{"id":611,"date":"2025-09-24T23:30:14","date_gmt":"2025-09-24T15:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=611"},"modified":"2025-09-24T23:30:14","modified_gmt":"2025-09-24T15:30:14","slug":"o-que-e-o-dao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/o-que-e-o-dao\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o Dao"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Eis a Via<\/b>, <b>o <\/b><b><i>Dao<\/i><\/b><b>, <\/b>o inef\u00e1vel, o que n\u00e3o se pode expressar, nem nomear, nem conhecer, mas que talvez se possa atingir, com o qual com certeza nos devemos sintonizar. O <i>Dao<\/i> entronizado como anterior ao C\u00e9u e \u00e0 Terra; o <i>Dao<\/i> que tudo perpassa e misteriosamente ordena. Essa oculta Via tem sido, para as mentes ocidentais, um dos principais pontos de refer\u00eancia e fasc\u00ednio da cultura da China e do pensamento chin\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">De facto, no Ocidente, o conceito de <i>dao<\/i> \u00e9 imediatamente (e quase em exclusividade) relacionado com as doutrinas ditas daoistas (ou da Via), L\u00e1ucio (<i>Laozi<\/i>, Velho Mestre) e o seu famoso \u201cLivro da Via e da Virtude\u201d, onde se espelha o <i>dao<\/i> tal como o par\u00e1grafo anterior o descreve. Contudo, o termo n\u00e3o foi criado por L\u00e1ucio, que o herdou da tradi\u00e7\u00e3o, e foi desde sempre utilizado por todos os pensadores chineses, incluindo confucionistas e budistas, existindo diferen\u00e7as de concep\u00e7\u00e3o, apesar de, em todos os casos, estarmos perante um significado geral comum.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Cada ser tem o seu dao<\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Dao pode significar,<\/b><\/span><span class=\"s2\"><b> literalmente, <\/b><\/span><span class=\"s1\"><b>via, caminho, estrada; mas, derivadamente, denota o modo ou o processo atrav\u00e9s do qual algo \u00e9 realizado ou ocorre.<\/b> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\">Ora esta segunda acep\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave que abre a palavra a um conte\u00fado reflexivo e filos\u00f3fico propriamente dito. A palavra <i>dao<\/i> \u00e9, assim, utilizada com este sentido mas aplicada a realidades ou entidades de ordem diferente. Existe o que Conf\u00facio chama a Grande Via (<i>Da Dao<\/i>), que poderemos considerar a Via do C\u00e9u (ou princ\u00edpio criativo); a Via atribu\u00edda a uma actividade, como a Via do Governante ou do Guerreiro; a Via do Homem de acordo com a sua natureza e mesmo o <i>dao<\/i> que esse homem realmente segue, de acordo com o seu livre arb\u00edtrio e a sua subjectividade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>\u00c9 L\u00e1ucio quem d\u00e1 ao conceito de Via uma maior abrang\u00eancia ontol\u00f3gica<\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\">Para o Velho Mestre, a Via \u00e9 anterior ao C\u00e9u, \u00e0 Terra, ao Homem e a todas as coisas. Ela \u00e9 a sua origem. No pensamento de L\u00e1ucio, a Via n\u00e3o \u00e9 uma ideia, mas uma entidade objectiva, ainda que n\u00e3o possa ser expressa ou nomeada. Inef\u00e1vel, a Via \u00e9 uma esp\u00e9cie de destino que se vai cumprindo, regulado pelo incognosc\u00edvel. L\u00e1ucio reconhece a impot\u00eancia do pensamento (e da linguagem) para conhecer ou explicar a Via: \u201cAlgo informado, completo em si mesmo\/ Anterior ao C\u00e9u e \u00e0 Terra\/ Tranquilo, vasto, solit\u00e1rio e imut\u00e1vel(&#8230;) N\u00e3o sei o seu nome, chamar-lhe-ei dao\u201d (Dao De Jing, 25), sabendo que o que pode nomear n\u00e3o \u00e9 o dao (op.cit., 1). Finalmente, da teoria do mestre daoista poderia ressaltar que a Via \u00e9 a regra universal oculta, que tudo governa e distribui. No entanto, L\u00e1ucio considera-a como ser e n\u00e3o-ser, isto \u00e9 como apar\u00eancia e mist\u00e9rio, o vis\u00edvel e o invis\u00edvel. A Via est\u00e1 na origem de tudo: \u201cDa Via nasce o Um\/ Do Um nasce o Dois\/ Do Dois o Tr\u00eas\/ E do Tr\u00eas os Dez Mil Seres\/ Estes carregam o yin nas costas e o yang nos bra\u00e7os\/ obtendo a harmonia pelo qi.