{"id":598,"date":"2025-09-24T22:21:16","date_gmt":"2025-09-24T14:21:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=598"},"modified":"2025-09-24T22:22:20","modified_gmt":"2025-09-24T14:22:20","slug":"sentido-de-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/sentido-de-justica\/","title":{"rendered":"Sentido de Justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\">H<\/span><\/strong><span class=\"s1\"><b>eraclito <\/b>ou Her\u00e1clito, o Obscuro, nasceu em \u00c9feso, antiga col\u00f3nia grega da \u00c1sia Menor (Turquia), em meados do s\u00e9culo VI a.C. Pensa-se que fosse filho do Rei-Sacerdote de \u00c9feso. Segundo Di\u00f3genes La\u00e9rcio, abdicou do trono, heran\u00e7as e mordomias cedendo os direitos ao seu irm\u00e3o. Tornou-se misantropo e era muito admirado pela sua sabedoria, embora fosse considerado um pensador obscuro e ele mesmo tivesse como meta a sabedoria, acreditando \u00e0 semelhan\u00e7a de um dos seus sucessores na filosofia, S\u00f3crates, que esta se encontrava al\u00e9m, pois quanto mais fundo se ia no conhecimento, tanto mais vasta era a consci\u00eancia do horizonte desconhecido. Abrigou-se por um tempo no templo de \u00c1rtemis, a deusa grega da ca\u00e7a, filha de Zeus e de Leto, irm\u00e3 g\u00e9mea de Apolo, personificava o esp\u00edrito feminino independente.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Depois tornou-se eremita nas montanhas, seguindo o mais estrito regime <i>vegan<\/i>, pois para a sua alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o contava com mais do que ra\u00edzes e plantas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Segundo Heraclito, na <i>physis,<\/i> ou natureza, o princ\u00edpio gerador e regulador do cosmos expressa-se no fogo, imagem viva da justa transforma\u00e7\u00e3o, numa realidade em devir, cujas muta\u00e7\u00f5es seguiam uma racionalidade dial\u00e9tica pr\u00f3pria, um <i>logos<\/i>, raz\u00e3o do universo, viabilizador do todo organizado, ou seja, o cosmos, iluminado por esta raz\u00e3o \u00e0 semelhan\u00e7a do fogo solar, dando visibilidade a todos os seres da terra<i>.<\/i> \u00c9 dele o famoso aforismo: <i>ningu\u00e9m se banha duas vezes no mesmo rio, porque tanto a \u00e1gua como o homem mudam incessantemente<\/i>, estando e n\u00e3o estando; sendo e n\u00e3o sendo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Considerava, portanto, que o pensamento tudo governava, incluindo a mudan\u00e7a, que geria de um modo tensional, donde resultava a harmonia, da oposi\u00e7\u00e3o e da disc\u00f3rdia. Um outro aforismo c\u00e9lebre \u00e9: <i>A guerra \u00e9 a m\u00e3e e rainha de todas as coisas, alguns transforma em deuses, outros em homens; de alguns faz escravos, de outros homens livres<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ainda que Heraclito reconhecesse a import\u00e2ncia da guerra na l\u00f3gica da organiza\u00e7\u00e3o do mundo, ele n\u00e3o era um guerreiro <i>stricto sensu<\/i>. O muito pouco que se conhece da sua biografia, leva a concluir precisamente o contr\u00e1rio. Sabemo-lo vegetariano e eremita. Mas n\u00e3o \u00e9 menos verdade que ter\u00e1 depositado os seus escritos \u00e0 guarda da Deusa da Ca\u00e7a, no tempo que lhe era dedicado. Assim, seria um guerreiro s\u00e1bio <i>lato sensu<\/i>, j\u00e1 que destacava a luta e a disc\u00f3rdia para a organiza\u00e7\u00e3o de um cosmos sempre em transforma\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica e racional, personificada pelo fogo terreno e astral, que com os seus ritmos e regularidades iluminavam o mundo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Os escassos aforismos que nos chegaram de Heraclito aproximam-no, com alguma