{"id":1235,"date":"2025-10-21T23:14:23","date_gmt":"2025-10-21T15:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1235"},"modified":"2025-10-21T23:14:23","modified_gmt":"2025-10-21T15:14:23","slug":"meditando-com-han-shan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/meditando-com-han-shan\/","title":{"rendered":"Meditando com Han Shan"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>I<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">A<span class=\"s1\">nt\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/span> <span class=\"s2\">possui vasta obra po\u00e9tica publicada, entre os t\u00edtulos destaco: <i>China de Jade <\/i>(1997), <i>China de Seda <\/i>(2001); <i>Terra de Musgo e de Alegria <\/i>(2005); <i>China de L\u00f3tus <\/i>(2006); <i>C\u00e1lice de Neblinas e Sil\u00eancios <\/i>(2008); <i>A Cor das Cerejeiras <\/i>(2010). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">O poeta e sin\u00f3logo \u00e9 ainda tradutor de poesia cl\u00e1ssica chinesa, tendo traduzido para portugu\u00eas os seis maiores poetas da China: Li Bai (1990); Bai Juyi (1991); Wang Wei (1993); Han Shan (2009); Du Fu (2015) e Su Dongpo (2023).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Lan\u00e7ou em setembro de 2024, em segunda edi\u00e7\u00e3o, <i>Han Shan Poemas<\/i><span class=\"s3\">\u5bd2\u5c71\u8a69<\/span> (2024) com a Editora Gr\u00e3o-Falar.<\/p>\n<p class=\"p5\">Em <i>Han Shan Poemas<\/i><span class=\"s3\">\u5bd2\u5c71\u8a69<\/span>, Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu convida a visitar o mundo po\u00e9tico deste budista Chan, Zen no Jap\u00e3o. O poeta, cujo nome significa \u201cMontanha Fria\u201d, talvez tenha vivido no s\u00e9culo VIII, durante o per\u00edodo \u00e1ureo da dinastia Tang (618-906), tendo-nos brindado com uma medita\u00e7\u00e3o existencial \u00fanica sobre o vazio.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">O Eremita da \u201cMontanha Fria\u201d, se acaso viveu no s\u00e9culo VIII, ter-se-\u00e1 cruzado, como sugere Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu no <i>Pref\u00e1cio<\/i> \u00e0 obra que traduziu, com os maiores vultos po\u00e9ticos da dinastia Tang, quer dizer, Wang Wei, Li Bai e Du Fu. A verdade \u00e9 que, tirando a lenda a seu respeito e do filho adotivo e irm\u00e3o espiritual Shi De, pouco mais se sabe sobre ele. No entanto, a lenda tem a vantagem de nos alertar para o essencial quer da vida de Han Shan quer de Shi De, j\u00e1 que o poeta abandonou a mulher bonita que tinha, no sop\u00e9 da Montanha Tai, na aldeia de Qinfeng, na prov\u00edncia de Shandong, por acreditar que o cora\u00e7\u00e3o dela pendia para o filho adotivo adolescente, Shi De; e este \u00faltimo ao perceber a confus\u00e3o gerada foi procurar por muito tempo Han Shan at\u00e9 o encontrar no mosteiro budista de Han Shan em Suzhou para onde entraria tamb\u00e9m como monge. A atitude de ambos denota que o tra\u00e7o de uni\u00e3o entre eles era a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o Budista, dedica\u00e7\u00e3o essa vivida poeticamente por Han Shan. Este legaria um estilo po\u00e9tico budista <i>Chan<\/i> (<\/span><span class=\"s5\">\u79aa<\/span><span class=\"s4\"> <i>Ch\u00e1n<\/i>), que seria transferido no Jap\u00e3o de Matsuo Bash\u00f4 (1644-1694) para a forma Zen.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">J\u00e1 antes na dinastia Song, o primeiro-ministro, poeta e letrado Wang Anshi (1021-1086) se referira \u00e0 imita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para os estetas crentes mas quase imposs\u00edvel do estilo po\u00e9tico de Han Shan, nas palavras apresentadas por Gra\u00e7a de Abreu \u201cProcuramos a \u00e1gua e apenas ele encontrou a nascente\u201d (Han Shan, Apud Abreu, 2024, 23).