{"id":595,"date":"2025-09-24T22:18:32","date_gmt":"2025-09-24T14:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=595"},"modified":"2025-09-24T22:18:32","modified_gmt":"2025-09-24T14:18:32","slug":"filosofia-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/filosofia-da-paz\/","title":{"rendered":"Filosofia da Paz"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\">E<\/span><\/strong><span class=\"s2\"><b>m<\/b><\/span> <span class=\"s2\"><b>\u201cThe Crisis of<\/b><\/span><span class=\"s1\"> Hermeneutical Consciousness in Modern China\u201d (1997), Yin Lujun, da Universidade de Stanford, reflecte sobre os desafios da filosofia chinesa contempor\u00e2nea, defendendo que esta necessita de se reconstruir, ap\u00f3s o reconhecimento da perda de referentes da filosofia tradicional, afirmando ainda que a reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser feita ao acaso nem entregue apenas a uma ou v\u00e1rias perspectivas filos\u00f3ficas ocidentais em conflito (1997: 233). Certo fica que n\u00e3o bastar\u00e1 \u00e0 filosofia chinesa apegar-se \u00e0s no\u00e7\u00f5es da \u00e9tica tradicional, nem resumir-se \u00e0 tematiza\u00e7\u00e3o de perspetivas cientifistas, nem t\u00e3o-pouco subordinar os interesses materiais a ideias morais e muito menos ater-se em exclusivo \u00e0 no\u00e7\u00e3o de progresso. Ora embora se reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia de uma moderniza\u00e7\u00e3o orientada por leis, nomeadamente leis hist\u00f3ricas, a filosofia chinesa n\u00e3o se esgota no seguir de um \u00fanico caminho filos\u00f3fico, seja ele de orienta\u00e7\u00e3o marxista ou tradicionalista, modernista ou outro qualquer. Problem\u00e1tico \u00e9, segundo o autor,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>o que considera \u201co uso e o abuso da Filosofia Tradicional Chinesa\u201d (Yin, 1997:237). N\u00e3o se julgue, por\u00e9m, que estamos perante uma condena\u00e7\u00e3o da filosofia tradicional <i>tout court<\/i>. Nada disso, pede-se antes que os fil\u00f3sofos e outra gente de cultura tenham consci\u00eancia de que quando recorrem \u00e0 filosofia tradicional chinesa devem contar com o processo hermen\u00eautico em que se envolvem, inalian\u00e1vel de um int\u00e9rprete, bem como de um horizonte de interpreta\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 preciso que os pensadores se consciencializem de que o passado nos \u00e9 devolvido com as nossas marcas mentais do presente. Assim sendo, n\u00e3o devemos procurar captar o sentido puro e original da filosofia chinesa, mas tal como ele se nos oferece nos nossos dias e de acordo com as nossas viv\u00eancias. Pelo que \u201co sentido nunca pode ser separado da interpreta\u00e7\u00e3o e da compreens\u00e3o\u201d (Yin, 1997: 246), para todas as tentativas de reconstru\u00e7\u00e3o da filosofia chinesa. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Aceitando esta orienta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica interessante e v\u00e1lida, h\u00e1 que procurar encontrar e construir caminhos sem\u00e2nticos poss\u00edveis para a filosofia chinesa contempor\u00e2nea, incluindo, mas tamb\u00e9m indo al\u00e9m da carga ideol\u00f3gica que lhe tem vindo a ser associada.