{"id":621,"date":"2025-09-24T23:45:07","date_gmt":"2025-09-24T15:45:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=621"},"modified":"2025-09-24T23:45:07","modified_gmt":"2025-09-24T15:45:07","slug":"a-traducao-do-tao-te-king-a-partir-das-fontes-chinesas-algumas-notas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/a-traducao-do-tao-te-king-a-partir-das-fontes-chinesas-algumas-notas\/","title":{"rendered":"A tradu\u00e7\u00e3o do Tao Te King a partir das fontes chinesas. Algumas notas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N<\/span><span class=\"s2\">estas notas<\/span><span class=\"s1\"> apresenta-se a metodologia seguida na elabora\u00e7\u00e3o de uma nova tradu\u00e7\u00e3o portuguesa<sup>1<\/sup> do <i>Tao Te King<\/i>, um texto filos\u00f3fico relativamente curto, com pouco mais de 5000 caracteres, que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 sido escrito por volta do s\u00e9culo VI a.C. por um fil\u00f3sofo conhecido por Lao Tse. A tradu\u00e7\u00e3o foi feita a partir dos textos cl\u00e1ssicos chineses, que se procurou seguir o mais fielmente poss\u00edvel, sem adicionar nada para al\u00e9m do essencial e tentando respeitar ao m\u00e1ximo o seu estilo conciso e a ambiguidade presente em muitas das suas frases, por se entender que o texto \u00e9 propositadamente enigm\u00e1tico, de modo a estimular o leitor a apreender intuitivamente o seu sentido.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">A decis\u00e3o de fazer esta nova tradu\u00e7\u00e3o ficou exclusivamente a dever-se ao interesse que a obra despertou ao tradutor, h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, e ao desejo de elaborar uma tradu\u00e7\u00e3o comentada, a ser partilhada com familiares e amigos mais pr\u00f3ximos. N\u00e3o havendo a inten\u00e7\u00e3o de a publicar, a sua elabora\u00e7\u00e3o foi prosseguindo lentamente, e sem pressa, ao longo de tr\u00eas anos, tendo sido prestada muita aten\u00e7\u00e3o a todos os pormenores. Se tivesse havido pressa, o resultado teria sido certamente bem menos satisfat\u00f3rio, \u00abporque se leva sempre muito tempo a fazer uma coisa como deve ser\u00bb<sup>2<\/sup>, como nos diz Chuang Tse. Como o estilo de composi\u00e7\u00e3o usado nos textos originais chineses do <i>Tao Te King <\/i>\u00e9 extremamente conciso, \u00e0 sua tradu\u00e7\u00e3o aplica-se o que nos diz Nietzsche a prop\u00f3sito do trabalho filol\u00f3gico, no final do pref\u00e1cio de <i>Aurora<\/i>: ela exige toda a delicadeza, cuidado e lentid\u00e3o que um ourives p\u00f5e no seu trabalho, e \u00abn\u00e3o alcan\u00e7a nada se n\u00e3o o alcan\u00e7ar em <i>lento<\/i>\u00bb.<sup>3<\/sup><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Foi por ter sido executado em <i>lento<\/i>, que o trabalho realizado p\u00f4de contemplar o estudo paciente e cuidadoso de cada um dos caracteres e de cada uma das frases do <i>Tao Te King<\/i>, essenciais para que o texto traduzido pudesse ir evoluindo, passo a passo e ao longo dos meses, aproximando-se o mais poss\u00edvel de uma restitui\u00e7\u00e3o fiel tanto da dimens\u00e3o imag\u00e9tica e po\u00e9tica do texto original como dos padr\u00f5es estil\u00edsticos usados no encadeamento das frases de cada estrofe.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nO estilo enigm\u00e1tico do <\/b><b><i>Tao Te King<\/i><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s4\">A escrita chinesa cl\u00e1ssica \u00e9 muito concisa, sendo frequentes as frases sem verbos. Raramente h\u00e1 um pronome pessoal e s\u00f3 o contexto permite saber, e nem sempre com toda a certeza, se uma frase se refere ao passado, presente ou futuro, ou se o sujeito \u00e9 singular ou plural. Al\u00e9m disso, um mesmo caracter<sup>4<\/sup> pode ser usado como sujeito ou como verbo \u2013 na voz activa ou passiva &#8211; e ter v\u00e1rios significados diferentes, dependendo sempre do contexto. Os textos cl\u00e1ssicos n\u00e3o s\u00e3o, por isso, de interpreta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, mesmo para um chin\u00eas, porque a informa\u00e7\u00e3o presente no texto n\u00e3o \u00e9 uma estrutura s\u00f3lida com base na qual se possa facilmente construir uma interpreta\u00e7\u00e3o definitiva.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Como no <i>Tao Te King <\/i>se usa um estilo de composi\u00e7\u00e3o excepcionalmente conciso, de interpreta\u00e7\u00e3o especialmente dif\u00edcil, cada uma das v\u00e1rias escolas de pensamento que surgiram posteriormente na China o interpretou a seu modo, tendo sido escritos, ao longo dos s\u00e9culos, muitos coment\u00e1rios ao <i>Tao Te King <\/i>expressando opini\u00f5es muito diferentes sobre o sentido preciso dos seus ensinamentos. N\u00e3o \u00e9 por isso de admirar que as tradu\u00e7\u00f5es existentes no mundo ocidental, grandemente influenciadas por esses coment\u00e1rios, correspondam a interpreta\u00e7\u00f5es muitas vezes divergentes e at\u00e9 antag\u00f3nicas, e que se tenha criado a ideia de que o <i>Tao Te King<\/i> n\u00e3o \u00e9 mais do que uma antologia de aforismos, sendo imposs\u00edvel encontrar uma interpreta\u00e7\u00e3o coerente para a globalidade da obra.<\/p>\n<p class=\"p3\">No entanto, o facto de ser poss\u00edvel interpretar o <i>Tao Te King <\/i>de modos muito diferentes n\u00e3o significa necessariamente que seja imposs\u00edvel apreender uma linha de pensamento atravessando todo o texto. Pelo contr\u00e1rio, esta caracter\u00edstica sugere que se pode encontrar mais do que uma, e que sejaprecisamente por isso que o <i>Tao Te King <\/i>p\u00f4de ser adoptado como fonte de inspira\u00e7\u00e3o por escolas de pensamento muito diversas. Alguns dos primeiros mission\u00e1rios ocidentais que o leram chegaram, por exemplo, a sustentar que a sua doutrina consistia num \u00abcristianismo primitivo\u00bb, exposto de um modo peculiar ao Oriente.