{"id":1292,"date":"2025-10-22T03:34:15","date_gmt":"2025-10-21T19:34:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1292"},"modified":"2025-10-22T03:34:15","modified_gmt":"2025-10-21T19:34:15","slug":"pode-um-historiador-prever-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/pode-um-historiador-prever-o-futuro\/","title":{"rendered":"Pode um historiador prever o futuro?"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Uma<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>leitura sobre a vid\u00eancia em Sima Qian<\/i><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\">No <i>Shiji<\/i> de Sima Qian, h\u00e1 uma passagem que adoro citar. \u00c9 retirada da biografia de Zhang Liang [<i>Shiji<\/i>, 55], um dos grandes her\u00f3is que lutou contra Qinshi Huangdi e ajudou a fundar a dinastia Han. Ela nos conta que Zhang era um esp\u00e9cie de \u2018predestinado\u2019 a ajudar na eleva\u00e7\u00e3o de Liu Bang [primeiro imperador de Han] ao poder, e a revela\u00e7\u00e3o de seu potencial se d\u00e1 em um encontro de contornos m\u00edsticos, que reproduzo nessa longa passagem adaptada:<\/p>\n<p class=\"p4\">\u201cUm jovem nobre decadente, chamado Zhang Liang, andava perdido pela China, pensando num meio de acabar com o imperador Qinshi Huangdi. Ele j\u00e1 havia realizado uma tentativa anterior, inteiramente fracassada, e estava totalmente desolado. Qinshi parecia ser inexpugn\u00e1vel, e nada indicava que a situa\u00e7\u00e3o pudesse mudar. Foi ent\u00e3o que, num belo dia, depois de muito vagar, Zhang Liang foi atravessar uma ponte, e deparou-se com um velho, que havia deixado cair seu sapato no rio. Zhang, educadamente, prontificou-se a busc\u00e1- lo. Quando trouxe o sapato, o velho chutou-o pra longe e pediu novamente Zhang para pegar. Zhang ficou irritado, mas controlou-se e foi atr\u00e1s do sapato de novo. Quando o trouxe, o velho simplesmente fez voar o cal\u00e7ado para ainda mais longe, e insistiu que Zhang fosse atr\u00e1s do dito. Numa hist\u00f3ria normal, Zhang, ou qualquer outra pessoa, achariam que aquele senhor estava fazendo uma brincadeira de mau gosto ou debochando de sua cara. Mas, como Zha<span class=\"s1\">ng era um predestinado, de caracter\u00edsticas especiais \u2013 e contra a l\u00f3gica usual destas situa\u00e7\u00f5es \u2013 ele foi atr\u00e1s do sapato do velhinho, pegou-o e o trouxe de volta. Ele estava de cabe\u00e7a quente, mas controlado; foi o que permitiu que ele reparasse que o velho estava com uma aura estranha de autoridade, um brilho incomum, e de pronto modificou sua atitude. O anci\u00e3o agradeceu a gentileza, e disse a Zhang que ele era uma pessoa especial. Pediu que dali a cinco dias o encontrasse num lugar convencionado, para dar-lhe um presente. Zhang ficou ati\u00e7ado e curioso, e foi ao encontro do senhor dias depois. Quando l\u00e1 chegou, o velho o esperava e gritou com ele: \u201cPorque se atrasou tanto? Voc\u00ea \u00e9 um grosseiro mal educado. Deixou um velho esperando! Volte daqui a cinco dias!\u201d Zhang quase saiu do esquadro de novo, mas segurou-se. Voltou cinco dias depois, bem mais cedo do que antes, e encontrou o velho l\u00e1 apenas para apanhar outra bronca e ouvir: \u201cvolte daqui a cinco dias!