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>II<\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s6\">Dos 311 poemas de Han Shan, 15 foram traduzidos por Gra\u00e7a de Abreu, tendo anteriormente 25 sido por Jacques Pimpaneau, adaptados na vers\u00e3o po\u00e9tica de Ana Hatherly para portugu\u00eas. Qual \u00e9 ent\u00e3o o estilo que inspirou tantos poetas e anima os poemas de \u201cMontanha Fria\u201d?<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O estilo filos\u00f3fico de Han Shan revela, antes de mais, o amor \u00e0 natureza, que permite enquanto paisagem a concentra\u00e7\u00e3o no essencial, o cora\u00e7\u00e3o-mente (<span class=\"s3\">\u5fc3<\/span> <i>xin<\/i>), seguindo-se a par do elogio do vazio, contraponto a uma exist\u00eancia ef\u00e9mera, eivada de sofrimento, doen\u00e7a e morte, pelo que a medita\u00e7\u00e3o sobre o vazio, auxilia o cora\u00e7\u00e3o-mente a cultivar uma atitude tranquila e desprendida das paix\u00f5es e prazeres terrenos, bem como a suportar, com a paci\u00eancia poss\u00edvel, \u00e0s vezes com alguns desabafos, as dificuldades, limita\u00e7\u00f5es e desafios de uma vida curta, repleta de pobreza e frugalidade. O sentimento da brevidade da vida e o envelhecimento, magoam-no, sobretudo por compara\u00e7\u00e3o aos tempos de juventude. Apesar de toda a medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 perpassado por for\u00e7as contradit\u00f3rias, que expressa poeticamente, por exemplo, em as pessoas \u201cS\u00e3o flores num dia de Primavera, \/abrem de manh\u00e3, murcham ao entardecer\u201d (Abreu, 2009, 12).<\/p>\n<p class=\"p5\">Satiriza e cr\u00edtica gente poderosa, rica e avarenta, apontando o tal caminho frugal, cultivado por taoistas e budistas, revelando ainda estranheza por certos monges budistas se apegarem a atitudes mundanas, denotadoras de valoriza\u00e7\u00e3o de bens materiais em lugar de se concentrarem em desenvolver a for\u00e7a espiritual que os poder\u00e1 aproximar do<i> Dharma<\/i>, a lei de Buda.<\/p>\n<p class=\"p5\">Os grandes oficiais, os ministros de estado, a quem os portugueses chamaram mandarins, s\u00e3o de igual modo satirizados e denunciados pela prepot\u00eancia e injusti\u00e7a com que exercem os seus cargos. Para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cHoje compreendo melhor: riquezas, honrarias, \/ o nome, a fama, tudo \u00e9 in\u00fatil e vazio.\u201d (Abreu, 2009, 16).<\/p>\n<p class=\"p5\">O pref\u00e1cio \u00e0 obra, primorosamente organizado, encontra-se dividido em: apresenta\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica do poeta, intitulada \u201cDo poeta e da bruma\u201d; \u201cDa Poesia\u201d; \u201cDa Tradu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cConclus\u00e3o\u201d. No que respeita \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, a poesia de Han Shan, segundo nos informa o seu tradutor, n\u00e3o \u00e9 das mais complicadas de traduzir, porque, por um lado, n\u00e3o se encontra repleta de sentidos figurativos e alus\u00f5es hist\u00f3ricas, por outro, utiliza uma linguagem simples e coloquial de modo a que possa ser entendida por todos. Os poemas, sem t\u00edtulo, s\u00e3o na sua maioria <i>Lushi <\/i><span class=\"s3\">\u5f8b\u8a69<\/span>, 8 versos regulares compostos por cinco ou sete caracteres. As rimas s\u00e3o paralelas e tonais, com altern\u00e2ncia entre os tons uniformes, e obl\u00edquos, sendo na