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Tudo indica que a natureza invulgarmente concisa e enigm\u00e1tica do <i>Tao Te King <\/i>\u00e9 propositada, destinando-se a obrigar um leitor que queira apreender o sentido de cada um dos seus cap\u00edtulos a ler e reler v\u00e1rias vezes o seu texto at\u00e9 se \u00abfazer luz.\u00bb Podemos, assim, dizer que o <i>Tao Te King <\/i>encerra \u00abum mist\u00e9rio cuja chave o leitor deve procurar.\u00bb<sup>5<\/sup> O estilo paradoxal utilizado em muitos dos seus aforismos \u2014 que nos dizem, por exemplo, ser o fraco quem vence o forte e que o melhor modo de governar uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o a governar \u2014 exige que se olhe o mundo por um \u00e2ngulo fora do comum, para compreender o seu sentido. Por outro lado, a maioria dos cap\u00edtulos do <i>Tao Te King <\/i>\u00e9 composta por sec\u00e7\u00f5es que, numa primeira leitura, parecem desconexas, exigindo ao leitor um esfor\u00e7o mental para \u00abfazer a ponte\u00bb entre elas, de modo a construir e apreender o seu sentido. E, muitas vezes, este s\u00f3 emerge claramente quando se consideram, em conjunto, os v\u00e1rios cap\u00edtulos que abordam um mesmo tema. Ou seja, o estilo utilizado no <i>Tao Te King <\/i>parece ser um convite para que o leitor tente pelos seus pr\u00f3prios meios apreender a vis\u00e3o do mundo e o modo de viver preconizados, tendo, para al\u00e9m do esfor\u00e7o, ainda o prazer de os ir adivinhando lentamente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Parece ser esta, pois, a caracter\u00edstica do <i>Tao Te King <\/i>que explica o porqu\u00ea de um texto amb\u00edguo e obscuro, \u00e0 partida inacess\u00edvel ao comum dos leitores, se ter tornado no livro oriental mais vezes traduzido no ocidente.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre o estilo do texto <\/b><b>e a filosofia que nele se exp\u00f5e<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">O Tao, o tema central do <i>Tao Te King<\/i>, \u00e9 o que h\u00e1 de mais profundo e misterioso na realidade: o que faz com que tudo seja como \u00e9. O <i>Tao Te King <\/i>diz\u2011nos ser imposs\u00edvel descrev\u00ea\u2011lo e at\u00e9 impr\u00f3prio design\u00e1\u2011lo por um nome, dado ser um Todo \u00fanico e indiferenciado que tudo inclui, e as palavras e os nomes servirem para diferenciar e definir coisas. O Tao n\u00e3o \u00e9 algo intelig\u00edvel, mas apenas o que \u00e9 \u00abintu\u00eddo\u00bb quando desistimos de o tentar entender. Se as palavras s\u00e3o usadas com extrema parcim\u00f3nia no <i>Tao Te King<\/i>, \u00e9 porque elas se tornam facilmente sup\u00e9rfluas e enganadoras, em particular quando se tenta falar do indescrit\u00edvel. Chuang Tse (369-286 a.C.), o outro grande fil\u00f3sofo taoista da Antiguidade, dizia que as palavras s\u00e3o como armadilhas para ca\u00e7ar animais, as quais se colocam de parte uma vez eles tenham sido apanhados.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00abAs palavras existem por causa do seu significado; mas, uma vez este entendido, podemos esquec\u00ea-las\u00bb<sup>6<\/sup>. As palavras s\u00e3o como um dedo apontando para alguma coisa. \u00c9 preciso desviar o olhar do dedo para ver o que realmente h\u00e1 para ver. Se no <i>Tao Te King <\/i>se usa uma linguagem tantas vezes amb\u00edgua, contradit\u00f3ria ou paradoxal \u00e9 porque desse modo se apela mais \u00e0 intui\u00e7\u00e3o do que ao intelecto, obrigando assim a transcender o significado imediato das suas palavras.<\/p>\n<p class=\"p3\">O car\u00e1cter amb\u00edguo e obscuro do texto original n\u00e3o corresponde, por isso, simplesmente a uma escolha, mais ou menos arbitr\u00e1ria, de um estilo liter\u00e1rio, pois \u00e9 indissoci\u00e1vel do facto de a sabedoria nele exposta n\u00e3o poder ser transcrita de modo claro, mas apenas sugerida atrav\u00e9s de met\u00e1foras. Como se l\u00ea no cap\u00edtulo 43, o que h\u00e1 de essencial \u00e9 \u00abensinado sem usar palavras\u00bb (<span class=\"s5\">\u4e0d\u8a00\u4e4b\u6559<\/span>). \u00c9 por isso que, de um modo paradoxal, e com um toque de provoca\u00e7\u00e3o e de humor, se l\u00ea no cap\u00edtulo 56:<span class=\"s5\"> \u77e5\u8005\u4e0d\u8a00\u8a00\u8005\u4e0d\u77e5 <\/span>(\u00abQuem sabe n\u00e3o fala. Quem fala n\u00e3o sabe\u00bb).<\/p>\n<p class=\"p3\">Como tenta fazer-nos apreender o que \u00e9 misterioso e indescrit\u00edvel, o <i>Tao Te King <\/i>tem necessariamente de ser uma obra \u00abincompleta\u00bb que s\u00f3 a intui\u00e7\u00e3o do leitor pode concluir. Mas, como se refere no cap\u00edtulo 45, \u00abA grande obra parece incompleta, mas a sua utilidade nunca se esgota.\u00bb Como afirmou A. C. Graham, a vis\u00e3o do mundo e o modo recomendado de nele viver s\u00e3o apresentados no <i>Tao Te King <\/i>com base num \u00absistema organizado de met\u00e1foras l\u00facidas que iluminam cada situa\u00e7\u00e3o com uma estrutura correspondente\u00bb <sup>7<\/sup> , fazendo com que um leitor que saiba transcender o significado imediato das palavras acabe por perceber que, paradoxalmente, a clareza com que eles s\u00e3o expostos em alguns dos cap\u00edtulos da obra \u00abquase exclui a possibilidade de que n\u00e3o sejam entendidos.