{"id":660,"date":"2025-09-25T00:28:44","date_gmt":"2025-09-24T16:28:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=660"},"modified":"2025-09-25T00:28:44","modified_gmt":"2025-09-24T16:28:44","slug":"sobre-a-singularidade-do-canone-budista-chines","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/sobre-a-singularidade-do-canone-budista-chines\/","title":{"rendered":"Sobre a singularidade do c\u00e2none budista chin\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">E<span class=\"s1\">m muitos<\/span> sentidos, pode-se entender a tradu\u00e7\u00e3o como o meio pelo qual todas as coisas v\u00eam ao mundo e por ele circulam, se manifestam, transp\u00f5em-se desta para aquela realidade, partem de um emissor e chegam ao entendimento de um receptor que, por sua vez, as reformula, recria, transcria e lhes d\u00e1 seguimento. Tradu\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, de certo modo, s\u00e3o elementos de um mesmo complexo, de din\u00e2micas de encontro e partilha, ajustes e informes.<\/p>\n<p class=\"p3\">O budismo hist\u00f3rico, antigo, vindo originariamente de territ\u00f3rios identificados hoje como a \u00cdndia, pode ser dividido em tr\u00eas grandes per\u00edodos, a saber, 1) Buddhadharma (o ensinamento do Buda, <span class=\"s2\">\u4f5b\u6559<\/span>, <i>fojiao<\/i>); 2) O Buddhadharma Mahayana e; 3) O Buddhadharma Mahayana Esot\u00e9rico. Todos esses ensinamentos budistas, nascidos na \u00cdndia e dispersos pelo mundo, encontram-se em um dos tr\u00eas grupos. O que lhes permite tal dispers\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, alcance, s\u00e3o justamente as l\u00ednguas que os carregam: inicialmente, pela oralidade, mas logo, pela escrita.<\/p>\n<p class=\"p3\">O grande mestre Yinshun (1906-2005), um dos luminares do budismo contempor\u00e2neo, assim define os conjuntos de textos que mant\u00eam, h\u00e1 mil\u00eanios, a palavra do Buda viva:<\/p>\n<p class=\"p5\">\u201cA linhagem de l\u00edngua p\u00e1li \u2014 que denominamos \u2018tradi\u00e7\u00e3o do sul\u2019, atualmente popular no Sri Lanka, na Birm\u00e2nia e na Tail\u00e2ndia \u2014 \u00e9 um ramo do budismo, o <i>Tamrasatiya<\/i>, correspondente \u00e0 era do Buddhadharma. A linhagem de l\u00edngua tibetana \u2014 e que foi transmitida para o Tibet \u2014 pertence, grosso modo, ao Buddhadharma Mahayana Esot\u00e9rico. A linhagem de ensinamentos transmitida e largamente adotada na China pertence, de modo geral, ao Buddhadharma Mahayana.<\/p>\n<p class=\"p5\">O c\u00e2none budista em l\u00edngua chinesa, preservado na China, n\u00e3o se compara, claro est\u00e1, com os textos originais registrados em s\u00e2nscrito ou p\u00e1li (sendo, estas, l\u00ednguas indianas); tamb\u00e9m n\u00e3o se aproxima tanto dos originais quanto as tradu\u00e7\u00f5es tibetanas (o alfabeto tibetano se desenvolveu a partir do s\u00e2nscrito). Entretanto, para o estudo global e hist\u00f3rico do budismo originado na \u00cdndia, e para compreender seu desenvolvimento e evolu\u00e7\u00e3o, as tradu\u00e7\u00f5es chinesas possuem valor inestim\u00e1vel, que n\u00e3o pode ser ignorado \u2014 valor que os textos em p\u00e1li, tibetano e s\u00e2nscrito n\u00e3o conseguem igualar!\u201d<\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s3\">(Yinshun, 2009, p. 92, <\/span><span class=\"s3\">tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">De acordo com o mestre, embora representativo de um budismo da segunda era \u2014 o Mahayana \u2014, o c\u00e2none chin\u00eas inclui tradu\u00e7\u00f5es elaboradas durante um longu\u00edssimo per\u00edodo, mais de mil anos, podendo, assim, incluir em si fontes de diversas origens, \u00e9pocas e tradi\u00e7\u00f5es. Fazendo-se, desse modo, um c\u00e2none representativo de elementos presentes em todas as tr\u00eas eras acima mencionadas. Conv\u00e9m seguir o grande mestre Yinshun e discriminar as fontes originais mais significativas que se encontram englobadas pelo c\u00e2none chin\u00eas:<\/p>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s4\"><b>1) <\/b><\/span><span class=\"s5\">Do Buddhadharma inicial, da primeira era, o c\u00e2none chin\u00eas preserva o Tripitaka \u2014 composto por tr\u00eas conjuntos fundamentais de textos: os Sutra, o Vinaya e o Abhidharma \u2014 e inclui tradu\u00e7\u00f5es de textos pertencentes a in\u00fameras escolas do per\u00edodo sect\u00e1rio do budismo cl\u00e1ssico. Por incluir essas diferentes vers\u00f5es de um per\u00edodo hist\u00f3rico de