{"id":1336,"date":"2025-10-22T04:24:42","date_gmt":"2025-10-21T20:24:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1336"},"modified":"2025-10-22T04:27:19","modified_gmt":"2025-10-21T20:27:19","slug":"da-china-e-dos-chineses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/da-china-e-dos-chineses\/","title":{"rendered":"Da China e dos Chineses"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">S<span class=\"s1\">\u00e3o mais<\/span> de mil e quatrocentos milh\u00f5es de seres humanos, desequilibradamente espalhados por um imenso territ\u00f3rio com o tamanho da Europa. Constituem a mais paradoxal de todas as na\u00e7\u00f5es, igual a si pr\u00f3pria h\u00e1 quatro mil anos, uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00fanica, coerente, apaixonante. S\u00e3o os \u00faltimos sobreviventes das grandes civiliza\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias da Idade Antiga. O Egipto, a Mesopot\u00e2mia, os imp\u00e9rios da Am\u00e9rica Central, tudo se esfumou na voragem dos s\u00e9culos. A China permaneceu, preservou sua identidade e cultura, continuou a sua Hist\u00f3ria, seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es populares, sua arte, sua poesia.<\/p>\n<p class=\"p3\">Tal como os eg\u00edpcios, os Chineses inventaram uma escrita complexa que utiliza s\u00edmbolos pictogr\u00e1ficos e ideogr\u00e1ficos. Mas se os hier\u00f3glifos do tempo dos fara\u00f3s s\u00e3o rel\u00edquias de museu, os caracteres chineses formam, ainda hoje, a mais surpreendente e espantosa representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica de uma l\u00edngua. Tamb\u00e9m o elemento aglutinador fundamental do monolito cultural chin\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Os Chineses s\u00e3o mais numerosos do que norte-americanos, sovi\u00e9ticos e europeus todos juntos; no entanto o seu produto interno per capita ainda est\u00e1 longe do das na\u00e7\u00f5es maos avan\u00e7adas do globo. Ir\u00e3o dentro de algum tempo ultrapassar a economia norte-americana, mas ser\u00e1 de considerar que a popula\u00e7\u00e3o da China \u00e9 cinco vezes superior, o que desequilibra quaisquer estat\u00edsticas. H\u00e1 quase duzentos anos Napole\u00e3o lan\u00e7ou o grito:\u00a0\u201cQuando a China despertar, o mundo tremer\u00e1!\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Em 1974, o diplomata franc\u00eas Alain Peyrefitte aproveitou a frase para t\u00edtulo de um seu livro,\u00a0<i>best-seller<\/i>\u00a0no hemisf\u00e9rio ocidental. Mas \u00e9 verdade que a China, o grande Imp\u00e9rio do Meio, apesar de tantos alvoro\u00e7os, sofrimentos e vig\u00edlias, \u00a0mais do que acordou e come\u00e7a a tomar em m\u00e3os o futuro, abana a roda da Hist\u00f3ria, produz tudo e polui quase tudo. A China faz estremecer o mundo.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 um pa\u00eds paradoxal, repito. Com muitos milh\u00f5es de habitantes a viverem com menos de dois d\u00f3lares por dia, conta com algumas das metr\u00f3poles mais modernas do globo, lan\u00e7a e recupera sat\u00e9lites, envia homens para o espa\u00e7o e sondas para a lua e para Marte, possui bombas at\u00f3micas desde 1961.<\/p>\n<p class=\"p3\">Orgulha-se de possuir a mais vasta e volumosa literatura jamais escrita por qualquer povo e, no entanto, no s\u00e9culo XX apenas ter\u00e1 produzido um admir\u00e1vel e grande escritor, de seu nome Lu Xun <span class=\"s3\">\u9c81\u8fc5<\/span>. A\u00a0<i>Quan Tang Shi<\/i>\u00a0<span class=\"s3\">\u5168\u5510\u8a69<\/span>, <i>Poesia Completa da Dinastia Tang<\/i>\u00a0 \u2013 \u00e9poca de ouro da poesia chinesa, de 618 a 907 \u2013, \u00e9 uma antologia composta por 48. 900 poemas de 2. 