{"id":63,"date":"2025-05-12T17:35:00","date_gmt":"2025-05-12T09:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.viadomeio.com\/?p=63"},"modified":"2025-09-03T14:18:06","modified_gmt":"2025-09-03T06:18:06","slug":"uma-protuberancia-na-testa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/05\/12\/uma-protuberancia-na-testa\/","title":{"rendered":"Uma protuber\u00e2ncia na testa"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carlos Morais Jos\u00e9<\/p>\n<p><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Alguns animais imagin\u00e1rios existem em diferentes mitologias, apesar de separadas no ent\u00e3o vasto espa\u00e7o deste planeta e se partir do princ\u00edpio que n\u00e3o ter\u00e3o existido contactos entre elas ao tempo que esses mesmos mitos foram criados: princ\u00edpio esse que, hoje, \u00e9 por alguns contestado e n\u00e3o \u00e9 um dado seguro.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do drag\u00e3o. O fumegante animal perpassa quase todas as mitologias, nomeadamente as que tiveram a sua origem na imensa massa de terra que vai de Xangai a Lisboa. Uma das explica\u00e7\u00f5es mais l\u00f3gicas e aceit\u00e1veis \u00e9: tendo descoberto ossadas de dinossauros, esses seres humanos, sob a capa de diversas culturas, ter\u00e3o concebido essa forma-drag\u00e3o que, apesar de ter diferentes caracter\u00edsticas consoante o espa\u00e7o geogr\u00e1fico-cultural, n\u00e3o deixa de apresentar \u00f3bvias semelhan\u00e7as, quer estejamos a falar de um drag\u00e3o celta, nascido em remotas e brumosas ilhas do Atl\u00e2ntico, quer consideremos o drag\u00e3o chin\u00eas, emergente de rios entre os quatro mares que limitavam o mundo.<\/p>\n<p>Sussurrava-me em tempos idos de Macau, como se me transmitisse um segredo, mestre Lu\u00eds S\u00e1 Cunha que todos esses fant\u00e1sticos animais que as mitologias descrevem, nomeadamente o \u201cLivro das Montanhas e dos Mares (Shanhai Jing)\u201d, onde criaturas estranhas por toda a China de ent\u00e3o pululam, talvez houvessem tido uma exist\u00eancia real em tempos cuja mem\u00f3ria perdemos e que este planeta talvez tivesse outras hist\u00f3rias para contar. A ideia, temer\u00e1ria e marginal, n\u00e3o deixou nunca de me habitar e provocar a racionalidade que me estrutura, o cepticismo que me consome, a descren\u00e7a que tudo desconstr\u00f3i.<\/p>\n<p>Entre esses animais que as mitologias partilham, al\u00e9m do drag\u00e3o, destaca-se o unic\u00f3rnio que em chin\u00eas porta o nome de qilin (leia-se chilin). Contudo, existe uma diferen\u00e7a radical entre o unic\u00f3rnio ocidental, que vemos por exemplo numa magn\u00edfica pintura de Rafael, e o seu cong\u00e9nere s\u00ednico: no primeiro, sai-lhe da testa um corno, rijo como uma presa de elefante, provavelmente imaginado de marfim; no segundo, o que da testa se destaca n\u00e3o \u00e9 realmente um corno, mas uma protuber\u00e2ncia de carne, impositiva mas suave, incapaz de penetrar, furar ou trespassar outra besta ou ser humano.<\/p>\n<p>Nas narrativas chinesas, o aparecimento do qilin anuncia a vinda de um grande homem, doutras vezes a sua morte. Foi o caso de Conf\u00facio, cuja m\u00e3e foi visitada por um qilin, durante a gravidez, que a seus p\u00e9s ter\u00e1 depositado uma tablete onde estava anunciada a vinda de um homem excepcional. Seria f\u00e1cil comparar esta apari\u00e7\u00e3o do qilin com a do anjo que visitou Maria, gr\u00e1vida de Jesus, para lhe anunciar a sua divina gravidez. Deixamos, no entanto, aos nossos leitores mais curiosos essa demanda.<\/p>\n<p>O que imediatamente nos chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 facto de Conf\u00facio ser descrito pelos seus contempor\u00e2neos como tendo uma figura impressionante, com cerca de seis p\u00e9s de altura, uma pose que o distinguia dos demais e&#8230; uma protuber\u00e2ncia na testa, que ali\u00e1s \u00e9 vis\u00edvel nalguns dos desenhos que pretendem restituir a imagem do Mestre. Ora seria esta protuber\u00e2ncia algo de real na testa de Conf\u00facio ou pretenderiam os seus bi\u00f3grafos dot\u00e1-lo com algo que o distinguisse dos outros humanos, um sinal inequ\u00edvoco do destino (ming), segundo o qual estar\u00edamos perante um ser excepcional. Lembremos que Charles Le Brun, ao pintar Lu\u00eds XIV, colocou um dos seus p\u00e9s numa posi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel como sinal de distin\u00e7\u00e3o perante n\u00f3s, o resto da humanidade.<\/p>\n<p>Quereriam os bi\u00f3grafos, afinal, emprestar algo da natureza do qilin ao grande Mestre? Ou haveria realmente uma protuber\u00e2ncia de carne na testa de Conf\u00facio como havia na testa do qilin? Insinuar-se-ia assim que, remotamente e por circunst\u00e2ncias inexplic\u00e1veis, Conf\u00facio tivesse em si alguma das divinas qualidades do qilin? Ter\u00e1 esse \u201canjo\u201d visitador imprimido naquela mulher gr\u00e1vida de um filho concebido em tarde de tempestade algo da sua fant\u00e1stica natureza? Ser\u00e1 isto que a narrativa mitol\u00f3gica nos quer dizer?<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o contentes da nossa ascend\u00eancia animal, de que todos os homens, para sua vergonha, sempre secretamente suspeitaram, igualmente nos querem descendentes de uma mir\u00edade de animais fant\u00e1sticos cujas caracter\u00edsticas provavelmente encontramos disseminadas na humanidade em termos de aspira\u00e7\u00f5es recalcadas.<\/p>\n<p>Nesse besti\u00e1rio fant\u00e1stico, h\u00e1 seres que voam, mudam de forma e de pele, tanto habitam a \u00e1gua como dominam os ares, possuem atributos que encontramos nos nossos pr\u00f3prios sonhos e pesadelos. De novo surge a pergunta: ter\u00e3o essas criaturas existido ou ser\u00e3o seres humanos a haver? \u5b8c[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Carlos Morais Jos\u00e9 \u00a0 Alguns animais imagin\u00e1rios existem em diferentes mitologias, apesar de separadas no ent\u00e3o vasto espa\u00e7o deste planeta e se partir do princ\u00edpio que n\u00e3o ter\u00e3o existido contactos entre elas ao tempo que esses mesmos mitos foram criados: princ\u00edpio esse que, hoje, \u00e9 por alguns contestado e n\u00e3o \u00e9 um dado seguro.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-63","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-editos"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":64,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63\/revisions\/64"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}