{"id":1226,"date":"2025-10-21T23:01:14","date_gmt":"2025-10-21T15:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1226"},"modified":"2025-10-21T23:01:14","modified_gmt":"2025-10-21T15:01:14","slug":"limites-moral-individuo-e-criatividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/limites-moral-individuo-e-criatividade\/","title":{"rendered":"Limites &#8211; Moral, indiv\u00edduo e criatividade"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9 <span class=\"s1\">muito<\/span> clara em Conf\u00facio a primazia dada a um enquadramento moral na aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos. Estudar n\u00e3o deve ser apenas entendido como uma soma de saberes, de conhecimentos sobre os diversos aspectos da exist\u00eancia, pr\u00e1ticos e te\u00f3ricos. Toda a ac\u00e7\u00e3o do ser humano produz moral, portanto todo o seu esfor\u00e7o deve ser sempre dirigido ao aperfei\u00e7oamento interior e \u00e0 procura de um comportamento exemplar.<\/p>\n<p class=\"p3\">A aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos n\u00e3o deve, por isso, ser deixada ao acaso ou \u00e0 mera vontade do estudante. Ela tem de ser enquadrada num modelo moral, que define os objectivos dos estudos. Em termos de comportamento social, os objectivos est\u00e3o claramente definidos, na medida em que decorrem de ritos. \u00c9 no interior de cada um, na sua individualidade mais abissal, que reside o mist\u00e9rio de uma identidade que tem de ser \u201creconstru\u00edda\u201d, dentro dos par\u00e2metros definidos pela \u00e9tica confucionista. Ent\u00e3o, \u00e9 no modo (a sua identidade, derivada tamb\u00e9m das qualidades do seu <i>qi<\/i>) que cada um encontra de chegar mais ou menos perto de percorrer a Via do Meio, que reside, digamos que, o \u201cestilo\u201d individual.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Mas o que conv\u00e9m sublinhar \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o que, a partir de Conf\u00facio, se processa no pr\u00f3prio conceito de <i>estudar <\/i><\/span><span class=\"s3\">\u5b78 (<\/span><span class=\"s2\"><i>xue<\/i>). De facto, em l\u00edngua portuguesa a palavra \u201cestudar\u201d n\u00e3o abrange o significado que os <i>Analectos<\/i> lhe d\u00e3o, pois n\u00e3o se trata apenas de uma mera aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos nem da disposi\u00e7\u00e3o interior de um sujeito que se compraz com meros acrescentos de saberes e de sentidos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cEstudar\u201d, o caracter <span class=\"s4\">\u5b78 (<\/span><i>xue<\/i>), na sua origem, representaria um sal\u00e3o de tiro ao arco, onde a aristocracia Zhou estudava e aprendia essa arte. Da\u00ed ter\u00e1 adquirido um sentido mais geral, passando a designar todo o tipo de estudo ou educa\u00e7\u00e3o, eivado de um conte\u00fado cerimonial e religioso.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">O confucionismo, mantendo o seu sentido de aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos, elevou <\/span><span class=\"s6\">\u5b78 (<\/span><span class=\"s5\"><i>xue<\/i>) \u00e0 dignidade de um aperfei\u00e7oamento moral e, ao mesmo tempo, de uma realiza\u00e7\u00e3o pessoal, na medida em que o define como o caminho para o cultivo de si e consequente recupera\u00e7\u00e3o da natureza original e \u00fanica de cada indiv\u00edduo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Neste sentido, <i>estudar<\/i> <\/span><span class=\"s3\">\u5b78 (<\/span><span class=\"s2\"><i>xue<\/i>) adquire, na sua realiza\u00e7\u00e3o mais extrema, um sentido reflexivo, que implica uma desapiedada auto-an\u00e1lise e uma constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria original, se quisermos entender nesse sentido a \u201crecupera\u00e7\u00e3o da natureza original que o C\u00e9u nos d\u00e1\u201d. Em II.15. o Mestre diz: \u201cEstudar sem reflectir \u00e9 in\u00fatil; reflectir sem estudar \u00e9 pernicioso.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Coloca-se aqui a quest\u00e3o de saber se existe possibilidade de criatividade e se existe um lugar para o indiv\u00edduo no seio do confucionismo. Em primeiro lugar, temos de distinguir, obviamente, entre as ideias confucionistas e a pr\u00e1tica dos que delas se apoderaram e utilizaram como instrumento de poder. Tentar encontr\u00e1-las na pr\u00e1tica de muitos dos governantes que se diziam confucionistas resulta no mesmo que tentar encontrar a pr\u00e1tica dos ditames de Cristo nas ac\u00e7\u00f5es dos reinos ditos crist\u00e3os. Neste caso, interessam-nos as ideias e n\u00e3o o modo como foram esquartejadas e utilizadas ao sabor das conveni\u00eancias da Hist\u00f3ria, embora tal n\u00e3o seja com certeza algo a deixar de considerar noutro contexto.