{"id":617,"date":"2025-09-24T23:36:20","date_gmt":"2025-09-24T15:36:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=617"},"modified":"2025-09-25T00:13:45","modified_gmt":"2025-09-24T16:13:45","slug":"antonio-miguel-de-campos-no-pensamento-chines-tradicional-nao-existe-o-conceito-de-verdade-absoluta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/antonio-miguel-de-campos-no-pensamento-chines-tradicional-nao-existe-o-conceito-de-verdade-absoluta\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Miguel de Campos \u2013 \u201cNo pensamento chin\u00eas tradicional, n\u00e3o existe o conceito de verdade absoluta\u201d"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Depois de ter traduzido o Tao Te King (Dao De Jing), de Lao Tse (Lao Zi), apresenta-nos agora uma tradu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m plena de coment\u00e1rios, dos escritos de Chuang Tse (Zhuang Zi). Como v\u00ea os dois autores, na sua rela\u00e7\u00e3o com o taoismo?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: S\u00e3o, sem d\u00favida, os dois mais importantes pensadores do taoismo filos\u00f3fico. As suas obras formam a base textual e filos\u00f3fica da escola de pensamento taoista (<span class=\"s1\">\u9053\u5bb6<\/span>, <span class=\"s2\">d\u00e0oji\u0101<\/span>). Na sua obra, Lao Tse enuncia aforismos breves, em linguagem muito concisa e po\u00e9tica, que apresentam os conceitos b\u00e1sicos do taoismo e do monismo dial\u00e9ctico, expresso no conceito de yin-yang, que caracteriza o pensamento taoista e que continua hoje a ser um substrato fundamental do modo de pensar chin\u00eas. Chuang Tse \u00e9 o primeiro pensador chin\u00eas que constr\u00f3i uma filosofia dirigida ao homem individual, incitando cada pessoa a encontrar por si pr\u00f3pria a felicidade interior, libertando-se das amarras mentais do pensamento convencional e da sujei\u00e7\u00e3o a uma moralidade social r\u00edgida, como a defendida pelo confucionismo, e procurando viver de um modo mais espont\u00e2neo, em harmonia com o que \u00e9 natural.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Distante do confucionismo, mas tamb\u00e9m de outras correntes do pensamento chin\u00eas?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: \u00c9 um pensador fora do comum, profundo, humor\u00edstico e irreverente, e um escritor extremamente inovador na cultura chinesa, e cuja filosofia, expressa numa linguagem muito menos concisa, tende a suscitar a auto-interroga\u00e7\u00e3o no leitor, por criar um vazio no que \u00e9 dito que evoca algo que est\u00e1 para al\u00e9m dos limites da linguagem. Este tipo de discurso foi mais tarde adoptado pelos budistas Chan e Zen, que o usaram nos seus <i>koans<\/i> (<span class=\"s1\">\u516c\u6848<\/span>, <span class=\"s2\">g\u014dng\u2019\u00e0n<\/span>).<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Ser\u00e1 que o fasc\u00ednio exercido pelo taoismo junto das mentalidades ocidentais, por oposi\u00e7\u00e3o a algum desinteresse pelo confucionismo, est\u00e1 relacionado com o \u201cindividualismo\u201d, por vezes reconhecido como existente nos pensadores ditos taoistas?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: No s\u00e9culo XVII, a Europa ficou fascinada com o confucionismo e com o modo como ele se reflectia na estrutura social e administrativa da China. E essa admira\u00e7\u00e3o acabou por influenciar alguns aspectos da organiza\u00e7\u00e3o social e administrativa europeia. No entanto, desde que a defesa das liberdades e direitos individuais ganhou for\u00e7a na Europa, a sua exagerada \u00eanfase nos deveres para com a comunidade em detrimento dos direitos individuais, come\u00e7ou a ser no Ocidente considerada algo \u00abanacr\u00f3nica\u00bb e menos interessante. Para isso contribui hoje uma sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o defendida pela escola legalista de que os seres humanos s\u00e3o naturalmente ego\u00edstas e que, por isso, o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de um conjunto de leis e puni\u00e7\u00f5es rigorosas e um firme controle pol\u00edtico e militar do Estado.