concord\u00e2ncia tonal que o poeta ter\u00e1 recebido maiores cr\u00edticas por parte dos letrados, com pouco f\u00f4lego po\u00e9tico e muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s conven\u00e7\u00f5es. Quanto ao tradutor, confessa-se a trabalhar num registo de sombra cujo sil\u00eancio o ilumina (Abreu, 2024, 37). Considera ainda que a empatia com o poeta marca decisivamente os poemas a traduzir (Abreu, 2024,38), bem como \u201ca busca de identidade cultural e afetiva entre o tradutor e o poeta a traduzir\u201d (Abreu, 2024, 39). Considera-se ainda grato pelo seu trabalho n\u00e3o ser um percurso solit\u00e1rio, mas realizado em companhia da consorte, Wang Haiyuan e do velho amigo tradutor ao jeito dos letrados, Zhang Weimin, ilustre tradutor de Fernando Pessoa e Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es para Chin\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p5\">A rematar o <i>Pref\u00e1cio<\/i> recorda como s\u00e3o importantes as tradu\u00e7\u00f5es para manterem vivos os di\u00e1logos po\u00e9ticos entre toda a humanidade. Assim, devido \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de Jacques Pimpaneau, com vers\u00e3o po\u00e9tica de Ana Hatherly, em 2003, e da sua pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o, publicada primeiro em 2009 e agora em 2024, o poeta Han Shan torna-se cada vez mais familiar dos leitores portugueses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>III<\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">Esmiu\u00e7ando a an\u00e1lise tem\u00e1tica da poesia traduzida de Han Shan por Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu, comecemos pelo \u00faltimo poema da colet\u00e2nea, o 155, uma quadra chinesa <i>jueju<\/i> (<span class=\"s3\">\u7edd\u53e5<\/span>) sobre e, perdoe-se o paradoxo, vazio plenamente vivido pelo eremita na sua bela montanha fria:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Habito a montanha,<br \/>\n<\/i><i>ningu\u00e9m me conhece.<br \/>\n<\/i><i>Entre nuvens brancas,<br \/>\n<\/i><i>o sil\u00eancio, sempre o sil\u00eancio.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p9\" style=\"text-align: center;\">\u6211\u5c45\u5c71<br \/>\n\u52ff\u4eba\u8b58<br \/>\n\u767d\u96f2\u4e2d<br \/>\n\u5e38\u5bc2\u5bc2<br \/>\n(Abreu, 2024, 158\/9)<\/p>\n<p class=\"p4\">Esta \u00e9 a postura meditativa que todos os monges budistas procuram alcan\u00e7ar. Coexistir santamente na paisagem, com uma tranquilidade de esp\u00edrito s\u00f3 poss\u00edvel pela fus\u00e3o com a natureza, na contempla\u00e7\u00e3o silenciosa das nuvens brancas, tal como se ele pr\u00f3prio ao habitar na montanha tivesse incorporado as suas caracter\u00edsticas, ao jeito do trigrama \u201cMontanha\u201d <span class=\"s3\">(\u826e<\/span><i>gen<\/i><span class=\"s3\">)<\/span> do <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es<\/i> <span class=\"s3\">\u6613\u7ecf <\/span>fazendo crescer em si, a for\u00e7a, a solidez e a firmeza necess\u00e1rias a uma postura exteriormente im\u00f3vel, mas que desenvolve a m\u00e1xima energia a partir do seu interior, porque a viagem na montanha \u00e9 mental.<\/p>\n<p class=\"p4\">O corpo permanece no mesmo lugar, enquanto o esp\u00edrito do eremita procura o dom\u00ednio que lhe pertence e o vazio iluminante, receptivo e compreensivo de todos os males que afligem os seres vivos a nadar num mar de sofrimento at\u00e9 que a for\u00e7a da mente os liberte. Como adverte no poema numerado por Gra\u00e7a de Abreu 154, no qual declara ter mais de 100 anos, n\u00e3o se deve usar o cora\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar a \u201cv\u00e3 gl\u00f3ria\u201d mundana, j\u00e1 que ela arrasta in\u00fameros desejos fatais \u00e0s pessoas \u201cQuando se usa o cora\u00e7\u00e3o para renome e fama\/ entram no corpo cem diferentes desejos\u201d (<span class=\"s3\">\u5fc3\u795e\u7528\u76e1\u70ba\u540d\u5229<\/span>\/<span class=\"s3\">\u767e\u79cd\u8caa\u5a6a\u9032\u5df1\u8ec0<\/span>) (Abreu, 2024, 158\/9).