{"id":1389,"date":"2025-10-22T05:39:33","date_gmt":"2025-10-21T21:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=1389"},"modified":"2025-10-22T05:42:02","modified_gmt":"2025-10-21T21:42:02","slug":"linguas-de-outro-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/22\/linguas-de-outro-tempo\/","title":{"rendered":"L\u00ednguas de outro tempo"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><i>Hugo Schuchardt teve um genu\u00edno interesse pelas l\u00ednguas crioulas <\/i><i>luso-asi\u00e1ticas, com particular destaque para o patu\u00e1, <\/i><i>falado pela comunidade macaense. O linguista, que nasceu em 1842, <\/i><i>foi tema de uma palestra conduzida pelo investigador Hugo Cardoso<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Porto, 1883. <\/span><span class=\"s2\">Jos\u00e9 Leite de Vasconcelos escreve uma carta ao linguista alem\u00e3o Hugo Schuchardt que vinha desenvolvendo estudos, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia, sobre as l\u00ednguas faladas na \u00c1sia com origem no portugu\u00eas, os chamados crioulos. A carta, escrita segundo o acordo ortogr\u00e1fico da \u00e9poca, entretanto digitalizada e hoje \u00e0 guarda do arquivo da Universidade de Graz, na \u00c1ustria, surge no contexto de pedidos do pr\u00f3prio Schuchardt a Leite de Vasconcelos a prop\u00f3sito do crioulo que se falava ent\u00e3o em Macau, conhecido como patu\u00e1. <\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p2\">\u201cMeu respeit\u00e1vel amigo: S\u00f3 hoje posso responder \u00e0 V. Exa. Aqui no Porto n\u00e3o h\u00e1 os livros que diz, mas escrevi para Lisboa ao meu amigo Vianna e ele respondeu-me que o de Balsem\u00e3o n\u00e3o aparece, e que na\u00a0Hist. de Macau\u00a0n\u00e3o vem nada sobre o dialecto port. de Macau. Se aqui no Porto os houvesse, eu de certo lhes daria uma\u00a0olhada\u00a0(V. Exa. queria dizer\u00a0um lance de olhos,\u00a0uma vista de olhos, que \u00e9 o usual. Desculpe V. Exa. esta reflex\u00e3o, que V. Exa. de certo estimar\u00e1).<\/p>\n<p class=\"p2\">J\u00e1 tenho pedido informa\u00e7\u00f5es sobre os crioulos, mas ainda n\u00e3o obtive nada; este estudo tamb\u00e9m me interessa pelo que respeita ao portug. Aguardo com interesse os 2 novos op\u00fasculos que me promete. (&#8230;) Sem mais sou amigo obrigado, J. Leite de Vasconcelos, Porto, S. Victor, 25\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">O interesse de Hugo Schuchardt sobre os crioulos luso-asi\u00e1ticos tem sido estudado por Hugo Cardoso, investigador e docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), especialista em crioulos e que desenvolveu investiga\u00e7\u00e3o na Universidade de Macau. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">O acad\u00e9mico conduziu recentemente uma palestra na Biblioteca Nacional, em Lisboa, sobre o linguista nascido em Gotha, na Alemanha, em 1842 e falecido em Graz, \u00c1ustria, em 1927, sendo considerado um dos mais importantes linguistas dos finais do s\u00e9culo XIX e prim\u00f3rdios do s\u00e9culo XX. A sess\u00e3o teve como designa\u00e7\u00e3o \u201cHugo Schuchardt e a busca pelos crioulos luso-asi\u00e1ticos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\">Apesar do interesse de Schuchardt sobre o crioulo de Macau, n\u00e3o chegou a publicar nenhum trabalho acad\u00e9mico sobre o assunto, conforme disse ao HM Hugo Cardoso. \u201cSchuchardt n\u00e3o publicou nenhum trabalho sobre Macau. Contudo, ao percorrer a sua correspond\u00eancia, percebe-se que Macau tamb\u00e9m estava no seu radar, uma vez que ele discute o crioulo de Macau com diversos dos seus correspondentes, incluindo Leite de Vasconcelos e Gon\u00e7alves Viana\u201d, adiantou.