{"id":71,"date":"2025-05-12T17:36:56","date_gmt":"2025-05-12T09:36:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.viadomeio.com\/?p=71"},"modified":"2025-05-14T14:41:23","modified_gmt":"2025-05-14T06:41:23","slug":"efemera-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/05\/12\/efemera-eternidade\/","title":{"rendered":"Ef\u00e9mera eternidade"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carlos Morais Jos\u00e9<\/p>\n<p><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Num recanto de uma praia em Sanya, na ilha de Hain\u00e3o, percorrendo um caminho por acidente tra\u00e7ado na base da fal\u00e9sia, dei por algumas rochas gigantescas nas quais as ondas cavaram cavernas subtis, por milenarmente esgravatarem na superf\u00edcie da pedra. E, por baixo dessas rochas, outro min\u00e9rio emergia, destacando-se da cor terrosa predominante. Eram seres vermelhos e negros, peda\u00e7os de basalto redondos, como \u00f3rg\u00e3os estranhos ao corpo im\u00f3vel da fal\u00e9sia, vis\u00edveis pela desagrega\u00e7\u00e3o das rochas sedimentares.<\/p>\n<p>Do fundo da terra, emergiam belos como s\u00edmbolos insond\u00e1veis na pele acastanhada da rocha, alisados pelas car\u00edcias das ondas, mas imposs\u00edveis de quebrar. Ali brilhavam como opacos diamantes, ali se imiscu\u00edam, emprestando uma beleza forte e l\u00facida \u00e0 paisagem parda. Alguns, certamente devido \u00e0 presen\u00e7a de material ferroso, exibiam uma estranha cor avermelhada. N\u00e3o havia muitos. Na verdade, apenas os encontrei numa pequena caverna, local onde se podia sonhar o in\u00edcio pag\u00e3o de uma cren\u00e7a.<\/p>\n<p>As pessoas que habitam em Sanya e os turistas d\u00e3o mais valor \u00e0s conchas de belos formatos e mesmo \u00e0s p\u00e9rolas vindas do colo amolecido das ostras. Mas s\u00e3o estas pedras vermelhas e negras, surgindo das grandes rochas das fal\u00e9sias, que guardei na mem\u00f3ria e fa\u00e7o quest\u00e3o de relembrar.<\/p>\n<p>Se \u00e9 a presen\u00e7a inusitada que primeiro cativa o olhar, logo este se demora no contraste, na cor, nas formas escuras que espreitam do interior da terra. Depois vagueia pelo conjunto, aproxima-se e afasta-se, absorve e reconstr\u00f3i, at\u00e9 os olhos esgotados se cerrarem e ser ent\u00e3o a imagina\u00e7\u00e3o entronizada como madre daquele estranho espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Quando finalmente se reabrem, de novo o olhar poisa naqueles seres bas\u00e1lticos, de novo experimento a resili\u00eancia de quem, por uma eternidade, espera para emergir e, finalmente, sentir o ar salino e o refrig\u00e9rio da chuva.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sei se esta mem\u00f3ria perdeu exactid\u00e3o, se a contagiei com a minha mitologia ou se, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o que recordo e construo como mem\u00f3ria, n\u00e3o o que tive presente quando andei por uma praia de Sanya, que mais abrange o real e os seus impercept\u00edveis.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 ent\u00e3o quando recordo \u2013 e, de algum modo, organizo \u2013, que mem\u00f3rias adormecidas, por assim dizer novas, tamb\u00e9m emergem, como aquelas pedras, e se incrustam no fluxo comum e o dotam de outros significados?<\/p>\n<p>Dizem alguns s\u00e1bios chineses que o exerc\u00edcio da mem\u00f3ria recria as coisas em n\u00f3s tal qual elas s\u00e3o e com as mesmas qualidades. Como se de tanto algo nos ser obsessivo, nessa mesma coisa nos transform\u00e1ssemos.<\/p>\n<p>Talvez assim seja, talvez n\u00e3o, mas para quem n\u00e3o possui alma, poucos exerc\u00edcios servir\u00e3o para trazer ao palato este leve e ef\u00e9mero sabor de eternidade. \u5b8c<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Carlos Morais Jos\u00e9 \u00a0 Num recanto de uma praia em Sanya, na ilha de Hain\u00e3o, percorrendo um caminho por acidente tra\u00e7ado na base da fal\u00e9sia, dei por algumas rochas gigantescas nas quais as ondas cavaram cavernas subtis, por milenarmente esgravatarem na superf\u00edcie da pedra. 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