dissens\u00f5es, o c\u00e2none chin\u00eas oferece pistas do movimento que desaguaria, posteriormente, no surgimento do fen\u00f4meno Mahayana, j\u00e1 distanciado das estruturas cl\u00e1ssicas do Buddhadharma da primeira era. Quanto a este, Yinshun ressalta que as tradu\u00e7\u00f5es tibetanas n\u00e3o tendem a englob\u00e1-lo; e o c\u00e2none p\u00e1li, por sua vez, embora completo, restringe-se apenas a um conjunto de tradi\u00e7\u00f5es textuais, sem lan\u00e7ar luz sobre os desdobramentos hist\u00f3ricos que se seguiram \u00e0 era do Buddhadharma inicial;<\/span><\/p>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s6\"><b>2) <\/b><\/span>Do Mahayana, os textos chineses d\u00e3o conta de uma imensid\u00e3o de influ\u00eancias, refer\u00eancias, fontes e per\u00edodos hist\u00f3ricos. A bem dizer, o budismo chin\u00eas pode ser total ou quase totalmente identificado ao Mahayana, pelo que se compreende tal abrang\u00eancia textual. J\u00e1 os outros c\u00e2nones indicados pelo mestre Yinshun, o p\u00e1li e o tibetano, o primeiro n\u00e3o apresenta nada de origem Mahayana, e o segundo est\u00e1 repleto de textos dessa tradi\u00e7\u00e3o, ainda que muitos sejam retradu\u00e7\u00f5es a partir do pr\u00f3prio chin\u00eas, e n\u00e3o das fontes originais. N\u00e3o obstante, o c\u00e2none tibetano inclui alguns textos de per\u00edodos posteriores do Mahayana que o c\u00e2none chin\u00eas n\u00e3o possui, como <i>O Ornamento da Clara Realiza\u00e7\u00e3o<\/i>. O c\u00e2none chin\u00eas, a despeito da variedade Mahayana encontrada no c\u00e2none tibetano, possui uma singularidade relevante para os estudos hist\u00f3ricos, gen\u00e9ticos e comparativos das tradi\u00e7\u00f5es budistas: diferentemente de seu vizinho tibetano, que continuamente se revisou a fim de adequar os textos pr\u00e9vios a vers\u00f5es posteriores e vistas como mais adequadas, o c\u00e2none chin\u00eas manteve as diferentes tradu\u00e7\u00f5es de todos os textos, facilitando um entendimento do processo hist\u00f3rico e das mudan\u00e7as sofridas pelos ensinamentos ao longo do tempo. Trata-se de um ferramental inestim\u00e1vel para o estudo do desenvolvimento do pensamento budista, desde suas fontes hist\u00f3ricas \u2014 na \u00cdndia ou na \u00c1sia Central \u2014 at\u00e9 o Leste Asi\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s4\"><b>3) <\/b><\/span><span class=\"s5\">Quanto aos textos do Buddhadharma Mahayana Esot\u00e9rico, fortemente presente no Tibet e em sua \u00e1rea de influ\u00eancia, o c\u00e2none chin\u00eas possui tradu\u00e7\u00f5es fundamentais para a media\u00e7\u00e3o com outras localidades de base lingu\u00edstica aproximada, como a Coreia e o Jap\u00e3o. Assim, muitos dos textos budistas esot\u00e9ricos que chegaram ao Jap\u00e3o o fizeram por interm\u00e9dio da escrita chinesa, tida por l\u00edngua franca no leste asi\u00e1tico ao longo do per\u00edodo de expans\u00e3o do budismo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Com esse apanhado geral, o vener\u00e1vel mestre Yinshun objetivava, j\u00e1 nos anos 1950, alertar os pesquisadores mon\u00e1sticos e leigos para a riqueza do c\u00e2none budista chin\u00eas, n\u00e3o apenas em mat\u00e9ria doutrin\u00e1ria, mas tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua capacidade de dinamizar os estudos mundiais sobre o per\u00edodo mais antigo do budismo, gra\u00e7as \u00e0 natureza muito singular que as tradu\u00e7\u00f5es chinesas possuem e que a destacam.<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p12\"><b>Bibliografia<\/b><b><\/b><\/p>\n<p class=\"p12\">Durazzo, L. (2015). Vener\u00e1vel Yinshun e o Budismo para o reino humano: instru\u00e7\u00f5es de um mestre chin\u00eas do s\u00e9culo XX. Cultura Oriental, v. 2, n. 1, p. 39-44. Dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufpb.br\/index.php\/co\/article\/view\/25628<\/p>\n<p class=\"p12\">Yinshun, Ven. (2009). A Sixty-Year Spiritual Voyage on the Ocean of Dharma. Translated by Yu-Jung L. Avis, Po-Hui Chang, Maxwell E. Siegel. Towaco: Noble Path.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Em muitos sentidos, pode-se entender a tradu\u00e7\u00e3o como o meio pelo qual todas as coisas v\u00eam ao mundo e por ele circulam, se manifestam, transp\u00f5em-se desta para aquela realidade, partem de um emissor e chegam ao entendimento de um receptor que, por sua vez, as reformula, recria, transcria e lhes d\u00e1 seguimento. 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