{"id":700,"date":"2025-10-06T20:43:38","date_gmt":"2025-10-06T12:43:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=700"},"modified":"2025-10-06T22:05:21","modified_gmt":"2025-10-06T14:05:21","slug":"as-grandes-conquistas-cientifico-tecnologicas-dos-chineses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/06\/as-grandes-conquistas-cientifico-tecnologicas-dos-chineses\/","title":{"rendered":"As grandes conquistas cient\u00edfico-tecnol\u00f3gicas dos chineses"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b>1.Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">N<span class=\"s1\">o Ocidente<\/span>, atribui-se geralmente a reputa\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa \u00e0 sua \u2018sabedoria\u2019 (reservando-se apenas para o pensamento ocidental o termo \u2018filosofia\u2019), \u00e0 sua literatura e poesia, \u00e0s suas variadas artes visuais, havendo quem reconhe\u00e7a ainda a sua precocidade na reflex\u00e3o moral, na sociologia, na cr\u00edtica hist\u00f3rica e na teoriza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Todavia, exceptuando as \u201cQuatro Grandes Inven\u00e7\u00f5es Chineses\u201d, raramente se menciona a sua ci\u00eancia e tecnologia, que n\u00e3o s\u00e3o sequer ensinadas nas escolas. Isto sucede apesar de existirem publica\u00e7\u00f5es not\u00e1veis em l\u00edngua inglesa e demais l\u00ednguas europeias acerca do brilhantismo da hist\u00f3ria da ci\u00eancia e da tecnologia chinesas, a come\u00e7ar pelo cicl\u00f3pico <i>Science and Civilization in China<\/i> (1954-at\u00e9 ao presente), de Joseph Needham. Deve-se tal relut\u00e2ncia a uma determinada concep\u00e7\u00e3o ocidental de ci\u00eancia que emergiu no s\u00e9c. XIX, \u00e9poca em que se consolidavam os grandes imp\u00e9rios coloniais da Europa e em que a hist\u00f3ria da ci\u00eancia enquanto disciplina se formou. Essa concep\u00e7\u00e3o, que ainda hoje vigora, promove a ideia de que toda a ci\u00eancia digna desse nome nasceu na Europa a partir da chamada Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica dos s\u00e9cs. XVI e XVII e \u00e9 a marca distintiva da superioridade da sua civiliza\u00e7\u00e3o, excluindo da mesma esfera todas as outras civiliza\u00e7\u00f5es da Terra, como a chinesa, a \u00e1rabe, a indiana e as pr\u00e9-colombianas. Ora, h\u00e1 que ter consci\u00eancia de que essa concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9, ela pr\u00f3pria, cient\u00edfica. Na melhor das hip\u00f3teses, \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, leg\u00edtima mas question\u00e1vel, que resulta da vis\u00e3o da hist\u00f3ria da ci\u00eancia como uma adi\u00e7\u00e3o de estados descont\u00ednuos e n\u00e3o como um processo cont\u00ednuo. Na pior das hip\u00f3teses, \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o meramente ideol\u00f3gica assente numa agenda oculta que visa incrementar o mito da supremacia ocidental. Mas aqueles que recusam tanto essa posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica como essa ideologia injusta podem afirmar que, se a ci\u00eancia \u00e9 feita sobre os ombros de gigantes, segundo a fraseologia de Bernardo de Chartres (s\u00e9c. XII) retomada por Newton em 1675, esses gigantes tiveram, bastas vezes, fei\u00e7\u00f5es chinesas.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Um caso paradigm\u00e1tico \u00e9 o de Francis Bacon (1561-1626), considerado um dos fundadores da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica que assinalou a emerg\u00eancia da ci\u00eancia moderna. Para Bacon, o conhecimento sob a forma emp\u00edrica de inova\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas e tecnol\u00f3gicas era a for\u00e7a propulsora do desenvolvimento humano. Na obra <i>Novum Organum<\/i> (1620), Bacon afirmou que, de entre todas as inven\u00e7\u00f5es humanas, tr\u00eas havia cuja contribui\u00e7\u00e3o para o advento do mundo moderno n\u00e3o tinha rival, acrescentando que a sua origem era, todavia, an\u00f3nima e obscura. Tratava-se da p\u00f3lvora, da b\u00fassola magn\u00e9tica e do papel e da imprensa que, sabe-se hoje, s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es chinesas. Devido \u00e0quela afirma\u00e7\u00e3o de Bacon, a que se juntaram afirma\u00e7\u00f5es posteriores de Joseph Edkins (1823- 1905), sin\u00f3logo e mission\u00e1rio protestante ingl\u00eas na China, e de Joseph Needham (1900-1995), bioqu\u00edmico e historiador das ci\u00eancias ingl\u00eas, o Ocidente acabou por criar o ep\u00edteto \u201cAs Quatro Grandes Inven\u00e7\u00f5es Chinesas\u201d, exportando-o para todo o mundo, inclusivamente para a pr\u00f3pria China (<\/span><span class=\"s3\">\u56db\u5927\u53d1\u660e<\/span><span class=\"s2\"> <i>si da faming<\/i>). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">No entanto, poder-se-ia com justeza e facilidade acrescentar-se pelo menos mais uma vintena de Grandes Inven\u00e7\u00f5es Chinesas, v\u00e1rias delas decisivas para o advento da Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica. Joseph Needham elaborou uma lista de 26 tecnologias inventadas pelos chineses que foram transmitidas ao Ocidente. \u00c9 prov\u00e1vel que se trate apenas da ponta do <i>iceberg<\/i>, uma vez que, quanto mais se recua atr\u00e1s no tempo, mais dif\u00edcil \u00e9 tra\u00e7ar a origem de um dado conhecimento. Contudo, como o tempo que decorre entre as inven\u00e7\u00f5es chinesas e o seu surgimento no Ocidente \u00e9 em geral muito longo, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que tenham conseguido percorrer entretanto enormes dist\u00e2ncias. Assim, e dada a precocidade cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica do antigo Imp\u00e9rio Celeste, n\u00e3o ser\u00e1 demasiado ousado supor que existir\u00e3o muitas mais inven\u00e7\u00f5es cuja origem se desconhece ou cuja origem seja atribu\u00edda ao Ocidente quando, na verdade, a origem ser\u00e1 chinesa. Certo \u00e9 que, depois de o Imp\u00e9rio Romano ter not\u00edcia acerca da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, o conhecimento ocidental acerca dela se atrasou e desacelerou com a interrup\u00e7\u00e3o de contactos na Idade M\u00e9dia e pode, ainda hoje, ser considerado deficiente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico da China n\u00e3o teve paralelo em todo o mundo at\u00e9 ao s\u00e9c. XV. Eram seus os navios mais r\u00e1pidos, as sedas mais preciosas, a agricultura mais sofisticada. Para al\u00e9m disso, arquivistas natos, os chineses compilavam todas as suas inven\u00e7\u00f5es e descobertas em tratados, comp\u00eandios e enciclop\u00e9dias por vezes gigantescas como, para o caso da medicina, o <i>Nei Jing<\/i> (<span class=\"s5\">\u5185\u7d93<\/span>), tamb\u00e9m conhecido como <i>O Cl\u00e1ssico de Medicina Interna do Imperador Amarelo<\/i>, redigido entre 445 e 221 a. C.; o <i>Mo Jing<\/i>, sobre f\u00edsica, \u00f3ptica, magnetismo, ac\u00fastica, datado de entre os s\u00e9c. IV e II a. C.; o <i>Sancai Tuhui<\/i> (<span class=\"s5\">\u4e09\u624d\u5716\u6703<\/span>), ou <i>Colec\u00e7\u00e3o de Ilustra\u00e7\u00f5es dos Tr\u00eas Reinos<\/i> (c\u00e9u, terra e homem), de 1609, publicado por Wan Qi e Wang Siyi na dinastia Ming (1368-1644) com artigos versando sobre astronomia, biologia e geografia. Sobre tecnologia militar, publicou-se em 1044 o <i>Wujing Zongyao<\/i> (<span class=\"s5\">\u6b66\u7d93\u7e3d\u8981<\/span>), de <span class=\"s6\">Zeng Gongliang, Ding Du e Wang Weide, entre outros. Sobre ci\u00eancias f\u00edsicas e procedimentos t\u00e9cnicos, surgiu em 1086 o <i>Mengxi Bitan<\/i> (<\/span><span class=\"s7\">\u5922\u6eaa\u7b46\u8ac7<\/span><span class=\"s6\">, <i>Ensaios do Ribeiro dos Sonhos<\/i>), de Shen Kuo, onde este descreve os princ\u00edpios de eros\u00e3o, soerguimento e sedimenta\u00e7\u00e3o que s\u00e3o a base das ci\u00eancias da Terra.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>E sobre matem\u00e1tica, publicou-se em 1247 o <i>Shushu Jiuzhang<\/i> (<\/span><span class=\"s7\">\u6570\u4e66\u4e5d\u7ae0<\/span><span class=\"s6\"> <i>Tratado de Matem\u00e1tica em Nove Sec\u00e7\u00f5es<\/i>), de Qin Jiushao. Em 1313, pelo pincel de Wang Zhen, deu-se \u00e0 estampa o<i> Nong Shu<\/i> (<\/span><span class=\"s7\">\u8fb2\u66f8<\/span><span class=\"s6\">, <i>O Livro da Agricultura<\/i>). Em 1403 publicou-se a <i>Yongle Dadian<\/i> ou <i>Enciclop\u00e9dia da Era Yongle<\/i>, que contava com 22 877 rolos de manuscritos dos quais sobreviveram cerca de 3% depois de 1644. No s\u00e9c. XVII surgiu o <i>Tiangong Kaiwu<\/i>\u00a0(<\/span><span class=\"s7\">\u5929\u5de5\u958b\u7269<\/span><span class=\"s6\">, <i>A Explora\u00e7\u00e3o dos Trabalhos da Natureza<\/i>), de 1637, onde o autor, Song Yingxing, descrevia as t\u00e9cnicas coevas utilizadas na explora\u00e7\u00e3o mineira, na metalurgia, na ind\u00fastria t\u00eaxtil, na constru\u00e7\u00e3o naval, na qu\u00edmica, na hidr\u00e1ulica, na tecnologia militar e na agricultura. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">O mundo moderno \u00e9 sem d\u00favida fruto de correntes de informa\u00e7\u00e3o entre o Oriente e o Ocidente que atravessaram as vastid\u00f5es da Eur\u00e1sia e as rotas mar\u00edtimas ao longo de mil\u00e9nios. Se hoje se pode contar com uma agricultura e constru\u00e7\u00e3o naval modernas, uma ind\u00fastria do g\u00e1s e do petr\u00f3leo, observat\u00f3rios astron\u00f3micos modernos, matem\u00e1tica decimal, foguetes multiest\u00e1gios, rel\u00f3gios mec\u00e2nicos, armas de fogo, minas subaqu\u00e1ticas, g\u00e1s t\u00f3xico, para-quedas, a impress\u00e3o e o prot\u00f3tipo do motor a vapor, deve-se isso \u00e0 China e \u00e0s viagens do conhecimento.<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n2. Agricultura<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p8\">N<span class=\"s8\">a esfera<\/span> da agricultura, os chineses cedo revelaram um g\u00e9nio com que poucos podiam rivalizar. Desde 1400 a. C. que faziam v\u00e1rias colheitas por ano.