{"id":1249,"date":"2025-10-21T23:31:30","date_gmt":"2025-10-21T15:31:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1249"},"modified":"2025-10-21T23:31:30","modified_gmt":"2025-10-21T15:31:30","slug":"shitao-e-o-traco-unico-do-pincel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/21\/shitao-e-o-traco-unico-do-pincel\/","title":{"rendered":"SHITAO e o tra\u00e7o \u00fanico do pincel"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">O pintor \u00e9 cego: Xia Zun Zhe, o \u201chonor\u00e1vel cego\u201d foi um dos muitos, mais de duas d\u00fazias, de nomes escolhidos pelo homem que se tornaria um dos mais conhecidos e admirados pintores da China. A designa\u00e7\u00e3o tem uma conota\u00e7\u00e3o budista: cego para os desejos mundanos. No entanto, o choque de qualificar como cego algu\u00e9m que se dedica \u00e0s artes visuais cria um desejado efeito de perplexidade. Por outros dois nomes, Daoji ou Shitao, ele \u00e9 referido nas v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es de proeminentes pintores activos no in\u00edcio da dinastia Qing (1644-1911). Foram coleccionadas e copiadas as suas pinturas e lidas as suas palavras, as que est\u00e3o junto das pinturas e as que fazem parte do manual Huayulu, \u201cComent\u00e1rios Sobre a Pintura\u201d. \u00c9 um dos Quatro Monges nas listas de pintores onde constam tamb\u00e9m Bada Shanren Kuncan e Hongren mas \u00e9 tamb\u00e9m um dos Individualistas nas listas que juntam de novo Shitao e o seu primo afastado Bada Shanren. Ambos se encontravam na inc\u00f3moda situa\u00e7\u00e3o referida como os restos, (<i>yimin<\/i>), ou \u201cas sobras\u201d da decapitada dinastia Ming (1368-1644), a cuja fam\u00edlia imperial pertenciam. O modo como reagiram a essa situa\u00e7\u00e3o definiria o seu trajecto. Bada Shanren (1626-1705) era mais velho e p\u00f4de tomar uma decis\u00e3o radical no momento da mudan\u00e7a din\u00e1stica: n\u00e3o diria nem mais uma palavra. Shitao era uma crian\u00e7a a quem os acontecimentos se impuseram. Quando nasceu puseram-lhe o nome de Zhu Ruoji e esse nome, como um alarme, a vermelho, marcaria os primeiros anos da sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>O Monge Pintor<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">A cr\u00f3nica diz que ter\u00e1 nascido em Guilin, na prov\u00edncia de Guangxi em 1642. Face \u00e0 invas\u00e3o Manchu, um criado da fam\u00edlia percebe o perigo e foge com a crian\u00e7a em 1647 para se refugiar num mosteiro budista situado em Quanzhou, uma localidade pr\u00f3xima. Como descendente, na d\u00e9cima gera\u00e7\u00e3o, de Zhu Zanyi, o pr\u00edncipe de Jingjiang encontrava-se numa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria face ao novo poder imperial. Seguia assim um percurso habitual entre os leais \u00e0 anterior dinastia para quem os mosteiros budistas serviam de ref\u00fagio mas tamb\u00e9m de complexas jogadas pol\u00edticas. Existia no mosteiro de Ling-yen Chi-chi um poderoso prelado, entre cujos seguidores se encontravam um antigo primeiro-ministro e um ex-presidente do Conselho do Tesouro do pr\u00edncipe Tang, ambos da corte Ming no sul. Ora, o pai de Ruoji fora assassinado pelo pr\u00edncipe Tang, pelo que quando chega a hora de optar por um mosteiro, o jovem que fora crido entre os monges escolhe um rival de Ling-yen: o mestre Chan, Lu\u2019an Benyue, que servira Shunzhi, o primeiro imperador dos Qing. Ao faz\u00ea-lo, em 1662, estava a fazer uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pode ser interpretada como de ren\u00fancia aos Ming e lealdade aos novos governantes Qing.