{"id":679,"date":"2025-09-25T02:12:14","date_gmt":"2025-09-24T18:12:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=679"},"modified":"2025-09-25T02:12:51","modified_gmt":"2025-09-24T18:12:51","slug":"chinoiseries","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/chinoiseries\/","title":{"rendered":"Chinoiseries"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\">micro-fic\u00e7\u00f5es de <span class=\"s1\"><b>Cl\u00e1udia Ribeiro<\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Lili, cantador de fado<br \/>\n<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">E<\/span><span class=\"s2\">xiste<\/span><span class=\"s1\">, para os lados de Bel\u00e9m, um painel de azulejos n\u00e3o muito antigo que reproduz a figura de um chin\u00eas. O homem reproduzido existiu realmente nas ruas da Lisboa das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, e chamava-se Li. Os lisboetas de ent\u00e3o, com a sua habitual verve, chamavam-no Lili. Tratava-se de um chin\u00eas vendedor de rua, natural da prov\u00edncia de Zhejiang. Como \u00e9 sabido, na Lisboa antiga, a Lisboa dos preg\u00f5es, dos galegos aguadeiros, das varinas e saloios, das mulheres da fava-rica e dos pretos caiadores, havia ainda um outro tipo de vendedor &#8211; os chineses das gravatas. O Lili pertencia a esse grupo, pouco numeroso, mas sempre alvo de muita curiosidade por parte dos transeuntes, que pasmavam para eles, desabituados ainda de extravag\u00e2ncias. O Lili, por\u00e9m, destacava-se, pois jamais abandonou os trajes tipicamente chineses que trouxera de Zhejiang. Era uma galhofa por essas ruelas abaixo sempre que surgia nas suas cabaias coloridas, caixa de madeira a tiracolo com gravatas para mercar. Excepto quanto \u00e0 intransigente recusa em envergar vestes ocidentais o Lili era ent\u00e3o, e de longe, o chin\u00eas mais bem adaptado \u00e0 vida portuguesa. Por isso, e porque tinha um temperamento alegre e suportava a tro\u00e7a com jovialidade, com resposta pronta para tudo, foi ganhando o respeito e a estima do povo de Lisboa. Pela manh\u00e3, podia topar-se com ele a sorver o seu caf\u00e9 de lepes e, em a noite caindo, n\u00e3o dispensava o pratinho de iscas <i>com elas,<\/i> repugnante para qualquer outro chin\u00eas. Amantizado com a dona de um caf\u00e9 de camareiras, diz-se que frequentava as meias portas, onde agarrava na banza e soltava o fado com esp\u00edrito, sempre vestido \u00e0 chinesa e trocando os <i>erres<\/i> pelos <i>eles<\/i>, o que lhe valeu a alcunha de \u201cfaia amarelo\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Quando se encomendou o referido painel de azulejos, o artista julgou de gosto ex\u00f3tico, \u00e0 moda da \u00e9poca, pintar um mandarim. Lembrou-se logo do Lili para fazer de modelo. O chin\u00eas aceitou posar com as suas melhores vestes em troca de umas moedas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">O Lili ainda galgaria as cal\u00e7adas de Lisboa com as suas gravatas durante mais alguns anos mas, ap\u00f3s dura rixa numa viela da Mouraria, acabou por fugir para Mo\u00e7ambique, onde ter\u00e1 eventualmente findado os seus dias. Foi visto pela \u00faltima vez, numa idade j\u00e1 bastante avan\u00e7ada, a dan\u00e7ar o merengue em grupo numa rua esconsa da ent\u00e3o Louren\u00e7o Marques.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O chin\u00eas Lili, tal como a famosa preta Fernanda &#8211; que serviu de modelo para a figura feminina em bronze que simboliza a \u00c1frica no pedestal da est\u00e1tua ao Marqu\u00eas de S\u00e1 da Bandeira -, \u00e9 uma das duas personagens populares de origem estrangeira da cidade de Lisboa reproduzidas numa obra art\u00edstica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p2\"><span class=\"s1\">Lao Tse e o \u201cVerdadeiro Cl\u00e1ssico do Inomin\u00e1vel\u201d<br \/>\n<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N<\/span><span class=\"s2\">a cave<\/span><span class=\"s1\"> do edif\u00edcio da Reitoria da Universidade Cl\u00e1ssica de Lisboa existe uma biblioteca sinol\u00f3gica da maior import\u00e2ncia, que permanece todavia desconhecida do p\u00fablico devido \u00e0 inexist\u00eancia no pa\u00eds de especialistas na \u00e1rea. A maioria das obras foi doada pelo Instituto Cultural de Macau. L\u00e1 se podem consultar, entre outros tesouros, as obras completas de Ouyang Xiu, a poesia de Li Bai, Du Fu e Bai Ju Yi, os principais romancistas contempor\u00e2neos e o Sutra do Diamante.