\u00bb<sup>8<\/sup><\/p>\n<p class=\"p3\">A clareza que emerge dessas met\u00e1foras tem algo a ver com o <i>estado de clareza <\/i>ou de <i>ilumina\u00e7\u00e3o <\/i>(<span class=\"s5\">\u660e<\/span>), que os fil\u00f3sofos taoistas pretendem atingir, e que corresponde a um estado mental em que o intelecto deixa de \u00abobscurecer\u00bb a mente com as suas interpreta\u00e7\u00f5es, permitindo assim que se possa intuir, no mundo, a manifesta\u00e7\u00e3o do que nele h\u00e1 de mais profundo e misterioso. De certo modo, esse estado mental corresponde a conseguirmos olhar a realidade como se fosse uma met\u00e1fora que, a partir do que \u00e9 do dom\u00ednio dos sentidos, nos revelasse o transcendente.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nA motiva\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o <\/b><b>desta nova tradu\u00e7\u00e3o do <\/b><b><i>Tao Te King<\/i><\/b><b><i><\/i><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s4\">A motiva\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o desta nova tradu\u00e7\u00e3o do <i>Tao Te King <\/i>surgiu, em primeiro lugar, da constata\u00e7\u00e3o de que as tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis em portugu\u00eas eram todas feitas com base noutras tradu\u00e7\u00f5es, tornando evidente que seria importante a exist\u00eancia de uma tradu\u00e7\u00e3o feita directamente das fontes chinesas. Em segundo lugar, a consulta dos textos originais do <i>Tao Te King<\/i>, em chin\u00eas cl\u00e1ssico, tornou claro que, de modo geral, as tradu\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis nem seguiam fielmente o texto original, acrescentando par\u00e1frases e elabora\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas v\u00e1rias, nem respeitavam inteiramente o car\u00e1cter amb\u00edguo de muitas das suas frases, que parece desafiar o leitor a interpret\u00e1-las por si e \u00e0 sua maneira. Muitos tradutores parecem preferir eliminar essa ambiguidade, procurando assegurar que o leitor entenda a \u00abinterpreta\u00e7\u00e3o correcta\u00bb de cada frase, que corresponde geralmente \u00e0 leitura defendida por um dos muitos comentadores chineses da antiguidade, os quais n\u00e3o raro divergiram ou apresentaram interpreta\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Surgiu, assim, a inten\u00e7\u00e3o de fazer uma nova tradu\u00e7\u00e3o do <i>Tao Te King <\/i>para portugu\u00eas europeu em que se procurasse seguir o mais fielmente poss\u00edvel o texto original, respeitando ao m\u00e1ximo a ambiguidade de tantas das suas frases. N\u00e3o se tentou, por isso, interpretar ou \u00abexplicar\u00bb o sentido \u2014 ou sentidos poss\u00edveis \u2014 de cada frase, mas apenas ficar pelo que neles se descreve, sem o \u00abultrapassar\u00bb, mantendo o poder enigm\u00e1tico do original.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Decidiu-se ainda incorporar coment\u00e1rios a cada cap\u00edtulo do <i>Tao Te King <\/i>de modo a alertar o leitor para a dificuldade de tradu\u00e7\u00e3o de certas frases do texto original e o informar sobre as v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es tomadas por outros tradutores da obra. Os coment\u00e1rios fornecem, igualmente, sugest\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de passagens cujo sentido \u00e9 mais amb\u00edguo ou obscuro, procurando- se, assim, estimular a imagina\u00e7\u00e3o do leitor, para que este possa por si pr\u00f3prio intuir o sentido de cada cap\u00edtulo com maior facilidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Finalmente, a consulta do texto original do <i>Tao Te King <\/i>permitiu verificar que as tradu\u00e7\u00f5es existentes raramente tentaram reproduzir o encadeamento de imagens sugerido pelos caracteres que comp\u00f5em cada uma das suas frases, que permite ao leitor reconstituir os pensamentos que deram origem \u00e0 sua escolha. O desafio de tentar obter um texto traduzido que fosse o mais fiel poss\u00edvel a esta dimens\u00e3o po\u00e9tica do texto original constituiu igualmente um factor importante de motiva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O objectivo n\u00e3o foi, portanto, propor uma leitura particular do <i>Tao Te King<\/i>, mas sim tentar assegurar que, de cada frase e de cada cap\u00edtulo do texto traduzido, se possam retirar todas as interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de extrair do texto original. Optou-se, por isso, pelo uso de uma linguagem simples e ao mesmo tempo po\u00e9tica, ou seja, suficientemente \u00abamb\u00edgua\u00bb, de modo a que cada frase possa, tal como no texto de partida, ser interpretada diferentemente por leitores com graus de forma\u00e7\u00e3o distintos, sejam eles crentes ou n\u00e3o, ou at\u00e9, em momentos diferentes da vida de um mesmo leitor. Esta op\u00e7\u00e3o parece facilitar o emergir de leituras mais coerentes do <i>Tao Te King<\/i>, em contraste com as que se podem retirar de outras tradu\u00e7\u00f5es, em que se tentou eliminar a ambiguidade do texto original.