{"id":1367,"date":"2025-10-22T05:09:00","date_gmt":"2025-10-21T21:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1367"},"modified":"2025-10-22T05:09:00","modified_gmt":"2025-10-21T21:09:00","slug":"as-funcoes-de-%e6%96%87-wen-na-cultura-chinesa-tradicional-uma-analise-mediologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/as-funcoes-de-%e6%96%87-wen-na-cultura-chinesa-tradicional-uma-analise-mediologica\/","title":{"rendered":"As fun\u00e7\u00f5es de \u6587 (Wen) na cultura chinesa tradicional: uma an\u00e1lise mediol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>1. O contexto mediol\u00f3gico <\/b><b>de <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b><i><\/i><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">A mediologia oferece intui\u00e7\u00f5es preciosas para investigarmos como uma cultura acontece no tempo. O conceito de \u201cfatos de transmiss\u00e3o\u201d explica que uma mensagem (p.ex. os valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as de uma cultura) n\u00e3o \u00e9 definida sincronicamente, como objeto de uma comunica\u00e7\u00e3o (Debray, 2000: 1-3), mas possui uma interface material, recorrendo a tecnologias para ser transmitida diacronicamente por pessoas e institui\u00e7\u00f5es (Debray, 2000: 35-38). Ressalva-se, contudo, que os meios e tecnologias s\u00e3o condicionados pelo ambiente social e as \u201ccondi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d de seu emprego (Debray, 2000: 89). A media\u00e7\u00e3o \u00e9 uma din\u00e2mica social e material(izada), na qual a mensagem \u00e9 transmitida por meio de s\u00edmbolos, comunicados entre pessoas ou via objetos (Debray, 2000: 107-109). Ao atentarmos para a \u201clongue dur\u00e9e\u201d, podemos atenuar certos h\u00e1bitos intelectuais arraigados no pensamento ocidental, que encobrem as incoer\u00eancias, descontinuidades e fortuidades da transmiss\u00e3o de uma dada cultura (Debray, 1991: 65-88). Os \u201cestudos de caso\u201d mais maduros de Debray t\u00eam a ver com a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, particularmente com o Cristianismo enquanto religi\u00e3o de (inter)media\u00e7\u00e3o. Neles, destacam-se aspetos que alteraram a Mensagem original, criando uma \u201cinfraestrutura\u201d mediol\u00f3gica para sua universaliza\u00e7\u00e3o, que inclui o emprego de c\u00f3dices, os conc\u00edlios ecum\u00e9nicos e a organiza\u00e7\u00e3o do movimento crist\u00e3o (Debray, 1991: 113-119, 131-132, 142-144).<\/p>\n<p class=\"p3\">Como aplicar as premissas mediol\u00f3gicas \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o chinesa? Escrevendo na d\u00e9cada de 1990, Debray trata esparsamente da China, retratando-a como periferia do \u201cmundo socialista\u201d moribundo, sequaz de um movimento global surgido no Ocidente (Debray, 1991: 270). Leroi-Gourhan investiga os fundamentos da cultura chinesa, suscitando as peculiaridades da l\u00edngua\/escrita, sem, contudo, tratar das respetivas implica\u00e7\u00f5es civilizacionais, como faz em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cgrafismo linear\u201d das civiliza\u00e7\u00f5es mediterr\u00e2neas (Leroi-Gourhan, 2022: I.338-348). Em \u201cO organismo Social\u201d, ele tenta delinear uma hist\u00f3ria universal conforme o desenvolvimento de estruturas \u201ctecno-econ\u00f4micas\u201d, chegando a interessantes generaliza\u00e7\u00f5es sobre como a China se encaixa nos padr\u00f5es de sedentarismo, urbaniza\u00e7\u00e3o, etc. (Leroi-Gourhan, 2022: I.279- 305). N\u00e3o debate, por\u00e9m, como a gest\u00e3o centralizada de grandes obras de infraestrutura produziu uma civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica qualitativamente diferente da ocidental. A primeira metade de \u201cOs s\u00edmbolos da sociedade\u201d oferece boas pistas sobre a constru\u00e7\u00e3o cultural de tempo\/espa\u00e7o, macrocosmo\/microcos- mo (Leroi-Gourhan, 2022: II.181-212), tamb\u00e9m v\u00e1lidas para o caso chin\u00eas. Por\u00e9m, ao assumir a historiza\u00e7\u00e3o ocidental como padr\u00e3o, distancia-se da experi\u00eancia chinesa. No campo da rela\u00e7\u00e3o entre pensamento e tecnologias, Simondon (2012) postula uma cr\u00edtica, coerente da perspetiva ocidental, de como o progresso material conseguiu particularizar a \u201ctecnicidade\u201d como um objeto independente de reflex\u00e3o, depurado da influ\u00eancia de outras institui\u00e7\u00f5es milenares como \u201cmagia\u201d, \u201creligi\u00e3o\u201d e \u201carte\u201d, preservando a \u201cfilosofia\u201d, no entanto, como campo neutro para reflex\u00e3o sobre a intera\u00e7\u00e3o entre homem e tecnologia (221-326).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Na medida em que \u00e9 poss\u00edvel falar de uma \u201cmodernidade\u201d chinesa anterior \u00e0 segunda metade do s\u00e9culo XIX, o aspeto tecnol\u00f3gico de tal civiliza\u00e7\u00e3o sempre esteve submetido ao poder da escrita, instrumentalizado pela burocracia e legitimado por sua ideologia. De facto, \u201cescrita\u201d, \u201cburocracia\u201d, \u201cideologia\u201d s\u00e3o o n\u00facleo da cultura chinesa, cuja narrativa oficial de \u201ccontinui- dade milenar\u201d (Wan, 2023) elimina o contraste entre o presente e quaisquer \u201cetapas de desenvolvimento\u201d anteriores (\u201coral\u201d, \u201ctribal\u201d, \u201cm\u00e1gico-religiosa\u201d, \u201cpr\u00e9-moderna\u201d, etc.). Logo, a caracteriza\u00e7\u00e3o do \u201cpensamento e express\u00e3o baseados na oralidade\u201d feita por Ong (2002: 37-57) n\u00e3o se aplica <i>contrario sensu <\/i>\u00e0 realidade chinesa sem restri\u00e7\u00f5es. Tampouco a an\u00e1lise de Goody (1986) de como a escrita transforma a religi\u00e3o, a economia e a burocracia concilia-se \u00e0 experi\u00eancia chinesa (16-18, 62-71, 87-99). Na pr\u00e1tica, a dificuldade de aplicar os modelos referidos a tal cultura talvez possa ser atribu\u00edda ao imenso poder de media\u00e7\u00e3o cultural da escrita\/burocracia\/ideologia unificadas sob conceito peculiarmente chin\u00eas de <\/span><span class=\"s2\">\u6e5e <\/span><span class=\"s1\">(doravante referido por sua transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica <i>Wen<\/i>).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Na l\u00edngua chinesa, o ideograma <i>Wen <\/i>funde v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es, cujo conte\u00fado pode ser explicado sistematicamente com aux\u00edlio da mediologia. Acima de tudo, <i>Wen <\/i>serve como \u201cmensagem\u201d, corporificando os valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as subjacentes \u00e0 cultura s\u00ednica. Al\u00e9m disso, exprime as \u201ctecnologias\u201d que formatam a mensagem e serve tamb\u00e9m de \u201cmeio\u201d por que s\u00e3o veiculados tais valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as. Tal palavra ainda qualifica as \u201cinstitui\u00e7\u00f5es\u201d que realizam o processo de transmiss\u00e3o no tempo da referida mensagem. Mencionemos alguns termos comuns da l\u00edngua chinesa moderna que exemplificam essas fun\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p5\">\u2022 Tecnologia: <span class=\"s3\">\u6e5e\u7904 <\/span>(escrita) e <span class=\"s3\">\u6e5e\u67c8 <\/span>(material de escrit\u00f3rio);<br \/>\n\u2022 Meio: <span class=\"s3\">\u6e5e\u88db <\/span>(documentos) e <span class=\"s3\">\u6e5e\u5498<\/span>(arquivo inform\u00e1tico);<br \/>\n\u2022 Institui\u00e7\u00f5es: <span class=\"s3\">\u5b23\u6e5e <\/span>(\u201cLetras e Humanidades\u201d) e <span class=\"s3\">\u6e5e\u9db5 <\/span>(\u201cgoverno civil\u201d);<br \/>\n\u2022 Mensagem: (cultura) e <span class=\"s3\">\u6e5e\u6671 <\/span>(civiliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">\u00c9 l\u00f3gico postular que as quatro fun\u00e7\u00f5es existem potencialmente no ideograma <i>Wen<\/i>. Estudar o seu desenvolvimento hist\u00f3rico pode revelar de que maneira tais fun\u00e7\u00f5es se manifestaram, bem como explicar a rela\u00e7\u00e3o existente entre as quatro. Nesse sentido, \u00e9 preciso termos \u00e0 m\u00e3o ferramentas que nos permitam compreender a etimologia de <i>Wen<\/i>, discutindo as no\u00e7\u00f5es pr\u00edstinas que incorpora.