{"id":628,"date":"2025-09-24T23:51:54","date_gmt":"2025-09-24T15:51:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=628"},"modified":"2025-09-24T23:51:54","modified_gmt":"2025-09-24T15:51:54","slug":"sobre-o-imortal-do-sul-da-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/24\/sobre-o-imortal-do-sul-da-china\/","title":{"rendered":"Sobre O imortal do Sul da China"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>I.<\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Um dia destes, tomei coragem para arrumar a biblioteca. Os livros tinham se acumulado sobre o ch\u00e3o, pilhas e pilhas e pilhas. Notei que havia umas brechas nas prateleiras mais pr\u00f3ximas \u00e0 janela e mais rentes ao teto. Repassando os t\u00edtulos nas lombadas, percebi que os livros n\u00e3o eram coisas inanimadas, mas um tipo de amigo, portadores de expectativas, experi\u00eancias e emo\u00e7\u00f5es que gostaria de ver compartilhadas. Al\u00e9m de acomodar os volumes mais recentes, ou seja, amigos mais pr\u00f3ximos de quem sou hoje, aproveitei para reorganizar algumas divis\u00f5es, j\u00e1 canonizadas pelo desuso. Isso me deu uma certa ang\u00fastia, parecida com a de ter de ir a um lugar que deixara de ir e acabar revendo uma pessoa que n\u00e3o necessariamente queria rever. Cada prateleira acumula at\u00e9 tr\u00eas fileiras de livros, que est\u00e3o l\u00e1 como tr\u00eas camadas de mem\u00f3ria(s). A minha inten\u00e7\u00e3o original era a de que, quanto mais no fundo, menos esquec\u00edveis deveriam ser os textos. Mas o tempo \u00e9 implac\u00e1vel. Retirando os volumes maiores, revia velhas amizades que desbotaram pelo estranhamento, at\u00e9 que se lhes agarrou uma brochurinha partida ao meio, as capas soltas, a lombada machucada pelo abandono (e pelo <\/i>pouco uso que se perdeu pelas d\u00e9cadas). Era <i>a\u00a0Via de Chuang Tzu, uma retradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas da tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do Padre Merton, um monge trapista e fil\u00f3sofo americano que se encantara com aquele (monge? Fil\u00f3sofo?) chin\u00eas do final do s\u00e9culo IV antes de Cristo. Com as m\u00e3os grossas de p\u00f3 e poeira e fuligem, aparo a capa que cai, revelando uma assinatura ideogr\u00e1fica e uma data cujo significado nada despertava em mim.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>II.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\"><i>Um menino buchudo de cabelos encaracolados, queimados pelo \u00e1lcool do perfume que a m\u00e3e lhe derramava teimosamente sobre a cabe\u00e7a, entra no \u201cquarto de despejo\u201d, rec\u00e9m-constru\u00eddo nos fundos da casinha do conjunto habitacional Mirassol, situada no n\u00famero 649, parte baixa da ladeira da rua das Violetas em Natal, Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil, um pa\u00eds grande, mas muito estranho, da Am\u00e9rica Latina. Ia ali porque no \u201cquarto de despejo\u201d o pai do menino havia despejado alguns livros que comprara no embalo de sua mais nova mania, a de atentar para \u201ccoisas do Oriente\u201d. Praticava ioga, comia vegetariano e fazia outras coisas que o menino n\u00e3o entendia, mas tinha uma curiosidade n\u00e3o correspondida, exagero, mal correspondida. Havia livros sobre medita\u00e7\u00e3o, Sunzi, karat\u00ea, macrobi\u00f3tica, Osho, samurais, medicina herbal e tudo o mais que voc\u00ea conseguir imaginar. Tamb\u00e9m havia um livrinho, cento e poucas p\u00e1ginas, a capa lustrosa em tr\u00eas cores, com um nome engra\u00e7ado que aquele dentu\u00e7o baixinho n\u00e3o sabia pronunciar. Abriu-o para procurar ilustra\u00e7\u00f5es, mas a frustra\u00e7\u00e3o n\u00e3o o impediu de ir adiante e ler uma ou outra coisa.\u00a0<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>III.