{"id":760,"date":"2025-10-07T02:35:01","date_gmt":"2025-10-06T18:35:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=760"},"modified":"2026-03-05T15:49:58","modified_gmt":"2026-03-05T07:49:58","slug":"budismo-com-caracteristicas-chinesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/budismo-com-caracteristicas-chinesas\/","title":{"rendered":"Budismo com caracter\u00edsticas chinesas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">N<\/span><span class=\"s2\">uma breve<\/span><span class=\"s1\"> contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Budismo com caracter\u00edsticas chinesas, acredita-se que este, fundado por Gautama Shakyamuni (c. 560-c. 480 a.C.) pr\u00edncipe indiano, afastado do poder real para nutrir a via espiritual, ter\u00e1 entrado na China na vers\u00e3o do Grande Ve\u00edculo, <\/span><span class=\"s3\">Mah\u0101y\u0101na<\/span><span class=\"s1\"> (<\/span><span class=\"s4\">\u5927\u4e58<\/span><span class=\"s1\">D\u00e0 Ch\u00e9ng ), aquela que se desenvolveu a partir do s\u00e9culo III a.C., surgindo como um alargamento de via, j\u00e1 que floresceu a partir do Pequeno Ve\u00edculo, <\/span><span class=\"s3\">H\u012bn\u0101y\u0101na<\/span><span class=\"s1\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(<\/span><span class=\"s4\">\u5c0f\u4e58<\/span><span class=\"s3\">Xi\u01ceo<\/span><span class=\"s1\"> Ch\u00e9ng), na cren\u00e7a de ser poss\u00edvel renunciar \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o total em prol do benef\u00edcio da humanidade, a favor da qual Budas cederiam o seu lugar a Bodhisattvas (<\/span><span class=\"s4\">\u83e9\u8428<\/span><span class=\"s1\">\/<\/span><span class=\"s4\">\u85a9<\/span><span class=\"s1\">P\u00fas\u00e0), seres que voltavam propositadamente as costas \u00e0 dimens\u00e3o transcendente para se manterem ao n\u00edvel imanente a auxiliar todos aqueles que necessitam de apoio. Acredita-se ainda na vers\u00e3o popular que o Budismo ter\u00e1 chegado \u00e0 China no s\u00e9culo I, no reinado do Imperador Han Mingdi (<\/span><span class=\"s4\">\u6c49<\/span><span class=\"s1\">\/<\/span><span class=\"s4\">\u6f22\u660e\u5e1d<\/span><span class=\"s1\">, 28-75), na sequ\u00eancia de um sonho com um ser voador dourado, talvez uma vis\u00e3o de Buda, que o ter\u00e1 impulsionado a enviar emiss\u00e1rios \u00e0 \u00cdndia em busca das escrituras budistas. Mas segundo eminentes estudiosos do Budismo como o mestre budista Nan Huai-Chin defende em <i>Basic Buddhism<\/i> (1997), ou o pensador Daisaku Ikeda em <i>The Flower of Chinese Buddhism<\/i>(1986), esta filosofia religiosa ter-se-\u00e1 consolidado na China com o estabelecimento da Escola da Terra Pura (<\/span><span class=\"s4\">\u51c0\u571f<\/span> <span class=\"s3\">J\u00ecngt\u01d4<\/span><span class=\"s1\">) pelo patriarca Hui Yuan (<\/span><span class=\"s4\">\u60e0\u8fdc\u9060<\/span><span class=\"s1\">, 334-416). Mas este n\u00e3o \u00e9 ainda o budismo que se considera com caracter\u00edsticas tipicamente chinesas, por v\u00e1rias raz\u00f5es, entre as quais a defesa de mentalismo parcial, em que a humanidade renasceria num para\u00edso buda, a Terra Pura, a terra do Buda Amitabha. Este \u00e9 popularmente retratado com pele vermelha e uma tigela mendicante, que cont\u00e9m o elixir da longevidade\/imortalidade (Alves, 2007: 92). Ele \u00e9 o da infinita luz, que preside ao para\u00edso ocidental, onde os seres renascem, apenas na condi\u00e7\u00e3o masculina, para atingirem o estado de ilumina\u00e7\u00e3o perfeita. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Este tipo de Budismo, que pressup\u00f5e a unidade mental, mas que na pr\u00e1tica implica uma vis\u00e3o parcial da exist\u00eancia onde o princ\u00edpio masculino Yang (<span class=\"s5\">\u9633<\/span>\/<span class=\"s5\">\u967d<\/span>), concretamente encarnado em homens, \u00e9 privilegiado, bem como os m\u00e9todos concretos de acesso \u00e0 Terra Pura, nos quais se enfatiza a repeti\u00e7\u00e3o do nome do Buda, as escrituras e seus mantras e a contempla\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias imagens mentais, que v\u00eam a distanciar a escola, bem como uma outra, a da Plataforma Celestial (<span class=\"s5\">\u5929\u53f0<\/span><span class=\"s6\">Ti\u0101nt\u00e1i<\/span>), fundada por Huiwen (<span class=\"s5\">\u60e0\u6587<\/span>) no s\u00e9culo VI, daquela que se considera a linha budista mais representativa da mentalidade chinesa &#8211; o Budismo da Medita\u00e7\u00e3o ou Chan (<span class=\"s5\">\u7985<\/span> Ch\u00e1n), fundado por Bodhidharma (<span class=\"s5\">\u83e9\u63d0\u8fbe\u9054\u6469<\/span>) no s\u00e9c. VI, tendo chegado \u00e0 China durante a dinastia Liang (<span class=\"s5\">\u6881<\/span>), vindo do Sul da \u00cdndia para a maioria dos estudiosos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m quem lhe atribua nacionalidade iraniana e o suponha a entrar na China a partir da \u00c1sia Central via a Rota da Seda.<\/p>\n<p class=\"p3\">De acordo com Fung Yu-lan\/ Feng Youlan (<span class=\"s5\">\u99ae\u53cb\u862d\u51af\u53cb\u5170<\/span>) no seu segundo volume de <i>History of Chinese Philosophy<\/i> (1983:390) todas as escolas da Medita\u00e7\u00e3o\/Chan concordam em cinco pontos fundamentais: 1) a<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>verdade \u00faltima \u00e9 inexprim\u00edvel; 2) a via espiritual n\u00e3o pode ser ensinada; 3) nada se ganha, mas pode perder-se muito na e com a vida; 4) os ensinamentos budistas n\u00e3o cont\u00eam nada de especial; 5) o <i>tao <\/i>cultiva-se diariamente, <i>transportando a \u00e1gua e cortando a lenha<\/i>.<\/p>\n<p class=\"p3\">Se atentarmos bem, nestes cinco pontos que tornam t\u00e3o caracter\u00edstico este Budismo da Medita\u00e7\u00e3o chinesa, verificamos que ele ganha toda a sua especificidade no encontro com o Taoismo, j\u00e1 que tamb\u00e9m para os grandes fil\u00f3sofos taoistas a verdade \u00faltima n\u00e3o \u00e9 conceptualiz\u00e1vel nem, portanto, nome\u00e1vel. Tamb\u00e9m o Mestre taoista, o Santo (<span class=\"s5\">\u5723\u8056<\/span> <i>sh\u00e8ngr\u00e9n<\/i>) n\u00e3o ensina atrav\u00e9s de palavras, teorias ou doutrinas, mas com a sua postura silenciosa e modelar. Os taoistas n\u00e3o esperam que a vida lhes acrescente algo, mas temem sinceramente que lhe seja roubada a vis\u00e3o espont\u00e2nea, natural, que lhes confere as melhores caracter\u00edsticas, a virtude do Rec\u00e9m-nascido (<span class=\"s5\">\u5a74\u513f<\/span>\/<span class=\"s5\">\u5b30\u5152<\/span><span class=\"s6\"><i>Y\u012bng\u2019\u00e9r<\/i><\/span>), manifestando uma imensa suavidade e flexibilidade. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m para os taoistas o melhor do mundo reside em -se ser simples,<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>cumprir com todas as pequenas ac\u00e7\u00f5es quotidianas que nos colocam no caminho da vida, afastando a morte.<\/p>\n<p class=\"p3\">O Budismo que cultiva a perspetiva mentalista e, simultaneamente, se oferece como um hino \u00e0 vida simples do comum dos mortais, que rejeita escrituras e dogmas, bem como aforismos de grandes mestres e, em \u00faltima an\u00e1lise todos os ensinamentos escritos, \u00e9, a meu ver, o verdadeiro Budismo Chin\u00eas, aquele que no s\u00e9culo XXI tem atrav\u00e9s das suas escolas, sugestivamente denominadas montanhas, beneficiado a sociedade, ao levar os seus membros a prolongarem a atua\u00e7\u00e3os dos <i>Bodhisattvas<\/i>, empenhando-se ativamente em benefici\u00e1-la atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de institui\u00e7\u00f5es sociais t\u00e3o necess\u00e1rias como escolas, hospitais, lares, etc.