{"id":1324,"date":"2025-10-22T04:09:42","date_gmt":"2025-10-21T20:09:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1324"},"modified":"2025-10-22T04:09:42","modified_gmt":"2025-10-21T20:09:42","slug":"a-profundidade-dos-ideofonogramas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/a-profundidade-dos-ideofonogramas\/","title":{"rendered":"A profundidade dos ideofonogramas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">E<span class=\"s1\">m um<\/span> artigo muito interessante, o linguista franc\u00eas Louis-Jean Calvet, refletindo sobre Lacan e a escrita Chinesa: um inconsciente estruturado como escrita?, faz-nos saber de um outro artigo em que seu autor, Fran\u00e7ois Cheng discorre a respeito da escrita po\u00e9tica chinesa. Cheng dir\u00e1, a partir de versos do ilustre Wang Wei, que em determinadas composi\u00e7\u00f5es \u2014 como a que usa de exemplo \u2014 \u00e9 poss\u00edvel perceber \u201ca presen\u00e7a subliminar e obsedante do homem (<span class=\"s2\">\u4eba<\/span>)\u201d (Calvet, 2012: 257). Eis o verso wangweiano:<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: center;\">\u6728 \u672b \u8299 \u84c9 \u82b1<\/p>\n<p class=\"p2\">Cheng assim traduz o verso: \u201cna ponta dos galhos flores de hibisco\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\">Como se v\u00ea, a presen\u00e7a efetiva do homem (<span class=\"s3\">\u4eba<\/span>) se encontra apenas no final do verso (e, ainda aqui, apenas como componente de um de seus elementos parciais, a saber, <span class=\"s3\">\u5316<\/span>, parte de <span class=\"s3\">\u82b1<\/span>), enquanto sua subliminaridade est\u00e1 difusa, compondo os demais caracteres. Calvet bem observa: \u201cDe fato, o signo do homem s\u00f3 aparece no quinto caractere, e nos outros se pode ver o homem nas ra\u00edzes de uma \u00e1rvore&#8230;\u201d (Calvet, 2012: 257).<\/p>\n<p class=\"p5\">Ora, o linguista est\u00e1 interessado em compreender alguns problemas da escrita chinesa, ideogr\u00e2mica \u2014 ou, a bem dizer, ideofonogr\u00e2mica \u2014, um deles sendo o que chamou de \u201c\u2019profundidade\u2019 do signo gr\u00e1fico chin\u00eas, o que ele pode \u2018dizer\u2019 nele mesmo, sem refer\u00eancia \u00e0 forma [f\u00f4nica] pela qual \u00e9 pronunciado: <span class=\"s3\">\u59bb<\/span> significa \u2018esposa\u2019 e representa uma mulher e uma vassoura, <span class=\"s3\">\u5b89<\/span> significa \u2018paz\u2019 e representa uma mulher sob um teto, uma mulher no lar, etc.\u201d (Calvet, 2012: 257-258).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">A discuss\u00e3o que envolve tal problema da \u201cprofundidade\u201d \u00e9 a que, desde o princ\u00edpio do artigo, o linguista procura deslindar: a partir de certas considera\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas de Jacques Lacan \u2014 de que o inconsciente seria estruturado como uma linguagem, por exemplo \u2014, Calvet procura compreender as inter-rela\u00e7\u00f5es entre psican\u00e1lise, lingu\u00edstica e escrita ideofonogr\u00e2mica, recordando-nos uma vez mais que a \u00eanfase desmesurada na grafia \u2014 que j\u00e1 apresentamos em outra ocasi\u00e3o \u2014 faz ignorar o elemento sonoro da l\u00edngua chinesa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Por isso Lacan afirmaria o que afirmaria, e Huo Datong, psicanalista chin\u00eas, avan\u00e7aria sua pr\u00f3pria afirma\u00e7\u00e3o para dizer que n\u00e3o era bem o inconsciente chin\u00eas que fosse estruturado como a escrita, mas o inconsciente que era, este sim, estruturado como a escrita chinesa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Seja como for, o problema da \u201cprofundidade\u201d, como diz\u00edamos, \u00e9 o que nos interessa mais de perto. Veja-se, por exemplo, <\/span><span class=\"s5\">\u6728<\/span><span class=\"s4\"> (<i>m\u00f9<\/i>), \u00e1rvore, primeiro caractere no verso de Wang Wei. Tomado o problema da \u201cprofundidade\u201d, ter\u00edamos na \u00e1rvore a presen\u00e7a do homem, nos dois tra\u00e7os que descem perpendiculares ao eixo central. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Contudo, uma r\u00e1pida ida ao dicion\u00e1rio nos faz imaginar se n\u00e3o ter\u00e1 sido a pr\u00f3pria leitura \u2014 po\u00e9tica e psicanal\u00edtica, claro est\u00e1, mas ainda assim&#8230; \u2014 de Fran\u00e7ois Cheng que viu ali um ser humano subjacente. Porque, conquanto<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>os tra\u00e7os perpendiculares possam mesmo fazer pensar em <\/span><span class=\"s5\">\u4eba<\/span><span class=\"s4\"> (ren), o dicion\u00e1rio nos informa que os componentes de <\/span><span class=\"s5\">\u6728<\/span><span class=\"s4\"> s\u00e3o, em verdade, <\/span><span class=\"s5\">\u5341<\/span><span class=\"s4\"> (sh\u00ed) e <\/span><span class=\"s5\">\u516b<\/span><span class=\"s4\"> (ba). Ou seja, a presen\u00e7a humana ali nos versos, embora poeticamente justa, n\u00e3o deixa de nos indicar tamb\u00e9m uma predomin\u00e2ncia \u2014 que j\u00e1 sabemos ser centen\u00e1ria \u2014 da grafia chinesa sobre quaisquer outros componentes lingu\u00edsticos. Como por exemplo o elemento f\u00f4nico, a sonoridade que comp\u00f5e inclusive a l\u00f3gica diferencial e composicional da escrita chinesa, a que nosso autor bem chama a aten\u00e7\u00e3o (Calvet, 2012: 249-ss).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">\u00c9 certo que o fazer art\u00edstico, a imagina\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica e a licen\u00e7a po\u00e9tica sempre subverter\u00e3o os elementos, por assim dizer, mais materiais e objetivos dos sistemas lingu\u00edsticos: n\u00e3o importa se o que comp\u00f5e a \u00e1rvore \u00e9 oito (<span class=\"s3\">\u516b<\/span>, ba), e n\u00e3o homem: sempre haver\u00e1 quem veja o humano subjacente ao mundo, talvez por ser, esse algu\u00e9m, um humano por seu pr\u00f3prio direito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Refer\u00eancia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p7\"><span class=\"s4\">Calvet, Louis-Jean, (2012). Lacan e a escrita Chinesa: um inconsciente estruturado como escrita?. Alea: Estudos Neolatinos, 14(2),245-259. Recuperado de: https:\/\/www.redalyc.org\/articulo.oa?id=33025116007<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Em um artigo muito interessante, o linguista franc\u00eas Louis-Jean Calvet, refletindo sobre Lacan e a escrita Chinesa: um inconsciente estruturado como escrita?, faz-nos saber de um outro artigo em que seu autor, Fran\u00e7ois Cheng discorre a respeito da escrita po\u00e9tica chinesa. 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