{"id":757,"date":"2025-10-07T02:30:42","date_gmt":"2025-10-06T18:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=757"},"modified":"2025-10-07T02:31:48","modified_gmt":"2025-10-06T18:31:48","slug":"vivendo-as-montanhas-no-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/vivendo-as-montanhas-no-verao\/","title":{"rendered":"Vivendo as montanhas no ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">E<span class=\"s1\">m um poema<\/span> escrito nalgum ponto do s\u00e9culo IX, Yu Xuanji (<span class=\"s2\">\u9b5a\u7384\u6a5f<\/span>, 844-869 d.C.) descreve sua vida veranil em montanhas que apenas a bi\u00f3grafos \u00e9 dado conhecer. Na tradu\u00e7\u00e3o brasileira de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, assim sabemos de sua estada montesa:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 class=\"p4\"><b>VIVENDO NAS MONTANHAS <\/b><b>NO VER\u00c3O<\/b><b><\/b><\/h3>\n<blockquote>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><i>Aqui, onde habitam os deuses, fiz minha morada<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Bosques e arbustos misturam-se \u00e0 revelia<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Roupas lavadas penduro \u00e0 menor das \u00e1rvores<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Sento-me \u00e0 fonte; das pedras, nasce meu vinho<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Abro as janelas \u00e0 trilha dentre os bambus<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Finas sedas tornaram-se embrulho de livros<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>Remando des\u00e7o o rio, entre cantos \u00e0 lua<br \/>\n<\/i><\/span><span class=\"s1\"><i>leva-me o vento ao retorno: e ainda recito<\/i><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s3\">\u00c9 sabido que a poesia chinesa manifesta certas tend\u00eancias de sua cultura letrada, especialmente por suas tem\u00e1ticas e imagens recorrentes, sua autorrefer\u00eancia e a continuidade de v\u00ednculos e influ\u00eancias cl\u00e1ssicas em seus versos. No poema acima, vemos duas presen\u00e7as cruciais para a tradi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u2014 e mesmo espiritual \u2014 chinesa: as montanhas e, por paradoxal que seja, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia: o vazio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\">Yu Xuanji abre seu poema com uma afirma\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica e muit\u00edssimo relevante: ela faz sua morada nas montanhas, \u201conde habitam os deuses\u201d. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto a isso; seja pela pr\u00f3pria deidade das montanhas, do esp\u00edrito do vale tao\u00edsta, do caminho natural que a tudo conduz e que, nas montanhas, ganha concretude; seja pelas deidades que na montanha vivem, povoando todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas, m\u00edsticas, ind\u00edgenas, ex\u00f3genas, tao\u00edstas, budistas, ancestrais, a verdade afirmada pela poeta \u00e9 esta: a montanha \u00e9 a morada dos deuses. Local, tamb\u00e9m, em que a poeta vai morar.<\/p>\n<p class=\"p7\">Um texto bem conhecido do budismo Zen japon\u00eas, <i>O Serm\u00e3o das Montanhas e \u00c1guas do Mestre Dogen<\/i>, manifesta em suas linhas o mesmo apre\u00e7o pelas montanhas, a mesma considera\u00e7\u00e3o divinal e cosmol\u00f3gica, que nossa poeta chinesa parece indicar. E isso porque, embora japon\u00eas, o Mestre Dogen foi profundamente marcado por sua circula\u00e7\u00e3o pela China, onde aprendeu com monges, mestres, pessoas comuns e laicas, pescadores, habitantes de montanhas e muitos eventos mais. O Zen japon\u00eas, por exemplo, n\u00e3o existiria sem o Chan chin\u00eas; e o pr\u00f3prio Chan, pode-se aventar, n\u00e3o existiria sem a profundidade que na China j\u00e1 se encontrava desde antes do Dharma ali chegar.