<\/p>\n<p class=\"p3\">Mas voltemos ao ponto de partida de mentalismo chin\u00eas. A mente exercita-se por se desprender de todas as formas f\u00edsicas e intelectuais, de modo a oferecer-se ao meditador como pura energia. Para tr\u00e1s ficou o ego, o senhor b\u00e9lico que na caligrafia chinesa \u00e9 re-apresentado como uma espada contra outra, o Eu (<span class=\"s5\">\u6211<\/span> <span class=\"s6\"><i>W\u01d2<\/i><\/span>) . Este s\u00f3 traz problemas por estar sempre pronto para uma boa luta, como a etimologia indica sem falhar.<\/p>\n<p class=\"p3\">Como se adquire ent\u00e3o a concentra\u00e7\u00e3o no poder mental? \u00c9 seguindo mais uma vez os antigos ensinamentos taoistas, tranquilizando a mente, silenciando-a, bem como ao corpo, j\u00e1 que um e outro s\u00e3o insepar\u00e1veis, transformando a nossa forma f\u00edsica numa montanha, quieta, silenciosa e pac\u00edfica, de modo a polir com calma e tranquilidade a mente, que de tijolo tosco se h\u00e1-de transformar em espelho brilhante. O objectivo final \u00e9, recordemo-lo, unir a nossa energia mental \u00e0 universal, atrav\u00e9s da postura correcta, do cultivo do Sopro Vital (<span class=\"s5\">\u6c14<\/span>\/<span class=\"s5\">\u6c23<\/span>). Os patriarcas da Escola <i>Chan<\/i> conheciam muito bem, por um lado, <i>O Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es <\/i>(<span class=\"s5\">\u6613\u7ecf<\/span>\/<span class=\"s5\">\u7d93<\/span> <i>Y\u00ec<\/i> <span class=\"s6\"><i>j\u012bng<\/i><\/span>), por outro, os princ\u00edpios b\u00e1sicos da filosofia taoista. Sabemos que entre os oito trigramas do <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es <\/i> se encontra o Criativo\/ C\u00e9u (<span class=\"s5\">\u4e7e<\/span><i>Qi\u00e1n<\/i>), o Receptivo, a Terra (<span class=\"s5\">\u5764<\/span><span class=\"s6\"><i>K\u016bn<\/i><\/span>) , a Montanha (<span class=\"s5\">\u826e<\/span><i>G\u00e8n<\/i>) e o Fogo (<span class=\"s5\">\u79bb\u96e2<\/span> L\u00ed), sendo estes os trigramas, que no seu jogo de composi\u00e7\u00e3o hexagram\u00e1tico, nos levam ao entendimento dos princ\u00edpios essenciais do Budismo Chin\u00eas. O corpo necessita de se imobilizar como uma montanha, de modo a dar origem ao poder mental, descrito como, fogo, lanterna, l\u00e2mpada a arder num monte escuro de mist\u00e9rio, que medeia entres dois princ\u00edpios fundamentais, o Criativo celestial, figurado como um manto branco gelado, brilhante, cujo brilho a mente humana partilha como p\u00e9rola, e uma terra negra, recetiva, palco passivo onde todas as transforma\u00e7\u00f5es da energia celestial ocorrem. Assim se oferece o 56\u00ba hexagrama, o do Viajante (<span class=\"s5\">\u65c5<\/span> <span class=\"s6\">l\u01da<\/span>) no <i>Cl\u00e1ssico das Muta\u00e7\u00f5es, <\/i>constitu\u00eddo pelo trigrama na base Montanha tranquila (<span class=\"s5\">\u826e<\/span>G\u00e8n) e no topo pelo Fogo ( <span class=\"s5\">\u79bb\u96e2<\/span>L\u00ed)<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>aderente, brilhante, activo e inteligente. O Fogo na Montanha, a fogueira a arder sob um solo tranquilo e pacificado ser\u00e1 assim uma figura\u00e7\u00e3o adequada para o verdadeiro budista, um viajante t\u00e3o impermanente como o mundo onde nasceu, que busca activamente a perman\u00eancia atrav\u00e9s do seu poder mental.