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s2\"><i>Um viajante chega de Bras\u00edlia a China para participar de um minicurso, ao todo quase duas semanas pela frente.\u00a0 Tinha uma tarde livre. Como us\u00e1-la?\u00a0 Pensou quero ir ver um templo daoista. Tinha um ali, perto do alojamento. Uns poucos iuanes de t\u00e1xi. Era um dia bonito em maio, nem frio, nem quente. O c\u00e9u estava azul cobalto, o sol brilhava branco. Chegou ao \u201cpai-iuin-qu\u00e3\u2019, \u201cTemplo da Nuvem Branca\u201d. Famoso das hist\u00f3rias de algu\u00e9m que peregrinou pelo mundo para ver o grande Khan. O tempo n\u00e3o parara. Havia alguns turistas, poucos, chineses, tirando fotos. O ch\u00e3o era mais antigo, os pr\u00e9dios pareciam ter sido renovados h\u00e1 algumas d\u00e9cadas; observava alguns cartazes explicativos, s\u00f3 entendendo, mal e mal, o que estava num arremedo de ingl\u00eas. De repente ouve distante uma m\u00fasica de tubos, c\u00edmbalos, uma percuss\u00e3o mon\u00f3tona, um canto que lhe parecia ladainha de algu\u00e9m hipnotizado. Nuvens de incenso sopravam pregui\u00e7osas do Oeste para o Leste. O viajante caminha pelo labirinto de espa\u00e7os menores, retangulares, em que o templo se dividia, passando por toda a sorte de capelas com est\u00e1tuas ou espa\u00e7os privados dos monges, at\u00e9 que um longo varal abana pesado de mantos e cal\u00e7as, cobrindo o que restava do templo \u2013 um galp\u00e3o de zinco e um pequeno santu\u00e1rio. Um casal prostrava-se sobre duas almofadas, enquanto um monge dan\u00e7ava desengon\u00e7ado \u00e0 frente deles, segurando tiras de papel.<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>IV.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Um p\u00f3s-adolescente trint\u00e3o sai do metr\u00f4, esta\u00e7\u00e3o Nanlishilu, parte Oeste de Pequim. Nervoso. Anda em dire\u00e7\u00e3o o \u201cTemplo da Nuvem Branca\u201d, sem saber mais ou menos onde est\u00e1. Enxerga uma placa sobre os trilhos de um bonde que parece n\u00e3o passar mais por ali. Est\u00e1 perdido. Pergunta a um eventual passante, que lhe indica o caminho. Entra por uma entrada mais ou menos dilapidada, v\u00ea o alto portal de madeira, secularmente de p\u00e9, que n\u00e3o sa\u00fada a ningu\u00e9m, vangloriosamente. Aborda-lhe uma grande autoridade, o seguran\u00e7a, que \u00e9 o dono das chaves. Temendo n\u00e3o ser compreendido, diz umas coisas enquanto inspeciona com mil olhos o hirsuto invasor b\u00e1rbaro que ousara interromper a sua terceira (ou quarta) sesta naquele dia. N\u00e3o o dissuade de entrar, contudo, despedindo-o com um abanar de cabe\u00e7a e um riso sem-jeito. O visitante apressou-se: O que fora fazer ali? Esperava talvez que um dos mestres aparecesse do vazio, acariciando a barba, dizendo que tinha potencial para ver al\u00e9m do tempo e do espa\u00e7o, para voar para onde quisesse e para viver para sempre \u2013 como num daqueles filmes de Hong Kong, vestido em roupas de rayon e uma peruca grosseira? Passa por pessoas que se parecem muito com aquele mestre de sua imagina\u00e7\u00e3o. Um deles tinha uma imensa barriga redonda, que tomava sol desavergonhada, sob as car\u00edcias de uma m\u00e3o grosseira com unhas extraordinariamente longas e sujas. Chega \u00e0s portas da cela assinalada. Bate duas vezes.\u00a0 Um rosto imberbe, de tra\u00e7os delicados, o recebe com um calor frio.\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>V.