\u201d. Devem ser nestes momentos que os her\u00f3is mostram sua obstina\u00e7\u00e3o. Talvez por curiosidade, ou por que n\u00e3o tinha nada melhor, Zhang decidiu fazer diferente. Foi quase um dia antes no lugar marcado e ficou esperando. O velho chegou, sorriu-lhe e disse: \u201cpaci\u00eancia e disciplina, agora sim. Este \u00e9 o caminho\u201d. Deu-lhe um livro e continuou: \u201cVoc\u00ea ser\u00e1 o mestre do novo imperador daqui a dez anos. Daqui a treze anos, nos encontraremos de novo perto da margem norte do rio Chi. No p\u00e9 do monte Guqian haver\u00e1 uma pedra amarela: serei eu\u201d, e desapareceu. Ele nunca mais foi visto. Quando terminou este encontro estranh\u00edssimo, Zhang Liang olhou o livro que havia ganhado, e percebeu que se tratava de um tratado militar desconheci<\/span>do. O livro parecia ser simples, e aparentemente combinava os textos de Taigong com os de Sunzi e de outros autores. Ele dividia-se em tr\u00eas partes apenas: as estrat\u00e9gias superiores, medianas e inferiores. Por causa disso, ele acabaria sendo chamado de \u2018As tr\u00eas estrat\u00e9gias\u2019, e para evitar confus\u00f5es, a tradi\u00e7\u00e3o chinesa o salvou como <i>As tr\u00eas estrat\u00e9gias do duque da pedra amarela<\/i>\u201d [Bueno, 2011: <span class=\"s1\">111-113].<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">No melhor estilo Ariano Suassuna &#8211; \u201cn\u00e3o sei como foi, s\u00f3 sei que foi assim\u201d &#8211; Sima Qian nos conta toda essa hist\u00f3ria sem enfatizar qualquer cren\u00e7a especial em sua veracidade. Como historiador, ele reproduzia uma narrativa conhecida; afinal, Zhang foi um personagem real, e se n\u00e3o foi ele a difundir essa lorota, n\u00e3o fez nada para desmenti-la. Mas ao mesmo tempo, Sima precisava defender \u2013 at\u00e9 certo ponto \u2013 que os especialistas no passado conseguiam, de alguma maneira, explicar o presente e determinar o futuro por meio do seu conhecimento. Isso implicava dizer que os historiadores tinham que lidar com a ideia de que algumas pessoas eram especiais, dotadas de uma tend\u00eancia, propens\u00e3o ou destino que lhes garantiria um papel especial na hist\u00f3ria. Ao mesmo tempo, os especialistas em hist\u00f3ria deveriam saber ler essas tend\u00eancias e inferir o desfecho de certos acontecimentos. N\u00e3o \u00e9 preciso muito para entender que sustentar essa ideia sempre foi um problema. Como explicar, por exemplo, que Qinshi Huangdi era uma pessoa especial, se seu governo foi marcado pela crueldade? E como ainda explicar que a natureza [Tian, o C\u00e9u] o entronizou? Do mesmo modo, Liu Bang, o futuro fundador de Han, se destacava por qualidades bastante peculiares. Ele olhava torto, era displicente com a apar\u00eancia, andava mal ajambrado, mas tinha uma barba bonita, nariz a testa grande, e setenta e duas verrugas na perna. Dava esmolas e tinha a mente aberta. Quando ia pra taverna, ela enchia de gente, todos ficavam felizes e pararam de cobrar fiado dele. Depois que casou, durante um ano inteiro, todos os dias, ele procurava sua esposa, e a fazia ter orgasmos antes de sair pra beber. Essas eram algumas de suas qualidades not\u00e1veis. Sim, isso tudo est\u00e1 na biografia de Liu Bang [Shiji, 8] descrita por Sima Qian. Seguem-se uma s\u00e9rie de sinais auspiciosos como voos de drag\u00e3o, emana\u00e7\u00f5es de energia, entre outras coisas fant\u00e1sticas. Como inferir que Liu Bang era um predestinado, sen\u00e3o por sinais celestes misteriosos, que s\u00f3 seriam compreendidos depois?