<\/p>\n<p class=\"p5\">Fez ent\u00e3o os seus votos de monge e vai escolhendo nomes para assinar os seus trabalhos de pincel. Muitos denotam a influ\u00eancia budista como Kugua Heshang, Monge Ab\u00f3bora Amarga, ou Yuanji, Origem da Salva\u00e7\u00e3o. O nome Shitao, que passa a usar ainda antes de 1651, \u00e9 composto por dois caracteres que significam pedra e onda. Os dois juntos podem ter uma pluralidade de sentidos, mas s\u00e3o geralmente interpretados como a \u201conda petrificada\u201d ou a \u201conda que se abate sobre o rochedo\u201d. Em 1664 encontra-se no mosteiro do monte Kun, em Songjiang, na prov\u00edncia de Jiangsu, com o mestre Lu\u2019an Benyue. No encontro com esse Mestre do Budismo Chan Shitao adquire o vocabul\u00e1rio decisivo para exprimir o que seria o seu caminho. Mais tarde recordaria uma conversa entre Lu\u2019an e um Mestre Xiu no templo Baoen: Xiu teria dito: \u201ctomemos o caracter \u201cum\u201d (escrito com um tra\u00e7o horizontal) e n\u00e3o se acrescente mais nada\u201d, e depois perguntou, \u201co que temos?\u201d Ao que Lu\u2019an respondeu: \u201co esquema est\u00e1 completo\u201d. Para Lu\u2019an \u201cum\u201d completava a transi\u00e7\u00e3o entre \u201cnada\u201d e \u201ctudo\u201d: antes de \u201cum\u201d nada existia, depois de \u201cum\u201d tudo \u00e9 cria\u00e7\u00e3o, um desenho completado. Shitao intuiu esse \u00fanico da cria\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do acto da pintura. Um conceito que designou como <i>yihua<\/i>, a pintura do \u00fanico ou da linha primordial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>As Barbas dos Antigos<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">E \u00e9 tamb\u00e9m Lu\u2019an Benyue que o incita a prosseguir uma vida de monge errante. E ele vai e inicia uma traject\u00f3ria marcada por dois movimentos: caminhar e parar para contemplar. J\u00e1 sabia que mais do que um monge, era um pintor. Desde os treze anos que os companheiros notavam a sua voca\u00e7\u00e3o, sobretudo quando pintava orqu\u00eddeas. E desde cedo percebe por onde n\u00e3o quer ir. Era um momento delicado na hist\u00f3ria da pintura na China. Dominavam a arte as teorias de Dong Qichang (1555-1636) que advogava uma rigorosa selec\u00e7\u00e3o de modelos adequados, simplificando a hist\u00f3ria da pintura em duas escolas ou linhagens, s\u00f3 uma das quais ele julgava apropriada para a pr\u00e1tica de literatos amadores cultos como ele pr\u00f3prio. Mas a via de Shitao era outra. Embora tivesse que aceitar integrar-se tacitamente na categoria mais culta de pintor amador, como Dong Qichang, ele, tal como Bada Shanren, n\u00e3o estava na posi\u00e7\u00e3o de dar mas receber o apoio de mecenas. Sabe-se por exemplo, que passou tr\u00eas anos a copiar rolos do acad\u00e9mico Ming, Qin Ying para um patrono Manchu, que lhe ter\u00e1 pago em dinheiro ou hospitalidade ou os dois, desmentindo assim a ideia de pintor amador.<\/p>\n<p class=\"p5\">A pr\u00f3pria forma de conhecer a arte moldava o estilo do artista. Os museus eram inexistentes, nas paredes dos templos s\u00f3 existiam pinturas figurativas do estilo popular e tradicional. Era pois, nas colec\u00e7\u00f5es privadas, entre c\u00edrculos de amigos, em originais ou c\u00f3pias, que se encontravam as mais complexas explora\u00e7\u00f5es da arte da pintura. A sa\u00edda que Shitao encontrou foi conceber a arte da pintura como se o passado n\u00e3o existisse, como se ele agora estivesse a inventar tudo pela primeira vez. Mas, paradoxalmente, at\u00e9 essa originalidade era can\u00f3nica. Dong Qichang dizia: \u201c\u00c9 melhor tomar a natureza como modelo e todas as manh\u00e3s (ou ao levantar), observar as formas cambiantes das nuvens, parar de pintar montanhas por algum tempo e caminhar nas montanhas. E se encontrar \u00e1rvores estranhas, olhar para elas de quatro \u00e2ngulos diferentes.