<\/p>\n<p class=\"p3\">Por se tratar da l\u00edngua arcaica, devemos organizar nosso estudo em duas etapas, que d\u00e3o conte\u00fado \u00e0s pr\u00f3ximas sec\u00e7\u00f5es do presente artigo. Primeiro, investigaremos a etimologia do termo baseados na evid\u00eancia paleogr\u00e1fica dos s\u00e9culos XIV-XI a.C. Depois pesquisaremos como <i>Wen <\/i>se lexicalizou pelo final do s\u00e9culo VI a.C., com um estudo filol\u00f3gico de seu emprego por Conf\u00facio.<\/p>\n<h3 class=\"p6\"><b>2. A etimologia de <\/b><b><i>wen<\/i><\/b><b> e seu car\u00e1ter mediol\u00f3gico: A evid\u00eancia paleogr\u00e1fica<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Antes de tratarmos das etimologias, \u00e9 necess\u00e1rio compreender a natureza do ideograma <i>Wen<\/i>. Dentre os processos de forma\u00e7\u00e3o de palavras identificados pela filologia chinesa, <i>Wen <\/i>\u00e9 classificado como um pictograma, ou seja, uma representa\u00e7\u00e3o direta de seu objeto (Qiu, 1988: 97-107, 111-20). Sabendo que sua transforma\u00e7\u00e3o no tempo reflete diferentes perspetivas sobre o representado, conv\u00e9m analisar o desenvolvimento do conceito de <i>Wen, <\/i>come\u00e7ando da evid\u00eancia paleogr\u00e1fica mais remota e terminando com a padroniza\u00e7\u00e3o da grafia. A exposi\u00e7\u00e3o a seguir organiza-se em torno de duas etimologias fundamentais. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>2.1. Etimologia 1: \u201cHomem de <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b>\u201d<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">As primeiras fontes dispon\u00edveis s\u00e3o as chamadas inscri\u00e7\u00f5es dos \u201cossos oraculares\u201d, cujos esp\u00e9cimes mais antigos s\u00e3o do s\u00e9culo XIV a.C. Para Xu Zhongshu, <i>Wen <\/i>possui duas etimologias principais. A primeira, que ele prefere, \u201csimboliza um homem de p\u00e9, com um padr\u00e3o decorativo marcado sobre seu peito. \u00c9 prov\u00e1vel que Wen indique (essa) tatuagem\u201d (Xu, 1990: 996). Em nossa opini\u00e3o, o padr\u00e3o decorativo n\u00e3o deve ser uma tatuagem, costume que os chineses do per\u00edodo arcaico julgavam t\u00edpico de estrangeiros (p.ex.: Dai, 2000: 467). \u00c9 mais prov\u00e1vel que fosse um tipo de <span class=\"s4\">\u9efc\u9efb<\/span>, ins\u00edgnias bordadas sobre os trajes formais dos nobres\/burocratas a servi\u00e7o na corte. Mais do que um adere\u00e7o, constitu\u00edam um c\u00f3digo social e cristalizavam uma vis\u00e3o de mundo. Ao identificar a patente das pessoas autorizadas a traj\u00e1-los, refletiam sua perten\u00e7a a um sistema de valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as (p.ex. Xun e Wang, 2016: 410). \u00c9 importante registrar o detalhe de que a \u201ctatuagem\u201d\/ins\u00edgnia bordada aparece em v\u00e1rias formas, inclusive como a grafia arcaica do ideograma de \u201cCora\u00e7\u00e3o\u201d<sup>1<\/sup> (Xu, 1990: 996). No pensamento confuciano antigo, o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a sede do pensar\/sentir e da consci\u00eancia moral do indiv\u00edduo, sendo parte da ideologia de <i>Wen <\/i>(M\u00eancio, 2000: 112-125).<\/p>\n<p class=\"p3\">Nesse contexto, Kang Yin, uma autoridade no tema, interpreta que a etimologia de \u201chomem tatuado n\u00e3o representa uma pessoa real\u201d, mas \u201cum \u00eddolo\u201d do que qualifica de \u201cGrande Homem\u201d. Logo, <i>Wen <\/i>significa um tipo de \u201cgrandeza\u201d, cujo conte\u00fado \u00e9 glosado atrav\u00e9s de tr\u00eas exemplos: <span class=\"s4\">\u6587\u7956<\/span>, a \u201cgrandeza\u201d de um ancestral que iniciou ou deu continuidade \u00e0 \u201cGrande Obra\u201d (de civilizar\/fundar uma dinastia real); <span class=\"s4\">\u6587\u8003<\/span>, a \u201cgrandeza\u201d do pai falecido de um \u201cGrande Rei\u201d, merecedor de sacrif\u00edcios por parte deste \u00faltimo; e <span class=\"s4\">\u6587\u4eba<\/span>, literalmente, \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d (Kang, 1979: 10-11). Nas fontes mais antigas, o \u00e9timo \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d era reservado a uma minoria seleta de \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d que contribu\u00edram para a cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da ordem pol\u00edtica (p.ex. Kong, 2000: 657).<\/p>\n<p class=\"p3\">Analisemos com sucintez de que maneira esses homens se notabilizavam como <i>Wen<\/i>. Enquanto estavam vivos, eram louvados por sua \u201cVirtude <i>Wen\u201d <\/i><span class=\"s4\">\u6587\u5fb7<\/span>, legitimando-se como modelos para as gera\u00e7\u00f5es vindouras (p.ex. Mao, 2000: 1466-1467). A \u201ctatuagem\u201d\/ins\u00edgnia do \u201cCora\u00e7\u00e3o\u201d refor\u00e7a que a moralidade exemplar desses vultos hist\u00f3ricos n\u00e3o s\u00f3 integra tal \u201cVirtude\u201d, mas ainda serve de fonte para os feitos e m\u00e9ritos relacionados \u00e0 \u201cGrande Obra\u201d. Ao morrerem, os \u201cHomens de Wen\u201d confundiam-se com as institui\u00e7\u00f5es que legaram, descritas como \u201cEstatutos <i>Wen<\/i>\u201d <span class=\"s4\">\u6587\u7ae0<\/span> (p.ex. Dai, 2000: 1166). Sua forma de ser, agir e organizar a sociedade era tratada como precedentes que, transmitidos oralmente desde tempos imemoriais, foram codificados<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>no sistema de etiquetas e cerim\u00f3nias dos \u201cRitos e M\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Antes de passarmos \u00e0 segunda etimologia, precisamos analisar as implica\u00e7\u00f5es mediol\u00f3gicas desse processo de transforma\u00e7\u00e3o do \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d num \u201c\u00eddolo\u201d. Em sua influente an\u00e1lise da forma de pensar caracter\u00edstica dos chineses antigos, Nakamura Hajime (1988: 43-62) destaca a \u201cincipi\u00eancia do pensamento abstrato\u201d do homem chin\u00eas antigo, ou seja, sua tend\u00eancia de expressar no\u00e7\u00f5es gerais via exemplos particulares. Em nosso entender, tal atitude revela a motiva\u00e7\u00e3o dos ideogramas, que tendem a tomar uma coisa existente (neste caso, os \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d) como um crit\u00e9rio de compara\u00e7\u00e3o para coisas cong\u00e9neres (sua \u201cVirtude <i>Wen<\/i>\u201d, \u201cEstatutos <i>Wen<\/i>\u201d, etc.). Numa etapa posterior, a refer\u00eancia concreta original (\u201cHomem\u201d, \u201cVirtude\u201d, etc.) deixa de existir e o termo \u00e9 hipostasiado (apenas \u201c<i>Wen<\/i>\u201d). Desta forma, percebe-se como os chineses tendem a considerar seus ideogramas como reifica\u00e7\u00e3o de conceitos (cf. \u201cvaloriza\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica\u201d em Nakamura, 1988: 19-41). Em suma, esta primeira etimologia enfatiza os aspetos de \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\/mensagem\u201d de <i>Wen<\/i>, conforme a ideologia ortodoxa (confuciana) de que os \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d, por sua erudi\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, s\u00e3o os principais vetores dos valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as chineses, modelando as institui\u00e7\u00f5es e servindo de exemplo para as gera\u00e7\u00f5es vindouras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>2.2. Etimologia 2: \u201cescrita\u201d<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Voltemos agora ao dicion\u00e1rio de Xu (1990), que admite outra etimologia para <i>Wen<\/i>: \u201ctamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que, mediante simplifica\u00e7\u00e3o, [a tatuagem tenha desaparecido do peito da figura, de modo que] o ideograma representa [uma figura antropom\u00f3rfica atrav\u00e9s do] cruzamento de linhas\u201d (996). Mais do que uma etimologia alternativa, a grafia sem a \u201ctatuagem\u201d\/ins\u00edgnia bordada parece ser uma variante do ideograma <i>Wen<\/i>, julgada a evid\u00eancia paleogr\u00e1- fica historicamente subsequente aos \u201cossos oraculares\u201d. Numa inf luente compila\u00e7\u00e3o sobre as inscri\u00e7\u00f5es conhecidas como \u201cdos vasos de bronze\u201d, h\u00e1 numerosos exemplos de <i>Wen<\/i>, com graus diferentes de antropomorfismo ou estiliza\u00e7\u00e3o (Rong, 1985: 503-505). Em termos hist\u00f3ricos, a grafia altamente estilizada e sem \u201ctatuagem\u201d\/ins\u00edgnia prevaleceu na padroniza\u00e7\u00e3o da escrita chinesa, que se acelerou no final do s\u00e9c. III a.C. N\u00e3o estranha que, do mesmo modo que o ideograma do \u201chomem \u2018tatuado\u2019\/com roupa bordada\u201d deixou de existir, sua respetiva etimologia foi substitu\u00edda pela de \u201ccruzamento de linhas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">A etimologia \u201cmoderna\u201d de <i>Wen <\/i>\u00e9 aquela proposta por Xu Shen (58?- 148?) em <i>Shuowen Jiezi<\/i>, o primeiro dicion\u00e1rio etimol\u00f3gico da l\u00edngua chinesa que recebemos: \u201cWen significa \u2018tra\u00e7os que se intersectam\u2019, simbolizando padr\u00f5es de linhas cruzadas (\u2026)\u201d (Xu, 1988: 425). Duan Yucai, (1735-1815), o influente fil\u00f3logo do per\u00edodo final do imp\u00e9rio chin\u00eas, postula um sentido ainda mais espec\u00edfico, com base numa cita\u00e7\u00e3o dos <i>Ritos de Zhou, <\/i>um cl\u00e1ssico confuciano que lista os cargos e atribui\u00e7\u00f5es dos burocratas que integravam a corte dos reis de Zhou (s\u00e9c. XI a.C.-256 a.C.). Um trecho do cap\u00edtulo sobre o \u201cbordador real\u201d diz que \u201cWen s\u00e3o os bordados (dos trajes formais feitos com fios) azuis-\u00edndigo e vermelhos\u201d (Zheng, 2000: 1305-1307). Note-se que o tema dos trajes bordados suscita a primeira etimologia do ideograma. Nada obstante, Duan se concentra na diferen\u00e7a entre <i>Wen <\/i>e <span class=\"s3\">\u5f63<\/span>, dois \u00e9timos de sentido correlato, mas pertencentes a radicais diferentes. Tal como <i>Wen<\/i>, <span class=\"s3\">\u5f63 <\/span>\u00e9 um padr\u00e3o decorativo, s\u00f3 que de uma roupa feita de pelame (Xu, 1988: 425). Como repercuss\u00e3o pr\u00e1tica desse cotejo, a etimologia de <i>Wen <\/i>\u00e9 abstra\u00edda de \u201cfigura antropom\u00f3rfica\u201d para \u201cpadr\u00e3o\u201d, \u201clinhas\u201d e, por extens\u00e3o, \u201cescrita\u201d, o que problematiza outros aspetos mediol\u00f3gicos do ideograma. Nesse sentido, Duan Yucai complementa sua an\u00e1lise do ideograma de <i>Wen <\/i>citando a lenda de como Cangjie, o cronista-astr\u00f3logo do primeiro \u201csoberano\u201d da China, teria criado o conjunto original de ideogramas:<\/p>\n<p class=\"p7\">(Cangjie) observou os rastros deixados por animais e aves, compreendendo ser poss\u00edvel diferenciar (os tipos de bichos) a partir dos padr\u00f5es criados por eles. Assim definiu os riscos (sobre a seda) e marcas (sobre o bambu) de acordo com o aspecto e forma (das coisas). Por isso chama-se-os de Wen<sup>2<\/sup>. (Xu, 1988: 425)<\/p>\n<p class=\"p3\">Esta segunda etimologia interpreta <i>Wen <\/i>como diretamente relacionado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da escrita, tanto no seu aspeto intelectual\/conceitual de estiliza\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es naturais, como no material\/pragm\u00e1tico de desenvolvimento de t\u00e9cnicas, ferramentas, etc. Para utilizarmos o vocabul\u00e1rio da mediologia, enquanto o primeiro sentido, \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d, destacava as fun\u00e7\u00f5es \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\/mensagem\u201d de <i>Wen<\/i>, a segunda ace\u00e7\u00e3o, \u201cPadr\u00f5es\/Escrita\u201d real\u00e7a as fun\u00e7\u00f5es \u201ctecnologia\/ meio\u201d desse conceito. Esmiucemos a rela\u00e7\u00e3o entre estas \u00faltimas duas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\">As lendas chinesas registram etapas anteriores \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos ideogramas por Cangjie. O pref\u00e1cio \u00e0 <i>Shuowen Jiezi <\/i>come\u00e7a aludindo a um trecho das <i>Muta\u00e7\u00f5es de Zhou<\/i>. Citemos o original:<\/p>\n<p class=\"p7\">Na Antiguidade, Paoxi reinava sobre Tudo sob o C\u00e9u. Levantando a cabe\u00e7a, contemplou as imagens (formadas pelos astros) no C\u00e9u; baixando a vista, observou os formatos (das coisas) sobre a Terra; olhando (para a frente), pers- crutou os Wen [\u201cpadr\u00f5es\u201d, i.e. contorno dos corpos, formas das pegadas, etc.] de animais e aves. Considerando (o relevo) pr\u00f3prio (de cada regi\u00e3o da) Terra, tomou por refer\u00eancia o que estava perto de si, ou seja, as partes do pr\u00f3prio corpo, e tamb\u00e9m o que estava longe, a saber, as coisas (que existem dispersas pelo mundo). Desta forma, Paoxi concebeu os Oito Trigramas para expressar a Virtude do Brilho Divino e para tipificar o aspecto das Dez Mil Coisas(\u2026). (Wang, 2000: 350-351)<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Este \u00e9 o in\u00edcio de uma passagem que resume os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos nos prim\u00f3rdios da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa. A narrativa come\u00e7a com a cria\u00e7\u00e3o da protoescrita, utilizando termos cosmol\u00f3gicos. Os Oito Trigramas s\u00e3o um conjunto fundamental de s\u00edmbolos formados pela combina\u00e7\u00e3o de dois tipos de linhas: linhas cheias ( <\/span><span class=\"s6\">\u301e <\/span><span class=\"s5\">) e linhas quebradas ( <\/span><span class=\"s6\">&#8211; &#8211; <\/span><span