{"id":657,"date":"2025-09-25T00:26:37","date_gmt":"2025-09-24T16:26:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=657"},"modified":"2025-09-25T00:26:37","modified_gmt":"2025-09-24T16:26:37","slug":"um-sabio-nao-sabe-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/um-sabio-nao-sabe-de-si\/","title":{"rendered":"Um s\u00e1bio n\u00e3o sabe de Si"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Diz-se que Bodhidharma (<\/span><span class=\"s2\">\u9054\u6469<\/span><span class=\"s1\">), primeiro patriarca do budismo Ch\u00e1n (<\/span><span class=\"s2\">\u79aa<\/span><span class=\"s1\">) na China, certa vez se apresentou ao imperador Wu da dinastia Liang (<\/span><span class=\"s2\">\u6881\u671d<\/span><span class=\"s1\">, 502-557). O di\u00e1logo entre os dois, ambos budistas, faz parte da literatura de distintas escolas do budismo sino-coreano-japon\u00eas, que compreendem Bodhidharma como o introdutor de suas pr\u00e1ticas no Leste Asi\u00e1tico, sendo ele um monge de origem talvez persa vindo das terras a oeste.<\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Assim se relata<\/b>:<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\">E<\/span><span class=\"s2\">stando<\/span><span class=\"s3\"> frente a frente, o imperador inquiriu Bodhidharma a respeito de seus feitos benem\u00e9ritos como governante daquelas terras. Que m\u00e9ritos teria ele, imperador, adquirido gra\u00e7as aos esfor\u00e7os que despendera para construir monast\u00e9rios, ordenar monges budistas, reproduzir c\u00f3pias e c\u00f3pias de sutras e entalhar imagens de budas?<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">\u201cM\u00e9rito algum,\u201d teria dito Bodhidharma. \u201cBoas a\u00e7\u00f5es mundanas podem originar bons frutos, nesta e em pr\u00f3ximas vidas, mas m\u00e9rito algum adv\u00e9m delas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s3\">\u201cEnt\u00e3o,\u201d continuou o imperador, \u201cqual o sentido de tudo isso?\u201d, teria dito. Ao que Bodhidharma respondeu: \u201co \u00fanico sentido verdadeiro \u00e9 a vacuidade; ela \u00e9 tudo que existe.\u201d Ou, se pensarmos bem, o que n\u00e3o existe, posto ser vacuidade. Mas a tradi\u00e7\u00e3o informa que o patriarca teria dito algo assim: \u201cexiste apenas vacuidade.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">E por vacuidade, pelo vazio essencial que n\u00e3o \u00e9 apenas aus\u00eancia de algo, mas natureza inessencial de todos os fen\u00f4menos, Bodhidharma se referia a uma das verdades profundas do budismo, das verdades centrais que, com ele na China, passou a compor parte significativa do entendimento budista do mundo. Desde o Ch\u00e1n, passando pela tradi\u00e7\u00e3o Seon da Coreia at\u00e9 o mais popular Zen japon\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s3\">Mas aqui, a vacuidade que o monge enfatiza ganha maior materialidade. Porque em sua verdade se desfaz n\u00e3o apenas a ideia essencial de todos os fen\u00f4menos \u2014 afinal, tudo que existe \u00e9 vacuidade \u2014, mas a ideia de que o sujeito mesmo que enuncia tal ideia, o enunciador de qualquer enunciado, ele pr\u00f3prio n\u00e3o pode existir. Ou, melhor dizendo, ele pr\u00f3prio \u00e9 vacuidade. Falta-lhe um cerne essencial que o mantenha imut\u00e1vel ao longo do tempo, das experi\u00eancias, dos fen\u00f4menos todos de uma exist\u00eancia. Com a vacuidade, vem tamb\u00e9m a verdade budista da imperman\u00eancia. Nada se mant\u00e9m eternamente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s3\">Frente a isso, a \u00faltima pergunta do imperador a Bodhidharma foi a seguinte: \u201cSe tudo \u00e9 vacuidade, quem \u00e9 voc\u00ea, agora, defronte a mim?\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\">E o monge lhe deu a \u00fanica resposta poss\u00edvel: \u201cEu n\u00e3o sei, Vossa Majestade.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\">Neste pequeno di\u00e1logo, aned\u00f3tico ou n\u00e3o, se registra o cora\u00e7\u00e3o de uma sabedoria passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, de esp\u00edrito a esp\u00edrito, desde o tempo primeiro do budismo Ch\u00e1n. O n\u00e3o se saber, o reconhecimento de que se desconhece qualquer essencialidade \u00faltima, de que tudo \u00e9 vacuidade e imperman\u00eancia, alimenta toda a pr\u00e1tica budista dessa escola e das que se desenvolvem a partir dela, na China ou alhures.<\/p>\n<p class=\"p8\">E ainda que elementos de tal verdade estejam presentes nos discursos do pr\u00f3prio Buda hist\u00f3rico, nas tradi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 vinham se desenvolvendo em terras indianas, a chegada de Bodhidharma \u00e0 China \u00e9 fundamental pelo encontro que promove entre tais perspectivas e certas tradi\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias da China mesma. Pelo encontro da verdade budista com certo esp\u00edrito existencial que o sin\u00f3logo franc\u00eas Fran\u00e7ois Jullien bem resume ao dizer, como o faz em um t\u00edtulo de sua obra, que \u201co s\u00e1bio n\u00e3o tem ideia\u201d. O s\u00e1bio \u2014 e n\u00e3o o fil\u00f3sofo, n\u00e3o o teorizador \u2014 n\u00e3o tem ideia porque n\u00e3o toma, de partida, nenhum pressuposto. Na experi\u00eancia da sabedoria, segundo o sin\u00f3logo e as tradi\u00e7\u00f5es \u00e0s quais se refere, e mesmo ao budismo que aqui citamos, n\u00e3o se tem ideia porque ideias pressupostas s\u00e3o apriorismos essencializantes, ou cristaliza\u00e7\u00f5es de expectativas, de pontos de vista que s\u00e3o pontos de partida (<i>parti pris<\/i>, diz Jullien). Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o ter ideia \u00e9 n\u00e3o saber, por exemplo, quem se encontra defronte ao imperador.<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s4\">Mesmo que quem ali esteja seja o pr\u00f3prio interlocutor do soberano, o pr\u00f3prio monge budista, patriarca que, ao dizer n\u00e3o saber quem \u00e9, diz muito mais do que apenas isso: diz-nos que reconhecer seu desconhecimento lhe permite estar ali, defronte ao imperador, sem projetar ilus\u00f5es em nenhuma rela\u00e7\u00e3o sua com o mundo. Apenas estando ali, aberto ao que o fluxo dos fen\u00f4menos venha a apresentar. <\/span><\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p9\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p9\">\u2022 Broughton, Jeffrey L. (1999), The Bodhidharma Anthology: The Earliest Records of Zen, Berkeley: University of California Press.<\/p>\n<p class=\"p9\">\u2022 Jullien, Fran\u00e7ois. (2000). Um s\u00e1bio n\u00e3o tem id\u00e9ia. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/p>\n<p>\u00a0[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Diz-se que Bodhidharma (\u9054\u6469), primeiro patriarca do budismo Ch\u00e1n (\u79aa) na China, certa vez se apresentou ao imperador Wu da dinastia Liang (\u6881\u671d, 502-557). 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