\u201d<\/p>\n<p class=\"p5\">Shitao encapsulou esse impulso primordial numa frase que ficou famosa e seria repetida at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o: \u201cAs barbas e as sobrancelhas dos antigos n\u00e3o crescem na minha face\u201d. E acrescenta: \u201cas entranhas dos antigos n\u00e3o podem repousar nas nossas barrigas. N\u00f3s exprimimos as nossas pr\u00f3prias entranhas e exibimos as nossas pr\u00f3prias barbas e as nossas pr\u00f3prias sobrancelhas.\u201d Era o afloramento do seu car\u00e1cter provocat\u00f3rio, presente em coment\u00e1rios escritos em pinturas.<\/p>\n<p class=\"p5\">Numa pintura que est\u00e1 no Museu de Suzhou escreve, referindo-se a dois pintores, Mi Fu (1052-1107) e Dong Yuan (morreu em 962), que j\u00e1 eram autoridades incontestadas com os seus nomes associados a termos do vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico, descrevendo formas de pintar:<\/p>\n<p class=\"p2\"><i>\u201cDez mil pontos para p\u00f4r Mi Fu em p\u00e2nico!<br \/>\n<\/i><i>Algumas fibras de tra\u00e7os d\u00f3ceis para fazer Dong Yuan dar uma cambalhota \u00e0s gargalhadas<br \/>\n<\/i><i>\u00c0 dist\u00e2ncia a perspectiva n\u00e3o resulta<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>\u2013 faltam-lhe os ares vagos das paisagens.<br \/>\n<\/i><i>De perto os detalhes est\u00e3o todos confundidos \u2013 mal se percebem algumas simples cabanas.\u201d<\/i><\/p>\n<p class=\"p5\">E para que n\u00e3o se pense que se est\u00e1 desculpando de incompet\u00eancia, acrescenta:<\/p>\n<p class=\"p2\"><i>De uma vez por todos corte-se<br \/>\n<\/i><i>o cora\u00e7\u00e3o do olho dos moldes convencionais,<br \/>\n<\/i><i>tal como o imortal que cavalga o vento libertou<br \/>\n<\/i><i>o seu esp\u00edrito divino das grilhetas<br \/>\n<\/i><i>da carne e dos ossos.\u201d <\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p5\">E, referindo-se \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ortodoxa para aprender a pintura atrav\u00e9s da c\u00f3pia dos modelos antigos, ainda escreveria numa pintura:<\/p>\n<p class=\"p5\"><i> \u201cAqueles que entram pela porta ordin\u00e1ria para alcan\u00e7ar o Dao da pintura n\u00e3o s\u00e3o nada de especial.\u201d <\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p5\">Era naturalmente um ideal problem\u00e1tico e dif\u00edcil de realizar. Ao longo da sua vida faria obras que magnificamente ilustram essa utopia ao lado de outras feitas ao estilo de pintores antigos \u2013 caminhar e parar para contemplar. A tens\u00e3o entre o novo e o antigo era, ela mesma, j\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o no tempo de Shitao. Conf\u00facio (Kongzi, 551-479 a. C.) tinha dito: \u201cN\u00e3o pretendo ter nascido com o saber. \u00c9 na minha paix\u00e3o pelos Antigos que eu o bebo com ardor\u201d (<i>Analectos<\/i>, VII, 19).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>Encontrar o Esp\u00edrito <\/b><b>nos Rios e nas Montanhas<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Para l\u00e1 chegar, no entanto, ele tinha por certo que o est\u00edmulo para o trabalho de pintor haveria de se encontrar sempre na natureza, desdenhando dos pintores que \u201cnunca viram com os seus pr\u00f3prios olhos as montanhas famosas e os grandes rios&#8230; ou caminharam mais de cem li para l\u00e1 das portas da cidade\u201d. Rios e montanhas, caminhar e parar para contemplar o que passa e o que permanece. Era uma via peripat\u00e9tica que tinha itiner\u00e1rios a conhecer, como Xuancheng, em Anhui, Nanquim ou Yangzhou, em Jiangsu e outros a reconhecer.