300 autores diferentes; contudo na China actual o analfabetismo atinge ainda cerca de 5% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">Os Chineses que nunca foram um povo religioso &#8212; pese embora os vinte s\u00e9culos de confucionismo como doutrina oficial do Estado &#8211;, endeusaram Mao Zedong durante os dez anos da catastr\u00f3fica Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Prolet\u00e1ria e logo depois distanciaram-se, sem grande m\u00e1goa, da majestosa figura do velho \u201ctimoneiro\u201d, mas hoje continuam a respeit\u00e1-lo como \u201cpai da Nova China.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Os Chineses que sempre gostaram do sossego, do conforto pessoal, da boa comida, dos prazeres da vida, continuam a ser capazes de se submeter aos trabalhos mais \u00e1rduos e \u00e0s mais duras priva\u00e7\u00f5es. \u201cSofrem a sorrir\u201d observava Ferreira de Castro, h\u00e1 setenta anos, na sua \u201cA Volta ao Mundo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">A China, que tem algumas das mais belas mulheres do mundo, tentou, at\u00e9 h\u00e1 umas tr\u00eas dezenas de anos atr\u00e1s, por via de uma radical moralidade, apresent\u00e1-las deliberadamente como as mais feias.<\/p>\n<p class=\"p3\">A China \u00e9 um oceano de contradi\u00e7\u00f5es no qual n\u00f3s, ocidentais, navegamos sempre com perigo de naufr\u00e1gio. Por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil a viagem, eivada contudo de todos os fasc\u00ednios, por dentro deste pa\u00eds e deste povo, e tamb\u00e9m por isso s\u00e3o comuns tremendos erros de an\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades chinesas.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0Na China diz-se:\u00a0\u201cO estrangeiro que vem ao nosso pa\u00eds durante quinze dias escreve um livro, o que fica uns meses escreve alguns artigos para os jornais, o que permanece mais tempo parte a caneta e nunca mais escreve nada.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Sei, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que conhecer a China ao longo dos anos, viv\u00ea-la por dentro quase at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o, produz um adormecimento da vontade, um torpor suave que martiriza e d\u00e1 prazer. A China, terra de gente diferente de todos os outros povos, entra em n\u00f3s, invade-nos e come\u00e7a a ser dif\u00edcil falar ou escrever sobre os Chineses, porque os conhecemos melhor, ou seja, ignoramos muito mais acerca deles.<\/p>\n<p class=\"p3\">Goethe, que sempre foi um apaixonado pela civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, glosou o antigo princ\u00edpio de S\u00f3crates, o grego, o\u00a0\u201cquanto mais sei, mais sei que nada sei\u201d\u00a0e escreveu\u00a0\u201cO homem s\u00f3 sabe quando sabe que pouco sabe. Com o conhecimento cresce a d\u00favida\u201d.\u00a0E Conf\u00facio <span class=\"s3\">\u5b54\u592b\u5b50,<\/span> que tamb\u00e9m muito sabia das coisas da vida e do seu povo, disse, seis s\u00e9culos antes de Cristo:\u00a0\u201cSe conheces, actua como homem que conhece. Se n\u00e3o conheces, reconhece que n\u00e3o conheces; isso \u00e9 conhecer!\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">S\u00e3o s\u00e1bios os velhos Chineses, uma sabedoria alicer\u00e7ada em cinco mil anos de Hist\u00f3ria e de hist\u00f3rias. S\u00e3o inteligentes os velhos Chineses, uma intelig\u00eancia adquirida ao longo de muitos e muitos s\u00e9culos dura e intensamente vividos.<\/p>\n<p class=\"p3\">Lao Zi, <span class=\"s3\">\u8001\u5b50<\/span>\u00a0(600 a. C. ? &#8211; 510 a.C, ?)\u00a0o patriarca do taoismo filos\u00f3fico, escrevia no cap\u00edtulo 2 do seu\u00a0Tao Te Ching:<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s4\">Debaixo do C\u00e9u,<sup>1<\/sup>\u00a0todos vemos que o belo \u00e9 belo<br \/>\n<\/span>porque o feio existe.