{"id":1373,"date":"2025-10-22T05:16:06","date_gmt":"2025-10-21T21:16:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1373"},"modified":"2025-10-22T05:23:07","modified_gmt":"2025-10-21T21:23:07","slug":"opio-e-hegemonia-o-imperialismo-britanico-na-china-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/opio-e-hegemonia-o-imperialismo-britanico-na-china-contemporanea\/","title":{"rendered":"Quem conta um conto \u2026"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Os contos tradicionais, de cariz oral e popular, constituem uma fonte singular para o acesso \u00e0 cultura que os produziu. Neles se reflecte a moral, as concep\u00e7\u00f5es do mundo, as aspira\u00e7\u00f5es e os medos, que subjazem aos comportamentos dos homens. O caso chin\u00eas distingue-se, precisamente, pelas mesmas vias que a sua civiliza\u00e7\u00e3o se distingue: a presen\u00e7a constante da moral e a valoriza\u00e7\u00e3o das virtudes filiais, a simplicidade e a adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, a irrevocabilidade do destino. Nestes tr\u00eas grupos de valores detectamos a influ\u00eancia confucionista, tao\u00edsta e budista, respectivamente. Mas os contos tradicionais, contados e recontados, n\u00e3o se deixam aprisionar totalmente num paradigma. Tal como os prov\u00e9rbios, procuram dizer algo, mas tamb\u00e9m o seu contr\u00e1rio, pois como na exist\u00eancia humana e nas ideias espelhadas, estas narrativas s\u00e3o percorridos por for\u00e7as contr\u00e1rias, opostas mas complementares, capazes nas suas constantes inconst\u00e2ncias de confundir, baralhar, tro\u00e7ar da mais afinada mente.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Dois contos tradicionais chineses recontados por<br \/>\n<\/i><b>Fernanda Dias<\/b><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Fio Escarlate<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><i>Volta a ter orgulho ao atear teu lume<br \/>\n<\/i><i>mesmo sozinho na casa vazia<br \/>\n<\/i><i>um vermelho sem brilho n\u00e3o te baste<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a,<br \/>\nTeoria da fronteira<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Preocupa\u00e7\u00f5es de um chefe militar<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p5\">O Governador Militar de Luzhou, de nome Xue Song, teve a dada altura uma serva de nome Hong Xian, cujo significado \u00e9 Fio Escarlate. Tocadora ex\u00edmia de c\u00edtara de Ruan, tamb\u00e9m possu\u00eda profundos conhecimentos dos cl\u00e1ssicos e de hist\u00f3ria. O governador confiava-lhe a correspond\u00eancia e a redac\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es, de tal modo que tinha o h\u00e1bito de se referir a ela como a sua \u201csecret\u00e1ria particular\u201d. Fio Escarlate possu\u00eda tamb\u00e9m, al\u00e9m da cultura, uma intui\u00e7\u00e3o singular. Uma vez, por ocasi\u00e3o de uma grande festa na resid\u00eancia, ela abordou Song para comentar: A melodia deste tambor dos b\u00e1rbaros Ju\u00e9 soa t\u00e3o melanc\u00f3lica! O tamborileiro deve estar preocupado por algum motivo. Xue Song, que tamb\u00e9m apreciava m\u00fasica, chamou de parte o homem, que lhe confidenciou ter falecido a esposa na v\u00e9spera, mas, por precisar de trabalhar, n\u00e3o tinha pedido escusa para fazer o luto. Song logo o dispensou, mandando-o regressar a casa.<\/p>\n<p class=\"p7\">Nessa \u00e9poca, as duas margens do Rio Amarelo n\u00e3o tinham ainda recuperado a paz da Era da Suprema Virtude, no dealbar do reino de Suzong, e o ex\u00e9rcito da Justi\u00e7a Esclarecida estava acantonado na pra\u00e7a-forte de Fuyang. O governador Xue Song recebera ordem para a\u00ed refor\u00e7ar a sua presen\u00e7a, e reduzir a influ\u00eancia dos rebeldes a Leste da montanha. Dado que o comando tinha tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o de reabilitar os sobreviventes da rebeli\u00e3o, a Corte ordenou a Song que casasse a pr\u00f3pria filha com o filho de Tian Chengsi, governador militar de Weibo; e o filho com a filha de Linghu Zhang, governador militar