{"id":648,"date":"2025-09-25T00:20:05","date_gmt":"2025-09-24T16:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=648"},"modified":"2025-09-25T00:20:05","modified_gmt":"2025-09-24T16:20:05","slug":"o-mito-do-ideograma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/o-mito-do-ideograma\/","title":{"rendered":"O mito do ideograma"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p5\">A<span class=\"s2\">o redor<\/span> do mundo, consideradas todas as eras desde que a humanidade passou a se comunicar, determinadas sociedades desenvolveram o que podemos chamar de culturas de escrita. Para n\u00f3s, falantes do portugu\u00eas, bem como para os demais neolatinos, indoeuropeus, modernos ocidentais, essas culturas carregaram consigo formas historicamente valorizadas de conhecimento: escritas, alfab\u00e9ticas, ortogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p class=\"p7\">A expans\u00e3o de tais tradi\u00e7\u00f5es, quer no interior da pr\u00f3pria Europa, quer em seu avan\u00e7o colonial por outras partes do globo, carregaram consigo tais valoriza\u00e7\u00f5es no bojo do encontro com outros povos: \u00e9 famoso o relato de um cronista portugu\u00eas que, no s\u00e9culo XVI, teria encontrado povos origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas, especificamente do Brasil, em cujas l\u00ednguas \u201cn\u00e3o se acham F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim n\u00e3o t\u00eam F\u00e9, nem Lei, nem Rei\u201d.<sup>1<\/sup> Etnocentrismo, decerto: desejo de que toda a humanidade corresponda a uma experi\u00eancia pontual e limitada, tida, \u00e0 \u00e9poca, como \u00e1pice do desenvolvimento do intelecto e do g\u00eanero humano.<\/p>\n<p class=\"p7\">Mas nesses mesmos 1500, s\u00e9culo mais, s\u00e9culo menos, uma civiliza\u00e7\u00e3o sem F, sem L e sem R j\u00e1 contava tr\u00eas mil anos de idade. Pelo menos. E contava, tamb\u00e9m, com uma cultura escrita de enorme relev\u00e2ncia, prest\u00edgio e sofistica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o alfab\u00e9tica, contudo. E essa diferen\u00e7a talvez tenha significado uma abordagem t\u00e3o etnoc\u00eantrica quanto aquela destinada aos povos amer\u00edndios, mas com o sinal trocado: porque se povos sem letras n\u00e3o poderiam ser mais que \u201cb\u00e1rbaros\u201d, o que seria o povo sem letras, mas com caracteres mais antigos que o pr\u00f3prio Ocidente? Iluminados, talvez? Mais que humanos?<\/p>\n<p class=\"p7\">Em <i>Ideogramas na China<\/i>, Henri Michaux descreve, de modo po\u00e9tico, o desenvolvimento da escrita caligr\u00e1fica, que considera \u201cideogr\u00e2mica\u201d. Para o poeta, a escrita chinesa teria evolu\u00eddo de uma materialidade pict\u00f3rica, cujo referente designaria diretamente o objeto representado, sem maiores media\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas, at\u00e9 um sistema complexo e elitizado de tra\u00e7os cujo conhecimento se restringia apenas aos eruditos e letrados.<\/p>\n<p class=\"p7\">Ao passo que <span class=\"s3\">\u5c71<\/span> representaria pictograficamente uma montanha \u2014 donde<span class=\"s3\"> \u5c71<\/span> = montanha \u2014, desdobramentos posteriores do sistema de escrita chin\u00eas teriam distanciado essa quase ilumina\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea:<\/p>\n<p class=\"p7\">\u201cLevados pela arrebatadora impud\u00eancia da pesquisa, os inventores \u2014 os de uma segunda fase \u2014 aprenderam a desligar o sinal do seu modelo (deformando-o \u00e0s apalpadelas, sem ousar ainda cortar decididamente o que liga a forma ao ser, o cord\u00e3o umbilical da semelhan\u00e7a) e assim se desligaram eles pr\u00f3prios, havendo rejeitado o sagrado da primeira rela\u00e7\u00e3o \u2018escrito-objecto\u2019.