margem hermen\u00eautica, do pensamento de Sunzi <span class=\"s2\">\uff08\u5b59\u5b50\uff09<\/span>, que tamb\u00e9m ter\u00e1 vivido entre os s\u00e9culos VI e V a.C., sendo o maior estratega da antiguidade chinesa, igualmente fil\u00f3sofo, a quem \u00e9, por tradi\u00e7\u00e3o, atribu\u00eddo o tratado de estrat\u00e9gia, a <i>Arte da Guerra<\/i> <span class=\"s2\">\u300a\u5b59\u5b50\u5175\u6cd5<\/span> S<span class=\"s2\">u<\/span>nzi b<span class=\"s2\">i<\/span>ngf<span class=\"s2\">a\u300b<\/span>. Este, talvez registado pelos seus disc\u00edpulos, inaugura com o cap\u00edtulo \u201cPlanear da seguinte forma\u201d (Sunzi, 2001:2):<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cDisse Sunzi: a guerra \u00e9 uma quest\u00e3o de import\u00e2ncia vital para o estado, uma quest\u00e3o de vida ou morte, uma estrada para a sobreviv\u00eancia ou ru\u00edna. Assim \u00e9, um assunto que exige um estudo cuidadoso.\u201d (<span class=\"s2\">\u5b59\u5b50\u66f0<\/span>:<span class=\"s2\">\u5175\u8005\uff0c\u56fd\u4e4b\u5927\u4e8b\uff0c\u6b7b\u751f\u4e4b\u5730\uff0c\u5b58\u4ea1\u4e4b\u9053\uff0c\u4e0d\u53ef\u4e0d\u5bdf\u4e5f<\/span>)<\/p>\n<p class=\"p3\">Ora, o estudo cuidadoso traduz-se numa exposi\u00e7\u00e3o minuciosa da estrat\u00e9gia da guerra, cuja racionalidade deve ser analisada em profundidade, como sucede neste tratado de treze cap\u00edtulos, que inicia com o <i>Planear da Guerra<\/i>, passando para <i>Fazer Guerra<\/i>, <i>Ofensiva Estrat\u00e9gica<\/i>, <i>Formas e Disposi\u00e7\u00f5es, Potencial; Pontos Fracos e Fortes; O Conflito; As Nove Vari\u00e1veis; O Ex\u00e9rcito em Marcha; O Terreno; Os Nove Tipos de Terreno; O Ataque pelo Fogo<\/i>, terminando em <i>Utiliza\u00e7\u00e3o de Espi\u00f5es<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Nada \u00e9 deixado ao acaso, neste jogo de vida ou de morte. Os planos devem ser estudados em pormenor, as a\u00e7\u00f5es medidas, porque se est\u00e1 perante um assunto da maior gravidade, definindo-se o grande estratega como aquele que consegue evitar o conflito no terreno, a menos que seja realmente for\u00e7ado a partir para ele. Os cinco fatores fundamentais para perceber a conclus\u00e3o de uma guerra s\u00e3o (Sunzi, 2001:2): o dao (<\/span><span class=\"s4\">\u9053<\/span><span class=\"s3\"> d\u00e0o), \u201ccaminho\u201d; o c\u00e9u (<\/span><span class=\"s4\">\u5929<\/span><span class=\"s3\"> ti<\/span><span class=\"s4\">a<\/span><span class=\"s3\">n ); a terra (<\/span><span class=\"s4\">\u5730<\/span><span class=\"s3\">d\u00ec); o comando <\/span><span class=\"s4\">\uff08\u5c06<\/span><span class=\"s3\"> ji\u00e0ng<\/span><span class=\"s4\">\uff09<\/span><span class=\"s3\">e os regulamentos<\/span><span class=\"s4\">\uff08\u6cd5<\/span><span class=\"s3\"> f<\/span><span class=\"s4\">a \uff09<\/span><span class=\"s3\">, sendo fundamental o primeiro, \u201co caminho\u201d, definido em termos de \u201cinflu\u00eancia moral\u201d. Oi\u00e7a-se o estratega (Ibidem): \u201cPelo \u201ccaminho\u201d, entendo a influ\u00eancia moral, ou o que leva a popula\u00e7\u00e3o a pensar da mesma forma que o soberano, seguindo-o em cada vicissitude, seja para viver ou para morrer, sem receio do perigo mortal\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u9053\u8005\uff0c\u4ee4\u6c11\u4e0e\u4e0a\u540c\u610f\u4e5f\u3002\u6545\u53ef\u4ee5\u4e0e\u4e4b\u6b7b\uff0c\u53ef\u4ee5\u4e0e\u4e4b\u751f\uff0c\u800c\u4e0d\u754f\u5371<\/span><span class=\"s3\">). H\u00e1, assim, uma justi\u00e7a inerente ao pr\u00f3prio processo de desencadear e conduzir o conflito que muito influencia a derrota ou a vit\u00f3ria numa guerra. Um soberano, que n\u00e3o obtenha a confian\u00e7a do seu povo, ou um