{"id":1386,"date":"2025-10-22T05:33:30","date_gmt":"2025-10-21T21:33:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1386"},"modified":"2025-10-22T05:33:30","modified_gmt":"2025-10-21T21:33:30","slug":"a-estrategia-do-pintor-de-acordo-com-su-shi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/a-estrategia-do-pintor-de-acordo-com-su-shi\/","title":{"rendered":"A estrat\u00e9gia do pintor de acordo com Su Shi"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">A <span class=\"s1\">not\u00edcia<\/span> percorreu o imp\u00e9rio de norte para sul, como um rastilho. O novo imperador Huizong (r.1101-1125), um esteta e coleccionador de pinturas e caligrafias, chamava o famoso poeta de volta para a corte. O trajecto do mensageiro descreveu uma cicatriz no espa\u00e7o imperial chin\u00eas, em direc\u00e7\u00e3o ao sul. A ferida estava de novo sarada. A ilha de Hain\u00e3o mais uma vez se revelava n\u00e3o ser suficientemente longe para que aqueles que tinham ouvido falar dele o esquecessem. Tinha 65 anos e sabia que, como sempre, tinha de obedecer. Mas demorava-se, a idade j\u00e1 o permitia. Vagarosamente, desenrolou a pintura.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Cercado por altas montanhas cujos cumes se desvanecem no nevoeiro, num bra\u00e7o de rio, uma min\u00fascula personagem. Pelas vestes identifica-se imediatamente: \u00e9 um letrado; est\u00e1 sentado num barco e parece pescar. Sim, esse letrado \u00e9 o mesmo autor da pintura. Ele uma vez esteve l\u00e1 naquele lugar sozinho, rodeado pelas montanhas, depois foi para casa e pintou com exactid\u00e3o o que sentiu. \u00c9 o que se deduz do poema que acompanha a pintura. Ainda antes da assinatura, a caligrafia diz quem ele \u00e9. Num outro momento, anos atr\u00e1s ele, o letrado Su Shi que acaba de ser convocado pelo imperador, esteve ali exilado. E agora, de novo, nota como a pintura e as palavras unidas fazem um s\u00f3. Na realidade s\u00e3o duas faces da mesma moeda. Talvez tenha alcan\u00e7ado a sua grande ambi\u00e7\u00e3o: ser como o grande poeta e pintor do tempo dos Tang, Wang Wei de quem ele dizia: \u201cos seus poemas s\u00e3o pinturas e as pinturas s\u00e3o poemas\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">\u00c0 medida que vai observando a pintura \u2013 contida num rolo que se desenrola horizontalmente \u2013 como num filme ela vai-se-lhe revelando como um j\u00e1 sonhado sonho antigo. Nota que o homem, t\u00e3o pequenino, n\u00e3o \u00e9 de modo nenhum o mais importante nesta pintura. Ele \u00e9 apenas uma parte daquele microcosmo que corresponde ao grande macrocosmo que os antigos chamavam o Dao. Naquela altura, ele sentia-se sem d\u00favida em sintonia com todo o mundo que o rodeava. Ao reconhecer esse mundo, executando a sua pintura, n\u00e3o lhe importava tanto imitar o que via mas fazer parte do gesto mesmo da Cria\u00e7\u00e3o. Ele sabia que \u201co homem perfeito \u00e9 aquele que reflecte tudo \u00e0 sua volta, como num espelho\u201d. Por isso o poema que ele acrescentou \u00e0 sua poesia diz por outras palavras aquilo que disse uma vez o tamb\u00e9m escritor e pintor americano Henry Miller: \u201cpintar \u00e9 amar de novo\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\"><b>O Homem de Letras Como Pintor\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Sentado no seu pequeno barco, ele parecia pescar. Na verdade o que ele estava a fazer era \u201camansar o drag\u00e3o envenenado\u201d \u2013 f\u00f3rmula que os Budistas usavam para se referir \u00e0 for\u00e7a das paix\u00f5es do mundo que impedem a ilumina\u00e7\u00e3o e a sabedoria. Fingindo pescar, ele que era um funcion\u00e1rio e que devia estar a exercer uma fun\u00e7\u00e3o administrativa qualquer, estava a fazer uma afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: de novo discordava da forma como os assuntos do Estado estavam a ser tratados. Por isso isolou-se ali, no rio entre as montanhas. \u201cQuando poderei simplesmente ignorar os enganos de altos e baixos? \/ Na noite quieta a brisa leve vibra nas ondula\u00e7\u00f5es do rio. \/A partir de agora desaparecerei com o meu pequeno barco; \/ Para o resto da minha vida flutuarei sobre o mar.