<\/p>\n<p class=\"p4\">O maior fasc\u00ednio pelas ideias taoistas surgiu no Ocidente sobretudo atrav\u00e9s do interesse que se come\u00e7ou a manifestar na segunda metade do s\u00e9culo XX, e sobretudo por parte dos mais jovens, pelo budismo Zen e pelas artes marciais e medicinas orientais, que t\u00eam por base conceitos taoistas e sugerem para os ocidentais um modo de pensar alternativo. Esse modo de pensar o mundo parece ter um efeito terap\u00eautico para um ocidental, como um ant\u00eddoto contra algumas \u00abmaleitas\u00bb do pensamento convencional ocidental, o que explica, por exemplo, que haja m\u00e9dicos que sugerem a leitura do Tao Te King a pessoas deprimidas e professores de piano que aconselham a sua leitura aos seus pupilos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Ent\u00e3o ler o taoismo como um \u201cindividualismo\u201d estar\u00e1 errado?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">AMC: Embora os taoistas incitem cada pessoa a encontrar por si pr\u00f3pria a felicidade interior, n\u00e3o se pode considerar que a sua filosofia defenda o \u00abindividualismo\u00bb, na medida em que nela se encara o Homem apenas como uma entre \u00abas dez mil coisas\u00bb que existem na Natureza e se defende que o mais importante \u00e9 ele se inserir harmonicamente nela. E essa vis\u00e3o agrada ao modo de pensar ocidental actual, em que \u00e9 dada uma grande import\u00e2ncia \u00e0 Natureza e \u00e0 sua preserva\u00e7\u00e3o. Note-se que a raz\u00e3o pela qual os taoistas criticam as normas de comportamento confucianas \u00e9 sobretudo o facto de elas tornarem o funcionamento da sociedade demasiado r\u00edgido, contrariando o que \u00e9 natural. Acrescente-se ainda que o interesse pelos conceitos taoistas \u00e9 tamb\u00e9m resultante da compreens\u00e3o de que eles s\u00e3o um substrato muito importante da cultura chinesa e por isso indispens\u00e1veis para se entender a alteridade do modo de pensar chin\u00eas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Chuang Tse recusa admitir que existe uma s\u00f3 verdade. N\u00e3o \u00e9 este \u201cperspectivismo\u201d no seu pensamento, algo que o aproxima de v\u00e1rios pensadores contempor\u00e2neos, nomeadamente ocidentais?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s4\">AMC: H\u00e1 muitas semelhan\u00e7as entre o perspectivismo de Chuang Tse e de Nietzsche. Mas enquanto Nietzsche pretende, pela explora\u00e7\u00e3o de uma multiplicidade de perspectivas, aceder a um conhecimento superior, que ultrapasse as limita\u00e7\u00f5es de cada uma delas, Chuang Tse n\u00e3o est\u00e1 interessado na busca de conhecimento enquanto tal. O seu objectivo \u00e9 pr\u00e1tico: o que temos de fazer para que as nossas ac\u00e7\u00f5es sejam bem-sucedidas. E o perspectivismo que prop\u00f5e, a que poder\u00edamos chamar um \u00abperspectivismo pr\u00e1tico\u00bb, consiste em ir optando por verdades parciais, de modo que elas sejam ajustadas \u00e0s situa\u00e7\u00f5es, sem ficarmos mentalmente amarrados a nenhuma delas. Para Chuang Tse, o \u00abestado de esp\u00edrito privilegiado\u00bb \u00e9 ser capaz de ajustar a nossa perspectiva \u00e0s circunst\u00e2ncias, em vez de, \u00e0 maneira dos moralistas e l\u00f3gicos, dissipar esfor\u00e7os in\u00fateis na tentativa de \u00abajustar as circunst\u00e2ncias\u00bb \u00e0 nossa perspectiva.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Uma outra posi\u00e7\u00e3o face ao conceito de \u201cverdade\u201d?