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Lugares de tal modo codificados pelos <i>wenrenhua<\/i>, os homens de cultura do seu tempo, que conhec\u00ea-los era interpret\u00e1-los. Zheng Rikui, um seu contempor\u00e2neo, passeando nos Terra\u00e7os do Pescador (os montes Diaotai, no leste de Zhejiang) escreveu: \u201cEis um passeio que n\u00e3o posso fazer com os meus p\u00e9s; fa\u00e7o-o com os olhos. Logo uma brisa fresca sopra (\u2026); passeio-me com o nariz (\u2026) \u2026a \u00e1gua estava deliciosa (\u2026) passeei com a minha l\u00edngua (\u2026) \u2026o barqueiro respondeu a todas as minhas perguntas (\u2026): passeei-me com as orelhas\u201d e depois: \u201cPassado um momento os picos das montanhas j\u00e1 n\u00e3o se viam, mesmo ao longe. Entrei ent\u00e3o na cabine (do barco) e retracei na minha mem\u00f3ria os relevos das montanhas e as curvas dos caminhos (\u2026) foi assim que me passeei em esp\u00edrito\u201d. A narrativa revela tanto a import\u00e2ncia do lugar como a maneira como a paisagem se autonomiza face ao ambiente f\u00edsico. Era uma tradi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha de longe, existia mesmo um termo \u2013 <i>woyou<\/i> \u2013 que significa passear estando deitado, como teria feito o pintor Zong Shaowen (375-443) que, estando j\u00e1 muito velho para ir fisicamente, se passeava pelas Cinco Montanhas Sagradas deitado na cama. Ou o poeta Sun Xinggong (314-371) que, \u00e0 dist\u00e2ncia, descrevia perfeitamente o Terra\u00e7o Celeste. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Shitao tinha vinte e sete anos quando encontra o m\u00edtico Lago do Oeste em Hangzhou na prov\u00edncia de Zhejiang que era outra paragem obrigat\u00f3ria. Aqui era o lugar para aprender as subtilezas, essenciais para um pintor culto do in\u00edcio da dinastia Qing. Porque este era verdadeiramente o \u201clago dos poetas\u201d, associado a nomes como Bai Juyi ou Su Dongpo que foi governador de Hangzhou. Mas tamb\u00e9m o povo sabe que aquele \u00e9 um lugar extraordin\u00e1rio, pois como toda a gente diz: \u201cNo c\u00e9u existe o para\u00edso, na terra h\u00e1 Suzhou e Hangzhou.\u201d O contraste entre quem sabia e quem n\u00e3o tinha aprendido l\u00ea-se na hist\u00f3ria de Zhang Da: uma noite de Inverno, no Lago do Oeste ele vai sozinho (o barqueiro n\u00e3o conta) contemplar a neve no Pavilh\u00e3o do Cora\u00e7\u00e3o do lago. Surpresa: j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o dois amadores cujo vinho, que um pequeno criado aquecia, come\u00e7ava a fumegar. Eles recebem-no com um grito de alegria: \u201cafinal, sobre o lago existe algu\u00e9m como n\u00f3s\u201d. E convidam-no a beber com eles. O guia deixa escapar o desabafo: \u201cj\u00e1 n\u00e3o direi mais que o meu honor\u00e1vel passageiro \u00e9 louco, existem outros mais doidos do que ele.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>Auto-retrato <\/b><b>no Centro de Um Jardim<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Shitao pintou-se muitas vezes ao longe, subindo a um pico, admirando uma paisagem distante, e a condizer com a sua vida errante, usava muitas vezes o \u00e1lbum de folhas para pintar.<\/p>\n<p class=\"p5\">Mas aos 33 anos quando vivia num pequeno templo, em Jingchuan, perto das Montanhas Amarelas (Huangshan), na prov\u00edncia de Anhui, recorre de forma surpreendente ao retrato numa pintura de rolo horizontal (dimens\u00f5es: 40,2&#215;170,4 cm) cujo contexto de origem \u00e9 dif\u00edcil de precisar.