<br \/>\nTodos sabemos que o bom \u00e9 bom<br \/>\nporque o mau existe.<br \/>\nCoexistem o ser e o n\u00e3o-ser,<br \/>\ncompletam-se o dif\u00edcil e o f\u00e1cil,<br \/>\naproximam-se o alto e o baixo,<br \/>\nharmonizam-se a voz e o som,<br \/>\nsucedem-se o da frente e o de tr\u00e1s.<br \/>\nPor isso, o s\u00e1bio avan\u00e7a e nada faz,<sup>2<br \/>\n<\/sup>ensina sem nada dizer<br \/>\n<span class=\"s5\">e os dez mil seres desenvolvem-se, sem cessar.<br \/>\n<\/span>Ele trabalha e nada possui,<br \/>\nele cria e de nada se apropria.<br \/>\nTudo feito, tudo esquece,<br \/>\nassim, para sempre, a obra permanece.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p class=\"p3\">O espantoso Lie Zi <span class=\"s3\">\u5217\u5b50<\/span> (450 a.C.-376 a. C.) que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o taoista era capaz de cavalgar ventos e nuvens, diz, no seu\u00a0Livro, cap. II, 11:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cDois meninos viviam junto ao mar e amavam as gaivotas. Todas as manh\u00e3s brincavam no meio dos p\u00e1ssaros e muitas outras gaivotas, \u00e0s centenas, poisavam junto deles. Um dia o pai disse-lhes: \u2018Sei que brincam com as gaivotas. Apanhem algumas e tragam-mas. Tamb\u00e9m me quero divertir.\u2019<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p6\">No dia seguinte, os meninos chegaram \u00e0 orla do mar, as gaivotas pairaram no ar e n\u00e3o pousaram na praia.<\/p>\n<p class=\"p6\">Em conclus\u00e3o, o melhor de todos os discursos \u00e9 o que n\u00e3o utiliza palavras, a actua\u00e7\u00e3o perfeita \u00e9 actuar sem agir, a sabedoria do mais s\u00e1bio dos s\u00e1bios \u00e9 sempre pouco profunda \u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">Outra hist\u00f3ria do\u00a0Livro de Lie Zi, no cap\u00edtulo VII, 32:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cUm campon\u00eas n\u00e3o sabia onde estava o seu machado. Suspeitou ent\u00e3o que o filho do vizinho lho havia roubado e come\u00e7ou a observar o rapaz, com aten\u00e7\u00e3o. Tinha exactamente os modos de um ladr\u00e3o de machados, as palavras que pronunciava soavam a ladr\u00e3o de machados, todo o seu comportamento e atitudes eram as de algu\u00e9m que tinha roubado um machado.<br \/>\nMas, de repente, ao cavar a terra, o campon\u00eas encontrou o seu machado.<br \/>\nNo dia seguinte, o homem olhou de novo para o filho do vizinho. Reparou ent\u00e3o que os modos, as palavras, o comportamento e as atitudes do rapaz n\u00e3o eram, de modo algum, as de um ladr\u00e3o de machados.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">A sabedoria chinesa tem, quase sempre, escapado \u00e0 intelig\u00eancia ocidental. Ocidente e Oriente dificilmente se interpenetram, olham-se ora com sobranceria, ora com desconfian\u00e7a, e sobretudo ignoram-se.<\/p>\n<p class=\"p3\">Vou citar um curioso exemplo recente: Em 1970, no seu \u201cTestamento Final\u201d, o russo Nikita Kruchtchev escrevia, a prop\u00f3sito de Mao Zedong: \u201cEu nunca tinha a certeza de entender o que ele queria dizer. Pensava, nessa altura, que isso se relacionava com certos aspectos da mentalidade chinesa e com a maneira de pensar dos Chineses. Algumas declara\u00e7\u00f5es de Mao chocavam-me pela sua simplicidade, outras pela sua complexidade. Nunca soube com seguran\u00e7a qual a posi\u00e7\u00e3o de Mao. \u00c9 imposs\u00edvel, com os Chineses, saber em que lei se vive. \u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 verdade que pensamento russo e pensamento chin\u00eas n\u00e3o se entendem, desde sempre. O conflito sino-sovi\u00e9tico, iniciado em finais dos anos cinquenta, foi, para al\u00e9m das diverg\u00eancias pol\u00edticas, um confronto de culturas e, por estranho que pare\u00e7a em dois pa\u00edses comunistas, um