class=\"s5\">). Estas duas s\u00e3o batizadas como, respetivamente, Yang e Yin, o dualismo fundamental do pensamento chin\u00eas. Sabidamente, o Yin-Yang \u00e9 um c\u00f3digo bin\u00e1rio \u201cprimitivo\u201d que representa uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas mutuamente opostas: claro, escuro; quente, frio; ativo, passivo; evidente, oculto; etc. Os Oito Trigramas d\u00e3o um passo adiante, simbolizando fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos, acidentes geogr\u00e1ficos, pontos cardeais, etapas do ano, animais\/plantas, partes do corpo humano, qualidades humanas etc. \u00c9 uma classifica\u00e7\u00e3o primitiva, resultante do ac\u00famulo milenar de experi\u00eancias e conhecimentos, que foi instrumentalizada em v\u00e1rios campos do saber, como astrologia, medicina, arquitetura, etc. \u00c9 imprescind\u00edvel ressalvar que os Oito Trigramas n\u00e3o s\u00e3o uma forma \u201cneutra\u201d de protoescrita, mas uma interpreta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e at\u00e9 religiosa da realidade: \u201cBrilho Divino\u201d originalmente acenava para inf lu\u00eancia de deidades da natureza e esp\u00edritos dos mortos. Notemos o discreto retorno do \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d, caracter\u00edstico da primeira etimologia: Paoxi \u00e9 um dos \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d lend\u00e1rios da China. Embora saibamos que a escrita foi desenvolvida num longo processo gradual, a mentalidade chinesa antiga atribui quaisquer avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos a esses grandes vultos, no jarg\u00e3o chin\u00eas, os \u201cHomens S\u00e1bios\u201d <\/span><span class=\"s6\">\u5be3\u5b23<\/span><span class=\"s5\">. \u201cS\u00e1bios\u201d como Paoxi intuem verdades que est\u00e3o al\u00e9m do alcance de pessoas comuns com seus \u201ccora\u00e7\u00f5es\u201d. N\u00e3o estranha, portanto, que tenha sido ele o primeiro de um seleto grupo que compreen- deu a ordem subjacente \u00e0 realidade, transmitindo esses conhecimentos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es vindouras. O mesmo padr\u00e3o repete-se no miolo da passagem em causa, narrando como outros \u201cHomens S\u00e1bios\u201d ensinaram o povo a pescar e ca\u00e7ar, a cultivar a terra, a propiciar as deidades, a celebrar os mortos, etc.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Todas essas inven\u00e7\u00f5es e <i>breakthroughs <\/i>t\u00e9cnicos s\u00e3o descritos como intui\u00e7\u00f5es originadas dos Trigrama\/Hexagramas.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">O final da passagem concerne-nos mais de perto:<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">(\u2026) Na Alta Antiguidade [i.e., tempos imemoriais], o governo da sociedade era realizado por meio de n\u00f3s em cordas. O Homem S\u00e1bio de tempos posteriores [Cangjie?] passou a fazer riscos (sobre a seda) e marcas (sobre o bambu). Os Cem Funcion\u00e1rios [i.e. a burocracia] adotaram (a escrita como meio) de governar (o pa\u00eds) e de inspecionar as dezenas de milhares de pessoas do povo-mi\u00fado, [intui\u00e7\u00e3o] originada do Hexagrama Jue. (Wang, 2000: 356)<\/p>\n<p class=\"p3\">A culmina\u00e7\u00e3o da obra civilizadora dos \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o de uma burocracia letrada. O termo \u201cn\u00f3s em cordas\u201d sugere a exist\u00eancia de uma administra\u00e7\u00e3o \u00e1grafa. De acordo com os coment\u00e1rios antigos, dava-se n\u00f3s em cordas para efeitos de registro (calend\u00e1rio, contabilidade, etc.). Gra\u00e7as a \u201cHomens S\u00e1bios\u201d como Cangjie, contudo, compilou-se um conjunto de ideogramas, bastantes para viabilizar o comando da massa de camponeses por parte de um pequeno conjunto de indiv\u00edduos que dominam a escrita. Al\u00e9m do problema intelectual da cria\u00e7\u00e3o de conven\u00e7\u00f5es para a escrita, a passagem ainda trata, indiretamente, de seu desenvolvimento material. Por exemplo, \u201criscos e marcas\u201d alude \u00e0s ferramentas e aos meios utilizados: Pedra e bronze para textos solenes; pincel e seda, antes da populariza\u00e7\u00e3o do papel; form\u00e3o e bambu, pois os \u201clivros\u201d da China Arcaica de modo geral eram esteiras desse material (Tsien, 2013).<\/p>\n<p class=\"p3\">Em conclus\u00e3o, percebemos que as duas etimologias de <i>Wen <\/i>s\u00e3o complementares. \u201cEscrita\u201d (<i>Wen<\/i>) \u00e9 compreendida de forma ampla, como pr\u00e1tica social que integra as <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>fun\u00e7\u00f5es<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>meio\/t\u00e9cnica\/mensagem\/institui\u00e7\u00e3o. Por seu interm\u00e9dio, os burocratas tornaram-se guardi\u00e3es da tradi\u00e7\u00e3o dos \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d originais, cujos testemunhos come\u00e7aram a circular oralmente, mas terminaram registrados em obras dotadas de autoridade (<i>Wen<\/i>). No processo de reprodu\u00e7\u00e3o (processo material) e interpreta\u00e7\u00e3o (processo intelectual) desses textos, os burocratas difundiram um conjunto de valores (<i>Wen<\/i>) de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, reclamando para si o t\u00edtulo de (novos) \u201cHomens de <i>Wen\u201d<\/i>. Nesse contexto, vale a pena examinar como a palavra<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><i>Wen <\/i>foi empregada por esses indiv\u00edduos, tentando compreender de que maneira os conte\u00fados mediol\u00f3gicos em an\u00e1lise foram constru\u00eddos socialmente.<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h3><b>3. Uma an\u00e1lise mediol\u00f3gica\u00a0 <\/b><b>da lexicaliza\u00e7\u00e3o de <\/b><b><i>wen<\/i><\/b><b>, com base\u00a0 <\/b><b>no emprego do termo por Conf\u00facio<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Neste item, discutiremos os diferentes conte\u00fados do termo <i>Wen <\/i>no per\u00edodo formativo da cultura cl\u00e1ssica chinesa, previamente \u00e0 funda\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio em 221 a.C. Como <i>corpus<\/i>, estudaremos o emprego dessa palavra (e termos-chave correlatos) por Conf\u00facio nos <i>Analectos, <\/i>os quais registram ditos e feitos do grande s\u00e1bio e disc\u00edpulos mais influentes. Tal escolha justifica-se por dois motivos. Primeiro, sua autoridade; os <i>Analectos <\/i>canonizaram-se muito r\u00e1pido, ao lado de obras como <i>Muta\u00e7\u00f5es, Documentos, Poemas <\/i>etc, cuja vetustez era muito mais vener\u00e1vel. Segundo, h\u00e1 uma raz\u00e3o mediol\u00f3gica: Os <i>Analectos <\/i>consagraram-se como \u201cmanual de primeiras letras\u201d e como \u201ccatecismo\u201d da tradi\u00e7\u00e3o, incutindo nos meninos aspirantes \u00e0 burocracia o estilo de vida e valores dos \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d por mais de dois mil\u00e9nios.