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Era um jovem loiro, um perfeito s\u00f3sia de Rasputin, que viera de Bucareste para a China h\u00e1 muitos anos. Gostava de esoterismo, sabia interpretar o tar\u00f4 e arruinara seus joelhos treinando kung-fu. Desgostava-lhe a vida em casa e tinha mergulhado nos mist\u00e9rios do \u201cOriente\u201d. Vivera no Tibete \u2013 na verdade, na prov\u00edncia de Qinghai, parte do Reino Tibetano da Antiguidade \u2013 e tinha vivenciado muitos prod\u00edgios. Tornara-se bom amigo de Ioi\u00f4, um colega de mestrado que chegara do Brasil h\u00e1 v\u00e1rios anos. Ambos iam visitar um mestre daoista que havia abandonado a vida mon\u00e1stica. Passara a ganhar a vida fazendo c\u00edtaras Qin, apelidadas \u201cQin de Trov\u00e3o\u201d, pois eram moldadas de troncos derrubados por raios. Contam as lendas que esses Qin, sob as m\u00e3os certas, fazem chover e curam doen\u00e7as. O mestre estava bem de vida, portanto algumas pessoas deveriam ter sido curadas de c\u00e2ncer e, quem sabe, um deserto deve ter virado mar. O encontro foi divertido, pois l\u00e1 estava um outro mestre, que acabara de receber muita cobertura jornal\u00edstica. Havia passado 50 dias sem comer, preso numa gaiola de vidro \u2013 um hamster do Dao.\u00a0 Miraculosamente, continuava roli\u00e7o ap\u00f3s tanto tempo de priva\u00e7\u00e3o. Praticava, com sucesso evidente, a t\u00e9cnica conhecida como \u201cJejum dos Gr\u00e3os\u201d. Durante os cinquenta dias, al\u00e9m de ter sido bem fotografado e filmado, esculpiu pe\u00e7as abstratas, que tinham por caracter\u00edstica, todas, terem um orif\u00edcio no meio. Disse que eram produto do \u201cDao\u201d, j\u00e1 que o orif\u00edcio \u201ca tudo permeia\u201d, \u201c\u00e9 a unidade al\u00e9m da diversidade\u201d, \u201c\u00e9 o vazio que d\u00e1 sentido \u00e0s coisas\u201d \u2013 cita\u00e7\u00f5es de Laozi aplicadas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VI<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Um e-mail chegou identificado com o assunto: nota de falecimento do mestre (\u2026). A equipe do templo em Barcelona publicara um obitu\u00e1rio. O mestre morreu, melhor, \u201cganhou asas\u201d repentinamente. Ainda falava em organizar tal ou qual evento, louvava o belo jardim que preparava para gozar a sua aposentadoria, al\u00e9m de coisas menos mundanas \u2013 com menos frequ\u00eancia. O e-mail explicava que numa quest\u00e3o de dias, come\u00e7ou a vomitar ininterruptamente, reclamando de um arder no corpo, como fogo. \u00c0s vezes parecia ter vis\u00f5es, ou alucina\u00e7\u00f5es. Em momentos de lucidez, tinha um semblante esperan\u00e7oso. Dizia-se ir rever o mestre, e o mestre do mestre\u2026 no Pouso dos Imortais.\u00a0 O tempo.<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>VII.<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p2\">?<\/p>\n<p class=\"p4\">****<\/p>\n<p class=\"p5\">N<span class=\"s3\">o livro<\/span>, \u201ch\u00e1 ensinamentos, sem esfor\u00e7o did\u00e1tico; \u00e9 preciso interpretar, mas as conclus\u00f5es est\u00e3o fora das hist\u00f3rias\u201d. As sete vinhetas acima pretendem descrever uma experi\u00eancia pessoal do Daoismo, uma das mais importantes tradi\u00e7\u00f5es intelectuais e espirituais da China, atrav\u00e9s de epis\u00f3dios aparentemente independentes e compartimentalizados. \u00c9 not\u00e1vel que, em vez de utilizar um estilo narrativo a que estamos habituados em nossa tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, imitei conscientemente o tipo de texto que encontramos no original chin\u00eas da obra <span class=\"s4\">\u838a\u5b50<\/span>, comumente referida como\u00a0Livro do mestre Zhuang\u00a0ou, singelamente,\u00a0Zhuangzi. Com essa brincadeira meio s\u00e9ria, desejo dar uma primeira impress\u00e3o do que \u00e9 ler o\u00a0Zhuangzi\u00a0em chin\u00eas e problematizar o que fiz em minha tradu\u00e7\u00e3o-coment\u00e1rio dessa obra para o portugu\u00eas. Antes de mais nada, o leitor das vinhetas deve ter se dado conta, imediatamente, de que esse tipo de estilo liter\u00e1rio e de estrutura narrativa cria in\u00fameras possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o e conduzem a in\u00fameras possibilidades de se reagir ao que o(s) texto(s) parece(m) sugerir.