<\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s4\">Fato \u00e9 que, para Dogen, falar de \u201cmontanhas e \u00e1guas\u201d \u2014 como se intitula seu discurso \u2014 \u00e9 compreender \u201cum panorama natural; ou a pr\u00f3pria natureza [&#8230;] Olhar a natureza \u00e9 olhar a pr\u00f3pria verdade budista. Por tal raz\u00e3o, mestre Dogen acreditava ser a natureza tal qual os sutras budistas. Neste cap\u00edtulo, exp\u00f5e a forma real da natureza, enfatizando sua relatividade\u201d (DOGEN, 2007, p. 217, n.t., tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s4\">As montanhas s\u00e3o morada dos deuses porque, dentre outras raz\u00f5es, os deuses ali se percebem natureza. E porque a poeta assim percebe as montanhas, e os deuses, e um lugar poss\u00edvel para si no seio da sociedade em que vive, vai ela viver nas montanhas no ver\u00e3o. Yu Xuanji viver na singeleza do espa\u00e7o, do territ\u00f3rio montanhoso que lhe d\u00e1 guarida, e as pequenezas se lhe apresentam: os arbustos, a menor das \u00e1rvores que lhe serve de varal \u00e0s roupas, as pedras da fonte que lhe derramam vinho, a \u00e1gua pura e decerto fresca da terra, a fina seda que lhe embrulha os versos, os livros, os cl\u00e1ssicos\u2026 N\u00e3o admira que uma poeta \u2014 e que a poesia chinesa, muitas e muitas vezes, ao longo de todo o tempo que h\u00e1 no mundo; e n\u00e3o apenas a poesia, mas tamb\u00e9m a pintura, toda forma de arte, ascetismo, caligrafia, eremit\u00e9rios \u2014 n\u00e3o admira que uma poeta se v\u00e1 refugiar nesse espa\u00e7o dos deuses, na pr\u00f3pria deidade montanhosa. Afinal, para lermos tal movimento com Dogen uma vez mais:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"p9\"><span class=\"s4\">\u201c<i>Normalmente, vemos as montanhas como pertencentes a um territ\u00f3rio, mas as montanhas pertencem \u00e0s pessoas que as amam. Montanhas sempre amam seus ocupantes, e por isso os santos e s\u00e1bios, pessoas de extrema virtude, seguem para elas. Quando santos e s\u00e1bios vivem nas montanhas, porque as montanhas pertencem a eles, \u00e1rvores e rochas abundam e florescem, e p\u00e1ssaros e mam\u00edferos se tornam misteriosamente sublimes. Isso acontece porque os santos e s\u00e1bios as cobriram de virtude.<\/i>\u201d <\/span><\/p>\n<p class=\"p10\">(DOGEN, 2007, p. 224).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s5\">Santos e s\u00e1bios e santas e s\u00e1bias e poetas e poetas \u2014 este termo que, ao menos no Brasil em que ora escrevo, tem servido a homens e mulheres que deitam seus versos ao papel e ao mundo \u2014, assim, s\u00e3o co-habitantes das montanhas, ao lado dos deuses, das \u00e1guas e da natureza que, de certo modo, tamb\u00e9m ali habita. E por serem santas e s\u00e1bias e poetas e atentas, pessoas com a sensibilidade de Yu Xuanji tamb\u00e9m apontam para a natureza daquilo que, na natureza espiritual da China, seja tao\u00edsta, seja budista, fundamenta a concretude do mundo, dos fen\u00f4menos todos, inclusive materiais: o vazio.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s5\">Vejam-se os versos \u201cAbro as janelas \u00e0 trilha dentre os bambus\u201d e \u201cRemando des\u00e7o o rio, entre cantos \u00e0 lua\/\/ leva-me o vento ao retorno: e ainda recito\u201d. Contrastando-se \u00e0s imagens materiais da montanha onde os deuses habitam (bosques, arbustos, roupas lavadas, a menor das \u00e1rvores, fonte, pedras, vinho, seda e livros), temos o cora\u00e7\u00e3o do vazio manifesto: \u00e0 trilha entre os bambus que, do v\u00e3o da janela, anuncia o veio pelo qual a energia da montanha h\u00e1 de fluir \u2014 e os caminhos de quem a ela acede, santos e s\u00e1bios e poetas e deuses, provavelmente percorrem.<\/span><\/p>\n<p class=\"p7\"><span class=\"s6\">Esse vazio, complementando a concretude da paisagem natural e da vida material da montanha, d\u00e1 o tom da experi\u00eancia de se estar habitando tais paragens: \u00e9 por essa estrada, pelo caminho, pela via do meio que se abre entre os bambus, que a poeta segue remando rio abaixo, entoando loas \u00e0 lua, inspirada pelo vento que talvez lhe suba do vale e recitando um poema que havemos de ler em algum lugar. Nesta ou em outras tradu\u00e7\u00f5es, s\u00e9culos ap\u00f3s sua morada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p3\">DOGEN, Zenji. Shobogenzo: The True Dharma-Eye Treasury. Vol. 1. Taisho Volume 82, Number 2582. Tradu\u00e7\u00e3o do japon\u00eas de Gudo Wafu Nishijima e Chodo Cross. Tradu\u00e7\u00e3o do Serm\u00e3o das Montanhas e \u00c1guas, Carl Bielefeldt. Berkeley: Numata Center for Buddhist Translation and Research, 2006.<\/li>\n<li class=\"p3\">YU, Xuanji. Poesia Completa de Yu Xuanji. Tradu\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e notas de Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2011.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Em um poema escrito nalgum ponto do s\u00e9culo IX, Yu Xuanji (\u9b5a\u7384\u6a5f, 844-869 d.C.) descreve sua vida veranil em montanhas que apenas a bi\u00f3grafos \u00e9 dado conhecer. 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