de Huazhou: essas alian\u00e7as matrimoniais aumentariam o poder das tr\u00eas pra\u00e7as-fortes, que se refor\u00e7ariam umas \u00e0s outras, \u00e0 medida que os nascimentos viessem incrementar os la\u00e7os de fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p7\">Acontece que o governador Tian sofria de um mal cr\u00f3nico, que se agravava com o vento quente do Ver\u00e3o. Por isso ele costumava dizer que, se fosse poss\u00edvel mudar-se para leste das montanhas, onde se respira ar fresco e puro, a sua vida poderia prolongar-se por mais algumas d\u00e9cadas. Tratou ent\u00e3o de recrutar na sua Unidade os homens mais destemidos; reuniu tr\u00eas mil, a quem chamava \u201cos rapazes da minha resid\u00eancia secund\u00e1ria\u201d e a quem tratava com a m\u00e1xima defer\u00eancia. Desta ala destacava trezentos homens para a guarda da noite da sua morada, enquanto esperava que fosse determinado um dia prop\u00edcio para se instalar em Luzhon. Quando Xue Song soube disso, pareceu-lhe que estes preparativos belicosos n\u00e3o auguravam nada de bom. Maus press\u00e1gios o assaltavam, dia e noite, a pontos de falar sozinho, resmungando sabe-se l\u00e1 o qu\u00ea, magicando sobre como poderia escapar ao perigo de dissid\u00eancia da parte do vizinho.<\/p>\n<p class=\"p7\">Uma vez, ao entardecer, Song calcorreava os cem passos, fazendo ressoar a bengala nas lajes do p\u00e1tio do seu pavilh\u00e3o pessoal, agitando as delicadas pe\u00f3nias nos vasos de faian\u00e7a. A noite ca\u00eda e o portal estava j\u00e1 cerrado, quando Fio Escarlate lhe tolheu o passo, dizendo: \u201cSenhor, h\u00e1 um m\u00eas que n\u00e3o dorme nem se alimenta convenientemente. Sinto que algo de muito grave o perturba. S\u00e3o as not\u00edcias do pa\u00eds vizinho?\u201d Xue Song desabafou: \u201cO assunto comporta grande perigo. N\u00e3o \u00e9s tu quem poder\u00e1 resolv\u00ea-lo.\u201d Ao que a jovem replicou: \u201cA minha humilde pessoa, talvez conhe\u00e7a o meio de vos livrar desse tormento, senhor. N\u00e3o custa experimentar.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">Song contou em ent\u00e3o em pormenor do que se tratava e concluiu: \u201cSe eu perder este territ\u00f3rio que herdei do meu av\u00f4, cairiam para sempre em ru\u00edna e esquecimento v\u00e1rios s\u00e9culos de sacrif\u00edcios, actos merit\u00f3rios, e altos favores do Estado! \u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cSenhor, n\u00e3o vale a pena tanta afli\u00e7\u00e3o. Deixai-me ir a Weibo para colher informa\u00e7\u00f5es e ver por mim pr\u00f3pria qual a real situa\u00e7\u00e3o. Se eu me meter ao caminho na primeira hora, estarei de volta na terceira, para receber as vossas instru\u00e7\u00f5es. De qualquer modo, esperai o meu regresso.\u201d Fio Escarlate mostrava-se confiante. Song, preocupado, respondeu: \u201cN\u00e3o te sabia dotada de poderes sobrenaturais. Mas que poderei fazer, se n\u00e3o resultar e te acontece alguma desgra\u00e7a? \u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cNada de mal me poder\u00e1 acontecer durante t\u00e3o curta viagem\u201d, garantiu ela. Dito isto, entrou nos seus aposentos e preparou-se para partir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>A miss\u00e3o de Fio Escarlate<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">A bela Hong Xian levantou os cabelos, fez um rolo \u00e0 moda dos Wuman e prendeu-o com um gancho de ouro em forma de F\u00e9nix. Vestiu uma t\u00fanica curta bordada a p\u00farpura e enfiou umas sand\u00e1lias leves, atadas com cord\u00f5es azuis. Na faixa do peito escondeu um fino punhal ornado de figuras de drag\u00f5es, e na fronte tra\u00e7ou o nome do deus da Estrela Polar. Fez uma \u00faltima rever\u00eancia ao governador, e, num \u00e1pice, desapareceu. Xue Song regressou ao seu quarto, fechou os dois batentes da porta, e cheio de apreens\u00e3o, sentou-me de costas para o lampad\u00e1rio, para meditar na penumbra. Tinha o h\u00e1bito de beber alguns goles de vinho antes de dormir, mas, naquela noite, ergueu a ta\u00e7a nove vezes, sem sentir embriaguez, e passou a noite em claro.