<\/p>\n<p class=\"p3\">A escolha de Conf\u00facio como objeto de an\u00e1lise dispensa justificativas, mas \u00e9 necess\u00e1rio documentar como a posteridade relacionou-o a <i>Wen<\/i>. Um famoso \u00e9dito real de 221 qualifica-o em termos ainda repetidos no presente:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\">(Depois de fracassar em sua busca de patroc\u00ednio), Conf\u00facio retirou-se para investigar os Ritos das Cinco Dinastias. Realizou a obra digna de um Rei \u2013 apesar de n\u00e3o ter sido um. Com a ajuda do Cronista-mor do pa\u00eds de Lu, ele compilou os Anais da Primavera e do Outono; com o aux\u00edlio do Gr\u00e3o-mestre de M\u00fasica, ele ordenou as obras do Cl\u00e1ssico dos Poemas em Odes Elegantes e Hinos Sacrificais. E assim ser\u00e1 que, mesmo transcorridos mil\u00eanios, n\u00e3o haver\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o honre o Wen de Conf\u00facio como patriarca, seja ao transmiti-lo, seja ao (re)cri\u00e1-lo. Ao admirar a sua Grande Sapi\u00eancia e (inspirados por ela) tra\u00e7armos planos para o futuro\u2026 ai! (Que podemos dizer?) Podemos dizer que ele \u00e9 o Grande S\u00e1bio de nossa era e permanecer\u00e1 o modelo para os mestres depois de cem mil anos!.<\/p>\n<p class=\"p7\">(Chen, 1982: 77)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Expliquemos algumas ideias-chave do trecho acima: \u201cRei sem coroa\u201d, \u201cpatriarca\u201d, \u201csapi\u00eancia\u201d e \u201cmestre\u201d. Primeiro, Conf\u00facio pereniza a obra dos reis, sem ter o mesmo estatuto, compilando, estudando e transmitindo precedentes de comportamento e governo. \u201cPatriarca\u201d indica a rela\u00e7\u00e3o de paternidade intelectual e espiritual assumida por Conf\u00facio sobre aqueles que o tomam como inspira\u00e7\u00e3o. \u201cSapi\u00eancia\u201d, antes um atributo exclusivo dos \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d, agora \u00e9 posto ao alcance daquelas pessoas que, como Conf\u00facio, tornaram-se os novos \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d. Uma elite alargada numericamente afirma-se \u201csapiente\u201d sob crit\u00e9rios menos restritivos: o dom\u00ednio da leitura e escrita. N\u00e3o causa surpresa, portanto, que Conf\u00facio seja lembrado mais como \u201cmestre\u201d, ou seja, um professor, do que como um burocrata: ele, suas obras e sua escola s\u00e3o o mais importante mediador para que a tradi\u00e7\u00e3o se difunda para o futuro. Dado esse contexto, o que \u00e9 o <i>\u201cWen <\/i>de Conf\u00facio\u201d, citado no \u00e9dito?<\/p>\n<p class=\"p3\">Podemos respond\u00ea-lo orientando-nos por como o pr\u00f3prio Conf\u00facio utiliza o termo nos <i>Analectos<\/i>. Estruturaremos a exposi\u00e7\u00e3o de acordo com os quatro conceitos mediol\u00f3gicos postulados <i>supra<\/i>, em ordem de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p8\"><b>3.1. <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b> como mensagem<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">Partamos de uma pista deixada pelo \u00e9dito sobre o que seria tal mensagem. Em chin\u00eas, \u201cseja ao transmiti-lo, seja ao (re)cri\u00e1-lo\u201d \u00e9 <span class=\"s3\">\u7996\u7c0b<\/span>, uma corruptela do que Conf\u00facio diz de si pr\u00f3prio em 7.1<sup>3<\/sup>: \u201ctransmito, mas n\u00e3o crio; confio e gosto da Antiguidade\u201d (Conf\u00facio, 2000: 93). Com isso, o grande erudito reclama a autoridade de seus ensinamentos, n\u00e3o como criador do <i>Wen <\/i>de tempos lend\u00e1rios, mas como seu transmissor. Conf\u00facio reproduz fielmente o que aprendeu sobre os \u201cHomens S\u00e1bios\u201d arcaicos, n\u00e3o por um dever de objetividade acad\u00e9mica, mas devido \u00e0 venera\u00e7\u00e3o que sente pelos mesmos.<\/p>\n<p class=\"p3\">9.5 esmi\u00fa\u00e7a melhor a rela\u00e7\u00e3o pessoal de Conf\u00facio com <i>Wen<\/i>. Em certa altura de suas andan\u00e7as, ele \u00e9 hostilizado por pessoas que o confundem com algu\u00e9m que lhes tinha feito mal. Em perigo, diz aos disc\u00edpulos: \u201cO Rei Wen j\u00e1 morreu, (seu) Wen n\u00e3o estar\u00e1 aqui (comigo)? Se o C\u00e9u quisesse que este Wen se perdesse, (eu que) vou morrer depois (do Rei) n\u00e3o teria recebido este Wen. J\u00e1 que o C\u00e9u ainda n\u00e3o fez este Wen se perder, o que estas pessoas po- dem fazer comigo?\u201d (Conf\u00facio, 2000: 126-127). <i>Wen <\/i>\u00e9 empregado em dois sentidos; descrevamo-los.<\/p>\n<p class=\"p3\">Primeiro, <i>Wen <\/i>\u00e9 o ep\u00edteto de Ji Chang (? \u2013 1056 a.C.) o pai do fundador da dinastia Zhou. Ji Chang \u00e9 chamado de <i>Wen <\/i>por servir como modelo de governante \u00edntegro e criador das alian\u00e7as que sustentariam a nova ordem de Zhou. Mais importante ainda, Ji \u00e9 <i>Wen <\/i>por seu contributo basilar para a civiliza\u00e7\u00e3o chinesa: a tradi\u00e7\u00e3o afirma que ele desenvolveu os s\u00edmbolos de Paoxi (cf. supra) no sistema de 64 Hexagramas que comp\u00f5e o texto atual do <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es<\/i>. \u00c9 interessante que, chegando \u00e0 \u00e9poca de Conf\u00facio, o ep\u00edteto de <i>Wen <\/i>podia ser atribu\u00eddo a pessoas relativamente comuns. Detalharemos esse processo no momento adequado.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">O segundo sentido de <i>Wen <\/i>\u00e9 mais amplo. Fundado nos seus conhecimentos esot\u00e9ricos das <i>Muta\u00e7\u00f5es<\/i>, Ji previu que o trono seria outorgado ao seu cl\u00e3 atrav\u00e9s do \u201cMandato do C\u00e9u\u201d (i.e., o favor e prote\u00e7\u00e3o da deidade celeste). Conf\u00facio considera-se herdeiro dessa cultura, malgrado pertencer a um estrato inferior da elite e ter vivido a etapa final de seus anos maduros sem um cargo burocr\u00e1tico. A hermen\u00eautica da passagem explica que o grande erudito encontrou conforto frente ao perigo por \u201cconhecer o Mandato do C\u00e9u\u201d e de \u201cter \u2018este <i>Wen\u2019 <\/i>em seu pr\u00f3prio \u00edntimo\u201d. No caso de Conf\u00facio, o \u201cMandato do C\u00e9u\u201d assume um sentido mais difuso, de destino coletivo da cultura\/civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, por um lado, podendo ser interiorizado, por outro. Exploremo-lo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Em primeiro lugar, <i>Wen <\/i>indica o sentido hist\u00f3rico da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, como em 3.14: \u201c(A casa de) Zhou contempla as Duas Dinastias, qu\u00e3o belo e brilhante \u00e9 o seu Wen! Eu sigo Zhou.\u201d (Conf\u00facio, 2000: 39-40). A hermen\u00eautica autorizada explica que Zhou tinha herdado o sistema civilizador das duas dinastias que lhe tinham antecedido e, sobre seus alicerces, tinha criado uma cultura \u201cmais completa\u201d. Ou seja, al\u00e9m de um claro apego conservador \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es, apreciam-se tamb\u00e9m os aprimoramentos ocorridos dentro de um quadro delimitado pelos antigos. Por tal raz\u00e3o, Conf\u00facio declara que \u201csegue Zhou\u201d. Na maneira chinesa de entender as coisas, trata-se menos de uma supera\u00e7\u00e3o das Duas Dinastias, do que a aceita\u00e7\u00e3o das mesmas como etapas necess\u00e1rias do presente, sendo necess\u00e1rio perenizar a tradi\u00e7\u00e3o das duas, \u201cinovando-a\u201d. Isso resolve o paradoxo aparente de um verso c\u00e9lebre do poema <i>Rei Wen<\/i>: \u201cEmbora Zhou seja um pa\u00eds antigo, o seu Mandato ( do C\u00e9u) \u00e9 sempre novo\u201d (Mao, 2000: 1121-1122).