<\/p>\n<p class=\"p3\">A ordena\u00e7\u00e3o habitual dos oitenta e um cap\u00edtulos do <i>Tao Te King<\/i>, um tanto arbitr\u00e1ria e confusa, parece ter contribu\u00eddo para a cria\u00e7\u00e3o do lugar-comum segundo o qual \u00e9 imposs\u00edvel detectar uma linha de pensamento coerente atravessando toda a obra. Procurou-se, por isso, encontrar uma ordena\u00e7\u00e3o alternativa dos cap\u00edtulos de forma a aproximar entre si os textos que parecem referir-se ao mesmo tema, e assim obter um texto estruturado logicamente de modo facilitar a sua melhor apreens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nO estudo dos caracteres<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Um dos motivos porque a interpreta\u00e7\u00e3o de textos chineses antigos se torna problem\u00e1tica, mesmo para um chin\u00eas, encontra-se na dificuldade de determinar com rigor o significado de cada caracter. Na linguagem chinesa, a cada caracter corresponde normalmente algo de extremamente concreto e preciso. Basta notar, por exemplo, que h\u00e1 caracteres espec\u00edficos para designar um cavalo possante, um cavalo vivo e corajoso, um cavalo cansado, um cavalo sem sela, um cavalo castanho-escuro, um cavalo preto, um cavalo negro com cabe\u00e7a branca e um cavalo negro de crina branca.<sup>9<\/sup> No entanto, embora a cada caracter possa corresponder algo de muito concreto, ele pode tamb\u00e9m evocar uma multiplicidade de sentidos mais abstractos que, a um portugu\u00eas, \u00e0s vezes surgem como muito d\u00edspares.<\/p>\n<p class=\"p3\">O caracter <span class=\"s5\">\u660e<\/span> (m\u00edng, em mandarim), por exemplo, parece denotar a presen\u00e7a simult\u00e2nea do Sol (<span class=\"s5\">\u65e5<\/span>) e da Lua (<span class=\"s5\">\u6708<\/span>) no c\u00e9u, ao amanhecer. Mas, para al\u00e9m de <i>aurora <\/i>ou <i>madrugada<\/i>, pode tamb\u00e9m significar: <i>claridade<\/i>, <i>brilho, ilumina\u00e7\u00e3o, claro<\/i>, <i>brilhante, clarificar, iluminar, luz, lucidez <\/i>e <i>l\u00facido<\/i>; mas tamb\u00e9m <i>compreens\u00edvel<\/i>, \u00f3bvio, <i>ilustrar, explicar, afirmar, mostrar, ver, percepcionar, entender, percep\u00e7\u00e3o, discernimento, vis\u00e3o, acuidade visual, vision\u00e1rio, inteligente, esperto, sagaz<\/i>. Pode ainda designar um <i>acordo <\/i>ou um <i>contrato<\/i>, ou simplesmente referir-se ao <i>acordar <\/i>ou ao <i>pr\u00f3ximo dia<\/i>. \u00c9 mais uma imagem que nos mostra qualquer coisa do que a descri\u00e7\u00e3o ou representa\u00e7\u00e3o de um determinado objecto ou ac\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a frase em que o caracter est\u00e1 inserido nos permite deduzir, e nem sempre de um modo definitivo, qual dos seus v\u00e1rios significados se pretende evocar.<\/p>\n<p class=\"p3\">A an\u00e1lise dos elementos gr\u00e1ficos de cada caracter, especialmente os das suas vers\u00f5es mais antigas, torna muitas vezes mais f\u00e1cil perceber o conjunto de imagens e significados que ele pode evocar do que a consulta de um dicion\u00e1rio. Por isso, uma parte muito significativa do esfor\u00e7o envolvido na presente tradu\u00e7\u00e3o foi dedicada \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de um gloss\u00e1rio com informa\u00e7\u00e3o precisa sobre cada um dos caracteres do texto original. Ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o em livro desta tradu\u00e7\u00e3o, o gloss\u00e1rio completo, referente a todos os cap\u00edtulos do <i>Tao Te King<\/i>, foi disponibilizado na Internet.<sup>10<\/sup> A partir da informa\u00e7\u00e3o nele contida, o leitor pode n\u00e3o s\u00f3 perceber melhor as raz\u00f5es pelas quais diferentes tradutores tomaram op\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes na interpreta\u00e7\u00e3o de algumas das frases mais amb\u00edguas, como, se o desejar, procurar um outro modo de interpretar e traduzir o <i>Tao Te King<\/i>, respeitando o texto original.<\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nA import\u00e2ncia de preservar <\/b><b>o estilo enigm\u00e1tico do texto<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">Na escrita cl\u00e1ssica chinesa o pensamento n\u00e3o \u00e9 geralmente transcrito de modo a que possa ser imediatamente assimilado. Usa-se um procedimento de transmiss\u00e3o, que podemos considerar po\u00e9tico, que consiste em represent\u00e1-lo atrav\u00e9s de um encadeamento de imagens cujo poder evocador o permite reconstituir. Cabe ao leitor tentar reconstitu\u00ed-lo, podendo acontecer que dessa reconstru\u00e7\u00e3o resulte um pensamento n\u00e3o inteiramente coincidente com o concebido originalmente pelo autor.<sup>11<\/sup><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Muitas frases da escrita chinesa cl\u00e1ssica s\u00e3o criadas pelos seus autores para evocarem esse tipo de encadeamento de imagens, cujo sentido preciso s\u00f3 emerge, muitas vezes, da percep\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de analogias ou contrastes entre v\u00e1rias frases cont\u00edguas. Para isso contribui o facto de os caracteres que evocam esse encadeamento de imagens nem sempre formarem uma frase sintacticamente perfeita, por terem sido frequentemente escritos de acordo com a sequ\u00eancia com que essas imagens surgem na experi\u00eancia comum. Podemos, por isso, dizer que as frases da escrita chinesa cl\u00e1ssica n\u00e3o s\u00e3o feitas de ideias mas sim de imagens, evocadas pelos seus caracteres.<sup>12<\/sup><\/span> <span class=\"s4\">\u00c9 esta caracter\u00edstica da escrita chinesa cl\u00e1ssica, mais sugestiva do que definidora, que convida o pensamento a permanecer no dom\u00ednio das sensa\u00e7\u00f5es e faz com que muitas frases do <i>Tao Te King <\/i>adquiram uma dimens\u00e3o po\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Nesta nova tradu\u00e7\u00e3o, procurou-se preservar esta caracter\u00edstica da escrita chinesa cl\u00e1ssica, tentando ficar sempre pelo que cada frase descreve, sem o ultrapassar. Como exemplo do modo como o leitor reconstitui o pensamento representado por um conjunto de frases cont\u00edguas do texto original, consideremos as duas primeiras frases do cap\u00edtulo 1:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s7\"><i>O Tao em que se pode caminhar n\u00e3o \u00e9 o Tao eterno.