<\/p>\n<p class=\"p7\">De madrugada, ouviu gemer o vento vindo dos lados da aurora. Aproximou-se do \u00e1trio para averiguar; era Fio Escarlate que regressava, leve e silenciosa como uma folha caindo sobre a relva aljofrada de orvalho. Aliviado por v\u00ea-la regressar s\u00e3 e salva, Xue Song perguntou como tudo se tinha passado.<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cDe modo nenhum eu poderia falhar a minha miss\u00e3o, disse ela. \u201cNem morta nem ferida? Inquiriu Song, quase sarc\u00e1stico.\u201d Ao que a jovem respondeu: \u201cN\u00e3o cheg\u00e1mos a isso! Contentei-me em trazer como penhor um pequeno cofre em ouro que estava \u00e0 cabeceira da cama\u201d. E logo narrou a sua extraordin\u00e1ria aventura:<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cCheguei \u00e0 Sede de Comando de Weibo tr\u00eas quartos de hora antes da meia-noite. Andei por todo o lado sem obst\u00e1culos, e depois de ter atravessado v\u00e1rias salas, descobri o quarto de dormir de Tian Chengsi. Ouvia o ressonar dos homens da guarda pessoal dormindo na galeria, soando como fanfarra de trov\u00f5es. Ouvia os soldados percorrendo as salas em redor do p\u00e1tio, trocando palavras de ordem sibilantes como a nortada. Empurrei sem ru\u00eddo o batente esquerdo da porta do quarto, levantei o cortinado do leito, e ali estava o velho Tian, ressonando, encolhido, a cabe\u00e7a pousada sobre uma pele de rinoceronte pintada, com o touti\u00e7o preso numa rede de gaze amarela. Perto do travesseiro cintilava uma espada ornamentada com as sete estrelas da Ursa Maior. Junto da espada jazia escancarado um pequeno cofre em ouro no qual estavam gravados os oitos caracteres c\u00edclicos da sua data de nascimento e o nome do deus da Estrela Polar, o que fazia daquele cofre um objecto m\u00e1gico de valor pessoal. No interior cintilavam belas p\u00e9rolas, e em redor pairava um perfume suave. Tian, que fazia gala do seu poder sob os estandartes de comando, e a quem todas as ambi\u00e7\u00f5es eram permitidas, ali estava, mergulhado nos seus sonhos do Pavilh\u00e3o das Orqu\u00eddeas Perfumadas. Pressentiria ele que a sua vida estava \u00e0 merc\u00ea das minhas m\u00e3os? Valeria a pena captur\u00e1-lo para depois o libertar, feri-lo, ou simplesmente, mat\u00e1-lo? O tempo passava, a luz das candeias e das tochas retra\u00eda-se, os incens\u00e1rios j\u00e1 s\u00f3 continham cinzas. Surgiam por todo o lado guardas armados em profus\u00e3o. Servas ainda ensonadas encalhavam nos biombos, afastando as cobertas com um \u00faltimo bocejo. Outras, semi-adormecidas, pegando nas toalhas, debandavam em busca de um gabinete de ablu\u00e7\u00f5es dispon\u00edvel. Retirei as j\u00f3ias ao comandante, pendentes e alfinetes; atei-lhe o casaco aos cal\u00e7\u00f5es, tudo isto sem que ele acordasse, como se estivesse desmaiado. J\u00e1 tinha decidido trazer o cofre. Sa\u00ed pela Porta do Oeste da cidadela, pronta a percorrer duzentas l\u00e9guas, quando vi o Terra\u00e7o de Bronze l\u00e1 no alto, e as \u00e1guas do rio Zhang que velavam de bruma o horizonte a nascente. A madrugada tremeluzia sobre a plan\u00edcie, enquanto a lua descia, langorosa, e mergulhava na floresta. Empolgada pela alegria do alvorecer e pela perspectiva de regresso ap\u00f3s a incerteza de tamanha aventura, quase esquecia o objectivo da minha miss\u00e3o. Mas, alertada pela gratid\u00e3o que devo \u00e0 vossa pessoa, persisti, e assim, depois da terceira hora, percorri em idas e vindas setecentas l\u00e9guas, pelas cinco cidades daquela regi\u00e3o, observando as movimenta\u00e7\u00f5es de tropas, animada pela esperan\u00e7a de resolver as vossas preocupa\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">Tendo compreendido o plano da sua fiel secret\u00e1ria, Song apressou-se a despachar um cavaleiro com a seguinte mensagem para Tian Chengsi:<\/p>\n<p class=\"p7\">A noite passada, um estrangeiro vindo de Weibo veio confessar-me que se tinha apropriado de um cofre em ouro que estava \u00e0 vossa cabeceira. N\u00e3o podendo guardar um objecto roubado, e descobrindo pelos motivos esculpidos que se trata de um tesouro pessoal, venho restitui-lo a quem pertence, com os meus respeitos.