{"id":1193,"date":"2025-10-21T02:06:05","date_gmt":"2025-10-20T18:06:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1193"},"modified":"2025-10-21T02:06:05","modified_gmt":"2025-10-20T18:06:05","slug":"crisantemo-a-flor-do-outono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/crisantemo-a-flor-do-outono\/","title":{"rendered":"Cris\u00e2ntemo &#8211; a flor do outono"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">A<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>cultura tradicional chinesa tem quatro plantas (<i>si jun zi<\/i>) como temas usados pelos eruditos (escritores, pintores e cal\u00edgrafos) nos seus poemas e pinturas pois elas simbolizam quatro respeit\u00e1veis caracter\u00edsticas que expressam a sua percep\u00e7\u00e3o de vida e os elevam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o superior do ser humano.<\/p>\n<p class=\"p2\">A flor da ameixoeira (<i>Mei<\/i>, <span class=\"s1\">\u6885<\/span>) representa o Inverno, altura em que floresce e simboliza energia e coragem, renovamento pessoal e perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\">A orqu\u00eddea (<i>Lan<\/i>, <span class=\"s1\">\u5170<\/span>), escolhida para representar a Primavera, simboliza n\u00e3o ter medo das dificuldades, humildade, autodisciplina e pureza de esp\u00edrito.<\/p>\n<p class=\"p2\">O bambu (<i>Zhu<\/i>, <span class=\"s1\">\u7af9<\/span>), ligado ao Ver\u00e3o, \u00e9 s\u00edmbolo de integridade, rectid\u00e3o, virtude e devo\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o pelo estudo, significando firmeza, flexibilidade e resist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p2\">O cris\u00e2ntemo (<i>J\u00fc<\/i>, <span class=\"s1\">\u83ca<\/span>) est\u00e1 relacionado com o Outono, pois \u00e9 nessa esta\u00e7\u00e3o que aparece, quando j\u00e1 as outras flores murcharam e representa comportamento apropriado e \u00e9tico. Jun Zi servia ainda para significar a categoria de homem distinto e honrado.<\/p>\n<p class=\"p2\">Conhecida na China por <i>J\u00fc Hua<\/i> (<span class=\"s1\">\u83ca\u82b1<\/span>), o nome de <i>Chrysanthemum L<\/i>. foi-lhe dado na Europa em 1689 por Breynius, devido a <i>chrysos<\/i> significar ouro, sendo universalizado pelo holand\u00eas Linneu.<\/p>\n<p class=\"p2\">Da fam\u00edlia das aster\u00e1ceas, o cris\u00e2ntemo, que pode apresentar-se em 23 mil diferentes formas, tem na cor amarela a mais comum das suas tubulares (longas e finas) p\u00e9talas, apesar de se encontrar com outras colora\u00e7\u00f5es, como branco, vermelho escuro e roxo. De cultura f\u00e1cil, propaga-se por sementes, ou em estacas. \u00c9 a flor de Outono, pois normalmente aparece durante esta esta\u00e7\u00e3o do ano e dura at\u00e9 come\u00e7arem as geadas, simbolizando a longevidade. \u201cDenominada beleza para sempre, representa a jovialidade e amizade e \u00e9 apreciada pela riqueza das suas cores\u201d, segundo Lu\u00eds Gonzaga Gomes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>No Outono pelo ch\u00e3o<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\">O poeta Tao Yuanming (365-427), referido por Ant\u00f3nio Gra\u00e7a Abreu no in\u00edcio do Pref\u00e1cio do livro <i>Poemas de Han Shan<\/i> (Gr\u00e3o-Falar, Lisboa, 2024), apresentou-se precocemente envelhecido, sereno, sobra\u00e7ando um ramo de cris\u00e2ntemos quando os deuses da poesia decidiram convidar os maiores poetas da China para um banquete de pr\u00edncipes e letrados, algures num terra\u00e7o entre nuvens pendurado numa das montanhas m\u00e1gicas do velho Imp\u00e9rio do Meio. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Tao Yuanming escreveu sobre os cris\u00e2ntemos e no seu poema \u201cBebendo vinho\u201d, (in <i>Poemas de Tao Yuanming<\/i>, Livros do Meio, Macau, 2013), na s\u00e9tima parte refere:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><i>Cris\u00e2ntemos de Outono<br \/>\n<\/i><i>de cores fascinantes<br \/>\n<\/i><i>eu vos colho carregadas de orvalho<br \/>\n<\/i><i>e mergulho no vinho<br \/>\n<\/i><i>para esquecer as m\u00e1goas<br \/>\n<\/i><i>e os pensamentos do mundo&#8230;<\/i><i><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">Ficcionada por Feng Meng Long (<\/span><span class=\"s4\">\u51af\u68a6\u9f99<\/span><span class=\"s3\">) durante a dinastia Ming, a hist\u00f3ria O vento de Outono fez cair as p\u00e9talas dos cris\u00e2ntemos reporta-se a duas personagens da dinastia Song do Norte (960-1127): Su Shi (1037-1101), mais conhecido por Su Dongpo, e Wang Anshi (1021-1086), escritor, poeta, oficial civil, tr\u00eas vezes Governador de Nanjing e por duas vezes Primeiro-Ministro.