<\/p>\n<p class=\"p3\">Nota-se desde os prim\u00f3rdios caligr\u00e1ficos do pensamento chin\u00eas uma preocupa\u00e7\u00e3o constante com a no\u00e7\u00e3o harmonia (<span class=\"s3\">\u548c\/\u548c\u8c10<\/span> \u2013 <i>h\u00e9\/h\u00e9xie<\/i>), mas tam\u00e9m com a de paz (<span class=\"s3\">\u548c\u5e73<\/span><i>h\u00e9p\u00edng<\/i>), que \u00e9 id\u00eantica numa das formula\u00e7\u00f5es caligr\u00e1ficas para paz (h\u00e1 v\u00e1rias!) no primeiro dos caracteres, ou seja, a no\u00e7\u00e3o de paz est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 de harmonia,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>integrando esta \u00falima. Como a escrita chinesa come\u00e7ou por ser monossil\u00e1bica, quer dizer, constitu\u00edda por apenas um caracter, pois o dissilabismo \u00e9 muito posterior, admite-se sem problema que tempos houve em que \u201charmonia\u201d e \u201cpaz\u201d coincidissem no seu registo caligr\u00e1fico como <i>h\u00e9<\/i> (<span class=\"s3\">\u548c<\/span>), caracter cujos constituintes s\u00e3o \u201cespiga\u201d (<span class=\"s3\">\u79be<\/span> <i>h\u00e9<\/i>) e \u201cboca\u201d(<span class=\"s3\">\u53e3 <\/span><span class=\"s4\"><i>k\u01d2u<\/i><\/span>), corporizando desta forma conceitos, que encheu de elementos concretos e materiais.<\/p>\n<p class=\"p3\">Desde o <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es <\/i> (<span class=\"s3\">\u6613\u7ecf <\/span><span class=\"s4\"><i>Y\u00ecj\u012bng<\/i><\/span>), um dos mais antigos do mundo e o primeiro na ordem dos materiais filos\u00f3ficos ao dispor na China, que encontramos entre os seus 64 hexagramas, um devotado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de paz, o d\u00e9cimo primeiro, na ordena\u00e7\u00e3o de Richard Wilhelm em I Ching or book of changes (1989: 48). Este hexagrama, <i>t\u00e0i<\/i> (<span class=\"s3\">\u6cf0<\/span>),<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>tamb\u00e9m significa \u201cpaz\u201d, sendo o caracter que consta no Monte Tai (<span class=\"s3\">\u6cf0\u5c71 <\/span><span class=\"s4\"><i>T\u00e0ish\u0101n<\/i><\/span>), o Monte da Paz, fundamental na filosofia chinesa e em todas as escolas da medita\u00e7\u00e3o. Ora este hexagrama \u00e9 constitu\u00eddo pelo trigrama do C\u00e9u (<span class=\"s3\">\u4e7e<\/span> <span class=\"s4\"><i>Qi\u00e1n<\/i><\/span>) na base e o da Terra (<span class=\"s3\">\u5764<\/span> <span class=\"s4\"><i>K\u016bn<\/i><\/span>) no topo, invertendo a posi\u00e7\u00e3o natural dos dois princ\u00edpios fundamentais da filosofia tradicional chinesa, as primeiras corporiza\u00e7\u00f5es do princ\u00edpio masculino Yang (<span class=\"s3\">\u9633<\/span> <span class=\"s4\"><i>Y\u00e1ng<\/i><\/span>) e do princ\u00edpio feminino Yin <span class=\"s3\">(\u9634<\/span> <span class=\"s4\"><i>Y\u012bn<\/i><\/span>). Por que raz\u00e3o traz esta invers\u00e3o da ordem natural paz, boa sorte e sucesso, como nos \u00e9 dito no Ju\u00edzo do Hexagrama? Porque, desenvolve-se na Imagem, o C\u00e9u e a Terra se unem de modo a completar-se, viabilizando a for\u00e7a do C\u00e9u, que \u00e9 criatividade, o florescimento de toda a Terra, a receptiva. O C\u00e9u ao descer ao interior da Terra torna-se dadivoso, cobrindo-a de presentes, resplandesce em prosperidade concreta e material, que os governantes sabiamente adminstrar\u00e3o. Fique-se com o Ju\u00edzo do Hexagrama: \u201cPaz, os pequenos distanciam-se, os grandes aproximam-se, boa sorte. Sucesso.\u201d (<span class=\"s3\">\u300a\u5f56\u300b<\/span>: <span class=\"s3\">\u6cf0\uff0c\u5c0f\u5f80\u5927\u6765\uff0c\u5409\uff0c\u4ea8\u3002\u300a\u6613\u7ecf<\/span>\u2022<span class=\"s3\">\u6cf0\u5366\u7b2c\u5341\u4e00\u300b<\/span>). Percebe-se ent\u00e3o como a paz, o florescimento e a prosperidade se encontram indissoluvelmente ligados na filosofia tradicional chinesa, aqui interpretada e reconstru\u00edda.