conflito entre diversas, diferenciadas concep\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 uns bons anos atr\u00e1s, em Pequim, o meu amigo Li Shunbao, companheiro de trabalho nas Edi\u00e7\u00f5es de Pequim em L\u00ednguas Estrangeiras, contou-me um pequeno di\u00e1logo que ter\u00e1 sido travado, em 1961, entre exactamente Kruchtchev e Zhou Enlai, ent\u00e3o primeiro-ministro da China. As rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses eram j\u00e1 bastante m\u00e1s e, depois de uma discuss\u00e3o azeda sobre quest\u00f5es de natureza pol\u00edtica, Kruchtchev resolveu ser \u201csimp\u00e1tico\u201d para Zhou Enlai e disse-lhe:\u201cApesar das diverg\u00eancias, n\u00f3s temos muita coisa em comum. Acreditamos ambos no marxismo, voc\u00ea \u00e9 primeiro-ministro, eu tamb\u00e9m, e voc\u00ea e eu somos respons\u00e1veis pelo Governo de duas das maiores na\u00e7\u00f5es do mundo. Mas existe uma grande diferen\u00e7a entre n\u00f3s, eu sou filho de camponeses e voc\u00ea \u00e9 filho de mandarins.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Zhou Enlai, que, de facto, n\u00e3o era filho mas neto de um mandarim, sorriu e respondeu:\u00a0\u201cDesculpe, isso n\u00e3o \u00e9 uma diferen\u00e7a, \u00e9 mais uma semelhan\u00e7a. Significa que somos ambos traidores.\u201d \u201cTraidores?!&#8230;Como?&#8230;\u201d, perguntou Kruchtchev. \u201cBem, ambos traidores porque o senhor traiu os camponeses e eu tra\u00ed os mandarins.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">A prop\u00f3sito de pol\u00edtica e de pol\u00edticos, o fil\u00f3sofo Han Feizi <span class=\"s3\">\u97d3\u975e\u5b50<\/span>escreveu 240 anos antes do nascimento de Cristo:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cPodeis esperar, em geral, encontrar cerca de dez homens honestos em\u00a0cada reino,\u00a0o\u00a0que \u00e9 uma m\u00e9dia excelente. Mas o Estado deve contar uma centena de cargos. Da\u00ed resultar que tendes mais postos oficiais do que homens de bem para ocup\u00e1-los, o que d\u00e1 dez homens honestos e noventa patifes para preencher todos esses lugares. Pode-se, portanto, apostar que o resultado ser\u00e1 a desordem generalizada, mais do que um governo organizado. Eis porque o soberano sensato acredita num sistema e n\u00e3o nas capacidades individuais, tem f\u00e9 num m\u00e9todo e desconfia da probidade pessoal.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Han Feizi foi o maior te\u00f3rico da escola\u00a0Fa Jia\u00a0<span class=\"s3\">\u6cd5<\/span> <span class=\"s3\">\u5bb6<\/span>,\u00a0conhecida no Ocidente como o Legismo. Morreria envenenado numa pris\u00e3o, talvez por ter esquecido uma das exemplares cita\u00e7\u00f5es de Conf\u00facio\u00a0\u201co homem honesto diz a verdade, o tolo diz a verdade toda.\u201d De qualquer modo, os seus princ\u00edpios exerceriam grande influ\u00eancia na China moderna e no pr\u00f3prio Mao Zedong.<\/p>\n<p class=\"p3\">Zhuang Zi<span class=\"s3\">\u5e84 \u5b50<\/span>(369-286 A. C.), o maior dos pensadores taoistas, um dos grandes poetas da liberdade, conta-nos esta hist\u00f3ria:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cEstava Zhuang Zi pescando na margem do rio quando chegaram junto dele dois mandarins enviados pelo pr\u00edncipe de Zhou.<br \/>\n\u2013 O nosso pr\u00edncipe deseja ver-vos e nomear-vos primeiro-ministro de reino de Zhou.<br \/>\nZhuang Zi continuou a pescar e, sem voltar a cabe\u00e7a, respondeu:<br \/>\n\u2013 Ouvi dizer que no reino de Zhou existe uma tartaruga sagrada que foi morta h\u00e1 muitos, muitos anos. O pr\u00edncipe conserva essa tartaruga fechada no templo dos antepassados e venera a sua carapa\u00e7a. Ora a tartaruga preferiria estar morta e ter os seus restos venerados, ou preferiria estar viva, abanando o rabo na lama dos p\u00e2ntanos?