{"id":666,"date":"2025-09-25T01:40:22","date_gmt":"2025-09-24T17:40:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=666"},"modified":"2025-09-25T01:54:02","modified_gmt":"2025-09-24T17:54:02","slug":"su-dongpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/su-dongpo\/","title":{"rendered":"Su Dongpo"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\"><b>Su Dongpo \u00e9 considerado o maior poeta da dinastia Song e um dos maiores de toda a poesia chinesa, ao lado de Li Bai e de Du Fu. Nasceu em Meishan, em 1037, na prov\u00edncia de Sichuan. A sua figura corresponde ao ideal do letrado\/mandarim, poeta e prosador, cal\u00edgrafo e pintor, homem pol\u00edtico e criador de jardins. <\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">Tradu\u00e7\u00f5es e textos de<b><br \/>\n<\/b><b>Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\">M\u00e3os na lama, olhos nas estrelas<\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">E<\/span><span class=\"s2\">m 1075<\/span><span class=\"s1\">, ap\u00f3s tr\u00eas anos como assistente do governador de Hangzhou, uma das mais esplendorosas cidades da China, Su Dongpo pediu para ser transferido para Mizhou, perto da actual Qingdao, na prov\u00edncia de Shandong. A raz\u00e3o era simples, passaria a viver n\u00e3o muito longe do irm\u00e3o Su Zhe, colocado na cidade de Jinan.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Viajando de barco por rios e canais, em carruagem, a cavalo, a p\u00e9, em longas jornadas que se prolongavam por meses, conhecia cada vez melhor a China e as condi\u00e7\u00f5es deplor\u00e1veis da vida de muitas das popula\u00e7\u00f5es do imp\u00e9rio. Os territ\u00f3rios eram vastos e densamente povoados e, como sempre acontece nas prov\u00edncias chinesas, as c\u00edclicas inunda\u00e7\u00f5es e secas, o mau governo, os impostos brutais que reca\u00edam sobre os camponeses provocavam a desola\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria, as epidemias, a fome.<\/p>\n<p class=\"p3\">No seu labor de mandarim local foi constante a luta de Su Dongpo para tentar diminuir o sofrimento do povo. Pouco poderia fazer, era um simples gr\u00e3o de trigo boiando nas \u00e1guas de um rio, ora puras, oras lamacentas, mas nos seus poemas n\u00e3o se limita a falar de luas faiscantes, da serenidade da n\u00e9voa, dos perfumes das flores de l\u00f3tus. Temos tamb\u00e9m, em palavras amargas, a m\u00e1goa, a dor, a tristeza, os solu\u00e7os da pobre esposa de um velho campon\u00eas, os ossos esbranqui\u00e7ados dos mortos de fome apodrecendo na berma dos caminhos. Su Dongpo, que chegou a parar a jornada para dar sepultura a esses cad\u00e1veres, reconhecia, por\u00e9m, a sua incapacidade para mudar o mundo. Num poema escrito em Mizhou, em 1075, conclui:<\/p>\n<p class=\"p4\"><i>(\u2026) A vida avan\u00e7a, \u00e9 tempo de decis\u00f5es,<br \/>\n<\/i><i>ser\u00e1 melhor ainda este infatig\u00e1vel labor,<br \/>\n<\/i><i>ou o repouso e a paz?<br \/>\n<\/i><i>Porque n\u00e3o meter as m\u00e3os dentro das mangas<br \/>\n<\/i><i>e, pregui\u00e7osamente, olhar apenas<br \/>\n<\/i><i>o perpassar dos dias?<br \/>\n<\/i><i>Que a sa\u00fade nos acompanhe num incerto porvir,<br \/>\n<\/i><i>tranquilidade nos anos que nos restam,<br \/>\n<\/i><i>o prazer de uma ta\u00e7a de bom vinho.