{"id":69,"date":"2025-05-12T17:36:33","date_gmt":"2025-05-12T09:36:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.viadomeio.com\/?p=69"},"modified":"2025-08-24T22:06:29","modified_gmt":"2025-08-24T14:06:29","slug":"nos-e-o-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/05\/12\/nos-e-o-mito\/","title":{"rendered":"N\u00f3s e o mito"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carlos Morais Jos\u00e9<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os povos contam hist\u00f3rias e dessas hist\u00f3rias fazem parte narrativas constru\u00eddas para explicar o come\u00e7o do mundo, que dizem mais sobre eles pr\u00f3prios do que sobre os acontecimentos reais de uma eventual cosmogonia. Neste \u00e2mbito, o Ocidente proporcionou-nos, de uma forma geral, a mitologia greco-romana, a vers\u00e3o judaico-crist\u00e3 e, finalmente, a ci\u00eancia. Esta, apesar de baseada num m\u00e9todo rigoroso, na matem\u00e1tica, e de se reger por evid\u00eancias, conseguindo com isso coer\u00eancia e efic\u00e1cia dentro de um modelo, n\u00e3o deixa de, nos seus axiomas, nas perspectivas com que gatafunha na realidade, de hierarquizar prioridades, de espelhar a sua \u00e9poca. A sua hist\u00f3ria \u00e9 testemunha deste facto.<\/p>\n<p>Quanto a cosmogonias, os chineses n\u00e3o s\u00e3o excep\u00e7\u00e3o. Contudo, segundo o artigo de Andr\u00e9 Bueno que publicamos nesta edi\u00e7\u00e3o da Via do Meio, trata-se de uma narrativa, de um mito cosmog\u00f3nico, que surgiu tardiamente se compararmos com outras civiliza\u00e7\u00f5es. O mito de Pangu \u00e9 relatado pela primeira vez no s\u00e9culo III, enquanto na Gr\u00e9cia, por exemplo, os mitos cosmog\u00f3nicos datam dos s\u00e9culos VIII-VII a.E.C.. Por qu\u00ea? Afinal, pelo menos desde h\u00e1 tr\u00eas mil anos que a civiliza\u00e7\u00e3o chinesa nos proporciona numerosas obras, que abrangem diversas \u00e1reas e vastos temas. Da pol\u00edtica \u00e0 agricultura, da tecnologia \u00e0 adivinha\u00e7\u00e3o, passando pela guerra, a economia e a hist\u00f3ria, os chineses produziram, no mil\u00e9nio que antecedeu a nossa era, tratados, guias, mem\u00f3rias, poesia, etc., mas n\u00e3o demonstraram muito interesse na origem do universo e pareciam estar mais preocupados com o seu funcionamento, pois \u00e9 disso que tratam os in\u00fameros textos ent\u00e3o produzidos.<\/p>\n<p>S\u00e3o conhecidas as frases de Conf\u00facio que demonstram o seu sil\u00eancio sobre o cosmos, o reconhecimento da sua impossibilidade de conhecer os seus mist\u00e9rios e, sobretudo, de agir sobre ele. O Mestre estava unicamente interessado nas rela\u00e7\u00f5es entre humanos que, sonhava ele, podiam ser controladas, e n\u00e3o em teorias improv\u00e1veis sobre algo que poderia nem sequer ter acontecido: a tese mais espalhada entre os letrados ter\u00e1 sido que o universo sempre existiu e sempre existir\u00e1, sem come\u00e7o nem fim, n\u00e3o se colocando por isso a quest\u00e3o das suas origens. \u00c9 o que ainda se ouve da boca de um letrado chin\u00eas, no s\u00e9culo XVI, durante uma discuss\u00e3o com Matteo Ricci. Contudo, nem s\u00f3 de letrados \u00e9 composta uma popula\u00e7\u00e3o e algures pelos fins da dinastia Han, surge pela primeira vez o mito de Pangu e do seu ovo.<\/p>\n<p>Uma coisa nos parece certa: as explica\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas s\u00e3o, mais do que hist\u00f3rias que se cr\u00eaem verdadeiras, verdadeiras estruturas justificativas de uma determinada ordem n\u00e3o do mundo mas no mundo, de uma viv\u00eancia concreta de que o mito \u00e9, afinal, ideologia. Com certeza que n\u00e3o entendemos esgotar-se nesta fun\u00e7\u00e3o a riqueza das narrativas mitol\u00f3gicas, pois estas v\u00e3o, por vezes, muito al\u00e9m de uma mera justifica\u00e7\u00e3o de uma ordem social e pol\u00edtica. Contudo, se considerarmos que os mitos incluem diversos planos de leitura, rapidamente compreenderemos que somente alguns \u201cs\u00e1bios\u201d ou \u201ciluminados\u201d disp\u00f5em das chaves que, eventualmente, poder\u00e3o abrir algumas das fechaduras mais complexas da mitologia.<\/p>\n<p>Enquanto descri\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o do mundo, a mitologia tamb\u00e9m desempenha a fun\u00e7\u00e3o de nos explicar, de nos precaver, de nos resguardar e, sobretudo, de assumir o controlo. Quando se descreve o feitio irasc\u00edvel ou tranquilo de um deus do rio, est\u00e1-se a descrever o pr\u00f3prio rio e as suas manias, sendo a narrativa eivada de diversas camadas de sabedoria que cada sujeito aprende, interpreta, memoriza, para agir em conformidade consoante as suas capacidades.<\/p>\n<p>Certos aspectos da mitologia s\u00e3o leituras \u2013 quantas vezes po\u00e9ticas, doutras, grotescas \u2013 do incompreens\u00edvel real: s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es do mundo, das coisas, dos sentimentos e das emo\u00e7\u00f5es, raios de luz no obscuro, no desconhecido; interpreta\u00e7\u00f5es em forma de narrativa, de modo a terem o cond\u00e3o de exemplo, aviso, motiva\u00e7\u00e3o. Mas s\u00e3o, tamb\u00e9m, sintomas, reflexos, explica\u00e7\u00f5es, do nosso conturbado interior, das lutas que nos impomos, das pris\u00f5es que nos constru\u00edmos e onde habitamos sem plano de fuga, dos desejos que nos roem, assaltam e mudam o nosso mundo, com desmedida import\u00e2ncia, como se ele tivesse algum peso c\u00f3smico. Seremos poeira, seremos nada. Por isso, o mito somos n\u00f3s. \u5b8c[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Carlos Morais Jos\u00e9 &nbsp; Os povos contam hist\u00f3rias e dessas hist\u00f3rias fazem parte narrativas constru\u00eddas para explicar o come\u00e7o do mundo, que dizem mais sobre eles pr\u00f3prios do que sobre os acontecimentos reais de uma eventual cosmogonia. 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