<br \/>\n<\/i><i><\/i><\/span><span class=\"s3\"><i>O nome que se pode dizer n\u00e3o \u00e9 o nome eterno.<\/i><i><\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p10\">\u9053\u53ef\u9053\u975e\u5e38\u9053\u540d\u53ef\u540d\u975e\u5e38\u540d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Embora a leitura isolada da primeira frase afirme, literalmente, que \u00abum caminho em que se pode caminhar n\u00e3o \u00e9 o caminho eterno\u00bb, esta frase \u00e9 frequentemente traduzida por \u00abO Tao que se pode nomear n\u00e3o \u00e9 o Tao eterno.\u00bb No entanto, esse modo de a traduzir corresponde j\u00e1 a uma interpreta\u00e7\u00e3o ou \u00abexplica\u00e7\u00e3o\u00bb do seu sentido. De facto, as tr\u00eas ocorr\u00eancias nessa frase do caracter <\/span><span class=\"s8\">\u9053<\/span><span class=\"s3\"> \u2014 que significa Tao, via, caminho, caminhar \u2014, fazem com que, numa primeira leitura, ela apenas evoque caminhos em que se pode caminhar e que n\u00e3o s\u00e3o o \u00abverdadeiro caminho.\u00bb O que h\u00e1 de enigm\u00e1tico nesta frase leva o leitor imediatamente a compreender que n\u00e3o se est\u00e1 a falar de um caminho ou caminhar usual, mas sim do \u00abCaminho\u00bb ou do \u00abCaminhar\u00bb, ou seja, do Tao.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">A segunda frase evoca os nomes que se podem dar \u00e0s coisas e diz-nos que nenhum deles \u00e9 \u00abeterno\u00bb ou \u00abpermanente\u00bb. E \u00e9 s\u00f3 depois de constatar o paralelismo \u00f3bvio entre as duas frases que o leitor associa esse nome eterno com o Tao, e entende que se fala do Tao como um caminho indescrit\u00edvel onde n\u00e3o se pode caminhar. E, como o caracter Tao, enquanto verbo, est\u00e1 associado tamb\u00e9m a tudo o que na mente flui no fluir do tempo \u2014 como dizer, falar, pensar ou supor \u2014, o leitor pode ent\u00e3o aperceber-se de que se pode tamb\u00e9m interpretar a primeira frase como dizendo que \u00abO Tao que se pode nomear n\u00e3o \u00e9 o Tao eterno\u00bb, ou seja, que o verdadeiro caminho a seguir n\u00e3o pode ser descrito ou ensinado por palavras.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Ao traduzir a primeira frase por \u00abO Tao que se pode nomear n\u00e3o \u00e9 o Tao eterno\u00bb, est\u00e1-se por isso j\u00e1 a interpretar ou a \u00abexplicar\u00bb o sentido da frase original, de modo a que possa ser imediatamente assimilado, traindo o estilo propositadamente enigm\u00e1tico do texto, que se destina precisamente a sugerir, mais do que afirmar. Qualquer enuncia\u00e7\u00e3o demasiado clara \u00e9, assim, inadequada. Para respeitar o mais fielmente poss\u00edvel o texto original, devemos saber parar na simples descri\u00e7\u00e3o, deixando ao leitor a tarefa de reconstituir o seu sentido por si s\u00f3, e \u00e0 sua maneira, a partir das imagens evocadas pelo conjunto das duas frases.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nA dimens\u00e3o imag\u00e9tica <\/b><b>e po\u00e9tica do texto original<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">O estudo cuidadoso dos caracteres que comp\u00f5em cada frase permitiu respeitar a dimens\u00e3o imag\u00e9tica e po\u00e9tica do texto original. Considere-se, por exemplo, a tradu\u00e7\u00e3o das primeiras frases do cap\u00edtulo 14:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><i>Olha-se e n\u00e3o se v\u00ea. Diz-se que \u00e9 raso.<br \/>\n<\/i><i>Escuta-se e n\u00e3o se ouve.<br \/>\n<\/i><i>Diz-se que \u00e9 raro.<br \/>\n<\/i><i>Agarra-se e n\u00e3o se prende.<br \/>\n<\/i><i>Diz-se que \u00e9 fino.<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Na tradu\u00e7\u00e3o portuguesa mais divulgada<sup>13<\/sup>, estas primeiras frases s\u00e3o traduzidas por \u00abOlhando-o, n\u00e3o se v\u00ea, chama-se-lhe o <i>invis\u00edvel,<\/i>\/ Escutando-o, n\u00e3o se ouve, chama-se-lhe o <i>inaud\u00edvel<\/i>.\/ Tocando-o, n\u00e3o se sente, chama-se- lhe o <i>impalp\u00e1vel.<\/i>\u00bb No entanto, os caracteres que foram traduzidos por <i>invis\u00edvel, inaud\u00edvel <\/i>e <i>impalp\u00e1vel <\/i>evocam imagens extremamente interessantes e po\u00e9ticas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s9\">O caracter que foi traduzido por <i>invis\u00edvel <\/i>(<\/span><span class=\"s10\">\u5937<\/span><span class=\"s9\">) \u00e9 composto pelos caracteres para pessoa (<\/span><span class=\"s10\"> \u4eba<\/span><span class=\"s9\">) e para arco ( <\/span><span class=\"s10\">\u5f13)<\/span><span class=\"s9\">, o que se deve ao facto de ele ter sido originariamente usado para designar os membros das antigas tribos b\u00e1rbaras que viviam a leste da China. Como os seus ataques eram destrutivos e arrasadores, este caracter passou tamb\u00e9m a ser usado com os significados de <i>eliminar <\/i>e <i>arrasar<\/i>. Mais tarde foram associados os significados de <i>liso, obscurecido <\/i>ou <i>invis\u00edvel<\/i>. O conhecimento destes factos tornou poss\u00edvel optar- se por <i>raso<\/i>, em vez de <i>invis\u00edvel<\/i>, o que transmite ao leitor portugu\u00eas a imagem po\u00e9tica evocada pela grafia e pela etimologia do caracter escolhido pelo autor. Passa-se o mesmo com o caracter que foi traduzido por <i>inaud\u00edvel <\/i>(<\/span><span class=\"s10\">\u5e0c<\/span><span class=\"s9\">), cuja grafia parece evocar um tecido ( <\/span><span class=\"s10\">\u5dfe<\/span><span class=\"s9\">) raro, com fibras entrela\u00e7adas, e que, embora possa significar <i>t\u00e9nue <\/i>ou <i>inaud\u00edvel<\/i>, \u00e9 tamb\u00e9m usado com o significado de <i>estranho, raro, espa\u00e7ado, breve<\/i>, ou de <i>fazer uma pausa, cessar, ir gradualmente parando ou tornar-se silencioso.