\u201d (op.cit., 42) Ou ainda: \u201cA Via \u00e9 grande\/ o C\u00e9u \u00e9 grande\/ a Terra \u00e9 grande\/ e o Homem \u00e9 grande\/ Eis porque o Homem \u00e9 um dos quatro grandes do universo\/ o Homem segue a (Via da) Terra\/ a Terra segue o C\u00e9u, o C\u00e9u segue a Via\/ Esta segue o seu pr\u00f3prio caminho\u201d (op.cit., 25).<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Sendo a linguagem incapaz de dar conta da Via, tal n\u00e3o significa que ela n\u00e3o possa ser atingida. Ora atingir a Via, sem ser atrav\u00e9s da linguagem, gerou a mir\u00edade de pr\u00e1ticas daoistas que se foram desenvolvendo ao longo da Hist\u00f3ria. Para atingir esse est\u00e1dio, o s\u00e1bio poder\u00e1 passar por diversas fases, cujo culminar ser\u00e1 realizado no final de um processo de retorno em que vida e morte se confundem num fluxo primordial. Trata-se, no limite, de um processo meton\u00edmico e n\u00e3o metaf\u00f3rico, ou seja, o s\u00e1bio ter\u00e1 de se assemelhar \u00e0 pr\u00f3pria Via. Estas concep\u00e7\u00f5es viriam a ter repercuss\u00f5es importantes no budismo, nomeadamente na sua vertente chan (zen, em japon\u00eas), que se desenvolveu na China a partir do s\u00e9culo II.<\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>O deslocamento moral operado por conf\u00facio e seus disc\u00edpulos<\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\">Recuemos ao s\u00e9culo VI a.E.C., quando com Conf\u00facio e depois com os seus seguidores se operou um deslocamento no pensamento chin\u00eas que, de algum modo, faz lembrar parte do que foi perpetrado por S\u00f3crates no pensamento grego, isto \u00e9, um deslocamento no sentido do ser humano e da \u00e9tica. A Via passa, de forma geral, a ser a Via do Homem e consiste na recupera\u00e7\u00e3o da sua natureza original (moral), que lhe foi proporcionada pelo C\u00e9u e \u00e9 palmilhada atrav\u00e9s do cultivo de si. Segundo Xunzi, Conf\u00facio ter\u00e1 distinguido a Grande Via (<span class=\"s1\">\u5927 \u9053<\/span> <i>da dao<\/i>) da Via do Homem, reflectindo sobre o seu car\u00e1cter ontol\u00f3gico: \u201cA Grande Via \u00e9 o que altera, transmuta e, consequentemente, aperfei\u00e7oa os dez mil seres\u201d (Xunzi).<\/p>\n<p class=\"p2\">Contudo, a ontologia da Via n\u00e3o preocupa particularmente Conf\u00facio, na medida em que o s\u00e1bio recupera a tradi\u00e7\u00e3o anterior a L\u00e1ucio, segundo a qual o homem n\u00e3o tem meios para conhecer ou interferir na Via do C\u00e9u, como vem referido no Coment\u00e1rio de Zuo: \u201cA Via do C\u00e9u \u00e9 long\u00ednqua, a Via do Homem \u00e9 pr\u00f3xima. \u00c0 primeira n\u00e3o se pode aceder. Como a conhecer\u00edamos? Como conhecer\u00e1 Zao a Via do C\u00e9u?\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">Seja como for, n\u00e3o podemos separar no confucionismo o Homem do Universo ou considerar que a explana\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica n\u00e3o pressup\u00f5e uma ontologia. Conf\u00facio, ao proclamar, segundo M\u00eancio e Zhu Xi, uma homologia entre o C\u00e9u e a natureza moral de cada indiv\u00edduo denota uma concep\u00e7\u00e3o do mundo em que cada homem \u00e9 \u201cfilho do C\u00e9u\u201d, isto \u00e9, herda o seu princ\u00edpio criativo, que se manifesta na intelig\u00eancia, capacidade de compreens\u00e3o, no livre arb\u00edtrio e, sobretudo, na capacidade de regular a sua vida de forma a recuperar a sua natureza \u00e9tica original. Sendo a natureza essencialmente \u201cboa\u201d, porque o seu curso \u00e9 harmonioso e sem oposi\u00e7\u00e3o, como constatamos pela experi\u00eancia, logo a Via do Homem dever\u00e1 seguir a Via da Benevol\u00eancia (<i>Ren<\/i>).