{"id":1223,"date":"2025-10-21T22:59:48","date_gmt":"2025-10-21T14:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1223"},"modified":"2025-10-21T22:59:48","modified_gmt":"2025-10-21T14:59:48","slug":"os-alicerces","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/os-alicerces\/","title":{"rendered":"Os alicerces"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">O Mestre disse: \u201cEstudar para aplicar na altura certa aquilo que se aprendeu \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 isto uma fonte de prazer? Ter amigos que chegam de partes distantes \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 isto uma fonte de alegria? Suportar sem acrim\u00f3nia n\u00e3o ser reconhecido pelos outros \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 isto a marca de uma pessoa exemplar<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(<span class=\"s1\">\u541b\u5b50 <\/span><i>junzi<\/i>)?\u201d<\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>Analectos I.1.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\">E<span class=\"s1\">is a senten\u00e7a<\/span> que abre os <i>Analectos<\/i> e assim d\u00e1 in\u00edcio a uma longa exposi\u00e7\u00e3o de ideias, preceitos, comportamentos e situa\u00e7\u00f5es. Depois de lidos o <i>Estudo Maior<\/i> (<i>Da Xue<\/i>) e a <i>Pr\u00e1tica do Meio <\/i>(<i>Zhong Yong<\/i>), os <i>Analectos<\/i> quase nos surgem como um manual de ac\u00e7\u00e3o <i>in loco<\/i>, isto \u00e9, o que deve guiar a nossa ac\u00e7\u00e3o e o que se deve fazer em determinada situa\u00e7\u00e3o, sendo que cada momento, cada evento, cada ac\u00e7\u00e3o suscitam uma espec\u00edfica solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">Mas n\u00e3o \u00e9 por acaso que o primeiro cap\u00edtulo dos \u201cAnalectos\u201d surge subordinado ao tema \u201cEstudar\u201d: Conf\u00facio encara a educa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos como o meio fundamental para atingir a reforma da sociedade e assim se construir um modelo ideal de rela\u00e7\u00f5es humanas, na qual o indiv\u00edduo possa desenvolver ao limite as suas naturais capacidades.<\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o se trata, no entanto, de uma mera aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos, algo que o Mestre considera insuficiente. O mais importante ser\u00e1 saber quando e como aplicar esses conhecimentos. E se \u00e9 na pr\u00e1tica que o conhecimento se revela precioso, a sua efic\u00e1cia s\u00f3 adquirir\u00e1 valor se for balizado por uma \u00e9tica cuja objectivo \u00e9 dotar cada sujeito da capacidade de agir com benevol\u00eancia <i>(<\/i><span class=\"s2\">\u4ec1<\/span><i>ren<\/i>), sustentada pela rectid\u00e3o<i> <\/i>(<span class=\"s2\">\u7fa9 <\/span><i>yi<\/i>) e pelo cumprimento de pressupostos rituais (<span class=\"s2\">\u79ae <\/span><i>li<\/i>) modelados nos valores e hierarquias da filialidade (<span class=\"s2\">\u5b5d <\/span><i>xiao<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p3\">A rectifica\u00e7\u00e3o da natureza moral (<span class=\"s2\">\u6027 <\/span><i>xing<\/i>) de cada sujeito passa ent\u00e3o pelo cultivo de si<i> (<\/i><span class=\"s2\">\u4fee\u8eab<\/span><i> xiushen<\/i>), por uma educa\u00e7\u00e3o que permitir\u00e1 expurgar de cada cora\u00e7\u00e3o (<span class=\"s2\">\u5fc3<\/span> <i>xin<\/i>) os desejos ego\u00edstas e participar plenamente na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade onde, quando realizada, predominar\u00e1 a harmonia.