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Em 500 a.C. j\u00e1 tinham percebido o ciclo da \u00e1gua, ou seja, o itiner\u00e1rio que a \u00e1gua percorre desde as nuvens at\u00e9 \u00e0 chuva, aos rios e ao oceano e de regresso \u00e0s nuvens. Na Europa, tal s\u00f3 aconteceu com Edmund Halley no final de 1600 d.C. Al\u00e9m disso, j\u00e1 plantavam sementes individuais em fileiras em vez de as espalharem aleatoriamente pelos campos. J\u00e1 capinavam as ervas daninhas e j\u00e1 recorriam ao estrume de animais como fertilizante, avan\u00e7os que s\u00f3 no s\u00e9c. XVIII teriam lugar na Europa. No s\u00e9c. II a.C., perceberam que enfiando uma haste num \u00e2ngulo recto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lateral de uma roda se obtinha uma manivela, que aplicaram na sua m\u00e1quina de joeirar rotativa, aos moinhos, aos carretos de po\u00e7os e \u00e0 maquinaria associada ao fabrico de seda. Os antigos eg\u00edpcios tinham inventado uma manivela obl\u00edqua em 2500 a. C, mas a ideia s\u00f3 ocorreu aos ocidentais onze s\u00e9culos depois. N\u00e3o \u00e9 de admirar que tenham sido os chineses tamb\u00e9m a inventar o carreto de pesca no s\u00e9c. III d.C.<\/p>\n<p class=\"p5\">Ainda no s\u00e9c. II a. C., os chineses inventaram a semeadora de linhas m\u00faltiplas, abandonando o m\u00e9todo manual de semear que resultava num crescimento desigual e n\u00e3o evitava desperd\u00edcios. Na Europa, a primeira semeadora recebeu uma patente apenas em 1566 d.C., pela m\u00e3o de Camillo Torello.<\/p>\n<p class=\"p5\">Em 90 d.C., os chineses inventaram um dispositivo para peneirar o gr\u00e3o que recorria a um ventilador rotativo capaz de o separar do joio. E, num livro datado de 530 d.C., encontra-se a descri\u00e7\u00e3o do essencial acerca da m\u00e1quina a vapor. Tratava-se de uma m\u00e1quina de peneirar e agitar farinha que era movida a \u00e1gua e operava de modo inverso \u00e0 m\u00e1quina a vapor posterior: em vez de ser o pist\u00e3o da m\u00e1quina a trabalhar as rodas do ve\u00edculo, no caso chin\u00eas era \u00e1gua corrente que alimentava os pist\u00f5es que accionavam as rodas do ve\u00edculo. S\u00f3 n\u00e3o inventarem o virabrequim, porque n\u00e3o lhes fazia falta.<\/p>\n<p class=\"p5\">Antes da nossa era, j\u00e1 conheciam os po\u00e7os artesianos, quando na Europa s\u00f3 em 1126 d.C. se perfurou o primeiro. Em 271 d.C., Wang Chong fez a primeira refer\u00eancia conhecida \u00e0 bomba de corrente, um m\u00e9todo de levantar \u00e1gua de rios ou lagos na sua obra multitem\u00e1tica <i>Lun h\u00eang<\/i> (<span class=\"s5\">\u8ad6\u8861<\/span>).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Os chineses faziam cerveja mil anos antes dos \u00e1rabes, como ficou patente com a descoberta de 2013 de uma cer\u00e2mica de 9 000 anos que revelava a presen\u00e7a de \u00e1lcool. Na China antiga, consumia-se cerveja com um teor alco\u00f3lico de 4% a 5% desde, pelo menos, a dinastia Shang (1600 a.C.\u20131046 a.C.). O bot\u00e2nico Li Shizhen na sua obra <i>Bencao gang mu<\/i> (<\/span><span class=\"s9\">\u672c\u8349\u7eb2\u76ee,<\/span><span class=\"s4\"><i> A Grande Farmacopeia<\/i>), de 1578 d.C., descreveu claramente a maneira de destilar vinho em aguardente, uma t\u00e9cnica conhecida pelos chineses desde o s\u00e9c. VII. O <i>Bencao gang mu<\/i> descreve mais de 1 000 plantas e outros tantos animais, al\u00e9m de 8000 usos medicinais a eles associados. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Em 100 d. C., os chineses descobriram que as flores de cris\u00e2ntemo, uma vez secas e reduzidas a p\u00f3, podiam ser usadas para matar insectos, ou seja, fabricaram o primeiro insecticida do mundo. O ingrediente activo, o piteiro, ainda hoje \u00e9 usado, sobretudo no cultivo de hortali\u00e7as, dado ser biodegrad\u00e1vel e inofensivo para os mam\u00edferos. E desde o s\u00e9c. VII a.C. que fumigavam as casas para as livrar das pragas e, mais tarde, com a sua inven\u00e7\u00e3o do papel, os livros para os livrar de tra\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s6\"> Desde pelo menos o s\u00e9c. I a. C. que os chineses utilizavam a bomba de corrente de baldes quadrada, apetrecho que viria a disseminar-se pelo mundo inteiro. Consiste numa corrente cont\u00ednua de baldes quadrados capazes de elevar grandes quantidades de \u00e1gua ou de terra a um n\u00edvel superior de altura. Esta depende da robustez da m\u00e1quina e da maneira como os baldes foram projectados para evitar desperd\u00edcios. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s6\">Por volta de 100 d. C., descobriram ainda que os cavalos podem ser atrelados um \u00e0 frente do outro, o que permitia o transporte de cargas mais pesadas e a travessia de ruas estreitas. Esta disposi\u00e7\u00e3o dos cavalos s\u00f3 se tornou comum na Europa na Idade M\u00e9dia. Cem anos mais tarde, em 200 d.C., os chineses inventaram o balancim de carro\u00e7a, uma barra articulada \u00e0 qual dois bois s\u00e3o atrelados e que distribui a for\u00e7a uniformemente atrav\u00e9s das liga\u00e7\u00f5es, permitindo que os animais fa\u00e7am deslocar a viatura em conjunto. O balancim foi reinventado no Ocidente no s\u00e9c. XI para uso com cavalos. A prop\u00f3sito de cavalos, tamb\u00e9m foram os chineses que inventaram os estribos. A representa\u00e7\u00e3o mais antiga conhecida de um estribo foi feita na China em 302 d.C. Trata-se de um estribo de montagem, de um lado da sela, e n\u00e3o de um par de estribos de montaria. Estes estariam j\u00e1 em uso, por\u00e9m, em 477 d.C.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">Acresce que a superioridade t\u00e9cnica dos arados chineses era not\u00f3ria. No Ocidente lavrou-se a terra de forma ineficiente e extenuante at\u00e9 se ter conhecimento e se ter copiado o arado chin\u00eas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Assim como o cultivo em fileiras e o uso da semeadora, ambos avan\u00e7os tamb\u00e9m provenientes da China, tratou-se de um passo que levou directamente \u00e0 chamada revolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola na Europa. Para al\u00e9m disso, no s\u00e9c. IX foi introduzido na Europa o cabresto para cavalos que colocava a press\u00e3o, n\u00e3o na traqueia, o que os estrangulava em pleno esfor\u00e7o, mas nas omoplatas. Este cabresto fora adoptado na China havia mais de mil anos.<\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n3. Astronomia e Cartografia<br \/>\n<\/b><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-701 size-full\" src=\"http:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Suchow_star_chart_rubbing.jpg\" alt=\"\" width=\"745\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Suchow_star_chart_rubbing.jpg 745w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Suchow_star_chart_rubbing-300x194.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 745px) 100vw, 745px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center; font-size: 12px;\"><span class=\"s1\"><i>A carta astron\u00f3mica de Suzhou<\/i><\/span> (<span class=\"s2\">\u8607\u5dde\u77f3\u523b\u5929\u6587\u5716, \u6df3\u7950\u5929\u6587\u56f3<\/span>), criada em 1193 por Huang Shang (<span class=\"s2\">\u9ec3\u88f3<\/span>) gravada na pedra em 1247 por Wang Zhiyuan (<span class=\"s2\">\u738b\u81f4\u9060<\/span>) A carta mostra 1434 estrelas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">O<\/span><span class=\"s2\">s chineses<\/span><span class=\"s1\"> desde sempre demonstraram serem fin\u00edssimos observadores da natureza e destacaram-se na astronomia. Em 2296 a. C., j\u00e1 estavam a registar a passagem de um cometa. Trata-se do mais antigo registo de que h\u00e1 conhecimento e os chineses tornar-se-iam desde ent\u00e3o os observadores de cometas mais not\u00e1veis do mundo. Em 2136 a. C. registaram um eclipse solar, sendo igualmente o primeiro registo mundial desse fen\u00f3meno.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">A 16 de Outubro de 1876 a. C. \u2013 a primeira data precisa hoje conhecida \u2013 registam outro eclipse solar. Em 1100 d. C., os astr\u00f3nomos chineses constru\u00edram um planisf\u00e9rio em pedra, um dispositivo que apresentava um mapa dos c\u00e9us para qualquer data e hora definidas e que mostrava correctamente a causa dos eclipses solares e lunares.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Em 1300 a. C., os astr\u00f3nomos chineses j\u00e1 estavam convictos de que a dura\u00e7\u00e3o do ano \u00e9 de 3651\u20444 dias, uma aproxima\u00e7\u00e3o excelente para a \u00e9poca. Foi no s\u00e9c. IV a. C.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>que Gan De, Shi Shen e Wu Xian compilaram os primeiros grandes cat\u00e1logos de estrelas, obra compar\u00e1vel \u00e0 do grego Hiparco (190 a.C. \u2014 120 a.C.) mas que ocorreu dois s\u00e9culos mais cedo. Come\u00e7am tamb\u00e9m a surgir as primeiras refer\u00eancias \u00e0s manchas solares. Na China, estas eram reconhecidas como fen\u00f3menos solares. Na Europa, a primeira alus\u00e3o conhecida \u00e0s manchas solares teve lugar em 807 d.C. e foi feita por Eginhardo (Einhard) na obra biogr\u00e1fica <i>Vida de Carlos Magno<\/i>. Todavia, foram tidas por objectos no espa\u00e7o interm\u00e9dio at\u00e9 ao s\u00e9c. XVI. O registo chin\u00eas de observa\u00e7\u00f5es de manchas solares ao longo dos s\u00e9culos tornou-se na s\u00e9rie mais antiga, longa e cont\u00ednua da hist\u00f3ria mundial. Joseph Needham contou 112 registos de observa\u00e7\u00e3o de manchas solares em cr\u00f3nicas oficiais chinesas entre 28 a.C. e 1638 d.C., para al\u00e9m de centenas de notas sobre elas que foram surgindo noutras obras chineses ao longo dos s\u00e9culos. A observa\u00e7\u00e3o de manchas solares tem grande import\u00e2ncia pr\u00e1tica porque causam impacto na ionosfera e no tempo atmosf\u00e9rico terrestre.