general, que n\u00e3o se imponha moralmente aos seus militares, estar\u00e3o condenados ao fracasso. N\u00e3o se espere, pois, que chefes injustos na distribui\u00e7\u00e3o de recompensas e castigos possam conduzir as suas tropas \u00e0 vit\u00f3ria (Sunzi, 2001:7): \u201cPara que eu possa prever qual dos lados sair\u00e1 vitorioso, \u00e9 preciso descobrir qual o soberano que possui mais influ\u00eancia moral, qual o general mais capaz, qual dos lados beneficia de mais vantagens do c\u00e9u e da terra, quais as tropas mais bem armadas e treinadas, qual o comando mais justo na distribui\u00e7\u00e3o de recompensas e castigos\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u66f0\uff1a\u4e3b\u5b70\u6709\u9053\uff1f\u5c06\u5b70\u6709\u80fd\uff1f\u5929\u5730\u5b70\u5f97\uff1f\u6cd5\u4ee4\u5b70\u884c\uff1f\u5175\u4f17\u5b70\u5f3a\uff1f\u58eb\u5352\u5b70\u7ec3\u8d4f\u7f5a\u660e\uff1f\u543e\u4ee5\u6b64\u77e5\u80dc\u8d1f\u77e3\u3002<\/span><span class=\"s3\">)<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">E se \u00e9 verdade que a guerra implica logro e dissimula\u00e7\u00e3o, fingimento, at\u00e9 espionagem, estes estratagemas n\u00e3o devem servir causas menores. Digamos que um bom chefe age corretamente em todas as situa\u00e7\u00f5es, sendo justo para quem o \u00e9, mas tamb\u00e9m dever\u00e1 estar \u00e0 altura do advers\u00e1rio, ou, em linguagem b\u00e9lica, do inimigo, porque a sua responsabilidade maior \u00e9 para com a popula\u00e7\u00e3o que dever\u00e1 proteger. Para tal, ser\u00e1 necess\u00e1rio recorrer \u00e0 intelig\u00eancia em profundidade, espera-se que seja um guerreiro s\u00e1bio, como somos informados em <i>Ofensiva Estrat\u00e9gica<\/i>, porque melhor do que travar batalhas \u00e9 n\u00e3o o fazer (Sunzi, 2001: 21) : \u201cTravar cem batalhas, ganhando cada uma delas, n\u00e3o \u00e9 a atitude mais s\u00e1bia. Quebrar a resist\u00eancia do inimigo sem lutar, \u00e9.\u201d (<span class=\"s2\">\u662f\u6545\u767e\u6218\u767e\u80dc\uff0c\u975e\u5584\u4e4b\u5584\u8005\u4e5f\uff1b\u4e0d\u6218\u800c\u5c48\u4eba\u4e4b\u5175\uff0c\u5584\u4e4b\u5584\u8005\u4e5f\u3002<\/span>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Pergunte-se se a mentalidade chinesa mudou ao longo dos s\u00e9culos, sobretudo depois de verificar a consist\u00eancia com que a China de Xi Jinping tem defendido a neutralidade no conflito russo-ucraniano e, talvez agora, se perceba melhor a raz\u00e3o por que o faz<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Mas nem sempre \u00e9 poss\u00edvel evitar o conflito, porque h\u00e1 atos agressores que n\u00e3o podem ficar sem resposta. Nesse caso, aconselha-se um conhecimento profundo das suas pr\u00f3prias for\u00e7as e das do advers\u00e1rio, porque se parte do mesmo princ\u00edpio a animar o pensamento de Heraclito, h\u00e1 medida e racionalidade em toda a natureza e nos comportamentos humanos, logo aquele que domina a sua pr\u00f3pria raz\u00e3o e entende a dos outros, est\u00e1 votado ao sucesso. Assim somos aconselhados no cap\u00edtulo <i>O Terreno<\/i> (Sunzi, 2001: 95): \u201cPor isso se diz: Conhece o inimigo e conhece-te a ti mesmo para que a vit\u00f3ria n\u00e3o esteja em causa; conhece o c\u00e9u e a terra para que a vit\u00f3ria seja completa.