<\/i> Quanto ao caracter traduzido por <i>impalp\u00e1vel <\/i>(<\/span><span class=\"s10\">\u5fae<\/span><span class=\"s9\">), cuja grafia parece evocar uma pessoa (<\/span><span class=\"s10\">\u4eba<\/span><span class=\"s9\">) numa estrada (<\/span><span class=\"s10\">\u5f73<\/span><span class=\"s9\">) batendo (<\/span><span class=\"s10\">\u6bb3<\/span><span class=\"s9\">) numa planta (<\/span><span class=\"s10\">\u5c71<\/span><span class=\"s9\">), para remover as suas fibras finas, o seu significado literal \u00e9 <i>pequeno, fino, diminuto, subtil, obscuro, oculto.<\/i><i><\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s9\">De facto, um tradutor que estude cuidadosamente o texto original e os aspectos semiol\u00f3gicos e etimol\u00f3gicos da sua linguagem, rapidamente se apercebe de que ele \u00e9 muito mais interessante e po\u00e9tico do que a grande maioria dos textos das tradu\u00e7\u00f5es existentes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><b><br \/>\nOs padr\u00f5es r\u00edtmicos <\/b><b>no texto original<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">O facto de se fazer a tradu\u00e7\u00e3o a partir do estudo mais cuidadoso do texto original, permite n\u00e3o s\u00f3 um maior respeito pela sua dimens\u00e3o po\u00e9tica como tamb\u00e9m pelo padr\u00e3o estil\u00edstico, sempre altamente r\u00edtmico, usado no encadeamento das frases de cada estrofe. Para tornar mais claros esses padr\u00f5es estil\u00edsticos, optou-se por apresentar o texto original chin\u00eas seccionado em linhas e, ao lado de cada linha de texto em portugu\u00eas, os caracteres chineses que lhe correspondem. Essa op\u00e7\u00e3o permite tamb\u00e9m ao leitor perceber claramente quais foram os caracteres que deram origem a cada frase em portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-622\" src=\"http:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/48-Traducao-Fig1-252x300.png\" alt=\"\" width=\"252\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/48-Traducao-Fig1-252x300.png 252w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/48-Traducao-Fig1.png 503w\" sizes=\"auto, (max-width: 252px) 100vw, 252px\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\">Na Figura 1, apresenta-se \u00e0 direita o texto original das primeiras duas estrofes do cap\u00edtulo 22, em colunas, e \u00e0 esquerda o texto seccionado, que torna mais \u00f3bvios os padr\u00f5es repetitivos no texto. Note-se que, como no chin\u00eas cl\u00e1ssico n\u00e3o existem sinais de pontua\u00e7\u00e3o, \u00e9 o padr\u00e3o repetitivo, que se detecta nos primeiros dezoito caracteres, que facilita a percep\u00e7\u00e3o de que o texto \u00e9 composto por seis frases, cada uma com tr\u00eas caracteres. Embora, em termos da literatura chinesa, o <i>Tao Te King <\/i>n\u00e3o seja considerado uma obra po\u00e9tica, esse padr\u00e3o repetitivo, que se destina essencialmente a facilitar a leitura e a memoriza\u00e7\u00e3o da obra, sugere imediatamente a um ocidental, por si s\u00f3, uma forma po\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Esta apresenta\u00e7\u00e3o torna tamb\u00e9m mais claro o facto de, nesta nova tradu\u00e7\u00e3o, ter havido o cuidado de respeitar a estrutura das frases do original. Note-se, por exemplo, que na referida tradu\u00e7\u00e3o portuguesa as primeiras seis frases deste cap\u00edtulo foram traduzidas por \u00abQuem se dobra permanecer\u00e1 inteiro,\/ Quem se inclina ser\u00e1 reerguido,\/ Quem est\u00e1 vazio ser\u00e1 repleto,\/ Quem estiver gasto ser\u00e1 renovado,\/ Quem pouco sabe ter\u00e1 conhecimento seguro,\/ Quem muito sabe ficar\u00e1 na d\u00favida\u00bb. Na presente tradu\u00e7\u00e3o procurou-se replicar em portugu\u00eas a estrutura de cada uma das frases do texto original, composta por apenas tr\u00eas caracteres (&lt;dobrar&gt; &lt;ent\u00e3o&gt; &lt;intacto&gt;, &lt;torcer&gt; &lt;ent\u00e3o&gt; &lt;direito&gt;, etc.), e onde o caracter do meio \u00e9 sempre o mesmo:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><i><br \/>\nSe dobra, ficar\u00e1 intacto.<br \/>\n<\/i><i>Se torce, ficar\u00e1 direito<br \/>\n<\/i><i>Se \u00e9 oco, ficar\u00e1 cheio<br \/>\n<\/i><i>Se foi gasto, ser\u00e1 renovado.<br \/>\n<\/i><i>Se \u00e9 pouco, ser\u00e1 obtido.<br \/>\n<\/i><i>Se \u00e9 demasiado, ser\u00e1 suspeito.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Para al\u00e9m do facto de ter havido uma escolha mais criteriosa das palavras usadas, muito importante para contribuir para a sua legibilidade po\u00e9tica, n\u00e3o se acrescentou \u00abquem\u00bb ou \u00abaquele que\u00bb, respeitando o facto de nessas seis frases n\u00e3o estar impl\u00edcita ainda nenhuma atitude comportamental humana. S\u00f3 na sec\u00e7\u00e3o seguinte se diz ser essa a raz\u00e3o pela qual quem \u00e9 s\u00e1bio n\u00e3o se exibe, n\u00e3o \u00e9 arrogante, nem se acha sempre certo. E, como j\u00e1 foi referido, isso \u00e9 claramente propositado, destinando-se a exigir do leitor o esfor\u00e7o de estabelecer a rela\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica entre a sec\u00e7\u00e3o inicial, que neste caso parece apenas descrever o que acontece a um objecto flex\u00edvel ou oco, e a que se lhe segue, onde se fala do comportamento de uma pessoa s\u00e1bia.