<\/p>\n<p class=\"p6\">Em 84 d. C., teve lugar um desenvolvimento de enorme import\u00e2ncia, quando os astr\u00f3nomos Fu An and Jia Kui aprimoraram o anel armilar para localizar estrelas combinando-o com outro anel que mostrava o movimento do Sol no c\u00e9u (a ecl\u00edptica), um prot\u00f3tipo da esfera armilar. Em 117 d. C., o grande g\u00e9nio cient\u00edfico Zhang Heng (78-140 d.C.) deu o passo seguinte e adicionou um rel\u00f3gio de \u00e1gua \u00e0 esfera armilar obtendo um dispositivo que, um tanto \u00e0 semelhan\u00e7a dos planet\u00e1rios modernos, rastreia o ponto em que se espera que as estrelas se posicionem no c\u00e9u. Zhang Heng, ao acrescentar mais um anel em 125 d.C., criou uma esfera armilar totalmente desenvolvida. Uma esfera armilar \u00e9 um modelo tang\u00edvel do universo que o representa atrav\u00e9s de an\u00e9is ligados por engrenagens de modo que cada componente se move de acordo com a rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com os outros.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Em 132 d. C., o impar\u00e1vel Zhang Heng inventou o primeiro sism\u00f3grafo do mundo, um dispositivo cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 indicar a direc\u00e7\u00e3o de um terremoto. Tratava-se de um vaso de bronze com seis drag\u00f5es laterais em redor do bojo. No interior das suas bocarras colocavam-se bolas que, caso se aproximasse um terramoto, podiam cair na boca aberta de seis sapos colocados numa superf\u00edcie plana em volta do vaso. Quando o ch\u00e3o treme, um p\u00eandulo no interior do vaso move-se e empurra uma alavanca que abre a boca de um dos drag\u00f5es. A bola rola e cai no interior da boca do sapo colocado sob ela, fazendo soar o alarme. A boca do drag\u00e3o que se abre aponta a direc\u00e7\u00e3o do terremoto. Seis anos depois, o sism\u00f3grafo de Zheng Heng indicou correctamente a direc\u00e7\u00e3o de um terramoto em Longxi, a mil quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Tratou-se da primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade que se detectou um terramoto. Na Europa, os sism\u00f3grafos s\u00f3 come\u00e7aram a ser desenvolvidos em 1848.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Acresce que Zheng Heng, cujo cargo governamental era registar os fen\u00f3menos astron\u00f3micos, corrigiu o calend\u00e1rio chin\u00eas para que coincidisse com as esta\u00e7\u00f5es, em 123 d.C. Tamb\u00e9m \u00e9 o autor do <i>Lingxian <\/i>(<span class=\"s4\">\u9748\u61b2<\/span>), uma s\u00famula do conhecimento astron\u00f3mico s\u00ednico, com v\u00e1rios dados observacionais e explica\u00e7\u00f5es acerca de eclipses, al\u00e9m do melhor mapa estelar conhecido at\u00e9 ent\u00e3o. Zheng Heng deixou ainda a sua marca na \u00e1rea da matem\u00e1tica, ao prop\u00f4r a raiz quadrada de 10 (cerca de 3 1623) para \u03c0, e na \u00e1rea da cartografia. Em 116 d.C., inventou a cartografia quantitativa ao desenhar grelhas em mapas para obter localiza\u00e7\u00f5es, dist\u00e2ncias e itiner\u00e1rios precisos. Este m\u00e9todo continuou a desenvolver-se na China de tal modo que, na dinastia Yuan, se tinha tornado comum tra\u00e7ar apenas as grelhas, sem o desenho do mapa.<\/p>\n<p class=\"p5\">Na Europa, os mapas foram fantasiosos e imprecisos durante largos s\u00e9culos. Os portulanos s\u00f3 surgiram no s\u00e9c. XIV e mapas de qualidade s\u00f3 no s\u00e9c. XV. A inven\u00e7\u00e3o de Zheng Heng abriu caminho ao desenho do mapa estelar de Dunhuang de 940 d. C., o mais antigo atlas estelar completo preservado do mundo. S\u00e9culos antes da inven\u00e7\u00e3o do telesc\u00f3pio, mostrava mais de 1300 estrelas vis\u00edveis a olho nu. Apresenta uma projec\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 que foi desenvolvida por Gerardus Mercator, cart\u00f3grafo flamengo do s\u00e9c. XVI, que ainda hoje \u00e9 usada em muitos mapas. Para al\u00e9m de todas estas proezas, Zheng Heng foi ainda poeta e pintor.<\/p>\n<p class=\"p5\">Decorria o ano de 185 d.C. quando os chineses observaram na constela\u00e7\u00e3o de Centaurus aquilo a que chamaram uma \u201cestrela convidada\u201d, que permaneceu vis\u00edvel durante vinte meses. Tratava-se provavelmente de uma supernova. Existem relatos de uma outra \u201cestrela convidada\u201d datados de 1006, tanto na China, como no Jap\u00e3o, na Europa e nas terras \u00e1rabes. Medi\u00e7\u00f5es posteriores mostram que foi talvez o evento estelar mais brilhante da hist\u00f3ria que ficou registado, tendo permaneceu vis\u00edvel por v\u00e1rios anos. Em 1054, foi observada outra supernova na China, no Jap\u00e3o e nas terras \u00e1rabes. Trata-se da supernova que agora forma a nebulosa do Caranguejo e ficou vis\u00edvel durante vinte e dois meses. Em 1181, e tanto na China como no Jap\u00e3o, elaboraram-se relatos de mais uma supernova que permaneceu vis\u00edvel durante 183 dias. Em 1572, os astr\u00f3nomos chineses registaram uma supernova em Cassiopeia, t\u00e3o brilhante quanto V\u00e9nus e que permaneceu vis\u00edvel durante quinze meses. O astr\u00f3nomo dinamarqu\u00eas Tycho Brahe tamb\u00e9m a observou, o que punha em xeque a concep\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica da imutabilidade dos c\u00e9us em vigor na Europa, concep\u00e7\u00e3o essa que nunca foi partilhada pelos chineses. Kepler, disc\u00edpulo de Tycho Brahe, observou e descreveu em 1604 uma supernova na constela\u00e7\u00e3o do Serpent\u00e1rio, que n\u00e3o era t\u00e3o brilhante quanto V\u00e9nus e permaneceu vis\u00edvel doze meses. Tamb\u00e9m foi avistada por astr\u00f3nomos chineses e coreanos.<\/p>\n<p class=\"p5\">O primeiro registo chin\u00eas acerca do conhecimento de que a cauda de um cometa aponta sempre para longe do Sol data de 635 d.C.. Os chineses tamb\u00e9m sabiam que, tal como a Lua, os cometas brilham porque reflectem a luz. Na Europa, foi s\u00f3 em 1540 que Peter Apian declarou no <i>Astronomicon caesareum<\/i> que os cometas apontam sempre as suas caudas para longe do Sol.<\/p>\n<p class=\"p5\">O monge budista, astr\u00f3nomo e matem\u00e1tico Yi Xing e o engenheiro Liang Lingzhan constru\u00edram em 725 d.C. o primeiro rel\u00f3gio mec\u00e2nico do mundo, um rel\u00f3gio de \u00e1gua regulado por uma roda motriz que o punha em funcionamento. A roda motriz abria e fechava uma v\u00e1lvula fazendo com que o fluxo de \u00e1gua vazasse de modo constante. Este rel\u00f3gio de bronze apresentava um mapa celeste, mostrava a hora, a localiza\u00e7\u00e3o do Sol e da Lua e representava o movimento das constela\u00e7\u00f5es equatoriais. Em 976, Zhang Sixun inventou o accionamento por corrente para uso num rel\u00f3gio mec\u00e2nico. Sobre os ombros desses dois gigantes, Su Song iniciou no ano 1088 d. C a constru\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio C\u00f3smico, o antepassado do computador, uma fus\u00e3o de rel\u00f3gio de \u00e1gua, planet\u00e1rio e esfera armilar. Esta proeza mec\u00e2nica ficou conclu\u00edda em 1092 d. C.. Tratava-se de um mecanismo com dez metros de altura, onde as rodas de escape, atrav\u00e9s de um fluxo de \u00e1gua constante, giravam de modo a alimentar o rel\u00f3gio e o planet\u00e1rio, uma representa\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica dos c\u00e9us, enquanto a esfera armilar permitia calibr\u00e1-los atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o do Sol e dos planetas. A m\u00e1quina foi desmantelada por invasores Jurchen em 1127 d.C. Afortunadamente, o livro de Su Song, <i>Xinyi xiangfayao<\/i> (<span class=\"s4\">\u65b0\u5100\u8c61\u6cd5\u8981<\/span>), onde se encontra a ilustra\u00e7\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o pormenorizada da sua m\u00e1quina e que foi publicado no ano de 1092 d.C., sobreviveu at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p class=\"p5\">O rel\u00f3gio mec\u00e2nico foi criado na Europa duzentos anos depois. Os rel\u00f3gios europeus eram accionados por um peso cuja descida era controlada por um escapamento. Os rel\u00f3gios chineses tamb\u00e9m tinham escapamentos, a parte mais importante do rel\u00f3gio mec\u00e2nico que, ali\u00e1s, foram inventados na China em 725 d.C., mas usavam \u00e1gua como fonte de energia. O escapamento \u00e9 uma catraca que faz com que uma roda se mova apenas at\u00e9 certo ponto e depois pare, de modo que n\u00e3o haja ac\u00e7\u00e3o descontrolada quando o rel\u00f3gio se encontra cheio de \u00e1gua. O movimento cont\u00ednuo \u00e9 substitu\u00eddo por um tiquetatear discreto.<\/p>\n<p class=\"p5\">Quando Su Song come\u00e7ou a construir o Imp\u00e9rio C\u00f3smico, havia j\u00e1 oitenta anos que a semana de sete dias fora introduzida na China pelos persas ou por mercadores da \u00c1sia central. At\u00e9 ent\u00e3o, a semana chinesa costumava durar dez dias. Nesse mesmo ano 1000 d.C., os chineses conclu\u00edram que, para al\u00e9m da Lua, tamb\u00e9m o Sol desempenha um papel no controle das mar\u00e9s.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>O papel da Lua era conhecido havia cerca de mil anos.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">No ano de 1200 d.C., constru\u00edram um observat\u00f3rio que lhes permitia calcular com grande precis\u00e3o a dura\u00e7\u00e3o do ano atrav\u00e9s da medi\u00e7\u00e3o das sombras projectadas no solo. E em 1270, o astr\u00f3nomo Guo Shoujing construiu o \u201cinstrumento simplificado\u201d, o primeiro instrumento astron\u00f3mico conhecido at\u00e9 hoje que recorre a uma montagem puramente equatorial. \u00c9 montado de tal modo que gira paralelamente ao eixo da Terra e, apesar da rota\u00e7\u00e3o desta, mant\u00e9m sempre \u00e0 vista a estrela para a qual aponta. Pode ser considerado um tipo de <i>torquetum<\/i> que simplificava o sistema \u00e1rabe e o adaptava ao sistema equatorial adoptado na China. Era feito em bronze e pesava v\u00e1rias toneladas. Sobreviveu \u00e0s vicissitudes da hist\u00f3ria e encontra-se em Nanquim desde a dinastia Ming. O mesmo Gu Shoujing, em 1276 d. C., montou um gn\u00f3mon de doze metros para medir a sombra do Sol e, tr\u00eas anos depois, fundou o primeiro observat\u00f3rio astron\u00f3mico de Pequim, no interior do Pal\u00e1cio Imperial. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Note-se que a astronomia chinesa era polar e equatorial e n\u00e3o planet\u00e1ria e ecl\u00edptica como a do mundo ocidental. Portanto, os observat\u00f3rios astron\u00f3micos modernos derivam da tradi\u00e7\u00e3o chinesa e n\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o europeia. Na Europa do s\u00e9c. XVII percebeu-se a vantagem do sistema chin\u00eas equatorial que foi ent\u00e3o adoptado por Tycho Brahe e pelos seus sucessores, como Kepler, construtores da astronomia moderna. Os observat\u00f3rios passaram a ser orientados e montados de acordo com o sistema astron\u00f3mico equatorial que remonta, na China, a cerca de 2400 a. C.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>O primeiro telesc\u00f3pio montado equatorialmente com accionamento por rel\u00f3gio, o refractor Dorpat, foi constru\u00eddo por Joseph von Fraunhofer em 1824 d.C. Tanto as montagens equatoriais como os rel\u00f3gios tinham origem chinesa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Os primeiros a criar mapas em relevo tamb\u00e9m foram os chineses e a sua hist\u00f3ria remonta pelo menos ao s\u00e9c. III a. C. Segundo relata o <i>Shiji<\/i> (<\/span><span class=\"s5\">\u53f2\u8a18<\/span><span class=\"s1\">, <i>Registos Hist\u00f3ricos<\/i>) de Sima Qian, em 210 a. C. o primeiro imperador chin\u00eas, Qin Shi Huangdi, foi enterrado com o seu ex\u00e9rcito de terracota e o seu t\u00famulo apresenta um mapa em relevo do imp\u00e9rio chin\u00eas em que os rios s\u00e3o formados pelo fluxo de merc\u00fario sob a ab\u00f3bada celeste representada por cima. Tamb\u00e9m sobreviveram relatos acerca de mapas em relevo feitos pelo general Ma Yuan em 32 d.C., com montanhas e vales modelados em arroz. E Jiang Fang escreveu uma obra acerca de mapas em relevo cerca de 845 d.C., intitulada <i>Ensaio sobre a arte de construir montanhas com arroz.<\/i> Tamb\u00e9m os houve feitos de madeira e de serradura misturada com farinha de trigo, e outros ainda feitos de barro.<\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n4. Engenharia<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">N<\/span><span class=\"s2\">o campo<\/span><span class=\"s1\"> da engenharia, os dados arqueol\u00f3gicos permitem afirmar que, por volta de 300 a.C., os ferreiros chineses descobriram que a queima de min\u00e9rio de ferro misturado com carv\u00e3o produzia um l\u00edquido met\u00e1lico espesso e male\u00e1vel. Rapidamente se aperceberam das vantagens do ferro fundido sobre o ferro forjado e passaram a utiliz\u00e1-lo tanto na vida como nas obras p\u00fablicas, construindo pontes de ferro e outras estruturas. Na Dinastia Han (202 a.C.<\/span><span class=\"s3\">\uff0d<\/span><span class=\"s1\">220 d.C.), a fundi\u00e7\u00e3o de ferro tornou-se monop\u00f3lio do governo e observou-se um desenvolvimento not\u00e1vel. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">A ponte p\u00eansil, com uma pista plana suspensa por cabos, tamb\u00e9m foi inventada na China. Pontes mais primitivas como a ponte de corda simples e a ponte caten\u00e1ria, provavelmente tamb\u00e9m o foram. No primeiro s\u00e9culo d.C., os chineses constru\u00edam pontes p\u00eansil de ferro fundido que eram suficientemente fortes para que os ve\u00edculos passassem sobre elas. Os chineses constru\u00edam ve\u00edculos com rodas desde 2\u00a0600 a. C. No ano de 688 d.C., a imperatriz Wu Zetian mandou erguer um pagode de noventa metros de altura constru\u00eddo em ferro fundido para comemorar os feitos da antiga dinastia Zhou (1050 a.C.-256 a.C.). Cinco anos depois, os chineses constru\u00edram um pagode de ferro fundido com vinte e oito metros de altura, sendo cada n\u00edvel fundido como uma \u00fanica pe\u00e7a. Em 1100 d.C., a produ\u00e7\u00e3o de ferro na China atingiu o n\u00edvel anual de 170 000 toneladas m\u00e9tricas.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">O ferro fundido s\u00f3 se tornou comum em toda a Europa no s\u00e9c. XIV. No in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial s\u00f3 havia ferro forjado. O ferro fundido, por\u00e9m, n\u00e3o parece ter chegado \u00e0 Europa vindo da China, mas ter resultado de v\u00e1rias descobertas mais ou menos simult\u00e2neas em diversos locais.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">No ano 31 d. C., para fazer instrumentos agr\u00edcolas com ferro fundido, o grande engenheiro chin\u00eas Du Shi inventou o fole movido a energia hidr\u00e1ulica. Esses foles viriam a ser usados na Europa trezentos anos depois, quando os chineses come\u00e7aram a usar carv\u00e3o em vez de madeira como combust\u00edvel no fabrico de ferro fundido. Os foles dos fornos accionados por rodas de \u00e1gua contribu\u00edram grandemente para o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o de ferro e de a\u00e7o da dinastia Song (960-1279 d.C.). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">No s\u00e9c. II d.C., os chineses j\u00e1 conseguiam fazer a\u00e7o. Adoptaram dois processos: um deles principiava pela descarboniza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, por retirar o carbono ao ferro fundido, e completava-se com a oxigena\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, soprando oxig\u00e9nio para o ferro fundido; e o outro, do s\u00e9c. V d.C., consistia na co-fus\u00e3o, isto \u00e9, o ferro fundido e o ferro forjado eram derretidos em conjunto para obter algo de interm\u00e9dio, o a\u00e7o. O processo de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o por \u201cco-fus\u00e3o\u201d foi adoptado na Europa em 1863, catorze s\u00e9culos mais tarde do que na China.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>E quando, em 1852, o norte-americano William Kelly inventou (embora n\u00e3o tivesse patenteado de imediato a ideia) um novo processo de fabrica\u00e7\u00e3o de a\u00e7o que antecipava em quatro anos o processo Bessemer, f\u00ea-lo com o aux\u00edlio de quatro especialistas chineses em siderurgia. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">No s\u00e9c. II a. C., os chineses inventaram o estabilizador gimbal, um mecanismo que consiste normalmente em an\u00e9is articulados em \u00e2ngulos rectos e que serve para estabilizar instrumentos como b\u00fassolas ou cron\u00f3metros numa situa\u00e7\u00e3o de movimento. Encontrava-se na Europa no s\u00e9c. IX d.C. A inven\u00e7\u00e3o do gimbal est\u00e1 na base do girosc\u00f3pio moderno e tornou poss\u00edvel a navega\u00e7\u00e3o e a pilotagem autom\u00e1tica de aeronaves de longo curso, al\u00e9m de ser essencial no trabalho profissional com drones.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Tal como a b\u00fassola, a inven\u00e7\u00e3o chinesa do leme de popa no s\u00e9c. I d.C. viria a revolucionar a navega\u00e7\u00e3o. As descobertas mar\u00edtimas dos portugueses s\u00f3 foram poss\u00edveis devido \u00e0 adop\u00e7\u00e3o da engenharia n\u00e1utica chinesa. At\u00e9 copiarem o leme de popa dos chineses, o que ter\u00e1 sucedido no s\u00e9c. XII, tal como sucedeu com a b\u00fassola, os europeus tiveram de se conformar com remos de direc\u00e7\u00e3o. Durante dois mil anos, ningu\u00e9m competia com a extrema superioridade n\u00e1utica dos chineses. Os chineses foram tamb\u00e9m os inventores do navio de roda de p\u00e1s, no s\u00e9c. V d. C. No s\u00e9c. XIII, podiam medir noventa metros, transportar oitocentos homens e contar com dez conv\u00e9s independentes. No alvor do s\u00e9c. XV, o junco chin\u00eas, cujo casco se inspira na anatomia do pato e n\u00e3o do peixe, era uma embarca\u00e7\u00e3o insuper\u00e1vel no transporte no mar alto e tempestuoso, assim como nas vias naveg\u00e1veis do interior. Contava com quatro mastros permanentes e dois tempor\u00e1rios, velas catitas refor\u00e7adas com ripas de bambu, um leme central e um por\u00e3o dividido em compartimentos estanques. Frotas de juncos patrulhavam uma \u00e1rea que ia desde o Oceano \u00cdndico at\u00e9 ao actual Sri Lanka. E em 1414, no reinado do imperador Yongle, largou da costa chinesa uma formid\u00e1vel expedi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o sob a lideran\u00e7a do grande almirante Zheng He que se prolongaria por mais de vinte anos. A frota compunha-se de sessenta e dois juncos gigantescos, o maior com mais de 120 metros de comprimento e 45 metros de largura. Transportavam cerca de 150 toneladas e 30 000 passageiros para o que hoje se conhece como a \u00cdndia, o Sri Lanka e a Ar\u00e1bia Saudita, para al\u00e9m da costa leste africana, da Som\u00e1lia at\u00e9 \u00e0 \u00c1frica do Sul. A primeira destas expedi\u00e7\u00f5es foi desde logo um \u00eaxito e regressou \u00e0 China em seguran\u00e7a e carregada de mercadorias e presentes tribut\u00e1rios em 1415. Os chineses comercializavam regularmente com a Indon\u00e9sia e com as Filipinas e a costa oriental africana e \u00e9 poss\u00edvel que tivessem atingido o norte da Austr\u00e1lia. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">No in\u00edcio da dinastia Han (206 a.C. &#8211; 220 d.C.) ou talvez anteriormente, apareceram na China uns objectos estranhos: as bacias de resson\u00e2ncia chinesas. S\u00e3o bacias de bronze, tecnologia na qual os chineses eram ex\u00edmios, equipadas com duas al\u00e7as e decoradas na superf\u00edcie com motivos geom\u00e9tricos. No fundo da bacia v\u00eaem-se quatro drag\u00f5es ou quatro peixes que lan\u00e7am jactos de \u00e1gua pela boca em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s paredes laterais quando as al\u00e7as s\u00e3o friccionadas. As vibra\u00e7\u00f5es provocadas pela fric\u00e7\u00e3o produzem uma ondula\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie da \u00e1gua em redor da borda. De seguida, as gotas de \u00e1gua tornam-se rapidamente em fluxos cont\u00ednuos semelhantes a min\u00fasculos jactos de fonte. As gotas e os jactos de \u00e1gua crescem e diminuem a cada fric\u00e7\u00e3o das al\u00e7as. Acredita-se que estas bacias de resson\u00e2ncia geram as frequ\u00eancias precisas e necess\u00e1rias para criar ondas estacion\u00e1rias (ondas que resultam da colis\u00e3o de duas ondas iguais mas opostas) e que os jactos de \u00e1gua s\u00e3o formados por essas ondas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Novecentos anos antes de Cristo, j\u00e1 os chineses obtinham g\u00e1s natural de po\u00e7os. Quinhentos anos depois, em Sichuan, come\u00e7aram a utilizar petr\u00f3leo e g\u00e1s natural para cozinhar e iluminar as cidades. Canalizavam o g\u00e1s em tubos de bambu e extra\u00edam petr\u00f3leo de fontes naturais. Em 100 a.C., obtinham g\u00e1s natural e \u00e1gua salgada por perfura\u00e7\u00e3o no solo. O m\u00e9todo de extrac\u00e7\u00e3o recorria a cordas e canos de bambu. Para erguer e baixar brocas de ferro fundido, constru\u00edam grandes torres de bambu que podiam chegar aos cinquenta e cinco metros de altura. Um ou mais homens ficava de p\u00e9 numa prancha de madeira, semelhante a um balanc\u00e9, que impelia a broca no cano de bambu a erguer-se a cerca de um metro para depois cair, fazendo-a chocar contra a rocha, pulverizando-a. A \u00fanica for\u00e7a usada para a perfura\u00e7\u00e3o era a m\u00e3o de obra humana e avan\u00e7ava-se cent\u00edmetro a cent\u00edmetro, a perfura\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o profundo requerendo anos. No in\u00edcio do s\u00e9c. III d.C., cavavam-se po\u00e7os at\u00e9 140 metros de profundidade. O g\u00e1s natural n\u00e3o foi explorado no Ocidente at\u00e9 ao s\u00e9c. XX e, no s\u00e9c. XIX, a ilumina\u00e7\u00e3o provinha do g\u00e1s de carv\u00e3o. A perfura\u00e7\u00e3o profunda para os suprimentos actuais de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural numa plataforma moderna \u00e9 um desenvolvimento das t\u00e9cnicas chinesas.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">A perfura\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural desenvolveu-se essencialmente ao mesmo tempo do que a perfura\u00e7\u00e3o de salmoura. Os chineses desenvolveram m\u00e9todos altamente sofisticados para po\u00e7os sem press\u00e3o artesiana para a extrac\u00e7\u00e3o da salmoura. Quando o perfurador ca\u00eda abaixo do n\u00edvel da salmoura, havia lugar a grandes suprimentos de g\u00e1s natural, principalmente metano. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Os escritos da escola de Mo Zi do s\u00e9c. IV a. C. atestam ainda que foi na China que teve lugar o primeiro uso conhecido de g\u00e1s t\u00f3xico e lacrimog\u00e9neo para utiliza\u00e7\u00e3o na guerra e para dispersar revoltas campesinas.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">No s\u00e9c. I a. C., os chineses j\u00e1 utilizavam correias de transmiss\u00e3o, ou seja, correias que transferem a pot\u00eancia de uma roda para outra criando um movimento rotativo cont\u00ednuo. Come\u00e7aram por as aplicar na maquinaria relacionada com a manufactura da seda. As correias de transmiss\u00e3o foram cruciais para o desenvolvimento da roda de fiar. Estiveram na origem das correntes de transmiss\u00e3o, inventadas na China em 976 d.C., a forma mais utilizada de transmiss\u00e3o de pot\u00eancia, que est\u00e1 presente nas bicicletas e nos equipamentos industriais, agr\u00edcolas e de movimenta\u00e7\u00e3o de cargas. Chegaram \u00e0 It\u00e1lia a partir da China pela m\u00e3o de viajantes italianos do s\u00e9c. XIV, mas permaneceram raras na Europa at\u00e9 quatro ou cinco s\u00e9culos depois.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Em 260 d.C., Ma Jun construiu a primeira m\u00e1quina cibern\u00e9tica, a \u201ccarruagem que aponta o sul\u201d, usando engrenagens diferenciais, uma combina\u00e7\u00e3o de rodas dentadas e volantes de in\u00e9rcia, semelhantes \u00e0 do autom\u00f3vel moderno. N\u00e3o tinha qualquer rela\u00e7\u00e3o com a b\u00fassola. Tratava-se de uma grande carruagem montada pela est\u00e1tua de jade de um Imortal cujo bra\u00e7o esticado, independentemente da posi\u00e7\u00e3o da carruagem, se erguia apontando em frente, sempre em direc\u00e7\u00e3o ao sul. N\u00e3o se tratou da primeira tentativa para criar esta carruagem, mas foi a mais bem sucedida. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">No s\u00e9c. VII d.C., o grande arquitecto e engenheiro Li Chun inventou a ponte de arco segmentado, quando apenas as pontes de arco semicircular eram conhecidas. As pontes de arco segmentado requerem menos material e s\u00e3o mais fortes do que as pontes de arco semicircular. A ponte Zhaozhou, tamb\u00e9m conhecida como ponte Anji, na prov\u00edncia de Hebei, foi constru\u00edda por Li Chun e \u00e9 a mais antiga e mais bem preservada ponte de pedra de arco segmentado do mundo. Tem cerca de cinquenta metros de comprimento e um v\u00e3o central de 37 metros. Tem 7,23 metros de altura e nove metros de largura. Sobreviveu a pelo menos dez inunda\u00e7\u00f5es, oito guerras e a in\u00fameros terremotos, alguns de grande magnitude. Mas a mais c\u00e9lebre ponte de arco segmentado da China \u00e9 a Ponte de Marco Polo (Lugouqiao \u00e9 o nome chin\u00eas), a oeste de Pequim, assim chamada no Ocidente porque Marco Polo a descreveu num estado de fasc\u00ednio e declarou tratar-se da melhor ponte do mundo. A primeira ponte de arco segmentado da Europa \u00e9 a famosa Ponte Vecchio, constru\u00edda em Veneza em 1345.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s1\">Em 219 a. C. o primeiro imperador chin\u00eas, Qin Shi Huangdi, ordenou ao engenheiro Shi Lu que constru\u00edsse o Canal M\u00e1gico para melhorar o abastecimento dos ex\u00e9rcitos imperiais enviados para o sul. O canal, ainda hoje em uso, media trinta e dois quil\u00f3metros de extens\u00e3o e ligava o rio Xiang ao rio Li, que se juntava depois a outros rios, tonando poss\u00edvel a um navio navegar de Cant\u00e3o ou de qualquer outro lugar no Mar da China at\u00e9 \u00e0 regi\u00e3o da actual Pequim e transportar bens em linha recta durante dois mil quil\u00f3metros. A capital de ent\u00e3o, Chang\u2019an (a actual Xi\u2019an) estava ligada ao Rio Amarelo por um canal de 145 quil\u00f3metros de extens\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o do c\u00e9lebre Grande Canal, a mais longa e mais antiga hidrovia constru\u00edda por humanos que ainda est\u00e1 em uso, com 965 quil\u00f3metros de comprimento e ligando o Yangtze ao Rio Amarelo, iniciou-se no ano de 70 d. C. e finalizou-se em 1327, contando vinte e quatro comportas e sessenta pontes. Nada de semelhante existiu na Europa at\u00e9 ao s\u00e9c. XVII e os canais apresentavam extens\u00f5es bastante mais modestas. Preocupado com os roubos que ocorriam quando os barcos eram rebocados sobre os vertedores, Qiao Weiyao inventou a eclusa para os canais em 983 d.C. As eclusas possibilitaram que o Grande Canal subisse para quarenta e dois metros acima do n\u00edvel do mar. Na Europa, depois de serem adoptadas a partir da China, o primeiro registo de uma eclusa de canal ocorreu em 1373 em Vreeswijk, na Holanda, embora pudessem ter sido constru\u00eddas cem anos antes.<\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n5. Tecnologia industrial<\/b><b><\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">O<span class=\"s1\">s chineses<\/span> cedo desenvolveram tecnologias industriais em m\u00faltiplas frentes. Descobriram as qualidades da laca e come\u00e7aram a aplic\u00e1-la como material de protec\u00e7\u00e3o e decora\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria da utiliza\u00e7\u00e3o de laca na China remonta a 4.000 anos. Foi a partir de l\u00e1 que o trabalho em laca se foi espalhando pelos demais territ\u00f3rios asi\u00e1ticos. A laca em bruto \u00e9 retirada na China atrav\u00e9s de cortes feitos na casca da \u00e1rvore <i>Toxicodendron vernicifluum. <\/i>Quando est\u00e1 seca, a laca \u00e9 resistente \u00e0 \u00e1gua, refor\u00e7ando e preservando as superf\u00edcies sobre as quais \u00e9 aplicada. Tamb\u00e9m se pode tornar na principal subst\u00e2ncia de que os objectos s\u00e3o feitos.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">Os chineses descobriram o papel cerca de 140 a.C., mas n\u00e3o o utilizaram logo para escrever. Servia para embalar e para recauchutar pe\u00e7as de vestu\u00e1rio. Foi no s\u00e9c. I d.C. que adquiriu a nova fun\u00e7\u00e3o de registar a escrita. Al\u00e9m da escrita, o papel foi utilizado para in\u00fameros fins, por exemplo, para a pintura e para fabricar foguetes. A China tamb\u00e9m se tornou no primeiro local do mundo a ter papel higi\u00e9nico, pois de acordo com registos hist\u00f3ricos j\u00e1 era usado no s\u00e9c. VI d.C. No final do s\u00e9c. XIV, registou-se que se tinham fabricado 720\u00a0000 folhas de papel higi\u00e9nico grandes para a corte imperial. O papel higi\u00e9nico chegou ao Ocidente s\u00f3 no s\u00e9c. XIX e s\u00f3 no in\u00edcio do s\u00e9c. XX ganhou popularidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Os chineses inventaram o guarda-chuva\/guarda-sol no s\u00e9culo IV d.C., que era feito de um papel grosso e oleoso com origem na casca de amoreira. O do imperador da \u00e9poca era amarelo e vermelho e os dos restantes mortais eram azuis.<\/p>\n<p class=\"p5\">Em 618 d.C. inaugurou-se a publica\u00e7\u00e3o de um jornal da corte, com v\u00e1rias dezenas de exemplares. No alvor do s\u00e9c. IX, algo j\u00e1 semelhante \u00e0s notas banc\u00e1rias se encontrava a circular pela China. Eram an\u00e1logas a notas de cr\u00e9dito ou notas de c\u00e2mbio emitidas de forma privada. Por exemplo, um comerciante que depositasse o seu dinheiro na capital recebia um \u201ccertificado de c\u00e2mbio\u201d em papel que podia trocar depois noutras cidades por moedas de metal. Em 900 d. C., no Sichuan, o dinheiro em notas de papel como meio de troca j\u00e1 estava em vigor. A primeira impress\u00e3o de dinheiro em papel na Europa ocorreu na Su\u00e9cia em 1661.