<\/p>\n<p class=\"p5\">Ao desenrolar a pintura o observador v\u00ea primeiro uma pedra com a forma extravagante de uma onda \u2013 alus\u00e3o ao seu nome? De seguida est\u00e1 um homem esguio sentado sobre um pinheiro com uma enxada na m\u00e3o. \u00c9 o pintor, o desenho da face real\u00e7ado em tons rosa ocre produzindo um extraordin\u00e1rio efeito de realidade. Mais \u00e0 frente, um monge e um macaco transportam a meias uma vara \u00e0 qual est\u00e1 preso um pequeno pinheiro. A cena reflecte exactamente o que se sabe do pintor na altura: que se fazia acompanhar por um pequeno macaco e que mandara transportar para o jardim do templo pinheiros que estavam nas Montanhas Amarelas. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que a pintura ilustre a sua concep\u00e7\u00e3o do mundo: algu\u00e9m que se via no centro de um universo hol\u00edstico, para quem a pintura representava a pr\u00f3pria vida. O jardim, microcosmos da natureza, seria um lugar privilegiado para o afirmar.<\/p>\n<p class=\"p5\">Na cultura erudita da China do s\u00e9culo XVII, o jardim toma uma fun\u00e7\u00e3o reveladora. Na Hist\u00f3ria da Pedra, tamb\u00e9m conhecida como Sonho do Pavilh\u00e3o Encarnado (Hong Lou Meng), o autor Cao Xueqin conta a hist\u00f3ria da fam\u00edlia Jia, para quem o jardim s\u00f3 ficaria terminado quando as suas estruturas internas fossem embelezadas atrav\u00e9s da nomea\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de cada recanto. Um membro da fam\u00edlia chega a dizer: \u201cTodas estas demandas (\u2026) mesmo as pedras e as \u00e1rvores e as flores ficariam de certo modo incompletas sem esse toque de poesia que s\u00f3 a palavra escrita pode emprestar a um cen\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p class=\"p5\">Os jardins, ali\u00e1s, estar\u00e3o presentes no resto da sua biografia. Sabe-se que em 1695, quando tem 53 anos, \u00e9 convidado pelo prefeito Zhang Jianyi para ir a Hefei (hoje em Anhui) para trabalhar nos jardins do pal\u00e1cio chamado Perfume de Arroz. Shitao recusa delicadamente mas um dia ao atravessar o Lago Ninho de P\u00e1ssaro, \u00e9 impedido por uma tempestade e realiza uma pintura do lago para o prefeito, em que recorda o am\u00e1vel convite. No fim da sua vida diz-se que passava o tempo \u201camontoando pedras\u201d, ou seja, desenhando jardins para os ricos comerciantes de Yangzhou, como o famoso Jardim das Dez Mil Pedras da fam\u00edlia Yu. Mas isso seria mais tarde, por agora continuaria a vaguear pelas Montanhas Amarelas e pela regi\u00e3o \u00e0 volta de Pequim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p5\"><b>Um Grande Pintor \u00e9 Encontrado <\/b><b>Pelo Imperador <\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Em 1680 o seu percurso err\u00e1tico leva-o at\u00e9 Nanquim onde durante os pr\u00f3ximos seis anos de uma vida em recolhimento, se instalar\u00e1 no Templo Changgan, conhecido na altura como Templo Baoen. Em recolhimento ou talvez n\u00e3o, se repararmos no nome que ele p\u00f4s \u00e0 pequena habita\u00e7\u00e3o em que vivia nesse templo a sul de Nanquim. Chamou-lhe o Pavilh\u00e3o do Ramo \u00danico da Ameixoeira, (<i>Yi Zhi Ge<\/i>). Ora, no <i>Lunyu<\/i>, os <i>Analectos<\/i> de Conf\u00facio, o Mestre cita uma can\u00e7\u00e3o: \u201cO ramo da ameixoeira em flor\/ Como ele se agita e rodopia! \/ N\u00e3o \u00e9 que por v\u00f3s eu n\u00e3o suspire\/ Mas v\u00f3s ficais longe de mim.\u201d E comenta: \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 amor, se ele amasse verdadeiramente, que lhe importaria a dist\u00e2ncia?\u201d (IX, 30). Esse desejo de proximidade quer com a verdade, quer com as pessoas, faziam parte dele. Ele era, como Wordsworth descreveu o poeta: \u201cum homem afectado pelas coisas ausentes como se estivessem presentes\u201d. Necessitava do di\u00e1logo com outros e, uma forma de viver entre eles, era come\u00e7ar a vender as suas pinturas. De in\u00edcio com pouco sucesso, mas o reconhecimento do seu trabalho foi-se desenrolando a par com o crescimento do seu c\u00edrculo de amizades.