<\/p>\n<p class=\"p2\">Muitas dessas possibilidades s\u00e3o falsas, pois conduzem a um entendimento culturalmente errado do texto.\u00a0 \u201cCulturalmente errado\u201d significa tratar do texto de uma maneira diferente daquela que os destinat\u00e1rios aut\u00eanticos (os leitores chineses, especialmente os do per\u00edodo imperial, que come\u00e7ou no s\u00e9culo III a.C. e terminou em 1911) tratam ou podem tratar dele. Ou seja, em minha forma de ver, o sentido \u201cuniversal\u201d da obra deve ser buscado dessa experi\u00eancia particular. \u00c9 preciso, consequentemente, submeter a obra a um tipo de enquadramento. Logo, para enquadrar a nossa discuss\u00e3o, vamos tentar compreender a import\u00e2ncia do t\u00edtulo que escolhi para a tradu\u00e7\u00e3o. O original chin\u00eas possui dois tipos de t\u00edtulo, que refletem duas atitudes b\u00e1sicas sobre a obra.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Como disse, \u00e9 mais comum chamarmos\u00a0Livro do mestre Zhuang\u00a0ou\u00a0Zhuangzi \u2013\u00a0o Chuang Tzu de Merton. Na verdade, esse n\u00e3o foi um t\u00edtulo escolhido pelo \u201cautor\u201d da obra, mas uma mera atribui\u00e7\u00e3o de autoria, feita pela posteridade, segundo um padr\u00e3o comum na hist\u00f3ria das ideias chinesas.\u00a0 Por exemplo, a obra de Mozi, patrono do Mo\u00edsmo, \u00e9 chamada de\u00a0Mozi; a obra de Xunzi, um influente pensador confuciano, \u00e9 chamada de\u00a0Xunzi; a obra de Han Feizi, o maior representante do \u201clegalismo\u201d, \u00e9 chamada de\u00a0Han Feizi. Quem utiliza essa denomina\u00e7\u00e3o assume que a obra \u00e9 parte da chamada\u00a0Literatura dos Mestres, o corpus de textos compilados sob a autoridade de pensadores de renome, l\u00edderes de comunidades que competiam entre si para obter prest\u00edgio e patroc\u00ednio pol\u00edtico.\u00a0 Consequentemente, o t\u00edtulo\u00a0Zhuangzi\u00a0classifica os textos de Zhuang Zhou (369-286 a.C.) \u2013 o mestre Zhuang, de seus disc\u00edpulos e um conjunto de outros autores, f\u00e3s ou cr\u00edticos de Zhuang Zhou, como parte desse movimento dos mestres. Isso \u00e9 relevante porque Zhuangzi passa a ser enquadrado como um caminho entre v\u00e1rios no que se refere a quest\u00f5es de interesse comum para o pensamento chin\u00eas, por exemplo como se cultivar intelectualmente, de que maneira se comportar em sociedade, de que forma buscar a perfei\u00e7\u00e3o moral etc. Isso faz com que o\u00a0Zhuangzi\u00a0seja facilmente definido como (mais) uma obra de \u201cfilosofia\u201d, pelas reconhecidas semelhan\u00e7as de forma e conte\u00fado com essa por\u00e7\u00e3o de nossa experi\u00eancia cultural.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel chamar a este livro de <span class=\"s4\">\u5357\u83ef\u771f\u7d93<\/span>, o t\u00edtulo que a tradi\u00e7\u00e3o religiosa dao\u00edsta atribuiu ao\u00a0Zhuangzi, por honr\u00e1-lo como uma escritura sagrada.\u00a0 Mais do que para apelar melhor aos olhos do leitor, foi esse enquadramento que me levou a adotar a tradu\u00e7\u00e3o semiliteral de\u00a0O imortal do Sul da China. O sin\u00f3logo alem\u00e3o Richard Wilhelm j\u00e1 havia partido desse segundo t\u00edtulo chin\u00eas, traduzindo-o como\u00a0O Livro Verdadeiro das Terras Floridas do Sul\u00a0(1920). As \u201cTerras floridas do Sul\u201d de Wilhelm s\u00e3o uma leitura po\u00e9tica de \u201cSul da China\u201d, pois uma das palavras cl\u00e1ssicas para China \u00e9 <span class=\"s4\">\u83ef<\/span>, que significa \u201cflor que acaba de desabrochar\u201d. O \u201cVerdadeiro\u201d, a que Wilhelm se refere com seu t\u00edtulo, qualifica o livro, sem d\u00favida, mas tamb\u00e9m remete a um tipo de ideal de exist\u00eancia, realizada pelo \u201cautor\u201d desse livro: \u201cHomem Verdadeiro\u201d \u00e9 um jarg\u00e3o do dao\u00edsmo, cujo sentido \u00e9 basicamente o mesmo que \u201cImortal\u201d. Os \u201cimortais\u201d daoistas s\u00e3o todos os grandes mestres que d\u00e3o subst\u00e2ncia ao pensamento e pr\u00e1ticas relacionadas \u00e0 essa doutrina, purificando seu corpo e prolongando sua exist\u00eancia, o que exige realiza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m nos planos de sabedoria e de espiritualidade. Portanto, a minha escolha do t\u00edtulo destaca esta vis\u00e3o espec\u00edfica e culturalmente referida da obra:\u00a0 \u00e9 mais do que um texto cl\u00e1ssico de \u201cfilosofia\u201d chinesa, pois, em vez de ser tolhido por um esquema\/sistema intelectual pr\u00e9vio, presume uma mentalidade e concep\u00e7\u00f5es de vida profundamente diferentes das nossas. Exige uma explica\u00e7\u00e3o hol\u00edstica, um esfor\u00e7o de tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas textual, mas tamb\u00e9m cultural.<\/p>\n<p class=\"p2\">Agora que esbo\u00e7amos um enquadramento, retornemos \u00e0s sete vinhetas para falar das caracter\u00edsticas liter\u00e1rias do\u00a0Imortal. A quase totalidade dos textos recolhidos no original chin\u00eas possui uma extens\u00e3o compar\u00e1vel (ou inferior) \u00e0 das vinhetas. A grande maioria consiste em breves narrativas em que se destacam di\u00e1logos curtos. Uma quantidade consider\u00e1vel s\u00e3o \u201censaios\u201d ou \u201caforismas\u201d: discursos feitos por Zhuang Zhou ou a ele atribu\u00eddos. Tal como nas sete vinhetas, h\u00e1 fatos, h\u00e1 conceitos, h\u00e1 ensinamentos, sem que nunca haja um esfor\u00e7o did\u00e1tico de apresentar algo; \u00e9 preciso interpretar, mas as conclus\u00f5es est\u00e3o fora das hist\u00f3rias; h\u00e1 quem afirme haver um \u201csistema\u201d, mas no texto s\u00f3 restam experi\u00eancias em toda a sua singeleza, emo\u00e7\u00f5es nuas. Por esse motivo, quem folheia uma tradu\u00e7\u00e3o literal do\u00a0Imortal\u00a0pela primeira vez descobre no m\u00e1ximo umas poucas est\u00f3rias interessantes ou memor\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00c9 mais prov\u00e1vel, entretanto, que se desista de ler ap\u00f3s se surpreender com a total falta de coer\u00eancia entre est\u00f3ria e est\u00f3ria, entre cap\u00edtulo e cap\u00edtulo. O que causa estranheza ao leitor ocidental, por\u00e9m, conforma-se aos h\u00e1bitos intelectuais dos leitores chineses antigos. Eles n\u00e3o estavam interessados no que a obra \u201cqueria dizer\u201d como um todo \u2013 o que \u00e9 demasiado importante para n\u00f3s \u2013 mas apenas em certos ensinamentos ou\u00a0insights\u00a0que pudessem ser postos em pr\u00e1tica ou servir de guia para a \u201csabedoria\u201d.\u00a0 O dao\u00edsmo, em conson\u00e2ncia com a atitude geral chinesa, admite que cada leitor depreenda o significado de um texto \u201cconforme a sua capacidade de intuir o que transcende \u00e0s palavras\u201d, ou seja, o significado da obra em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 algo imaterial, contingente a quem a l\u00ea.\u00a0 Este \u00e9 o grande desafio de traduzir, n\u00e3o s\u00f3 o\u00a0Imortal, mas qualquer obra do pensamento chin\u00eas para qualquer l\u00edngua ocidental.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Tomando o exemplo do\u00a0Imortal, tento enfrentar esse desafio em dois planos: das unidades menores (os textos singulares) e das unidades maiores (cap\u00edtulos e obra como um todo).<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Em primeiro lugar, esfor\u00e7o-me para providenciar material adicional, para que o leitor consiga adumbrar para si um contexto aut\u00eantico, gabaritando-se a ler a obra de uma forma mais pr\u00f3xima do leitor original.