<\/p>\n<p class=\"p7\">Partiu a galope sob as estrelas o mais veloz dos mensageiros do comandante, e chegou ao destino antes da meia-noite. O ex\u00e9rcito inteiro andava ali numa roda-viva, em grande afli\u00e7\u00e3o, procurando o cofre sumido. O enviado bateu ao portal com o cabo do chicote, e solicitou uma audi\u00eancia urgente. Quando viu Tian, que vinha precipitadamente ao seu encontro, estendeu-lhe de imediato o cofre, e de seguida a carta. Ao l\u00ea-la, Tian n\u00e3o cabia em si de como\u00e7\u00e3o e espanto. Nessa noite reteve o mensageiro no seu pavilh\u00e3o, mandou servir uma ceia de festa em \u00edntima companhia, e cumulou-o de presentes. No dia seguinte, despediu-o, encarregando-o de levar a Xue Song trinta mil cortes de seda, duas centenas de cavalos de ra\u00e7a e outros objectos em conformidade com o que para ele representava o cofre restitu\u00eddo, acompanhados da seguinte mensagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p8\"><i>J\u00e1 que eu tive a minha garganta e a minha cabe\u00e7a \u00e0 merc\u00ea<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>das vossas boas gra\u00e7as, devo reconhecer o meu erro e n\u00e3o vos dar mais cuidados. Considero-me \u00e0s vossas ordens, assumo os nossos la\u00e7os de parentesco, e intento colocar-me ao vosso servi\u00e7o, como o vazio do meio da \u00faltima roda ao servi\u00e7o do carro. N\u00e3o saberia manejar o chicote de cocheiro sen\u00e3o para avan\u00e7armos. O servi\u00e7o de ordem que estabeleci e a que dei o nome de \u201crapazes da resid\u00eancia secund\u00e1ria\u201d tem como exclusiva inten\u00e7\u00e3o proteger o meu domic\u00edlio de salteadores e intrusos, e n\u00e3o esconde nenhum outro intuito. Deixemos daqui em diante que eles retirem as suas armaduras e regressem pacificamente aos trabalhos no campo.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p7\">Quando, ao fim de alguns meses as rela\u00e7\u00f5es amistosas entre o Norte e o Sul do rio Amarelo retomaram, Fio Escarlate avisou que ia partir. No momento da despedida Xue Song exclamou, mortificado: \u201cNasceste na minha casa h\u00e1 dezanove anos! Onde queres tu ir? Sabes que preciso de ti, como podes sequer mencionar que me deixas?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Um erro na vida passada<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Ent\u00e3o, serenamente, Hong Xian, a bela Escarlate, fez a seguinte confiss\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">\u201cNa minha vida anterior fui um homem, ervan\u00e1rio de profiss\u00e3o. Percorria montes e vales, lagos e ribeiras, colhia ervas medicinais que vendia nos mercados e feiras de cidades e aldeias. Acompanhava-me o Livro de Shennong, o Divino Jardineiro, no intuito de socorrer o povo quando alastravam epidemias e outras doen\u00e7as. Um dia, quando passava por uma dessas aldeias, trouxeram-me uma mulher no termo da gravidez, que sofria de oclus\u00e3o intestinal. Tratei-a com uma macera\u00e7\u00e3o em vinho de flores de dafne, o t\u00f3xico trovisco-louro. A dose que administrei n\u00e3o pode controlar o veneno, do que resultou a morte dos g\u00e9meos e da m\u00e3e. Respons\u00e1vel por esse triplo assassinato, fui condenado pelo tribunal infernal a renascer mulher! Devia ter nascido numa fam\u00edlia vil, mas uma boa estrela fez-me vir ao mundo na vossa casa, onde cresci rodeada de afei\u00e7\u00e3o at\u00e9 aos dezanove anos, e onde recebi educa\u00e7\u00e3o e favores. Felicitemo-nos, porque a Dinastia atingiu o cume do prest\u00edgio desde a sua funda\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso agora p\u00f4r fim \u00e0 desordem provocada por aqueles que perturbam a Ordem Celestial. Fui a Weibo para vos dar testemunho da minha gratid\u00e3o. As muralhas e os fossos dos dois territ\u00f3rios est\u00e3o daqui em diante protegidos, e