{"id":749,"date":"2025-10-07T02:16:17","date_gmt":"2025-10-06T18:16:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=749"},"modified":"2025-10-07T02:19:16","modified_gmt":"2025-10-06T18:19:16","slug":"yuan-mei-palavras-poeticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/yuan-mei-palavras-poeticas\/","title":{"rendered":"Yuan Mei Palavras Po\u00e9ticas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><strong><span class=\"s1\">Tradu\u00e7\u00e3o e textos<br \/>\n<\/span><span class=\"s2\">Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Y<\/span><span class=\"s3\">uan Mei<\/span><span class=\"s1\">\u00a0\u00a0nasceu em Hangzhou em 1716. A cidade, na margem do lago Oeste, em Zhejiang, com mil e quinhentos anos de hist\u00f3ria, ser\u00e1 talvez a mais bonita capital de prov\u00edncia de todo o imp\u00e9rio chin\u00eas, rodeada de montes e florestas, polvilhada de templos e pavilh\u00f5es, com um lago enorme que nas margens se desdobra em recantos onde s\u00e3o poss\u00edveis quase todos os encantamentos do mundo. Hangzhou est\u00e1 embebida no lastro do passado, recordando mil vilanias e todos os prazeres.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Yuan Mei, talvez o maior poeta da dinastia Qing (1644-1911), provinha de uma fam\u00edlia de modestos letrados da cidade. Seria ele o primeiro mandarim da fam\u00edlia, grau que obt\u00e9m nos exames imperiais aos 23 anos. Exerceria as fun\u00e7\u00f5es de funcion\u00e1rio estatal apenas durante nove anos. Voltou ainda aos afazeres de mandarim, mas tinha pouco ou nenhum gosto pelas malhas do poder, um dos seus maiores prazeres era nada ter que fazer e dedicar-se apenas \u00e0 escrita e \u00e0 leitura. Os seus poemas come\u00e7avam a ser conhecidos e tinham venda.<\/p>\n<p class=\"p3\">Ele pr\u00f3prio acabaria por montar na sua casa uma esp\u00e9cie de tipografia, com pain\u00e9is de impress\u00e3o com pranchas de caracteres m\u00f3veis em madeira. Editava assim os seus pr\u00f3prios livros e obtinha avultados rendimentos. Com menos de quarenta anos, Yuan Mei retirou-se para uma grande mans\u00e3o que comprou em Suiyuan, nos arredores da tamb\u00e9m bonita cidade de Nanquim, e, com muitas viagens de permeio, a\u00ed viveu at\u00e9 ao fim da sua longa vida. Fechou os olhos, para sempre, em Dezembro de 1798, aos 82 anos de idade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><b>Tr\u00eas poemas de Yuan Mei<br \/>\n<\/b><\/h2>\n<blockquote>\n<h3><\/h3>\n<\/blockquote>\n<h3 class=\"p1\"><b>Contemplando um amigo que toca flauta ao luar<\/b><b><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><em>Noite de Outono,<\/em><br data-start=\"98\" data-end=\"101\" \/><em>visito um ermita meu amigo.<\/em><br data-start=\"128\" data-end=\"131\" \/><em>Vem at\u00e9 mim a m\u00fasica,<\/em><br data-start=\"152\" data-end=\"155\" \/><em>acordes perfeitos debaixo do c\u00e9u,<\/em><br data-start=\"188\" data-end=\"191\" \/><em>ondeando na superf\u00edcie do lago,<\/em><br data-start=\"222\" data-end=\"225\" \/><em>\u00e0 luz fria do luar.<\/em><br data-start=\"244\" data-end=\"247\" \/><em>O trinar de uma flauta, o cora\u00e7\u00e3o do amigo,<\/em><br data-start=\"290\" data-end=\"293\" \/><em>a melodia agarra nuvens azuis que descem sobre as \u00e1guas.<\/em><br data-start=\"349\" data-end=\"352\" \/><em>Encontramo-nos no meio de perfumes coloridos<\/em><br data-start=\"396\" data-end=\"399\" \/><em>pelo rosa das flores de l\u00f3tus,<\/em><br data-start=\"429\" data-end=\"432\" \/><em>cobertas de gotas de orvalho cristalino.<\/em><br data-start=\"472\" data-end=\"475\" \/><em>Na claridade prateada<\/em><br data-start=\"496\" data-end=\"499\" \/><em>humedecidas nossas vestes.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p3\">Na estrada para Baling*<\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><em>A oeste do lago Dongting, um templo, uma deusa no altar,<\/em><br data-start=\"610\" data-end=\"613\" \/><em>jovens de sobrancelhas pintadas confortam viajantes cansados.