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: Note-se que no pensamento chin\u00eas tradicional, n\u00e3o existe o conceito de verdade absoluta, no sentido ocidental. Fala-se do certo-errado (<span class=\"s1\">\u662f\u975e<\/span>, <span class=\"s2\">sh\u00ecf\u0113i<\/span>), um termo que sugere a din\u00e2mica de procurar o certo, ou seja, o que \u00e9 admiss\u00edvel ou adequado, sabendo que pode estar errado, ou seja, uma din\u00e2mica certo-errado do tipo yin-yang.<\/p>\n<p class=\"p2\">H\u00e1 que referir que Kierkgaard dizia que perguntar o que est\u00e1 certo ou errado, em termos absolutos, \u00e9 um erro, porque as verdades que nos movem s\u00e3o apenas \u00abmiragens\u00bb ou \u00abrepresenta\u00e7\u00f5es\u00bb em que decidimos acreditar, e geralmente apenas temporariamente, com base nas nossas fortes intui\u00e7\u00f5es do momento. Tamb\u00e9m Wittgenstein dizia que o que torna correcto dizer que uma afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00abverdadeira\u00bb n\u00e3o \u00e9 a sua correspond\u00eancia com a realidade, mas apenas o crit\u00e9rio usado para determinar a verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: No caso de Chuang Tse, que interpreta\u00e7\u00e3o elabora da sua rela\u00e7\u00e3o com o conceito de Vazio, que o mestre refere, entre outros, a prop\u00f3sito de um talhante? Poderia distinguir, para os nossos leitores, a diferen\u00e7a entre Nada e Vazio? Al\u00e9m deste, que ideias, que conceitos, presentes em Chuang Tse, lhe causaram maior interesse?<\/b> <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: Na hist\u00f3ria do talhante Ting, Chuang Tse n\u00e3o fala no vazio (<span class=\"s1\">\u865b<\/span>, <span class=\"s2\">x\u016b<\/span>) mas nos veios naturais (<span class=\"s1\">\u5929\u7406<\/span>, <span class=\"s2\">ti\u0101nl\u01d0<\/span>) da carne, o espa\u00e7o entre as articula\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma hist\u00f3ria apresentada para expor como se deve \u00abnutrir a vida\u00bb (<span class=\"s1\">\u990a\u751f<\/span>, <span class=\"s2\">y\u01cengsh\u0113ng<\/span>), tanto fisiol\u00f3gica como psicologicamente, minimizando os conflitos nas interac\u00e7\u00f5es com as coisas e com as outras pessoas. Se estivermos atentos \u00e0 textura natural das coisas e das situa\u00e7\u00f5es, podemos agir como o art\u00edfice ex\u00edmio e, assim, esperar \u00abesgotar os anos que nos cabem de vida\u00bb sem encontrar adversidades de maior. O modo taoista de resolver os problemas, o \u00abagir sem agir\u00bb (<span class=\"s1\">\u70ba\u7121\u70ba<\/span>, <span class=\"s2\">w\u00e9i w\u00faw\u00e9i<\/span>), segue esta pr\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"p2\">No entanto, na<i> Arte da Guerra<\/i> de Sun Tse (<span class=\"s1\">\u5b6b\u5b50\u5175\u6cd5<\/span>, <span class=\"s2\">S\u016bnzi b\u012bngf\u01ce<\/span>), um texto inclu\u00eddo no \u00abC\u00e2non Taoista\u00bb (<span class=\"s1\">\u9053\u85cf<\/span>, d\u00e0oz\u00e0ng), diz-se que \u00abquem avan\u00e7a sem que lhe possam resistir, segue em frente no que est\u00e1 vazio (<span class=\"s1\">\u865b<\/span>, <span class=\"s2\">x\u016b<\/span>)\u00bb, o que lembra a mestria de Ting, que talhava no \u00abespa\u00e7o vazio\u00bb entre as articula\u00e7\u00f5es. No caso de Sun Tse, o vazio pode significar o que est\u00e1 fraco ou desprotegido, mas tamb\u00e9m os \u00abveios naturais\u00bb da cada situa\u00e7\u00e3o, que nos permitem avan\u00e7ar sem resist\u00eancia, continuando sempre intactos e afiados como a l\u00e2mina da faca de Ting.