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Nessa biblioteca encontra-se tamb\u00e9m o \u00fanico manuscrito existente em todo o mundo da obra atribu\u00edda a Lao Tse (Lao Zi), o \u201cVerdadeiro Cl\u00e1ssico do Inomin\u00e1vel\u201d (<\/span><span class=\"s5\">\u7121\u540d\u771f\u7d93<\/span><span class=\"s1\"><i>Wu Ming Zheng Jing<\/i>). Para al\u00e9m do famoso <i>Dao De Jing<\/i> (<\/span><span class=\"s5\">\u9053\u5fb7\u7d93<\/span><span class=\"s1\">Tao Te King), o <i>Wu Ming Zheng Jing<\/i> \u00e9 a sua \u00fanica obra conhecida. Alguns sin\u00f3logos estrangeiros opinam que o recentemente descoberto <i>Wu Ming Zheng Jing <\/i>(abreviado em geral para <i>Wu Jing<\/i>) \u00e9 ainda superior ao <i>Dao De Jing<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O manuscrito foi descoberto no t\u00famulo do s\u00e1bio, no templo de Lou Guan Tai, prov\u00edncia de Shanxi. O t\u00famulo foi violado em 1994 durante um ritual secreto praticado por uma seita esot\u00e9rica de alquimistas tao\u00edstas. A seita defende que Lao Tse continua vivo, tal como sua m\u00e3e, cujo t\u00famulo se encontra ao lado, uma vez que ambos se dedicaram \u00e0 pr\u00e1tica de <i>lian dan<\/i> <\/span><span class=\"s5\">\u7149\u4e39<\/span><span class=\"s1\">, isto \u00e9, ao fabrico de p\u00edlulas da imortalidade. De facto, mais nada, a n\u00e3o ser o <i>Wu Jing<\/i>, foi encontrado no t\u00famulo. A obra, mais breve ainda e mais densa do que o <i>Dao De Jing<\/i> foi caligrafada sobre tiras de bambu, mas desfez-se \u00e0 medida que um dos iniciados tao\u00edstas a copiava apressadamente para um caderno.<br \/>\nNo cap. XX do <i>Wu Jing<\/i> pode ler-se: \u201cApenas em mim nada \u00e9 mortal \/ tesouro do inomin\u00e1vel \/ mist\u00e9rio do grande Dao!\u201d (<\/span><span class=\"s5\">\u6211\u7368\u7121\u6b7b\u5730\u4e5f<\/span><span class=\"s1\"> \/ <\/span><span class=\"s5\">\u7121\u540d\u4e4b\u5bf6<\/span><span class=\"s1\"> \/ <\/span><span class=\"s5\">\u5927\u9053\u4e4b\u7384\u3002<\/span><span class=\"s1\"><i>Wo du wu si di ye \/ wu ming zhi bao \/ da dao zhi xuan<\/i>). Segundo os alquimistas, trata-se, com efeito, de uma obra composta por Lao Tse j\u00e1 depois de se ter tornado um Imortal.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Tr\u00eas meses ap\u00f3s a sua inesperada descoberta, o caderno foi vendido ao governo chin\u00eas para divulga\u00e7\u00e3o, decepado embora num ter\u00e7o das suas p\u00e1ginas. Segundo consta, nessas p\u00e1ginas, Lao Tse descreveria minuciosamente a receita infal\u00edvel para alcan\u00e7ar a longevidade e a imortalidade, em cuja demanda se aplicaram gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de seguidores do tao\u00edsmo. O grupo de alquimistas mant\u00e9m absoluto segredo sobre o seu conte\u00fado e a press\u00e3o do governo para resgatar as folhas tem sido v\u00e3. A obra foi publicada incompleta pela Editora Xinhua em 1995. Quanto ao manuscrito truncado, foi roubado em 1998 do dep\u00f3sito da Biblioteca de Pequim, onde se encontrava, para ressurgir posteriormente num leil\u00e3o da Sotheby\u2019s. Stanley Ho adquiriu-o ent\u00e3o a peso de ouro ap\u00f3s ac\u00e9rrima disputa com o Instituto Ricci. Como foi parar \u00e0 cave da Biblioteca da Reitoria da Universidade Cl\u00e1ssica de Lisboa, ningu\u00e9m o sabe explicar. Os descendentes de Stanley Ho encontram-se neste momento em negocia\u00e7\u00f5es com a dita Reitoria no sentido de reaver o precioso manuscrito. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">O inc\u00eandio do pavilh\u00e3o<\/span><\/h3>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">A <\/span><span class=\"s2\">cidade<\/span><span class=\"s1\"> de Macau esteve representada na Exposi\u00e7\u00e3o do Mundo Portugu\u00eas em Bel\u00e9m quando decorria o ano de 1940. Construiu-se a Rua de Macau, cujo maior atractivo era um colossal paquiderme de pedra, de tromba erguida e carregando no dorso um pavilh\u00e3o de dois andares em estilo chin\u00eas. O portal que dava acesso a essa rua pode ainda hoje ser visitado entre a folhagem do Jardim Bot\u00e2nico Tropical de Lisboa. No entanto, o elefante com o seu pavilh\u00e3o desapareceu misteriosamente. O processo relativo ao desaparecimento foi abafado pelo regime de Salazar. Encontra-se na Torre do Tombo e, ainda hoje, n\u00e3o pode ser consultado pelo p\u00fablico em geral.