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em <i>Visita\u00e7\u00f5es<\/i>, um texto po\u00e9tico que tive a felicidade de publicar na Editora Labirinto, em 2022, dediquei a \u00faltima parte da obra \u00e0 <i>Adivinha\u00e7\u00e3o<\/i>, tendo escrito a seguinte estrofe de um poema completmentar inspirado no hexagrama Tai (2022: 140):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Invertem-se as posi\u00e7\u00f5es<br \/>\n<\/i><i>Na uni\u00e3o entre o C\u00e9u e a Terra,<br \/>\n<\/i><i>Haver\u00e1 finalmente paz,<br \/>\n<\/i><i>De dentro vem a for\u00e7a,<br \/>\n<\/i><i>A luz submete os parceiros.<br \/>\n<\/i><i>O C\u00e9u desce \u00e0 Terra com grande alegria,<br \/>\n<\/i><i>\u00c9 gozar a oportunidade na grandeza e fantasia,<br \/>\n<\/i><span class=\"s1\"><i>O tempo \u00e9 prop\u00edcio para casar a jovem princesa,<br \/>\n<\/i><i><\/i><\/span><i>Entregue em bodas humildes e sem valentia,<br \/>\n<\/i><i>O destino tomar\u00e1 as r\u00e9deas \u00e0 monarquia.<\/i><i><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">A prop\u00f3sito da paz, n\u00e3o seria correto se fosse olvidado o papel desta no\u00e7\u00e3o em alguns dos mais distintos pensadores ocidentais, nomeadamente no pai da filosofia contempor\u00e2nea europeia, Immanuel Kant (1724-1804), que vir\u00e1 a tematizar a paz, especificamente, em <i>A Paz Perp\u00e9tua, Um Projecto filos\u00f3fico<\/i>, op\u00fasculo datado de 1795\/96. Kant assume posi\u00e7\u00f5es muito semelhantes \u00e0s que encontramos nas filosofia chinesa tradicional e, e como adiante veremos, tamb\u00e9m contempor\u00e2nea. Neste pensador, o estado natural de guerrra relaciona-se com o mal que \u00e9 imposs\u00edvel de extirpar da condi\u00e7\u00e3o humana, prendendo-se com o ego\u00edsmo de uma humanidade ainda n\u00e3o domada pela lei. Para este fil\u00f3sofo, essencialmente legalista, s\u00f3<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>o estado de direito, e melhor uma comunidade republicana, pode p\u00f4r termo \u00e0 luta incessante que as gentes, de acordo com os seus instintos e interesses, travam entre si. E ainda que Kant seja absolutamente contra a guerra, no ponto 2 da primeira sec\u00e7\u00e3o do seu tratado deixa bem claro que nenhum estado, seja ele grande ou pequeno, pode ser adquirido por outro por troca, compra ou doa\u00e7\u00e3o, acrescentando perent\u00f3riamente no ponto 5 que \u201cNenhum estado deve imiscuir-se pela for\u00e7a na constitui\u00e7\u00e3o e no governo de outro Estado (Kant, 1989:123)\u201d. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>A paz n\u00e3o \u00e9 apenas um princ\u00edpio ideal, nem um valor moral, <\/b><b>mas um caminho que na filosofia chinesa se tem vindo a desenvolver existencialmente, activamente constru\u00eddo pelos governantes, doa a quem doer, desde a mais remota antiguidade.<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s6\">O ideal ser\u00e1 ent\u00e3o reflectir filosoficamente nas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade de uma paz perp\u00e9tua, embora se reconhe\u00e7a que a tend\u00eancia <\/span>para a guerra na natureza humana e a vontade de poder dos governantes ser\u00e3o o maior dos obst\u00e1culos a este projecto que poder\u00e1 ser aconselhado e esclarecido por fil\u00f3sofos. O plano de paz futura e perp\u00e9tua n\u00e3o excluir\u00e1 ex\u00e9rcitos constitu\u00eddos por cidad\u00e3os volunt\u00e1rios com o objetivo de \u201cdefender a P\u00e1tria\u201d (Kant, 1989: 122), mas excluir\u00e1 estratagemas desonrosos como, entre outros, empregar assassinos e envenenadores nas for\u00e7as militares (Kant, 1989: 124). O conflito armado \u00e9 sempre inferior \u00e0 paz e tentar vencer atrav\u00e9s de uma \u201cguerra de exterm\u00ednio\u201d conduziria a \u201cuma paz perp\u00e9tua sobre o grande cemit\u00e9rio do g\u00e9nero humano\u201d (Ibidem).