, como um fim e n\u00e3o um meio para satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades, ainda que tamb\u00e9m o possa ser, j\u00e1 que pertence \u00e0 aten\u00e7\u00e3o ao outro, ajud\u00e1-lo no que for preciso para melhorar a sua situa\u00e7\u00e3o. Mas a amizade n\u00e3o \u00e9 apenas partilha de paix\u00e3o e de dor, portanto compaix\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m um prazer, sobretudo espiritual, que ajuda ao desenvolvimento do ser moral e contribui para a felicidade de cada um. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p13\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p14\">Cai Xiqin <span class=\"s10\">\u8521\u5e0c\u52e4<\/span> (Trad.)(1999). <span class=\"s10\">\u300a\u5b5f\u5b50\u300b\u5317\u4eac<\/span>:<span class=\"s10\">\u534e\u8bed\u6559\u5b66\u51fa\u7248\u793e<\/span>.<\/li>\n<li class=\"p14\">Epicuro. (2009). <i>Cartas, M\u00e1ximas e Senten\u00e7as.<\/i> Introd., trad. do grego e notas, Gabriela Bai\u00e3o. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es S\u00edlabo.<\/li>\n<li class=\"p15\">\u300a\u58a8\u5b50\u8bed\u5f55\u300b (1994).\u4e0a\u6d77\uff0c\u4e0a\u6d77\u53e4\u7c4d\u51fa\u7248\u793e<span class=\"s11\">.<\/span><\/li>\n<li class=\"p14\">Pia Sociedade de S\u00e3o Paulo (ed).(1993). <i>B\u00edblia Sagrada. <\/i>S\u00e3o Paulo: Paulus.<\/li>\n<li class=\"p14\">Watson, Burton (trad.). (1963). <i>Mo Tzu, Basic Writings.<\/i> Nova Iorque: Columbia University Press.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] 1 &#8211; O Amante em Mozi O Amor Universal (\u517c\u7231 Ji\u0101n&#8217;\u00e0i) Pouco se sabe sobre Mozi (\u58a8\u5b50) 470-391 a.C, o fundador da escola Mo\u00edsta. \u00c0 semelhan\u00e7a de Conf\u00facio e dos outros fil\u00f3sofos do tempo, viajou muito entre os v\u00e1rios reinos da China, mergulhados \u00e0 \u00e9poca em lutas e \u00f3dios intestinos. 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