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Segundo consta, a Seita do Drag\u00e3o Azul, uma seita nacionalista chinesa, mantinha entre os estudantes macaenses residentes em Portugal uma pequena ramifica\u00e7\u00e3o. Formada ainda sob influ\u00eancia, pelo menos indirecta, do Dr. Sun Yat-sen enquanto este vivia em Macau nos primeiros anos do s\u00e9culo XX, a seita encontrava-se ent\u00e3o activamente empenhada na luta contra o invasor japon\u00eas que ocupava toda a China do leste e, por extrapola\u00e7\u00e3o, contra qualquer poder colonizador. Os estudantes macaenses em Portugal receberam ordens para queimar toda a \u00e1rea colonial da Exposi\u00e7\u00e3o na noite seguinte \u00e0 da sua abertura oficial. Algo ter\u00e1, por\u00e9m, corrido mal e Salazar foi informado a tempo. A vigil\u00e2ncia apertou-se em torno da \u00e1rea colonial e os asi\u00e1ticos, goeses inclu\u00eddos, passaram a ser discretamente revistados e identificados antes de nela poderem penetrar. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Os planos da Seita do Drag\u00e3o Azul sa\u00edram gorados pela m\u00e1quina salazarista e os portugueses puderam regozijar-se com a vastid\u00e3o do seu imp\u00e9rio. No entanto, na \u00faltima noite da Exposi\u00e7\u00e3o, um estudante macaense, de nome Xavier Cheong, conseguiu deitar fogo ao s\u00edmbolo de Macau. No flanco do elefante de pedra pincelou insultos a Portugal em portugu\u00eas e chin\u00eas. Foi posteriormente capturado pela PVDE (Pol\u00edcia de Vigil\u00e2ncia e Defesa do Estado), a antecessora da PIDE.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s3\">Na manh\u00e3 seguinte \u00e0 do fecho da Exposi\u00e7\u00e3o, do pavilh\u00e3o em madeira restavam apenas cinzas. Salazar ordenou que fossem rapidamente removidas e que lan\u00e7assem ao Tejo o elefante de pedra, onde ainda hoje provavelmente jaz, sob as mesmas \u00e1guas que as caravelas sulcaram outrora em demanda do Oriente. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">A Pedra das Muta\u00e7\u00f5es<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\">C<span class=\"s7\">omo \u00e9<\/span> comummente sabido, o Jardim da Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian cont\u00e9m, na sua arquitectura, elementos de influ\u00eancia sino-japonesa. Um dos mais curiosos \u00e9 a pedra colocada sobre o relvado que desce para o lago dos nen\u00fafares. A pedra foi transportada para Portugal nos princ\u00edpios do s\u00e9c. XVII por um fidalgo aventureiro nascido em Lisboa, Nuno Gouveia de Faria. Julgando-a altamente decorativa, Gouveia de Faria t\u00ea-la-ia usurpado de um jardim que existia ent\u00e3o em Liamp\u00f3 (Ningbo), como o comprovam fontes inglesas coevas (veja-se a obra de Sir Colin Ormsby-Gore, <i>The Portuguese Trade and Atrocities at the Port of Macao and Southern China<\/i>, London, 1602, New Delhi, 1971, <i>reprint<\/i>.). De facto, a pedra foi outrora profusamente gravada e pintada com os 60 hexagramas do <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es<\/i> <i>(<\/i><span class=\"s8\">\u6613\u7d93<\/span><i>Yi Jing).<\/i><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">A pedra adornou o parque da mans\u00e3o da fam\u00edlia do fidalgo Nuno Gouveia de Faria at\u00e9 \u00e0 sua demoli\u00e7\u00e3o, nos finais do s\u00e9c. XIX. Durante a constru\u00e7\u00e3o do jardim da Gulbenkian, nos anos 1960, o sin\u00f3logo espanhol Pe. Lorenzo Benito Muralles, SJ, que veraneava ent\u00e3o por c\u00e1, descobriu-a por acaso num descampado, tendo sido ele pr\u00f3prio a sugerir ao arquitecto Ruy Jervis D\u2019Athouguia nova morada para a pedra. Muralles conhecera os pais do arquitecto em Macau, a cidade onde D\u2019Athouguia nascera. Este mencionou o assunto ao seu colega Ribeiro Telles, encarregado do plano dos jardins do museu. Ribeiro Telles aprovou a ideia.