<br \/>\n\u2013 Preferiria estar viva, abanando o rabo na lama dos p\u00e2ntanos, responderam os mandarins.<br \/>\n\u2013 Podem ir embora, disse Zhuang Zi. Eu tamb\u00e9m prefiro abanar o rabo na lama dos p\u00e2ntanos.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Na China, mais do que em qualquer outro pa\u00eds do mundo, vemos como se manifesta, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, a continuidade de ideias, tradi\u00e7\u00f5es, usos e costumes.<\/p>\n<p class=\"p3\">Mao Zedong, que conhecia bem o alicerce cultural da sua p\u00e1tria, citava por vezes os velhos fil\u00f3sofos e as hist\u00f3rias da tradi\u00e7\u00e3o popular, em proveito da ideologia que defendia. Eis como, em 1945, Mao fala de uma dessas hist\u00f3rias:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cNa China Antiga havia uma\u00a0f\u00e1bula intitulada \u2018Como Yukong removeu as Montanhas\u2019. Essa f\u00e1bula conta que, em tempos que j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o, vivia no norte da China um velho chamado Yukong. Do lado sul, em frente da sua casa, encontravam-se duas grandes montanhas, Taihang e Wangwu, que lhe impediam a passagem. Dirigindo os seus filhos, Yukong decidiu arrasar as montanhas a golpes de picareta. Vendo-os em tal trabalho, um outro velho chamado Chezou, desatou a rir e disse-lhes: \u2018Que tolice! Sozinhos, voc\u00eas nunca conseguir\u00e3o arrasar essas duas montanhas\u2019. Yukong respondeu:<\/p>\n<p class=\"p6\">\u2018Quando eu morrer ficar\u00e3o os meus filhos; quando, por sua vez, eles morrerem, ficar\u00e3o os meus netos, e assim se suceder\u00e3o ininterruptamente as gera\u00e7\u00f5es. Quanto a essas duas montanhas, por muito altas que sejam, j\u00e1 n\u00e3o podem crescer mais e, a cada golpe de picareta, v\u00e3o-se tornando mais pequenas. Porque raz\u00e3o n\u00e3o poderemos arras\u00e1-las?\u2019 E Yukong continuou, inabal\u00e1vel, a cortar a pedra, dia ap\u00f3s dia, o que comoveu o deus do c\u00e9u que enviou dois anjos \u00e0 Terra que carregaram e levaram as duas montanhas. Hoje h\u00e1 tamb\u00e9m duas montanhas que pesam sobre o povo chin\u00eas: o imperialismo e o feudalismo. Desde h\u00e1 muito que o Partido Comunista da China decidiu arras\u00e1-las. N\u00f3s devemos ser perseverantes e trabalhar sem descanso, pois tamb\u00e9m podemos comover o deus do c\u00e9u. Para n\u00f3s, o deus do c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o a massa do povo chin\u00eas.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Uma das caracter\u00edsticas do pensamento chin\u00eas \u00e9 a unidade dos contr\u00e1rios, a complementaridade e permanente transforma\u00e7\u00e3o dos opostos, o movimento e a dial\u00e9ctica, o anular das contradi\u00e7\u00f5es e o imediato aparecimento de renovadas contradi\u00e7\u00f5es sempre insol\u00faveis porque, ao serem solucionadas, d\u00e3o origem a outras novas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0Nos anos vinte do s\u00e9culo XX, o fil\u00f3sofo Chen\u00a0Lifu\u00a0<span class=\"s3\">\u9673\u7acb\u592b<\/span>\u00a0escrevia coisas como estas: \u201cComo os homens n\u00e3o se parecem, as suas analogias caracterizam-se por sete per\u00edodos. No primeiro, o forte tolera o fraco; no segundo, o forte despreza o fraco; no terceiro, o forte escraviza o fraco; no quarto, o forte tem piedade do fraco; no quinto, o forte torna-se fraco; no sexto, o fraco protege o forte; no s\u00e9timo, o fraco e o forte confundem-se. \u201d<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Regressando a Zhuang Zi e ao seu edif\u00edcio da sabedoria taoista, velho de 23 s\u00e9culos, lemos:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cO universo como tal n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o