<\/p>\n<p class=\"p5\">Em breve o seu prest\u00edgio j\u00e1 era suficiente para ser recebido pelo imperador. Durante a sua primeira viagem de inspec\u00e7\u00e3o ao sul, em 1684, para ganhar o apoio daqueles que ainda se conservavam fi\u00e9is \u00e0 dinastia Ming, o imperador Kangxi (1654-1722) efectuou uma visita cerimonial ao mausol\u00e9u imperial dos Ming, em Nanquim. Como descendente da fam\u00edlia imperial Ming, Shitao teve direito a uma audi\u00eancia imperial. Seguiu-se uma segunda entrevista em 1689 e mais tarde nesse ano, por sugest\u00e3o do influente erudito Manchu Po-Erh-Tu, Shitao deslocou-se at\u00e9 \u00e0 corte, em Pequim. L\u00e1 conheceu Wang Yuanqi (1642-1715) que assinaria em conjunto com Shitao a pintura <i>Orqu\u00eddeas, Bambu e Rochas<\/i> em 1691, resultado de uma colabora\u00e7\u00e3o solicitada pelo patrono Po-Ehr-Tu. Numa inscri\u00e7\u00e3o na pintura, Wang nota que foi ele a acrescentar as rochas na encosta para \u201carredondar a composi\u00e7\u00e3o\u201d. Nada indica que Shitao tivesse deixado o espa\u00e7o vazio, atr\u00e1s dos bambus e das orqu\u00eddeas com essa inten\u00e7\u00e3o. Mais provavelmente tratar-se-ia do <i>liubai<\/i>, o espa\u00e7o deixado propositadamente em branco na imagem da paisagem para o observador nela entrar. E, no entanto, a exist\u00eancia dessa colabora\u00e7\u00e3o mostra o grau de audi\u00eancia que Shitao alcan\u00e7ara. Wang Yuanqi era um favorito pessoal do imperador Kangxi, para quem actuava como uma esp\u00e9cie de supervisor das colec\u00e7\u00f5es de arte imperiais. Era ele que autenticava as obras que l\u00e1 se conservavam, chegando a ser o editor de uma publica\u00e7\u00e3o composta por uma grande colec\u00e7\u00e3o de fontes escritas: o <i>\u00c1lbum de Pintura e Caligrafia no Est\u00fadio de Peiwen<\/i>, que se tornou uma esp\u00e9cie de c\u00e2none de escrita da hist\u00f3ria da arte, definindo alguns par\u00e2metros que s\u00e3o v\u00e1lidos ainda hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>Coment\u00e1rios Sobre a Pintura<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Em Pequim ter\u00e1 alcan\u00e7ado o reconhecimento para a sua pintura, mas n\u00e3o um desejado patroc\u00ednio para uma promo\u00e7\u00e3o dentro do sistema mon\u00e1stico budista. Regressa com naturalidade, como quem cumpre um destino, \u00e0 cidade de Yangzhou, na prov\u00edncia de Jiangsu, para estudar o Dao. E a partir de 1692, manda construir a sua morada que designa como <i>Dadi Caotang<\/i>, o \u00c1trio Coberto de Canas da Grande Purifica\u00e7\u00e3o. Pode dedicar-se a teorizar sobre o seu \u201cm\u00e9todo que n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo\u201d: \u201cQuando me perguntam se eu uso o m\u00e9todo do norte ou do sul, eu agarro a barriga a rir e digo que sempre usei o meu pr\u00f3prio m\u00e9todo.\u201d A rela\u00e7\u00e3o entra a barriga e o esp\u00edrito transcende a ironia. Na escola Dao\u00edsta da Realidade Completa usava-se uma frase que se aproxima do objectivo de Shitao: \u201ca alquimia espiritual envolve duas tarefas: esvaziar a mente e encher a barriga, significando p\u00f4r de lado as percep\u00e7\u00f5es e abrir-se ao encaminhamento. Na tentativa de racionalizar a sua pintura, que era fundamentalmente intuitiva, ousava colocar tudo em causa: \u201cAntes de os velhos mestres estabelecerem m\u00e9todos, pergunto-me que m\u00e9todos \u00e9 que eles seguiriam.