\u201d (<\/span><span class=\"s6\">\u6545\u66f0\uff1a\u77e5\u5f7c\u77e5\u5df2\uff0c\u80dc\u4e43\u4e0d\u6b86\uff1b\u77e5\u5929\u77e5\u5730\uff0c\u80dc\u4e43\u4e0d\u7a77\u3002<\/span><span class=\"s5\">)<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O melhor chefe, nesta China dos tempos antigos, era quem possu\u00eda vis\u00edveis virtudes morais, ainda que tivesse de ostentar uma atitude silenciosa e imperscrut\u00e1vel perante as suas tropas, deveria ser capaz de manter a disciplina, quase espontaneamente, porque era imparcial e\/ou justo, se o crit\u00e9rio da justi\u00e7a se aferir por um comportamento correto e equitativo, como nos \u00e9 dito no cap\u00edtulo <i>Os Nove Tipos de Terreno<\/i> (Sunzi, 2001: 107). J\u00e1 no pen\u00faltimo cap\u00edtulo, <i>O Ataque pelo Fogo<\/i>, n\u00e3o restam quaisquer d\u00favidas sobre os verdadeiros princ\u00edpios defendidos neste primeiro tratado de estrat\u00e9gia chin\u00eas e o mais lido ao longo de toda a sua hist\u00f3ria. Se a guerra acompanha as transforma\u00e7\u00f5es do mundo, sendo inevit\u00e1vel e de import\u00e2ncia decisiva, tornando uns senhores e outros escravos, uns vencedores e de outros vencidos, \u00e9 um assunto nesta tradi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de uma gravidade tal, que nenhum conflito deve ser travado de \u00e2nimo leve, implicando cuidadosas delibera\u00e7\u00f5es; \u00e9 sempre prefer\u00edvel em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o a travar, porque (Sunzi, 2001:121 ) \u201cUm estado que pereceu n\u00e3o pode ser restaurado, nem os mortos trazidos de regresso \u00e0 vida. Por isso, o soberano iluminado aborda a quest\u00e3o da guerra com a maior precau\u00e7\u00e3o, evitando um bom comandante qualquer atitude precipitada. Porque este \u00e9 o caminho para manter o estado seguro e o ex\u00e9rcito a salvo. \u201d(<\/span><span class=\"s4\">\u4ea1\u56fd\u5c31\u4e0d\u53ef\u4ee5\u590d\u5b58\uff0c\u6b7b\u8005\u4e0d\u53ef\u4ee5\u590d\u751f\u3002\u6545\u660e\u541b\u8981\u614e\u4e4b\uff0c\u826f\u5c06\u8b66\u4e4b\uff0c\u6b64\u5b89\u56fd\u5168\uff0c\u519b\u4e4b\u9053\u4e5f\u3002<\/span><span class=\"s3\">) <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Pergunte-se se a mentalidade chinesa mudou ao longo dos s\u00e9culos, sobretudo depois de verificar a consist\u00eancia com que a China de Xi Jinping tem defendido a neutralidade no conflito russo-ucraniano e, talvez agora, se perceba melhor a raz\u00e3o por que o faz. O primeiro interesse do pa\u00eds \u00e9 o de assegurar o bem-estar da sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, sobretudo quando tem estabelecidas rela\u00e7\u00f5es culturais e comerciais com o vizinho russo, que v\u00eam de longa data, mais constantes desde os tempos da funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular Chinesa, para a qual ao tempo a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica contribuiu ideologicamente, e n\u00e3o s\u00f3. J\u00e1 que \u00e0 \u00e9poca estes apoiaram o desenvolvimento econ\u00f3mico chin\u00eas, nomeadamente no setor industrial. Recorda-nos Jos\u00e9 Milhazes em <i>R\u00fassia e Europa: uma parte do todo<\/i> que nos anos 40 e 50 do s\u00e9culo XX, Estaline e Mao juraram amizade eterna, \u201crussos e chineses &#8211; irm\u00e3os para sempre\u201d (Milhazes, 2016: 83), mas com a morte de Estaline reacenderam-se os combates fronteiri\u00e7os entre os dois vizinhos. Ora \u00e9 precisamente este tipo de situa\u00e7\u00e3o que os chineses tentam evitar, para n\u00e3o mencionar os interesses nacionais entre a Gazprom e a China National Petroleum Corporation, com o consequente contrato de fornecimento de g\u00e1s russo \u00e0 China por 30 anos, a constru\u00e7\u00e3o de gasodutos, etc. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s5\">Embora haja grandes interesses econ\u00f3micos em jogo, nota-se que o presidente russo Vladimir Putin n\u00e3o consegue quebrar a tradi\u00e7\u00e3o de neutralidade chinesa, que tem vindo a ser consolidada pela China nas quest\u00f5es de pol\u00edtica internacional desde meados do s\u00e9culo XX at\u00e9 ao presente, sendo os conselhos mais recentes de Xi Jinping ao hom\u00f3logo russo de procurar restabelecer a paz perdida, com \u00eanfase para o enaltecimento apenas via das conversa\u00e7\u00f5es e do di\u00e1logo sem outros compromissos, como sucedeu recentemente no discurso que o presidente realizou na reuni\u00e3o do Conselho de Chefes de Estados Membros da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (SCO) a 16 de setembro de 2022, onde apelou aos valores \u00e9ticos tradicionais que conduzem a pol\u00edtica chinesa, aqueles que j\u00e1 conhecemos desde o cl\u00e1ssico <i>A Arte da Guerra<\/i>: a preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a interna e externa, a confian\u00e7a m\u00fatua, toler\u00e2ncia, justi\u00e7a, coopera\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo. Ontem e hoje os valores defendidos s\u00e3o os mesmos na China, \u00e9 a \u00e9tica que conduz a pol\u00edtica e a meta a paz. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Mas h\u00e1 quem veja inten\u00e7\u00f5es escondidas neste discurso neutro proferido pelas autoridades chinesas. Recordemos o que nos diz Jos\u00e9 Milhazes na obra j\u00e1 referida: \u201cPequim \u00e9 conhecido pelo seu pragmatismo nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, que n\u00e3o deixa qualquer espa\u00e7o a sentimentos. Por isso, a R\u00fassia \u00e9, para a China, um dos muitos instrumentos que poder\u00e3o ser aproveitados na disputa com os Estados Unidos\u201d (Milhazes, 2016: 90).<\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o \u00e9 esta a minha posi\u00e7\u00e3o, acredito sinceramente na via da moralidade e seguran\u00e7a defendida pelos chineses, e se o fazem n\u00e3o \u00e9 por raz\u00f5es sentimentais, no que partilho o parecer de Milhazes, mas sim por uma tradi\u00e7\u00e3o racional, que encontra a sua justi\u00e7a num s\u00e1bio equil\u00edbrio de opostos, onde a bela harmonia nasce, recordando as palavras de Heraclito da pondera\u00e7\u00e3o e afina\u00e7\u00e3o da disc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p class=\"p6\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p6\">Fraz\u00e3o, Dilva. 2019. \u201c<span class=\"s8\"><i>Her\u00e1clito<\/i><\/span>\u201d. Ebiografia. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ebiografia.com\/heraclito\/, acedido a 22 de setembro de 2022.<\/p>\n<p class=\"p6\">Kirk , G.S, J.E. Raven, M. Schofield. 1983 <span class=\"s8\"><i>The Presocratic Philosophers: A Critical History with a Selection of Texts. <\/i><\/span>Cambridge: Cambridge University Press.<\/p>\n<p class=\"p6\">Milhazes, Jos\u00e9. 2016. <span class=\"s8\"><i>R\u00fassia e Europa: uma parte do todo. <\/i><\/span>Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos.<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s9\">\u300a\u5b59\u5b50\u5175\u6cd5\u300b<\/span>Sunzi: The Art of War. 2001. Tradu\u00e7\u00e3o de<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><span class=\"s9\">\u6797\u620a\u836a.\u5317\u4eac:\u5916\u6587\u51fa\u7248\u793e.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\">Sun Tzu. <span class=\"s8\"><i>A Arte da Guerra<\/i><\/span>. 2008. Tradu\u00e7\u00e3o de Ricardo Silva. Vers\u00e3o resumida.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Vila Nova de Famalic\u00e3o: Quasi.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Heraclito ou Her\u00e1clito, o Obscuro, nasceu em \u00c9feso, antiga col\u00f3nia grega da \u00c1sia Menor (Turquia), em meados do s\u00e9culo VI a.C. Pensa-se que fosse filho do Rei-Sacerdote de \u00c9feso. Segundo Di\u00f3genes La\u00e9rcio, abdicou do trono, heran\u00e7as e mordomias cedendo os direitos ao seu irm\u00e3o. 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