<\/p>\n<p class=\"p3\">Mas o que \u00e9 esta natureza moral? Natureza (<span class=\"s2\">\u6027 <\/span><i>xing<\/i>) significa fundamentalmente \u201cnatureza humana\u201d, apesar de Zhu Xi a generalizar a todos os seres. O C\u00e9u confere ao homem a sua natureza que necessita, no entanto, de ser regulada atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o porque ao longo da vida ela \u00e9, geralmente, desvirtuada. Portanto, a natureza humana \u00e9 entendida como tendo um car\u00e1cter transcendental (n\u00e3o transcendente), na medida em que \u00e9 decorrente do C\u00e9u. De notar ainda que existe uma homologia (uma mesma estrutura) entre C\u00e9u e Natureza Humana, o que justificar\u00e1 o desenvolvimento ao longo de todo o pensamento chin\u00eas (nomeadamente, entre os letrados) de uma \u201contologia\u201d moral.<\/p>\n<p class=\"p3\">A moral encontra aqui um princ\u00edpio natural e universal, que \u00e9 inalter\u00e1vel, coerente e espont\u00e2neo. O que poderia, em termos de filosofia ocidental, ser considerado unicamente transcendental, absorve aqui a no\u00e7\u00e3o de iman\u00eancia. A moral n\u00e3o vai contra a natureza humana; pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 um \u201cestado natural\u201d do homem, sendo pervertida pelos acidentes da exist\u00eancia e pelo ego\u00edsmo de cada indiv\u00edduo. A natureza humana (moral) \u00e9 dada, mas n\u00e3o realizada. Para a realizar, h\u00e1 que recorrer \u00e0 educa\u00e7\u00e3o\/cultivo de si.<\/p>\n<p class=\"p3\">Contudo, atrevo-me a detectar aqui um aspecto pouco sublinhado: \u00e9 que este primeiro terceto de afirma\u00e7\u00f5es imediatamente se aflora o perfume hedonista do confucionismo, a saber, <i>a import\u00e2ncia da satisfa\u00e7\u00e3o e do prazer<\/i> que resulta da pr\u00e1tica informada pelo estudo; da socializa\u00e7\u00e3o com pessoas que partilham a mesma Via, trocando experi\u00eancias e informa\u00e7\u00e3o; e de, interiormente, para si mesmo, n\u00e3o depender do reconhecimento alheio. Esta abertura assume o gesto de uma <i>promessa de felicidade, <\/i>a defini\u00e7\u00e3o que Stendhal nos proporciona de Beleza (em <i>Do Amor<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Assim, a exist\u00eancia de uma pessoa exemplar (<i>junzi<\/i>) ser\u00e1 pautada por sensa\u00e7\u00f5es de satisfa\u00e7\u00e3o e prazer. Estas adv\u00eam, em primeiro lugar, da realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica dos seus estudos, n\u00e3o bastando a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos mas, sobretudo, saber quando os aplicar com efic\u00e1cia. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Em segundo lugar, a frui\u00e7\u00e3o da companhia de amigos, provavelmente gente que chegava de s\u00edtios distantes para o seguirem como disc\u00edpulos. O caracter <span class=\"s2\">\u670b<\/span>(<i>peng<\/i>) significa, etimologicamente desde o tempo de Conf\u00facio, alunos de um mesmo mestre, seguidores de uma Via ou membros de uma confraria. Mas esta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 contrariada por alguns comentadores que v\u00eam na express\u00e3o de Conf\u00facio uma simples refer\u00eancia a \u201camigos\u201d sem que estes tenham for\u00e7osamente de se sentar \u00e0 sombra das suas ideias.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Em terceiro lugar, o Mestre refere-se a movimentos do cora\u00e7\u00e3o e ao facto de uma pessoa exemplar n\u00e3o albergar sentimentos negativos por n\u00e3o ter reconhecimento social. A pessoa exemplar (<\/span><span class=\"s5\">\u541b\u5b50<\/span><span class=\"s4\"><i>junzi<\/i><\/span><span class=\"s5\">)<\/span><span class=\"s4\"> n\u00e3o sentir\u00e1 \u00f3dio, nem inveja, nem ci\u00fame ou sequer desapontamento. Este mergulho na interioridade e a presum\u00edvel constru\u00e7\u00e3o de uma harmonia interna ser\u00e3o o culminar do cultivo de si (<\/span><span class=\"s5\">\u4fee\u8eab<\/span><span class=\"s4\"> <i>xiushen<\/i>) e da posterior pr\u00e1tica da benevol\u00eancia (<\/span><span class=\"s5\">\u4ec1 <\/span><span class=\"s4\"><i>ren<\/i>).