\u00a0 Ao longo da era imperial chinesa, alguns dos melhores leitores escreveram-lhe coment\u00e1rios, parte dos quais foram integradas ao texto do\u00a0Imortal, servindo-nos, no m\u00ednimo, como guias de leitura, no m\u00e1ximo, como explica\u00e7\u00f5es\/interpreta\u00e7\u00f5es dotadas de autoridade. Uma tradu\u00e7\u00e3o culturalmente fiel exige que esses conte\u00fados tamb\u00e9m apare\u00e7am de alguma forma, em alguma altura do volume. Isso serve de justificativa para que em meus trabalhos eu acrescente esses coment\u00e1rios\u00a0verbatim, e\/ou elabore notas, e\/ou componha coment\u00e1rios, e\/ou, (como fiz desta vez no\u00a0Imortal,) enxerte material e trabalhe literariamente o pr\u00f3prio texto principal \u2013 flexibilizando o princ\u00edpio fundamental de fidelidade ao original. Apesar dos riscos, quem compara a minha tradu\u00e7\u00e3o-coment\u00e1rio do\u00a0Imortal\u00a0com qualquer outra feita segundo as concep\u00e7\u00f5es tradicionais percebe que consigo oferecer uma leitura mais redonda, pois agrego uma interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica e fiel \u00e0(s) leitura(s)-padr\u00e3o chinesa(s).<\/p>\n<p class=\"p2\">Em segundo lugar, especialmente no caso do\u00a0Imortal, preocupei-me tamb\u00e9m com o problema do todo, da interpreta\u00e7\u00e3o geral do texto. \u00c0 maneira das vinhetas que escrevi no in\u00edcio deste texto, eu entendo que as est\u00f3rias e ensaios de Zhuang Zhou s\u00e3o apenas aparentemente desconectadas. Em minha leitura, admito a exist\u00eancia de um ligame invis\u00edvel que d\u00e1 coer\u00eancia geral \u00e0 obra. Esse ligame, em meu entender, j\u00e1 tinha sido destacado pelo processo de edi\u00e7\u00e3o do texto, que coligiu as diferentes est\u00f3rias em sete divis\u00f5es que interpreto\/traduzo como sete cap\u00edtulos tem\u00e1ticos. Meu argumento \u00e9 o que sugeri nas sete vinhetas que abrem este ensaio: \u00e9 f\u00e1cil percebermos que h\u00e1 uma trajet\u00f3ria existencial, motivada pela viv\u00eancia no dao\u00edsmo. Idem para o\u00a0Imortal, embora, obviamente, seja algo bem mais rico e consistente do que as vinhetas, pois n\u00e3o se trata de algu\u00e9m que ainda est\u00e1 em busca, mas de algu\u00e9m que certamente encontrou \u201calguma coisa\u201d\u2026 dentre muitos fracassos e desilus\u00f5es. Diferentemente das vinhetas, Zhuang Zhou inicia seu texto n\u00e3o com a reminisc\u00eancia de uma descoberta, mas com a dramatiza\u00e7\u00e3o dum ideal que construiu. Ele n\u00e3o refere, passo a passo, como se integrou a um tipo de comunidade, mas exp\u00f5e, passo a passo, como esse ideal pode ser buscado e, eventualmente, atingido \u2013 indiferente a qualquer comunidade.<\/p>\n<p class=\"p2\">Tendo definido o enquadramento da obra, apontando o desafio de traduzir\/comentar um texto com estilo estranho numa l\u00edngua arcaica e explicado as duas linhas-mestras de minha tradu\u00e7\u00e3o-coment\u00e1rio do\u00a0Imortal do Sul da China, talvez valha a pena falar um pouco sobre a motiva\u00e7\u00e3o para ter lido e estudado, e, finalmente, para traduzir e comentar esse texto para outras pessoas. A chave \u00e9 esse \u201calgo\u201d que Zhuang Zhou encontrou em sua busca e que, \u00e0 sua maneira, tenta nos comunicar e a que meu coment\u00e1rio, tor\u00e7o, empresta maior visibilidade e coer\u00eancia. Lembro que o coment\u00e1rio \u00e9 intentado como nada mais do que uma cerca ao longo do caminho, colocada l\u00e1 n\u00e3o para impedir passagem, mas para balizar uma dire\u00e7\u00e3o, dando seguran\u00e7a ao leitor em seu passeio da liberdade ao Dao.