\u201d Seguir a sua pr\u00f3pria vontade era o que propunha o pensamento Neo-Confuciano e Shitao, ao formular a sua teoria, cita o Mestre Kongzi (Conf\u00facio): \u201c O meu Dao prov\u00e9m de uma ideia \u00fanica que liga o todo\u201d (<i>Analectos<\/i>, XV, 12). Mais do que o m\u00e9todo era preciso respeitar a pr\u00f3pria resposta, <i>zun shou<\/i>: \u201ca pintura responde \u00e0 tinta, a tinta responde ao pincel, o pincel responde ao pulso e o pulso responde \u00e0 mente.\u201d Tantas teorias pediam uma sistematiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que faz ao escrever os dezoito cap\u00edtulos do <i>Huayulu<\/i>, os seus <i>Coment\u00e1rios Sobre a Pintura<\/i>, que estariam completos em 1700.<\/p>\n<p class=\"p5\">Ao longo da sua vida de pintor Shitao trabalhou uma diversidade de temas: viagens, lugares com belos panoramas, bambus, flores e frutos, paisagens em diferentes esta\u00e7\u00f5es do ano ou ilustra\u00e7\u00f5es de poemas, antigos ou contempor\u00e2neos. Quanto aos estilos que escolheu foi um n\u00f3mada, como foi na vida, na variedade dos g\u00e9neros que adoptou at\u00e9 se podem perceber conhecimentos das t\u00e9cnicas dos pintores do Ocidente. Mas teve sempre presente a intui\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o primordial. Numa dedicat\u00f3ria escreve: \u201cPara Xiao Weng-nian sorrir no segundo m\u00eas do ano de 1703\u201d, na imagem, uma paisagem onde se v\u00ea um homem com uma vara na m\u00e3o e traje de letrado aparecendo num caminho entre montanhas. \u00c0 margem a seguinte declara\u00e7\u00e3o: \u201cA minha maneira de pintar \u00e9 um penetrante modo de ver que despe a casca exterior do que \u00e9 material. Ent\u00e3o s\u00f3 temos de deixar o pincel seguir livremente e ele arrebatar\u00e1 completamente milhares de penhascos, milhares de vales.\u201d No cap\u00edtulo oito, do <i>Huayulu<\/i>, a prop\u00f3sito das pinturas de paisagens, tamb\u00e9m \u00e9 claro: (\u2026) \u201cE eu, que reconheci a import\u00e2ncia da linha para a pintura, posso perceber atrav\u00e9s dela o divino que se materializou sob a forma de montanhas e rios. H\u00e1 cinquenta anos este meu ego ainda n\u00e3o tinha nascido nas montanhas e nos rios. N\u00e3o que eu achasse que os rios e as montanhas n\u00e3o valessem a pena, mas eu deixava-os l\u00e1 estar. Agora os rios e as montanhas deixam-me falar por eles. Eles nasceram em mim e o meu ego nasceu nos rios e nas montanhas. Explorei todos os raros picos poss\u00edveis e desenhei-os. Rios e montanhas encontraram aquilo que em mim \u00e9 divino, e o que sobrou desse encontro desenvolveu-se tanto que acabei por fim por traz\u00ea-los comigo para minha casa.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>Afinidades Electivas<\/b><\/h3>\n<p class=\"p5\">Desse encontro de Shitao com a arte da pintura ficaram tra\u00e7os que perduraram. Nomeou pela primeira vez treze padr\u00f5es de textura, incluindo <i>Fupi<\/i>, \u201ccorte de machado\u201d, <i>Pima<\/i>, \u201cfibra de c\u00e2nhamo\u201d, <i>Fantou<\/i> \u201ccabe\u00e7a de al\u00famen\u201d ou as suas caracter\u00edsticas linhas conc\u00eantricas <i>Jie Suo<\/i>, \u201ca corda desembara\u00e7ada\u201d. O seu <i>Auto-retrato Dirigindo a Planta\u00e7\u00e3o de Pinheiros<\/i>, de 1674, foi copiado por Luo Ping (1733-99) e colado para ser a primeira folha do <i>Daodejing<\/i> do <i>Qingyuanzhai<\/i>. Um grupo de pintores inconformados, que se intitulava os \u201cOito Exc\u00eantricos de Yangzhou\u201d, toma-o como exemplo. Durante e ap\u00f3s a Rebeli\u00e3o dos Taiping (1850-64), muitos artistas e eruditos refugiados em Xangai procuram modelos no passado e reivindicam o exemplo dos \u201cOito Exc\u00eantricos de Yangzhou\u201d e dos \u201cIndividualistas\u201d como Bada Shanren ou Shitao.