<\/p>\n<p class=\"p4\">Depois do linguista alem\u00e3o, destaca Hugo Cardoso, \u201chouve efectivamente v\u00e1rias pessoas que se debru\u00e7aram sobre o crioulo de Macau, incluindo Danilo Barreiros, Jos\u00e9 dos Santos Ferreira (Ad\u00e9), Graciete Batalha, Ana Maria Amaro e, mais recentemente, o Prof. Ra\u00fal Gai\u00e3o e o Prof. M\u00e1rio Pinharanda Nunes\u201d. Destaque ainda para o estudo de Marie Arana-Ward \u201csobre o crioulo falado pelos descendentes de macaenses em Hong Kong\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\">Eis outra troca de correspond\u00eancia com Leite de Vasconcelos, datada de 28 de Dezembro de 1889, em que s\u00e3o mencionados livros e dicion\u00e1rios sobre portugu\u00eas e chin\u00eas. \u201cExmo. Amigo: Apresso-me a responder ao seu bilhete, visto que tem pressa. O que conhe\u00e7o de china-portugu\u00eas \u00e9 o seguinte: J. A. Gon\u00e7alves, \u2212\u00a0Diccionario portuguez-china e china-portuguez. Macau 1831; \u2013\u00a0Arte china, constante de alphabeto e grammatica. Macau 1829. H\u00e1 mais trabalhos portugueses, mas s\u00e3o em latim, e um \u00e9 ms. (&#8230;) Estimo que tivesse boas-festas. Amigo obrigado, Jos\u00e9 Leite de Vasconcellos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>O papel de Coelho <\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Hugo Cardoso, cuja tese de doutoramento se intitula \u201cA l\u00edngua Indo-Portuguesa de Diu\u201d, antigo territ\u00f3rio da chamada \u00cdndia portuguesa juntamente com Goa e Dam\u00e3o, falou na Biblioteca Nacional dos estudos de Hugo Schuchardt em torno deste crioulo e tamb\u00e9m do linguajar de Bat\u00e1via\/Tugu, na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p class=\"p4\">Para o docente da FLUL, pioneirismo no estudo dos crioulos \u00e9 express\u00e3o que rima com Schuchardt. O linguista alem\u00e3o foi \u201cabsolutamente pioneiro neste dom\u00ednio, n\u00e3o s\u00f3 no estudo dos crioulos luso-asi\u00e1ticos ou sequer dos crioulos de base lexical portuguesa globalmente, mas no estudo das l\u00ednguas crioulas em geral\u201d e, por essa raz\u00e3o, \u00e9 \u201cuma figura maior da hist\u00f3ria da lingu\u00edstica\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s4\">Hugo Cardoso destaca ainda que \u201cno que diz respeito aos crioulos de base lexical portuguesa, antes dele, tinha havido alguma actividade, especialmente por parte de Adolfo Coelho, que, em 1881, publicara\u00a0\u2018Os dialectos rom\u00e2nicos ou neo-latinos na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica\u2019, em que fazia um apanhado de diversos crioulos de base portuguesa\u201d. Por\u00e9m, nesta obra, Adolfo Coelho refere apenas tr\u00eas crioulos luso-asi\u00e1ticos: \u201co de Ceil\u00e3o (no Sri Lanka), o de Malaca e o de Macau -, dando alguns exemplos que conseguira obter a partir de publica\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias (tais como a revista\u00a0\u2018Ta-Ssi-Yang-Kuo\u2019\u00a0de Macau)\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">O acad\u00e9mico n\u00e3o tem d\u00favidas de que \u201cHugo Schuchardt foi seguramente inspirado pelo trabalho de Coelho, mas os seus esfor\u00e7os para obter dados prim\u00e1rios de muitos outros locais asi\u00e1ticos ampliaram grandemente a cartografia dos crioulos luso-asi\u00e1ticos e resultaram nas primeiras not\u00edcias publicadas e primeiras descri\u00e7\u00f5es gramaticais de muitos deles (como os de Diu, Cananor, Mah\u00e9, Cochim, Mangalor, etc.)