<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Obviamente, isso \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de uma narrativa do passado. Contudo, como dissemos, os historiadores chineses antigos tinham que opinar sobre as tend\u00eancias do mundo, sobre os acontecimentos e as quest\u00f5es de governan\u00e7a. Ainda que essas descri\u00e7\u00f5es fossem esvaziadas de uma carga de realidade [algo como \u2018acredite se quiser\u2019], por outro lado, elas serviam de escopo para comprovar a autoridade daqueles que alcan\u00e7aram o poder [quer dizer, \u00e0s vezes seria preciso acreditar nelas&#8230;]. Zhang Huawei [2017], em um instigante ensaio sobre a vis\u00e3o de destino em Sima Qian, mostra como esse conceito tornou-se objeto de uma complexa discuss\u00e3o acerca do papel previdente do historiador. Em retrospectiva, a ideia de \u2018destino\u2019 [Tianming <span class=\"s2\">\u5929\u547d<\/span>, empregada <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>aqui de forma sinon\u00edmica com a nomea\u00e7\u00e3o imperial cosmoecol\u00f3gica dos soberanos chineses antigos] foi eventualmente usada para justificar as impress\u00f5es do passado, bem como de seus personagens. Isso poderia significar que haveria algum tipo de justi\u00e7a deontol\u00f3gica, uma ordena\u00e7\u00e3o natural das coisas ou ainda, uma fundamenta\u00e7\u00e3o moral para a exist\u00eancia de uma trajet\u00f3ria de vida previamente definida.<\/p>\n<p class=\"p5\">Os chineses, no entanto, sempre buscaram escapar de uma vis\u00e3o pr\u00e9-fixada das coisas. Existiam tr\u00eas raz\u00f5es para supor isso:<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">A primeira estava fundamentada no ciclo da muta\u00e7\u00e3o, apresentada no Yijing [o Tratado das Muta\u00e7\u00f5es], o primeiro livro de ci\u00eancias da hist\u00f3ria chinesa. O Yijing explicava simbolicamente o ciclo perene da natureza e suas tend\u00eancias, e por essa raz\u00e3o, tornou-se tamb\u00e9m [no imagin\u00e1rio chin\u00eas] um or\u00e1culo capaz de predizer, sugerir ou aconselhar sobre o desfecho das coisas. Mas &#8211; e justamente por isso &#8211; os chineses acreditavam que se o livro podia oferecer explica\u00e7\u00f5es sobre o curso de determinados acontecimentos, ent\u00e3o, eles n\u00e3o seriam fatais, e consequentemente, poderiam ser modificados. A predi\u00e7\u00e3o do Yijing indicava se algo era favor\u00e1vel ou n\u00e3o; ent\u00e3o, o consulente poderia mudar de opini\u00e3o e investir em uma atitude ou conduta diferente, alterando o curso da situa\u00e7\u00e3o. De forma paradigm\u00e1tica o Yijing, portanto, tornou-se o primeiro or\u00e1culo do mundo que apenas aconselhava, mas que tamb\u00e9m deixava claro que o desfecho do futuro cabia ao indiv\u00edduo [Bueno, 2015]. Veremos que isso ser\u00e1 crucial na interpreta\u00e7\u00e3o de Sima Qian.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O segundo aspecto \u00e9 a genealogia da cultura, proposta por Conf\u00facio desde o <i>Lunyu<\/i> [Di\u00e1logos]. Em uma de suas passagens, ele afirma que \u2018Shang sucedeu Xia, assim como Zhou sucedeu Shang. Sabemos o que se perdeu e o que foi acrescido. Quem suceder Zhou far\u00e1 o mesmo, j\u00e1 sabemos como ser\u00e1\u2019. A partir desse ponto de vista, o movimento de sucess\u00e3o das coisas na muta\u00e7\u00e3o seria gerido por regras \u00e9ticas e hist\u00f3ricas, ligadas a reprodu\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da cultura. Visto assim, haveria algo que se preserva [essencial] e o que se transforma diante das necessidades do tempo [Bueno, 2011b].