\u201d<sup>2<\/sup><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s4\">A primeira rela\u00e7\u00e3o escrito-objecto de que nos fala Michaux \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o pictogr\u00e1fica imediata, a montanha transposta ao papel \u2014 ou a qualquer outra superf\u00edcie. Quaisquer que fossem seus desdobramentos, n\u00e3o mais haveria o v\u00ednculo com que o poeta sonha: da coisa \u00e0 compreens\u00e3o, sem passar pelo trato da linguagem. Chegando ao pico da montanha, <\/span><span class=\"s5\">\u5cf0<\/span><span class=\"s4\">, n\u00e3o mais ter\u00edamos a primeira rela\u00e7\u00e3o, e apenas aos iniciados essa trilha ao monte estaria aberta.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Michaux lamenta a elabora\u00e7\u00e3o da escrita que a desvincula do mundo, e nisso n\u00e3o est\u00e1 sozinho: para mais de um leitor ocidental da escrita chinesa, \u201cideograma\u201d se mostrou o melhor termo para descrever algo t\u00e3o diferente de nossos sistemas alfab\u00e9ticos, fon\u00e9ticos, de nossas l\u00ednguas cuja express\u00e3o sonora da fala \u00e9 condutriz da escritura.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s6\">Para tais leitores, a China teria seguido algum princ\u00edpio misterioso que a teria posto \u00e0 parte de toda a ra\u00e7a humana \u2014 como sugeriu Boodberg h\u00e1 quase cem anos<sup>3<\/sup> \u2014, para quem os sistemas de escrita se desenvolvem a partir das experi\u00eancias lingu\u00edsticas da fala, e n\u00e3o o contr\u00e1rio \u2014 nem separadamente, como o mito do ideograma nos faz supor.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Em 1984, John DeFrancis publicou <i>O mito ideogr\u00e1fico<\/i>, historicizando a ideia segundo a qual seria poss\u00edvel um sistema ideogr\u00e2mico, ou ideogr\u00e1fico, no qual uma l\u00edngua fosse capaz de incluir todos os objetos, conceitos e ideias do universo sem apelo \u00e0 fala, ao som, \u00e0 base material da l\u00edngua. Um mito, diz DeFrancis, pois mesmo em sistemas de escrita com elementos pictogr\u00e1ficos, como na China, no antigo Egipto ou na Sum\u00e9ria, n\u00e3o se pode encontrar uma escrita inteiramente sem\u00e2ntica. A escrita \u00e9 proje\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, e a l\u00edngua \u00e9 sempre falada.<\/p>\n<p class=\"p7\">Henri Michaux via na evolu\u00e7\u00e3o da escrita chinesa um distanciamento do mundo dado, da experi\u00eancia m\u00edstica, esot\u00e9rica e religiosa com o mundo, um distanciamento da experi\u00eancia imediata. Por isso afirma que \u201cNa escrita, a religi\u00e3o recuava. A irreligi\u00e3o da escrita come\u00e7ava\u201d. Em outras palavras: perde-se o mundo-pelo-mundo \u2014 <span class=\"s3\">\u5c71<\/span> = montanha, supostamente evidente para qualquer pessoa, mesmo iletrada \u2014 e passa-se a viver o mundo-pela-escrita \u2014 <span class=\"s3\">\u5cf0<\/span> = pico da montanha, compreens\u00edvel apenas para quem tenha escalado montes e montes de livros e exerc\u00edcios complexos, pouco afeitos \u00e0 \u201cideogramicidade\u201d do objeto pico-da-montanha.<\/p>\n<p class=\"p7\">Mas \u00e9 aqui que o mito se mostra \u00e0s claras. Para Michaux, como para outros, ideogramas seriam representa\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas de objetos e\/ou ideias, conceitos. J\u00e1 o som dos objetos e das ideias, o som da fala que fala sobre eles, desempenharia pouco ou nenhum papel em sua grafia. Se povos sem escrita alfab\u00e9tica eram sem lei, sem rei e sem f\u00e9, um povo sem escrita fon\u00e9tica talvez fosse \u2014 assim diz o mito, nisso acreditaram os primeiros mission\u00e1rios europeus \u2014 rebuscado e complexo a um n\u00edvel que os distanciaria de todos os demais povos da terra.