{"id":651,"date":"2025-09-25T00:21:55","date_gmt":"2025-09-24T16:21:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=651"},"modified":"2025-09-25T00:21:55","modified_gmt":"2025-09-24T16:21:55","slug":"som-e-sentido-na-escrita-chinesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/som-e-sentido-na-escrita-chinesa\/","title":{"rendered":"Som e sentido na escrita chinesa"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s2\">Dando<\/span> <span class=\"s2\">sequ\u00eancia<\/span> \u00e0 cr\u00edtica aos ideogramas como ideologia \u2014 ou, no m\u00ednimo, \u00e0 revis\u00e3o do que costuma ser tomado como o mundo af\u00f4nico dos ideogramas, conv\u00e9m que nos debrucemos sobre um caso e, por ele, busquemos algumas novas interpreta\u00e7\u00f5es que ampliem o campo da lingu\u00edstica, no qual nos aventuramos em nossa \u00faltima coluna. Tomemos Buda como exemplo. O caracter que o representa no extenso rol de ideofonogramas chineses \u00e9 o seguinte:<span class=\"s3\"> \u4f5b<\/span>. <i>F\u00f3<\/i>, cuja pron\u00fancia se d\u00e1 no segundo tom.<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s4\">Huo Datong, \u201co \u00fanico psicanalista da China\u201d, nos recorda de que a parte esquerda dos caracteres compostos (no caso de <\/span><span class=\"s5\">\u4f5b<\/span><span class=\"s4\">, trata-se do radical para <\/span><span class=\"s5\">\u4eba<\/span><span class=\"s4\">, <i>r\u00e9n<\/i>, pessoa, ser humano) est\u00e1, geralmente, relacionada com a imagem, numa conex\u00e3o lacaniana com o significante que, concreto, encontra correspond\u00eancia na realidade objetiva. Segundo essa compreens\u00e3o, ao identificar <\/span><span class=\"s5\">\u4eba<\/span><span class=\"s4\">, vejo uma pessoa em p\u00e9, e isso j\u00e1 imprimiria \u201cideogramicamente\u201d o sentido do que hei de ver. A parte direita do caracter (<\/span><span class=\"s5\">\u5f17<\/span><span class=\"s4\">, <i>f\u00fa<\/i>, no caso de Buda) seria ent\u00e3o a atribui\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica ao novo caracter, composto. Nesse caso, a origem etimol\u00f3gica perderia o significado ideal, \u201cideogr\u00e2mico\u201d, e figuraria apenas como acess\u00f3rio sonoro \u00e0 composi\u00e7\u00e3o. Sendo o caracter <\/span><span class=\"s5\">\u5f17<\/span><span class=\"s4\"> um elemento de nega\u00e7\u00e3o, poder\u00edamos at\u00e9 aventar a hip\u00f3tese de que buda, em \u00faltima inst\u00e2ncia, seria um n\u00e3o-humano (o que n\u00e3o deixa de ser verdade, em certo sentido: os budas, isto \u00e9, os iluminados que nascem no reino humano \u2014 pois, em verdade, h\u00e1 budas em todas as dire\u00e7\u00f5es, todos os reinos e todos os tempos, animais, espirituais, divinos \u2014 deixam de ser humanos sujeitos ao ciclo quase eterno de renascimentos e mortes, libertando-se por meio da ilumina\u00e7\u00e3o. Chegam a ser algo como n\u00e3o-humanos, portanto\u2026)<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s6\">Mas n\u00e3o \u00e9 isso que se d\u00e1, a menos que queiramos poetizar a n\u00e3o-humanidade (ou a suprema humanidade) de Buda. A composi\u00e7\u00e3o do caracter ocorre por uma raz\u00e3o simples, nos diz Huo Datong: a vis\u00e3o do elemento \u00e0 esquerda acionaria o hemisf\u00e9rio direito do c\u00e9rebro, respons\u00e1vel pela compreens\u00e3o mais abrangente e visual do contato sensorial, lidando com a totalidade org\u00e2nica dos dados percebidos e com sua conex\u00e3o com elementos concretos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\">A vis\u00e3o do elemento \u00e0 direita acionaria, por sua vez, o hemisf\u00e9rio esquerdo do c\u00e9rebro, respons\u00e1vel por fun\u00e7\u00f5es fonadoras, racionaliza\u00e7\u00e3o, pela concretude e pela generalidade dos processos lingu\u00edsticos.