<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">\u00c9 aqui que Sima Qian insere um terceiro elemento, a raz\u00e3o ecol\u00f3gica. Em sua vis\u00e3o, os movimentos sociais e pol\u00edticos acompanhavam a ciclo da muta\u00e7\u00e3o em suas varia\u00e7\u00f5es e movimentos naturais &#8211; como anteriormente apregoado pelo Yijing e por Conf\u00facio &#8211; mas reinterpretado pela teoria dos cinco elementos, associa\u00e7\u00e3o essa defendida por seu mestre Dong Zhongshu. Assim, \u2018Xia foi madeira; Shang foi metal; Zhou foi fogo; Qin foi \u00e1gua; Han \u00e9 terra\u2019. As transforma\u00e7\u00f5es do mundo seguiriam o movimento Wuxing, e por conseguinte, poderiam ser previstas em escala macroc\u00f3smica. Isso atendia ao seu prop\u00f3sito de \u2018estudar a rela\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e o homem, e compreender as mudan\u00e7as nos tempos antigos e modernos\u2019 [Shiji 130]. Assim, os movimentos da natureza &#8211; e de forma correlata, da humanidade &#8211; poderiam ser previstos e determinados em suas tend\u00eancias fundamentais.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">A articula\u00e7\u00e3o desses elementos na formula\u00e7\u00e3o de uma teoria de presci\u00eancia revela o qu\u00e3o problem\u00e1tica era a tarefa de Sima Qian. A reda\u00e7\u00e3o do Shiji estava envolta em compromissos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos, com os quais ele teve que lidar amargamente ao longo da vida. Embora estivesse claro que sua proposta era valorizar a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de sua civiliza\u00e7\u00e3o, Sima era obrigado tamb\u00e9m a lidar com as tens\u00f5es da escrita que envolvia as disputas de poder e as vaidades da corte [Jiang, 2018]. Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel que os personagens not\u00e1veis do passado possam ter sido moldados, na escrita das narrativas, para serem figuras prescientes; mas admitir isso significava, igualmente, reconhecer a possibilidade da previs\u00e3o hist\u00f3rica no presente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Isso deslizava para outro problema: a rela\u00e7\u00e3o entre os tempos antigos e hodiernos. Li Bo [2014] analisa como Sima Qian estava plenamente ciente de que era um autor do presente falando sobre o passado, e reinterpretando-o dentro das possibilidades das fontes e das orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas de sua \u00e9poca. Segundo Li, Sima fazia hist\u00f3ria do tempo presente, mas desejava entender e reconstruir as camadas da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa em uma genealogia, fundando sua cultura no passado. Neste sentido, a presci\u00eancia seria uma faculdade invi\u00e1vel de ser realizada, j\u00e1 que s\u00f3 poderia ser inferida <i>a posteriori.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Ap\u00f3s listar uma s\u00e9rie de exemplos pin\u00e7ados do <i>Shiji<\/i>, Zhang Huawei, afirma que \u2018Resumindo, os pensamentos de Sima Qian sobre o destino incluem tanto a sua cren\u00e7a no destino como as suas d\u00favidas sobre a justi\u00e7a do destino. Sima Qian duvidou da justi\u00e7a do destino, mas n\u00e3o negou a sua exist\u00eancia. Quanto aos acontecimentos que podem ser explicados pela a\u00e7\u00e3o pessoal, Sima Qian tamb\u00e9m atribuiu grande import\u00e2ncia ao papel do pessoal e op\u00f4s-se a confundir destino com pessoal. Estes