<\/p>\n<p class=\"p2\">O Nada (<span class=\"s1\">\u7121<\/span>, <span class=\"s2\">w\u00fa<\/span>) \u00e9 o que ainda n\u00e3o se manifestou, ou seja, o que ainda n\u00e3o existe e de onde emerge o que existe (<span class=\"s1\">\u6709<\/span>, <span class=\"s2\">y\u01d2u<\/span>). No Tao Te King, ele \u00e9 identificado com o Tao e sugere-se que ele \u00e9 a fonte original de tudo e o Princ\u00edpio Supremo que gera tudo o que existe e est\u00e1 na origem do seu devir. No Chuang Tse, ele \u00e9 descrito como sendo a Unidade indiferenciada de todas as coisas que, em si, n\u00e3o \u00e9 uma coisa, \u00e9 \u00abNada\u00bb, mas onde \u00e9 como nela existissem coisas sem fim, embora sem delimita\u00e7\u00f5es entre elas. Chuang Tse apresenta o Tao essencialmente como um processo de transforma\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, sem fim nem in\u00edcio, que \u00abfaz com que as coisas sejam coisas\u00bb.<\/p>\n<p class=\"p4\">Segundo os taoistas, quem busca a harmonia com o Tao deve esvaziar a mente para atingir o estado de vacuidade mental que se designa por \u00abclareza\u00bb (<span class=\"s1\">\u660e<\/span>, m\u00edng) em que as respostas adequadas surgem t\u00e3o natural e espontaneamente como uma imagem num espelho e n\u00e3o como resultado do encadeamento cont\u00ednuo de pensamentos conscientes. \u00c9 um regresso ao \u00abvazio\u00bb indiferenciado do \u00abantes de tudo\u00bb, que liberta espa\u00e7o para garantir que nada do que nesse vazio pode espontaneamente emergir seja impedido de o fazer.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: E, no entanto, no seio da certeza de n\u00e3o existirem certezas, surge sempre a d\u00favida e as suas manig\u00e2ncias?<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: Um conceito introduzido por Chuang Tse que achei muito interessante foi o de \u00abdeslizar para o deslumbramento da d\u00favida\u00bb (<span class=\"s1\">\u6ed1\u7591\u4e4b\u8000<\/span>, <span class=\"s2\">hu\u00e1 y\u00ed zh\u012b y\u00e0o<\/span>). Ele diz-nos que, quem \u00e9 s\u00e1bio, n\u00e3o v\u00ea utilidade em afirmar categoricamente o que est\u00e1 certo e prefere manter-se deslumbrado com a d\u00favida e ficar-se apenas pelo que \u00e9 \u00f3bvio e intuitivo.<\/p>\n<p class=\"p2\">Outro conceito que achei muito interessante \u00e9 o do uso de \u00abpalavras do jarro\u00bb (<span class=\"s1\">\u536e\u8a00<\/span>, <span class=\"s2\">zh\u012b y\u00e1n<\/span>), uma forma de linguagem fluida e \u00abdespreocupada\u00bb, caracterizada por uma transforma\u00e7\u00e3o constante, que n\u00e3o busca nenhum objectivo final para al\u00e9m da sua pr\u00f3pria continua\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que Chuang Tse, ao escolher um jarro para caracterizar as suas palavras, tenha tamb\u00e9m querido associ\u00e1-las \u00e0s palavras que se dizem depois de se beber vinho, quando o inconsciente \u00e9 menos controlado pela consci\u00eancia e podemos ser mais espont\u00e2neos, livres e criativos, deixando-nos transformar pelas coisas. Cabe aqui recordar a frase \u00abH\u00e1 mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros\u00bb, de Louis Pasteur. Chuang Tse diz-nos que usar \u00abpalavras do jarro\u00bb \u00e9 um modo de \u00abfalar n\u00e3o-falando\u00bb, por ser um discurso que n\u00e3o est\u00e1 preso a nenhuma perspectiva r\u00edgida e que discorre sobre ideias de um modo que supera os limites da l\u00f3gica e da pr\u00f3pria linguagem, sendo ele pr\u00f3prio uma manifesta\u00e7\u00e3o do processo sempre renovador que \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o natural das coisas.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Poderemos falar na felicidade de um peixe? <\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">AMC: Chuang Tse parece apontar para a possibilidade de existir um conhecimento intuitivo que n\u00e3o \u00e9 o resultado de an\u00e1lises e racioc\u00ednios l\u00f3gicos, mas \u00e9 apreendido directamente pela observa\u00e7\u00e3o do mundo, com a mente esvaziada de todo o conhecimento conceptual. Os peixes \u00abvagueavam livremente e sem amarras\u00bb e era evidente que eles estavam felizes. \u00c9 interessante referir que o fil\u00f3sofo indiano Jiddu Krishnamurti defendia que \u00aba capacidade de observar sem analisar \u00e9 a mais alta forma de intelig\u00eancia\u00bb.