<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Pelo que defende no primeiro artigo para a paz perp\u00e9tua, que a melhor consitui\u00e7\u00e3o civil de cada estado dever\u00e1 ser republicana por se basear nos princ\u00edpios da liberdade e da igualdade dos cidad\u00e3os perante a lei, constituindo-se no segundo artigo definitivo para a paz perp\u00e9tua o direito das gentes numa federa\u00e7\u00e3o de estados livres, uma rep\u00fablica mundial, regida pelo sistema representativo, que assenta na separa\u00e7\u00e3o do poder legislativo e executivo. Sendo que o poder legislativo ir\u00e1 conseguir travar \u201ca maldade da natureza humana, que pode ver-se \u00e0s claras na livre rela\u00e7\u00e3o dos povos (ao passo que no Estado legal-civil se oculta atrav\u00e9s da coac\u00e7\u00e3o do governo )\u201d (Kant, 1989: 133).<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Na verdade, a vis\u00e3o que Kant tem da natureza humana no estado natural \u00e9 bastante pessimista, mas n\u00e3o difere de outras filosofias legalistas da tradi\u00e7\u00e3o chinesa, como a de Han Feizi (<\/span><span class=\"s7\">\u97e9\u975e\u5b50<\/span><span class=\"s1\">, ?280 -?222 a.C) <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>ou a do confucionista Xunzi (<\/span><span class=\"s7\">\u8340\u5b50<\/span><span class=\"s1\">, 316-?238 a.C ). E apesar de se distanciar da posi\u00e7\u00e3o de neutralidade de Conf\u00facio (<\/span><span class=\"s7\">\u5b54\u5b50<\/span><span class=\"s1\"> 551-479 a.C ), o fundador do Confucionismo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza humana, ou da claramente positiva de M\u00e2ncio (<\/span><span class=\"s7\">\u5b5f\u5b50<\/span><span class=\"s1\">, 372-289 a.C), mant\u00e9m um grande optimismo nas capacidades da lei para criar \u201cum Estado de povos (<i>civitas gentium<\/i>) , que (sempre, \u00e9 claro, em aumento) englobaria por fim todos os povos da Terra.\u201d (Kant, 1989: 136), seria, nas suas pr\u00f3prias palavras, uma rep\u00fablica mundial, ou seja, uma federa\u00e7\u00e3o antag\u00f3nica \u00e0 guerra.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(Ibidem). Os estados deixavam-se assim guiar por leis com o \u00fanico objetivo de fomentar a paz nos seus dom\u00ednios e tamb\u00e9m do ponto de vista internacional. E, finalmente, todos viveriam bem de acordo com este direito cosmopolita, onde floresceria a prosperidade dos povos assente no \u201cesp\u00edrito comercial que n\u00e3o pode coexistir com a guerra.\u201d (Kant, 1989: 148), numa federa\u00e7\u00e3o, onde os fil\u00f3sofos teriam um importante papel como conselheiros dos governantes, orientando-os para uma pol\u00edtica moral, em estados que reconheceriam como princ\u00edpios m\u00e1ximos a liberdade e a igualdade, bem como um direito p\u00fablico que regesse as gentes verdadeiramente publicitado, isto \u00e9, confessado em voz alta ou publicamente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s6\">Na minha perspectiva, os pilares deste projecto de paz perp\u00e9tua proposto por Immanuel Kant \u00e0 beira do s\u00e9culo XIX s\u00e3o muito semelhantes \u00e0s linhas filos\u00f3ficas assinadas pelo presidente Xi Jinping (<\/span><span class=\"s8\">\u4e60\u8fd1\u5e73<\/span><span class=\"s6\">) no Relat\u00f3rio para o 20\u00ba Congresso Nacional do Partido Comunista da China, datado de 16 de Outubro de 2022, com o seguinte eixo tem\u00e1tico \u201cManter Erguida a Grande Bandeira do Socialismo com Caracter\u00edsticas Chinesas e Lutar com Uni\u00e3o pela Constru\u00e7\u00e3o Integral de um Pa\u00eds Socialista Moderno.