{"id":766,"date":"2025-10-07T02:37:15","date_gmt":"2025-10-06T18:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.viadomeio.com\/?p=766"},"modified":"2026-03-05T15:49:58","modified_gmt":"2026-03-05T07:49:58","slug":"sobre-as-tradicoes-chan-e-terra-pura-no-budismo-chines","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.viadomeio.com\/index.php\/2025\/10\/07\/sobre-as-tradicoes-chan-e-terra-pura-no-budismo-chines\/","title":{"rendered":"Sobre as tradi\u00e7\u00f5es Chan e Terra Pura no budismo chin\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p class=\"p1\">D<span class=\"s1\">o s\u00e9culo V<\/span> ao s\u00e9culo X a China presenciou a forma\u00e7\u00e3o do que \u00e9 hoje categorizado, historiograficamente, como as \u201coito escolas\u201d do budismo setentrional. A esse conjunto pertencem as escolas Tr\u00eas Tratados, Tiantai, Mente Apenas, Guirlanda de Flores, Vinaya, T\u00e2ntrica, Chan e Terra Pura. Muito resumidamente podemos dizer que as escolas Tr\u00eas Tratados e Mente Apenas s\u00e3o, diferente das outras, tradi\u00e7\u00f5es indianas recebidas pelo budismo chin\u00eas. A escola dos Tr\u00eas Tratados \u00e9 derivada diretamente da escola indiana <i>Madhyamika<\/i>, do monge Nagarjuna \u2014 considerado um santo, um \u201csegundo Buda\u201d.<sup>1<\/sup> Tal escola foi levada \u00e0 China pelo monge tradutor Kumarajiva.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">A escola Mente Apenas, tamb\u00e9m de origem indiana, deve sua origem aos escritos dos irm\u00e3os Asanga e Vasubandhu (s\u00e9cs. IV ou V). Na \u00cdndia tal escola \u00e9 denominada <i>Yogachara<\/i>, que significa \u201caplica\u00e7\u00e3o do yoga\u201d. Como seu nome deixa entrever, a escola Mente Apenas tem seu foco na no\u00e7\u00e3o de que todos os fen\u00f4menos s\u00e3o produtos da mente. Essas duas escolas indianas constituem o que se pode chamar de totalidade da tradi\u00e7\u00e3o budista do norte \u2014 tradi\u00e7\u00e3o que se difundiu do norte da \u00cdndia para a \u00c1sia Central, China, Jap\u00e3o, Coreia, Vietname, Tibete e Mong\u00f3lia.<sup>2<\/sup><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">As demais escolas, todas de origem chinesa, acabaram por ser absorvidas pelas \u00fanicas tradi\u00e7\u00f5es com alguma const\u00e2ncia institucional ao longo da hist\u00f3ria. Essa absor\u00e7\u00e3o significa que, no seio das escolas ainda institucionalizadas, algumas de suas pr\u00e1ticas e literaturas permanecem importante material de estudo. As escolas ainda existentes, como j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel imaginar, s\u00e3o justamente as que nomeiam este texto: Chan e Terra Pura.<\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s2\">Entretanto, embora mestre Hsing-Y\u00fcn diga textualmente que \u201cactualmente na China, somente as escolas <i>Ch\u2019an<\/i> e Terra Pura ainda disp\u00f5em de componentes institucionais\u201d,<sup>3<\/sup> devemos relativizar tal afirma\u00e7\u00e3o. Embora as duas tradi\u00e7\u00f5es tenham, de fato, presen\u00e7a marcada no contexto chin\u00eas atual, h\u00e1 debates indicando que Terra Pura nunca se consolidou enquanto escola institucional aut\u00f4noma, sendo antes uma pr\u00e1tica difundida e disseminada por muito do universo budista chin\u00eas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\">Contrapondo tal problem\u00e1tica ao claro cen\u00e1rio budista japon\u00eas \u2014 em que h\u00e1 institui\u00e7\u00f5es Terra Pura fundadas por Honen (1133-1212, fundador da Escola da Terra Pura) e Shinran (1173\u20131263, fundador da Verdadeira Escola da Terra Pura) \u2014, Mestre Sheng Yen \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cn\u00e3o existe Escola da Terra Pura.