<\/p>\n<p class=\"p2\">N\u00e3o julgo necess\u00e1ria nenhuma leitura preparat\u00f3ria sobre dao\u00edsmo. Como qualquer pioneiro, Zhuang Zhou \u00e9 dao\u00edsta antes de existir um dao\u00edsmo. Hoje em dia, o dao\u00edsmo \u00e9, basicamente, uma religi\u00e3o institucional e mon\u00e1stica. Zhou n\u00e3o sofre sob o peso dessa bagagem. Assim como nas vinhetas, o\u00a0Imortal\u00a0tamb\u00e9m se refere a tipos de pr\u00e1ticas, a determinados espa\u00e7os sagrados, a praticantes que j\u00e1 obtiveram algum progresso etc \u2013 mas nunca diz como algo deve ser, n\u00e3o discrimina regras r\u00edgidas sobre o que fazer. At\u00e9 os objetivos de se livrar das expectativas alheias, de entrar em harmonia com a Natureza, de prolongar a vida, de superar necessidades fisiol\u00f3gicas, por mais encantadores que soem, s\u00e3o referidos de passagem. A li\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais do que insinuada, \u00e9 a de que n\u00e3o s\u00e3o fins em si.<\/p>\n<p class=\"p2\">Mais uma vez, referindo-nos \u00e0s vinhetas, \u00e9 imprescind\u00edvel notarmos que o car\u00e1ter independente e fragment\u00e1rio das est\u00f3rias do\u00a0Imortal\u00a0serve para afirmar que nenhuma experi\u00eancia deve ser preordenada dogmaticamente \u2013 e tal \u00e9 o grande frescor que sente o leitor que persiste na leitura do\u00a0Imortal. A palheta emocional da obra \u00e9 vasta, o que a distingue no pensamento chin\u00eas antigo. Apesar das barreiras culturais, os personagens do\u00a0Imortal\u00a0s\u00e3o f\u00e1ceis de se aproximar, pois s\u00e3o francos para com os pr\u00f3prios sentimentos. O\u00a0Imortal\u00a0vai muito al\u00e9m das vinhetas em que, entre indigna\u00e7\u00e3o e enlevo, ternura e sarcasmo, as suas anedotas, curtinhas que s\u00e3o, deixam pistas sobre o processo de matura\u00e7\u00e3o e maturidade de quem se submeteu a um tipo de disciplina existencial e quem, por meio desta, teve acesso, pelo menos no plano da fantasia, a uma dimens\u00e3o al\u00e9m da vida mundana \u2013 o que, percebemos bem, n\u00e3o mudou tanto assim nos \u00faltimos 2500 anos.<\/p>\n<p class=\"p2\">Por conseguinte, um dos\u00a0insights\u00a0mais valiosos de Zhuang Zhou \u00e9 o de que n\u00e3o se deve restringir o potencial da exist\u00eancia humana com r\u00f3tulos, a pre\u00e7o de n\u00e3o sermos tolhidos em nossa tentativa de encontrar, de realizar o \u201cDao\u201d.\u00a0 Usando um exemplo mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s, hoje em dia, quem gosta de filosofia ou se declara um fil\u00f3sofo raramente se d\u00e1 conta de que, em sua dimens\u00e3o cultural \u201coriginal\u201d, o fil\u00f3sofo era pouco mais do que um apelido para quem assumia um estilo de vida meditativa, de aperfei\u00e7oamento moral, que fazia amizades em resposta as pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es intelectuais e espirituais \u2013 havia toda a liberdade para dar um conte\u00fado \u00e0quilo que fazia.\u00a0 N\u00e3o havia uma institui\u00e7\u00e3o chamada de filosofia, com t\u00edtulos acad\u00eamicos e carreiras profissionais. O S\u00f3crates, plat\u00f4nico ou xenofontino, que pretendia que a filosofia fosse uma busca pessoal cotidiana, lamentava-se de que as pessoas em geral tratassem dela como um passatempo para o outono da vida, mais uma distin\u00e7\u00e3o social para homens de estatuto ou, pior, como conhecimentos monetiz\u00e1veis em qualquer fase da vida.<\/p>\n<p class=\"p2\">No caso chin\u00eas, Zhuang Zhou reagia a uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais perigosa, porque a \u201cvirtude\u201d \u2013 conhecimentos, refinamento, aptid\u00e3o, compostura, moralidade etc., o termo chin\u00eas n\u00e3o possui um equivalente pronto em nossa cultura \u2013 era requisito formal para a \u00fanica via socialmente aceita para o sucesso: uma carreira pol\u00edtico-burocr\u00e1tica.\u00a0 A equa\u00e7\u00e3o era simples: quanto mais alto o seu cargo, mais elevada deveria ser a sua \u201cvirtude\u201d. Qualquer pessoa com viv\u00eancia, chin\u00eas ou n\u00e3o, antecipa as contradi\u00e7\u00f5es e problemas causados por esse ideal. Importa que, no contexto da China antiga, Zhou \u00e9 singular, pois, de fato, deu as costas para essa \u00fanica via. Sua busca existencial \u2013 seja por motivos est\u00e9ticos, espirituais ou mera avers\u00e3o \u00e0 luta pelo \u201csucesso\u201d \u2013 o projetava naturalmente para al\u00e9m da sociedade. Ele pregava a \u201cdesambi\u00e7\u00e3o\u201d:\u00a0 nem poder, nem riqueza, nem fama. Malgrado serem fins leg\u00edtimos, como quaisquer outros, n\u00e3o s\u00e3o fins fi\u00e1veis. Colocam-nos nas m\u00e3os dos outros.