<\/p>\n<p class=\"p3\">Em segundo lugar, <i>Wen <\/i>pode ser interiorizado, atrav\u00e9s de uma certa disciplina. Enquanto os \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d eram <i>Wen <\/i>por natureza, Conf\u00facio advoga que pessoas menos incomuns tamb\u00e9m est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o de aprenderem a s\u00ea-lo. Entretanto, <i>Wen <\/i>nesse caso \u00e9 algo que vem de fora, sendo estranho \u00e0 forma de viver habitual do p\u00fablico. Para deixar claro que <i>Wen <\/i>\u00e9 algo artificial neste significado, Conf\u00facio qualifica-o, distinguindo-o do que chama de \u201cNaturalidade\u201d. 6.18, uma passagem muito influente, diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\">Quando a Naturalidade prevalece sobre Wen, temos (homens r\u00fasticos, como os que) vivem fora da capital; quando Wen prevalece sobre a Naturalidade, temos (homens excessivamente civilizados, como os) cronistas. \u00c9 preciso ter ambos em si, Wen e Naturalidade, meio a meio, para que possamos nos tornar Homens Nobres (i.e. o ser humano ideal).<\/p>\n<p class=\"p7\">(Conf\u00facio, 2000: 86)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Conf\u00facio valoriza a Naturalidade como fonte de sentimentos e valores aut\u00eanticos. Ele tem uma vis\u00e3o positiva da natureza humana, mesmo pertencendo a uma sociedade arraigadamente hier\u00e1rquica. Por isso, 15.18 diz que \u201co senso de dever \u00e9 inerente \u00e0 Naturalidade do Homem Nobre. Ele age com base nos Ritos, expressa-se conforme (conven\u00e7\u00f5es sociais de) mod\u00e9stia e confirma (sua reputa\u00e7\u00e3o) sendo confi\u00e1vel. Eis um Homem Nobre!\u201d (Conf\u00facio, 2000: 242-243). Em outras palavras, h\u00e1 um senso moral inerente ao ser humano que, entretanto, precisa ser aperfei\u00e7oado pelos Ritos. A rela\u00e7\u00e3o entre estes e <i>Wen <\/i>suscita outra fun\u00e7\u00e3o mediol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p8\"><b>3.2. <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b> como institui\u00e7\u00e3o<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">15.18 falou dos <i>Ritos <\/i>como uma forma de socializar \u201cHomens Nobres\u201d potenciais. Ou seja, possuir os valores corretos n\u00e3o basta, \u00e9 necess\u00e1rio interiorizar c\u00f3digos culturais e se comportar de acordo com os mesmos. Como diss\u00e9ramos, os Ritos (e M\u00fasica) d\u00e3o nome a uma institui\u00e7\u00e3o, o sistema civilizador de etiqueta e cerim\u00f3nias que normatizava os padr\u00f5es de conviv\u00eancia na China antiga. Os <i>Analectos <\/i>podem ser lidos como um breve tratado sobre o tema, de modo que a educa\u00e7\u00e3o pelos Ritos se vocaciona a interiorizar <i>Wen <\/i>enquanto mensagem.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O coment\u00e1rio autorizado a 15.18 acresce que os <i>Ritos <\/i>servem para transformar o indiv\u00edduo em <i>Wen<\/i>. Conf\u00facio est\u00e1 de acordo? Na primeira parte de 14.12, ele confirma-o abertamente, esclarecendo qual a rela\u00e7\u00e3o entre os dois conceitos:<\/p>\n<blockquote><p>(Um disc\u00edpulo) perguntou o que \u00e9 um Homem Completo. Conf\u00facio disse: \u2018\u00e9 algu\u00e9m s\u00e1bio como Zang Wuzhong, abnegado como Meng Gongchuo, corajoso como Bian Zhuangzi, (Adestrado nas) Artes como Ran Qiu\u2026 e se utilizarmos os Ritos e M\u00fasica para transform\u00e1-lo em Wen, tamb\u00e9m pode se considerar uma pessoa assim de Homem Completo.<\/p>\n<p>(Conf\u00facio, 2000: 212-213)<\/p><\/blockquote>\n<p><span class=\"s5\">Logo, <i>Wen <\/i>\u00e9 a interioriza\u00e7\u00e3o dos Ritos. Abrangendo todas as dimens\u00f5es da vida, pessoal e familiar, privada e p\u00fablica, material e imaterial, os Ritos devem ser seguidos volunt\u00e1ria e conscienciosamente. Sabedoria, abnega\u00e7\u00e3o, coragem e \u201cAdestramento nas Artes\u201d distinguem-se de <i>Wen<\/i>, porque s\u00e3o cong\u00e9nitas e tem patamares diferentes, de pessoa a pessoa. <i>Ritos e M\u00fasica<\/i>, todavia, s\u00e3o um padr\u00e3o aplicado <i>erga omnes<\/i>, alheio a peculiaridades individuais. Nada obstante, noutra passagem sobre a forma\u00e7\u00e3o do \u201cHomem Completo\u201d, Conf\u00facio tamb\u00e9m distingue <i>Wen <\/i>dos Ritos. 6.27 l\u00ea: \u201cSe um Homem Nobre Estudar Wen abrangentemente e utilizar os Ritos para conter (sua individualidade), talvez seja poss\u00edvel que nunca viole (o que \u00e9 certo) mesmo!\u201d (Conf\u00facio, 2000: 90). Neste caso, Ritos continuam a significar o c\u00f3digo de etiqueta e cerim\u00f3nias, ao passo que <i>Wen <\/i>\u00e9 objeto de \u201cEstudar\u201d. Assinalemos que o ideograma de \u201cEstudar\u201d tamb\u00e9m significava a mais importante institui\u00e7\u00e3o educacional de um feudo\/pa\u00eds (Dai, 2000: 1227). Tutelado pelos cl\u00e3s nobres e departamentalizado pelos Ritos, havia uma progress\u00e3o das primeiras letras, oferecidas nos pa\u00e7os nobres, at\u00e9 a \u201cEscola\u201d na capital. O ensino era utilit\u00e1rio, predominantemente orientado para o servi\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Conf\u00facio n\u00e3o questionou a pr\u00e1tica de que letrados cedo ou tarde procurassem emprego junto aos governantes. Embora se trate de uma quest\u00e3o muito complexa, podemos citar 14.1 para documentar a rela\u00e7\u00e3o entre <i>Wen <\/i>e a burocracia. Perguntado sobre o que deveria ser motivo de vergonha para um \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d, Conf\u00facio explicou que \u201cdeve-se procurar emprego (na burocracia) quando um pa\u00eds est\u00e1 em Ordem. Quem o faz quando n\u00e3o h\u00e1 Ordem, isso \u00e9 uma vergonha\u201d (Conf\u00facio, 2000: 206-207).<\/p>\n<p class=\"p3\">Feita a ressalva, ele alterou a din\u00e2mica entre <i>Wen <\/i>e educa\u00e7\u00e3o. Em 9.7, um disc\u00edpulo lembra-se que Conf\u00facio certa vez disse: \u201cN\u00e3o me foi dado um uso (i.e. cargo burocr\u00e1tico) de relevo. Por isso (Adestro meus disc\u00edpulos nas) Artes\u201d (Conf\u00facio, 2000: 128). Ou seja, Conf\u00facio tornou-se professor e criou sua escola fora da estrutura burocr\u00e1tica pr\u00e9-existente, dedicando-se primariamente ao desenvolvimento pessoal. Neste contexto, <i>Wen <\/i>indica um conte\u00fado dos ensinamentos. 