\u00a0<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">O poeta permaneceu em Mizhou somente durante dois anos. Em Abril de 1077 chegou a Xuzhou, hoje no norte da prov\u00edncia de Jiangsu, para se tornar o governador da cidade e logo em Agosto deparou-se com uma tr\u00e1gica situa\u00e7\u00e3o, as \u00e1guas do rio Amarelo, n\u00e3o muito distantes, haviam-se espalhado pelas vast\u00edssimas plan\u00edcies a sul do seu leito e inundado aldeias e cidades. Milhares e milhares de pessoas morriam afogadas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Su Dongpo permaneceu sempre em Xuzhou, mandou refor\u00e7ar e altear as muralhas do burgo, chamou milhares de trabalhadores que conseguiram parcialmente impedir o avan\u00e7o das \u00e1guas sobre os n\u00facleos urbanos. Ele pr\u00f3prio, encharcado na lama, foi um dos que mais lutou, no terreno, pela vida das popula\u00e7\u00f5es e pela defesa dos bens de todos. Falou com o comandante militar da regi\u00e3o, vieram soldados, desviaram-se as \u00e1guas para norte, para um bra\u00e7o seco do rio Amarelo e, ap\u00f3s quarenta e cinco dias de combate \u00e0s cheias, a cidade de Xuzhou estava salva.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Jamais no imp\u00e9rio chin\u00eas se tinha visto um mandarim, governador de cidade enterrado na lama, combatendo o avan\u00e7o das \u00e1guas bra\u00e7o a bra\u00e7o com o povo,\u00a0\u00a0jamais se tinha visto um governador preocupado com a sa\u00fade dos muitos prisioneiros que enchiam os c\u00e1rceres de Xuzhou. O poeta escolhera uns tantos m\u00e9dicos para cuidar dos prisioneiros doentes.<\/p>\n<p class=\"p3\">A fama de Su Dongpo crescia, estendia-se pelo imp\u00e9rio. Os seus poemas, impressos aos milhares, come\u00e7avam a ser conhecidos, a poesia era, na dinastia Song, a forma mais comum de comunica\u00e7\u00e3o de ideias.<\/p>\n<p class=\"p3\">Contudo, as coisas a n\u00edvel pol\u00edtico n\u00e3o lhe corriam bem. No entender da fac\u00e7\u00e3o que se assenhoreara do poder na corte, em Kaifeng, era necess\u00e1rio eliminar o poeta. Os concluios da corte grassavam, enredando o poeta. A inveja crescia, inventavam-se ou aproveitavam-se frases isoladas dos seus poemas para se tecerem complicadas acusa\u00e7\u00f5es que podiam levar at\u00e9 \u00e0 sua condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. Vieram de novo a lume os memorandos no passado dirigidos ao imperador, com ofensas grav\u00edssimas ao todo poderoso monarca.<\/p>\n<p class=\"p3\">Em Mar\u00e7o de 1079, Su Dongpo foi transferido para a cidade de Huzhou, junto ao lago Taihu, no sul da prov\u00edncia de Jiangsu, mas n\u00e3o foi longa a perman\u00eancia no lugar. Tr\u00eas meses e meio depois recebia a visita dos guardas imperiais que o vinham deter e levar para a capital, a fim de ser julgado em Kaifeng. O poeta desconhecia o teor da acusa\u00e7\u00e3o, mas anteviu o pior, a pena de morte. Com todos em l\u00e1grimas, despediu-se da fam\u00edlia e ficou decidido que Su Mai, o filho mais velho, o acompanharia at\u00e9 \u00e0 capital. Na barca, no lago Taihu, chegou a pensar em suicidar-se, afogando-se nas \u00e1guas, mas pensou que isso tamb\u00e9m afectaria a carreira de mandarim do seu irm\u00e3o Su Zhe.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Chegado a Kaifeng em finais de Agosto, foi metido nos c\u00e1rceres imperiais. Todos os dias, o filho, agora com 22 anos, vinha visit\u00e1-lo e trazer-lhe comida. O julgamento come\u00e7ou com acusa\u00e7\u00f5es deliberadamente manipuladas, tendenciosamente explicitadas como \u201cQuando um representante do poder perde o sentimento do dever e passa a seguir apenas os ditames do seu pr\u00f3prio interesse, nada mais h\u00e1 que possa det\u00ea-lo. Os crimes de Su Shi s\u00e3o mais do que imperdo\u00e1veis e mesmo que ele morresse mil mortes, n\u00e3o resgataria os insultos que dirigiu a Sua Majestade.