\u201d (<i>Regressando a Lingao \u00e0 Noite<\/i>). O ex\u00edlio era para ele uma forma de vida t\u00e3o habitual que j\u00e1 por aqueles dias o tinha sublimado, transformando-o numa estrat\u00e9gia. Da\u00ed o seu novo nome Su Dongpo, o que significa Su da Encosta Oriental. Na altura em que descobriu este novo nome vivia como um recluso numa pequena aldeia onde, gra\u00e7as a um amigo, o governo distrital lhe cedera quatro hectares de terreno na encosta oriental da montanha que se erguia junto \u00e0 aldeia. A pobre aldeia, situada no curso m\u00e9dio do rio Changjiang estava bem longe de Kaifeng, a capital dos Song do Norte, onde Su Shi alcan\u00e7ara uma reputa\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Tudo come\u00e7ara muito cedo. Mal Su Shi, nascido em 1036 em Meishan, na actual prov\u00edncia de Sichuan, passara juntamente com o seu irm\u00e3o, o exame de admiss\u00e3o \u00e0 Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Iniciara a\u00ed, logo em 1057, uma brilhante carreira de funcion\u00e1rio imperial, bem como o seu ambicioso projecto cultural no qual a pintura desempenhava um papel relativamente menor.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Mas agora preocupa-o a pintura. Sentia que algo se estava a completar. E fora aqui que ele representara o Vazio, o outro lado que completa o todo da vida e que est\u00e1 figurado objectiva e subjectivamente na sua pintura. Ele fora a primeira pessoa a descrever esta nova maneira de usar a arte da pintura. Chamara-lhe shiren hua, a pintura dos homens de letras. Comparava-a \u00e0 arte da elite de composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Dizia que o pintor jamais trabalharia por dinheiro e proclamava a superioridade da obra espont\u00e2nea sobre a cria\u00e7\u00e3o laboriosa. O que, se o aproximava das ideias agora em voga, do Budismo Chan, afastava-o de outros pintores seus contempor\u00e2neos como Guo Xi.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>Bambus de Tinta Vermelha<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\">Tudo na pintura tinha que ser realizado ainda antes de pegar no pincel. Ele n\u00e3o buscava a representa\u00e7\u00e3o da realidade externa, n\u00e3o procurava a semelhan\u00e7a das formas mas queria capturar o princ\u00edpio duradouro. Escreve ent\u00e3o a senten\u00e7a que iria perdurar no tempo: \u201cquem julgar uma pintura pela sua semelhan\u00e7a com as formas, mostra apenas o entendimento de uma crian\u00e7a\u201d. Interessava esbo\u00e7ar a ideia \u2013 <i>xieyi<\/i> \u2013 n\u00e3o a realidade. Era esse o debate central sobre a arte da sua \u00e9poca no seio da pequena mas influente elite intelectual do seu tempo. E Su Shi tomava partido. Ele fazia parte daquele grupo de homens educados que se reuniam em conv\u00edvios sociais, muitas vezes no decurso de excurs\u00f5es, em que se praticavam as artes nobres da caligrafia, da poesia e da pintura. Neste contexto de homens cultos reunidos sem qualquer obriga\u00e7\u00e3o de produzir arte ou sequer de fazer representa\u00e7\u00f5es do mundo natural, surgira o ideal da pintura dos homens cultos. Comparavam-se eles pr\u00f3prios com o bambu, que dobra mas n\u00e3o parte. E o bambu tornara-se mesmo um dos seus motivos preferidos. Um dia, de forma surpreendente Su Shi pinta um bambu com tinta vermelha. Perante a surpresa geral, argumenta: ser\u00e1 o verdadeiro bambu preto? Ent\u00e3o se \u00e9 verde e \u00e9 representado a preto, porque n\u00e3o o vermelho no lugar do verde? O que busca a pintura, a ess\u00eancia das coisas ou o seu aspecto