{"id":689,"date":"2025-09-25T02:30:24","date_gmt":"2025-09-24T18:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=689"},"modified":"2025-09-25T02:30:24","modified_gmt":"2025-09-24T18:30:24","slug":"o-fresco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/09\/25\/o-fresco\/","title":{"rendered":"O Fresco"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><i>N<\/i><\/span><span class=\"s3\">atural<\/span><span class=\"s1\"> do Jiangxi, Meng Longtan estava alojado na capital acompanhado do licenciado Zhu. O acaso de um passeio f\u00ea-los passar por um mosteiro de edif\u00edcios e celas de modestas dimens\u00f5es e deserto, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de um velho monge itinerante que ali havia pendurado o seu h\u00e1bito<sup>1<\/sup>. Vendo chegar visitantes, o monge comp\u00f4s as suas vestes, saiu para os acolher e propor gui\u00e1-los a seu bel-prazer. O edif\u00edcio principal albergava uma est\u00e1tua do mestre Zhi, um monge eminente da escola Chan. As paredes laterais estavam cobertas de frescos de um detalhe t\u00e3o maravilhoso que as figuras representadas pareciam vivas. Numa parede \u00e0 direita, no lado leste, estava representada, entre ninfas celestes espalhando p\u00e9talas, uma jovem rapariga de cabelo pendente<sup>2<\/sup>, segurando uma flor, de sorriso doce nos l\u00e1bios carmim prestes a entreabrir-se, com olhos deixando escapar um olhar convidativo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">De tanto a contemplar, Zhu tinha o cora\u00e7\u00e3o em sobressalto e o esp\u00edrito deleitado sem disso se dar conta. Com todos os pensamentos cristalizados naquele objecto o seu estado era pr\u00f3ximo da estupefac\u00e7\u00e3o. De repente, sentiu-se flutuar como que cavalgando nuvens e brumas: tinha entrado no fresco!<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">A profus\u00e3o de salas e pavilh\u00f5es f\u00ea-lo compreender que j\u00e1 n\u00e3o se encontrava no mundo dos homens. Do alto de uma plataforma, rodeado de in\u00fameros religiosos de ombro direito descoberto, um velho monge pregava a Lei de Buda. Zhu estava de p\u00e9 misturado na multid\u00e3o. Passado um momento, sentindo-se discretamente puxado pela manga, voltou-se: era a rapariga de<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>cabeleira escorrida que lhe sorria! A rapariga afastou-se. Ele seguiu-a de perto ao longo de sinuosas galerias at\u00e9 uma casinha na qual, hesitante, Zhu n\u00e3o ousava entrar. Ela voltou a cabe\u00e7a, elevou a flor que segurava e, agitando-a, fez-lhe sinal que se aproximasse.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">N\u00e3o havia ningu\u00e9m na sala; tudo estava calmo \u2013 de imediato a tomou nos bra\u00e7os sem que ela oferecesse especial resist\u00eancia. E a rapariga prodigalizou-lhe os mais \u00edntimos favores. Satisfeita, levantou-se para cerrar as janelas e, instando-o a permanecer silencioso, prometeu que regressaria quando ca\u00edsse a noite. Assim foi durante dois dias seguidos, at\u00e9 que as suas companheiras se aperceberam e descobriram o homem pondo-se logo a goz\u00e1-la: \u201cCom um homemzinho a crescer-te no ventre, como podes tu armar-te em virgem com esse cabelo despenteado!\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">E levaram-lhe pentes e molas para que armasse o cabelo, mas a rapariga, envergonhada, n\u00e3o dizia uma palavra.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cIrm\u00e3s \u2013 exclamou uma delas \u2013 n\u00e3o nos demoremos aqui pois corremos o risco de desagradar a quem voc\u00eas sabem!\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">E desapareceram, envoltas em risos. O rapaz<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>contemplava agora a sua amada, com um alto penteado de volutas vaporosas, encimado por uma f\u00e9nix reclinada e muito mais excitante que os cabelos soltos.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Como n\u00e3o se visse vivalma, rapidamente se perderam em privacidades fogosas, excitados pelos aromas de alm\u00edscar e orqu\u00eddea. De s\u00fabito, antes mesmo que chegassem ao fim do prazer, fizeram-se ouvir brutais passadas de botas e o som de correntes, seguido de um sonoro vociferar. A rapariga vestiu-se em sobressalto e ambos trocaram um olhar furtivo: tratava-se de um emiss\u00e1rio em armadura de ouro, de rosto mais negro que laca, de escudo e massa e rodeado de todo o bando de raparigas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">&#8211; Estais todas aqui?<br \/>\n<\/span><span class=\"s1\">&#8211; Sim ! respondiam elas.