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Su Dongpo foi ouvido pelo tribunal, disse ter quarenta e dois anos de idade, haver desempenhado fun\u00e7\u00f5es de mandarim em v\u00e1rios lugares do imp\u00e9rio, tendo procurado sempre ser justo e equilibrado na defesa dos interesses do povo e do imperador. Reconhecia ter escrito um poema a um amigo onde referia que, a caminho da cidade de Mizhou, com os olhos cheios de l\u00e1grimas, enterrara cad\u00e1veres abandonados de homens, mulheres e crian\u00e7as que haviam morrido de fome e ca\u00eddo, ao longo da estrada. Escrevera ent\u00e3o que n\u00e3o sentira alegria nenhuma em ser mandarim. Confessou que ter\u00e1 exagerado algumas vezes ao redigir memorandos e poemas que poderiam ser entendidos como cr\u00edticas desonestas, caluniosas e injustas. De tudo pedia desculpa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O julgamento terminou em Outubro e todo o processo foi apresentado ao imperador Shenzong que ter\u00e1 dito mais ou menos o seguinte: \u201cSei que Su Shi tem a consci\u00eancia tranquila.\u201d Entretanto faleceu a imperatriz-vi\u00fava e era costume decretar-se uma amnistia geral em tais circunst\u00e2ncias, o que, de facto, aconteceu, mas o poeta n\u00e3o foi contemplado.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">A 29 de Dezembro de 1079 saiu do pal\u00e1cio uma ordem que enviava Su Dongpo para o vilarejo de Huangzhou, na margem esquerda do rio Yangts\u00e9, perto da actual cidade de Wuhan, na prov\u00edncia de Hubei. Davam-lhe o cargo de intendente das \u00e1guas e o posto de tenente numa pequen\u00edssima unidade de treino militar, sem receber quaisquer honor\u00e1rios por parte do Estado. O poeta devia ficar confinado ao distrito, n\u00e3o podia abandonar o lugar, nem assinar documentos oficiais. Na v\u00e9spera do Ano Novo de 1080, Su Dongpo teve autoriza\u00e7\u00e3o para sair da pris\u00e3o. Transpostos os port\u00f5es do c\u00e1rcere, respirou encantado o ar livre que o rodeava, sentiu a brisa acariciando-lhe o rosto e comp\u00f4s um poema:\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\"><i>Em toda a minha vida,<br \/>\n<\/i><i>s\u00f3 aborrecimentos por causa da escrita.<br \/>\n<\/i><i>A partir de hoje,<br \/>\n<\/i><i>quantas menos honrarias<br \/>\n<\/i><i>maior o sossego.<br \/>\n<\/i><i>Finalmente posso mijar em paz.<br \/>\n<\/i><i>(\u2026)\u00a0<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>A lua, no meio do Outono<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p2\">Ao entardecer, nuvens dispersas desaparecem,<br \/>\nn\u00e3o se v\u00eaem mais montanhas,<br \/>\nsilenciosa, a Via L\u00e1ctea d\u00e1 a volta, na ab\u00f3bada de jade.<br \/>\nSe nesta noite, neste nosso existir,<br \/>\nn\u00e3o fruirmos prazer, mil alegrias,<br \/>\nno pr\u00f3ximo m\u00eas, no pr\u00f3ximo ano,<br \/>\nquem sabe por onde se desdobrar\u00e3o as nossas vidas?<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\nFim da floresta, resplandece a montanha<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p2\">Acaba a floresta, resplandece a montanha,<br \/>\nos bambus escondem um muro feito pelos homens.<br \/>\nO canto das cigarras na erva murcha, junto ao lago,<br \/>\np\u00e1ssaros brancos em c\u00edrculos no c\u00e9u aparecem, desaparecem.<br \/>\nL\u00f3tus vermelhos reflectem-se na \u00e1gua, soltam perfumes,<br \/>\numa muralha antiga rodeia um velho lar.<br \/>\nLentamente, apoiado no bast\u00e3o, caminho para o sol poente,<br \/>\nde s\u00fabito, uma chuva cai, ilumina o c\u00e9u,<br \/>\nSempre a incerteza no avan\u00e7ar do tempo,<br \/>\no final do dia envolto em espasmos de frescura.