a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 em seguran\u00e7a. Inspirar temor a um rebelde e assegurar a paz a um her\u00f3i, n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil para uma simples mulher como esta vossa serva. Assim resgatei a falta da outra vida. Esse feito permite-me purgar a culpa e restaurar o meu ser original. Poderei ent\u00e3o renunciar \u00e0 poeira do mundo, elevar o meu esp\u00edrito fora do plano das coisas, purificar o meu sopro, e morar no exterior do ciclo Vida-e-Morte. <\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cSe ficares,\u201d tentou ainda Xue Song \u201cdou-te mil pe\u00e7as de ouro, para assegurar a tua subsist\u00eancia num Ermit\u00e9rio.\u201d Ao que Fio Escarlate respondeu: \u201ccomo poder\u00edamos nesta vida fazer planos para uma vida futura?\u201d<\/p>\n<p class=\"p7\">Compreendendo que n\u00e3o conseguiria ret\u00ea-la, Song mandou servir um banquete de despedida na sala principal. Nessa noite, perante todos os convidados, Song pediu ao poeta Ling Chaoyang para compor um poema, pois queria cantar um dueto com a homenageada, e ouvi-la tocar c\u00edtara pela \u00faltima vez. O poeta escreveu ent\u00e3o estes versos:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s2\"><i>O canto da apanhadora<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s2\"><i>de castanhas-de-\u00e1gua<br \/>\n<\/i><i><\/i><\/span><i>enche de dor a barca<br \/>\n<\/i><i>de madeira de magn\u00f3lia.<br \/>\n<\/i><span class=\"s2\"><i>\u00d3 torre dos cem passos<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s2\"><i>onde se dissolve a alma<br \/>\n<\/i><i><\/i><\/span><i>semelhante ao fim da deusa<br \/>\n<\/i><i>da ribeira Luo<br \/>\n<\/i><i>na bruma do imenso azul<br \/>\n<\/i><i>de \u00e1guas perp\u00e9tuas.<\/i><i><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p7\">Acabada a can\u00e7\u00e3o, Xue Song n\u00e3o se coibia de mostrar a sua dor. Fio Escarlate, chorando, fez mais uma vez uma sentida rever\u00eancia. Saiu da sala do banquete fingindo trope\u00e7ar de embriaguez e desapareceu. Hong Xian j\u00e1 n\u00e3o estava em parte alguma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>O escravo Kunlun<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><i>Lembrai-vos: os aposentos das mulheres s\u00e3o bem guardados; e terr\u00edveis as ordens do rei. \u2014 Se isso te impede, mortal t\u00edmido, Indra saber\u00e1 introduzir-te no gineceu.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: right;\">St\u00e9phane Mallarm\u00e9, \u201cNala e Damaiant\u00ee\u201d, Contos Indianos.<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>A visita ao Pr\u00edncipe <\/b><\/p>\n<p class=\"p6\">D<span class=\"s1\">urante<\/span> a Era da Grande-Passagem, a terceira estabelecida pelo Imperador Daizong, um dos magistrados mantinha rela\u00e7\u00f5es de amizade com o mais ilustre dos servidores do Estado daquele tempo, um Pr\u00edncipe que ocupava o cargo de Ministro Em\u00e9rito de Primeira Patente. Este homem de guerra, entre outros feitos, era celebrado por ter reconquistado duas cidades ca\u00eddas \u00e0s m\u00e3os dos rebeldes capitaneados por An Lushan.<\/p>\n<p class=\"p8\">O magistrado, que admirava o Pr\u00edncipe, tinha um filho, um mancebo de nome Gui, acabado de nomear oficial na Guarda Imperial das L\u00e2minas Cortantes, ala que recrutava jovens da alta aristocracia. Um dia o pai enviou-o a casa do prestigiado ministro, com o intuito de indagar sobre o seu estado de sa\u00fade; e talvez tamb\u00e9m com a esperan\u00e7a de dar a conhecer o talento do filho ao ilustre amigo.