\u201d<sup>4<\/sup> E isso porque, no contexto chin\u00eas, o que se evidenciava era um fato muito diverso do caso institucional japon\u00eas, em que templos s\u00e3o filiados a mosteiros cuja denomina\u00e7\u00e3o responde diretamente \u00e0s escolas da Terra Pura mencionadas. Na China, pelo contr\u00e1rio, templos e mosteiros n\u00e3o mantinham tais filia\u00e7\u00f5es estritas, e um templo era considerado \u201cTerra Pura\u201d quando seu abade orientava a pr\u00e1tica da recita\u00e7\u00e3o do nome do Buda Amitabha. Tal recita\u00e7\u00e3o, esta sim, \u00e9 a pr\u00e1tica Terra Pura mais caracter\u00edstica, que visa \u2014 soteriologicamente falando \u2014 fazer o devoto renascer na Terra Pura do Buda Amitabha, um reino criado pela compaix\u00e3o desse buda, onde as condi\u00e7\u00f5es para atingir a ilumina\u00e7\u00e3o seriam consideravelmente facilitadas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s4\">Tal recita\u00e7\u00e3o do nome \u2014 comumente escrita <i>nien fo<\/i> (ou <i>nian fo<\/i>, <\/span><span class=\"s5\">\u5ff5\u4f5b<\/span><span class=\"s4\">) \u2014 associava determinado templo \u00e0 Terra Pura, se tal pr\u00e1tica fosse nele difundida. Entretanto, por faltar o elemento institucional que caracterizaria uma escola, a pr\u00e1tica de <i>nian fo<\/i> nem sempre sobrevivia a seu pr\u00f3prio incentivador, e ap\u00f3s a morte do abade o templo passava a ser centro de outras pr\u00e1ticas budistas, usualmente Chan.<sup>5<\/sup><\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Uma suposta fus\u00e3o entre escolas, portanto, n\u00e3o faria sentido nesse contexto fluido e n\u00e3o-institucional do budismo chin\u00eas. Por isso a revis\u00e3o historiogr\u00e1fica de Robert Sharf<sup>6<\/sup> questionou sobremaneira tal defini\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mostrando extensamente que no per\u00edodo medieval a China n\u00e3o possu\u00eda uma escola Terra Pura e outra Chan, mas ambas as formas de pr\u00e1tica se apresentavam em conjuntamente, com maior ou menor preval\u00eancia a depender das circunst\u00e2ncias.<sup>7 <\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p class=\"p5\"><b>Notas<\/b><b><\/b><\/p>\n<ul>\n<li class=\"p7\">1 HSING-Y\u00dcN, Vener\u00e1vel Mestre. Conceitos fundamentais do budismo. Sintra: Z\u00e9firo, 2010, p. 161.<\/li>\n<li class=\"p7\">2 HSING-Y\u00dcN. Op cit. 2010, p. 159.<\/li>\n<li class=\"p7\">3 HSING-Y\u00dcN. Op cit. 2010, p. 169.<\/li>\n<li class=\"p7\">4 SHENG YEN. Master. The Dharma Drum Lineage of Chan Buddhism: Inheriting the Past and Inspiring the Future. Taipei: The Sheng Yen Education Foundation, 2010, p. 60.<\/li>\n<li class=\"p7\">5 SHENG YEN. Idem.<\/li>\n<li class=\"p7\">6 SHARF, Robert. On Pure Land Buddhism and Ch\u2019an\/Pure Land Syncretism in Medieval China. In: T\u2019oung Pao 88, no. 4-5, June, 2003, pp. 282-331.<\/li>\n<li class=\"p7\">7 Ainda hoje, tanto na China como em Taiwan, perguntar a um monge algo como \u201ca que escola este templo pertence?\u201d n\u00e3o parece fazer sentido. A resposta quase sempre evidencia que tais escolas e tradi\u00e7\u00f5es budistas bem podem ter existido, historicamente, mas n\u00e3o \u00e9 algo a que devamos nos apegar. O Reverendo Joaquim Monteiro tamb\u00e9m relata esse tipo de rea\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 pudemos presenciar tanto no Brasil quanto em Portugal ou Taiwan, em uma palestra dispon\u00edvel em v\u00eddeo: http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a7w_OV2yOjo&amp;feature=youtu.be<\/li>\n<\/ul>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Do s\u00e9culo V ao s\u00e9culo X a China presenciou a forma\u00e7\u00e3o do que \u00e9 hoje categorizado, historiograficamente, como as \u201coito escolas\u201d do budismo setentrional. A esse conjunto pertencem as escolas Tr\u00eas Tratados, Tiantai, Mente Apenas, Guirlanda de Flores, Vinaya, T\u00e2ntrica, Chan e Terra Pura. 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