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Aconselha o monge que o cora\u00e7\u00e3o das pessoas seja t\u00e3o vazio quanto poss\u00edvel, mas n\u00e3o indiferente aos outros, eis a grande dist\u00e2ncia entre as pessoas que vivem sem pensar, nem em si nem nos outros, e os monges, como o poeta, atentos ao fluir da exist\u00eancia e ao aux\u00edlio e liberta\u00e7\u00e3o de todos das amarras que mant\u00eam, segundo a filosofia budista <i>Chan<\/i>, os seres humanos prisioneiros sem de facto estarem encarcerados numa pris\u00e3o f\u00edsica. Estes podem at\u00e9 mover-se, aparentemente de uma forma livre, mas na realidade s\u00e3o cativos dos m\u00faltiplos desejos com que enchem e enfrenesiam as suas vidas e as alheias, pelo que o melhor \u00e9 o despojamento meditativo que conduz a uma exist\u00eancia simples e desprendida. Esta \u00e9 a via certa, a da liberta\u00e7\u00e3o das manchas e poeira do mundo, a \u00fanica que apazigua o cora\u00e7\u00e3o, em comunh\u00e3o profunda com a fal\u00e9sia, a n\u00e9voa, o arroio e porque o faz, sabemos o que sente no poema 154 \u201cNo meu corpo nem manchas, nem poeiras, \/no meu cora\u00e7\u00e3o nem tra\u00e7o de inquietude.\u201d (<\/span><span class=\"s7\">\u8eab\u4e0a\u7121\u5875\u57a2\uff0c<\/span><span class=\"s2\">\/<\/span><span class=\"s7\">\u5fc3\u4e2d\u90a3\u66f4\u6182\u3002<\/span><span class=\"s2\">) (Ibidem). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O poeta n\u00e3o \u00e9 insens\u00edvel \u00e0 beleza feminina das meninas, das flores e dos elementos naturais, mas a consci\u00eancia da efemeridade da felicidade, que n\u00e3o passa de breves momentos em longas exist\u00eancias, \u00e0s vezes mais de cem anos, como talvez a dele, condu-lo ao distanciamento dos prazeres da vida, como nos informa no poema 152 relativamente \u00e0 brevidade do riso e gozo, que encaminham inexoravelmente para o choro e sofrimento. S\u00f3 por meio da medita\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o poss\u00edvel relativizar as for\u00e7as positiva e negativa em a\u00e7\u00e3o, equilibrando-as de uma forma tensional, onde a pondera\u00e7\u00e3o da vacuidade da exist\u00eancia fenomenal \u00e9 decisiva ao bem-estar espiritual do poeta, j\u00e1 que as necessidades e car\u00eancias corp\u00f3reas s\u00e3o supridas pela harmonia no cora\u00e7\u00e3o-mente em contacto com o incenso exalado pela resina do pinheiro e pelos rebentos do cipreste, de acordo com o poema 150, \u201cTenho fome, uma bolinha desta panaceia,\/harmonia no cora\u00e7\u00e3o, encostado \u00e0s rochas\u201d (<span class=\"s3\">\u98e2\u9910\u4e00\u7c92\u52a0\u9640\u85e5<\/span>,\/<span class=\"s3\">\u5fc3\u5730\u8abf\u548c\u501a\u77f3\u982d<\/span>) (Abreu, 2024, 156-157).<\/p>\n<p class=\"p5\">Pode e deve estar silencioso e tranquilo \u201co cora\u00e7\u00e3o como a lua de outono\/ reflexo imaculado num lago esmeralda\u201d (<span class=\"s3\">\u543e\u5fc3\u4f3c\u79cb\u6708<\/span>\/<span class=\"s3\">\u78a7\u6f6d\u6e05\u768e\u6d01<\/span>) (Abreu, 2024, 53).