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s6\"><b>VM: Somos Chuang Tse ou a borboleta? <\/b><b><\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">AMC: A hist\u00f3ria em que Chuang Tse se pergunta se \u00e9 mesmo ele ou uma borboleta que sentiu que era durante um sonho \u00e9 uma alegoria que p\u00f5e em causa a distin\u00e7\u00e3o entre a ilus\u00e3o e a realidade, encorajando-nos a encarar todos os estados mentais como tendo a mesma natureza ef\u00e9mera dos sonhos. Devemos acreditar sinceramente em qualquer coisa em cada momento, mas deixar que aquilo em que acreditamos v\u00e1 mudando, sentindo-nos unos com o Universo, fluindo nele e com ele, perdendo-nos de n\u00f3s pr\u00f3prios, participando totalmente nas transforma\u00e7\u00f5es do fluxo universal da vida.<\/p>\n<p class=\"p4\">O sonho \u00e9 algo de natural e por isso deve ser equiparado ao estado acordado. E, nos sonhos, podemos libertar-nos com facilidade das nossas perspectivas r\u00edgidas e deixar-nos transformar livremente e sem amarras e isso pode-nos fazer ficar mentalmente mais flex\u00edveis e ajudar-nos a saber aproveitar melhor todas as oportunidades que surgirem no nosso caminho.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>O romano S\u00e9neca (65 a.C.) dizia que \u00abn\u00e3o \u00e9 por as coisas serem dif\u00edceis que n\u00e3o as ousamos fazer. \u00c9 por n\u00e3o as ousarmos fazer que elas s\u00e3o dif\u00edceis\u00bb. Como diz Ant\u00f3nio Gede\u00e3o, na Pedra Filosofal, \u00abo sonho \u00e9 uma constante da vida, t\u00e3o concreta e definida como outra coisa qualquer. E sempre que o homem sonha, o mundo pula e avan\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p class=\"p4\">O que Chuang Tse nos prop\u00f5e \u00e9 que nos deixemos \u00abvaguear livremente e sem amarras\u00bb numa esp\u00e9cie de \u00absonho acordado\u00bb em que vamos sendo quem nos parece que somos, mas em que o vamos tamb\u00e9m deixando para tr\u00e1s, esquecendo-nos de quem fomos antes. O objectivo desse vaguear \u00e9 sentirmo-nos livres e felizes. N\u00e3o interessa se esse vaguear \u00e9 considerado moralmente virtuoso ou \u00fatil para o bem-geral. O vaguear \u00e9 um fim em si mesmo.<\/p>\n<p class=\"p4\">A este prop\u00f3sito, \u00e9 interessante reler o que Fernando Pessoa dizia numa carta dirigida a Casais Monteiro: \u201cDesde que me conhe\u00e7o como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, car\u00e1cter e hist\u00f3ria, de v\u00e1rias figuras irreais que eram para mim t\u00e3o vis\u00edveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real &#8230;\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VM: Ou somos, finalmente, seres como aqueles macacos, facilmente manipul\u00e1veis, como tamb\u00e9m acreditava Maquiavel?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s7\">AMC: Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o destes textos com o pensamento de Maquiavel, h\u00e1 que frisar que ele dizia que, quando as circunst\u00e2ncias mudam, as pessoas s\u00e3o mais facilmente manipul\u00e1veis se estiverem amarradas a perspectivas r\u00edgidas. Ora o modo de encarar o mundo aconselhado por Chuang Tse destina-se exactamente a libertar-nos das amarras de concep\u00e7\u00f5es e perspectivas r\u00edgidas e faz com que sejamos mais dificilmente manipul\u00e1veis, por ele nos permitir ajustar as nossas perspectivas \u00e0s circunst\u00e2ncias.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] VM: Depois de ter traduzido o Tao Te King (Dao De Jing), de Lao Tse (Lao Zi), apresenta-nos agora uma tradu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m plena de coment\u00e1rios, dos escritos de Chuang Tse (Zhuang Zi). Como v\u00ea os dois autores, na sua rela\u00e7\u00e3o com o taoismo? 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