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u9e67\u9e2a\u5929\u00b7\u6797\u65ad\u5c71\u660e\u7af9\u9690\u5899<\/p>\n<p class=\"p1\">\u6797\u65ad\u5c71\u660e\u7af9\u9690\u5899\u3002<br \/>\n\u4e71\u8749\u8870\u8349\u5c0f\u6c60\u5858\u3002<br \/>\n\u7ffb\u7a7a\u767d\u9e1f\u65f6\u65f6\u89c1\uff0c<br \/>\n\u7167\u6c34\u7ea2\u8556\u7ec6\u7ec6\u9999\u3002<br \/>\n\u6751\u820d\u5916\uff0c\u53e4\u57ce\u65c1\u3002<br \/>\n\u6756\u85dc\u5f90\u6b65\u8f6c\u659c\u9633\u3002<br \/>\n\u6bb7\u52e4\u6628\u591c\u4e09\u66f4\u96e8\uff0c<br \/>\n\u53c8\u5f97\u6d6e\u751f\u4e00\u65e5\u51c9\u3002<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\nN\u00e9voas de Lushan, mar\u00e9s de Zhejiang<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p2\">N\u00e9voas de Lushan, mar\u00e9s de Zhejiang.<br \/>\nAntes da viagem, nostalgias mil,<br \/>\ndepois da viagem, o crescer dos dias.<br \/>\nN\u00e9voas de Lushan, mar\u00e9s de Zhejiang.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u5e90\u5c71\u70df\u96e8\u6d59\u6c5f\u6f6e<\/p>\n<p class=\"p1\">\u5e90\u5c71\u70df\u96e8\u6d59\u6c5f\u6f6e\uff0c<br \/>\n\u672a\u81f3\u5343\u822c\u6068\u4e0d\u6d88\u3002<br \/>\n\u5230\u5f97\u8fd8\u6765\u522b\u65e0\u4e8b\uff0c<br \/>\n\u5e90\u5c71\u70df\u96e8\u6d59\u6c5f\u6f6e\u3002<\/p>\n<p class=\"p1\"><i>Su Dongpo (1037-1101) n\u00e3o p\u00e1ra de nos surpreender.<br \/>\n<\/i><i>O vazio e o sil\u00eancio s\u00e3o temas caros \u00e0 grande poesia chinesa.<br \/>\n<\/i><i>Eis quarenta caracteres de poemas de Su Dongpo, recriando o tema:<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Vazio e sil\u00eancio<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(dois excertos)<\/b><\/h3>\n<p class=\"p2\">Para a maravilha do poema,<br \/>\no melhor \u00e9 o vazio e o sil\u00eancio.<br \/>\nEm sil\u00eancio, floresce tudo o que se move,<br \/>\no vazio alberga dez mil imagens.<\/p>\n<p class=\"p2\">O meu cora\u00e7\u00e3o vazio, suportando coisa nenhuma,<br \/>\nn\u00e3o importam as comezinhas coisas do mundo.<br \/>\nOlhem a \u00e1gua de um velho po\u00e7o,<br \/>\ndez mil imagens aparecem, desaparecem.<i><\/i><\/p>\n<p class=\"p1\">\u6b32\u4ee4\u8bd7\u8bed\u5999<br \/>\n\u65e0\u538c\u7a7a\u4e14\u9759<br \/>\n\u9759\u6545\u4e86\u7fa4\u52a8<br \/>\n\u7a7a\u6545\u7eb3\u4e07\u5883<\/p>\n<p class=\"p1\">\u6211\u5fc3\u7a7a\u65e0\u7269<br \/>\n\u65af\u6587\u5b9a\u4f55\u95f4<br \/>\n\u541b\u770b\u53e4\u4e95\u6c34<br \/>\n\u4e07\u8c61\u81ea\u5f80\u8fd8<\/p>\n<p class=\"p1\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\">A prop\u00f3sito destes versos, do sil\u00eancio e da \u00e1gua no velho po\u00e7o, escreveu He Qing, letrado chin\u00eas nosso contempor\u00e2neo:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO vazio e o sil\u00eancio s\u00e3o considerados como o princ\u00edpio primevo da poesia. Quanto mais vazio e silencioso um poema soa, mais valor est\u00e9tico ele ganha.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201c(&#8230;) Pode-se imaginar esse sil\u00eancio, essa imobilidade, essa limpidez, essa frescura, essa profundidade temporal da \u00e1gua de um antigo po\u00e7o, e imaginar que esta \u00e1gua silenciosa reflecte, serenamente, os v\u00f4os das aves, as viagens das nuvens, as vibra\u00e7\u00f5es da luz do sol, as os- cila\u00e7\u00f5es das relvas e dos ramos das \u00e1rvores, as mil cores da natureza. Nesta imagem po\u00e9tica reside n\u00e3o s\u00f3 a maior sabedoria chinesa, mas tamb\u00e9m o estado ideal da est\u00e9tica chinesa: permanecer ancorado no sil\u00eancio mais profundo e contemplar os movimentos mais \u00edntimos do universo&#8230;\u201d (He Ding, <i>Images du Silence, Pens\u00e9e et Art Chinois<\/i>, Paris, L\u2019Harmattan, 1999, pag. 79\/80.)