<\/p>\n<p class=\"p5\">O ideal de muitos eremitas, de Han Shan em particular, \u00e9 conseguir afastar-se e descansar dos males do mundo, num lugar aben\u00e7oado pela beleza natural, prop\u00edcio, por isso, \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a espiritual, na \u00fanica companhia dos elementos naturais e dos textos sagrados, incluindo os dos poetas do passado e sobre imortais, assim alcan\u00e7a a energia, que se esconde se transferida para a sociedade humana, impelida pelos ventos fortes das paix\u00f5es individuais. Aqui fica a confiss\u00e3o de bem-estar de Han Shan, no poema 8:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Desejei um lugar para descansar,<br \/>\n<\/i><i>a Montanha Fria deu serenidade.<br \/>\n<\/i><i>Um vento leve sopra entre os pinheiros,<br \/>\n<\/i><i>de perto ouve-se melhor a can\u00e7\u00e3o da brisa.<br \/>\n<\/i><i>Sob as \u00e1rvores, um homem de cabelos brancos<br \/>\n<\/i><i>recita velhos textos tao\u00edstas.<br \/>\n<\/i><i>N\u00e3o deixo este lugar h\u00e1 j\u00e1 dez anos,<br \/>\n<\/i><i>esqueci o caminho por onde vim.<\/i><i><\/i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0\u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p9\" style=\"text-align: center;\">\u6b32\u5f97\u5b89\u8eab\u8655<br \/>\n\u5bd2\u5c71\u53ef\u9577\u4fdd<br \/>\n\u5fae\u98a8\u5439\u5e7d\u677e<br \/>\n\u8fd1\u542c\u8072\u903e\u597d<br \/>\n\u4e0b\u6709\u6591\u767d\u4eba<br \/>\n\u5583\u5583\u8b80\u9ec3\u8001<br \/>\n\u5341\u5e74\u6b78\u4e0d\u5f97<br \/>\n\u5fd8\u537b\u4f86\u6642\u9053<br \/>\n(Abreu, 2024, 54\/5)<\/p>\n<p class=\"p4\">Que melhor s\u00edtio para envelhecer do que este entre montanhas e penhascos, rios e lagos, acompanhado pela suave brisa ou pelo canto dos p\u00e1ssaros, aprendendo a escutar a voz da natureza em todas as esta\u00e7\u00f5es, das mais suaves e convidativas \u00e0s agrestes, estas \u00faltimas, \u00fateis para despertar a for\u00e7a de vontade e a resist\u00eancia a um mundo ilus\u00f3rio que, apesar da sua inexist\u00eancia em termos da verdadeira realidade, deixa marcas, que doem e transtornam os cora\u00e7\u00f5es, tumultuando-os como se em lugar de ventos suaves soprassem no interior impiedosos tuf\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p5\">Enquanto os contrastes e oposi\u00e7\u00f5es naturais produzem beleza, como as negras rochas e as nuvens brancas de que nos fala o poema ou, ainda, o salto imprevis\u00edvel das esta\u00e7\u00f5es da Primavera directamente para o Outono, o certo \u00e9 que os conflitos e oposi\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel humano causam feridas profundas, por vezes insan\u00e1veis, pelo que o eu po\u00e9tico confessa a sua prefer\u00eancia por um fluir sossegado dos dias sem confrontos dilacerantes para o seu cora\u00e7\u00e3o. Prefere ent\u00e3o suportar os rigores de uma montanha de que o gelo n\u00e3o se aparta, nem mesmo no Ver\u00e3o. Dada a op\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 de seguir uma vida frugal, satisfazendo apenas as necessidades alimentares b\u00e1sicas, pelo que sobrevive dos frutos que a dadivosa m\u00e3e-natureza coloca ao seu dispor, por isso explicita no poema 10, \u201c<i>Retirado na Montanha Fria, \/Alimento-me de frutos da montanha<\/i>\u201d (<span class=\"s3\">\u4e00\u81ea\u9041\u5bd2\u5c71<\/span>\/<span class=\"s3\">\u990a\u547d\u9910\u5c71\u679c<\/span>) (Ibidem).