\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Inspira\u00e7\u00f5es futuras <\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Segundo Hugo Cardoso, o linguista alem\u00e3o deixou trabalhos que inspiraram acad\u00e9micos futuros e muitos materiais do arquivo pessoal. \u201cUm efeito do seu trabalho foi o de inspirar outros agentes a desenvolverem trabalho semelhante: a\u00ed destaca-se a figura de Sebasti\u00e3o Rodolfo Dalgado, que conduziu as suas pr\u00f3prias pesquisas e fez as suas pr\u00f3prias publica\u00e7\u00f5es sobre os crioulos indo-portugueses que Schuchardt n\u00e3o tinha abordado, sobre Dam\u00e3o, Bombaim, Ceil\u00e3o e Negapat\u00e3o\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">No caso de Jos\u00e9 de Leite Vasconcelos, que escreveu a carta citada no in\u00edcio deste texto, \u201ctamb\u00e9m se correspondeu com Schuchardt e revela, nos seus estudos lingu\u00edsticos, o impacto do trabalho de Schuchardt\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Questionado sobre as poss\u00edveis interliga\u00e7\u00f5es entre os crioulos de Diu, Bat\u00e1via e de Macau, Hugo Cardoso refere que existem \u201ccontinuidades entre os diversos crioulos luso-asi\u00e1ticos, mas tamb\u00e9m muitas diferen\u00e7as\u201d. \u201cO crioulo de Bat\u00e1via\/Tugu \u00e9 o que mais se assemelha ao crioulo de Macau, por exemplo, a n\u00edvel do l\u00e9xico. Mas isso \u00e9 compreens\u00edvel porque j\u00e1 foi demonstrando que o crioulo de Macau tem uma liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica importante com os crioulos que se desenvolveram no sudeste\u00a0asi\u00e1tico, em particular o de Malaca\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\">Segundo um artigo acad\u00e9mico do pr\u00f3prio Hugo Cardoso escrito em parceria com Tjerk Hagemeijer e N\u00e9lia Alexandre, intitulado \u201cCrioulos de base lexical portuguesa\u201d, estes \u201cforam, na maioria dos casos, l\u00ednguas orais at\u00e9 ao s\u00e9culo XIX, quando come\u00e7aram a surgir as primeiras recolhas de tradi\u00e7\u00f5es orais, textos e tradu\u00e7\u00f5es\u201d, estando ligados \u201c\u00e0 expans\u00e3o mar\u00edtima em \u00c1frica e em \u00c1sia, resultado do contacto entre o portugu\u00eas e diferentes l\u00ednguas africanas e asi\u00e1ticas\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Ainda segundo o mesmo artigo, \u201calguns destes crioulos, nomeadamente na \u00c1sia, extinguiram-se, tendo ficado apenas registos da transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX. \u00c0 excep\u00e7\u00e3o dos crioulos da Alta Guin\u00e9, a vitalidade dos crioulos portugueses vivos est\u00e1, de uma forma geral, a diminuir\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s2\">No caso dos crioulos de origem portuguesa na zona da \u00c1sia Meridional, surgiram a partir da chegada de Vasco da Gama a Calecute, \u00cdndia, em 1498, sobretudo a partir da fase em que toda a base do imp\u00e9rio portugu\u00eas a Oriente se centra em Goa. Segundo o mesmo artigo acad\u00e9mico, desenvolveram-se v\u00e1rios crioulos, o chamado \u201cIndo-Portugu\u00eas\u201d, em zonas costeiras da \u00cdndia, Sri Lanka, Bangladesh e Birm\u00e2nia. \u201cActualmente, a sua presen\u00e7a \u00e9 bem mais reduzida: sobrevivem os de Diu, Dam\u00e3o, Korlai, Cananor e Sri Lanka (Ceil\u00e3o) &#8211; o qual, apesar de ter, em tempos, sido usado um pouco por toda a ilha, actualmente se restringe \u00e0s cidades de Batticaloa e Trincomalee\u201d, \u00e9 destacado no artigo. O autor chama a aten\u00e7\u00e3o para a extin\u00e7\u00e3o, em 2010, do crioulo de Vaipim, em Cochim, devido ao \u201cfalecimento do que parece ter sido o \u00faltimo falante fluente nessa regi\u00e3o\u201d. Existem depois os crioulos do sudeste asi\u00e1tico e da \u00c1sia oriental, onde se inclui Macau. O patu\u00e1 \u00e9 actualmente \u201cfalado com flu\u00eancia nativa apenas por algumas pessoas em Macau e na di\u00e1spora macaense\u201d, \u00e9 referido.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Hugo Schuchardt teve um genu\u00edno interesse pelas l\u00ednguas crioulas luso-asi\u00e1ticas, com particular destaque para o patu\u00e1, falado pela comunidade macaense. O linguista, que nasceu em 1842, foi tema de uma palestra conduzida pelo investigador Hugo Cardoso &nbsp; &nbsp; Porto, 1883. 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