<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">Gui era um belo mo\u00e7o, de rosto puro como o jade, de modos calmos mas decididos, cujo discurso claro e elegante secundava uma natural simpatia e seguran\u00e7a. <\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">Recebido pelo Ministro, este ordenou a uma das suas cantoras que levantasse os estores, e f\u00ea-lo entrar nos seus aposentos. O jovem saudou-o com respeitosa v\u00e9nia, e transmitiu a mensagem do pai. Muito agradado pela presen\u00e7a do visitante, o ilustre Pr\u00edncipe f\u00ea-lo sentar, e logo iniciaram uma interessante conversa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Uma ta\u00e7a de p\u00eassegos <\/b><b>e um enigma<\/b><\/p>\n<p class=\"p8\">Em frente deles, tr\u00eas favoritas de grande beleza, em volta de uma min\u00fascula mesa, dedicavam-se com extremo cuidado a cortar p\u00eassegos vermelhos em finas fatias, deit\u00e1-las em ta\u00e7as de ouro, e reg\u00e1-las com creme. O ministro ordenou ent\u00e3o a uma delas, a que vestia de musselina vermelha, que apresentasse uma das ta\u00e7as ao h\u00f3spede. Gui, t\u00e3o jovem que n\u00e3o sabia como se comportar diante das belas cortes\u00e3s, corou embara\u00e7ado, n\u00e3o ousando come\u00e7ar a comer. Notando isso, o ministro disse \u00e0 jovem vestida de vermelho que o servisse com a colher, o que ela fez de imediato, enquanto o olhava com um sorriso malicioso.<\/p>\n<p class=\"p8\">At\u00e9 que chegou o momento de Gui se retirar. Na despedida, ao saudar o ministro, este disse-lhe: \u201cmeu jovem amigo, vem visitar-me sempre que tenhas tempo livre; n\u00e3o fa\u00e7as cerim\u00f3nia com esta idosa pessoa.\u201d E com um gesto, ordenou \u00e0 favorita de vermelho que o acompanhasse at\u00e9 \u00e0 sa\u00edda do p\u00e1tio. No portal, quando Gui se virou para se despedir, viu que ela levantava tr\u00eas dedos, e depois virava tr\u00eas vezes a palma da m\u00e3o. Em seguida, tirando do corpete um pequeno espelho redondo, mostrou-lho, repetindo: \u201c Repara bem! Repara bem!\u201d E logo se retirou para o interior da mans\u00e3o, sem dizer nem mais uma palavra.<\/p>\n<p class=\"p8\">De regresso a casa, o mo\u00e7o contou ao pai como se passara a visita, repetiu os cumprimentos do ministro, e recolheu ao seu gabinete de estudo. A\u00ed se manteve perdido em sonhos, sem dar pelo tempo passar, de esp\u00edrito ausente, num vazio na alma. Ningu\u00e9m em casa compreendia o que se passara para ele ter mudado assim. Sem pensar em comer, n\u00e3o fazia mais nada a n\u00e3o ser cantarolar o seguinte poema:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\"><i>No Monte dos Imortais vi uma deusa<br \/>\n<\/i><i>sorrindo com o olhar, estrela cintilante<br \/>\n<\/i><i>A lua deslizando pelo portal vermelho<br \/>\n<\/i><i>a beleza de neve iluminava tristemente<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s3\"> Durante a dinastia Tang, n\u00e3o raramente fam\u00edlias abastadas tinham servos oriundos dos Mares do Sul, vulgarmente chamados Escravos Kunlun, em refer\u00eancia aos montes desse nome. Tamb\u00e9m em casa do pai de Gui havia um escravo Kunlun, de nome Mole, muito devotado ao seu jovem senhor. Nesta ocasi\u00e3o, fitando-o, perguntou: \u201cque tendes no cora\u00e7\u00e3o que justifique esse ar desalentado? Porque n\u00e3o confias no teu fiel servo?\u201d Ao que Gui respondeu: \u201cQue sabem voc\u00eas, para n\u00e3o pararem de me questionar sobre um assunto que diz respeito apenas \u00e0 intimidade do meu cora\u00e7\u00e3o? \u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">\u201cQuero saber. Tenho f\u00e9 que conseguirei encontrar uma solu\u00e7\u00e3o\u201d, retorquiu o servo. Instigado pela inabal\u00e1vel confian\u00e7a com que o outro argumentava, o jovem oficial contou-lhe o sucedido em casa do ministro, ao despedir-se da bela cortes\u00e3 vestida de cassa vermelha.<\/p>\n<p class=\"p8\">\u201cS\u00f3 isso? \u201d comentou Mole \u201cnada de mais! Porque n\u00e3o me contastes logo, em vez de ficar a remorder inquieta\u00e7\u00f5es?\u201d E de imediato Mole desvendou o mist\u00e9rio da linguagem gestual: \u201cqual a dificuldade de entender a mensagem da bela? Se levantou tr\u00eas dedos, \u00e9 porque na resid\u00eancia do ministro moram dez cortes\u00e3s, cada uma em seu p\u00e1tio, e ela habita na moradia n\u00famero tr\u00eas. Virar a palma da m\u00e3o para cima tr\u00eas vezes, indica quinze dedos, o que aponta para o n\u00famero quinze, obviamente. Quando ao pequeno espelho redondo que ela mostrou, significa que na noite de quinze, a lua ser\u00e1 redonda como aquele espelho.