exterior? A <i>trouvaille<\/i> \u00e9 t\u00edpica dos homens de esp\u00edrito da elite cultural. Em pouco tempo os manuais referem esta nova possibilidade de pintar bambus com tinta vermelha. \u00c0 volta da ideia gera-se um corpo te\u00f3rico. E de tal maneira que, no in\u00edcio do s\u00e9culo XII o \u201cbambu de tinta\u201d era j\u00e1 referenciado em tratados de pintura como um novo ramo separado da arte. Lendas posteriores contam a hist\u00f3ria da inven\u00e7\u00e3o da pintura de bambus no s\u00e9culo X pela nobre Dama Li. A verdade \u00e9 que esta forma de usar o pincel, em que cada folha de bambu \u00e9 desenhada numa \u00fanica pincelada, a aproxima da caligrafia. E esta era classificada entre as mais nobres de todas as artes, porque mais capaz de revelar o car\u00e1cter de uma pessoa. E aqui estava a chave: a educa\u00e7\u00e3o era mais importante para um pintor do que a sua habilidade manual. O homem que segura o pincel que desenhar\u00e1 a folha de bambu numa \u00fanica pincelada tem que se concentrar previamente para que se revele o seu car\u00e1cter moral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>Uma Experi\u00eancia M\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\">A sua actividade, nesse momento que precede a pintura, pode ser comparada com a do m\u00edstico. Se este busca a uni\u00e3o com Deus ou o Absoluto, o pintor busca a harmonia atrav\u00e9s da uni\u00e3o com todas as coisas, ambos encontrando uma fonte de vida mais abundante. Qualquer um dos dois trabalha com os tr\u00eas princ\u00edpios essenciais da experi\u00eancia m\u00edstica: o absoluto, a medita\u00e7\u00e3o e a ilumina\u00e7\u00e3o. Como dizia Zhang Keng: \u201cna pintura o esp\u00edrito \u2013 <i>qiyun<\/i> \u2013 surge a partir das buscas do cora\u00e7\u00e3o mas nasce atrav\u00e9s da inspira\u00e7\u00e3o do C\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Neste processo o pintor sofre uma mudan\u00e7a importante. O escritor de origem russa Joseph Brodsky dizia que aquilo que amamos nos transforma t\u00e3o completamente a ponto de modificar a nossa pr\u00f3pria identidade e \u00e9 isso que lhe est\u00e1 a acontecer. Brodsky dizia ainda que o olho n\u00e3o se identifica com o corpo a que pertence mas com o objecto da sua aten\u00e7\u00e3o, com aquilo que contempla. Isso explicaria a sua predilec\u00e7\u00e3o por aquilo a que chamamos beleza, pois a\u00ed o olho pode repousar da hostilidade e da vertigem do mundo. Em vez de \u201cbeleza\u201d os pintores dos Song preferiam falar de esp\u00edrito \u2013 qi. E o Vazio era parte desse esp\u00edrito: \u201co Vazio \u00e9 a subst\u00e2ncia do Dao; a tranquilidade \u00e9 o terreno do Dao. A raz\u00e3o \u00e9 a rede do Dao; a consci\u00eancia \u00e9 o olho do Dao\u201d, escreveu o Mestre do Armaz\u00e9m Escondido. Su Shi escrevendo sobre o seu mestre Wen Tong (1019-1079): \u201cquando ele pintava um bambu, via o bambu mas n\u00e3o se via a ele. Ser\u00e1 suficiente dizer que perdia a consci\u00eancia de si mesmo? Como em transe, abandonava o seu pr\u00f3prio corpo. Este transformava-se, passando a ser o bambu e criava-se uma frescura infinita.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Mais tarde, momentos antes de iniciar a pintura, os olhos fechados, Su Shi podia vai ter presente esse instante de uni\u00e3o do olho com o esp\u00edrito. Na pr\u00e1tica ele vai utilizar o mesmo m\u00e9todo de S. In\u00e1cio de Loyola nos seus <i>Exerc\u00edcios Espirituais<\/i>: ao meditar sobre as tr\u00eas pot\u00eancias da Alma \u2013 mem\u00f3ria, entendimento e vontade \u2013 ele come\u00e7a sempre pela \u201ccomposi\u00e7\u00e3o vendo o lugar: ver com a vista da imagina\u00e7\u00e3o o lugar corp\u00f3reo onde se encontra a coisa que se quer contemplar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>Uma Fonte de Alegria<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 nesta altura que ele se prepara \u201ccomo se fosse receber a visita de uma pessoa importante\u201d. Ele sabe, como escreveu Jing Hao, um letrado Confuciano que tamb\u00e9m se retiraria de um pequeno cargo ap\u00f3s a queda dos Tang, que a pintura deve ser composta tanto de <i>qi<\/i> \u2013 a subst\u00e2ncia interior, como de <i>hua<\/i> \u2013 a apar\u00eancia exterior, de forma a delimitar o <i>zhen<\/i> \u2013 a verdade das coisas.