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">\u00c9 assim que julgo dever compreender-se a tese do sexto patriarca Huineng (<\/span><span class=\"s4\">\u6167\u80fd<\/span><span class=\"s1\">, 638-713), retirada do <i>Registo dos seus Di\u00e1logos<\/i> <\/span><span class=\"s4\">\uff08\u300a\u516d\u7956\u6167\u80fd\u8a9e\u9304\u300b\uff09<\/span><span class=\"s1\"> \u201cuma lanterna brilhante pode afastar a escurid\u00e3o de milhares de anos \u201d(<\/span><span class=\"s4\">\u4e00\u71c8\u80fd\u9664\u5343\u5e74\u6697<\/span><span class=\"s3\">Y\u012b d\u0113ng n\u00e9ng ch\u00fa qi\u0101nni\u00e1n \u00e0n<\/span><span class=\"s1\">) (Jiang 1997: 36), sendo que a lanterna \u00e9 naturalmente a mente iluminada. E Huineng completa a passagem com a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201cTal como uma lanterna brilhante pode afastar a escurid\u00e3o de milhares de anos, assim a sabedoria pode extinguir centenas de milhares de anos de ignor\u00e2ncia e estupidez.\u201d (<\/span><span class=\"s4\">\u4e00\u71c8\u80fd\u9664\u5343\u5e74\u6697<\/span><span class=\"s1\">, <\/span><span class=\"s4\">\u4e00\u77e5\u60e0\u80fd\u6ec5<\/span><span class=\"s1\">)(Ibidem), ou seja, a sabedoria \u00e9 o <i>fogo que arde sem se ver<\/i>, pedindo emprestado o verso a Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es, mas que \u00e9 justamente figurada por ele. Ora este fogoso saber vai permitir \u201cderreter\u201d todas as divis\u00f5es, fronteiras e oposi\u00e7\u00f5es, favorecendo a cria\u00e7\u00e3o de uma energia mental una e pronta a fundir-se com unidade essencial e espiritual do cora\u00e7\u00e3o-mente (<\/span><span class=\"s4\">\u5fc3<\/span> <span class=\"s3\">x\u012bn<\/span><span class=\"s1\">)que comanda o universo budista, em que Buda e o cora\u00e7\u00e3o significam a mesma coisa, como nos ensina o quarto patriarca<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>dos Chan, Daoxin (<\/span><span class=\"s4\">\u9053\u4fe1<\/span><span class=\"s1\">, 580-651) , nos Registo dos Di\u00e1logos do Quarto Patriarca (<\/span><span class=\"s4\">\u300a\u56db\u7956\u9053\u4fe1\u8a9e\u9304\u300b<\/span><span class=\"s1\">)<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>aquele cuja leitura etimol\u00f3gica do nome aponta para a \u201cConfian\u00e7a no Caminho \u201d, e esse tem de ser o Caminho do cora\u00e7\u00e3o-mente (Jiang, 1997:12-15). <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s1\">Um dos textos que considero mais emblem\u00e1ticos da filosofia <i>Chan <\/i>\u00e9 aquele em que o monge da dinastia Song Jingxuan (<\/span><span class=\"s4\">\u8b66\u7384<\/span><span class=\"s1\">, 943-1027) se refere a <i>Um P\u00e1ssaro Negro na Neve na Noite Escura<\/i><b> <\/b>(<\/span><span class=\"s4\">\u591c\u653e\u9ce5\u96de\u5e36\u96ea\u98db<\/span><span class=\"s1\">) do <i>Registo dos Di\u00e1logos de Jingxuan<\/i> (<\/span><span class=\"s4\">\u300a\u8b66\u7384\u8a9e\u9304\u300b<\/span><span class=\"s1\">) do Vol. 14 da <i>Fus\u00e3o das Fontes das Cinco Lanternas <\/i>(<\/span><span class=\"s4\">\u300a\u4e94\u71c8\u6703\u5143\u300b<\/span><span class=\"s1\">), tamb\u00e9m<i> <\/i>da dinastia Song, por reunir os opostos num jogo complementar, onde facilmente visualizamos uma esp\u00e9cie de Supremo \u00daltimo (<\/span><span class=\"s4\">\u592a\u6781<\/span><span class=\"s1\">T\u00e0ij\u00ed), no qual um p\u00e1ssaro negro voa sobre a neve na noite escura, logo as \u00fanicas formas que permanecem s\u00e3o a m\u00e1xima criatividade, aqui representada pela neve, j\u00e1 que o princ\u00edpio celestial \u00e9 branco em complementaridade com a tel\u00farica e misteriosa escurid\u00e3o. Procura-se