<br \/>\n<\/span>&#8211; Se algumas de v\u00f3s dissimular algu\u00e9m, que se denuncie j\u00e1 se desejar evitar amargos dissabores!<br \/>\n<span class=\"s1\">&#8211; N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, responderam em un\u00edssono.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O emiss\u00e1rio voltou-se e, com o seu olhar de \u00e1guia, parecia estar prestes a vasculhar o esconderijo. Morta de medo, a rapariga estava mais p\u00e1lida que cinzas frias. Em p\u00e2nico, pode apenas sussurrar a Zhu: \u201cEsconde-te debaixo da cama!\u201d E, abrindo uma pequena porta na parede, lan\u00e7ou-se nela precipitadamente.<\/p>\n<p class=\"p3\">Prostrado, o jovem n\u00e3o ousava respirar. De seguida, o barulho das botas penetrou no quarto e, pouco ap\u00f3s, saiu.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Como o clamor do tumulto se come\u00e7ava a afastar, sentiu-se um pouco melhor, embora \u00e0 porta as discuss\u00f5es e as idas e vindas n\u00e3o parassem. Encolhido durante tanto tempo, sentia os ouvidos zunir e os olhos arder. A posi\u00e7\u00e3o tornava-se insustent\u00e1vel. S\u00f3 lhe restava esperar pacientemente pela rapariga, sem pensar no que o tinha levado a tais circunst\u00e2ncias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Tendo permanecido todo este tempo na sala, Meng Longtan procurava Zhu com olhar mas n\u00e3o o conseguia encontrar. Na d\u00favida, perguntou ao velho monge pelo amigo e este respondeu-lhe rindo: \u201cFoi escutar um serm\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">&#8211; Onde?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o muito longe.<\/p>\n<p class=\"p3\">Da\u00ed a um momento, come\u00e7ou a cham\u00e1-lo tamborilando com um dedo na parede: &#8220;Caro doador<sup>3<\/sup>, \u00e9 tempo de voltar, porque prolongas tanto a tua visita!<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">E logo apareceu, sobre o fresco, a imagem de Zhu, de orelha \u00e0 escuta, como se ouvisse mal.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">\u201cJ\u00e1 h\u00e1 um peda\u00e7o que o teu companheiro te espera\u201d, disse o monge.<\/p>\n<p class=\"p3\">Zhu desprendeu-se subitamente da parede e, flutuando, desceu, estupefacto, de olhar fixo e pernas bambas.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Alarmado, Meng interrogava-o sem obter resposta: escondido sob a cama, explicava Zhu, tinha sido interpelado por uma voz portentosa e tinha abandonado o quarto para ver o que se passava. Contemplavam ambos a jovem que segurava uma flor: em vez da cabeleira pendente de outrora, tinha agora um penteado em espiral. Confundido, Zhu saudava de m\u00e3os postas o monge e perguntava-lhe o motivo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">O monge respondeu-lhe a rir: \u201cO ilus\u00f3rio nasce do esp\u00edrito humano. Que outra explica\u00e7\u00e3o vos poderia oferecer este vosso humilde servidor?\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\">Zhu mantinha um ar contrariado e mal humorado, enquanto que Meng, de esp\u00edrito abalado, suspirava desconcertado. E assim desceram os degraus em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda.<\/p>\n<p class=\"p2\">O cronista do estranho acrescenta:<\/p>\n<p class=\"p5\"><i>Que o ilus\u00f3rio seja cria\u00e7\u00e3o do homem parece profundamente sensato. De um esp\u00edrito libidinoso nascem situa\u00e7\u00f5es escabrosas e de um esp\u00edrito escabroso nasce o horr\u00edvel.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Quando um bodhisattva faz a instru\u00e7\u00e3o de um novi\u00e7o ignorante, mil ilus\u00f5es se formam, todas postas em movimento pela mente. Neste caso o mestre havia dito \u201camor de m\u00e3e\u201d: pena \u00e9 que ao escutar estas palavras o outro n\u00e3o tenha atingido a ilumina\u00e7\u00e3o radical que lhe teria permitido entrar na montanha, de cabelos ao vento.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>________<\/p>\n<p class=\"p6\">Tradu\u00e7\u00e3o de<b> Rui Cascais<\/b><\/p>\n<p class=\"p8\">Notas<\/p>\n<p class=\"p9\">1 A disciplina mon\u00e1stica pro\u00edbe pousar as vestes no solo.<\/p>\n<p class=\"p9\">2 Este tipo de penteado implica uma rapariga de menos de quinze anos, solteira, segundo a moda que reinou durante a primeira metade do primeiro mil\u00e9nio na China.<\/p>\n<p class=\"p9\">3 Refer\u00eancia ao costume de fazer doa\u00e7\u00f5es quando de visita a mosteiros ou templos.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Natural do Jiangxi, Meng Longtan estava alojado na capital acompanhado do licenciado Zhu. 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