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Numa pintura intitulada <i>Fonte dos Pessegueiros em Flor<\/i>, Shitao ilustra o primeiro epis\u00f3dio de um c\u00e9lebre conto de Tao Yuanming \u2014 a hist\u00f3ria de um pescador que encontra um grupo de pessoas que fugira da tirania do primeiro imperador Qin refugiando-se num vale secreto, onde permaneceria desconhecido do mundo durante s\u00e9culos. O tema, recorrente na cultura da China fala de um lugar de ex\u00edlio onde \u00e9 sempre poss\u00edvel viver. A pintura p\u00f4de ser esse lugar para pessoas como Shitao ou Bada Shanren. \u00c9 natural que, sabendo da exist\u00eancia um do outro, se criasse uma aproxima\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Segundo a lenda, para iniciar uma conversa \u00e0 dist\u00e2ncia, ter\u00e1 enviado a Bada Shanren uma carta, em 1699, em resposta a uma pintura que este lhe enviou. Nela diria que a paisagem recebida era demasiado grande para a sua casa, se ele pudesse enviar-lhe um rolo vertical mais pequeno (70 por 40 cent\u00edmetros) com uma velha casa modesta junto ao leito calmo de um rio, algumas \u00e1rvores velhas e, num andar superior apenas um homem que representasse o pr\u00f3prio Shitao e se sobrasse algum espa\u00e7o vazio poderia acrescentar algumas linhas da sua escrita exemplar, essa pintura tornar-se-ia o seu mais precioso tesouro. O poema que lhe dedica no ano anterior \u00e9 testemunha de como aquele nome \u2013 Zhu \u2013 era como a linha de sangue, vermelha e perigosa, que os aproximava:<\/p>\n<p class=\"p2\"><i>\u201cTu e eu fic\u00e1mos doentes no mesmo dia.<br \/>\n<\/i><i>Mal t\u00ednhamos vindo ao mundo encontr\u00e1mos a terra e o c\u00e9u tremendo.<br \/>\n<\/i><i>Tu, Bada, ficaste sem a tua casa,<br \/>\n<\/i><i>mas permaneceste l\u00e1 perto:<br \/>\n<\/i><i>Eu, Shitao, viajei pelos Quatro mares\u2026<br \/>\n<\/i><i>Devido a um \u00fanico e desprez\u00edvel pensamento,<br \/>\n<\/i><i>dez mil anos escorreram pelos meus dedos;<br \/>\n<\/i><i>Tudo o que sobrou \u00e9 apagado<br \/>\n<\/i><i>para um grande vazio.\u201d <\/i><\/p>\n<p class=\"p5\">Laozi afirmara que \u201ca ac\u00e7\u00e3o perfeita opera sem deixar rasto\u201d. Um pintor dos fins da dinastia Qing levou longe esse des\u00edgnio destruindo sucessivamente as pinturas que fazia assim que as terminava. Demonstrava assim que a obra feita n\u00e3o era sen\u00e3o um res\u00edduo que ficava de uma experi\u00eancia espiritual que, esta sim, era o que lhe interessava. Shitao ter\u00e1 vivido intensamente essa via a ponto de absorver o ritmo da natureza \u2013 caminhar e parar para contemplar, ac\u00e7\u00f5es de expans\u00e3o e de contrac\u00e7\u00e3o, como o ritmo do cora\u00e7\u00e3o, a s\u00edstole e a di\u00e1stole. A princ\u00edpio \u00e9 uma crian\u00e7a em fuga que caminha, sem saber porqu\u00ea e para qu\u00ea. O mist\u00e9rio da inf\u00e2ncia persistir\u00e1. No fim, j\u00e1 estava tudo dentro dele. Que necessidade tinha um pintor de ver?<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] O pintor \u00e9 cego: Xia Zun Zhe, o \u201chonor\u00e1vel cego\u201d foi um dos muitos, mais de duas d\u00fazias, de nomes escolhidos pelo homem que se tornaria um dos mais conhecidos e admirados pintores da China. A designa\u00e7\u00e3o tem uma conota\u00e7\u00e3o budista: cego para os desejos mundanos. No entanto, o choque de qualificar como cego&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1250,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-1249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artes"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/83.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1249"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1251,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions\/1251"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}