<\/p>\n<p class=\"p2\">A grandeza de Zhuang Zhou, humana, n\u00e3o ideal, est\u00e1 plenamente plasmada no in\u00edcio da obra, que traz uma alegoria enganosamente infantil sobre a realiza\u00e7\u00e3o humana. Uma f\u00eanix gigantesca e uma rolinha min\u00fascula disputam a aten\u00e7\u00e3o do narrador. A f\u00eanix atravessa o mundo em sil\u00eancio num voo cosmol\u00f3gico; a rolinha vive num raio de poucos metros, consciente de ter o que lhe basta. A f\u00eanix n\u00e3o percebe a rolinha, enquanto esta parece ter algum desprezo pelos labores da f\u00eanix. Sem tomar partido, o texto nos pergunta qual das duas representa \u201cgrandeza\u201d. A rea\u00e7\u00e3o imediata \u00e9 a de nos concentrarmos na palavra \u201cqual\u201d, comparando as duas, escolhendo entre elas. No entanto, novas est\u00f3rias sucedem-se, enriquecendo o debate sobre grande e pequeno, dando falsas pistas, deixando falsos testemunhos, de modo que o leitor se sente andando em c\u00edrculos, perplexo com nega\u00e7\u00f5es que se sucedem umas \u00e0s outras. Apega-se a uma vis\u00e3o exclusiva, de \u201ca\u201d em detrimento de \u201cb\u201d, ou vice-versa.<\/p>\n<p class=\"p2\">Essa dificuldade de quebrar a casca sem esmagar o fruto me fez abandonar o plano original de fazer observa\u00e7\u00f5es \u201cobjetivas\u201d sobre dificuldades textuais, conceitos filos\u00f3ficos, detalhes de hist\u00f3ria, geografia, folclore da China antiga etc, para me concentrar na interpreta\u00e7\u00e3o \u201csubjetiva\u201d do que a obra quer dizer, tanto no plano das est\u00f3rias individuais, quanto no plano do que a obra pode ensinar cumulativamente. No caso dessa alegoria fundamental, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 um, mas pelo menos dois \u201cfios vermelhos\u201d conduzindo a dire\u00e7\u00f5es muitos diferentes \u2013 e n\u00e3o contradit\u00f3rias entre si!\u00a0 H\u00e1 grandeza na pequenez e h\u00e1 pequenez na grandeza.<\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s5\">Para concluir, o princ\u00edpio fundamental de minha leitura, e do coment\u00e1rio que preparei para o Imortal, \u00e9 o de que Zhuang Zhou n\u00e3o se recusa a legar o seu testemunho pessoal \u2013 mas o esconde entre sombras e sil\u00eancios. Esse \u00e9 o grande mist\u00e9rio por tr\u00e1s dessa obra que, no in\u00edcio deste texto, tentei representar por meio das vinhetas.\u00a0 \u00c9 certo que, no Imortal, com exce\u00e7\u00e3o do caso dos ensaios, Zhou nunca fala em primeira pessoa, mascarando a sua onipresen\u00e7a atrav\u00e9s de personagens puramente fict\u00edcias ou de ficcionaliza\u00e7\u00f5es de personalidades hist\u00f3ricas, como Laozi e Conf\u00facio. Sob estas reservas, o texto como um todo possui, tal como o entendo, um movimento coerente, a receita de desenvolvimento intelectual e espiritual de Zhuang Zhou. Nenhum resumo pode se substituir \u00e0 leitura integral, com todas as suas repeti\u00e7\u00f5es e divaga\u00e7\u00f5es, interpola\u00e7\u00f5es e perplexidades.\u00a0 Espero que minha tradu\u00e7\u00e3o e meus coment\u00e1rios encorajem o leitor a persistir na leitura, fazendo as perguntas corretas e retirando algo de positivo, pessoalmente relevante, dessa experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] I. Um dia destes, tomei coragem para arrumar a biblioteca. Os livros tinham se acumulado sobre o ch\u00e3o, pilhas e pilhas e pilhas. Notei que havia umas brechas nas prateleiras mais pr\u00f3ximas \u00e0 janela e mais rentes ao teto. 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