<\/p>\n<p class=\"p3\">Tranquilo o pintor espera, porque sabe que mais do que exprimir a espontaneidade ou mesmo o seu g\u00e9nio pessoal, ele se vai tornar um instrumento para a express\u00e3o da naturalidade do Dao. O que s\u00f3 pode ser atingido sem esfor\u00e7o e fruto da harmonia entre o artista e o esp\u00edrito universal. A forma como ele \u201carranjou a casa\u201d para receber essa \u201cvisita importante\u201d foi ler \u201cdez mil livros, viajar dez mil quil\u00f3metros\u201d, na feliz express\u00e3o que mais tarde usaria o pintor e cr\u00edtico Dong Qichang. De facto, um pintor pode passar a vida inteira a estudar apenas uma flor. Por isso Su Shi n\u00e3o se importa verdadeiramente que o expulsem da capital. Longe das intrigas da corte ele sabe que est\u00e1 mais perto daquilo que \u00e9 verdadeiramente importante. Em 1080 no decurso de mais um desentendimento com as autoridades, exilara-se num templo Dao\u00edsta. O esfor\u00e7o de concentra\u00e7\u00e3o a\u00ed realizado frutificara de tal forma que o leva a confessar: \u201ccome\u00e7o a experimentar uma grande alegria\u201d. E se a unidade interior se lhe apresentava como uma fonte de alegria, manifest\u00e1-la era quase uma obriga\u00e7\u00e3o. \u201cEscrevo para dar plena express\u00e3o ao meu esp\u00edrito. Pinto para satisfazer a ideia em mim, e \u00e9 tudo\u201d. E a pintura adequava-se de forma ideal a essa transmiss\u00e3o do esp\u00edrito: \u201cdesde os tempos antigos que os pintores n\u00e3o s\u00e3o homens comuns. A sua maravilhosa intui\u00e7\u00e3o da realidade manifesta-se do mesmo modo que a poesia\u201d. Esta era desde sempre, desde o tempo da composi\u00e7\u00e3o do <i>Livro das Odes<\/i>, considerada a grande arte. Era a linguagem adequada para comunicar com um amigo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Mas os amigos tamb\u00e9m se podiam comunicar por pinturas no decurso de uma visita real. Um dia Su Shi recebe um convite do seu amigo Mi Fu, que acabara de ser nomeado vice-prefeito em Yongqiu. Quando Su chega tudo est\u00e1 preparado para algumas horas daquilo a que Mi Fu chamava <i>moxi<\/i>, o jogo de tinta. Est\u00e3o duas mesas preparadas com pinc\u00e9is e tintas das melhores, trezentas folhas de papel, iguarias e vinho. A reuni\u00e3o das duas extravagantes personagens come\u00e7a de forma caracter\u00edstica. Conta Mi Fu: \u201cquando, ent\u00e3o, o vi estava um pouco tocado e disse-me: senhor, deseja colocar este papel na parede? \u00c9 um papel de Guanyin. Ent\u00e3o levantou-se e desenhou dois bambus, uma \u00e1rvore nua e uma pedra bizarra e entregou-me (a pintura) \u201d. Por cada ta\u00e7a de vinho, uma folha \u00e9 preenchida num tra\u00e7o r\u00e1pido. Quando cai a noite, o papel e o vinho esgotam-se. Os dois amigos trocam as folhas e separam-se. Assim se homenageavam mutuamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>Nunca Esquecer os Antigos<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 certo que o acusam de ser um conservador, por\u00e9m ele sabe que trabalha com o tempo. Este acabar\u00e1 por lhe dar raz\u00e3o. \u00c9 assim que muito tempo antes da corte, fugida de Kaifeng, se refugiar em Hangzhou, Su Shi passara j\u00e1 l\u00e1 duas temporadas, exercendo fun\u00e7\u00f5es para o governo imperial. Para Wang Anshi, antigo primeiro-ministro que liderou o movimento reformista Novas Pol\u00edticas at\u00e9 1076, que o afastaram da corte, Su Shi comp\u00f5e um dia uma