<\/p>\n<p class=\"p5\">Tal n\u00e3o significa que o eu po\u00e9tico n\u00e3o tenha momentos de desalento e de humana solid\u00e3o, isso sucede quando se deixa vencer pelo cansa\u00e7o e pelo sentimento da fugacidade da exist\u00eancia, como confessa no final do poema 27: \u201cO tempo foge, os cabelos brancos, t\u00e3o brancos,\/ o ano acaba e eu velho triste, t\u00e3o triste\u201d( <span class=\"s3\">\u6642\u50ac\u9b22\u98af\u98af<\/span>\/<span class=\"s3\">\u6b72\u76e1\u8001\u98af\u98af<\/span>) (Abreu, 2024, 70\/1)<\/p>\n<p class=\"p5\">J\u00e1 no tempo de Han Shan, presumivelmente o s\u00e9culo VIII da dinastia Tang, o mais importante para muitos senhores de ent\u00e3o era o dinheiro, como explica nos \u00faltimos verso do poema 41: \u201cmais importante que tudo \u00e9 o dinheiro (<span class=\"s3\">\u613f\u541b\u4f3c\u4eca\u65e5<\/span>\/<span class=\"s3\">\u9322\u662f\u6025\u4e8b\u723e<\/span>)(Abreu, 2024,80\/1)\u201d, a valoriza\u00e7\u00e3o dos bens materiais que o eu po\u00e9tico constata parece ser uma constante de todos os tempos em pessoas apenas concentradas nos interesses mundanos, que n\u00e3o conseguem entender que existem outras necessidades para al\u00e9m das f\u00edsicas, t\u00e3o importantes como estas e apenas alcan\u00e7\u00e1veis pela via da medita\u00e7\u00e3o. Pois para lutar contra os v\u00e3os desejos do mundo, o conselho dado ao s\u00e1bio \u00e9: \u201ccomo arma, leva apenas a espada da sabedoria,\u201d( <span class=\"s3\">\u5e38\u6301\u667a\u6167\u5251<\/span>) (Abreu, 2024, 82\/3), ele sabe que tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para se viver bem se encontra nos cinco elementos <i>Wu <\/i>Yin (<span class=\"s3\">\u4e94\u9670<\/span><i>Wu Yin<\/i> ) do Budismo <i>Mayahana<\/i> (Grande Ve\u00edculo): a forma, a sensibilidade, a percep\u00e7\u00e3o, a vontade e a consci\u00eancia, essenciais na compreens\u00e3o da pobreza e do vazio existenciais, mas ainda de uma certa leveza de um corpo tornado quase esp\u00edrito na Montanha Fria, como se l\u00ea nos \u00faltimos versos do poema 63 \u201c<i>Um vento cortante, a lua fria como gelo,\/ o meu corpo, um grou solit\u00e1rio voando<\/i>\u201d (<span class=\"s3\">\u5bd2\u6708\u51b7\u98bc\u98bc<\/span>\/<span class=\"s3\">\u8eab\u4f3c\u5b64\u98db\u9db4<\/span>) (Abreu, 2024, 94\/5).<\/p>\n<p class=\"p5\">Por fim, um conselho de est\u00e9tica religiosa que o eu po\u00e9tico deixa a todos os seus leitores no poema 64, naturalmente a seguir, porque a poesia \u00e9 a m\u00fasica das palavras que vai direta ao cora\u00e7\u00e3o-buda:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Em casa, ter poemas de Han Shan<br \/>\n<\/i><i>\u00e9 melhor do que ler <\/i>sutras<i>.<br \/>\n<\/i><i>Escrevam os poemas num biombo<br \/>\n<\/i><i>e olhem-nos, de vez em quando.<\/i><\/p>\n<p class=\"p9\" style=\"text-align: center;\">\u5bb6\u6709\u5bd2\u5c71\u8a69<br \/>\n\u80dc\u6c5d\u770b\u7d93\u5377<br \/>\n\u66f8\u653e\u5c4f\u98a8\u4e0a<br \/>\n\u6642\u6642\u770b\u4e00\u904d<br \/>\n(Ibidem)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p10\">Abreu, Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de (Org. e Trad.). 2024. <i>Poemas de Han Shan<\/i><span class=\"s9\">\u5bd2\u5c71\u8a69<\/span>. Lisboa: Gr\u00e3o-Falar.<\/li>\n<li class=\"p10\">Hatherly, Ana (Adapt.). <i>O Vagabundo do Dharma<\/i>. <i>25 poemas de Han-Shan<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o do chin\u00eas de Jacques Pimpaneau, vers\u00f5es po\u00e9ticas de Ana Hatherly e caligrafias de Li Kwok-Wing.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] I Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu possui vasta obra po\u00e9tica publicada, entre os t\u00edtulos destaco: China de Jade (1997), China de Seda (2001); Terra de Musgo e de Alegria (2005); China de L\u00f3tus (2006); C\u00e1lice de Neblinas e Sil\u00eancios (2008); A Cor das Cerejeiras (2010). 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