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O respeito pelo padr\u00e3o estil\u00edstico original exigiu um estudo especialmente cuidado em v\u00e1rias passagens mais problem\u00e1ticas. Um exemplo disso \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o das oito frases do cap\u00edtulo 71:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p17\"><i>Saber n\u00e3o sabendo \u00e9 o melhor.<br \/>\n<\/i><i>Ignorar o saber \u00e9 uma doen\u00e7a.<br \/>\n<\/i><i>Mas s\u00f3 adoecendo da doen\u00e7a<br \/>\n<\/i><i>se deixa de estar doente.<br \/>\n<\/i><i>Quem \u00e9 s\u00e1bio n\u00e3o est\u00e1 doente<br \/>\n<\/i><i>por ter adoecido da doen\u00e7a.<br \/>\n<\/i><i>S\u00f3 esse adoecer da doen\u00e7a fez<br \/>\n<\/i><i>com que n\u00e3o esteja doente.<\/i><\/p>\n<p class=\"p10\">\u77e5\u4e0d\u77e5\u4e0a<br \/>\n\u4e0d\u77e5\u77e5\u75c5<br \/>\n\u592b\u552f\u75c5\u75c5<br \/>\n\u662f\u4ee5\u4e0d\u75c5<\/p>\n<p class=\"p10\">\u8056\u4eba\u4e0d\u75c5<br \/>\n\u4ee5\u5176\u75c5\u75c5<br \/>\n\u592b\u552f\u75c5\u75c5<br \/>\n\u662f\u4ee5\u4e0d\u75c5<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p3\">Note-se que o estilo do texto original, que usa repetidamente o caracter <span class=\"s12\">\u75c5<\/span><span class=\"s11\">, <\/span>cuja grafia representa um doente <span class=\"s11\">(<\/span><span class=\"s12\">\u4e19<\/span><span class=\"s11\">) <\/span>deitado numa cama<span class=\"s11\"> (<\/span><span class=\"s12\">\u723f<\/span><span class=\"s11\">) <\/span>e que pode significar <i>doen\u00e7a, defeito, falha <\/i>ou<i> adoecer<\/i>, \u00e9 totalmente respeitado no texto traduzido<span class=\"s11\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Na tradu\u00e7\u00e3o portuguesa acima citada, em que se optou por traduzir esse caracter por <i>erro<\/i>, as quatro \u00faltimas frases foram traduzidas por \u00abO santo n\u00e3o comete nenhum erro\/ Porque toma consci\u00eancia deles,\/ Eis porque evita todos os erros.\u00bb Como n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar uma tradu\u00e7\u00e3o do texto que soe bem e fa\u00e7a sentido em portugu\u00eas, em vez de procurar seguir o mais literalmente poss\u00edvel o texto original, o tradutor substituiu-o por duas frases \u2014 claramente influenciadas pelo pensamento confuciano \u2014 que afirmam que quem \u00e9 s\u00e1bio n\u00e3o comete nenhum erro, por tomar consci\u00eancia deles. Contudo, o texto original recomenda o esquecimento consciente do que se aprendeu. A dificuldade de interpreta\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo prende-se com o facto de nele se usar um estilo paradoxal, t\u00edpico da filosofia taoista, para apresentar o conceito de <i>saber sem saber<\/i>, ou seja, um saber essencialmente inconsciente. Quando um passo do texto \u00e9 de mais dif\u00edcil interpreta\u00e7\u00e3o, verifica-se que muitos tradutores optam por traduzir, em vez dele, o coment\u00e1rio de algum antigo erudito chin\u00eas que o procurou explicar. No entanto, \u00e9 prefer\u00edvel ficar-se apenas pelo que nele se descreve, sem o ultrapassar, evitando conclus\u00f5es precipitadas, porque as interpreta\u00e7\u00f5es erradas s\u00e3o precisamente as mais f\u00e1ceis de encontrar.<\/p>\n<p class=\"p3\">Um exemplo disso mesmo \u00e9 a frase <span class=\"s5\">\u5343\u91cc\u4e4b\u884c\u59cb\u65bc\u8db3\u4e0b<\/span>, que ocorre no cap\u00edtulo 64 e que \u00e9 geralmente traduzida por \u00abUma viagem de mil l\u00e9guas come\u00e7a por um s\u00f3 passo.\u00bb De facto, os dois \u00faltimos caracteres, que foram traduzidos por \u00abum s\u00f3 passo\u00bb, significam <i>p\u00e9 <\/i>e <i>debaixo<\/i>. Por isso, em conjunto, referem-se ao que est\u00e1 <i>debaixo do p\u00e9 <\/i>ou \u00e0 <i>parte de baixo do p\u00e9<\/i>. Ou seja, o que se diz \u00e9 que \u00abUma viagem de mil l\u00e9guas come\u00e7a debaixo dos nossos p\u00e9s\u00bb ou, alternativamente, que \u00abUma viagem de mil l\u00e9guas come\u00e7a na planta dos p\u00e9s\u00bb. Traduzida assim, a frase n\u00e3o transmite a ideia de que cada viagem come\u00e7a no primeiro passo mas sim de que cada ac\u00e7\u00e3o come\u00e7a \u00abantes de come\u00e7ar\u00bb, ou seja, de que devemos dedicar muita aten\u00e7\u00e3o aos momentos que antecedem o primeiro passo, e que cada ac\u00e7\u00e3o deve surgir tranquila e naturalmente a partir da inac\u00e7\u00e3o que a antecede. Como se v\u00ea, o modo como esta frase \u00e9 usualmente traduzida, e que eventualmente soar\u00e1 melhor a um leitor ocidental, elimina a possibilidade desta interpreta\u00e7\u00e3o do texto original. E, se se considerar que a sua tradu\u00e7\u00e3o literal resulta mais estranha ou enigm\u00e1tica, esta nova op\u00e7\u00e3o estar\u00e1 por certo mais pr\u00f3xima da inten\u00e7\u00e3o do seu autor, contribuindo para que o leitor, empenhado na sua compreens\u00e3o, seja for\u00e7ado a olhar o mundo por um \u00e2ngulo fora do comum.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">\u00c9 muito importante preservar numa tradu\u00e7\u00e3o do <i>Tao Te King <\/i>o estilo misterioso e paradoxal usado originalmente, que corresponde a uma esp\u00e9cie de<i> falar sem falar <\/i>que convida o leitor a transcender o significado imediato das palavras utilizadas. H\u00e1 uma grande variedade de tradu\u00e7\u00f5es, muitas delas feitas com base noutras tradu\u00e7\u00f5es, que apresentam erros originados na falta de conhecimento sinol\u00f3gico. Mas, geralmente, o seu principal defeito \u00e9 o de n\u00e3o preservarem tra\u00e7os evocadores do estilo do texto de partida, que \u00e9 claramente indissoci\u00e1vel do objectivo do seu ou seus autores. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______<\/p>\n<p class=\"p20\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">LAO TSE, Tao Te King \u2014 Livro do Caminho e do Bom Caminhar, tradu\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios de Ant\u00f3nio Miguel de Campos, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua Editores, 2010.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">GRAHAM, Angus C. Witter Bynner\u2019s version of Lau Tzu, in A Companion to Angus C. Graham\u2019s Chuang Tzu, Harold D Roth ed., University of Hawai\u2019i Press, Honolulu, 2003.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">BILLETER, Jean-Fran\u00e7ois, Le\u00e7ons sur Tchouang-Tseu, \u00c9ditions Allia, Paris, 2002.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">LAO TSE, Tao Te King, tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Ant\u00f3nio Melo, 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Editorial Estampa, Ltd., 1996.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">GRANET, Marcel, \u201cQuelques particularit\u00e9s de la langue et de la pens\u00e9e chinoises\u201d, in Essais sociologiques sur la Chine, Presses universitaires de France, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Paris, 1990.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\"><b>Notas<\/b><b><\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">1 Lao Tse, Tao Te King \u2014 Livro do Caminho e do Bom Caminhar, tradu\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios de Ant\u00f3nio Miguel de Campos, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua Editores, 2010.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">2 \u00ab<\/span><span class=\"s14\">\u7f8e\u6210\u5728\u4e45<\/span><span class=\"s3\">\u00bb,<\/span><span class=\"s14\"> \u838a\u5b50 <\/span><span class=\"s3\">(Chuang Tse), IV,3.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">3 \u00abNichts erreicht, wenn sie es nicht lento erreicht\u00bb, Friedrich Nietzsche, Prel\u00fadio de \u201cMorgenr\u00f6te\u201d, in Werke in Drei Banden, Munich, Hanser, 1973, vol. 1, p. 1016.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">4 Embora a maioria dos linguistas insistam que se deve escrever e pronunciar o singular de caracteres como car\u00e1cter, prefiro usar a forma caracter pois \u00e9 assim que o pronuncio, n\u00e3o gostando da grafia caractere, usada no portugu\u00eas do Brasil.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">5 Cf. \u00abUn po\u00e8me est un myst\u00e8re dont le lecteur doit chercher la clef\u00bb, St\u00e9phane Mallarm\u00e9, in Enqu\u00eate sur l\u2019\u00e9volution litt\u00e9raire, Jules Huret ed., Biblioth\u00e8que-Charpentier, 1891, pp. 55-65.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">6 \u00ab<\/span><span class=\"s14\">\u8a00\u8005\u6240\u4ee5\u5728\u610f\u5f97\u610f\u800c\u5fd8\u8a00<\/span><span class=\"s3\">\u00bb, <\/span><span class=\"s14\">\u838a\u5b50<\/span><span class=\"s3\"> (Chuang Tse), XXVI, 11.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">7 A. C. Graham, \u201cWitter Bynner\u2019s version of Lau Tzu\u201d, in A Companion to Angus C. Graham\u2019s Chuang Tzu, Harold D Roth ed., University of Hawai\u2019i Press, Honolulu, 2003, p. 135.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">8 Ibid., p. 134-135.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">9 Respectivamente, os caracteres<\/span><span class=\"s14\"> \u99d4, \u9a20, \u99d8, \u9a4f, \u9a56, \u9a54, \u99f9<\/span><span class=\"s3\"> e <\/span><span class=\"s14\">\u96d2<\/span><span class=\"s3\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">10 O gloss\u00e1rio completo est\u00e1 dispon\u00edvel em http:\/\/pt.scribd.com\/doc\/46396700\/Glossario-Tao-Te-King.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">11 Marcel Granet, \u201cQuelques particularit\u00e9s de la langue et de la pens\u00e9e chinoises\u201d, in Essais sociologiques sur la Chine, Presses universitaires de France, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Paris, Abril 1990, pp.45-46.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">12 Cf. \u00abCe n\u2019est pas avec des id\u00e9es qu\u2019on fait des vers, c\u2019est avec des mots\u00bb, St\u00e9phane Mallarm\u00e9, in Psychologie de l\u2019art, Henri Delacroix ed., Presses Universitaires de France, 1927.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">13 Lao Tse, Tao Te King, tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Ant\u00f3nio Melo, 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1996, Editorial Estampa, Ltd.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">14 Vers\u00e3o encontrada em 1993, num t\u00famulo datado do per\u00edodo de meados do s\u00e9culo IV ao in\u00edcio do s\u00e9culo III a.C. em Guodian, China.<\/span><\/p>\n<p class=\"p21\"><span class=\"s3\">15 Foto apresentada no artigo de Andrea Shen intitulado \u201cAncient script rewrites history: \u2018This is like the discovery of the Dead Sea Scrolls\u2019\u201d, Harvard University Gazette, Fevereiro, 2001.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Nestas notas apresenta-se a metodologia seguida na elabora\u00e7\u00e3o de uma nova tradu\u00e7\u00e3o portuguesa1 do Tao Te King, um texto filos\u00f3fico relativamente curto, com pouco mais de 5000 caracteres, que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 sido escrito por volta do s\u00e9culo VI a.C. por um fil\u00f3sofo conhecido por Lao Tse. 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