{"id":61,"date":"2025-05-12T17:34:24","date_gmt":"2025-05-12T09:34:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.viadomeio.com\/?p=61"},"modified":"2025-05-14T14:41:56","modified_gmt":"2025-05-14T06:41:56","slug":"a-mesma-certeza-a-mesma-maldicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/05\/12\/a-mesma-certeza-a-mesma-maldicao\/","title":{"rendered":"A mesma certeza, a mesma maldi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carlos Morais Jos\u00e9<\/p>\n<p><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Dotadas ou n\u00e3o de escrita, todas as civiliza\u00e7\u00f5es, dos mais imponentes os imp\u00e9rios e deslumbrantes cidades \u00e0s mais exclu\u00eddas aldeias e ignotas tribos, conheceram e criaram poesia. Universalmente, algo de encantat\u00f3rio se desprende, algo comovente secreta, algo misterioso se imp\u00f5e, a partir de uma sucess\u00e3o especial de palavras, ami\u00fade transportadas por uma melodia, que arrebata o ser humano e nele se inscreve, independentemente da sua cultura espec\u00edfica, da geografia onde se espraia ou do grupo social a que pertence. A poesia \u00e9 um fen\u00f3meno universal e representa, em cada cultura, o cume mais alto da express\u00e3o est\u00e9tica. Nessas palavras, sempre dotadas de uma expl\u00edcita ou oculta rima, se fundem a m\u00fasica, as imagens e uma mir\u00edade de sentidos. Elas prev\u00eaem e evocam, a\u00e7oitam a realidade e prescrevem v\u00e1rios mundos.<\/p>\n<p>O poeta, na medida em que murmura numa linhagem antiqu\u00edssima que nos transportar\u00e1 \u00e0 primeira l\u00edngua, sente acima de tudo a impossibilidade de n\u00e3o corresponder na sua exist\u00eancia aos valores a que \u2014 ami\u00fade ilusoriamente e cometendo crassos erros, quando n\u00e3o crimes \u2014 a sua pr\u00e1tica po\u00e9tica o obriga. A compuls\u00e3o po\u00e9tica funda um olhar sobre o mundo, mas n\u00e3o se trata de algo passivo. Pelo contr\u00e1rio, consiste numa recria\u00e7\u00e3o do real e do imagin\u00e1rio, dotada de uma efic\u00e1cia sem igual. Na poesia e pela poesia, criam-se, recriam-se e destroem-se exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Qu Yuan (343-278 a.E.C.), que neste n\u00famero da Via do Meio brevemente apresentamos, recusou viver num reino onde se dissolveria a sua dignidade, num tempo em que os valores se esboroavam, dando lugar \u00e0 gan\u00e2ncia, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 ignor\u00e2ncia e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. A sua integridade e sensibilidade n\u00e3o eram compat\u00edveis com o que contemplava \u00e0 sua volta. Qu Yuan escolheu mergulhar num rio e nele para sempre desaparecer. Mas o povo quis conservar a sua mem\u00f3ria e 2400 anos depois ainda se atira anualmente arroz aos rios para que os peixes n\u00e3o precisem de se alimentar do poeta.<\/p>\n<p>Qu Yuan ter\u00e1 sido o primeiro poeta chin\u00eas a escapar ao anonimato, pois antes dele as poesias conhecidas, nomeadamente as que haviam sido seleccionadas e reunidas por Conf\u00facio no Livro das Odes, n\u00e3o eram referenciadas a um autor espec\u00edfico. E, de facto, os seus Enigmas, uma longa s\u00e9rie de perguntas em forma de verso sobre os mist\u00e9rios do universo, mostram com \u00e1cida limpidez a chama impiedosa e l\u00facida que na sua mente ardia e lhe proporcionava uma vis\u00e3o espec\u00edfica do real.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a poetisa Qiu Jin, dois mil e trezentos anos depois, sentiu forte a compuls\u00e3o fazer a sua exist\u00eancia corresponder \u00e0 poesia e esta aos ideais que a habitavam. E, nesse sentido, al\u00e9m de ter escrito uma importante e inovadora obra po\u00e9tica, foi pioneira do feminismo na China, lutou pelo povo e pela revolu\u00e7\u00e3o, acabando por se tornar num dos seus m\u00e1rtires. Qiu Jin foi executada em 1907, pelo ex\u00e9rcito imperial. Como tantas vezes acontece, a tr\u00e1gica morte resultou num efeito amplificador para as suas palavras.<\/p>\n<p>Frequentar os espa\u00e7os po\u00e9ticos, ascender \u00e0s suas montanhas, contemplar os seus abismos, mergulhar nos mais escuros mares do esp\u00edrito, subjugados por essa incessante melodia, acarreta um alto pre\u00e7o que os poetas se disp\u00f5em a pagar.<\/p>\n<p>\u00c9 algo herdado dos xamanes, talvez os primeiros poetas, que usavam os seus corpos e os martirizavam (com ins\u00f3nias, jejuns ou alteradores de consci\u00eancia) para neles acolherem os esp\u00edritos e assim traficarem com o invis\u00edvel. Uma tradi\u00e7\u00e3o que, ao longo das diversas Hist\u00f3rias, por toda a parte, os poetas t\u00eam respeitado e cumprido.<\/p>\n<p>Cumprem-se tamb\u00e9m, dizem-nos, 500 anos do nascimento de Cam\u00f5es, outro poeta de rela\u00e7\u00f5es conturbadas com o real, homem de fim glorioso e tr\u00e1gico, temperado pela fama e pela fome. A poesia \u00e9 a express\u00e3o sint\u00e9tica de uma sensibilidade, de uma cultura, de uma \u00e9poca, de um povo. Pois \u00e9. Na Europa ou na China \u2013 a mesma certeza, a mesma maldi\u00e7\u00e3o.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Carlos Morais Jos\u00e9 \u00a0 Dotadas ou n\u00e3o de escrita, todas as civiliza\u00e7\u00f5es, dos mais imponentes os imp\u00e9rios e deslumbrantes cidades \u00e0s mais exclu\u00eddas aldeias e ignotas tribos, conheceram e criaram poesia. 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