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Mas o que \u00e9 um <i>junzi, <\/i>que traduzimos preferencialmente por \u201cpessoa exemplar\u201d? \u00c0 letra l\u00ea-se: \u201cfilho do senhor\u201d. Normalmente, tem sido traduzido por \u201chomem superior\u201d, \u201chomem nobre\u201d ou mesmo &#8220;cavalheiro&#8221; (a partir do ingl\u00eas <i>gentleman<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p3\">A re-significa\u00e7\u00e3o confuciana do termo entende-se quando pensamos no car\u00e1cter educativo deste pensamento, tornando l\u00f3gico que seja direcionado a algu\u00e9m que assumir\u00e1 no futuro responsabilidades governativas. No entanto, o conceito ultrapassa a mera esfera do pol\u00edtico e, porque \u00e9 no cultivo de si que se atinge a alta excel\u00eancia, onde a benevol\u00eancia \u00e9 regra da ac\u00e7\u00e3o, parece-nos ajustado traduzir por \u201cpessoa exemplar\u201d, dando assim uma multiplicidade de sentidos \u00e0 hierarquia.<\/p>\n<p class=\"p3\">O <i>junzi<\/i> ser\u00e1 algu\u00e9m cuja produ\u00e7\u00e3o moral o torna num exemplo a seguir, opera\u00e7\u00e3o fundamental da moral social e pol\u00edtica confucionista. De sublinhar que Conf\u00facio realiza <i>uma desloca\u00e7\u00e3o no conceito de um sentido filiativo para um sentido \u00e9tico e moral<\/i>. Finalmente, pouco lhe importa a origem social deste homem mas sim o modo como, atrav\u00e9s do cultivo de si, recupera a sua natureza original e age virtuosamente no seu tempo. Estamos assim perante dois aspectos: um interno e um externo, embora a distin\u00e7\u00e3o entre ambos seja fluida. <i>Junzi<\/i> surge, geralmente, por oposi\u00e7\u00e3o a <i>xiaoren<\/i> <span class=\"s2\">\u5c0f\u4eba <\/span>(pessoa menor). Segundo Anne Cheng, <i>junzi<\/i> \u201cdesigna nos textos antigos todo o membro da alta nobreza mas, (&#8230;) na linguagem de Conf\u00facio, ganha um sentido novo, a \u2018qualidade\u2019 do homem nobre n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 exclusivamente determinada pelo seu nascimento, mas depende tamb\u00e9m e sobretudo do seu valor como ser humano realizado. A eleva\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 referida ao n\u00edvel social mas ao valor moral.\u201d (Cheng, Anne, 1997, 67)<\/p>\n<p class=\"p3\">Voltando \u00e0 senten\u00e7a que abre os <i>Analectos<\/i>: pragmatismo e hedonismo (a boa vida), dois vectores que atravessar\u00e3o transversalmente o pensamento chin\u00eas, n\u00e3o apenas como motivos ou efemeridades temporais, mas como alicerces, conceitos e pr\u00e1ticas fundacionais.<\/p>\n<p class=\"p3\">Tamb\u00e9m no futuro, 1500 anos depois de Conf\u00facio, os fil\u00f3sofos debateriam &#8220;o que estudar&#8221; preferencialmente, ou seja, afinal em que consiste a &#8220;investiga\u00e7\u00e3o das coisas&#8221;, se devemos prestar aten\u00e7\u00e3o ao que nos \u00e9 exterior (ou se esse exterior existe ou deve ser considerado em si) ou se, pelo contr\u00e1rio, nos devemos abismar na nossa rectifica\u00e7\u00e3o interna, ou ainda se existe uma via interm\u00e9dia entre estas duas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] O Mestre disse: \u201cEstudar para aplicar na altura certa aquilo que se aprendeu \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 isto uma fonte de prazer? 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