<\/p>\n<p class=\"p3\">Assim, segundo Zhu Xi, homem de proa do neoconfucionismo da dinastia Song, o C\u00e9u distribui a cada um diferentes quantidades e qualidades de <i>qi<\/i> (sopro, for\u00e7a vital), o que faz de todos n\u00f3s uma singularidade que, em cada caso, ter\u00e1 necessariamente de percorrer um caminho diferente para realizar a sua natureza original. Esta teria em si imbu\u00eddos os valores fundacionais de <i>ren, yi, cheng, xiao<\/i>, etc., que ao longo da exist\u00eancia v\u00e3o sendo desvirtuados pela vida social e pelos desejos ego\u00edstas. \u00c9 no construir desse caminho, n\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do objectivo, que reside a interven\u00e7\u00e3o individual. O objectivo \u00e9 natural e universal, ou seja, a moral \u00e9 natural e universal. Como &#8220;relembr\u00e1-la&#8221;, reintroject\u00e1-la e agir em conformidade \u00e9 o desafio de cada um, perante a particularidade que enfrenta.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Num contexto confucionista, a criatividade na ac\u00e7\u00e3o passa pelo modo encontrado de se conformar aos valores universais perante uma situa\u00e7\u00e3o concreta. Como \u00e9 que, atendendo ao meu <i>qi<\/i>, \u00e0 minha predisposi\u00e7\u00e3o interior, ao meu car\u00e1cter, me posso tornar um <i>junzi<\/i>? N\u00e3o se trata, no entanto, de possuir as qualidades em <i>pot\u00eancia<\/i>, porque o verdadeiramente importante \u00e9 saber <i>agir<\/i> como um <i>junzi<\/i> agiria em cada situa\u00e7\u00e3o particular.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Portanto, para que a ac\u00e7\u00e3o seja correcta e benevolente, cada um ter\u00e1 de construir no espec\u00edfico interior uma etologia pr\u00f3pria, desapaixonada, anal\u00edtica, que lhe permita avaliar e agir sem delongas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Repare-se que a dial\u00e9ctica plat\u00f3nica n\u00e3o se encontra muito distante. Para o fil\u00f3sofo grego, o objectivo superior seria o acesso aos arqu\u00e9tipos originais, eles pr\u00f3prios ideias fixas e universais. Para o atingir, ter\u00e1 de se passar da <i>doxa<\/i> (opini\u00e3o) para o conhecimento dos <i>seres matem\u00e1ticos<\/i> e finalmente ao conhecimento das ideias superiores, os <i>arqu\u00e9tipos<\/i>. Estes n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de serem alterados, meramente conhecidos, contemplados (teorizados). Tanto no caso do platonismo como do confucionismo \u00e9 admitida a transcendentalidade de algo fixo, imut\u00e1vel em si mesmo, v\u00e1lido para todos os seres humanos. Contudo, muito diferem no modo como a concebem e nos caminhos usados para a atingir.<\/p>\n<p class=\"p3\">Por exemplo, no confucionismo, se n\u00e3o for rapidamente testado na pr\u00e1tica, o conhecimento perde o seu valor e n\u00e3o deve ser procurado como um valor em si mesmo. \u00c9 por isso que Zi Lu, um dos disc\u00edpulos favoritos, &#8220;quando (&#8230;) aprendia algo, o seu \u00fanico medo era aprender mais, antes de conseguir agir de acordo com o que aprendera.&#8221;(V.14.) Quando aprende algo, Zi Lu n\u00e3o passa a uma nova li\u00e7\u00e3o at\u00e9 que tenha posto em pr\u00e1tica com sucesso o que tinha aprendido. O foco \u00e9 colocado na pr\u00e1tica real, por oposi\u00e7\u00e3o ao mero conhecimento te\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"p3\">Wang Yangming aproveita esta passagem para criticar a sua \u00e9poca: \u201cOs nossos contempor\u00e2neos nunca est\u00e3o sem conhecimento. Eles andam por todo o lado, acumulando conhecimentos in\u00fateis sem nunca os manifestar em ac\u00e7\u00e3o. Mesmo quando conseguem p\u00f4r algo em pr\u00e1tica, n\u00e3o demostram nenhuma urg\u00eancia, como a de Zi Lu. Matam o seu tempo e cumprem os seus deveres de forma superficial; (&#8230;) e, mesmo quando se deparam com esta passagem na sua leitura, continuam inconscientes da sua vergonha.