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Ainda jovem, Su Shi, ap\u00f3s se distinguir nos exames imperiais de Keju e ter o t\u00edtulo de Jinshi, ficou a trabalhar na capital Kaifeng sob as ordens do primeiro-ministro Wang Anshi, que gostava dele devido \u00e0 sua grande intelig\u00eancia. Mas Su Shi era muito orgulhoso e n\u00e3o perdia uma oportunidade de se mostrar, considerando os outros inferiores, em intelig\u00eancia e conhecimento. Wang Anshi, sabendo da falta de mod\u00e9stia de Su Shi, mandou-o para Huzhou como governador. Ap\u00f3s tr\u00eas anos, Su regressou \u00e0 capital e foi ao pal\u00e1cio visit\u00e1-lo, onde o informaram estar o primeiro-ministro a dormir. Convidado a entrar nos aposentos de trabalho de Wang, pois reconhecido pelos funcion\u00e1rios, ali se quedou esperando. Perscrutando o local, vislumbrou sobre a mesa um papel com um poema ainda por terminar, algo invulgar, pois lembrava-se das qualidades do seu superior em escrever de seguida relat\u00f3rios e grande quantidade de poemas. Lendo-o:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><i>Ontem \u00e0 noite o vento de Outono<br \/>\n<\/i><i>atravessou o jardim, fez cair<br \/>\n<\/i><i>as p\u00e9talas dos cris\u00e2ntemos,<br \/>\n<\/i><i>cobrindo o ch\u00e3o de ouro<\/i><i><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">O inacabado poema em estilo <i>shi<\/i>, que deveria ter quatro versos cada um com sete caracteres, estava com imensos erros, pensou ele, pois esta flor s\u00f3 abre nos finais do Outono e as p\u00e9talas, mesmo no Inverno, nunca caem, podendo apenas ficar a flor seca. Tenta\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel ao olhar para as duas linhas do poema e numa atitude inconsciente resolveu termin\u00e1-lo, escrevendo:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\"><i>As flores de Outono n\u00e3o caem<br \/>\n<\/i><i>t\u00e3o facilmente como as da Primavera<br \/>\n<\/i><i>por favor pense com cuidado.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">Impulso de que logo se arrependeu. Sem poder emendar o erro, resolveu ir embora. Ao acordar, Wang j\u00e1 no seu est\u00fadio de trabalho reparou na folha escrita e reconhecendo a caligrafia, desabafou n\u00e3o terem chegado tr\u00eas anos para Su aprender a ser modesto. Na audi\u00eancia com o Imperador, o primeiro-ministro referiu precisar Su Shi de praticar mais para conseguir ser um bom governador e assim, escolheu um pequeno local para o colocar, numa posi\u00e7\u00e3o mais baixa, destacando-o para Huangzhou, na prov\u00edncia de Hubei.<\/p>\n<p class=\"p2\">Su Shi, percebendo estar a ser punido pela ousadia de ter escrito aquelas verdades no poema do primeiro-ministro, com um sentimento de superioridade, tentou n\u00e3o se importar, pois sabia ser injusta aquela coloca\u00e7\u00e3o. Antes da partida, Wang convidou-o para um almo\u00e7o onde referiu Huangzhou como um lugar relaxante e por isso, poderia ler mais livros. Ao ouvir tal provoca\u00e7\u00e3o, Su Shi ficou interiormente zangado pois fora um dos melhores nos exames imperiais.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">Chegou a Huangzhou em Novembro de 1079 e ap\u00f3s uma s\u00e9rie de dias de vento forte, a n\u00e3o permitir sair de casa, no dia seguinte \u00e0 Festividade Chong Yang (Duplo 9) foi visitado por um amigo. Su Shi lembrou-se ter \u00e0 chegada sido recebido com um cris\u00e2ntemo e por isso, sendo esta a melhor altura para o observar, prop\u00f4s uma ida a um jardim com essas flores. Ao entrarem, Su Shi apanhou um choque. Viu as p\u00e9talas amarelas das flores espalhadas pelo ch\u00e3o, cobrindo-o como que de ouro. Reconheceu ent\u00e3o o seu erro e compreendeu a raz\u00e3o de ser para a\u00ed enviado. Como o ditado chin\u00eas refere, \u201cPor mais que se saiba, devemos permanecer modestos, pois nunca sabemos tudo.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Segundo Lu\u00eds Gonzaga Gomes, as vestes dos mandarins \u201cnas dinastias Ming e Qing eram bordadas com motivos florais como a pe\u00f3nia, ameixoeira, l\u00f3tus, cris\u00e2ntemo e p\u00e1ssaros\u201d. Tamb\u00e9m nos bordados xiang, de Changsha, capital da prov\u00edncia de Hunan, as figuras mais usadas s\u00e3o o le\u00e3o, o tigre e o cris\u00e2ntemo. J\u00e1 o realizador chin\u00eas Zhang Yimou no filme de 2006, Man Cheng Jin Dai Huang Jin Jia (A Maldi\u00e7\u00e3o da Flor de Ouro) usa o bordado aliado com o simbolismo do cris\u00e2ntemo, num drama \u00e9pico que se desenrola nos finais da dinastia Tang.<\/p>\n<p class=\"p2\">Em Kaifeng, prov\u00edncia de Henan, realiza-se todos os anos, entre 18 de Outubro a 18 de Novembro, o Festival dos Cris\u00e2ntemos, que j\u00e1 vai na sua 39.\u00aa edi\u00e7\u00e3o e onde s\u00e3o expostos milh\u00f5es de vasos com essa flor.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] A\u00a0 cultura tradicional chinesa tem quatro plantas (si jun zi) como temas usados pelos eruditos (escritores, pintores e cal\u00edgrafos) nos seus poemas e pinturas pois elas simbolizam quatro respeit\u00e1veis caracter\u00edsticas que expressam a sua percep\u00e7\u00e3o de vida e os elevam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o superior do ser humano. 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