<\/em><br data-start=\"674\" data-end=\"677\" \/><em>A regi\u00e3o montanhosa, vazia de gentes, as tendas fechadas,<\/em><br data-start=\"734\" data-end=\"737\" \/><em>distantes os far\u00f3is na margem, a minha barca ao entardecer.<\/em><br data-start=\"796\" data-end=\"799\" \/><em>N\u00e3o entendo o dialecto do lugar, preciso de algu\u00e9m para traduzir,<\/em><br data-start=\"864\" data-end=\"867\" \/><em>p\u00e1ssaros estranhos, de nomes desconhecidos, envergonham o poeta.<\/em><br data-start=\"931\" data-end=\"934\" \/><em>Raros barqueiros conhecem a minha vontade, o meu sentir,<\/em><br data-start=\"990\" data-end=\"993\" \/><em>levanto a janela do barco, por toda a parte, ramos em flor.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p3\">Aceitando a minha sorte<\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p3\"><em>Fechado em casa<\/em><br data-start=\"1096\" data-end=\"1099\" \/><em>assumo os dias como um pobre poeta.<\/em><br data-start=\"1134\" data-end=\"1137\" \/><em>Acumularam-se os anos,<\/em><br data-start=\"1159\" data-end=\"1162\" \/><em>entrei agora no carreiro dos velhos.<\/em><br data-start=\"1198\" data-end=\"1201\" \/><em>Fascinado por montanhas rodeadas de nuvens<\/em><br data-start=\"1243\" data-end=\"1246\" \/><em>esque\u00e7o a minha pr\u00f3pria terra,<\/em><br data-start=\"1276\" data-end=\"1279\" \/><em>por vizinhos, tenho macacos e p\u00e1ssaros.<\/em><br data-start=\"1318\" data-end=\"1321\" \/><em>Abandonei todos os meus cargos,<\/em><br data-start=\"1352\" data-end=\"1355\" \/><em>dedico-me a fruir o prazer de existir.<\/em><br data-start=\"1393\" data-end=\"1396\" \/><em>Porque n\u00e3o tenho um filho var\u00e3o.<\/em><br data-start=\"1428\" data-end=\"1431\" \/><em>vou casando, vez ap\u00f3s vez.**<\/em><br data-start=\"1459\" data-end=\"1462\" \/><em>Esqueci o grande talento<\/em><br data-start=\"1486\" data-end=\"1489\" \/><em>que julgava ter para mandar e governar,<\/em><br data-start=\"1528\" data-end=\"1531\" \/><em>e aceito ser um simples poeta,<\/em><br data-start=\"1561\" data-end=\"1564\" \/><em>minha sorte, meu destino.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p7\"><em style=\"font-size: 12px;\">* Baling, ao lado da actual cidade de Yueyang, famosa pelo torre\u00e3o junto ao lago Dongting, na prov\u00edncia de Hunan.<br \/>\n**\u00a0S\u00f3 aos 62 anos, Yuan Mei conseguiu ter um filho rapaz da sua quarta concubina. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s1\">Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas da sua vida, Yuan Mei entreteve-se a redigir um vasto conjunto de <i>Shi Hua<\/i>\u00a0<\/span><span class=\"s2\">\u8a69\u8a71<\/span><span class=\"s1\">,\u00a0<i>Palavras Po\u00e9ticas<\/i>, utilizando sobretudo a prosa. Com esta denomina\u00e7\u00e3o apareciam desde o s\u00e9culo XI in\u00fameras recolhas de textos breves da autoria dos mais diversos letrados.<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s1\">Yuan Mei n\u00e3o inovou no t\u00edtulo dos seus escritos. Tratava-se fundamentalmente de pequenos excertos autobiogr\u00e1ficos,\u00a0medita\u00e7\u00f5es sobre a ess\u00eancia da poesia, vidas de poetas, anedotas, etc.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p8\"><span class=\"s1\">Por exemplo:\u00a0<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s1\"><i>\u201cWang Chizi foi meu colega nos exames de 1744. \u00c0 entrada na sala das provas, recitou um poema da sua autoria com o t\u00edtulo\u00a0Junto de t\u00famulos antigos.\u00a0Assim:\u00a0<\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p10\"><i>Sombrio, triste, min\u00fasculo<br \/>\n<\/i><i>o antigo templo,<br \/>\n<\/i><i>um mocho descansa<br \/>\n<\/i><i>nas gravuras do arco de pedra.<br \/>\n<\/i><i>Ainda \u00e9 dia quando<br \/>\n<\/i><i>quem perdeu entes queridos<br \/>\n<\/i><i>se re\u00fane e prepara<br \/>\n<\/i><i>as cerim\u00f3nias f\u00fanebres.<br \/>\n<\/i><i>Enorme confus\u00e3o de cavalos<br \/>\n<\/i><i>e carruagens.\u00a0<\/i><\/p>\n<p class=\"p9\"><i>\u00a0<\/i><i>Eu ousei perguntar-lhe porque \u00e9 que ele parecia t\u00e3o satisfeito por ter escrito este poema,. Wang Chizi sorriu e disse: \u201cFecha os olhos e pensa.