<\/p>\n<p class=\"p7\">Um povo, no m\u00ednimo, de mem\u00f3ria estupenda, capaz de conhecer um s\u00edmbolo para <i>cada coisa<\/i> existente: \u201cs\u00edmbolos e imagens [que], n\u00e3o tendo qualquer som, podem ser lidos em todas as l\u00ednguas, formando uma esp\u00e9cie de pintura intelectual, uma \u00e1lgebra metaf\u00edsica e ideal, que transmite pensamentos por analogia, por rela\u00e7\u00e3o, por conven\u00e7\u00e3o, e assim por diante.\u201d<sup>4<\/sup><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s7\">O mito do ideograma abstrato abre caminho para a ideia de uma escrita inef\u00e1vel, sem atentar para o fato de que <\/span><span class=\"s8\">\u5cf0<\/span><span class=\"s7\">, o pico da montanha, n\u00e3o \u00e9 apenas resistir \u00e0 montanha ou, ainda, chifrar o monte \u2014<\/span><span class=\"s8\"> \u5c71<\/span><span class=\"s7\"> + <\/span><span class=\"s8\">\u5906<\/span><span class=\"s7\"> \u2014, dentre outras varia\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas que pud\u00e9ssemos atribuir \u00e0s puras imagens pictogr\u00e1ficas de <\/span><span class=\"s8\">\u5cf0<\/span><span class=\"s7\"> \u2014 e \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o de suas partes. Antes, a pron\u00fancia de <\/span><span class=\"s8\">\u5cf0<\/span><span class=\"s7\"> \u00e9 <i>feng<\/i>, e por isso \u00e0 montanha se anexou o segundo grupo de caracteres, \u00e0 direita: <\/span><span class=\"s8\">\u5906<\/span><span class=\"s7\">.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">N\u00e3o por l\u00f3gica abstrata, n\u00e3o porque resistir ou chifrar a montanha signifique atingir seu cume, mas porque <i>feng<\/i> \u00e9 o modo de nomear o topo do monte, e o modo de nomear, sua sonoridade, traz o elemento fon\u00e9tico \u00e0 escrita. Por isso, nada de ideogr\u00e2mica \u2014 ou n\u00e3o somente ideogr\u00e2mica, e quase nunca inteiramente ideogr\u00e2mica \u2014, mas sonora. Logogr\u00e1fica. Ou morfossil\u00e1bica, como sugeriu DeFrancis.<\/p>\n<p>______<\/p>\n<p class=\"p7\"><b>Notas<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p10\">1 &#8211; Pero de Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo, Tratado da Terra do Brasil, 1573.<\/p>\n<p class=\"p11\">2 &#8211; Henry Michaux, Ideogramas na China, tradu\u00e7\u00e3o de Ernesto Sampaio. Cotovia, 1999, p. 17.<\/p>\n<p class=\"p11\">3 &#8211; Apud John DeFrancis, The Ideographic Myth, In: The Chinese Language: Fact and Fantasy, University of Hawaii Press, 1984. Dispon\u00edvel em: http:\/\/pinyin.info\/readings\/texts\/ideographic_myth.html<\/p>\n<p class=\"p11\">4 &#8211; Mem\u00f3ires apud DeFrancis, idem.<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p>Imagem:Wang Xizhi, <i>C\u00f3pia da dinastia Tang<\/i>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Ao redor do mundo, consideradas todas as eras desde que a humanidade passou a se comunicar, determinadas sociedades desenvolveram o que podemos chamar de culturas de escrita. Para n\u00f3s, falantes do portugu\u00eas, bem como para os demais neolatinos, indoeuropeus, modernos ocidentais, essas culturas carregaram consigo formas historicamente valorizadas de conhecimento: escritas, alfab\u00e9ticas, ortogr\u00e1ficas. 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