<br \/>\nMuralles julgava mesmo distinguir ainda, no canto direito superior da pedra, a grava\u00e7\u00e3o &#8211; naturalmente muito desgastada pelo tempo &#8211; dos tra\u00e7os cont\u00ednuos e descont\u00ednuos do d\u00e9cimo segundo hexagrama, o hexagrama <i>pi<\/i> <\/span><span class=\"s5\">\u5426<\/span><span class=\"s1\">: em cima, o C\u00e9u, em baixo, a Terra. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">O P\u00e1tio das Flores Rubras<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">P<\/span><span class=\"s2\">ouca<\/span><span class=\"s1\"> gente ter\u00e1 conhecimento da hist\u00f3ria assaz p\u00edcara por tr\u00e1s da constru\u00e7\u00e3o da casa t\u00edpica de Macau do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Durante a concep\u00e7\u00e3o desse projecto do Antigo Regime, ficou encarregado do plano da casa de Macau um arquitecto que nunca pusera p\u00e9 na \u00c1sia. Para levar a cabo a tarefa, e na impossibilidade de at\u00e9 l\u00e1 se deslocar, consultou afanosamente arquivos fotogr\u00e1ficos respeitantes \u00e0quele long\u00ednquo territ\u00f3rio portugu\u00eas. A sua escolha, no entanto, foi infeliz. Tomou como inspira\u00e7\u00e3o para reproduzir em pedra certa fotografia que mostrava um edif\u00edcio de estilo acentuadamente chin\u00eas. O pobre arquitecto ignorava que se tratava de um famoso lupanar da zona mais libertina da Cidade do Santo Nome de Deus: o P\u00e1tio das Flores Rubras <i>(<\/i><\/span><span class=\"s5\">\u7d05\u82b1\u5712<\/span><span class=\"s1\"><i>Hong Hua Yuan)<\/i>. Este lupanar, que deliciou gera\u00e7\u00f5es de chineses e portugueses, foi incendiado em 1947, como consequ\u00eancia de uma intrincada hist\u00f3ria de vingan\u00e7a pol\u00edtica, mulheres e \u00f3pio entre duas seitas rivais, a afamada Qing Bang e a Wo Shing Wo. Dos seus escombros resta apenas, na rua onde se situara, a pedra fronteira gravada com tr\u00eas caracteres chineses sobre a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, ainda em grafia antiga: \u201cP\u00e1teo das Flores Rubras\u201d. No entanto, por ironias do destino, e para que fossem iniciadas de bem cedo as crian\u00e7as portuguesas nos inef\u00e1veis mist\u00e9rios do Oriente, a reprodu\u00e7\u00e3o da sua fachada iria sobreviver, fiel, muito longe dali, em Portugal, no Portugal dos Pequenitos. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Retrato da Senhora Jacinta Wok<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\">A <\/span><span class=\"s9\">Senhora<\/span><span class=\"s3\"> Jacinta Wok (1884-1945), nada e criada na cidade do Porto, foi protagonista de um dos maiores esc\u00e2ndalos que alguma vez abalaram Macau. Deveu-se o esc\u00e2ndalo ao facto de ter vivido trinta e nove anos em regime de concubinato com um rico negociante chin\u00eas, Wok Mei Lo, estabelecido no territ\u00f3rio desde os finais do s\u00e9c. XIX. Wok Mei Lo tomou-a como sexta concubina no final da dinastia Qing, quando a dona Jacinta, cujo apelido era ainda Santos da Cruz, servia como ama em casa da fam\u00edlia Mendes Couceiro.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s10\">Juram vers\u00f5es que a ama ter\u00e1 trocado essa fam\u00edlia pela casa Wok por se ter tomado de amores pelo negociante; outras explicam-no por um desejo irreprim\u00edvel de ascens\u00e3o social ou desilus\u00f5es com a comunidade portuguesa. O certo \u00e9 que se submeteu \u00e0s exig\u00eancias do negociante a ponto de chegar a enfaixar os p\u00e9s. Sofreu, por isso, dores atrozes durante o resto da vida, uma vez que tal opera\u00e7\u00e3o, em princ\u00edpio, se destinava a meninas com cerca de cinco anos de idade. Al\u00e9m disso, teve de suportar as torturas e vexames que lhe infligiam as outras concubinas do negociante, n\u00e3o s\u00f3 devido \u00e0 sua insignificante posi\u00e7\u00e3o na casa &#8211; concubina n\u00famero seis &#8211; como devido ao facto de ser estrangeira, pior, estrangeira traidora \u00e0 sua pr\u00f3pria comunidade. Rejeitada por ambas as ra\u00e7as, tamb\u00e9m no negociante Jacinta n\u00e3o encontrou qualquer apoio, pois Wok Mei Lo nunca a conseguiu apreciar, nem mesmo com os p\u00e9s enfaixados. Segundo consta, servia-se dela nos seus neg\u00f3cios, cedendo-a a outros chineses ricos e curiosos, e exibia-a perante os portugueses como um trof\u00e9u humilhante. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">As tartarugas <em>wenjia<\/em><\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A<\/span><span class=\"s2\">s tartarugas <\/span><span class=\"s1\"><i>wenjia<\/i><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 <\/span>(<\/span><span class=\"s5\">\u6587\u7532<\/span><span class=\"s1\">, \u00e0 letra, \u201ccarapa\u00e7a escrita\u201d) s\u00e3o uma esp\u00e9cie aut\u00f3ctone que se encontra apenas em territ\u00f3rio chin\u00eas. Os exemplares desta esp\u00e9cie caracterizam-se por uma particularidade not\u00e1vel: apresentam caracteres chineses gravados na sua carapa\u00e7a, alguns deles muito antigos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia destas carapa\u00e7as baseia-se na teoria da selec\u00e7\u00e3o artificial, num processo em tudo semelhante ao que sucedeu com os caranguejos Heike de Danno-ura, no mar do Jap\u00e3o, que exibem nas suas coura\u00e7as rostos de samurai. Assim, os cientistas sup\u00f5em que, de in\u00edcio, as tartarugas <i>wenjia<\/i> seriam semelhantes a todas as outras esp\u00e9cies comuns na China. No entanto, como se sabe, h\u00e1 v\u00e1rios milhares de anos que os chineses praticam a adivinha\u00e7\u00e3o com carapa\u00e7as de tartaruga e tamb\u00e9m h\u00e1 v\u00e1rios milhares que v\u00eam apreciando a sua carne. Assim, os adivinhos teriam come\u00e7ado por poupar a vida dos antepassados das tartarugas <i>wenjia<\/i> cujas carapa\u00e7as apresentavam sulcos que se assemelhavam a caracteres chineses. Os chineses acreditam que a origem dos seus caracteres \u00e9 sagrada. Ao evitar-lhes a morte, e provavelmente sacralizando-as, as tartarugas encetaram um processo evolutivo. Apercebendo-se das vantagens de n\u00e3o apresentar uma carapa\u00e7a vulgar \u2013 mais tempo para procriar e uma morte adiada &#8211; as tartarugas investiram nos caracteres das carapa\u00e7as, marcas que s\u00e3o heredit\u00e1rias. Com o fluir das gera\u00e7\u00f5es tanto de adivinhos como de tartarugas, aqueles animais cujas carapa\u00e7as apresentavam caracteres sobreviveram. <\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s3\">Grandes coleccionadores de carapa\u00e7as <i>wenjia<\/i> foram o poeta Camilo Pessanha e o advogado Silva Mendes quando residiam em Macau. Exibiram-se exemplares not\u00e1veis outrora pertencentes a ambos numa exposi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria dedicada \u00e0 sua faceta de coleccionadores de arte e brique-a-braque chineses no Museu Machado de Castro, em Coimbra, por ocasi\u00e3o da passagem da administra\u00e7\u00e3o de Macau para a Rep\u00fablica Popular da China e que foi, infelizmente, muito pouco visitada pelo p\u00fablico portugu\u00eas. Na loja do Museu, contudo, pode ainda encontrar-se \u00e0 venda o magn\u00edfico cat\u00e1logo. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">O Templo Tao\u00edsta da Serra da Estrela<\/span><\/h3>\n<p class=\"p2\"><b>(<\/b><span class=\"s2\">\u661f\u5c71\u89c0 <\/span><b><i>Xing Shan Guan<\/i><\/b><b>)<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O <\/span><span class=\"s2\">Templo<\/span><span class=\"s1\"> Tao\u00edsta da Serra da Estrela (<\/span><span class=\"s5\">\u661f\u5c71\u89c0<\/span><span class=\"s1\"><i>Xing Shan Guan<\/i>) \u00e9 o \u00fanico templo tao\u00edsta existente em toda a Europa e um motivo de orgulho para Portugal. Foi inteiramente concebido segundo as normas arquitect\u00f3nicas dos templos tao\u00edstas chineses. A sua estatu\u00e1ria, por exemplo, os Oito Imortais no pavilh\u00e3o do mesmo nome, veio directamente da China. A valiosa figura em folha de ouro do Imperador Amarelo foi oferta do Templo Tao\u00edsta <i>Zhongyue Miao<\/i> (<\/span><span class=\"s5\">\u4e2d\u5dbd\u5edf)<\/span><span class=\"s1\"> que se ergue na montanha sagrada Song. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">De Cant\u00e3o deslocou-se um c\u00e9lebre especialista em geomancia chinesa <i>(fengshui),<\/i> Luk Ku Lou, a fim de escolher a localiza\u00e7\u00e3o ideal do templo no cen\u00e1rio da Serra da Estrela. Do Templo Tao\u00edsta da Nuvem Branca <\/span><span class=\"s5\">(\u767d\u96f2\u89c0<\/span><span class=\"s1\"><i>Bai Yun Guan),<\/i> em Pequim, chegaram os monges que presidiram \u00e0 cerim\u00f3nia religiosa que teve lugar aquando da inaugura\u00e7\u00e3o. Alguns permaneceram por ali at\u00e9 se terem formado os ac\u00f3litos portugueses.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">A localiza\u00e7\u00e3o exacta do templo, contudo, \u00e9 apenas revelada aos iniciados. Diz-se que lhes \u00e9 ensinada ent\u00e3o uma dan\u00e7a oculta destinada a transformar o <i>yang<\/i> em <i>yin<\/i>. A dan\u00e7a decorre em cima de um mapa secreto da montanha, cujo reflexo num antigo espelho de bronze aponta o local do templo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O espelho ter\u00e1 pertencido ao pr\u00f3prio Zhang Daoling que, na dinastia Han (202 a.C.\u2013 9 d.C., 25\u2013220 d.C), fundou e se tornou no primeiro patriarca da Via dos Mestres Celestes (<\/span><span class=\"s5\">\u5929\u5e08\u9053<\/span><span class=\"s1\"><i>tianshidao<\/i>) tao\u00edsta. Mas como poder\u00e1 o espelho m\u00e1gico de Zhang Daoling ter vindo parar a Portugal?<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">Zhang Daoling nasceu no primeiro ou segundo s\u00e9culo da nossa era sobre a Montanha do Tigre-Drag\u00e3o, no Jiangxi. Certo dia, Lao Zi (Lao-Tse) apareceu-lhe sob uma forma espiritual e encarregou-o de encontrar a f\u00f3rmula para compor o elixir da imortalidade. Zhang Daoling foi bem sucedido nesse empreendimento. Aos cento e trinta e tr\u00eas anos, subiu aos c\u00e9us montado no dorso de um tigre e, de seguida, preservou a sua identidade reincarnando sucessivamente num ap\u00f3s outro dos seus pr\u00f3prios descendentes. Cada um daqueles a quem coube este privil\u00e9gio retomou, assim, o nome de Zhang Daoling. Tais reencarna\u00e7\u00f5es continuaram pelo s\u00e9c. XX adiante. <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">No s\u00e9c. VIII, um decreto do imperador Xuan Zong deu jurisdi\u00e7\u00e3o ao Mestre Celeste Zhang Daoling \u201csobre todos os templos tao\u00edstas no mundo\u201d. Isto inclui, obviamente, o Templo Tao\u00edsta da Serra da Estrela.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\">Importa ainda chamar a aten\u00e7\u00e3o para uma curiosa passagem da obra <i>Living Taoism,<\/i> de John Blofeld. Embora muitos creiam no contr\u00e1rio, Blofeld declara ser altamente improv\u00e1vel que toda uma linhagem de pont\u00edfices que se conseguiu perpetuar por quase dois mil anos tenha desaparecido nos nossos dias sem deixar rasto. E refere que alguns estudiosos defendem que foi no governo de Chang Kai-chek que a \u00faltima reencarna\u00e7\u00e3o do Mestre Celeste foi banida do pa\u00eds. Revela ainda que um autor chin\u00eas sust\u00e9m que Zhang Daoling tem vivido desde ent\u00e3o em Macau \u201ccomo um drag\u00e3o, entre as volutas de espessas nuvens &#8211; o \u00f3pio!\u201d Isto explicaria a sua liga\u00e7\u00e3o a Portugal e a sua poss\u00edvel implica\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o e funcionamento do Templo Tao\u00edsta da Serra da Estrela. Quanto ao \u00f3pio, \u00e9 bem sabido ser um dos componentes essenciais no fabrico das p\u00edlulas da imortalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">As curandeiras<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s3\">T<\/span><span class=\"s9\">er\u00e3o<\/span><span class=\"s3\"> reparado numa pequena estatueta portuguesa do princ\u00edpio do s\u00e9culo XX que retrata duas mulheres chinesas a segurar frasquinhos de unguentos, exposta num dos arm\u00e1rios da primeira sala do bar-museu \u201cPavilh\u00e3o Chin\u00eas\u201d, no n\u00ba 89 da Rua D. Pedro V, em Lisboa? O \u201cPavilh\u00e3o Chin\u00eas\u201d foi outrora uma farm\u00e1cia e a estatueta fazia parte do seu esp\u00f3lio, algum do qual foi depois adquirido pelo novo dono do espa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Essa tosca estatueta \u00e9 uma humilde homenagem a duas curandeiras chinesas que protagonizaram, em