\u201d Depois de definidas no ponto 3 a miss\u00e3o e as tarefas do Partido Comunista Chin\u00eas na Nova Era, que s\u00e3o: fomentar a prosperidade do povo, o seu progresso material, cultural e \u00e9tico, bem como auxiliar \u00e0 conviv\u00eancia harmoniosa do ser humano com a natureza, percebe-se que um importante vetor desta moderniza\u00e7\u00e3o recair\u00e1, segundo o Presidente, sobre o \u201cdesenvolvimento pac\u00edfico. N\u00e3o repetimos o antigo caminho de alguns pa\u00edses de realizar a moderniza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de guerra, coloniza\u00e7\u00e3o e saqueio.\u201d (Xi, 2022: 20). Encontramos o mesmo tipo de nega\u00e7\u00e3o do caminho do conflito armado em Kant e em Xi para sustentar o progresso dos povos. Este \u00faltimo \u00e9 absolutamente leg\u00edtimo, n\u00e3o podendo o progresso \u00e9tico e cultural ser cindido do material, e deve ser conduzido de forma pac\u00edfica, de modo a n\u00e3o prejudicar uns para o bem de outros. Tamb\u00e9m em Xi, \u00e0 semelhan\u00e7a do que j\u00e1 havia proposto Kant, se nota uma preocupa\u00e7\u00e3o constante, nomeadamente no ponto 7, com o desenvolvimento do estado de direito na China, o pa\u00eds deve ser integralmente administrado pela lei, pois s\u00f3 esta pode \u201cassegurar a felicidade e o bem-estar do povo, a paz e a estabilidade duradouras do Partido e do Estado\u201d (Xi, 2022: 37). <\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s6\">\u00c9, no entanto, no ponto 14, intitulado \u201cPromover a paz e o desenvolvimento mundiais e a cria\u00e7\u00e3o de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade\u201d que as afinidades entre ambas as propostas filos\u00f3ficas se tornam completamente vis\u00edveis, quando Xi Jinping defende uma comunidade de futuro compartilhado, viabilizada, antes de mais pela paz, logo seguida de desenvolvimento, coopera\u00e7\u00e3o e benef\u00edcio m\u00fatuo entre os estados. Ora nada mais pernicioso, como vimos em Kant, ao esp\u00edrito comercial do que a guerra. E recorda o presidente Xi: \u201cA China adere sempre ao prop\u00f3sito da pol\u00edtica diplom\u00e1tica de defender a paz mundial e promover o desenvolvimento comum e dedica-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma comunidade de futuro\u201d (2022: 57). S\u00f3 a paz, recordemos o hexagrama Tai do Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>pela uni\u00e3o do C\u00e9u da Terra, que \u00e9 duma fertilidade imensa, conduz \u00e0 comunh\u00e3o de todos os seres, que seguem com vontade o exemplo deste primeiro casal primordial, viabilizando, pela harmonia gerada, a riqueza material e espiritual, e a prosperidade dos dez mil seres (<\/span><span class=\"s8\">\u4e07\u7269<\/span><span class=\"s6\"> <i>w\u00e0nw\u00f9<\/i>) ou tudo o que existe debaixo do C\u00e9u. Por fim, e \u00e0 luz da felicidade e do bem-estar que a comunidade compartilhada e a coexist\u00eancia pac\u00edfica prometem ao Pa\u00eds do Meio, n\u00e3o surpreende que o presidente chin\u00eas repetidamente frise a sua cren\u00e7a na paz: \u201cA China adopta a pol\u00edtica de defesa nacional de natureza defensiva, o desenvolvimento chin\u00eas representa um engrandecimento das for\u00e7as pela paz no mundo, e o pa\u00eds jamais buscar\u00e1 a hegemonia nem praticar\u00e1 o expansionismo, n\u00e3o importa qual n\u00edvel o seu desenvolvimento alcance.