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\">Feliz por ver enfim desvendado o mist\u00e9rio dos enigm\u00e1ticos sinais, Gui perguntou a Mole como poderiam fazer para corresponder ao pedido da jovem. Mole explicou, rindo: \u201ca noite de quinze \u00e9 amanh\u00e3. Preciso de dois cortes de seda azul-escuro, para vos mandar fazer um fato justo. Como na mans\u00e3o do ministro um c\u00e3o feroz guarda a entrada do p\u00e1tio das cantoras, nenhum desconhecido consegue passar. A besta n\u00e3o hesitaria em devor\u00e1-lo pois \u00e9 vigilante como Argos e feroz como um tigre. Trata-se de um animal da ra\u00e7a Menghai de Haizhou; ningu\u00e9m no mundo, a n\u00e3o ser este vosso servo seria capaz de o dominar. Esta noite vou desanc\u00e1-lo para vos servir.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\"> \u00c0 meia-noite Mole partiu armado de um malhete de correntes. Ao regressar afirmou que o c\u00e3o estava morto, e que n\u00e3o havia obst\u00e1culos \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do plano. Na noite seguinte Gui gratificou o servo com um excelente repasto de carnes e vinhos finos. \u00c0 terceira hora, meteram-se a caminho. Gui ia quase invis\u00edvel, vestido com um fato justo ao corpo, em seda azul-noite.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Voando sobre as muralhas<\/b><\/p>\n<p class=\"p8\">Ao chegar \u00e0 muralha da casa do ministro, Mole, carregando o amo \u00e0s costas, saltou uma dezena de cercas at\u00e9 penetrar no p\u00e1tio das cantoras e parar em frente da terceira porta. A barra de madeira da fechadura n\u00e3o tinha sido colocada atravessada nos batentes esculpidos em cruzamentos entrela\u00e7ados; uma lanterna dourada brilhava suavemente no interior. Os intrusos ouviram os suspiros da jovem, sentada junto da porta, como se esperasse algu\u00e9m. Tinha retirado os brincos de esmeralda e a pintura carmim do belo rosto. Com a voz repassada de tristeza, tamb\u00e9m ela sussurrava uma cantilena, afinal t\u00e3o enigm\u00e1tica como a linguagem das m\u00e3os:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\"><i>Saudoso do seu amor, o rouxinol em pranto<br \/>\n<\/i><i>furtivo lhe arrebatou as j\u00f3ias sob as flores<br \/>\n<\/i><i>O azul ainda deserto, a espera sempre v\u00e3<br \/>\n<\/i><i>em v\u00e3o a flauta de jade suspira o seu desgosto.<\/i><i><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">\u00c0quela hora estavam os guardas todos adormecidos. O sil\u00eancio da noite pairava sobre o p\u00e1tio. O mo\u00e7o afastou o cortinado e entrou. Durante um instante, ela ficou sem palavras. Depois acercou-se dele, tomou-lhe as m\u00e3os, como para se assegurar que era a pessoa que esperava, e disse:<\/p>\n<p class=\"p8\">\u201c Eu sabia que s\u00f3 um jovem Senhor t\u00e3o inteligente como tu seria capaz de entender a minha mensagem sem palavras! Mas pergunto a mim mesma de que poderes m\u00e1gicos disp\u00f4s para conseguir chegar at\u00e9 aqui sem entraves.\u201d Gui confessou ent\u00e3o que fora Mole a engendrar o plano e p\u00f4-lo em pr\u00e1tica. Ela riu do fato azul-escuro que moldavas formas do rapaz, e dos saltos sobre as cercas e muralhas, e perguntou: \u201cOnde est\u00e1 esse vosso fiel servo?\u201d Gui apontou o biombo atr\u00e1s do qual o escravo esperava. A jovem convidou Mole a entrar e serviu-lhe uma ta\u00e7a de vinho. Ent\u00e3o narrou a Gui a hist\u00f3ria da sua curta exist\u00eancia:<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s2\">\u201cNasci numa abastada fam\u00edlia perto da fronteira do norte. O meu senhor actual, que na altura comandava ali a armada da guarni\u00e7\u00e3o, de for\u00e7a me tomou como concubina. N\u00e3o tive for\u00e7as para me dar a morte, pelo que vergonhosamente sobrevivi. Agora o p\u00f3 branco e o carmim da pintura do rosto disfar\u00e7a o meu cora\u00e7\u00e3o atribulado de desgosto. Os manjares servidos com pauzinhos de jade, os incens\u00e1rios de ouro onde ardem os mais dispendiosos perfumes, os corta-ventos com incrusta\u00e7\u00f5es de n\u00e1car, as p\u00e9rolas e as esmeraldas adornando as belas adormecidas sob cobertas bordadas, nada apaga o opr\u00f3brio da servid\u00e3o. Sinto-me em cativeiro. J\u00e1 que o teu bom servo disp\u00f5e de poder sobrenatural, poder\u00e1 ele libertar-me desta pris\u00e3o? Dou-vos tudo o que tenho, e se for preciso morrerei sem lamentos; mas seria feliz se pudesse servir-vos como escrava. Diga-me o Senhor o que pode fazer por mim.