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Al\u00e9m de inventarem o papel, os chineses inventaram a imprensa e os tipos m\u00f3veis, que eram feitos em madeira ou em cer\u00e2mica. O primeiro texto completo impresso, atrav\u00e9s da impress\u00e3o em bloco, foi o <i>Sutra do Diamante<\/i> datado de 868 d.C. que foi encontrado em Dunhuang por um monge em 1900. Consistia em sete grandes folhas coladas para formar um pergaminho, uma delas com uma imagem em xilogravura. Os tipos m\u00f3veis foram inventados menos de 200 anos depois. Em 1107 d.C., os chineses deram novo passo em frente e inventaram a impress\u00e3o multicor atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de seis cores, com a finalidade principal de tornar mais dif\u00edcil falsificar o dinheiro em papel. E, em 1155, deram \u00e0 estampa o primeiro mapa impresso do mundo, um mapa da China ocidental. As t\u00e9cnicas de impress\u00e3o foram desenvolvidas por Wang Zhen em 1313, quando conseguiu ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o mais de 60 000 caracteres chineses feitos de madeira que utilizou para imprimir o seu <i>Tratado de Agricultura<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u8fb2\u66f8<\/span><span class=\"s3\"> <i>Nongshu<\/i>).<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">No ano de 751 d. C., em Samarcanda, na \u00c1sia central, os \u00e1rabes aprenderam os segredos do fabrico de papel atrav\u00e9s de chineses. No s\u00e9c. XI, os \u00e1rabes revelaram esses segredos \u00e0 Europa. Na Europa, a inven\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o com tipos m\u00f3veis por Gutenberg que teve lugar em 1450 aconteceu de maneira independente, mas a impress\u00e3o com blocos, essencial para a impress\u00e3o com tipos m\u00f3veis, foi provavelmente conhecida por difus\u00e3o a partir da China.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-702 size-large\" src=\"http:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Wheelbarrows_with_sails_China-1024x630.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Wheelbarrows_with_sails_China-1024x630.jpg 1024w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Wheelbarrows_with_sails_China-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Wheelbarrows_with_sails_China-768x473.jpg 768w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Wheelbarrows_with_sails_China.jpg 1261w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center; font-size: 12px;\">Carrinho de m\u00e3o com velas. Foto anterior a 1935. Retirado da obra de Kazanin M.I., <span class=\"s1\"><i>Ensaio sobre a geografia econ\u00f3mica da China<\/i><\/span>, M. Ogiz.Sotsekgiz, p.106.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">O carrinho de m\u00e3o, que s\u00f3 cerca do s\u00e9c. XIII come\u00e7ou a ser utilizado na Europa, era corrente na China pelo menos desde o s\u00e9c. I a.C. Desempenhavam pap\u00e9is importantes em assuntos militares, como o fornecimento de homens ou de provis\u00f5es, dado poderem carregar tanto uns como outros para uma batalha. Tamb\u00e9m formavam com eles barreiras protectoras e m\u00f3veis contra cargas de cavalaria. Em alguns acrescentavam velas e esses podiam deslocar-se a alta velocidade na terra e no gelo. Algo muito semelhante ao paqu\u00edmetro deslizante j\u00e1 era utilizado para medi\u00e7\u00f5es na China no s\u00e9c. I d.C.. S\u00f3 lhe faltava a pe\u00e7a girat\u00f3ria. Parece ter sido inventado muito tempo depois na Europa por Leonardo da Vinci. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Uma das maiores inven\u00e7\u00f5es das China foi a porcelana, fabricada pela primeira vez por volta de 600 d.C. A cer\u00e2mica chinesa tornou-se, de longe, na mais avan\u00e7ada do mundo. Considera-se que o fabrico de porcelana atingiu o auge na dinastia Song (960-1279). No Ocidente, o termo porcelana refere-se a cer\u00e2mica branca cozida a alta temperatura (cerca de 1300\u00ba) em condi\u00e7\u00f5es oxidantes ou redutoras e de corpos transl\u00facidos. As porcelanas do norte da China recorriam predominantemente \u00e0 argila rica em caulino (<i>gaoling<\/i>) e \u00e0 oxida\u00e7\u00e3o. No sul, era a pedra de porcelana (<i>baidunzi<\/i> ou \u2018petuntse\u2019), rica em feldspato, o material principal e a redu\u00e7\u00e3o era o processo mais comum. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Os inventores da roda de fiar tamb\u00e9m foram os chineses. \u00c9 muito prov\u00e1vel que a roda de fiar e outras m\u00e1quinas relacionadas com t\u00eaxteis fossem introduzidas na Europa a partir da China atrav\u00e9s dos mercadores italianos que l\u00e1 se deslocaram na dinastia Yuan (1279\u20131368). <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">A primeira refer\u00eancia a uma roda de fiar na Europa data de 1280 d.C. N\u00e3o esque\u00e7amos que a seda, uma das fibras mais antigas, teve origem na China entre 4.000 a 3.000 a.C. Os chineses descobriram que o bicho-da-seda produz as fibras mais longas da natureza, com cerca de novecentos metros de comprimento e perceberam que era superior ao p\u00ealo animal e \u00e0s fibras vegetais. Em 53 a. C., os romanos que guerreavam contra soldados inimigos da P\u00e1rtia viram seda pela primeira vez nos seus estandartes. Durante largos s\u00e9culos, entre muitos outros bens, a seda foi transportada para o Ocidente por mercadores atrav\u00e9s da chamada Rota da Seda. <\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n6. Matem\u00e1tica e Medicina<\/b><b> <\/b><\/h3>\n<p class=\"p6\">Na \u00e1rea da matem\u00e1tica, deve-se aos chineses o sistema decimal que criaram no s\u00e9c. XIV a. C. e que se espalhou pelo mundo. Parece ter atingido a Europa apenas no s\u00e9c. VIII d.C., atrav\u00e9s dos \u00e1rabes de Al-Andaluz. Al\u00e9m do sistema decimal, os chineses lidavam tamb\u00e9m com frac\u00e7\u00f5es decimais pelo menos desde o s\u00e9c. V a. C., com os avan\u00e7os do matem\u00e1tico e astr\u00f3nomo Liu Xin. O conhecimento acerca das frac\u00e7\u00f5es decimais viajou da China para Samarcanda no s\u00e9c. XIV ou XV d. C., tendo atingido a Europa apenas em 1530. Antes de 300 a.C., os chineses j\u00e1 tinham desenvolvido os primeiros quadrados m\u00e1gicos. Trata-se de matrizes de n\u00fameros escolhidos de tal modo que se obt\u00e9m o mesmo valor atrav\u00e9s da soma das linhas, colunas e diagonais. No s\u00e9c. II a.C., j\u00e1 lidavam com n\u00famero negativos, algo cuja exist\u00eancia foi muito dif\u00edcil de aceitar na Europa, onde s\u00f3 em meados do s\u00e9c. XVI come\u00e7aram a ser adoptados, embora tivessem surgido em 275 d.C. numa obra do matem\u00e1tico grego Diofanto de Alexandria. Este descreveu-os, todavia, como sendo absurdos enquanto solu\u00e7\u00e3o de uma equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\">Quando o ano 50 d.C. se aproximava, veio a lume a colect\u00e2nea de Liu Hui <i>Jiuzhang suanshu<\/i> (\u201cNove Cap\u00edtulos da Arte Matem\u00e1tica\u201d), que registava a matem\u00e1tica conhecida pelos chineses em nove cap\u00edtulos que expunham 246 problemas, m\u00e9todos de medi\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o e propor\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00f5es, m\u00e9todos para solu\u00e7\u00e3o de equa\u00e7\u00f5es e sistemas de equa\u00e7\u00f5es e aplica\u00e7\u00f5es do teorema de Pit\u00e1goras. Antes da \u00e9poca de Pit\u00e1goras, j\u00e1 esse teorema era conhecido pelos babil\u00f3nios, pelos eg\u00edpcios e pelos chineses. O <i>Zhoubi Suanjing<\/i> (<span class=\"s7\">\u5468\u9ac0\u7b97\u7ecf<\/span>, o<i> Cl\u00e1ssico da Aritm\u00e9tica do Gn\u00f3mon dos Zhou<\/i>), uma compila\u00e7\u00e3o do s\u00e9c. I a. C. sobre o conhecimento matem\u00e1tico e astron\u00f3mico da dinastia Zhou (1046\u2013256 a.C.), apresenta a primeira prova conhecida desse teorema.<\/p>\n<p class=\"p5\">Como j\u00e1 se referiu, em finais do s\u00e9c. I ou no in\u00edcio do s\u00e9c. II d.C., Zheng Heng prop\u00f4s para \u03c0 a raiz quadrada de 10 (cerca de 3 1623). Em 263 d.C., Liu Hui recorreu a pol\u00edgonos de at\u00e9 3072 lados para calcular o valor de \u03c0 como 3 14159. No mesmo ano, forneceu uma prova do teorema de Pit\u00e1goras e calculou o volume de uma esfera, de cilindros e de s\u00f3lidos semelhantes, atrav\u00e9s de algo an\u00e1logo ao conceito de limite. Em 635 d.C., o valor de \u03c0 foi calculado como 3 1415927 (usando decimais) na hist\u00f3ria oficial da dinastia Sui. Na Europa de 1600 d.C., o matem\u00e1tico holand\u00eas Adriaan Anthonisz e o seu filho calculavam \u03c0 ainda como 3, 1415929.<\/p>\n<p class=\"p5\">Uma grande contribui\u00e7\u00e3o chinesa para a matem\u00e1tica foi a extrac\u00e7\u00e3o de ra\u00edzes quadradas e ra\u00edzes c\u00fabicas segundo um processo semelhante ao de W. G. Horner, de 1819, que era praticado pelo menos desde o s\u00e9c. I a. C. No s\u00e9c. III d.C., os chineses descreviam figuras geom\u00e9tricas atrav\u00e9s de equa\u00e7\u00f5es alg\u00e9bricas. Recorriam regularmente \u00e0 \u00e1lgebra para aux\u00edlio na geometria. Os procedimentos chineses foram passados aos \u00e1rabes no s\u00e9c. IX d. C. e Leonardo Fibonacci parece ter sido o primeiro a utiliz\u00e1-los na Europa em 1220 d. C. A data do primeiro registo conhecido que descreve o chamado tri\u00e2ngulo de Pascal (Blaise Pascal, 1623-1662) \u00e9 1303 d. C. e foi publicado pelo grande matem\u00e1tico chin\u00eas Zhu Shijie, embora n\u00e3o seja claro se foi fruto de uma transmiss\u00e3o a partir dos \u00e1rabes para os chineses ou vice-versa. Em 800 d. C., os matem\u00e1ticos chineses usavam o m\u00e9todo das diferen\u00e7as finitas para resolver equa\u00e7\u00f5es, um processo iterativo que fornece solu\u00e7\u00f5es aproximadas da solu\u00e7\u00e3o real. E, no s\u00e9c. XIII, praticavam equa\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas de grau superior a tr\u00eas, contando v\u00e1rios s\u00e9culos de avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente. Em 1593, surgiu na China a primeira descri\u00e7\u00e3o de um \u00e1baco chin\u00eas moderno. Todavia, a primeira refer\u00eancia impressa \u00e0 \u201caritm\u00e9tica com bolas\u201d, a forma primitiva do \u00e1baco, aparece num texto chin\u00eas de 700 d.C.. E esse mesmo texto implica que o \u00e1baco remonta ao s\u00e9c. II d.C.