do absoluto. Tudo muda, ao longo dos tempos, no decurso da evolu\u00e7\u00e3o, de acordo com o que come\u00e7a e o que acaba. A ci\u00eancia ensina que as coisas mudam de aspecto e que o absoluto se transforma em relativo. Por isso, esbate-se a dist\u00e2ncia entre grande e pequeno, entre o que vem antes e o que vem depois numa cadeia que n\u00e3o tem fim\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">E mais adiante, no seu <i>Livro de Zhuang Zi,<\/i> o mestre diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cAqueles que afirmam existir o correcto e o justo sem o seu correlativo, o incorrecto e o injusto, ou o bom governo sem o seu correlativo, o mau governo, n\u00e3o compreendem os grandes princ\u00edpios do universo nem a ess\u00eancia de toda a cria\u00e7\u00e3o. Como se pode falar da exist\u00eancia do C\u00e9u sem se referir a exist\u00eancia da Terra, ou do princ\u00edpio negativo sem se referir o princ\u00edpio positivo? No entanto, ainda h\u00e1 pessoas que continuam estas intermin\u00e1veis discuss\u00f5es. Essas pessoas ou s\u00e3o loucas ou s\u00e3o ing\u00e9nuas. \u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">\u00a0O aparente estatismo das civiliza\u00e7\u00f5es orientais tem muito a ver com o car\u00e1cter c\u00edclico do seu pensamento. Tamb\u00e9m com a sua sabedoria, bem diferente da nossa ocidental, t\u00e3o ligada \u00e0 velha l\u00f3gica grega e ao aparente dinamismo judaico-crist\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0Eis mais uma antiqu\u00edssima hist\u00f3ria do taoismo chin\u00eas, agora retirada do\u00a0Huainanzi\u00a0<span class=\"s3\">\u6dee\u5357\u5b50<\/span>, um cl\u00e1ssico da filosofia chinesa que data do s\u00e9culo II a.C.:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s5\">\u00a0\u201cUm velho e pobre campon\u00eas possu\u00eda um cavalo e o animal fugiu. \u00c0 noite, os vizinhos vieram manifestar o seu pesar, dizendo-lhe que ele tivera muito pouca sorte. O campon\u00eas respondeu simplesmente:\u2018Talvez\u2019. No dia seguinte, o cavalo regressou acompanhado de seis \u00e9guas selvagens. A noite, os vizinhos vieram felicitar o campon\u00eas, dizendo-lhe que afinal ele tivera muita sorte. O homem respondeu simplesmente: \u2018Talvez\u2019. No dia seguinte, o filho do campon\u00eas montou uma das \u00e9guas selvagens, mas caiu e partiu uma perna. \u00c0 noite, os vizinhos vieram lamentar a pouca sorte do campon\u00eas que respondeu simplesmente: \u2018Talvez\u2019. No dia seguinte, chegaram \u00e0 aldeia os funcion\u00e1rios do governo respons\u00e1veis pelo recrutamento de jovens para o ex\u00e9rcito, encontrando-se o imp\u00e9rio em tempo de guerra. O filho do campon\u00eas n\u00e3o seguiu para os campos de batalha porque tinha uma perna partida. \u00c0 noite, os vizinhos vieram felicit\u00e1-lo uma vez mais pela sua boa sorte e o velho respondeu simplesmente: \u2018Talvez.\u2019<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p2\">Agora um velho ap\u00f3logo, de Pe Yu king, que ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 mas que ter\u00e1 sido escrito h\u00e1 catorze s\u00e9culos:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cUma vez viajavam juntos um monge, um bandido, um pintor, um avarento e um s\u00e1bio. Caiu a noite e albergaram-se numa gruta.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se encontraria melhor lugar para um ermit\u00e9rio, exclamou o monge.<br \/>\n\u2013 Que \u00f3ptimo ref\u00fagio para salteadores, disse o bandido.<br \/>\n\u2013 A luz dos archotes, estes jogos de sombras, que extraordin\u00e1rios motivos para o pincel!, murmurou por sua vez o pintor.<br \/>\n\u2013 Mas que local excelente para se esconder um tesouro!, observou o avarento.