\u201d\u00a0<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">Outro exemplo:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><i>&#8220;Os taoistas para ascender ao c\u00e9u precisam de fabricar nove vezes os seus pozinhos da imortalidade. Os confucionistas apreciam sobremaneira a rectid\u00e3o e o meio justo. Um cozinheiro conhece bem a sua arte, sabe como controlar o fogo, como manter o lume.&#8221;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">Yuan Mei continua questionando o leitor:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><i>&#8220;Algu\u00e9m me perguntou qual o nome do melhor poema escrito durante esta dinastia. Eu argumentei, perguntando: qual \u00e9 o melhor poema do\u00a0Shi Jing, (o Livro das Odes.)\u00a0N\u00e3o obtive resposta. Ent\u00e3o disse: A poesia \u00e9 como as flores, uma orqu\u00eddea na Primavera, um cris\u00e2ntemo no Outono, n\u00e3o podemos dizer que uma \u00e9 melhor do que a outra. Quando a m\u00fasica das palavras e a ideia na concep\u00e7\u00e3o do poema emocionam um cora\u00e7\u00e3o, estamos diante de um bom poema.&#8221;\u00a0<\/i><i><\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">\u00a0E continua Yuan Mei:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><i>&#8220;O poeta Yang Wanli (1124-1206) ter\u00e1 escrito: \u201cPor que \u00e9 que as pessoas com pouco talento liter\u00e1rio sempre falam sobre m\u00e9trica e a utiliza\u00e7\u00e3o dos tons em poesia? A m\u00e9trica e os tons s\u00e3o apenas a arma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil levant\u00e1-los. Mas \u00e9 na concep\u00e7\u00e3o do poema que se expressa o g\u00e9nio do poeta, \u00e9 aqui que se mostra a sua qualidade.&#8221;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">Outro exemplo da prosa breve de Yuan Mei, citando Bu Xian um amigo presidente de uma academia em Guilin onde o nosso amigo o encontrou em visita que fez \u00e0 cidade, em 1784:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><span class=\"s3\"><i>\u00a0&#8220;Bu Xian disse: &#8216;A poesia nasce do cora\u00e7\u00e3o e depois faz-se com as m\u00e3os. Se o cora\u00e7\u00e3o controla a m\u00e3o, est\u00e1 tudo bem, mas se a m\u00e3o faz o trabalho do cora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 tudo errado. Hoje em dia, muitos imitam as bases da poesia, copiam um pouco daqui e de acol\u00e1, usam tudo o que est\u00e1 amontoado em pilhas de papel velho em vez de contarem com o que brota dos seus pr\u00f3prios sentimentos. \u00c9 o que eu chamo \u2018A m\u00e3o fazendo o trabalho do cora\u00e7\u00e3o.\u2019\u201d\u00a0<\/i><i><\/i><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">Na China do s\u00e9culo XVIII aconteciam ainda acaloradas discuss\u00f5es sobre a poesia do passado. Yuan Mei explica:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><i>&#8220;A divis\u00e3o da poesia entre estilo Tang e estilo Song continua hoje a manifestar-se. Isto corresponde ao facto de muitos ignorarem que a poesia \u00e9 o produto dos sentimentos dos homens, enquanto que Tang e Song s\u00e3o simplesmente nomes de duas dinastias. Os sentimentos das gentes n\u00e3o mudam com o renovar das dinastias.&#8221;<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p8\">Para terminar, uma refer\u00eancia a um incerto poeta chamado Tai Yuyang:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p10\"><i>&#8220;Este senhor escreveu o seguinte verso:<br \/>\n<\/i><i>&#8216;O ar da noite envolve os montes<br \/>\n<\/i><i>apequena-se a terra e o c\u00e9u.&#8217;<br \/>\n<\/i><i>A beleza reside na margem existente entre o intelig\u00edvel e o n\u00e3o intelig\u00edvel, trata-se de dois versos primorosos. Mas quem foi Tai Yuyang, o autor? N\u00e3o fa\u00e7o a m\u00ednima ideia.&#8221; <\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Tradu\u00e7\u00e3o e textos Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu &nbsp; Yuan Mei\u00a0\u00a0nasceu em Hangzhou em 1716. 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