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s8\"> Quanto \u00e0 \u00e1rea da medicina, sabe-se que a acupuntura era amplamente utilizada como terapia na China h\u00e1 mais de dois mil anos. Embora a cirurgia seja talvez a forma mais antiga de medicina, na China preferia-se a acupuntura \u00e0 cirurgia invasiva. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">A antiga filosofia natural chinesa elaborou teorias de um refinamento extremo para a \u00e9poca acerca da mat\u00e9ria e dos seres vivos, levando os chineses a acreditar desde sempre que o sangue circula por todo o corpo. Na Europa, essa ideia surgiu apenas no s\u00e9c. XVI e a sua absor\u00e7\u00e3o foi lenta. Os chineses tamb\u00e9m sabiam que a pulsa\u00e7\u00e3o derivava dos batimentos do cora\u00e7\u00e3o, tendo identificado vinte e oito tipos de pulsa\u00e7\u00e3o diferentes. Al\u00e9m disso, estavam cientes dos ritmos circadianos, algo de muito recente na medicina ocidental. Eram ainda brilhantes na endocrinologia. No s\u00e9c. VII, j\u00e1 estavam a usar a hormona da tir\u00f3ide para tratar o b\u00f3cio, que sabiam distinguir de um tumor. O tratamento do b\u00f3cio com iodo atingiu a Europa a partir da China no s\u00e9c. XII. Entre 1025 e 1833 d. C., os chineses conheciam pelo menos dez m\u00e9todos para obter hormonas sexuais e pituit\u00e1rias atrav\u00e9s da urina. A produ\u00e7\u00e3o dessas hormonas era feita em grande escala sob a forma de medicamentos a que chamavam \u2018mineral do outono\u2019. A descoberta de que a urina continha tais hormonas s\u00f3 foi feita na Europa em 1927. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s2\">No s\u00e9c. VII d.C., o m\u00e9dico chin\u00eas Zhen Chuan, tonou-se na primeira pessoa a notar os sintomas de diabetes <i>mellitus<\/i>, incluindo sede e urina adocicada. Avan\u00e7ou com explica\u00e7\u00f5es e dietas para essa condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o distam muito das solu\u00e7\u00f5es actuais. Um dos contributos para a medicina dent\u00e1ria profil\u00e1tica foi a inven\u00e7\u00e3o, em 1498 d.C. (\u00e9 poss\u00edvel que tenha ocorrido antes, na dinastia Tang, 619 e 907 d.C.), da escova de dentes de cerdas, semelhantes \u00e0s que hoje se utilizam. As cerdas eram feitas de p\u00ealos grossos de su\u00ednos. O cabo era feito de osso ou bambu e as cerdas eram inseridas em pequenos orif\u00edcios numa extremidade. Estas escovas de dentes de pelo de porco foram exportadas para a Europa ao longo do s\u00e9c. XVII, mas os europeus preferiram a crina de cavalo, por ser mais macia. <\/span><\/p>\n<h3 class=\"p1\"><b><br \/>\n7. Ci\u00eancias F\u00edsicas e Magnetismo<\/b><\/h3>\n<p class=\"p3\">N<span class=\"s1\">a \u00e1rea<\/span> das ci\u00eancias f\u00edsicas e do magnetismo, os chineses come\u00e7aram a usar uma b\u00fassola de magnetita pelo menos no s\u00e9c. IV a.C. Apontava o sul, como sucederia sempre com as b\u00fassolas chinesas at\u00e9 \u00e0 dinastia Qing (1636\u20131912), quando as b\u00fassolas n\u00e1uticas passaram a apontar o norte, sob influ\u00eancia europeia. As b\u00fassolas, originalmente, n\u00e3o eram usadas na navega\u00e7\u00e3o, mas sim na pr\u00e1tica da geomancia. A forma de peixe \u00e9 tipicamente chinesa. Existem descri\u00e7\u00f5es anatigas de \u201cpeixes\u201d de ferro magnetizado que flutuavam na \u00e1gua e podiam ser usados \u200b\u200bpara encontrar o sul. Outra forma antiga era uma colher que representava a Ursa Maior. Depois foram substitu\u00eddas por agulhas de a\u00e7o pousadas num canudo que flutuava na \u00e1gua e aplicadas \u00e0 navega\u00e7\u00e3o entre 850 e 1050 d.C.<\/p>\n<p class=\"p4\">Os antigos gregos conheciam o magnetismo e a electricidade est\u00e1tica, mas n\u00e3o fizeram muito com eles.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>A primeira refer\u00eancia ocidental conhecida \u00e0 b\u00fassola magn\u00e9tica data de 1190 d. C. e encontra-se no <i>De naturis rerum,<\/i> de Alexander Neckam. A b\u00fassola parece ter chegado \u00e0 Europa ao mesmo tempo do que \u00e0s terras \u00e1rabes, atrav\u00e9s de contactos n\u00e1uticos.<\/p>\n<p class=\"p5\">Pelo s\u00e9c. VIII ou IX, os chineses j\u00e1 estavam cientes da declina\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica, isto \u00e9, da diferen\u00e7a, que varia anualmente, causada pelo magnetismo terrestre entre o norte encontrado atrav\u00e9s de uma b\u00fassola e o norte geogr\u00e1fico. Anteciparam-se aos europeus em seis s\u00e9culos. No in\u00edcio do s\u00e9c. XI, tamb\u00e9m j\u00e1 se tinham apercebido do fen\u00f3meno da reman\u00eancia no magnetismo, algo que s\u00f3 em 1600 d.C. sucedeu na Europa.<\/p>\n<p class=\"p5\">A primeira lei do movimento dita de Newton, datada do s\u00e9c. XVIII, foi formulada primeiro na China no s\u00e9c. III ou IV a.C. Segundo essa lei, um objecto em repouso permanece em repouso, ou se em movimento, permanece em movimento com uma velocidade constante, a menos que seja sujeito a uma for\u00e7a resultante externa. Surge no <i>Mojing<\/i>, uma colect\u00e2nea de textos dos adeptos da escola de Mo Zi, que se caracterizou por uma s\u00e9rie de ideias brilhantes de teor cient\u00edfico. Todavia, a escola de Mo Zi n\u00e3o durou muito. O seu impacto na hist\u00f3ria posterior da China foi reduzido e as suas obras ficaram esquecidas at\u00e9 recentemente.<\/p>\n<p class=\"p5\">Os chineses sabiam que a estrutura dos flocos de neves era hexagonal pelo menos desde o s\u00e9c. II a.C.. Na Europa isso s\u00f3 aconteceu em 1591 d.C, quando o matem\u00e1tico Thomas Harriot fez notar que todos os flocos de neve t\u00eam seis pontas ou seis lados, embora n\u00e3o tivesse publicado essa observa\u00e7\u00e3o. A primeira descri\u00e7\u00e3o pormenorizada da natureza hexagonal dos flocos de neve no Ocidente encontra-se numa obra de Kepler de vinte e cinco p\u00e1ginas, <i>Um presente de Ano Novo ou o Floco de Neve de Seis Pontas<\/i>, de 1611.<\/p>\n<p class=\"p5\">Numa obra de 550 d.C., <i>Jinlou Zi<\/i> (<span class=\"s2\">\u91d1\u697c\u5b50<\/span>, <i>O Mestre do Pavilh\u00e3o Dourado<\/i>) do Imperador Luan dos Liang, encontra-se a descri\u00e7\u00e3o de um ve\u00edculo terrestre movido a vento constru\u00eddo na China que transportava trinta pessoas e se deslocava centenas de quil\u00f3metros por dia.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">O papagaio de papel tamb\u00e9m foi inventado na China no s\u00e9c. IV ou V a.C. Os primeiros eram de madeira. Destinavam-se sobretudo para fins militares, como testar o vento e sinalizar, medir dist\u00e2ncias e enviar mensagens, como sucedeu em 1232 durante um cerco mongol. O incompar\u00e1vel engenho chin\u00eas aplicou os papagaios de papel ainda na \u00e1rea da pesca. Atavam o anzol e a isca ao papagaio e faziam-no voltejar a partir de um barco ou canoa para depois ficar em repouso sobre um ponto da superf\u00edcie \u00e1gua suficientemente afastado da embarca\u00e7\u00e3o para n\u00e3o assustar os peixes. Tamb\u00e9m faziam papagaios musicais, apetrechados com canas de bamb\u00fa de modo a produzirem toda uma pan\u00f3plia de sons. \u00c9 interessante notar que, no seio da escola do Dao, a visualiza\u00e7\u00e3o do voo de papagaios de papel constitu\u00eda uma forma de medita\u00e7\u00e3o e a tecnologia decerto lucrou com isso. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">De acordo com um relato do s\u00e9c. VI d.C., os chineses operavam papagaios de papel para levar a cabo voos tripulados. Com efeito, o imperador Wen Xuan, da dinastia Qin do Norte, ordenou que uns tantos prisioneiros inimigos fossem lan\u00e7ados do alto dos trinta metros da Torre da F\u00e9nix Dourada, equipados com esteiras de bambu a fazer de asas. Morreram todos. Mas o imperador continuou a aprimorar a experi\u00eancia e seguiram-se os voos de inimigos atados e a pilotar papagaios de papel. Um dos prisioneiros conseguiu sobreviver a um voo bem sucedido de mais de trezentos metros. Foi por isso condenado a morrer \u00e0 fome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-703 size-large\" src=\"http:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-1024x838.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-1024x838.jpg 1024w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-300x245.jpg 300w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-768x628.jpg 768w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-1536x1256.jpg 1536w, https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Two_people_flying_a_kite_in_China_by_unknown_photographer_1870-1930_from_the_Digital_Commonwealth_-_commonwealth_x920jq51b-2048x1675.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center; font-size: 12px;\">Chin\u00eas com papagaio de papel. Fotografia de autor desconhecido, 1870-1930, da Digital Commonwealt.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s4\">No s\u00e9c. XIII, os papagaios de papel que levantavam pessoas eram comuns. Os chineses fabricavam e fabricam papagaios de papel com as mais extraordin\u00e1rias e variadas formas. Com o tempo, tornou-se num brinquedo. O papagaio de papel chegou \u00e0 Europa apenas no s\u00e9c. XVI.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">O grande mestre tao\u00edsta Ge Hong (283-343 d.C.) assinalou no seu <i>Baopu Zi<\/i> (<\/span><span class=\"s6\">\u62b1\u6a38\u5b50<\/span><span class=\"s5\">, <i>O Mestre que Abra\u00e7a a Autenticidade<\/i>) que havia quem fabricasse carros voadores de madeira com correias de couro de boi presas a l\u00e2minas girat\u00f3rias para os colocar em movimento e que outros tiveram a ideia de fazer cinco cobras, seis drag\u00f5es e tr\u00eas bois para enfrentar o \u201cvento forte\u201d e sobre ele cavalgar ininterruptamente at\u00e9 \u00e0 altura de quarenta <i>li<\/i>. E acrescentou que, nessas alturas, o <i>qi<\/i> \u00e9 extremamente duro e consegue superar a for\u00e7a humana. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Leonardo da Vinci projectou o primeiro helic\u00f3ptero em 1500 d.C., mas nunca foi constru\u00eddo e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que levantasse voo. No mesmo ano, na China, Wan Hu amarrou quarenta e sete foguetes de p\u00f3lvora \u00e0s costas de uma cadeira para construir uma m\u00e1quina voadora. O dispositivo explodiu e o seu inventor e piloto morreu.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Sob a influ\u00eancia de relatos acerca da China e do Si\u00e3o, Louis Sebastien Lenormand tornou-se em 1784 o primeiro ocidental a usar uma forma de para-quedas. Dois s\u00e9culos antes, Leonardo da Vinci fizera o esbo\u00e7o de uma forma de para-quedas. Os chineses elaboravam para-quedas pelo menos desde o s\u00e9c. II a.C., assim como miniaturas de bal\u00f5es de ar quente feitas de casca de ovo e com mechas inflam\u00e1veis. Um facto curioso \u00e9 que, em 1855, Sir George Cayley, o pai da aeron\u00e1utica moderna, exibiu algo que est\u00e1<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>na origem da h\u00e9lice da aeronave moderna: os seus helic\u00f3pteros de \u201cbrinquedo\u201d a subir a vinte e sete metros de altura. Cayley adoptara como modelo as h\u00e9lices de brinquedo chinesas, eixos com v\u00e1rias l\u00e2minas colocadas em \u00e2ngulo e com uma corda enrolada em volta que existiam desde pelo menos desde<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>o s\u00e9c. IV d.C.<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">O <i>Zhenyuan miaodao yaolue<\/i> (<\/span><span class=\"s6\">\u771f\u5143\u5999\u9053\u8981\u7565<\/span><span class=\"s5\">, <i>Fundamentos do Dao Misterioso da Verdadeira Origem<\/i>), de 850 d.C., atribu\u00eddo ao alquimista Zheng Yin, descreve uma forma primitiva de p\u00f3lvora, advertindo acerca do perigo de poder queimar tudo em redor. Em 1044 d.C., Zeng Gongliang publicou as primeiras receitas de tr\u00eas variedades de p\u00f3lvora. No in\u00edcio, os chineses receavam a p\u00f3lvora, cientes do perigo que representava. Embora a China fosse o pa\u00eds que inventou a besta no s\u00e9c. IV a.C. e que possu\u00eda o armamento mais sofisticado do mundo desde os primeiros s\u00e9culos a.C at\u00e9 ao s\u00e9c. XVI d.C., os chineses n\u00e3o come\u00e7aram a aplicar a p\u00f3lvora em armamento de imediato. Pelo contr\u00e1rio, os europeus perceberam logo como a aplicar no fabrico de armamento, mas a p\u00f3lvora s\u00f3 chegou at\u00e9 eles quinhentos anos depois de ter sido inventada na China. Quando os chineses a come\u00e7aram a usar na guerra foi apenas para assustar o inimigo com a barulhada. Em 1221 d.C., por\u00e9m, j\u00e1 fabricavam bombas que produziam estilha\u00e7os e causavam danos consider\u00e1veis. Tamb\u00e9m inventaram as minas terrestres, com as quais protegiam a fronteira norte dos ataques dos mong\u00f3is, assim como as minas navais, a que chamavam \u201cdrag\u00f5es submarinos\u201d, para travarem batalhas no mar. Colocavam-nas em intestinos de cabra submergidos e presos a uma prancha de madeira flutuante. No final do s\u00e9c. XIII, em 1288, embora com antecessores que datavam de dez ou mais anos, fabricaram o primeiro proto-canh\u00e3o do mundo. Era de pequenas dimens\u00f5es e feito de ferro fundido. O canh\u00e3o de ferro fundido do Ocidente data de 1542 d.C. e foi inventado em Inglaterra por Ralph Hog. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">E foram mulheres da dinastia Qi do norte que, durante um cerco militar e recorrendo ao enxofre, inventaram a primeira vers\u00e3o dos f\u00f3sforos no s\u00e9c. VI d. C., de modo a poderem acender fogueiras para se aquecer e cozinhar alimentos. No caso europeu, n\u00e3o se encontraram vest\u00edgios de f\u00f3sforos anteriores a 1530.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">\u00c9 do conhecimento geral que os chineses inventaram o fogo de artif\u00edcio. Fizeram-no antes de inventarem a p\u00f3lvora. Recorriam a varas de bambu inflamadas desde pelo menos o s\u00e9c. II a.C. Na dinastia Song (960-1279) adaptaram a p\u00f3lvora de modo a fabricar foguetes. Prendiam um tubo de papel recheado de p\u00f3lvora a uma flecha que era disparada por um arco. Estas flechas-foguete foram disparadas em 1126 d.C. na defesa de Bianjing (a actual Kaifeng), ent\u00e3o capital do imp\u00e9rio Song. Embora os chineses tivessem praticamente parado de melhorar a p\u00f3lvora ou o seu uso em armamento depois do s\u00e9c. XIII, as flechas-foguetes foram as precursoras dos potentes foguet\u00f5es que, nove s\u00e9culos volvidos, viriam a tornar poss\u00edveis as viagens espaciais.<\/span><\/p>\n<h3 class=\"p6\"><b><br \/>\n8. Conclus\u00e3o<\/b><\/h3>\n<p class=\"p4\">A partir do s\u00e9c. XVI, e apesar de toda esta milenar din\u00e2mica na \u00e1rea da tecnologia, a China, sempre admir\u00e1vel e na vanguarda em muitas outras frentes, deixou todavia de ser o local de origem de novas e grandes inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Um fen\u00f3meno complexo teve lugar para o qual ainda hoje n\u00e3o se encontra uma explica\u00e7\u00e3o cabal. Certas \u00e1reas do conhecimento, como a matem\u00e1tica e a astronomia, foram v\u00edtimas de um esquecimento progressivo. Os antigos tratados, que expunham o conhecimento acumulado at\u00e9 ent\u00e3o, tornaram-se incompreens\u00edveis. A tocha passou entretanto para as m\u00e3os dos Europeus que, depois de atingirem a China por via mar\u00edtima no in\u00edcio do s\u00e9c. XVI, lhes transmitiram muitos dos conhecimentos que haviam sido esquecidos, al\u00e9m de muitas novidades.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s5\">Este tipo de esquecimento, na hist\u00f3ria das ci\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito e parece suceder ocasionalmente. Com efeito, algo de an\u00e1logo se passou com os \u00c1rabes no s\u00e9c. XVI e na Europa do primeiro mil\u00e9nio. Os eruditos gregos do primeiro mil\u00e9nio deixaram de compreender fundamente as obras da \u00e9poca cl\u00e1ssica. Foram os \u00e1rabes da Idade M\u00e9dia que, na Casa da Sabedoria de Bagdade, as preservaram e traduziram para a sua l\u00edngua, adicionando coment\u00e1rios e ideias pr\u00f3prios, e que as transmitiram ao pensamento europeu posterior atrav\u00e9s de Al-Andaluz e da Sic\u00edlia. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">Mas o esquecimento chin\u00eas n\u00e3o foi sen\u00e3o uma gota no vasto oceano da sua hist\u00f3ria. Hoje a China empunha de novo a tocha do conhecimento cient\u00edfico. Com efeito, tornou-se actualmente numa pot\u00eancia cient\u00edfica, a par dos EUA e da Europa. De acordo com um estudo muito recente da Universidade do Ohio, encabe\u00e7ado por Caroline Wagner, os artigos cient\u00edficos publicados por investigadores chineses, al\u00e9m de serem em maior n\u00famero, s\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 1% mais citados do que os de cientistas de qualquer outro pa\u00eds. <\/span><\/p>\n<p class=\"p5\">Na \u00e1rea da intelig\u00eancia artificial, publicaram-se em 2022 tr\u00eas vezes mais artigos da autoria de investigadores chineses do que de investigadores norte-americanos. O mesmo sucede nas \u00e1reas da nanoci\u00eancia, da qu\u00edmica e dos transportes. Trata-se de artigos de excel\u00eancia, que fazem prova de uma grande capacidade de inova\u00e7\u00e3o, criatividade e interdisciplinaridade. \u00c9 nas universidades chinesas, cuja qualidade melhorou drasticamente, que se encontra o maior n\u00famero de doutoramentos em engenharia. Actualmente, apenas os EUA investem mais dinheiro na \u00e1rea da ci\u00eancia e da tecnologia do que a China. A China est\u00e1 a colher, portanto, os frutos de uma pol\u00edtica governamental que tem vindo a adoptar persistentemente como objectivo claro tornar o pa\u00eds no melhor em ci\u00eancia e tecnologia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que \u00e9 hoje esse pa\u00eds extraordin\u00e1rio onde o futuro acontece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p8\"><b>___<\/b><\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p9\">Bunch, Bryan e Hellemans, Alexander (2004) <i>The History of Science and Technology<\/i>, New York: Houghton Mifflin Company<\/li>\n<li class=\"p9\">Colectivo, Chine. <i>Les Inventions qui ont chang\u00e9 le monde<\/i>, Les Cahiers de Science et Vie, n. 113, Oct-D\u00e9c. 2009<\/li>\n<li class=\"p9\">Needham, Joseph e Ronan, A. Colin (1980) <i>Shorter Science and Civilisation in China<\/i>, Cambridge University Press<\/li>\n<li class=\"p9\">Ross, Frank Xavier (1982) <i>Oracle Bones, Stars, and Wheelbarrows. Ancient Chinese Science and Technology<\/i>, Boston: Houghton Mifflin Company<\/li>\n<li class=\"p9\">Temple, Robert (2007) <i>The Genius of China<\/i>, London: Andre Deutsch Ltd<\/li>\n<li class=\"p9\">Wagner, Caroline (2023) <i>China now publishes more high-quality science than any other nation \u2013 should the US be worried? <\/i>The Conversation, 2023, January 10, Ohio State University https:\/\/theconversation.com\/china-now-publishes-more-high-quality-science-than-any-other-nation-should-the-us-be-worried-192080<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] 1.Introdu\u00e7\u00e3o No Ocidente, atribui-se geralmente a reputa\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o chinesa \u00e0 sua \u2018sabedoria\u2019 (reservando-se apenas para o pensamento ocidental o termo \u2018filosofia\u2019), \u00e0 sua literatura e poesia, \u00e0s suas variadas artes visuais, havendo quem reconhe\u00e7a ainda a sua precocidade na reflex\u00e3o moral, na sociologia, na cr\u00edtica hist\u00f3rica e na teoriza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. 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