<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\nPrimeira visita <\/b><b>\u00e0 Fal\u00e9sia Vermelha<br \/>\n<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\">N<span class=\"s2\">o Outono<\/span> de 1081, a 16 do s\u00e9timo m\u00eas, fui de barco com alguns amigos at\u00e9 \u00e0 Fal\u00e9sia Vermelha. Soprava uma brisa doce, serenas as \u00e1guas do rio. Ofereci vinho aos meus amigos, recit\u00e1mos poemas em louvor da lua, ento\u00e1mos can\u00e7\u00f5es da minha autoria.<\/p>\n<p class=\"p3\">Depois, a lua apareceu sobre as montanhas do leste e come\u00e7ou a sua viagem entre as constela\u00e7\u00f5es. Uma leve n\u00e9voa branca estendia-se sobre o rio, o brilho das \u00e1guas confundia-se com o resplandecer do c\u00e9u. Demos liberdade \u00e0 fr\u00e1gil barca e vog\u00e1mos para \u00e1guas distantes, como se flutu\u00e1ssemos no vazio, cavalgando brisas, despreocupados quanto a parar, como se tiv\u00e9ssemos abandonado o mundo suspensos nas asas do vento e f\u00f4ssemos uma esp\u00e9cie de g\u00e9nios imortais.<\/p>\n<p class=\"p3\">Beb\u00edamos, satisfeitos, cant\u00e1vamos marcando a cad\u00eancia na madeira da barca. Foi esta a can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p2\"><i>Os remos traseiros s\u00e3o de pau de canela,<br \/>\n<\/i><i>os remos da frente s\u00e3o caules de orqu\u00eddeas.<br \/>\n<\/i><i>Batem na luminosidade do c\u00e9u,<br \/>\n<\/i><i>subindo no cintilar da corrente.<br \/>\n<\/i><i>No espa\u00e7o ilimitado<br \/>\n<\/i><i>abre-se o sentir de um cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/i><i>Ao longe, um homem s\u00e1bio,<br \/>\n<\/i><i>caminha pelos confins do mundo.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\">Um dos convidados da jornada sabia tocar flauta e acompanhou a nossa can\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica suspirava, como um queixume, um solu\u00e7o, um gemido, o som prolongava-se, ondulante, estendendo-se como fios de seda. O drag\u00e3o das \u00e1guas dan\u00e7ava na sua caverna escondida, l\u00e1grimas encharcavam a barca de uma vi\u00fava solit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"p3\">Emocionado, apertei os panos da minha cabaia e perguntei ao meu amigo o porqu\u00ea\u00a0da tristeza e\u00a0da melancolia. Respondeu:<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\"><i>\u201cO pr\u00edncipe Cao Cao j\u00e1 tudo explicou.<br \/>\n<\/i><\/span><i>Clara a lua, raras as estrelas,<br \/>\n<\/i><i>os corvos sombrios voam para sul.\u201d\u00a0<\/i><i><\/i><\/p>\n<p class=\"p3\">Ora a oeste de onde n\u00f3s est\u00e1vamos, situa-se Xiakou, do outro lado, a leste, fica Wuchang. Misturam-se as montanhas e os cursos de \u00e1gua, imensos, sombrios, azuis. Aqui foi Cao Cao derrotado pelo jovem Zhou Yu. Depois de ter tomado de assalto a cidade de Jingzhou e submetido Jiangling, o pr\u00edncipe Cao avan\u00e7ou para leste, seguindo o leito do rio. As suas barca\u00e7as de guerra estendiam-se por cem l\u00e9guas, os seus pend\u00f5es e bandeiras escondiam o c\u00e9u. Sentado nas margens do rio, tendo guardado a sua alabarda, bebia vinho e recitava poemas. Cao Cao foi um dos grandes her\u00f3is da nossa Hist\u00f3ria, mas onde est\u00e1 hoje?