reter o dinamismo perdendo as formas, sendo o poder mental como um espelho, um diamante, a neve, p\u00e9rola branca, esta cont\u00e9m o conjunto das cores sem refectir especificamente qualquer delas, ou podendo faz\u00ea-lo a todas, e joga com um outro dinamismo, o do ch\u00e3o da noite e do p\u00e1ssaro negro. Este oferece-se como a aus\u00eancia de forma e de cor, traduzindo a condi\u00e7\u00e3o adequada ao cora\u00e7\u00e3o-mente refletor, como de resto termina a passagem na qual Jingxuan agradece ao Mestre por lhe mostrar como era o cora\u00e7\u00e3o dele, um p\u00e1ssaro negro onde sobressai a neve na noite escura (Jiang, 1997: 345).<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Um pouco antes dos primeiros patriarcas <i>Chan <\/i>viveu Santo Agostinho, o Bispo de Hipona e um dos nossos maiores patriarcas crist\u00e3os (354-430). Nasceu em \u00c1frica na atual Souk Aras da Arg\u00e9lia. Era de uma grande sensibilidade, intui\u00e7\u00e3o e afecto, valorizando a amor crist\u00e3o acima de tudo. \u00c9 dele o famoso aforismo <i>ama e faz o que quiseres. <\/i>Mas o amor ao qual ele se referia era altru\u00edsta, universal, capaz de ligar toda a humanidade, porque vindo diretamente de Deus. O autor de grandes obras religiosas como <i>Confiss\u00f5es<\/i>, <i>Cidade de Deus <\/i>e <i>A Trindade<\/i>, foi tamb\u00e9m um grande pensador filos\u00f3fico da linha plat\u00f3nica, tendo-nos deixado nove di\u00e1logos, entre os quais aqui se distingue o \u00faltimo que nos ofereceu, <i>O Mestre . <\/i>Neste di\u00e1logo, esbatem-se as fronteiras entre a transcend\u00eancia e a iman\u00eancia, aproximando-o, por isso, da tradi\u00e7\u00e3o oriental e, especificamente, chinesa. H\u00e1 um mestre que ensina, Jesus, alcan\u00e7\u00e1vel pela mente, explica Santo Agostinho ao filho Adeodato: \u201cnessa luz interior da Verdade, de que \u00e9 iluminado e goza aquele que se denomina homem interior\u201d (1984: 71). A divindade habita no interior da pessoa e d\u00e1-se a conhecer diretamente atrav\u00e9s da mente, poder racional, cora\u00e7\u00e3o ou buda. Afinal que diferen\u00e7a h\u00e1 entre Buda, o Homem Interior e o cora\u00e7\u00e3o-mente? O certo \u00e9 que todos estes nomes se deixam figurar por uma luz iluminante que permite contemplar diretamente a verdade, \u00e0 maneira ocidental, ou a sabedoria<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>atrav\u00e9s \u201c dessa vis\u00e3o \u00edntima e pura, que conhece pela sua contempla\u00e7\u00e3o o que eu digo, e n\u00e3o pelas minhas palavras\u201d (Santo Agostinho, 1984: 71).<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s7\">Assente fica que a verdadeira sabedoria habita no interior, na mente e que em ambas as linhas filos\u00f3ficas se desconfia e muito das palavras. Assim, tamb\u00e9m no pensamento crist\u00e3o agostiniano se privilegia a intui\u00e7\u00e3o, muito acima do discurso, para o conhecimento da realidade ou, como o fil\u00f3sofo lhe chama, das coisas: \u201cTodo aquele por\u00e9m que as pode intuir, esse interiormente \u00e9 disc\u00edpulo da Verdade.\u201d (Santo Agostinho, 1984: 72). <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Se a vida venturosa do crist\u00e3o agostiniano, implica o conhecimento intuitivo e amor a este Mestre interior, n\u00e3o \u00e9 menos verdade que a natureza \u00e9 digna da melhor das contempla\u00e7\u00f5es enquanto bel\u00edssimo sinal de Deus. \u00c9 evidente que h\u00e1 grandes diferen\u00e7as entre ambas as tradi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o chegamos com Santo Agostinho a uma vis\u00e3o imanentista e pante\u00edsta, mas sim ao m\u00e9todo contemplativo que rejeita