est\u00e3o de acordo com a inten\u00e7\u00e3o criativa de Sima Qian de \u201cestudar a rela\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e o homem\u201d sob diferentes aspectos e refletem a sua cren\u00e7a no destino\u2019. Essa conclus\u00e3o aponta opini\u00f5es, mas parece ficar em cima do muro. Ou seja; Sima Qian n\u00e3o deixara de acreditar que poderia haver predestinados ou prescientes; e por tabela, n\u00e3o desejava abrir m\u00e3o da faculdade de poder \u2018inferir o futuro\u2019 por meio dos estudos eruditos, mas precisava lidar com os perigos de errar as predi\u00e7\u00f5es e conselhos. Melhor seria deixar isso nas m\u00e3os dos or\u00e1culos; mas esses mesmos or\u00e1culos, assim como as pessoas, podiam mudar de opini\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Uma leitura que pode nos ajudar a compreender as intrincadas reflex\u00f5es sobre esse problema \u00e9 o seminal texto de Fran\u00e7ois Jullien sobre \u2018situa\u00e7\u00e3o e tend\u00eancia na hist\u00f3ria\u2019 [Jullien, 2017]. Na interpreta\u00e7\u00e3o de Jullien \u2013 alicer\u00e7ada por comentaristas chineses \u2013 a quest\u00e3o central \u00e9 como a situa\u00e7\u00e3o ou contexto de uma narrativa s\u00e3o determinadas por suas \u2018tend\u00eancias\u2019, ou seja, pelas for\u00e7as que atuam para o andamento do epis\u00f3dio em quest\u00e3o. Isso significa que a predi\u00e7\u00e3o sobre um acontecimento pode ser aferida, em um complexo jogo de espelhos te\u00f3ricos, a partir de ressignifica\u00e7\u00e3o de um evento hist\u00f3rico, de acordo com alguma das grades de leitura filos\u00f3ficas defendidas pelo historiador. Posto de outro modo: um confucionista pode defender que um dado epis\u00f3dio foi bem sucedido pela presen\u00e7a de agentes morais que conduziram as coisas \u00e1 um desfecho adequado \u2013 e nesse caso, a presci\u00eancia invoca o uso da tradi\u00e7\u00e3o como guia para afastar-se dos erros. J\u00e1 um legalista poderia arguir que o mesmo epis\u00f3dio n\u00e3o teria sido bem sucedido, j\u00e1 que uma decis\u00e3o calcada no passado pode simplesmente n\u00e3o ser adequada para os dias de hoje. Teremos um ent\u00e3o uma infind\u00e1vel diatribe de exemplos e contraexemplos que ir\u00e3o colocar em julgamento se algu\u00e9m era predestinado ou n\u00e3o, e se o historiador foi capaz de perceber isso ou n\u00e3o. A hist\u00f3ria, assim, n\u00e3o \u00e9 conclusiva.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Talvez por isso Sima Qian tomasse cuidado em defender a vid\u00eancia hist\u00f3rica como uma condi\u00e7\u00e3o <i>sine qua non <\/i>do historiador. Perturbados constantemente pelas inger\u00eancias de figuras do poder, e agenciados com fundos imperiais, os historiadores chineses viviam na delicada corda bamba entre falar a verdade, aconselhar com ju\u00edzo, e correr o risco de perderem suas cabe\u00e7as se n\u00e3o atendessem as vontades de seus financiadores. Visto assim, a escolha de personagens especiais do passado poderia ser t\u00e3o arbitr\u00e1ria [e<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>seus atributos t\u00e3o fantasiosos] quanto \u00e0s infer\u00eancias sobre o futuro poderiam ser carregadas de erros estrat\u00e9gicos quando o historiador estava cerceado de sua liberdade de pensamento. Esse conflito iria fazer com que uma rica tradi\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias privadas [ou, hist\u00f3rias alternativas aos discursos estabelecidos pela ag\u00eancia imperial] surgisse, provendo a China de uma valios\u00edssima e diversa tradi\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica [Richter, 1987; Beja,1997]. Quanto aos historiadores chineses, esses aprenderiam a duras penas [depois de observarem a indigna condena\u00e7\u00e3o de Sima Qian] que se eles podiam prever algo, deviam primeiro observar a pr\u00f3pria sorte, antes de emitirem ju\u00edzos sobre o passado, o presente e inferir algo sobre o futuro. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p2\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p6\">Os textos do Lunyu e Shiji foram retirados do livro Textos da China Antiga. Rio de Janeiro: Projeto Orientalismo\/UERJ, 2023. Essas fontes est\u00e3o dispon\u00edveis em: https:\/\/chines-classico.blogspot.com\/p\/biblioteca-textos-da-china- antiga.html<\/li>\n<li class=\"p6\">Beja, Flora B. \u2018El precio de la rectitud. El intelectual como cr\u00edtico en la China tradicional\u2019 in Los intelectuales y el poder en China \/ Taciana Fisac (comp.), Madrid: Trotta, 1997: 27-44.<\/li>\n<li class=\"p6\">Bueno, Andr\u00e9. A arte da guerra chinesa. Projeto Orientalismo, 2011a:111-113.Bueno, Andr\u00e9. \u2018N\u00e3o invento, apenas transmito\u2019: Re-interpretando a escrita historiogr\u00e1fica de Conf\u00facio. In: X Semana de Hist\u00f3ria Pol\u00edtica da UERJ. Rio de Janeiro: UERJ, 2015. v. 1. p. 251-261.<\/li>\n<li class=\"p6\">Bueno, Andr\u00e9. \u2018O tempo das dinastias\u2019 in Ensaios de Oito Partes. Projeto Orientalismo, 2011b:23-25.<\/li>\n<li class=\"p7\"><span class=\"s5\">Jiang Tianyue <\/span>\u59dc\u5929\u8d8a. \u300a\u53f8\u9a6c\u8fc1\u653f\u6cbb\u601d\u60f3\u63a2\u7a76\u300b. \u795e\u5dde\u00b7\u4e2d\u65ec\u520a, <span class=\"s5\">n.12, 2018.<\/span><\/li>\n<li class=\"p6\">Jullien, Fran\u00e7ois. A propens\u00e3o das coisas: por uma hist\u00f3ria da efic\u00e1cia na China. S\u00e3o Paulo: UNESP, 2017: 223-281.<\/li>\n<li class=\"p7\"><span class=\"s5\">Li Bo<\/span>\u674e\u6ce2. \u300a\u53f8\u9a6c\u8fc1\u7684\u53e4\u4eca\u89c2\u300b. \u6e2d\u5357\u5e08\u8303\u5b66\u9662\u5b66\u62a5<span class=\"s5\">n.6, 2014.<\/span><\/li>\n<li class=\"p6\">Richter, Ursula. \u2018La tradition de l\u2019antitraditionalisme dans l\u2019historiographie chinoise\u2019. In: Extr\u00eame-Orient, Extr\u00eame-Occident, 1987, n\u00b09. La r\u00e9f\u00e9rence \u00e0 l\u2019histoire. pp. 55-89.<\/li>\n<li class=\"p7\"><span class=\"s5\">Zhang Huawei<\/span>\u5f20\u534e\u4f1f. \u300a\u6d45\u8bae\u53f8\u9a6c\u8fc1\u7684\u5929\u547d\u89c2\u300b. \u9752\u5e74\u6587\u5b66\u5bb6 <span class=\"s5\">n.9, 2017.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Uma\u00a0 leitura sobre a vid\u00eancia em Sima Qian &nbsp; No Shiji de Sima Qian, h\u00e1 uma passagem que adoro citar. \u00c9 retirada da biografia de Zhang Liang [Shiji, 55], um dos grandes her\u00f3is que lutou contra Qinshi Huangdi e ajudou a fundar a dinastia Han. Ela nos conta que Zhang era um esp\u00e9cie de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":1293,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-1292","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/40-Sima-Qian.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1292"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1294,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1292\/revisions\/1294"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}