\u201d (Xi, 2022: 57)\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Em conclus\u00e3o, a paz n\u00e3o \u00e9 apenas uma princ\u00edpio ideal, nem um valor moral, mas um caminho que na filosofia chinesa se tem vindo a desenvolver existencialmente, ativamente constru\u00eddo pelos governantes, doa a quem doer, desde a mais remota antiguidade. E quando a guerra vinda do exterior, na hist\u00f3ria,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>bateu \u00e0 porta dos chineses, os seus governantes tiveram tend\u00eancia a fechar-se, construindo muralhas para afastar o mal radical, que morava ao lado, a Norte, nas hordas guerreiras de mong\u00f3is, manchus, japoneses, ou que amea\u00e7ava do Oeste Europeu e de outros povos ocidentais. O futuro promete ser diferente, porque \u00e9 constru\u00eddo em tempos de paz, j\u00e1 que a China insiste em manter-se neutra, sempre que a procuram aliar \u00e0 guerra, por acreditar ser esta a melhor forma de trazer o bem-estar material e espiritual a 1,4 mil milh\u00f5es de chineses e \u00e0 comunidade humana.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p class=\"p10\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p10\">Alves, Ana Cristina. 2022. <span class=\"s9\"><i>Visita\u00e7\u00f5es<\/i><\/span>. Fafe: Editora Labirinto.<\/p>\n<p class=\"p10\">Kant, Immanuel. 1989. <span class=\"s9\"><i>A Paz Perp\u00e9tua e Outros Op\u00fasculos<\/i><\/span>. Tradu\u00e7\u00e3o de Artur Mor\u00e3o. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70.<\/p>\n<p class=\"p10\">Xi Jinping <span class=\"s10\">\u4e60\u8fd1\u5e73<\/span>. 2022. <span class=\"s9\"><i>Relat\u00f3rio para o 20\u00ba Congresso Nacional do Partido Comunista da China<\/i><\/span>, 16 de Outubro.<span class=\"s10\"> \u4e2d\u592e\u5e7f\u64ad\u7535\u89c6\u603b\u53f0\u6b27\u62c9\u4e2d\u5fc3\u8461\u8404\u7259\u8bed\u90e8\u8bd1 <\/span>(Trad.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>pelo departamento de Portugu\u00eas do Centro EuroLatino da R\u00e1dio e Televis\u00e3o Chinesa).<\/p>\n<p class=\"p10\">Wilhelm, Richard (Trad.). 1989. <span class=\"s9\"><i>I Ching or the book of changes<\/i><\/span>. London: Arkana, Penguin Books.<\/p>\n<p class=\"p10\">Yin Lujun. 1997: \u201cThe Crisis of Hermeneutical Consciousness\u201d. <span class=\"s9\"><i>New Essays in Chinese Philosophy<\/i><\/span>. Editor Hsueh-li Cheng. Asian Thought and Culture. General Editor Wei-hsun Fu. Peter Lang. Vol. 28, pp. 233-249.<\/p>\n<p class=\"p11\">\u5f35\u4e2d\u9438(\u7de8)\u300a\u6613\u7ecf\u63d0\u8981\u767d\u8a71\u89e3\u300b\u53f0\u5357\u5e02:\u5927\u5b5a\uff0c\u6c11<span class=\"s11\">84.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Em \u201cThe Crisis of Hermeneutical Consciousness in Modern China\u201d (1997), Yin Lujun, da Universidade de Stanford, reflecte sobre os desafios da filosofia chinesa contempor\u00e2nea, defendendo que esta necessita de se reconstruir, ap\u00f3s o reconhecimento da perda de referentes da filosofia tradicional, afirmando ainda que a reconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser feita ao acaso nem entregue&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":596,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pensamento"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/22-FilosofiadaPaz.png","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=595"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":597,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595\/revisions\/597"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/596"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}