Novembro de 1911, um esc\u00e2ndalo de contornos bizarros que abalou a ent\u00e3o jovem rep\u00fablica portuguesa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Ajus e Jo\u00e9, assim as chamavam os jornais da \u00e9poca, numa grafia aportuguesada dos seus nomes originais, eram naturais de Xangai e apresentavam-se como especialistas em devolver a vista a cegos. Os ceguinhos de Lisboa, mais as suas caixinhas de esmolas, guitarras e acorde\u00f5es, acorreram aos magotes ao humilde hotel onde as chinesas se hospedaram. Naqueles tempos conturbados, o povo sucumbia facilmente \u00e0 crendice e floresciam as bruxarias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Todavia, os republicanos, adeptos do positivismo, resolveram tomar as chinesas como caso exemplar, devido talvez \u00e0 sua ex\u00f3tica proveni\u00eancia. Afirmando almejar tornar a capital num paradigma do progresso, encheram-se de brio racionalista e mandaram prender as duas arautas do obscurantismo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">A Pol\u00edcia, por\u00e9m, deparou com tal resist\u00eancia por parte da popula\u00e7a em geral e, sobretudo, dos ceguinhos, que n\u00e3o hesitavam em quebrar as guitarras nas cabe\u00e7as dos agentes, que se tornou imposs\u00edvel evitar um confronto. Rebentou um motim. Contaram-se mortos. Estouraram bombas. Redac\u00e7\u00f5es de imprensa foram assaltadas. Machado Santos escapou por pouco a ser linchado, ficando a dever a vida \u00e0 pronta ac\u00e7\u00e3o da cavalaria. O caso acabou por ascender ao Parlamento por iniciativa do ministro do Interior. A pris\u00e3o das chinesas tornou-se tema obrigat\u00f3rio esgrimido nos com\u00edcios e no ataque a advers\u00e1rios pol\u00edticos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s13\">A estatueta do \u201cPavilh\u00e3o Chin\u00eas\u201d \u00e9 obra de Zeferino Santos, que acompanhava o pai cego nas consultas \u00e0s curandeiras. O dono da antiga farm\u00e1cia resolveu adquiri-la para, por gra\u00e7a, a colocar ao lado do an\u00fancio de um medicamento oft\u00e1lmico.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Quanto a Ajus e Jo\u00e9, foram libertadas poucos dias depois de terem sido presas. Recusaram a extradi\u00e7\u00e3o para o seu pa\u00eds natal. Algumas semanas antes, a 26 de Outubro desse ano, Sun Yat-sen proclamara a Rep\u00fablica da China. Receavam ver-se envolvidas com mais republicanos, ainda que chineses. Deixaram Portugal num navio que iria atravessar o Atl\u00e2ntico e nunca mais ningu\u00e9m delas soube. Tudo quanto resta \u00e9 uma foto de Joshua Benoliel no Arquivo Fotogr\u00e1fico da C\u00e2mara Municipal de Lisboa e a estatueta do \u201cPavilh\u00e3o Chin\u00eas\u201d. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">Am\u00e1lia em Xangai<\/span><\/h3>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">D<\/span><span class=\"s2\">ecorria<\/span><span class=\"s1\"> o ano de 1950 quando o jornal sat\u00edrico <i>\u201cOs Rid\u00edculos\u201d<\/i> anunciou nestes termos jocosos de duvidoso gosto, s\u00f3 poss\u00edveis na \u00e9poca, a not\u00edcia sobre a actua\u00e7\u00e3o de Am\u00e1lia Rodrigues em Xangai, a realizar-se dali a pouco tempo: \u00ab(&#8230;) A Xangai, \u00e0 China, achamos francamente fant\u00e1stico! (&#8230;) A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que achamos a China um pa\u00eds esquisito de mais para o fado (&#8230;) Voc\u00eas j\u00e1 pensaram, por momentos, no que ser\u00e1 um audit\u00f3rio de chineses, todos sentados no ch\u00e3o, a comer arroz com dois pauzinhos e a Am\u00e1lia a cantar-lhes o \u201cTudo isto \u00e9 fado\u201d ou \u201cAv\u00e9 Maria Fadista\u201d?\u00bb<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s13\">Trata-se este do \u00fanico registo portugu\u00eas aludindo \u00e0 actua\u00e7\u00e3o de Am\u00e1lia em Xangai. A not\u00edcia foi, de resto, completamente abafada. Nem os jornais da \u00e9poca, nem as biografias de Pav\u00e3o dos Santos ou de Jean-Jacques Lafaye mencionam tal facto. Duas d\u00e9cadas volvidas e o contr\u00e1rio se passaria em rela\u00e7\u00e3o ao Jap\u00e3o, quando o estrondoso \u00eaxito de Am\u00e1lia l\u00e1 alcan\u00e7ado encontrou merecido eco em Portugal.