{"id":1184,"date":"2025-10-21T02:00:33","date_gmt":"2025-10-20T18:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1184"},"modified":"2025-10-21T02:00:33","modified_gmt":"2025-10-20T18:00:33","slug":"poesia-chinesa-e-psicanalise-lacan-em-pequim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/poesia-chinesa-e-psicanalise-lacan-em-pequim\/","title":{"rendered":"Poesia chinesa e psican\u00e1lise &#8211; Lacan em Pequim"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">O que h\u00e1 <span class=\"s2\">de peculiar na forma na poesia chinesa, que leva Demi\u00e9ville a comparar a sua tessitura com a arte de \u201cfritar peixinhos sem destro\u00e7\u00e1-los\u201d? H\u00e1 uma alus\u00e3o \u00e0 sua leveza e subtileza. Mas esse savoir-faire implica ainda exercitar-se pela repeti\u00e7\u00e3o, pois os chineses imitam e repetem sempre os c\u00f3digos po\u00e9ticos, os mitos e os ritos ancestrais. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Para al\u00e9m do saber fazer, da habilidade, o que confere \u00e0 poesia charme irresist\u00edvel \u00e9 o estilo e a singularidade, tal como o demonstra a caligrafia chinesa. O que se apreende \u00e9 que a repeti\u00e7\u00e3o chama o novo. Na tessitura de uma poesia provis\u00f3ria, a apreens\u00e3o do ser sempre escapa. Da\u00ed ser \u201cpoesia t\u00e9nue, sempre prestes a se desfazer na via do apagamento, sempre capaz de evitar o desaparecimento, amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o e, no entanto, sempre renascendo. Afinal inextingu\u00edvel, por tocar nos contrastes da l\u00edngua em si, da qual se desprende a linguagem.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Antes de prosseguir lendo como Albert Nguyen articula as rela\u00e7\u00f5es entre poesia chinesa e psican\u00e1lise, cumpre notar dados historiogr\u00e1ficos da rela\u00e7\u00e3o de Lacan com a China, sua l\u00edngua e pensamento: Jacques Lacan sempre fora atra\u00eddo pelo Extremo Oriente e sabe-se que, durante a Ocupa\u00e7\u00e3o, havia aprendido o chin\u00eas na Escola de L\u00ednguas Orientais. Em 1969, quando elaborava sua teoria do discurso a partir da divis\u00e3o wittgensteiniana do dizer e do mostrar, voltou a mergulhar com paix\u00e3o no estudo da l\u00edngua e da filosofia chinesa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Em outra ocasi\u00e3o procurei tratar aqui das refer\u00eancias sobre a l\u00edngua chinesa nos semin\u00e1rios de Lacan, principalmente as do semin\u00e1rio XVIII. No presente trabalho busco apresentar aspectos das indica\u00e7\u00f5es de Lacan a respeito de poesia chinesa: \u201cSe voc\u00eas s\u00e3o psicanalistas, ver\u00e3o que \u00e9 o for\u00e7amento por onde um psicanalista pode fazer ressoar outras coisas, outra coisa que o sentido. (&#8230;.) O sentido, isto tampona; mas com a ajuda daquilo que se chama escritura po\u00e9tica podem ter uma dimens\u00e3o do que poderia ser a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. \u00c9 absolutamente certo que a escritura n\u00e3o \u00e9 aquilo pelo que a poesia, a resson\u00e2ncia do corpo, se exprime. \u00c9 ali\u00e1s completamente surpreendente que os poetas chineses se exprimam pela escritura e que para n\u00f3s o que \u00e9 preciso \u00e9 que tomemos na escritura chinesa a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a poesia. N\u00e3o que toda poesia&#8230; seja tal que a possamos imaginar pela escritura, pela escrita po\u00e9tica chinesa, mas talvez voc\u00eas sintam a\u00ed alguma coisa que seja outra, outra que aquilo que faz que os poetas chineses n\u00e3o possam fazer de outra forma sen\u00e3o escrever&#8230;\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">A poesia chinesa, por\u00e9m, s\u00f3 pode ser lida conhecendo o contexto em que brota, ou seja, os fundamentos filos\u00f3ficos, particularmente dao\u00edstas em que est\u00e1 alicer\u00e7ada. Ainda sobre o contexto: o solo em que florescem essas tradi\u00e7\u00f5es gerou uma combina\u00e7\u00e3o particular de vertentes filos\u00f3ficas heterog\u00e9neas que, no entanto, se revelam bastante assimiladas na cultura chinesa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Nguyen indica ainda os trabalhos de Isabelle Robinet e Fran\u00e7ois Julien que demonstram indiscutivelmente a incid\u00eancia e for\u00e7a destas doutrinas, tanto na poesia como na estrat\u00e9gia e pol\u00edtica da China. O artigo em quest\u00e3o destaca tr\u00eas grandes poetas chineses para ilustrar cada tradi\u00e7\u00e3o: Wang Wei (budista), Li Po (tao\u00edsta) e Du Fu (confucionista). Escolhi para ilustrar a presente exposi\u00e7\u00e3o, a poesia de Wang Wei. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">Atalho pela velha floresta;<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">nenhum vest\u00edgio <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">No cora\u00e7\u00e3o do monte,<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">um som de sino; vindo de onde? <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">\u00c0 tarde, sobre o lago deserto, meditando, <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\">Algu\u00e9m aprisiona o drag\u00e3o venenoso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Em Televis\u00e3o, Lacan fala do estatuto provis\u00f3rio da poesia, fazendo dela uma arte do desprendimento, como aquela que o poeta Wang Wei pratica. No encontro de poesia chinesa e psican\u00e1lise surgem interfer\u00eancias e diferen\u00e7as. Nguyen destaca a resson\u00e2ncia, termo que equivale \u00e0 interfer\u00eancia, como o alvo da interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. As interfer\u00eancias ou resson\u00e2ncias s\u00e3o: <\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">1. A natureza, que na poesia chinesa indica o lugar do vazio, o furo. \u201cLugar de resson\u00e2ncia, lugar de interfer\u00eancia: nada pode ressoar sem um furo: aquilo que no saber constitui o sintoma anal\u00edtico, aquilo que deixa o poema e o livro inacabados, aquilo da ruptura da tradi\u00e7\u00e3o que provoca a r\u00e3 de Bash\u00f4, que se lan\u00e7a no po\u00e7o, plof!<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>e tantas outras indica\u00e7\u00f5es desta interfer\u00eancia da resson\u00e2ncia.\u201d <\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">2. A rela\u00e7\u00e3o com o real. Essa segunda interfer\u00eancia assenta-se no lugar concedido ao real. A rela\u00e7\u00e3o ao real \u00e9 distinta na psican\u00e1lise. Na poesia chinesa, o real surge como realidade derradeira, sin\u00f3nimo de Dao. J\u00e1 a psican\u00e1lise confere ao sujeito o estatuto de separado, cortado definitivamente de todo o mundo e de toda cosmologia. Assim, separa\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o do sujeito, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 integra\u00e7\u00e3o dao\u00edsta. Poder\u00edamos, talvez, aproximar essa rela\u00e7\u00e3o ao real no tao\u00edsmo com a m\u00fasica tonal, enquanto que a rela\u00e7\u00e3o ao real na psican\u00e1lise com a m\u00fasica atonal. Ou ainda com Badiou: \u201cO real, para Lacan, se d\u00e1 como aus\u00eancia de sentido. Mas o que \u00e9 preciso entender bem, \u00e9 que aus\u00eancia de sentido para Lacan, nunca quer dizer n\u00e3o-sentido. H\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o de sentido do real, enquanto aus\u00eancia de sentido. H\u00e1 uma aus\u00eancia no sentido, uma subtrac\u00e7\u00e3o ao sentido que n\u00e3o \u00e9 um n\u00e3o-sentido. \u00c9 essencial compreender a diferen\u00e7a entre aus\u00eancia de sentido (ab-sens) e n\u00e3o-sentido (non-sens).\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">3. A mistura, mesti\u00e7agem (m\u00e9tis) da linguagem ou do real com a linguagem do simb\u00f3lico. \u00c9 a que se contrap\u00f5e \u00e0 linguagem un\u00edvoca do Um f\u00e1lico; a mesti\u00e7agem favorece a maleabilidade de esp\u00edrito. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\">Efeito de sujeito, af\u00e2nise, ou o estatuto provis\u00f3rio, evanescente do ser? O sentido de \u201cpoesia provis\u00f3ria\u201d diz respeito ao caminho no qual a apreens\u00e3o do ser sempre escapa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">O analisante e o poeta seriam, nesta perspectiva, um efeito po\u00e9tico. Nguyen conclui seu trabalho com o que nomeia de Lacan chin\u00eas. Diz ele: <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">\u201cComo situar esta possibilidade do passo suplementar que Lacan realiza sobre o tao\u00edsmo e a poesia? A resposta \u00e9 dupla. Por um lado, Lacan, ao formular a estrutura, n\u00e3o deixa de examinar o registo da consequ\u00eancia (desenvolvida nesse mesmo semin\u00e1rio). A causa n\u00e3o porta somente efeito, mas consequ\u00eancias. E por outro lado, esse passo suplementar \u00e9 autorizado pelo que nomeio de \u201cLacan chin\u00eas\u201d para designar o lugar sempre marcado de refer\u00eancias chinesas em seu ensino, do in\u00edcio ao fim. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">\u201cLacan come\u00e7a seu ensino com o Zen e todos conhecem a refer\u00eancia \u00e0 \u00cdndia de Prajapati e o Deus Trov\u00e3o dos Escritos, mas \u00e9 principalmente a partir do semin\u00e1rio \u201cA Ang\u00fastia\u201d, semin\u00e1rio sobre o afecto certeiro da ang\u00fastia, central em sua elabora\u00e7\u00e3o da teoria da causa, que Lacan, a partir do vazio e do feminino \u2013 pois \u00e9 tamb\u00e9m este um semin\u00e1rio sobre a abordagem do feminino juntamente a uma tentativa de visualizar um para al\u00e9m da rocha freudiana da castra\u00e7\u00e3o para o final de an\u00e1lise \u2013 com Kuan Yin, a f\u00eamea misteriosa da qual ele extrai o olhar como causa, olhar faltante, olhar vazio, come\u00e7a a marcar aquilo que ser\u00e1 uma insist\u00eancia sobre as refer\u00eancias chinesas.\u201d<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] O que h\u00e1 de peculiar na forma na poesia chinesa, que leva Demi\u00e9ville a comparar a sua tessitura com a arte de \u201cfritar peixinhos sem destro\u00e7\u00e1-los\u201d? 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