7.25 diz que Conf\u00facio tinha \u201cQuatro Ensinamentos: Wen, conduta, fidelidade (aos superiores), confiabilidade (dos pares e inferiores)\u201d (Conf\u00facio, 2000: 103). Para explicar o que esse <i>Wen <\/i>era, concretamente, precisamos aliar outra fun\u00e7\u00e3o do termo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p8\"><b>3.3. <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b> como meio<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Diss\u00e9ramos que os \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d se constitu\u00edram em exemplares de <i>Wen<\/i>, personalizando a transmiss\u00e3o de cultura. Na \u00e9poca de Conf\u00facio, o ep\u00edteto <i>Wen <\/i>era atribu\u00eddo a pessoas menos incomuns e por raz\u00f5es mais singelas: \u201cgostar do Estudo e n\u00e3o sentir vergonha ao tirar d\u00favidas com pessoas inferiores a si\u201d (5.15); \u201cser investido ou exonerado de cargos pol\u00edticos sem qualquer apego (ao poder)\u201d e \u201cdeixar para tr\u00e1s uma vida abastada para n\u00e3o servir a um governante imoral\u201d (5.19); \u201csempre tomar decis\u00f5es ap\u00f3s considera\u00e7\u00e3o cuidadosa\u201d (5.20); \u201cindicar o pr\u00f3prio servo para um cargo pol\u00edtico e depois trat\u00e1-lo como um igual\u201d (14.18) etc. (Conf\u00facio, 2000: 68, 70-72, 219). Mais do que uma vulgariza\u00e7\u00e3o de <i>Wen<\/i>, esses exemplos provam a sua dissemina\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o em setores mais amplos da elite, cujo meio eram os letrados conhecedores das tradi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Conf\u00facio notabilizou-se como o \u201cHomem de <i>Wen<\/i>\u201d por antonom\u00e1sia, o que o pr\u00f3prio parece atestar em 7.33: \u201cN\u00e3o tenho Wen, sou como os outros; al\u00e9m disso, no que se refere a p\u00f4r em pr\u00e1tica (o que define um) Homem Nobre, eu ainda n\u00e3o consegui faz\u00ea-lo\u201d<sup>4<\/sup>. Na passagem seguinte, ele esclarece por que tem Wen: \u201c(Coisas) como ter Sabedoria ou Humanidade, poderia ousar aleg\u00e1-las? Por outro lado, praticar (o Estudo de Wen) sem me enfastiar, orientar as pessoas sem me fatigar, talvez seja poss\u00edvel que se possa dizer tanto, de certa forma\u201d (Conf\u00facio, 2000: 108-109)<i>. <\/i>Isto \u00e9, Conf\u00facio representa <i>Wen<\/i>, sendo capaz de transmiti-lo por seu exemplo pessoal e por meio de um estilo de vida chamado <i>Estudo<\/i>, que introduz um segundo tipo de meio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Na sec\u00e7\u00e3o anterior deste artigo, mencion\u00e1ramos o termo \u201cEstatutos de <i>Wen<\/i>\u201d, tradi\u00e7\u00f5es orais que, lentamente, deram forma \u00e0s regras e precedentes dos Ritos e M\u00fasica. Em 8.19, Conf\u00facio utiliza esse termo na ace\u00e7\u00e3o original:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\">Que grandioso, Yao, enquanto soberano! Excelso, altaneiro (como uma montanha)! Oh, o C\u00e9u \u00e9 quem cria a Grandeza; oh, Yao \u00e9 quem o toma por modelo. Gigantesco, caudaloso (como um rio)! O povo-mi\u00fado n\u00e3o lhe encontrou um nome (\u2026) Homem de realiza\u00e7\u00f5es, de triunfos. Cintilantes, tais os \u2018Estatutos de Wen\u2019 que criou!.<\/p>\n<p class=\"p9\">(Conf\u00facio, 2000: 118)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Yao \u00e9 um rei lend\u00e1rio de quando a cultura chinesa ainda era \u00e1grafa. Mesmo assim, os \u201cCan\u00f4nes de Yao\u201d encabe\u00e7am o <i>textus receptus <\/i>do <i>Cl\u00e1ssico dos Documentos <\/i>(Kong, 2000: 22-58). N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que tenham sido transmitidos oralmente, at\u00e9 que encontraram express\u00e3o escrita com os pro- t\u00f3tipos de eruditos confucianos, mas foi devido a autoridade de Yao que terminaram reconhecidos como \u201cEstatutos de <i>Wen<\/i>\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Esse termo perdeu sua for\u00e7a ao longo do tempo. Na \u00e9poca de Conf\u00facio, dada a fraqueza da corte de Zhou, diferentes vers\u00f5es dos \u201cEstatutos de Wen\u201d proliferavam em cada um dos feudos, em detrimento da autoridade do texto \u201caut\u00eantico\u201d. De modo an\u00e1logo \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o de <i>Wen <\/i>como ep\u00edteto pessoal, \u201cEstatutos de <i>Wen<\/i>\u201d passaram a referir o \u201cBrilho\u201d dos textos criados pelos novos \u201cHomens de <i>Wen<\/i>\u201d ou, de forma mais abstrata, seu poder de criarem textos assim. Ao longo dos s\u00e9culos, o termo \u201cEstatutos de <i>Wen\u201d <\/i>banalizou-se como refer\u00eancia elogiosa a uma cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria at\u00e9 que, hoje em dia, indica qualquer texto dissertativo.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">Nos <i>Analectos<\/i>, a palavra possui um sentido intermedi\u00e1rio entre o arcaico e o moderno. 5.13 admite duas ace\u00e7\u00f5es: \u201c(um disc\u00edpulo) disse: \u2018O Brilho\/ as obras Wen do Mestre, temos como ouvir falar das mesmas. J\u00e1 o que o Mestre disse da Natureza Humana e do Caminho\/Dao do C\u00e9u, n\u00e3o temos como ouvir falar deles\u201d. O coment\u00e1rio confirma: \u201cas compila\u00e7\u00f5es sobre Ritos e Etiqueta que o Mestre transmitiu e criou com autoridade e solenidade t\u00eam um brilhantismo Wen\u201d (Conf\u00facio, 2000: 67). Em outras palavras, \u201cEstatutos <i>Wen<\/i>\u201d tanto denota a autoridade, como as suas qualidades liter\u00e1rias enquanto meio de transmiss\u00e3o. Um olhar mais detido sobre o conte\u00fado remete ao \u00faltimo sentido mediol\u00f3gico de nossa an\u00e1lise.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p8\"><b>3.4. <\/b><b><i>Wen<\/i><\/b><b> como tecnologia<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Mostramos que <i>Wen<\/i>, como \u201cescrita\u201d e \u201ctexto\u201d, est\u00e1 estreitamente vinculado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da burocracia e \u00e0s diversas t\u00e9cnicas de governo utilizadas desde a Antiguidade chinesa. Para entendermos o contributo de Conf\u00facio, \u00e9 preciso descrever de que maneira <i>Wen <\/i>foi potencializado para perpassar toda a vida social, desde a \u201cgest\u00e3o de si pr\u00f3prio\u201d at\u00e9 a obra de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o da China\u201d, nas palavras do famoso op\u00fasculo <i>Grande Estudo <\/i>(Dai, 2000: 1859).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">O aspeto tecnol\u00f3gico de <i>Wen <\/i>est\u00e1 relacionado ao conceito de \u201cArtes\u201d. O chin\u00eas <\/span><span class=\"s9\">\u8abe <\/span><span class=\"s8\">de certa forma equivale ao \u00e9timo cl\u00e1ssico <i>ars<\/i>\/techn\u00ea, como pr\u00e1ticas sedimentadas pela experi\u00eancia, constitu\u00eddas em processos formais e impessoais. O curr\u00edculo primitivo aparece nas atribui\u00e7\u00f5es do \u201cSenhor Protetor\u201d, o funcion\u00e1rio da corte de Zhou respons\u00e1vel pelo \u201ccultivo dos Filhos da Capital (i.e., da alta nobreza), instruindo-os nas Seis Artes\u201d: Ritos, M\u00fasica, tiro com arco, condu\u00e7\u00e3o de carruagem, caligrafia, aritm\u00e9tica instrumental (Zheng, 2000: 415-6). O ensino tinha um car\u00e1ter meramente pr\u00e1tico e utilit\u00e1rio, fornecendo conhecimento de t\u00e9cnicas civis e militares essenciais ao trabalho burocr\u00e1tico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">A partir de Conf\u00facio, as \u201cArtes\u201d fundem-se a <i>Wen<\/i>. Elas s\u00e3o colocadas ao alcance de indiv\u00edduos com origens sociais menos preclaras, como prova 7.7 (Conf\u00facio, 2000: 95-96) e perdem parte de seu car\u00e1ter utilit\u00e1rio, passando a ser vistas como fins em si. Os novos \u201cHomens de Wen\u201d continuam a ser aspirantes a burocratas, mas com um apego cada vez maior aos textos que cultivavam. Como ilustra 11.3 (Conf\u00facio, 2000: 160-161), Conf\u00facio atribu\u00eda import\u00e2ncia fulcral a esses textos, com uma nova disciplina chamada de \u201cEstudo de Wen\u201d. Memoriza\u00e7\u00e3o, a t\u00e9cnica tradicional de estudo, elevou-se a um novo patamar, mediante os primeiros rudimentos do trabalho filol\u00f3gico que se desdobraria na cole\u00e7\u00e3o e recens\u00e3o cr\u00edtica de documentos, a organiza\u00e7\u00e3o de bibliotecas e arquivos, a cria\u00e7\u00e3o de carreiras burocr\u00e1ticas acad\u00e9micas, etc.