as palavras enquanto instrumento privilegiado da verdade, favorecendo, \u00e0 maneira taoista e budista, a liga\u00e7\u00e3o direta \u00e0 realidade sem interfer\u00eancias intelectuais, ou pelo menos t\u00e3o poucas quando poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s8\">Por \u00faltimo, e num regresso ao nosso ponto de partida, reafirma-se que o budismo mais caracteristicamente chin\u00eas \u00e9 o <i>Chan<\/i>, que habilmente equilibra e doseia os rigores mentalistas com um louvor incessante \u00e0 natureza e a \u00e0 vida, sendo por isso que o Mestre <i>Chan<\/i> Huiji <\/span><span class=\"s9\">\uff08\u6167\u5bc2\uff0c<\/span><span class=\"s8\">807-883<\/span><span class=\"s9\">\uff09<\/span><span class=\"s8\"> defende estar a via de Buda<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>no quotidiano ao qual somos ligados na sua express\u00e3o \u201cpelos olhos, ouvidos e nariz (<\/span><span class=\"s9\">\u773c\u88cf\u8033\u88cf\u9f3b\u88cf<\/span><span class=\"s8\">)\u201d (Jiang, 1997:250 ). <\/span><span class=\"s10\">\u2022<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Bibliografia<\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p6\">Alves, Ana Cristina. 2022. <i>Cultura Chinesa, Uma Perspetiva Ocidental<\/i>. Coordena\u00e7\u00e3o de Carmen Amado Mendes. Coimbra: Almedina, Centro Cient\u00edfico e Cultural de Macau.<\/li>\n<li class=\"p6\">2007. <i>A Mulher na China<\/i>. Lisboa T\u00e1gide.<\/li>\n<li class=\"p6\">Ikeda, Daisaku. <i>Le Boudhisme en Chine<\/i>. Monaco: \u00c9ditions du Rocher, 1986.<\/li>\n<li class=\"p6\">Nan Huai-Chin. 1997. <i>Basic Buddhism. Exploring Buddhism and Zen. <\/i>York Beach, Maine: Samuel Weiser, Inc.<\/li>\n<li class=\"p6\">Jiang Lansheng. 1997. 100 Excerpts from Zen Buddhist Texts. <span class=\"s11\">\u300a\u79aa\u5b97\u8a9e\u9304\u4e00\u767e\u5247\u300b<\/span>Hong Kong: <span class=\"s11\">\u5546\u52d9\u5370\u66f8\u9928\u6709\u9650\u516c\u53f8<\/span>.<\/li>\n<li class=\"p6\">S. Agostinho. 1984. <i>O Mestre<\/i>. Braga: Faculdade de Filosofia.<\/li>\n<li class=\"p6\">Wilhelm, Richard (Trad.). 1989. <i>I Ching or the book of changes. <\/i>London: Arkana, Penguin Books.<i> <\/i><\/li>\n<li class=\"p6\"><span class=\"s11\">\u5f35\u4e2d\u9438<\/span>(<span class=\"s11\">\u7de8<\/span>) (Zhang Zhongduo)<span class=\"s11\">\u300a\u6613\u7ecf\u63d0\u8981\u767d\u8a71\u89e3\u300b\u53f0\u5357\u5e02<\/span>:<span class=\"s11\">\u5927\u5b5a\uff0c\u6c11<\/span>84.<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Numa breve contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Budismo com caracter\u00edsticas chinesas, acredita-se que este, fundado por Gautama Shakyamuni (c. 560-c. 480 a.C.) pr\u00edncipe indiano, afastado do poder real para nutrir a via espiritual, ter\u00e1 entrado na China na vers\u00e3o do Grande Ve\u00edculo, Mah\u0101y\u0101na (\u5927\u4e58D\u00e0 Ch\u00e9ng ), aquela que se desenvolveu a partir do s\u00e9culo III a.C.,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":764,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[6,13],"tags":[],"class_list":["post-760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-etnologia","category-religiao"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.viadomeio.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/116.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=760"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/760\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":765,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/760\/revisions\/765"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/764"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}