resposta. \u201cMontado num burro, venho de longe para o visitar, \/ presumo que conserva a sa\u00fade que eu lhe conhecia. \/ Aconselha-me a comprar uma casa junto ao seu port\u00e3o; \/ Gostava de seguir o seu conselho, mas vem atrasado dez anos\u201d. Su Shi sabe que na execu\u00e7\u00e3o do seu trabalho, o mais importante que ele tem que fazer \u00e9 convocar uma tradi\u00e7\u00e3o cultural cuja origem se perde na noite dos tempos. Atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o espiritual com os antigos n\u00e3o s\u00f3 se realizava esse mist\u00e9rio da permanente repeti\u00e7\u00e3o que, s\u00e9culos depois, viria a intrigar os viajantes do Ocidente como se honrava a sua mem\u00f3ria. De acordo com Conf\u00facio \u201cao expressar a nossa pr\u00f3pria individualidade nem por um momento nos podemos esquecer dos antigos\u201d. O efeito extraordin\u00e1rio dessa forma de pensar fez com que atrav\u00e9s de sucessivas reinterpreta\u00e7\u00f5es e imaginativas recria\u00e7\u00f5es, os grandes temas da longa tradi\u00e7\u00e3o cultural chinesa permanecessem intelig\u00edveis, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o. O imagin\u00e1rio concreto, expresso no pensamento anal\u00f3gico chin\u00eas encontrava nas artes visuais um lugar privilegiado para a sua express\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p3\">De facto, pode-se falar da pintura chinesa como uma filosofia de vida em ac\u00e7\u00e3o. Por ela circula toda a linguagem que se encontra no <i>Yi Jing<\/i>, o <i>Livro das Muta\u00e7\u00f5es<\/i> que regula as rela\u00e7\u00f5es entre os chamados Tr\u00eas G\u00e9nios \u2013 <i>Tian, D\u00ec, Ren<\/i>, o C\u00e9u, a Terra e o Homem que est\u00e3o no centro da concep\u00e7\u00e3o chinesa do mundo. Para entender como isso funciona na pr\u00e1tica regressemos para junto de Su Shi que observa a pintura.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Entender Primeiro, Pintar Depois<\/b><\/p>\n<p class=\"p3\">Recorda-se do momento que precedeu a pintura. Tinha o esp\u00edrito liberto e estava em comunh\u00e3o com o grande Sopro vital. Lembra-se que estava de p\u00e9 em frente de uma grande mesa, coberta com um tecido espesso o suficiente para absorver as gotas de tinta excessiva que pudessem ter os pinc\u00e9is. Dispostos ordeiramente sobre a mesa estavam: os pauzinhos de tinta preta, um pequeno frasco com \u00e1gua, um pote ou um suporte cheio de pinc\u00e9is, pequenos pratos de porcelana para misturar as cores \u2013 que ele usava cada vez menos, as mil tonalidades do preto s\u00e3o uma linguagem suficientemente eloquente \u2013 uma pedra negra com uma inclina\u00e7\u00e3o para misturar os paus de tinta com a \u00e1gua, e finalmente o papel esticado nas pontas por pesos finamente decorados. De resto ele procurava \u201cter todos estes objectos dos mais preciosos, bem acabados e preciosos com o mesmo apre\u00e7o que entre n\u00f3s tem o mais meticuloso capit\u00e3o ou soldado pelo uso das suas armas\u201d, como observou j\u00e1 no s\u00e9c. XVII o jesu\u00edta \u00c1lvaro Semedo. Os mesmos gestos se repetindo atrav\u00e9s dos anos.<\/p>\n<p class=\"p3\">Sobre o papel, ele dispunha todos os elementos da paisagem que observara, mas nada vai ficar l\u00e1 ao acaso. Tudo o que integra a pintura ter\u00e1 que estar ligado atrav\u00e9s das chamadas \u201cveias do drag\u00e3o\u201d, que estabelecem liga\u00e7\u00f5es invis\u00edveis entre os diversos elementos. A linguagem do Yin e do Yang estar\u00e1 presente atrav\u00e9s da fus\u00e3o dos opostos porque \u201capenas pelos opostos conseguimos conhecer alguma coisa pois: a dificuldade e a facilidade completam-se, o pequeno e o grande testam-se mutuamente, e o alto e o baixo determinam-se um ao outro\u201d (<i>Daodejing<\/i>). O Dao reside nessa tens\u00e3o. Percept\u00edvel logo na determina\u00e7\u00e3o do que vai ficar vazio e do que vai ficar cheio. Essas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas podem-se chamar \u201co C\u00e9u e a Terra, aberturas e fechos, o anfitri\u00e3o e a visita, em subida, em descida, para a frente, para tr\u00e1s\u201d. O importante \u00e9 que exista uma tal comunh\u00e3o entre os elementos que para o observador tal vis\u00e3o resulte numa experi\u00eancia simultaneamente intuitiva e intelectual.