<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>J\u00e1 na dinastia Song, em pleno e efervescente neo-confucionismo, os irm\u00e3os Cheng<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>definem Via, utilizando o conceito de Li (padr\u00e3o). \u201cOs actos do C\u00e9u n\u00e3o t\u00eam som nem cheiro: a sua subst\u00e2ncia \u00e9 chamada muta\u00e7\u00f5es (yi) e o seu padr\u00e3o (li) chamada Via\u201d (Cheng Hao). Por seu lado, Cheng Yi afirma: \u201cA altern\u00e2ncia do yin e do yang \u00e9 chamada a Via, mas a Via n\u00e3o \u00e9 yin nem yang. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 aquilo pelo qual o yin e o yang alternam. (&#8230;) Sem yin e yang n\u00e3o h\u00e1 Via, mas aquilo pelo qual o yin e o yang s\u00e3o \u00e9 a Via. O yin e o yang, quando realizados, s\u00e3o qi. Qi \u00e9 o que se forma em baixo; a Via \u00e9 o que se forma no alto\u201d (Cheng Yi). Ou seja, como depois explica Zhu Xi, a altern\u00e2ncia do yin e o yang produz qi, mas a regra atrav\u00e9s do qual o fazem chama-se Via. Estar\u00edamos aqui perante o chamado (imperfeitamente) \u201cidealismo neo-confucionista\u201d pois Zhu Xi distinguiria, assim, entre o \u201cfen\u00f3meno\/apar\u00eancia\u201d (em baixo) e o \u201cprinc\u00edpio\/ideia\u201d (em cima). Este princ\u00edpio permanece oculto, n\u00e3o pode ser visto, ouvido ou cheirado, portanto n\u00e3o \u00e9 apreens\u00edvel pelos sentidos. Resta saber se, ao definir a Via como padr\u00e3o (li), nomeadamente a partir de Cheng Yi e da sua Escola do Padr\u00e3o (Li Xue), os neo-confucionistas a entendem como transcendente ou meramente como transcendental, isto \u00e9, se admitem a exist\u00eancia de um mundo separado, ao modo de Plat\u00e3o, ou se a Via se existe, ainda que de modo subtil, neste mesmo universo. Existe ainda a Via Menor (xiao dao) por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Via da Virtude (de dao), isto \u00e9, a via concreta dos homens que se deixam dominar pelos desejos ego\u00edstas e pelas paix\u00f5es. Ao longo da Hist\u00f3ria, o conceito de dao manteve sempre o mesmo valor sem\u00e2ntico de via, embora as suas concep\u00e7\u00f5es espec\u00edficas tenham conhecido, de acordo com as \u00e9pocas, previs\u00edveis muta\u00e7\u00f5es.<\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\"><b>Quanto \u00e0 quest\u00e3o \u201cgeneal\u00f3gica\u201d, L\u00e1ucio encontrar\u00e1 numerosos opositores <\/b><b><\/b><\/span><\/h3>\n<p class=\"p3\">O pr\u00f3prio Zhuangzi, apesar de seguir, numa primeira fase, a ideia de Laozi, segundo a qual na origem de tudo era a Via, acaba por dizer que \u201ca Via pertence ao C\u00e9u\u201d, o que significa que \u201ca Via \u00e9 subordinada ao C\u00e9u\u201d. Tamb\u00e9m o \u201cGrande Ap\u00eandice ao Livro das Muta\u00e7\u00f5es\u201d, escrito pouco depois do Dao De Jing, discorda de L\u00e1ucio, afirmando que a Via \u00e9 \u201ca altern\u00e2ncia do yin e do yang\u201d, o que significa que n\u00e3o \u00e9 anterior ao C\u00e9u e \u00e0 Terra, nem d\u00e1 origem ao Um, como defendia o Velho Mestre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Para <\/b><b>o primeiro dicion\u00e1rio chin\u00eas<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\">\u201cExplica\u00e7\u00e3o de Palavras e Caracteres\u201d, compilado no s\u00e9culo II, \u201c<i>Dao<\/i> \u00e9 o caminho atrav\u00e9s do qual se anda; esse caminho quando obtido chama-se <i>dao<\/i>\u201d. Portanto, o <i>dao<\/i> ser\u00e1 o modo como se processam as mudan\u00e7as no universo e nas coisas. O processo criativo do universo, do C\u00e9u, da Terra e dos dez mil seres \u00e9 o <i>dao<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______<br \/>\nImagem: Zhou Jin, <i>Ouvindo a chuva<\/i>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Eis a Via, o Dao, o inef\u00e1vel, o que n\u00e3o se pode expressar, nem nomear, nem conhecer, mas que talvez se possa atingir, com o qual com certeza nos devemos sintonizar. O Dao entronizado como anterior ao C\u00e9u e \u00e0 Terra; o Dao que tudo perpassa e misteriosamente ordena. 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