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">Gui, muito p\u00e1lido, continuava em sil\u00eancio. Mole falou por ele: \u201cJ\u00e1 que est\u00e1 decidida, Senhora, n\u00e3o haver\u00e1 dificuldades. V\u00e1 preparar a sua bagagem, t\u00e3o rapidamente como poss\u00edvel.\u201d Em grande j\u00fabilo ela fez tr\u00eas idas e vindas, empacotando o seu enxoval. Mole avisou: \u201cVai nascer o sol, apressemo-nos.\u201d Levantou os dois jovens, colocou-os nas suas costas, e voltou a sobrevoar as altas muralhas sem que um s\u00f3 ru\u00eddo alertasse quem ainda dormia. J\u00e1 em casa, deixou os dois jovens no gabinete de estudos de Gui, onde este escondeu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p8\">Na mans\u00e3o do ministro s\u00f3 durante a manh\u00e3 deram pelo desaparecimento da bela concubina em musselina vermelha, logo depois de terem descoberto o cad\u00e1ver do c\u00e3o. \u201cOs nossos muros s\u00e3o altos e vigiados dia e noite, e os port\u00f5es s\u00e3o fortemente aferrolhados\u201d pensou o pr\u00edncipe, alarmado. \u201cN\u00e3o deixaram pistas, como se tivessem voado! Deve ter sido um desses perigosos Justiceiros, aliados dos rebeldes. O melhor \u00e9 n\u00e3o deixar propalar o sucedido, s\u00f3 serviria para revelar fragilidades da minha casa e atrair inimigos.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p4\"><b>Fuga na primavera<\/b><\/p>\n<p class=\"p8\">A jovem cortes\u00e3 ficou escondida nos aposentos de Gui durante dois anos, at\u00e9 que um dia de Primavera, quando estavam em flor as balsaminas, tomou um palanquim e foi passear no Parque dos Meandros do Rio, em Quijiang. Um homem do ministro reconheceu-a de relance e correu a adverti-lo. O ministro, surpreendido, convocou Gui, que n\u00e3o sendo de car\u00e1cter dissimulado, resolveu n\u00e3o mentir. Contudo, explicou que nada teria sido poss\u00edvel sem a ajuda de Mole.<\/p>\n<p class=\"p8\">\u201cA culpa \u00e9 sem d\u00favida da rapariga\u201d concluiu o ministro. \u201cMas como ela se manteve ao vosso servi\u00e7o durante dois anos, n\u00e3o seria decente retom\u00e1-la em minha casa. Contudo, \u00e9 meu dever punir Mole, pois ele pode constituir um perigo p\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\">De imediato ordenou a cinquenta dos seus guardas, armados at\u00e9 aos dentes, que fizessem um apertado \u00e0 casa de Gui para capturar o escravo Kunlun. Durante essa espectacular dilig\u00eancia houve quem visse o servo Kunlun voar sobre as altas muralhas, de adaga em punho, como se tivesse asas, r\u00e1pido como um gavi\u00e3o. Debaixo de uma chuva de flechas, sem uma s\u00f3 o ter atingido, desapareceu num abrir e fechar de olhos. Em que direc\u00e7\u00e3o e com que destino, ningu\u00e9m viu. Durante mais de um ano, o ministro, em p\u00e2nico, rodeou-se de uma guarda especial de soldados armados de sabres e alabardas.<\/p>\n<p class=\"p8\">Uma d\u00fazia de anos mais tarde, algu\u00e9m da fam\u00edlia de Gui viu Mole numa tenda do mercado de Luoyang, vendendo drogas, elixires e ervas medicinais. Tinha um ar fresco e folgaz\u00e3o, e o seu rosto estava como sempre fora, inalterado.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Os contos tradicionais, de cariz oral e popular, constituem uma fonte singular para o acesso \u00e0 cultura que os produziu. Neles se reflecte a moral, as concep\u00e7\u00f5es do mundo, as aspira\u00e7\u00f5es e os medos, que subjazem aos comportamentos dos homens. 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