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s14\">Todavia, Am\u00e1lia actuou de facto em Xangai, decorria o ano de 1950, acompanhada por Jaime Santos \u00e0 guitarra e Santos Moreira \u00e0 viola. A Rep\u00fablica Popular da China havia sido proclamada no ano anterior e Xangai fora o ber\u00e7o do Partido Comunista. Devido \u00e0 sua notoriedade, mas sobretudo devido \u00e0 modest\u00edssima origem social da fadista, o governo chin\u00eas escolheu Am\u00e1lia para representar Portugal num espect\u00e1culo de folclore internacional em Xangai.<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Ao contr\u00e1rio, por\u00e9m, do que supunha o jornal <i>\u201cOs Rid\u00edculos\u201d,<\/i> Am\u00e1lia n\u00e3o cantou o \u201cTudo isto \u00e9 fado\u201d nem o \u201cAv\u00e9 Maria Fadista\u201d. Achou mais gra\u00e7a, estando na China, a cantar o \u201cGr\u00e3o de Arroz\u201d, de Belo Marques <i>(\u201cO meu amor \u00e9 pequenino como um gr\u00e3o de arroz\/ \u00e9 t\u00e3o discreto que ningu\u00e9m sabe onde mora&#8230;)<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">Acresce que, com a sua proverbial facilidade para aprender l\u00ednguas estrangeiras, Am\u00e1lia fez quest\u00e3o de cantar a vers\u00e3o em chin\u00eas, concebida de prop\u00f3sito para a ocasi\u00e3o:<\/span><span class=\"s5\"> \u6211\u5fc3\u4e0a\u7684\u4eba\u5152 <\/span><span class=\"s1\">\/<\/span><span class=\"s5\"> \u662f\u591a\u9ebc\u5c0f\u5c0f\u7684\uff0c <\/span><span class=\"s1\">\/ <\/span><span class=\"s5\">\u4ed6\u50cf\u4e00\u7c92\u7c73\u4f3c\u7684\u3002 <\/span><span class=\"s1\">\/ <\/span><span class=\"s5\">\u4ed6\u591a\u9ebc\u8b39\u614e <\/span><span class=\"s1\">\/<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span><\/span><span class=\"s5\">\u6c92\u6709\u4eba\u77e5\u9053\u4ed6\u4f4f\u7684\u5730\u65b9\u3002 <\/span><span class=\"s1\"><i>Wo xin shang de ren er shi duome xiaoxiao de\/ ta xiang yili mi side\/ ta duome jinshen, mei you ren zhidao ta zhu de difang&#8230;<\/i>)<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\"><span class=\"s1\">At\u00e9 aqui, a audi\u00eancia entusiasmou-se com tal voz e tal mestria do chin\u00eas. Mas quando os versos seguintes foram cantados <i>(\u201cTem um pal\u00e1cio de ouro fino aonde Deus o p\u00f4s\/ e onde eu vou falar de amor a toda a hora&#8230;\u201d),<\/i> um dos representantes dos camponeses presentes por entre o p\u00fablico indignou-se e berrou: \u201cSe tem um pal\u00e1cio de ouro fino n\u00e3o foi Deus que lho deu, mas sim o sangue e o suor das classes trabalhadoras!\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"p6\">Foi como um rastilho. A audi\u00eancia aplaudiu o representante dos camponeses e come\u00e7ou a assobiar e a apupar a pobre Am\u00e1lia que, seguida pelos dois assustados instrumentistas, teve de abandonar o palco lavada em l\u00e1grimas. No dia seguinte, partiu precipitadamente para Berlim, onde conheceria um \u00eaxito monumental nos espect\u00e1culos do Plano Marshall.<\/p>\n<p class=\"p6\">Este breve e triste epis\u00f3dio na carreira da grande fadista foi abafado pela pr\u00f3pria Am\u00e1lia, que negou sempre ter alguma vez posto os p\u00e9s na China Popular. No entanto, foi relatado no dia seguinte pelo <i>Di\u00e1rio de Xangai<\/i>. Esse exemplar do jornal pode facilmente ser consultado na Biblioteca da cidade por quem dominar a leitura dos caracteres chineses. A not\u00edcia, de 21 de Setembro, intitula-se \u201cCantora burguesa \u00e9 apupada pelo povo trabalhador no Espect\u00e1culo de Folclore Internacional\u201d.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s1\"><b><i>(Escrito entre 1997 e 2000)<\/i><\/b><\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u00a0<\/span><\/h3>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] micro-fic\u00e7\u00f5es de Cl\u00e1udia Ribeiro &nbsp; &nbsp; Lili, cantador de fado Existe, para os lados de Bel\u00e9m, um painel de azulejos n\u00e3o muito antigo que reproduz a figura de um chin\u00eas. O homem reproduzido existiu realmente nas ruas da Lisboa das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, e chamava-se Li. 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