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">As nuvens, feitas com uma aguada em grada\u00e7\u00e3o mostram a perspectiva atmosf\u00e9rica, sugerem a esta\u00e7\u00e3o do ano em que nos encontramos e s\u00e3o um elemento simb\u00f3lico fundamental. Elas que s\u00e3o \u00e1gua em estado gasoso, portanto, \u00e1gua que se transformou. Entre a montanha e o rio elas indicam-nos que nada \u00e9 definitivo. A montanha pode-se transformar em \u00e1gua; a \u00e1gua pode-se transformar em montanha. O fraco pode-se transformar em forte; o forte em fraco. Como Laozi observa no <i>Daodejing<\/i> a \u00e1gua \u00e9 a subst\u00e2ncia mais mole e, no entanto, paradoxalmente, ela \u00e9 capaz de empurrar a rocha que \u00e9 a mais dura. Tudo isto, que incarna a ideia de uma pintura ao mesmo tempo estruturada e aberta, o pintor tem que ver primeiro com os olhos da mente. Aplica-se aqui a frase de Italo Calvino: \u201c\u00e9 preciso que um lugar se transforme numa paisagem interior para que a imagina\u00e7\u00e3o comece a habitar esse lugar\u201d. Su Shi antes de come\u00e7ar a pintar fechou, ent\u00e3o, os olhos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>A vontade de pintar<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\">E \u00e9 s\u00f3 agora que ele segura no pincel. Agora \u00e9 feito o tra\u00e7o no papel. \u00c9 o Um que separa do Caos de que fala o <i>Daodejing<\/i>. A pintura tem que ser feita com dilig\u00eancia e isso tem que se notar no final. Nesta altura o seu contempor\u00e2neo Guo Xi aconselhava a trabalhar como \u201cdefendendo-se de um inimigo poderoso\u201d. Agora as \u201cfor\u00e7as criativas\u201d partilham da fonte do Dao, \u201co cora\u00e7\u00e3o acompanha, o pincel executa, selecciona as formas desprovido de d\u00favidas\u201d (Zheng Hao). Na pintura chinesa n\u00e3o h\u00e1 esbo\u00e7o nem possibilidade de repintar como na pintura a \u00f3leo. Tudo \u00e9 feito numa \u00fanica jornada. Escreve Su Shi: \u201cAntes de pintar um bambu, que este cres\u00e7a j\u00e1 dentro de ti. \u00c9 ent\u00e3o que, o pincel na m\u00e3o, o olhar concentrado, que te podes aperceber da vis\u00e3o exacta e completa que surge \u00e0 tua frente. Esta vis\u00e3o, agarra-a rapidamente atrav\u00e9s dos tra\u00e7os do pincel, t\u00e3o prontamente quanto uma lebre que salta quando o falc\u00e3o se prepara para mergulhar. Um instante de hesita\u00e7\u00e3o e essa vis\u00e3o desaparece\u201d. Ao contr\u00e1rio da pintura ocidental que cria as formas pl\u00e1sticas atrav\u00e9s da luz e da sombra, Su Shi n\u00e3o conta sen\u00e3o com as possibilidades do pr\u00f3prio tra\u00e7o do pincel. A pr\u00e1tica da arte irm\u00e3 da caligrafia serve-lhe de treino no uso dos seus instrumentos.<\/p>\n<p class=\"p3\">Terminado o trabalho espec\u00edfico da pintura Su Shi acrescenta um poema relatando a experi\u00eancia relacionada com a pintura que tem diante de si. Pode ser por isso uma experi\u00eancia apenas sonhada. N\u00e3o \u00e9 de qualquer modo a redu\u00e7\u00e3o da pintura a um discurso po\u00e9tico, pois ele sabe que s\u00e3o diferentes express\u00f5es art\u00edsticas, que no entanto como que se completam. Um tema recorrente nas reflex\u00f5es de Su Shi sobre o trabalho de pessoas que admirava. Sobre os poemas de Du Fu escreve: \u201cs\u00e3o pinturas invis\u00edveis, e as pinturas de Han Gan s\u00e3o poemas mudos\u201d. Relacionar a pintura e a poesia de resto, \u00e9 uma ideia que tamb\u00e9m se encontra na pintura ocidental, embora