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Como somos todos diferentes, alguns ter\u00e3o mais facilidade em que adquirir sabedoria do que outros. Conf\u00facio chama isso &#8220;propens\u00e3o natural&#8221;: \u201cA sabedoria (<span class=\"s4\">\u77e5 <\/span><i>zhi<\/i>) adquirida atrav\u00e9s de uma propens\u00e3o natural para o conhecimento \u00e9 a de n\u00edvel mais alto; a sabedoria adquirida atrav\u00e9s do estudo vem em segundo lugar; em seguida, est\u00e3o aqueles que tendo dificuldade em entender persistem, contudo, nos seus estudos. Por\u00e9m, as pessoas que t\u00eam dificuldade em compreender, mas nem sequer tentam aprender s\u00e3o as piores de todas\u201d, resume o Mestre.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">As propens\u00f5es (<i>sheng<\/i>) n\u00e3o devem ser entendidas como esp\u00e9cie de categorias <i>a priori<\/i>, ou mesmo inatas, apesar de a tradu\u00e7\u00e3o literal do caracter ser, de facto, \u201cnascimento\u201d. O sentido de \u201cabertura\u201d, em termos quase heideggerianos, parece estar mais em conson\u00e2ncia com uma leitura correcta de <i>sheng<\/i>. O pr\u00f3prio Conf\u00facio ter\u00e1 negado pertencer \u00e0quela primeira categoria de conhecimento, nomeadamente no Livro VII: \u201cN\u00e3o sou o tipo de pessoa que ganhou conhecimento atrav\u00e9s de uma propens\u00e3o natural. Pelo contr\u00e1rio, amando a antiguidade, dedico-me por inteiro a busc\u00e1-la.\u201d <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Yang Shi comenta: \u201cTodas as tr\u00eas primeiras categorias, embora diferentes em termos de disposi\u00e7\u00e3o original, s\u00e3o as mesmas no que respeita \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de conhecimento. \u00c9 por isso que a pessoa exemplar valoriza a aprendizagem e nada mais. S\u00f3 aquele que n\u00e3o aprende porque acha dif\u00edcil \u00e9 que acaba por ser considerado inferior.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">O modo mais f\u00e1cil e expedito de estudar e adquirir conhecimento \u00e9 atrav\u00e9s de um mestre. Bem pode uma pessoa dedicar-se a ler volumosos calhama\u00e7os, deslizar qual enguia entre as mais esot\u00e9ricas teorias, que nada chega \u00e0 partilha do saber de outra pessoa, nomeadamente de algu\u00e9m eivado de sabedoria. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">\u00c9 o que nos diz Mestre Xun (Xun Zi), um confucionista que, ao contr\u00e1rio de M\u00eancio, considerava o C\u00e9u era amoral e o seres humanos maus como as cobras ou pior. E a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que Xun Zi encontrava residia na educa\u00e7\u00e3o do animal homem. Para ele, s\u00f3 atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o e dos ritos era poss\u00edvel fazer deste bicho de m\u00e1 \u00edndole um ser capaz de ser benevolente, recto, aut\u00eantico, etc.. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Ent\u00e3o, para apressar o processo, afirma: \u201cNo que concerne o estudo, nada h\u00e1 mais expediente do que nos chegarmos \u00e0 pessoa certa [um mestre]. Os rituais e a m\u00fasica oferecem modelos apropriados, mas n\u00e3o d\u00e3o os preceitos. As <i>Odes<\/i> e os <i>Documentos<\/i> cont\u00eam antigas hist\u00f3rias, mas n\u00e3o explicam a sua aplica\u00e7\u00e3o no presente. Os <i>Anais da Primavera e Outono<\/i> s\u00e3o expl\u00edcitos, mas a sua compreens\u00e3o \u00e9 laboriosa. Contudo, se imitares a pessoa certa na sua pr\u00e1tica dos preceitos de pessoa exemplar (<i>junzi<\/i>), ent\u00e3o conseguir\u00e1s honrar essas coisas na sua abrang\u00eancia e ver como abarcam o mundo todo. Assim, no que concerne o estudo, nada h\u00e1 mais expediente do que nos chegarmos \u00e0 pessoa certa.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 isto: quem pretender apressar a sua educa\u00e7\u00e3o e aprender na pr\u00e1tica, pela observa\u00e7\u00e3o do comportamento de um s\u00e1bio, mais n\u00e3o ter\u00e1 de fazer sen\u00e3o encontrar e seguir um mestre. Boa sorte!<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] \u00c9 muito clara em Conf\u00facio a primazia dada a um enquadramento moral na aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos. Estudar n\u00e3o deve ser apenas entendido como uma soma de saberes, de conhecimentos sobre os diversos aspectos da exist\u00eancia, pr\u00e1ticos e te\u00f3ricos. 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