<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s4\">E o psicanalista nos diz mais, a partir de bases que apenas refor\u00e7am que o mito do ideograma, como sugeriu John DeFrancis, \u00e9 mesmo um mito: Datong afirma existir uma quebra entre a imagem e a realidade, com a primeira n\u00e3o mais remetendo \u00e0 segunda, num processo de patologiza\u00e7\u00e3o da linguagem alienada:<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s7\">\u201cA ruptura que ocorre entre a figura do caracter chin\u00eas e o significado representa a ruptura do v\u00ednculo entre o imagin\u00e1rio e o real. A manifesta\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica dessa ruptura \u00e9 a amn\u00e9sia, cujo estado extremo \u00e9 que o paciente n\u00e3o se lembra mais de nada. [\u2026] Podemos notar tamb\u00e9m que o pictograma do cavalo no ideofonograma da m\u00e3e desempenha apenas um papel fon\u00e9tico, enquanto sua figura como imagem visual do cavalo perdeu sua fun\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o-coisa, ou seja, seu elemento da figura foi reprimido. O pictograma do cavalo agora n\u00e3o indica o cavalo, mas apenas o som, <i>ma<\/i>.\u201d (Huo Datong em franc\u00eas no original).<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\">Explicando que o elemento cavalo do caracter para m\u00e3e (o <span class=\"s3\">\u9a6c<\/span> de <span class=\"s3\">\u5988<\/span>) cumpre apenas fun\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica, o psicanalista diz algo semelhante ao que nos diz Jonathan Stalling quando critica a vis\u00e3o reificada, concreta e imagista que \u2013 sobretudo \u2013 Ezra Pound imprimiu \u00e0 sua leitura da escrita chinesa.<\/p>\n<p class=\"p6\">Pound fazia parecer que a escrita ideogr\u00e2mica era sumamente fotogr\u00e1fica, com tudo sendo diretamente vinculado a um elemento do real, algo aproximado do mito que DeFrancis analisa. Stalling, sobre isso, percebe a constante \u201cruptura entre real e imagin\u00e1rio\u201d que Huo Datong enunciou e desmente, assim, a ub\u00edqua rela\u00e7\u00e3o concreta dos poetas:<\/p>\n<p class=\"p6\">\u201cA velha teoria quanto \u00e0 natureza do caracter escrito chin\u00eas (que Pound e Fenollosa seguiram) \u00e9 a de que o caracter escrito \u00e9 ideograma \u2014 uma imagem estilizada da coisa ou conceito que representa. A teoria oposta (que prevalece hoje entre os estudiosos) \u00e9 que o caracter pode ter suas origens pict\u00f3ricas em tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, mas que essas origens foram obscurecidas em todos, excepto em alguns casos muito simples, e que, em qualquer caso, os utilizadores nativos n\u00e3o t\u00eam o significado pict\u00f3rico original em mente enquanto escrevem.\u201d (Jonathan Stalling).<\/p>\n<p class=\"p6\">H\u00e1 uma quest\u00e3o interessante que surge dessa sequ\u00eancia de cr\u00edticas, e que pretendemos desenvolver no futuro, mas aqui a sumarizo: o tal mito ideogr\u00e1fico, ao sobrepor a visualidade \u00e0 materialidade sonora da l\u00edngua falada e, com isso, ignorar a dissocia\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria imprime entre caractere e sentido origin\u00e1rio, faz com que os leitores \u2014 sobretudo \u2014 ocidentais da escrita chinesa, de sua po\u00e9tica pr\u00f3pria, valorizem a pictografia em detrimento da sonoridade, a materialidade concreta dos tra\u00e7os em lugar da fluidez maviosa que o falar carrega consigo.<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p class=\"p7\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<p class=\"p7\">Datong, Huo. (s\/d). L\u2018inconscient est structur\u00e9 comme l\u2019\u00e9criture chinoise. Lacan et le monde chinois. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.lacanchine.com\/Ch_C_HuoInc_Txt.html<\/p>\n<p class=\"p7\">Duarte-Plon, L. (2003). Psicanalista Huo Datong. \u00c1gora: Estudos em Teoria Psicanal\u00edtica [online], v. 6, n. 1. DOI: https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1516-14982003000100009.<\/p>\n<p class=\"p7\">Durazzo, L.; Jatob\u00e1, J. (2014). Ensaiando uma tradu\u00e7\u00e3o coletiva: Yao Feng e o som da poesia chinesa. Translatio, n. 7. Dispon\u00edvel em: https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/translatio\/article\/view\/50795<\/p>\n<p class=\"p7\">Stalling, J. (2011). Poetics of Emptiness: Transformations of Asian Thought in American Poetry. New York: Fordham University Press.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Dando sequ\u00eancia \u00e0 cr\u00edtica aos ideogramas como ideologia \u2014 ou, no m\u00ednimo, \u00e0 revis\u00e3o do que costuma ser tomado como o mundo af\u00f4nico dos ideogramas, conv\u00e9m que nos debrucemos sobre um caso e, por ele, busquemos algumas novas interpreta\u00e7\u00f5es que ampliem o campo da lingu\u00edstica, no qual nos aventuramos em nossa \u00faltima coluna. 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