raramente fossem colocadas lado a lado como na pintura chinesa. O que \u00e9 uma consequ\u00eancia do uso do pincel na China que \u00e9 usado indiferentemente para escrever e pintar. Se tal n\u00e3o sucedeu na pintura Europeia, n\u00e3o impediu a associa\u00e7\u00e3o, pelo menos em termos ideais, entre uma e outra forma de express\u00e3o. E isto praticamente desde o seu in\u00edcio. Logo no s\u00e9c. XVI o portugu\u00eas Francisco de Holanda escrevia que \u201ca poesia \u00e9 mais muda que a pintura\u201d, enquanto Manuel de Faria y Sousa qualificava a pintura como um \u201cfalar vis\u00edvel\u201d, ambos fazendo-se eco da c\u00e9lebre express\u00e3o de Hor\u00e1cio<i> ut pictura, poesis.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Como se Transmitiu o Esp\u00edrito<\/b><\/p>\n<p class=\"p3\">Ao usar a pintura para expressar algo que est\u00e1 para l\u00e1 das apar\u00eancias e que no entanto, paradoxalmente, n\u00e3o pode ser expresso a n\u00e3o ser por apar\u00eancias o pintor-letrado, <i>wenrenhua<\/i> como vir\u00e3o a ser chamados os que adoptam esta concep\u00e7\u00e3o da pintura na China, fazia-o utilizando um suporte fr\u00e1gil. No entanto e curiosamente ele fazia-o na inten\u00e7\u00e3o de que a pintura permanecesse no tempo. Por isso Su Shi assina a sua obra e ap\u00f5e-lhe o seu selo \u2013 carimbo pessoal, que era tanto uma forma de acredita\u00e7\u00e3o da pintura como um apreciado elemento decorativo. Na era dos Tang (619-960) o prestigio da colec\u00e7\u00e3o de obras de arte, levara a que tamb\u00e9m o coleccionador passasse a colocar o seu carimbo na pintura. Carimbo que podia conter em si mesmo um coment\u00e1rio. Wang Ya, um estadista do tempo do imperador Wenzong (827-841), tinha por exemplo, um carimbo onde se podia ler: \u201ccolec\u00e7\u00e3o privada permanente de coisas raras\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">O papel ou a seda, suportes tradicionais da pintura n\u00e3o resistiriam \u00e0 usura do tempo, por isso o engenho e a arte do povo da China criou essa improv\u00e1vel forma de resist\u00eancia ao tempo que consiste no mist\u00e9rio da permanente repeti\u00e7\u00e3o. Porque ser\u00e1 que algumas ideias resistem no tempo e outras n\u00e3o? O cientista contempor\u00e2neo Robert Dawkins ensaiou uma resposta, baseada na teoria de Darwin. Porque canta o p\u00e1ssaro ao pressentir o perigo, quando justamente o seu canto ir\u00e1 alertar um predador, que at\u00e9 ent\u00e3o podia nem se ter apercebido da sua presen\u00e7a? Ele p\u00f5e em risco a sua vida, por\u00e9m os outros p\u00e1ssaros que est\u00e3o no bando com ele, salvam-se. O organismo individual morre, no entanto, o gene sobrevive nos outros. Na cultura, o mesmo se daria. Certas ideias, porque mais adaptadas \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de um sentimento, impor-se-iam por si pr\u00f3prias.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Su Shi sabe que a sua pintura, provavelmente vir\u00e1 a ser copiada, a caligrafia com o seu nome, imitada. Algum ou alguns an\u00f3nimos copistas, se encarregar\u00e3o de a fazer viver ao longo do tempo. \u00c9 prov\u00e1vel que alguns selos de coleccionadores sejam acrescentados \u00e0 pintura. Uns ser\u00e3o aut\u00eanticos, outros ser\u00e3o meramente c\u00f3pias. O que importa, se logo quando ele a pintou sabia que o que estava a fazer n\u00e3o lhe pertencia? Ele foi apenas um ve\u00edculo atrav\u00e9s do qual se manifestou o Mist\u00e9rio. Esse que ele reconhecia, talvez acima de todos na obra de Wang Wei. Como confessou um dia, extasiado, ao encontrar num mesmo templo frescos de Wu Daozi e Wang Wei: \u201cSe bem que Wu Daozi seja admir\u00e1vel (como pintor), n\u00e3o se pode falar dele sen\u00e3o como um artista. Quanto a Mojie (nome alternativo de Wang Wei), elevava-se para l\u00e1 das figuras deste mundo\u201d. Mesmo assim o tempo n\u00e3o se iria esquecer dele. Quando em 1126, os Jurchen invadem o territ\u00f3rio chin\u00eas e ocupam a capital Kaifeng, entre os milhares de componentes da corte imperial levados prisioneiros para o norte, seguiam como tesouros, os manuscritos de Su Shi.