<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Como falar ent\u00e3o de mim ou de v\u00f3s, lenhadores, pescadores nas ilhotas do rio, camaradas de peixes e amigos de veados\u2026 Viajamos numa barca min\u00fascula como uma casca de \u00e1rvore, em vez de termos ta\u00e7as de vinho, bebemos em humildes calaba\u00e7as, esvoa\u00e7amos entre c\u00e9u e terra como gente ef\u00e9mera, somos simples gr\u00e3os de cereal no meio de infind\u00e1veis mares. Lamentamos a passagem de uma vida t\u00e3o breve e r\u00e1pida, temos inveja do grande rio Yangts\u00e9 que jamais se cansa de correr. Gost\u00e1vamos de nos juntar aos imortais no seu v\u00f4o, de partir para longe, de existir para sempre, arrastados pelo brilho do luar. Sabemos que tudo isso \u00e9 imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar e deixamos cair na placidez do vento o eco l\u00fagubre das nossas queixas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Eu pergunto: \u201cConhecem a \u00e1gua e a lua? Desaparecem, mas jamais se separam de n\u00f3s. A lua cresce, decresce, mas n\u00e3o aumenta nem diminui. Se considerarmos o todo do ponto de vista do que muda, ent\u00e3o o c\u00e9u e a terra n\u00e3o deviam durar mais do que um piscar de olhos. Se considerarmos o todo do ponto de vista do que n\u00e3o muda, ent\u00e3o a natureza e n\u00f3s pr\u00f3prios, mudamos mas pouco.<\/p>\n<p class=\"p3\">Vale a pena invejar o que quer que seja?<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Para tudo o que existe na natureza, entre c\u00e9u e terra, surge sempre um mestre. \u00c9 algo que n\u00e3o podemos escolher e decidir. Mas podemos contar com a brisa serena por cima do rio e uma lua clara entre montanhas. A primeira traz o som aos nossos ouvidos, a segunda, as cores aos nossos olhos. Estas podem ser nossas, para fruir sem gastar, o que mostra que o criador n\u00e3o escondeu tudo, h\u00e1 prazeres \u00e0 solta ao alcance do cora\u00e7\u00e3o dos homens.&#8221;\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Feliz, o meu amigo sorriu. Enxagu\u00e1mos ent\u00e3o as calaba\u00e7as que enchemos outra vez de vinho. Comemos fruta e umas tantas iguarias. Os pratos e os copos espalhavam-se em desordem. Deit\u00e1mo-nos nas t\u00e1buas da barca, encostados uns aos outros, sem nos apercebermos que, a leste, o dia j\u00e1 nascia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>Carta ao amigo Qin Guan<br \/>\n<\/b><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Quando cheguei a Huangzhou estava preocupado com o que iria encontrar. O meu sal\u00e1rio havia sido cortado e a minha fam\u00edlia era extensa. Contudo, fazendo poucas despesas, consegui n\u00e3o gastar mais de 150 sapecas por dia. No in\u00edcio do m\u00eas recebia 4.500 moedas e dividi-as em 30 sacos que pendurava nas vigas da casa. Todos os dias, de manh\u00e3, com uma cana pesco um saco de sapecas. Tamb\u00e9m penduro uns cani\u00e7os de bambu onde guardo o dinheiro que sobra. \u00c9 um m\u00e9todo que me foi ensinado pelo meu amigo Xia Yunlao. Creio ter dinheiro suficiente para um ano ou mais, e depois aparecer\u00e3o outras solu\u00e7\u00f5es. A \u00e1gua quando corre escava a terra, n\u00e3o vale a pena preocupar-me demasiado com o futuro. Entendes porque s\u00e3o t\u00e3o poucas as inquieta\u00e7\u00f5es na minha mente?\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">Nas margens do rio Yangts\u00e9 situa-se Wuchang. Em redor, a paisagem de montanhas e \u00e1gua \u00e9 prodigiosa. A cidadezinha \u00e9 habitada por um homem chamado Wang, natural de Sichuan. De quando em quando, o vento e as \u00e1guas agitadas do rio impedem-me de regressar ao lar, ent\u00e3o o meu amigo Wang mata um frango e cozinha uma panela com milho mi\u00fado. Posso permanecer em sua casa durante v\u00e1rios dias, n\u00e3o \u00e9 coisa que o aborre\u00e7a. Tenho outro amigo, o Pan, dono de uma taberna no cais de Fankou. Bastam umas tantas remadas numa barca e chego \u00e0 sua quitanda. O vinho da aldeia \u00e9 encorpado, abundam tangerinas e di\u00f3spiros. Os inhames t\u00eam mais de um p\u00e9 de comprimento e podem ser comparados aos das terras de Sichuan. O arroz vem de outras regi\u00f5es, por via fluvial, e custa apenas vinte ta\u00e9is por alqueire. A carne de carneiro \u00e9 t\u00e3o boa como a das prov\u00edncias do norte, porco, vaca e cabra s\u00e3o muito baratos, os peixes e caranguejos n\u00e3o custam quase nada. Hu Tingshi, o inspector do Departamento Vin\u00edcola, trouxe dez mil livros com ele que tem prazer em emprestar aos amigos. Em Huangzhou existem v\u00e1rios pequenos funcion\u00e1rios estatais, todos amantes da boa cozinha que gostam de oferecer banquetes. Depois desta descri\u00e7\u00e3o podes aperceber-te de que a minha vida por aqui \u00e9 mais do que agrad\u00e1vel. Adorava conversar contigo sobre todas estas coisas, mas j\u00e1 n\u00e3o tenho papel, a folha est\u00e1 a acabar.<\/p>\n<p class=\"p1\">Imagino-te a leres esta carta, um sorriso de concord\u00e2ncia, cofiando a barba.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: right;\"><b>ano de 1080<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<h3 class=\"p1\" style=\"text-align: left;\"><i>Su Dongpo conheceu o degredo e o ex\u00edlio, mas sabia transformar as adversidades em tempos de pequenos e inesquec\u00edveis prazeres.\u00a0No ano de 1080, ap\u00f3s 130 dias na pris\u00e3o, por supostamente ter criticado o imperador, Su Dongpo foi despromovido e enviado como\u00a0\u00a0fiscal das \u00e1guas e segundo comandante da guarda da insignificante vilazinha de Huangzhou, na margem norte do rio Yangts\u00e9, a meio caminho entre os lagos Dongting e Poyang. A sua casa situava-se no lugarejo de Lingao e aqui Su Dongpo escreveu alguns dos seus mais belos poemas. Este \u00e9 um excerto de uma carta ent\u00e3o enviada ao seu amigo Qin Guan.\u00a0<\/i><\/h3>\n<\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b>\u00a0<\/b><\/h3>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\nViajando para Chi Ting\u00a0<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p2\">Na viagem para Chi Ting, Pan, Ku e Guo, tr\u00eas homens da regi\u00e3o s\u00e3o meus companheiros. Vamos ao mosteiro da doutrina <i>chan<\/i> (<i>zen<\/i>), a leste da aldeia de Nu Wang.<span class=\"s1\"><sup>1<\/sup><\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">A Primavera fria,<br \/>\nn\u00e3o saio de casa h\u00e1 dez dias,<br \/>\nn\u00e3o me apercebi que rebentos de salgueiro<br \/>\nbaloi\u00e7am j\u00e1 sobre os telhados da aldeia.<br \/>\nOi\u00e7o o estilha\u00e7ar do gelo,<br \/>\no ru\u00eddo espalhando-se pelo vale.<br \/>\nManchas de erva verdejante<br \/>\nirrompem dos fogos de Inverno.<br \/>\nTalh\u00f5es de terrenos baldios<br \/>\npedem-me para eu ficar por aqui.<br \/>\nAque\u00e7o meia botija de vinho turvo,<br \/>\ndia ap\u00f3s dia avan\u00e7o por estes caminhos.<br \/>\nA chuva fina, ameixieiras em flor<br \/>\nabalam-me a serenidade da alma.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: left;\"><b>ano de 1081<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p6\">1 Nu Wang fica a trinta l\u00e9guas da vilazinha de Huangzhou. Pan \u00e9 comerciante de vinhos, Ku vende ervas medicinais e Guo \u00e9 um monge ermita.<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>\u00a0<\/b><\/h3>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Su Dongpo \u00e9 considerado o maior poeta da dinastia Song e um dos maiores de toda a poesia chinesa, ao lado de Li Bai e de Du Fu. Nasceu em Meishan, em 1037, na prov\u00edncia de Sichuan. 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