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Como semente desse processo, Conf\u00facio e seus seguidores estruturaram os novos saberes num grupo de seis obras que se converteriam nas novas \u201cSeis Artes\u201d (Sima, 2013: 2344-2347). Cada uma delas origina-se do trabalho burocr\u00e1tico: pr\u00e1ticas divinat\u00f3rias; documentos oficiais de dinastias passadas; \u201cpoemas\u201d empregados a v\u00e1rios aspetos da gest\u00e3o pol\u00edtica; regulamenta\u00e7\u00e3o dos Ritos; da M\u00fasica; cr\u00f4nicas oficiais da corte real e da nobreza. Ao cham\u00e1-las de \u201cArtes\u201d, acentuava-se a continuidade desses saberes com rela\u00e7\u00e3o aos antigos, mediante seu car\u00e1ter t\u00e9cnico. Por outro lado, diferentemente da experi\u00eancia ocidental, <i>Wen <\/i>enquanto \u201cArtes\u201d nunca se separou das outras fun\u00e7\u00f5es mediol\u00f3gicas, uma vez a China Antiga ser arraigadamente burocr\u00e1tica e seus valores civilizacionais flu\u00edrem de cima para baixo, do passado para o presente. A mensagem permanece no topo, determinando o agir e interagir das outras fun\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p8\"><b>4. Resumo<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">A Mediologia oferece importantes <i>insights <\/i>para a an\u00e1lise das culturas, especialmente no que se concerne ao processo material de transmiss\u00e3o no tempo de valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as. O presente estudo aplica tal doutrina no \u00e2mbito da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, explicando como <i>Wen <\/i>se consagrou como seu principal conceito mediol\u00f3gico, segundo quatro fun\u00e7\u00f5es: mensagem, institui\u00e7\u00e3o, meio e tecnologia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Dividimos a exposi\u00e7\u00e3o em tr\u00eas sec\u00e7\u00f5es principais. Na introdu\u00e7\u00e3o, resumimos os princ\u00edpios te\u00f3ricos relevantes, problematizando Wen como conceito mediol\u00f3gico no plano da cultura chinesa. Recorremos a uma an\u00e1lise paleogr\u00e1fico-filol\u00f3gica, por ind\u00edcios de que o \u00e9timo Wen concentra as fun\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise. Nesse sentido, a segunda sec\u00e7\u00e3o empreendeu um estudo etimol\u00f3gico dos mais antigos testemunhos dispon\u00edveis, constatando <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>que Wen tanto representa os \u201cher\u00f3is civilizadores\u201d, como a \u201cescrita\u201d e \u201ctextos\u201d. Com base nessa etimologia, a sec\u00e7\u00e3o tr\u00eas investigou a lexicaliza\u00e7\u00e3o de Wen no per\u00edodo cl\u00e1ssico da cultura chinesa, tomando como <i>corpus <\/i>o emprego do termo por Conf\u00facio nos <i>Analectos<\/i>. Aferimos como Wen assume quatro fun\u00e7\u00f5es mediol\u00f3gicas: os novos \u201cHomens de Wen\u201d refor\u00e7aram a mensagem civilizadora dos grandes homens da Antiguidade; eles aprofundaram a burocratiza\u00e7\u00e3o da sociedade, ao fortalecer o papel de institui\u00e7\u00f5es como a escola; pessoalmente e atrav\u00e9s de suas obras, tornaram-se o principal meio de gest\u00e3o da sociedade e de transmiss\u00e3o dos valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as; por fim, atrav\u00e9s da \u201cescrita\u201d, refinaram as tecnologias tradicionais de ensino e governo, revolucionando o ensino tradicional. Dadas as caracter\u00edsticas da cultura chinesa, essas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o insepar\u00e1veis na realidade. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p class=\"p3\"><b>BIBLIOGRAFIA<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p12\">Chen, Shou (1982). <i>Sanguo Zhi <\/i>[Cr\u00f4nica dos Tr\u00eas Reinos ]. Beijing: Zhonghua. Conf\u00facio (2000)<i>. 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Paris: Aubier. Tsien, Tsuen-Hsuin (2013). <i>Written on Bamboo and Silk<\/i>. Chicago: CUP.<\/li>\n<li class=\"p12\">Wan, Peng (Ed.) (2023, 29 de Junho). Dudong Zhonghua Wenmingde Wuda Tuchu Texing [Entendendo as cinco caracter\u00edsticas distintivas da Civiliza\u00e7\u00e3o Chinesa]. <i>Guangming Daily<\/i>, 7.<\/li>\n<li class=\"p12\">Wang, Bi (2000). <i>Zhouyi Zhengyi* <\/i>[Sentido Correto das Muta\u00e7\u00f5es de Zhou]. Beijing: PUP.<\/li>\n<li class=\"p12\">Xu, Shen &amp; Duan, Yucai (1988). <i>Shuowen Jiezi Zhu <\/i>[Falando sobre Wen e explicando palavras anotado]. Shanghai: Shanghai Ancient Books.<\/li>\n<li class=\"p12\">Xu, Zhongshu (1990). <i>Jiaguwen Zidian <\/i>[Dicion\u00e1rio dos ideogramas dos ossos oraculares]. Chengdu: Sichuan Lexicographical Press.<\/li>\n<li class=\"p12\">Xun, Kuang &amp; Wang, Xianqian (2016). <i>Xunzi Jijie <\/i>[Explica\u00e7\u00f5es coligidas sobre o Livro do Mestre Xun]. Beijing: Zhonghua.<\/li>\n<li class=\"p12\">Zheng, Xuan (2000). <i>Zhouli Zhushu* <\/i>[Os Ritos de Zhou, anotados e glosados]. Beijing: PUP.<\/li>\n<li class=\"p14\">*Volumes da s\u00e9rie <span class=\"s11\">\u5341\u4e09\u7d93\u8a3b\u758f\u6574\u7406\u672c<\/span> (\u201cNova Recens\u00e3o dos XIII Cl\u00e1ssicos Ortodoxos Anotados e Glosados\u201d), realizada por especialistas da Peking University, sob chefia editorial de Li Xueqin.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>\n<p class=\"p1\">1. Neste artigo, certos substantivos comuns em portugu\u00eas s\u00e3o grafados com inicial mai\u00fascula para indicar que possuem certas peculiaridades culturais perdidas no processo de tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">2. Traduzimos todas as cita\u00e7\u00f5es, seguindo o princ\u00edpio de estrita literalidade.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">3. Numeramos as passagens dos Analectos conforme o padr\u00e3o \u201ccap\u00edtulo.sec\u00e7\u00e3o\u201d (neste caso \u201c7<span class=\"s1\">\u00ba<\/span> cap\u00edtulo.1<span class=\"s1\">\u00aa<\/span> sec\u00e7\u00e3o\u201d), da <i>editio princeps<\/i> (cf. Refer\u00eancias).<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"p1\">4. Os chineses antigos depreendem dessas palavras que Conf\u00facio admitia ser mais Wen do que as pessoas em geral.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] 1. O contexto mediol\u00f3gico de Wen A mediologia oferece intui\u00e7\u00f5es preciosas para investigarmos como uma cultura acontece no tempo. O conceito de \u201cfatos de transmiss\u00e3o\u201d explica que uma mensagem (p.ex. os valores, conce\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as de uma cultura) n\u00e3o \u00e9 definida sincronicamente, como objeto de uma comunica\u00e7\u00e3o (Debray, 2000: 1-3), mas possui uma interface&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":1368,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/38-Wang-Dongling-\u738b\u51ac\u9f84-Primordial-Line-\u4e00\u753b-2013.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1367"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1369,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1367\/revisions\/1369"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}