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><strong>O Estilo de Su Dongpo<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">S\u00e9culos mais tarde Chiang Yee escreveria: \u201cSu foi um homem de Estado, escritor, poeta, pintor e cal\u00edgrafo da dinastia Song. No seu estilo \u00e9 poss\u00edvel discernir a carne fl\u00e1cida e as maneiras tranquilas de uma pessoa rechonchuda. A reputa\u00e7\u00e3o de Su Dongpo como um humorista feliz engendrou o prov\u00e9rbio que diz que se vive mais tempo quando se pratica o estilo de Su Dongpo\u201d. Mas o tempo agora escoava-se. L\u00e1 fora, o mensageiro imperial insistia. Su Shi enrolou lentamente a pintura. Teria sido a sua estrat\u00e9gia a mais correcta? O futuro reconhec\u00ea-lo-ia como a incarna\u00e7\u00e3o de um ideal de pintura na China. Quem se recordaria que ap\u00f3s a morte da sua esposa, ele a submetera ao Ritual da \u00c1gua e Terra da tradi\u00e7\u00e3o Budista, onde imagens bem diferentes desse ideal eram aceites? Que as suas rela\u00e7\u00f5es com o poder foram complexas mas nem sempre m\u00e1s? Que importaria que dele n\u00e3o ficasse, como escreveu um poeta Europeu, \u201cnem m\u00e1rmore duro e eterno, \/ nem m\u00fasica, nem pintura, \/ sen\u00e3o palavra no tempo\u201d? Ele que conheceu a verdadeira subvers\u00e3o, que soubera examinar a pintura sem se tornar num c\u00e9ptico, palavra que vem do grego <i>skeptikos<\/i>, derivado de <i>skeptesthai<\/i>, que significa justamente, examinar, considerar, seria sempre o ideal cultural da elite. Pelo menos tinha dado resposta aos dons que recebera. Ser pintor fora apenas a forma exterior que assumira o seu inexprim\u00edvel afecto para com o mundo. N\u00e3o seria isto, suficiente para justificar a vida de um homem?<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Su Shi morreu em 1101 quando regressava \u00e0 corte vindo de Hain\u00e3o, onde passou os \u00faltimos quatro anos de vida, chamado pelo novo imperador Huizong. Ter\u00e1 provavelmente experimentado ao longo da vida, v\u00e1rias vezes, o sentimento da felicidade. Ele que acreditava na felicidade como a descreveu Li Bai: \u201co canto de uma menina que se afasta, depois de nos perguntar qual o caminho a seguir\u201d. Pouco antes de morrer, j\u00e1 doente, fez uso da sua reputa\u00e7\u00e3o de homem bem disposto. Escreveu ent\u00e3o, num poema para o seu filho: \u201cO solit\u00e1rio Mestre da Encosta Oriental est\u00e1 de cama, doente; \/ Desordenados cabelos brancos flutuam ao vento como um cobertor de geada. \/ Vendo a minha cara avermelhada, o meu filho fica contente que eu me encontre bem; \/ Eu rio, porque ele n\u00e3o sabe que estive a beber vinho\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] A not\u00edcia percorreu o imp\u00e9rio de norte para sul, como um rastilho. O novo imperador Huizong (r.1101-1125), um esteta e coleccionador de pinturas e caligrafias, chamava o famoso poeta de volta para a corte. O trajecto do mensageiro descreveu uma cicatriz no espa\u00e7o imperial chin\u00eas, em direc\u00e7\u00e3o ao sul. A ferida estava de novo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":1387,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1386","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pintura"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/92-sushi.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1386"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1388,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1386\/revisions\/1388"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1387"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}