<br \/>\nO s\u00e1bio escutou em sil\u00eancio e, por fim, disse:<br \/>\n\u2013 Que gruta maravilhosa!\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Na China nunca nada \u00e9 exactamente o que parece. Pode ser, pode n\u00e3o ser, tudo depende de subtis ou canhestros entendimentos de cada pessoa, da perspectiva, do olhar. No s\u00e9culo XVI, em plena dinastia Ming, o letrado Yuan Jing<span class=\"s3\">\u8881 \u6676<\/span>\u00a0 contava a interessante hist\u00f3ria de um gato. Assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">Um mandarim da corte, de nome Ji, possu\u00eda um gato magn\u00edfico. Tinha tanto orgulho no felino que resolveu chamar-lhe Tigre. Um dia, num ser\u00e3o em sua casa com v\u00e1rios amigos, todos come\u00e7aram a falar sobre o gato. Um deles disse:<br \/>\n\u2013 \u00c9 verdade que o Tigre \u00e9 um animal poderoso, mas o Drag\u00e3o tem ainda mais poder. Porque n\u00e3o chamar Drag\u00e3o ao gato?<br \/>\nUm outro interveio:<br \/>\n\u2013 Admito que o Drag\u00e3o \u00e9 mais poderoso do que o Tigre, mas ele tem de se elevar nos ares para atingir as nuvens. Parece-me pois evidente que as\u00a0nuvens s\u00e3o mais fortes do que o drag\u00e3o. Porque n\u00e3o chamar Nuvem ao gato?<br \/>\nUm terceiro disse ent\u00e3o:<br \/>\n\u2013 As nuvens podem cobrir toda a terra, mas n\u00e3o resistem ao vento que as dispersa rapidamente. Porque n\u00e3o chamar Vento ao gato?<br \/>\nUm quarto conviva acrescentou:<br \/>\n\u2013 O que pode o vento diante de um muro de pedra. Porque n\u00e3o chamar Muro ao gato?<br \/>\nUm quinto amigo argumentou depois:<br \/>\n\u2013 Um muro \u00e9 capaz de resistir ao vento, mas os ratos sabem como esburacar um muro. Porque n\u00e3o chamar Rato ao gato?<br \/>\nUm velho da aldeia de Dongli ouviu toda a conversa em sil\u00eancio. Por fim, perguntou:<br \/>\n\u2013 Como se chama o animal que ca\u00e7a ratos?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">O nosso Jo\u00e3o de Barros (1496-1570), excelente cronista quinhentista, na sua \u00c1sia, Terceira D\u00e9cada, onde entram mais de cem p\u00e1ginas que dedicou \u00e0 China e ao mundo chin\u00eas, escreveu por volta de 1550:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p6\">\u201cOs chins dizem que \u00eales t\u00eam dois olhos de entendimento \u00e0cerca de t\u00f4dalas as cousas, n\u00f3s, os da Europa, depois de nos comunicarem, t\u00eamos um olho, e t\u00f4dalas as outras na\u00e7\u00f5es s\u00e3o cegas.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p class=\"p10\"><b>Notas<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p12\">[1]\u00a0<span class=\"s7\">\u5929\u4e0b<\/span>\u00a0tian xia\u00a0significa \u201cdebaixo do c\u00e9u\u201d, mas traduz-se normalmente pelo mundo em que vivemos.<\/li>\n<li class=\"p13\">[2]\u00a0<span class=\"s7\">\u65e0\u4e3a<\/span>\u00a0wu wei\u00a0\u00e9 um conceito fundamental do taoismo. Significa \u201caus\u00eancia de ac\u00e7\u00e3o\u201d mas n\u00e3o \u00e9 inac\u00e7\u00e3o,\u00a0 corresponde a actuar n\u00e3o agindo. O s\u00e1bio parece n\u00e3o produzir, n\u00e3o laborar. Nada faz, no entanto nada fica por fazer. O\u00a0wu wei\u00a0\u00e9 dif\u00edcil de entender para as nossas mentes ocidentais.<\/li>\n<li class=\"p13\">[3]\u00a0Tao Te Ching, (trad. Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu), Lisboa, Vega Ed., 2013, pag.31.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] S\u00e3o mais de mil e quatrocentos milh\u00f5es de seres humanos, desequilibradamente espalhados por um imenso territ\u00f3rio com o tamanho da Europa. Constituem a mais paradoxal de todas as na\u00e7\u00f5es, igual a si pr\u00f3pria h\u00e1 quatro mil anos, uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00fanica, coerente, apaixonante. 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